Autor: Pedro Meirelles

Mestrando em Cultura e Territorialidades pela Universidade Federal Fluminense, formado em Estudos de Mídia pela mesma instituição. Interessado em pesquisa digital, métodos digitais, análise de dados, cultura, sociedade e Nordeste. Pesquisador no Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados. (+)

Planner Summit 2017: palestras extras online sobre insights, carreira e diversidade

Cerca de um mês atrás aconteceu mais uma edição do Planner Summit, evento anual da Media Education que tem a proposta de debater, discutir e provocar reflexões acerca do trabalho de planejamento na área de comunicação. Neste ano, além da dobradinha workshop + palestras, a organização preparou também alguns benefícios extras para que o processo de aprendizado não se limitasse aos encontros presenciais: um relatório oficial com as principais ideias levantadas durante o evento e três palestras inéditas divulgadas em seu canal no YouTube.

Com a diversidade em pauta, o evento se preocupou em trazer falas que discutissem com propriedade não apenas a questão da representatividade enquanto ato político, mas também as particularidades e peculiaridades dos públicos e consumidores brasileiros em seus diferentes níveis de comportamento e consumo. O argumento principal é que a avalanche de dados que temos à disposição nos dias de hoje é o mais potente artifício que possuímos para tentar dar conta da complexidade dos indivíduos/usuários/consumidores – e é onde os profissionais de planejamento precisam cada vez mais se ancorar para criar conceitos e campanhas responsáveis, coerentes e coesos com todos os propósitos do trabalho. As palestras extras, as quais você confere abaixo, foram tangenciais a esse debate.

A palestra “Será que esse é o insight correto?”, de André Sinkos (supervisor de planejamento da F.biz) remete bastante a uma percepção que tive a partir da elaboração do Profissão Social Media: Planejamento – que é: o planner deve ser sempre inquieto. Conforme apresenta algumas soluções para responder ao tensionamento do título, podemos perceber que o trabalho de planejamento exige uma constante provocação de verdades absolutas. Há uma preocupação bastante forte também com a metodologia do trabalho, que merece atenção redobrada em todos os pontos e deve se manter fiel à linha de argumentação do início ao fim. E, por fim, o lema cada vez mais adotado no mercado – pelo fim do achismo: “In God we trust, all other must bring data”.

“O insight é uma correlação de informações que te permite encontrar uma solução para um problema.”

Mais curtinha, a palestra “Como o planejamento pode ir além em sua carreira”, de Karen Oliveira (consultora de marketing da TopperMinds) é bastante interessante. Relevante porque traz algumas provocações sobre como precisamos nos enxergar, enquanto profissionais, também como marcas e principalmente estarmos cientes de negócios. Gostei particularmente dos três pilares indicados para um planner: o olhar, a sensibilidade e a objetividade. O primeiro diz respeito a repertório, um dos pontos de atenção mais comum quando falamos da profissão; o segundo, ao caráter de etnógrafo, aquele que deve observar e compreender indivíduos, comportamentos, valores, etc.; e, por fim, a objetividade de negócios que visam o lucro.

Fechando com chave de ouro (tanto este post quanto a série de palestras presenciais e online do Planner Summit), Nathalia Andrijic (estrategista na R/GA) dá uma aula na palestra “Gênero e diversidade. Como planejar corretamente?”. O roteiro é uma expansão e adensamento de um texto semelhante publicado no blog Jovens Planners, o qual já recomendei veementemente aqui no blog em outras ocasiões. Ela apresenta seis desculpas reais que profissionais engajados na tentativa de melhorar a questão da representatividade em agências de comunicação/publicidade enfrentam (pelos outros e por consigo mesmos) ao serem chamados a atenção quando o assunto é diversidade (e gênero). Para superá-las (além da boa vontade), ela contra-argumenta com seis atitudes que devemos adotar para trabalharmos com maior responsabilidade.

A palestra me lembrou também a fala de Fernando Montenegro, da consultoria Etnus, no debate “Dados para conhecer melhor as diversidades” no II Simpósio de Mídias Sociais no IBPAD. Na ocasião, entretanto, o recorte não era de gênero, mas de raça. Pegando esse gancho, vale provocar também – já que estamos em processo de contínuo aprendizado – o debate sobre raça em eventos de comunicação. Enquanto a pauta de gênero parece ter ganhando e continua ganhando cada vez mais espaço e legitimidade no mercado, há ainda uma lacuna muito grande no que tange a preocupação com representatividade racial em ambientes de negócios. Sobre o tema, recomendo o texto “Muito mais que 8%, muito além da temática racismo”, de Taís Oliveira.

Feita a crítica construtiva, só tenho a parabenizar a Media Education pela incrível iniciativa. Como infelizmente não pude comparecer ao evento, fiquei extremamente satisfeito de poder ter um pouco de acesso às temáticas debatidas através de outros pontos de conexão com tanta qualidade quanto os debates que aconteceram presencialmente. E, mais uma vez, parabéns por colocar em pauta o tema da diversidade que ao mesmo tempo que é político, é também (ou pelo menos deveria ser) apenas o comum.

Alguns conceitos básicos para entender a análise de redes em mídias sociais

Se você está na graduação e pretende fazer algum trabalho sobre mídias sociais (seja a atividade final de uma disciplina, uma leitura num grupo de estudos ou até mesmo o próprio TCC), provavelmente vai se deparar com o livro Redes Sociais na internet (2009), de Raquel Recuero. A pesquisadora – como já mencionei nesse outro post – é hoje a maior referência na academia brasileira quando o assunto é sites de redes sociais (e enfatizo o foco nesse recorte específico, já que outros pesquisadores como André Lemos, por exemplo, possui um trabalho extenso sobre cibercultura “em geral” há muito mais tempo – sendo também um nome importante na área).

A sua influência (ou capital social) na academia tem contribuído para que, nos últimos anos, a técnica de análise de redes sociais tenha se consolidado enquanto parte importante do debate nesse ambiente quando o tema é mídias sociais. Junto a ela, o pesquisador Fábio Malini, do Laboratório de estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic/UFES), também tem sido um importante influenciador (e propagador) do tema, muitas vezes expandido o conhecimento científico para fora da academia – como tem feito também o DAPP-FGV. Seguindo nessa direção, blogs como o Na base dos dados, do jornalista Fábio Vasconcellos, têm apresentado para o “público geral” algumas visualizações de rede que também colaboram para a difusão do tema. Além dele, o Nexo Jornal – que faz um trabalho excelente de análise e visualização de dados – também já publicou algumas matérias com redes.

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Grafo da repercussão da gravação de Michel Temer no Twitter – feito por Fábio Malini e equipe do Labic/UFES

Enquanto no jornalismo (de dados) a técnica é cada vez mais legitimada, no mercado a análise de redes sociais ainda é pouquíssima explorada em toda a sua potencialidade. Embora grandes empresas como Sysomos e Brandwatch tenham incorporado a funcionalidade às suas ferramentas de monitoramento, ainda há muito o que ser aprendido e debatido sobre a técnica como inteligência de negócio. No Brasil, o pioneirismo da V-Tracker e da BrandCare – esta sob a orientação de Tarcízio Silva, à época gerente de produto e pesquisador comprometido com a interação academia/mercado – foi importante para que a Stilingue, uma das ferramentas que mais cresce em popularidade no Brasil atualmente, pudesse se destacar sob o mesmo tema. Ainda assim, há um longo caminho a ser percorrido para que as marcas enxerguem valor nesse tipo de pesquisa – o que nem sempre é culpa delas, mas das próprias ferramentas.

Todo esse cenário elucida a necessidade urgente de popularizarmos ainda mais alguns conceitos básicos sobre análise de redes – tanto na academia e no mercado, mas também na sociedade civil como um todo. No outro post que fiz sobre a mesma temática, compartilhei o documento Network Literacy: Essential Concepts and Core Ideas, traduzido para português pelo IBPAD como Iniciação a Redes: Conceitos Essenciais e Principais Ideias, que apresenta as primeiras ideias sobre os estudos de redes. Como também nesse primeiro momento, analisar o mundo através das redes não é algo exclusivo das Ciências Sociais nem muito menos dos sites de redes sociais, sendo um método de pesquisa comum às disciplinas exatas e biológicas há muito mais tempo. Ou seja, pensar (e analisar) as mídias sociais como redes sociais é apenas um tipo de interpretação possível.

Grafo feito pelo jornalista Thiago Barone em jogo da Champions League para avaliar a “ausência” de Messi (clique para conferir a análise)

É importante entender, portanto, que: 1) as “redes sociais”, em seu sentido mais amplo, são muito anteriores aos fenômenos das mídias sociais e/ou dos sites de redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram, etc.) como os quais entendemos hoje – sociólogos estudavam sobre esse tema desde a década de 20, como mencionei anteriormente; e 2) o enfoque sob a prisma de redes sociais para pensar as mídias sociais parte tanto da influência de pesquisadoras relevantes na academia quanto da própria disposição tecnológica das plataformas de sociabilidade digitais, que são em grande parte pautadas no fluxo conversacional e de informações entre os usuários (ou atores) – o que facilita bastante a proposta de análise desses espaços enquanto estruturas de sociabilidade, podendo assim, nas palavras de Raquel Recuero, “observar como a rede existe em relação aos vários elementos que fazem parte dela”.

Então… O que eu preciso saber sobre análise de redes sociais?

O primeiro passo, portanto, é entender o que são redes sociais: no livro “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações”, Tarcízio Silva e Max Stabile trazem o conceito a partir de David Passmore, que explica o fenômeno como uma “estrutura social composta de indivíduos (ou organizações) chamados de ‘nós’, que são ligados (conectados) por um ou mais tipos de interdependência, como amizade, parentesco, interesse comum, trocas financeiras, aversões, relacionamentos sexuais ou relacionamentos de crença, conhecimento ou prestígio”. Ou seja, como o critério condicional é a conexão, tem mais a ver com um modo de enxergar fenômenos sociais do que como um fenômeno social em si. As redes funcionam, portanto, como “artifício cognitivo e científico que permite entender proximidades, similaridades, diferenças, conjuntos e processos de um modo muito particular”.

A análise de redes é um conceito extremamente amplo, oriundo da Teoria dos Grafos, original da Matemática. Já a análise de redes sociais, que é o que nos interessa aqui, trata-se da interface entre esse conceito e as humanidades – fortemente atrelado à Sociologia, e atualmente reforçado nas disciplinas ligadas à Comunicação Digital. Uma vez que a análise de redes “parte do princípio que mais informação pode ser gerada a partir da compreensão de como os elementos de um conjunto estão interligados”, é fundamental compreender a linguagem e o formato que a ARS utiliza enquanto técnica de análise e apresentação/visualização de dados. Para quem não tem nenhuma familiaridade com o tema, segue abaixo um pequeno resumo (ênfase para a redundância) com alguns dos termos/conceitos mais comuns:

  • Rede/Grafo: são as visualizações de atores e suas conexões formadas por nós/vértices e laços/arestas;
  • Nós/Vértices: são os objetos que estabelecem as conexões da rede (podem ser perfis, páginas, sites/blogs ou hashtags – depende do contexto);
  • Laços/Arestas: são as conexões feitas pelos conjuntos de nós (“a definição sobre o que é um laço pode mudar completamente a interpretação de sua rede, afinal, se estamos falando de uma técnica que enfatiza as condições relacionais do seu objeto, você precisa entender o que explica essa relação”);
  • Relações direcionadas: interação que indica um caminho, que possui a intenção de um ator em relação a outro (possivelmente indicada visualmente por setas);
  • Relações não direcionadas: interação sem orientação, que não possui diferença entre a intenção dos atores (por exemplo, uma amizade no Facebook);
  • Redes de co-presença/co-interações: nós presentes numa mesma publicação (comum no caso de estudo com hashtags, por exemplo);
  • Rede de afiliação: são redes cujas definições dos nós ou atores pertencentes são muito distintas entre si (ou seja, não há uma conexão direta, mas ambos pertencem a um mesmo grupo).

Esses são apenas alguns dos termos e conceitos introdutórios para começar a entender a análise de redes em mídias sociais. É importante ratificar que todas as suas explicações partem de um contexto próprio da técnica voltada para o tema das plataformas digitais sociais, já que, como dito anteriormente, trata-se de um método bastante contextual, que precisa ser adequado ao escopo e à disciplina de onde parte a análise. No entanto, esses são alguns dos pontos basilares para começar a entender as análises em geral. Tomemos como exemplo o relatório “Beyond Hashtags: #Ferguson, #Blacklivesmatter, and the online for offline struggle”, desenvolvido pelos pesquisadores Deen Freelon (American University), Chartlton D. Mcilwain (New York University) e Meredith D. Clark (University of North Texas), para entender as definições aqui postas.

Essa rede – ou grafo – mostra o cenário do período 7 da análise, quando foram coletados 5.3 milhões de tweets sobre o tema produzidos por mais de 1 milhões de usuários – para saber mais sobre o relatório e a pesquisa, conferir esse post. Os nós (ou vértices) são os círculos que concentram grupos específicos de usuários falando sobre o tema na época: BLM 1 e BLM 2 são ativistas e/ou usuários simpatizantes ao movimento #BlackLivesMatter, que denunciava a violência policial racista nos Estados Unidos, por exemplo; e os laços/arestas são as conexões estabelecidas entre esses atores, que poderia vir em forma de tweet ou retweet – e aqui vale destacar também o artifício visual (afinar ou engrossar) utilizado para dar peso a essas interações, que também nos ajuda a perceber como o fluxo das conversas/informações estava se estabelecendo diante todo o cenário.

Embora seja um exemplo metodologicamente bastante complexo, a rede acima é relativamente simples para discutirmos essas noções básicas da análise de redes em mídias sociais. A própria visualização dos dados é um fator de extrema importância para a técnica, que se apoia com força na interpretação estrutural do escopo da análise. Ainda assim, conhecer esse termos e conceitos são essenciais para dar conta dos fluxos de comunicação e conexão estabelecidos na internet. A ideia de laços fracos, por exemplo, é fundamental para pensar a facilitação do acesso no ambiente online. A partir dos estudos de Mark Granovetter, pesquisadoras e pesquisadores como a própria Raquel Recuero vão apontar como, no contexto dos sites de redes sociais, a abundância desse tipo de conexão é importante para que haja “pontes” entre atores que seriam essencialmente distintos na rede. Confira alguns outros termos e conceitos importantes abaixo:

  • Grau: é a métrica que indica o número de conexões de um nó na rede;
  • Grau de Entrada: é a métrica que indica o número de conexões recebidas por um nó na rede;
  • Grau de Saída: é a métrica que indica o número de conexões oferecidas por um nó na rede;
  • Centralidade de Autovetor: métrica que analisa a centralidade de um nó através de conexões de outros nós também muito conectados (semelhante à métrica de PageRank, comum no mercado);
  • Centralidade de Intermediação: métrica que calcula os caminhos entre os nós para identificar possíveis “pontes” relevantes na rede;
  • Redes Egocentradas: é um tipo de rede que parte de um nó central e suas conexões;
  • Redes Sociocentradas: é um tipo de rede que com delimitação específica a partir de um recorte “externo”, cujo escopo é “anterior” à própria análise;

Para conferir esses conceitos na prática, vamos observar essa rede interativa desenvolvida pelo IBPAD a partir de um estudo exploratório da polarização política no Brasil através de páginas da Direita e da Esquerda no Facebook. Trata-se de uma rede polarizada, mas poderia também ser compreendida como duas redes sociocentradas, já que foram desenvolvidas a partir de páginas com referenciais explícitos às suas respectivas posições. Na plataforma interativa, ao pesquisar por páginas como CartaCapital e Jair Messias Bolsonaro (as mais referenciadas em seus devidos grupos/clusters), você pode ver os graus de cada uma delas, ou seja, quantas páginas as referenciam, quantas são referenciadas por elas e o total de conexões. Já a página da Folha de S. Paulo aparece com elevada centralidade de intermediação, uma vez que é a ponte entre os dois lados.

No contexto de mídias sociais, esses tipos de métricas são importantes para avaliar a articulação dos nós dentro de uma rede, analisando valores relevantes de influência, autoridade, preferências, engajamento e mobilização. Além disso, a técnica vem sendo legitimada por sua “poderosa capacidade de resumir sem perder o detalhe, e de poder ver o todo sem perder a perspectiva do único”, como explica Tarcízio Silva e Max Stabile no capítulo do livro anteriormente mencionado. E acrescentam: “Com a técnica é possível ter uma visão panorâmica dos dados, seus agrupamentos e suas perspectivas (Malini, 2016), e identificar quais atores e narrativas foram mais relevantes. Ao mesmo tempo, é possível analisar com mais detalhes e construir uma análise completa”.

Para desenvolver esse trabalho, há diversas ferramentas utilizadas por pesquisadores, acadêmicos, programadores, cientistas de dados e profissionais do mercado. No entanto, pelo menos no Brasil, as duas ferramentas mais comuns são a NodeXL e o Gephi – bastante utilizados por Raquel Recuero e Fábio Malini em seus grupos de pesquisa (no mercado, algumas ferramentas plenas de monitoramento já possuem essa funcionalidade integrada, o que pode ser uma mão na roda). Em suma, funciona da seguinte forma: os dados são coletados (através de plugins, das próprias ferramentas, ou de códigos de programação em linguagem R ou Phyton, por exemplo), processados, trabalhados pelos analistas (executando métricas, layouts, etc.) e, depois, divulgados nas visualizações que costumamos ver.

Para quem deseja se aprofundar no estudo sobre análise de redes e aprender na prática como funciona todo esse processo, o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD) lançou neste mês o MOOC (massive online open course) de Análise de Redes em Mídias Sociais. Com os professores Max Stabile, Tarcízio Silva e Marcelo Alves, o curso oferece mais de 90 aulas (dentre vídeo-aulas, artigos, leituras orientadas, tutoriais, estudos de caso e quizzes) para “capacitar os estudantes a coletar, processar, visualizar e interpretar redes baseadas em dados de mídias sociais”. São cinco módulos que passam pelos conceitos, aplicações e histórico do pensamento sobre redes; as particularidades das redes nas mídias sociais; a utilização prática de softwares para a análise e a monetização do trabalho.

Todos os conceitos que apresentei neste post são frutos tanto das aulas do Módulo 1 do curso quanto do capítulo do livro “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações”, também do instituto. Se você tiver interesse em saber mais (e com muito mais propriedade e profundidade) sobre o que discuti neste post – como o conceito de métricas como Tamanho da Rede, Diâmetro da Rede, Densidade, Inclusividade de Rede, Centralização de Rede, dentre outras -, recomendo veementemente esse novo curso. E o melhor: tem um desconto exclusivo para leitores deste blog que vos fala! Basta usar o cupom insightee10ars para garantir a sua vaga com um precinho ainda mais camarada – que já está abaixo do normal por ser a semana de lançamento.

E já que iniciei o post falando da importância de conhecer o trabalho de Raquel Recuero caso você esteja numa graduação (ou pós), posso garantir que o curso também é dedicado para alunos e pesquisadores interessados no tema. Marcelo Alves, que já apareceu neste blog em outro momento, é doutorando na UFF e desenvolve um trabalho fantástico sobre política e redes sociais no Brasil. Aliás, quem quiser conhecer outros pesquisadores, vale dar uma olhada no material 100 Fontes sobre Pesquisa e Monitoramento de Mídias Sociais. Recomendo também seguir o blog Essa Tal Rede Social, que vem fazendo um trabalho bem bacana com ARS. No mais, adquirir o livro Análise de Redes para Mídia Social, de Raquel Recuero, Gabriela Zago e Marco Bastos. Para finalizar, deixo aqui uma série de posts feitas por Tarcízio Silva para introduzir o tema:

Profissão Social Media: criação de conteúdo – da teoria à prática

Talvez um dos mais aguardados de toda a série, chegou a vez do Profissão Social Media: Criação de Conteúdo! Digo isso (não apenas pelo meu pequeno atraso, mas) porque acredito que é aqui onde todos (ou pelo menos muitas pessoas) começam. Meu primeiro estágio numa pequeníssima agência de marketing digital em Niterói foi criando conteúdo – embora o título fosse “Estagiário de Social Media”. Foi também o combustivo para que eu criasse o Estudando Social Media, na tentativa de encontrar outras possibilidades para além do conteúdo que me permitissem atuar em social media sem ter que trabalhar diariamente no Photoshop – e felizmente encontrei, vide a série em desenvolvimento.

Ainda assim é inegável que a criação de conteúdo pode ser a porta de entrada mais fácil para o trabalho em mídias sociais. Como escrevi em outro texto, a popularização da internet e a consolidação das mídias sociais abriram diversas portas para o mundo da publicidade – por justamente permitir que todos virassem produtores de conteúdo, banalizou os esforços estratégicos comunicacionais de uma profissão consolidada ao mesmo tempo em que criou uma briga imensa pela atenção das pessoas, que nunca antes na história tiveram que se deparar com tanto conteúdo e informação. Por esse e outros motivos é mais que necessário discutir com responsabilidade, coerência e profissionalismo o trabalho de criação de conteúdo.

É importante ratificar também, diante de todo esse contexto complexo, que as realidades do trabalho de criação de conteúdo – assim como social media como um todo, mas acredito que aqui especificamente por ser justamente o pontapé inicial – é bastante diferente a depender do seu estado, região, tamanho da empresa/agência, etc. Mais uma vez, portanto, convidei 10 profissionais com diferentes repertórios para contar um pouco sobre suas realidades e opiniões de trabalho: de João Pessoa, Anna Mello; de Porto Alegre, Fahen Carvalho; de Aracaju, Lara Thaisa Telles; do Rio de Janeiro, Suéllem Nascimento e Maria Beatriz Barros; de Recife, Agnes Pires e Simone Bispo; e de São Paulo, Nathália Capistrano, Leo Morato e Lidi Faria.

Em tempo: esta série surgiu do post  “Profissão Social Media: áreas de atuação e fontes para estudo”, que fiz no ano passado em parceria com Mayara MendesMari Ferreira e Juliana Freitas. Neste ano resolvi dar continuidade ao conteúdo produzindo vários posts sobre cada uma das áreas destrinchadas, dessa vez com ainda mais minúcia e detalhamento às funções exercidas (além de referências para estudo). Para me ajudar, convido sempre 10 profissionais que respondem a algumas questões sobre a profissão, o trabalho e o mercado. O primeiro tema foi sobre monitoramento e o segundo sobre planejamento. Aproveito também para pedir seu voto no Social Media Week SP: quero levar o projeto para o palco em setembro e, para isso, preciso da sua ajuda – é só clicar e deixar um like!

Criação de conteúdo: o que é, como faz, onde entra?

Antes de qualquer coisa, é preciso enfrentar a problemática: Criativo x conteúdo x criação x criação de conteúdo – quem é quem, o que é o quê? Esse já era um problema que enfrentei na hora de elaborar o primeiro post, embrionário, e que mantive em reflexão durante todo o processo deste também. Cheguei a comentar, nesse primeiro momento, que era extremamente generalizante colocar no mesmo guarda-chuva de “criação” profissionais com peculiaridades de trabalho como redatores, designers, diretores de arte, etc. Isso porque, na área da publicidade, as agências têm essas delimitações profissionais muito bem estabelecidas. Eu diria, inclusive, que a criação foi e ainda é a área mais “famosa” da publicidade, por isso recebe tanta atenção e consegue pautar suas diferenças.

Suéllem Nascimento, redatora, do Rio de Janeiro, pontuou que, geralmente, “quando falamos de criativo, estamos se referindo ao cara que trabalha na Criação (com C maiúsculo e que supostamente ganha Cannes)”, enquanto que quando falamos da criação de conteúdo para mídias sociais, estamos falando de uma equipe voltada para este ambiente. “Muito redator consegue o primeiro estágio numa equipe de mídias sociais porque é a forma mais fácil de começar a escrever numa agência, aí depois ele vai migrando de área ou absorvendo skills”, comenta. Essa é a realidade de alguém que começou a trabalhar com mídias sociais a partir do contato quase exclusivo com uma agência de publicidade (provavelmente mais tradicional), mas o que temos visto nos últimos anos são diferentes contextos profissionais que reconfiguraram o trabalho na internet.

A criação de conteúdo tem um papel que às vezes é subestimado. Explico: criação para mídias sociais em alguns momentos é vista como uma subcategoria da Criação (aquela com C maiúsculo e que ganha Cannes). Uma tremenda bobagem. A Criação com C maiúsculo vai lá e cria uma campanha, aí ela chega na equipe de mídias sociais e recebe uns “tapinhas” para ser adaptada pro digital. Isso é um tremendo erro. O conteúdo tem que ser bem pensado desde o início e o ideal seria que todas as equipes de uma mesma conta trabalhassem juntas – mas nem sempre é isso o que acontece.

Suéllem Nascimento, redatora com foco em conteúdo digital

Uma dessas possíveis realidades é essa: a produção de conteúdo para mídias sociais a partir do trabalho de uma agência tradicional que primeiro pensa a comunicação como um todo e depois adapta a mensagem ao contexto digital. No entanto, empresas como Coca-Cola, por exemplo, tem cada vez menos pensado o contexto digital como ramificação dos esforços comunicacionais de uma campanha e mais como a própria base de todo o planejamento. Nesse caso, não há mais uma equipe de mídias sociais que produz o conteúdo exclusivamente para esse ambiente, mas a própria equipe de criação como um todo (a que supostamente ganha Cannes) que vai direcionar seu trabalho para as plataformas digitais. Nesse contexto, um profissional que comece produzindo conteúdo para internet pode, sim, desenvolver-se profissionalmente para trabalhar também em outras mídias.

Outra realidade que vemos com frequência por aí e que já citei anteriormente é aquela de um pequeno profissional, freelancer ou agência que começa a atender clientes regionais a partir do momento que a internet – e principalmente as mídias sociais – forneceu(ram) as ferramentas necessárias para que esse pequeno/médio negócio finalmente pudesse construir uma frente comunicacional do seu serviço, já que os anúncios tradicionais não cabiam em seu orçamento – a não ser panfletagem. Nesse caso, o “profissional de criação” não pensa muito em deslocamento para outras frentes fora do contexto digital, já que este é praticamente o único – e principal – ambiente de comunicação possível para aquela realidade. Ou seja, a produção de conteúdo aqui não é apenas completamente pensada para o ambiente digital, como no exemplo da Coca-Cola, mas exclusiva do ambiente digital – já que é o máximo que se pode ir, é o limite.

No cenário atual, as pequenas e médias empresas conquistaram algo que nunca tiveram com a publicidade tradicional de anos atrás: presença. O meio digital tornou a propaganda muito mais democrática porque a tornou financeiramente acessível. Clientes de pequeno e médio porte eram incapazes de anunciar em meios de massa (TV e rádio) devido aos custos altíssimos de veiculação, no ambiente digital isso não acontece. Mesmo sem contar com o auxílio de uma agência, uma marca consegue se fazer presente nas mídias sociais, e quando realizado por profissionais, esse trabalho tem rendido resultados incríveis com um custo X benefício bem acessível. Essa mudança na maneira de anunciar tem afetado diretamente o mercado, pequenas marcas que conseguem prestar um bom serviço agora estão alcançando um público cada vez maior, crescendo a ponto de incomodar seus grandes concorrentes.

Lara Thaisa Telles, fundadora da agência sergipana Molotov

O meu objetivo aqui, portanto, é voltar o olhar mais para a produção de conteúdo em mídias sociais. Como a área de criação, a partir de suas diferentes realidades profissionais (pequenas, médias, grandes agências e/ou clientes), têm trabalhado com criação nesse contexto digital de sociabilidade? Dentre todas as respostas, percebi dois pontos principais: conversa e relevância. “Eu vejo a criação de conteúdo como uma ferramenta que podemos utilizar para mostrar que a empresa também pode ser interessante, sabe? Você pode trazer assuntos que sejam realmente relevantes para o seu público, de uma maneira que as pessoas possam se informar, saber mais sobre a área de atuação da sua empresa”, explica Fahen Carvalho, redatora, blogueira e gestora de mídias sociais, do Rio Grande do Sul. “O conteúdo é uma maneira de vender o peixe, sem ser chato.”

Seguindo por essa linha, Suéllem Nascimento ratifica: “Mídia social não foi, não é e nunca será algo pensado para as marcas. O que a gente faz lá, como marca, é tentar participar de uma conversa sem parecer interrupção”. Leo Morato, conteudista, de São Paulo, complementa que “conteúdo é a humanização e credibilidade de uma marca”. Para ele, esses dois valores são indispensáveis para criar uma relação entre empresa e público, já que as vendas – que, não podemos esquecer, é a meta final mais importante – precisam ser conquistadas com a credibilidade que uma estratégia de conteúdo bem feita pode oferecer. Agnes Pires, professora, de Pernambuco, complementa: “Mesmo uma marca que não possua fins lucrativos precisa se relacionar com seu público, então, para criar conteúdo, é necessário criar uma audiência, promover assuntos que sejam de interesse dessa audiência e incitar a necessidade de mais informações ou produtos.”

O papel da criação de conteúdo institucional nas mídias digitais é estabelecer diálogos e reflexões, enquanto a abordagem mercadológica da atividade propõe a conexão com marca, a conversão de resultados. Em termos táticos e operacionais, o papel da criação de conteúdo é direcionar a mensagem para que o objetivo de comunicação, marketing e negócios sejam cumpridos. Com o olhar de relações públicas, percebo cada vez mais um equilíbrio fundamental entre o interesse do público e da empresa. A mensagem agressiva, direta e unilateral é substituída pela mensagem acolhedora, útil, como um convite para uma conversa, uma troca de experiências. Produzir conteúdo é dosar o conhecimento e a sensibilidade sobre o público para estabelecer trocas comunicacionais relevantes.

Lidiane Faria, Consultora de Comunicação e Digital PR

Já é possível perceber que o trabalho de produção de conteúdo para a internet não é tão simples quanto possa parecer, mas que exige – como pontua Simone Bispo, analista, de Pernambuco – pesquisa, estudo, análise e mais um pouco: “Não adianta apenas criar postagens engraçadinhas, é necessário envolver as pessoas, fazê-las chegar no objetivo que nós desejamos, seja ele relacionamento, captação de leads ou vendas”. Nesse sentido, vale trazer a descrição de Maria Beatriz Barros, analista, do Rio de Janeiro, sobre a criação de conteúdo para mídias sociais: “é o planejamento e desenho de estratégia do que a marca ou empresa quer comunicar, pesquisa e benchmarking do que o mercado está produzindo, a produção em si do conteúdo e sua divulgação”. Vale pontuar, entretanto, que esse escopo mais “expansivo”, embora seja idealmente pensado para o profissional conteudista, deve envolver – em agências maiores, pelo menos – outras áreas.

É o caso de atuar junto a planejamento, por exemplo, como coloca Lara Thaisa Telles, Diretora da Molotov, de Sergipe – que ratifica que a estratégia vem antes da produção em si: “A probabilidade de se obter resultados reais e positivos é muito maior quando o conteúdo é relevante e adequado aos seus seguidores”, explica. O conteúdo, muitas vezes, é apenas a ponta do iceberg de um longo trabalho e esforço de comunicação e marketing (que envolve muita pesquisa e) que faz a ponte entre os objetivos de uma empresa e a ativação com os consumidores ou, no caso específico, com os próprios usuários. Ou seja, o profissional de conteúdo, nas palavras de Anna Mello, conteudista, de João Pessoa: “é aquele que transforma a identidade da marca e a estratégia digital em algo palpável dentro da web”. Em consonância, Nathália Capistrano, supervisora de criação, de São Paulo:

O papel dos criativos é tornar aquela mensagem em algo que seja relevante pro público final ter curiosidade de saber mais, se envolver, ter o gatilho de compra ou aumentar sua relação e consideração com a marca. E, pra isso, eles precisam ter uma mistura de referências interessantes, bom senso e originalidade. Só assim, eles conseguem medir se aquela faísca inicial pode resultar em algo. A criação precisa justamente trazer respostas não só adequadas, mas supreendentes aos briefings e fazer as provocações de “e se” que ninguém estava pensando antes. No caso de criação de conteúdo para social e para digital, esse processo criativo precisa ser ainda mais dinâmico, já que online tudo acontece muito rápido e as respostas são praticamente imediatas. Justamente por isso, os criativos da área precisam também de ser muito adaptáveis.

Nathália Capistrano, Creative Lead na Artplan

E como faz?

Frente a todo esse cenário de diferentes perspectivas ideais acerca do trabalho de criação de conteúdo, é preciso colocar os pés no chão e debater como funciona tudo isso na prática. “A rotina é bem variável e vai depender dos recursos que você tem”, já alerta Suéllem Nascimento. Com discutido anteriormente, tudo vai depender da realidade profissional daquela empresa, agência ou freelancer – o que nem sempre garante um contexto justo/adequado de trabalho. “Se coloca muito a responsabilidade da criação a um conteudista, quando deve ser de uma equipe”, aponta Agnes Pires. Cada cenário exige uma metodologia específica que será adequada ao tamanho da equipe, tamanho dos clientes, pautas, orçamento, dentre diversos outros fatores. O que percebi perante a maioria das respostas, entretanto, é que há – para além das peculiaridades – um fluxo de criação: demanda > brainstorming > proposta/aprovação > produção.

“Os conteúdos devem buscar um equilíbrio entre o que os clientes precisam falar pontualmente, o aproveitamento de timings, e o reforço de branding que deve ser algo mais perene”, explica Nathália Capistrano. No caso de contas mais focadas ou exclusivamente do universo digital, Maria Beatriz Barros, Simone Bispo e Suéllem Nascimento mencionaram um planejamento editorial semanal/mensal comum a essa realidade, onde “é enviado um planejamento de estratégias e datas comemorativas a serem trabalhadas em um dado período, assim como uma planilha de distribuição de conteúdo por tipo ao longo da semana/mês para que os temas e estratégias sejam aprovados previamente” (MBB). Nesse cenário é trabalhado o que foi conceituado como conteúdo “frio”, cuja aprovação prévia permite uma maior liberdade para possibilidades emergenciais (novas tendências conversacionais) que possam surgir.

Lara Thaisa Telles argumenta que “a organização é algo essencial já que o fluxo de criação de conteúdo é bastante intenso com uma alta demanda”, e explica: “Isso acontece porque a vida útil de uma peça digital costuma ser menor que uma peça off-line, portanto há um volume muito maior de produção, mas em compensação, a complexidade e os prazos são menores”. De acordo que “na criação de conteúdo para mídias sociais o dia a dia pode ser bastante intenso”, Nathália Capistrano complementa: “Tanto para aproveitar timings e oportunidades em tempo hábil, mas também porque, em muitos clientes a quantidade de posts combinada ainda é alta e o ritmo de pedidos para posts é frenético (e, muitas vezes, esforços desnecessários). Para não cair nesse fluxo, é importante ter um processo desenhado que busque prazos razoáveis, contemplando tempo de aprovação e idas e vindas com o cliente”.

Para quem trabalha com conteúdo, não existe rotina fixa, não existem formatos fixos, não existe fluxo pré-estabelecido. Cada dia é um dia, cada projeto é um projeto, cada cliente é um cliente e cada público é um público. Este profissional precisa ser viciado em consumir… conteúdo. Curiosidade e referências são a base fundamental para qualquer pessoa que trabalhe criando conteúdo, seja com foco em redes sociais ou em outros formatos. Se você quer trabalhar com criação de conteúdo, é preciso de referência para a criação e metodologias para avaliar se seus objetivos foram alcançados ao final de um período ou de um projeto.

Leo Morato, atuou como Community Manager Senior do SporTV em 2016

Entre a teoria e a prática, como ficamos, então? “Na teoria, o profissional de conteúdo faz uma imersão constante no mercado em que trabalha. Para isso, estuda diariamente todo o universo que compõe seu cliente, incluindo também seus concorrentes”, explica Lidiane Faria. “Quando um briefing chega, o ideal seria avaliar o que os outros estão fazendo, sejam de concorrentes diretos ou indiretos. Levantar com as outras áreas da agência as fraquezas e potenciais daquele briefing para, em seguida começar a trabalhar no conceito mais adequado para passar a mensagem”, acrescenta Nathália Capistrano. As duas ressaltam a importância da interação com as demais áreas, principalmente planejamento e mídia, além de métricas/BI. “Também é importante ressaltar na ‘rotina ideal’ a aplicação de uma linha editorial, a dosagem correta de distribuição de conteúdo, a identificação e aplicação da linguagem do interlocutor – e, por fim, se tudo isso faz realmente sentido dentro dos objetivos de comunicação”, conclui LF.

Na prática, entretanto, sabemos que a realidade é bem diferente – principalmente quando pensamos em proporções menores de trabalho. “A depender da estrutura de onde o analista trabalhe, é ele quem planeja, pesquisa, cria texto e imagem – e de mais de um cliente”, pontua Maria Beatriz Barros. Como enfrentar essa realidade? Ela dá a dica: “tenha a maior sorte de insumos possíveis do seu cliente, trabalhe com templates prontos para pautas frias e agilize o processo de aprovação de pautas tendo assuntos e temas fixos por dia da semana ou quinzena” – e recomenda esse vídeo do Comunicadores. Mas as realidades são diversas: “Na minha rotina de trabalho por exemplo, separo um dia para planejamento de blog, um dia para redes sociais, um dia para eBooks e por aí vai”, conta Fahen Carvalho. Para Lara Thaisa Telles, “o primeiro passo é analisar o planejamento e discutir o que vai cair na pauta, organizando cada item com seu devido prazo para distribuir as tarefas entre o redator e o diretor de arte”.

Ou seja, não há fórmula secreta. Como mencionei lá no início, cada realidade é distinta e o importante é desenvolver uma metodologia adequada que funcione na triangulação entre agência/freelancer, cliente e mídias sociais. Se fosse para resumir, ficaria com essas duas chamadas de atenção: 1) “ter um método que ajude a estabelecer os processos deixa a criação muito mais eficaz”, argumenta LTT; e 2) “o profissional de conteúdo precisa estar sempre atualizado das novidades nas plataformas e do que está acontecendo dentro do nicho do cliente e no ambiente externo”, sintetiza Ana Mello. Se houver o luxo de uma equipe de criação com designer, redator e diretor de arte, é preciso criar um fluxo produtivo de diálogo constante; se a situação for mais crítica, de “eu-quipe”, é preciso criar uma rotina saudável para dar conta de todas as demandas mínimas do trabalho.

Como se integra (com as demais áreas)?

Fiquei um ano como analista de monitoramento e métricas em uma agência baiana e foi um grande desafio monitorar a empresa de energia do estado. Na seguinte fiz um experimento como mídia, não exitoso. Fiquei 10 meses como community manager em uma startup. E ali aprendi sobre CRM, régua de relacionamento, li muito sobre SAC. Mas a redação esteve comigo em todos esses momentos. Por mais que a minha função fosse outra, eu contribuía para uma ou outra conta fazendo conteúdo textual e, especialmente trabalhando como monitoramento, fico sempre atenta ao conteúdo que está sendo feito. Sei que ele influencia no engajamento ou não, gera maior conversão ou não. E essas métricas são importantes de se discutir com o cliente.

Maria Beatriz Barros, Analista de Redes Sociais na Wide Comunicação Expandida

Se o conteúdo é a ponta do iceberg de todo o trabalho de comunicação, aquela parte visível e sob a água que o público finalmente tem à vista, é compreensível pensar que seu desenvolvimento é sustentado por todas as outras áreas possíveis. “Todas as áreas de uma agência devem estar bem integradas, pois todas elas são interdependentes, são partes que se juntam para formar um todo e por isso precisam funcionar em sincronia”, argumenta Lara Thaisa Telles. Seguindo por essa linha, Nathália Capistrano reforça a importância da integração durante o fluxo de criação: “Antes de mais nada é sempre bom lembrar que um insight interessante para criar um conteúdo pode surgir das outras áreas além da própria criação, seja planejamento, community manager/sac ou monitoramento. Aí sim, caberá aos criativos realmente concretizar em um conteúdo, seja ele um post mais simples, ou algum conteúdo aproveitando algum dos formatos mais elaborados”.

Duas áreas, entretanto, foram mais citadas nas respostas: “O time de conteúdo precisa estar de braços dados com os times de Planejamento e Monitoramento. Rede Social é um teste constante, para entender o que funciona e o que não funciona e como melhor afinar as estratégias digitais”, explica Anna Mello. “O planejamento diz o que vai ser, o monitoramento fala qual tem sido a resposta e a necessidade de cada marca”, simplifica Maria Beatriz Barros. “O monitoramento pode dar insights valiosos pra produção de conteúdo. É possível, inclusive, diminuir a demanda para outras áreas se o seu conteúdo está bem pensado. Exemplo: Se o pessoal do monitoramento/SAC identificar que tem muita gente fazendo a mesma pergunta, criar um conteúdo que esclareça essa dúvida, reduzindo o trabalho da outra equipe”, explica Suéllem Nascimento, reforçando que a integração precisa ser muito bem estruturada, para que o timing esteja adequado à velocidade da realidade da internet.

Como cada empresa e agência acaba estruturando sua equipe de formas diferentes, com nomenclaturas diferentes para os cargos, inclusive, pode variar muito a abertura e a interação entre as áreas. Mas, o racional é geralmente parecido, o briefing criativo vem da área de planejamento, com pesquisas, caminhos e estratégias potenciais para melhores resultados. A conversa entre planning e criação e conteúdo é essencial, para que não seja entregue algo totalmente diferente do que foi planejado ou seja feito aquele retroplanejamento, para justificar porque o público funciona com o conceito, mas sim, ao contrário: como o público norteou a criação do conceito. Em digital, a integração com as áreas de monitoramento e social listening acabam sendo vitais, mas ainda existem muitas dificuldades de fazer isso numa rotina prática, já que as entregas das duas áreas ocorrem em momentos diferentes. Isso é definitivamente um ponto de atenção para quem trabalha em criação de conteúdo, como aproximar os relatórios do dia a dia e aproveita-los como insumo na hora de criar a grade de posts, na escolha de influenciadores e na produção de outros conteúdos mais sofisticados quando necessário.

Nathália Capistrano

No entanto, essas não são as únicas áreas a serem ativadas. “Também é muito importante dialogar com o departamento de mídia, para saber formatos e possibilidades novas para campanhas, bem como as limitações que os canais digitais têm, para que não se perca tempo criando conteúdo inviável”, acrescenta Agnes Pires. Ter ao seu lado também a área de Business Intelligence, atendimento e possivelmente um gerente de projeto pode ser um bônus, conforme reforça Leo Morato. “Ao utilizar os dados das demais áreas da agência – desde o feedback do atendimento sobre o desejo do cliente até os dados de monitoramento sobre a marca – os demais parceiros do time conseguem enxergar o valor estratégico de seu trabalho”, complementa Lidiane Faria, reforçando a importância da integração de equipes multidisciplinares. “No dia-a- dia, vale desde um bate-papo informal até uma reunião semanal. Tudo depende da cultura da empresa ou agência e dos profissionais envolvidos” (LF).

Mas o que acontece quando você é toda a sua equipe? Nesse caso, o seu melhor parceiro é o seu próprio cliente. “É preciso conhecer o cliente e saber o que ele espera do seu trabalho. O briefing nunca chegará completo em nossas mãos, por isso, é preciso conhecer quem se atende, para conseguir realizar um trabalho que chegue perto do que foi esperado. A criação e a redação precisam utilizar de suas expertises para criar de acordo com o que o cliente espera, mas também com o que vá de encontro à estratégia da marca”, explica Fahen Carvalho. E essa é uma realidade também para quem trabalha em agência e dispõe de uma equipe ou uma pessoa de atendimento, como ratifica Simone Bispo: “Quanto mais claro o Atendimento deixa para a criação o que o cliente deseja/espera, maior será a chance de deixá-lo satisfeito. Além disso, é primordial que a comunicação interna seja o mais objetiva possível, uma vez que isso evita a famosa refação e também para atingir o público desejado com maior assertividade”.

No caso de freelancers, ser esse profissional OMO (multiuso) é um desafio – físico mesmo – muito maior. É preciso ter em vista, como mencionado anteriormente, quais são as prioridades do seu trabalho, do cliente e das próprias mídias sociais. Provavelmente você não será capaz de fazer o monitoramento ou estudos/análises de inteligência conforme ideal, mas trabalhar pelo menos com mídia e planejamento – além da própria criação de conteúdo – pode ser o básico do básico. Lidiane Faria compartilhou algumas perguntas importantes que poderiam ser compartilhadas com colegas de trabalho, mas achei interessante também utilizá-las como guia para esse profissional de tentáculos. “Ter essas respostas embasadas por pesquisas e dados […] ajudam a produzir e defender as ideias e conteúdo”, explica. Por mais que algumas perguntas demandem certa complexidade e aprofundamento de análise, podem ser também bons norteadores do trabalho geral de social media:

  • O que os consumidores estão dizendo sobre sua marca?
  • O que estão pedindo?
  • De que forma os interlocutores consomem o conteúdo da marca?
  • Quais é o retorno qualitativo?
  • Quais são as principais impressões e associações?
  • Quais são as oportunidades dentro do universo expandido da marca?
  • De que forma você pode minimizar ruídos de comunicação e usabilidade?

E onde estudar? Por onde começar?

Há uma desvalorização e descrença no mercado de comunicação cada vez maior em torno da importância de uma graduação – e isso ocorre por diversos fatores (até políticos), mas o problema (e argumento) central é que a maioria dos cursos se mantêm demasiadamente engessados (até pela burocracia da academia) e muitas vezes não dão conta da volatilidade comunicacional/informacional dos tempos atuais. Isso não quer dizer, entretanto, que o conhecimento científico que a academia tem a proporcionar não seja útil para quem trabalha na área. Em termos de inovação tecnológica e de discussões sócio-culturais, cada vez mais em voga no mercado, há muito o que a academia tem a oferecer ao mercado. O sonho é que ambas as partes andassem lado a lado, para que uma lavasse a mão da outra: para a primeira não morrer asfixiada e para a segunda apurar técnicas e o pensamento crítico.

No entanto, eu entendo, principalmente a partir do argumento referido, quando várias entrevistadas revelam que boa parte do aprendizado acontece depois da graduação. “Se alguém quiser realmente aprender, precisa ir além do que o ensino formal fornece (e isso independe da área)”, argumenta Suéllem Nascimento. “Quando me formei em jornalismo, percebi que estava completamente crua nas noções de marketing digital, social media e tudo mais. Tive que correr atrás de tudo na internet, tive que assistir muitos tutoriais, buscar webinars, cursos gratuitos, etc.”, complementa Fahen Carvalho. A boa notícia é que, sim, há muito conteúdo de qualidade para aprender mais sobre a área de criação de conteúdo – ou qualquer outra – na internet. “Ir atrás de conteúdos, pesquisas, livros, e- books, aumenta o repertório de conhecimento e agrega muito no que esse profissional vai desenvolver”, explica Agnes Pires, professora universitária que estimula o estudo autônomo.

“Eu sou bem um exemplo disso, aprendi as ferramentas Adobe através de um site com vídeos tutoriais chamado Cursou, foram essas aulas (gratuitas inclusive) que me permitiram começar a me arriscar fazendo umas artes no Photoshop e Illustrator”, conta Lara Thaisa Telles. Em complemento, Agnes Pires propaga a ideia de “life long learning”, uma perspectiva na qual o aprendizado informal possibilita adquirir conhecimento por toda a vida: “Estudar não deve focar somente a graduação, pós e cursos baseados em instituições renomadas. Às vezes um curso menor pode te agregar bastante”, explica. “Acredito também nos conteúdos transversais: se você descobriu que o que te motiva é trabalhar com mídias digitais, já fez todos os cursos possíveis e imaginados, que tal agora partir para estudar antropologia, filosofia, fotografia ou outros assuntos indiretos que acrescentem e aumentem teu repertório, sem necessariamente serem cursos na área de comunicação?”, provoca AP.

A graduação vai tentar te dar um formato, só que não existe fórmula mágica que vá funcionar com todos os clientes em todas as situações. Um bom profissional de criação obrigatoriamente necessita de renovação constante. Quanto mais dentro da bolha ele ficar, menos relevante e mais tedioso o seu trabalho vai ser. Inspiração para fazer conteúdo vem de referência, não do divino. Não existe ‘sacadinha’ sabe? É tudo uma conexão de referências. Particularmente para quem trabalha com criação é importante que se busque cursos não só voltados para o mercado, mas para fora dele. Cursos, artigos, livros, ares diferentes que vão te fazer enxergar as coisas com um olhar modificado, fora das regrinhas do mercado. Isso aí qualquer um pode fazer sozinho. Existem muitos cursos de graça na internet que são ótimos, como na Coursera, mas existe algo que todo mundo pode fazer a qualquer momento sem precisar pagar nada: escutar as pessoas. Ouvir a história de vida delas, entender porque elas gostam disso e não daquilo. Pergunta a tua avó porque ela gosta da novela das oito, mas acha a das seis chata. Pergunta a teu amigo porque ele achou o filme chato. E por aí vai.. Essas novas perspectivas vão te fazer um criador de conteúdo melhor.

Anna Mello, Estrategista de Conteúdo Digital

Nathália Capistrano também sugere a busca por “cursos co-relacionados, áreas analogas, que complementam o conhecimento ou até contribuam no aprimoramento de técnicas que você ainda não domina”. Um designer de digital e redes sociais pode procurar cursos de fotografia, arte ou tipologia; um redator pode buscar aprimorar técnicas de elaboração de roteiros, estudar sobre neurociência ou buscar cursos sobre tecnologia que possam “ajudar a descobrir e pensar em funcionalidades, ferramentas e soluções que funcionam para seus clientes”, por exemplo. “Ou seja, buscar temas e universos diferentes para aprimorar sua visão de mundo, já que um insight criativo para uma campanha e conteúdo surge das referências que você vai acumulando”, explica. “Como se trata de uma ciência extremamente humana, não existe uma cartilha para a carreira de quem trabalha em criação e conteúdo. Tudo que você aprender, até aulas de mecânica ou culinária, podem ajudar na hora de sentar e criar” (NC).

A palavra-chave para quem trabalha com produção de conteúdo, portanto, é referência. “O profissional bebe de diversas fontes […] Se você trabalha com conteúdo, tudo te interessa. Indiferente de qual graduação tenha feito, você precisa entender dos conceitos estratégicos para elaborar um conteúdo e, de novo, ter referências”, explica Leo Morato. “Uma simples orelhada em uma conversa no metrô pode virar uma ideia valiosa para o cliente. O bom produtor de conteúdo é, antes de tudo, um bom ouvinte e um excelente observador da sociedade onde vive e, especialmente, do público interlocutor”, complementa Lidiane Faria. Em consonância, Nathália Capistrano diz que “o maior trunfo do criativo é não se acomodar”, ou seja, “ser inquieto e buscar referências novas o tempo todo” – e dá a dica: “Para estudar de maneira autônoma, o importante é setar metas e compromissos, do tipo, vou me envolver em um curso livre por mês, vou aprender uma habilidade a cada 6 meses, etc.”.

Como entrar no mercado?

Se os últimos posts da série serviram de indicação, já é conhecimento básico que a porta de entrada para o mercado é a produção de um trabalho relevante. Quando falamos da área de criação, não é preciso nem discutir a importância de um portfólio. A questão é: como e quais trabalhos apresentar? “É fundamental ter ‘em mãos’ os principais trabalhos, sabe? Aqueles que você olha e pensa ‘nossa, queria mostrar para o mundo inteiro e falar que eu sou parte disso”, recomenda Simone Bispo. E Maria Beatriz Barros complementa: “O método de escolha é esse mesmo: peças que atingiram melhor seus objetivos, de engajamento, venda ou conversão; peças que te deixem orgulhosa por algum motivo, seja pelo trabalho, pela ideia genial, por conseguir romper com algum padrão engessado. Organize online, num behance da vida, ou guarde em pdf com você, mas organize os posts por data, cliente, objetivo a ser alcançado e números. Se a ideia é mostrar que você faz conteúdo matador, prove!”

Manter esse repertório é uma forma de criar identidade profissional e desenvolver seu próprio legado. “Criação é uma área que o profissional evolui diariamente e é muito comum olhar para trabalhos de dois meses atrás e pensar ‘nossa, como isso foi aprovado?’. A gente acaba ficando bem chato com os próprios trabalhos, às vezes até duros demais, mas o segredo é manter boas referências e buscar atualizar sempre o portfólio com peças que você sinta aquele orgulhinho de ter feito e que vão ter relevância na hora de te representar como profissional”, aponta Lara Thaisa Telles. Outra questão importante, conforme reforçam Simone Bispo e Anna Mello, é ficar atento à variação dos formatos e temáticas do seu trabalho. “Se a seleção dos teus trabalhos favoritos se limita a cinco peças para o mesmo cliente, é melhor incluir duas ou três peças que não são tão perfeitas assim, mas que mostram que você consegue fazer mais do que só seguir uma única linha”, explica a segunda, ressaltando a importância de manter-se organizado.

Portfólio pra mim tem que mostrar como você pensa. E isso vale muito pra quem tá começando agora desanimado e pensando “Como eu vou conseguir estágio se eu não tenho peça pra mostrar?”. Chama aquele brother que tá na pilha de criar também e faz umas campanhas, posts pro Facebook, alltypes. Pensou num filme irado? Faz o roteiro e cria um storyboard (uma versão “de imagens estáticas” do roteiro). Você pode fazer um projeto pessoal ou escolher uma marca bacana e oferecer consultoria. Sabe aquele bar que você sempre vai com os amigos no fim de semana, mas tem uma marca horrível? Se apresenta pro dono e cria uma marca nova. Faz o redesign de alguma coisa. Escreve um conto, um roteiro ou um post. Dá pra fazer absolutamente tudo. O importante é sair do lugar. Depois que você começar a se mexer vai ver que criar é um caminho sem volta. O Behance é uma plataforma ótima porque funciona como rede também, então você vai poder entrar em contato com outros profissionais. O Cargo Collective tem uma navegação fluida e tem o Squarespace também (só pra citar algumas plataformas). O importante é ter um pouco de tudo e tudo o que você colocar lá precisa refletir algo que você tenha vontade de fazer de novo. Se você gosta de arte urbana, tenta colocar algo sobre graffiti, skate ou cultura underground em geral. Curte música? Faz um trabalho pra uma banda e coloca lá. Não adianta fazer um portfólio inteiro só com post de Facebook porque na hora que o DC (Diretor de Criação) perguntar “Hm, bacana, mas você faz conteúdo institucional pra site também?” você vai gaguejar e vai se sentir intimidado. Coloque boas ideias, evite títulos de duplo sentido e aquelas velhas sacadinhas que podem soar como o tio do pavê. É importante que o seu trabalho conte uma história, diga algo sobre você. Diretores de Arte: aqui é a hora que vocês mostram o que vocês sabem fazer. Manipulação, escolha de cor, estética, tipografia, etc. Redatores: escrevam! Mas só o suficiente. Peguem leve no excesso de texto. Lembre sempre: internet não é página dupla de jornal.

Suéllem Nascimento

Para se destacar na multidão, a dica é tentar ser o mais original (ou criativo) possível. “Estes dias vi o portfólio de um webdesigner, ele criou um site que trazia o visual do jogo do Mário, você mexia nas setas do teclado e o Mário ia “caminhando” pelo portfólio dele. Achei a ideia incrível e original. É isto o que precisamos, de portfólios originais, que sejam bonitos, que as pessoas vejam e entendam do que se trata o seu trabalho, sabe?”, destaca Fahen Carvalho. O importante, tanto para ela quanto para Nathália Capistrano, é colocar sua personalidade no que faz e contar bem a sua ideia através do portfólio. “Eu sempre aconselho para quem vem me mostrar pasta: conte do jeito que você contaria em uma entrevista ao vivo, escreva exatamente desse jeito primeiro e parta daí. Nem sempre uma prancha ou um videocase necessariamente serão a melhor forma de mostrar. Muitas ideias legais acabam parecendo menores quando simplesmente jogadas num behance ou cargocollective”, explica NC.

Ou seja, o importante é ficar atento à história que você quer contar – na qual você, enquanto profissional, é o protagonista. Para Agnes Pires – que já viu portfólio até no Buzzfeed – e Leo Morato, ela pode ser desenvolvida nessas plataformas já citadas, como Behance, mas até no Pinterest ou no LinkedIn mesmo. A dica é achar “jeitos para valorizar, tanto visualmente, quanto na explicação: gifs, fotos do processo e progresso, títulos chamativos, minidescrições bem contadas e resultados com prints de respostas, etc.”, explica Nathálica Capistrano. “Além disso, vem os conselhos mais básicos: escolha os seus trabalhos mais legais, de 6 a 10, crie um fluxo para explicar o racional de problema-solução e deixe claro qual foi seu papel e envolvimento no projeto. Vale colocar sim ideias-conceito e coisas que não foram ao ar, mas também deixe isso claro para não induzir o recrutador ao erro ou parecer uma desonestidade” (NC).

Por fim, mas não menos importante, a dica de Lidiane Faria: “Ter projetos pessoais/paralelos sempre ajuda muito, seja para testar uma ferramenta ou para treinar uma habilidade”. No curso CoLab Social Media da Trespontos Brasil, mais especificamente no módulo de conteúdo-criatividade-comunidades, Nathália Capistrano também reforçou esse argumento, incentivando que profissionais de criação sempre fomentassem ideias pessoais tanto para fortalecer repertório quanto para estimular a criatividade – ou seja, além de expandir os conhecimentos sobre assuntos diversos (que vai de encontro à sugestão de fazer cursos não relacionados à comunicação), também pode se tornar um material de trabalho para apresentar. “Blogs, cursos, textos e projetos voluntários sempre ajudam a desenvolver o processo criativo e a apresentar o potencial do candidato. Particularmente, tento ser e gosto de pessoas que circulam em diferentes ambientes e que demonstram abertura para troca e aprendizado”, explica LF.

Mas como é a área no Brasil?

Se tudo que foi dito até aqui foi o suficiente para se apaixonar pela área de criação, este é o momento de colocar os pés no chão: o cenário é próspero, mas as adversidades são constantes. “Se pensar que está ruim nada nunca estará bom. Assim como você nunca está preparado para enfrentar um desafio que te dá muito medo, se ficar esperando o mercado melhorar, você vai morrer de velhice. Faça seu próprio caminho e esteja sempre preparado”, opina Suéllem Nascimento, que reconhece que a crise financeira e política do Rio de Janeiro afeta o mercado de comunicação. No Rio Grande do Sul, o cenário é semelhante: “Acredito que o mercado esteja se recuperando aos poucos, 2016 foi bem difícil, vi diversos amigos desempregados e, agora, todos já estão com seus empregos”, conta Fahen Carvalho. “A oferta é consideravelmente boa, a maioria das vagas são para Diretores de Arte, mas podemos encontrar muitos freelas para produção de conteúdo, para blog e redes sociais” (FC).

E aqui chegamos no dilema que já mencionei anteriormente a partir de outro artigo: por um lado, as mídias sociais proporcionaram um aumento de oferta e demanda na área de comunicação, com empresas pequenas que não tinham orçamento para isso começando a se aventurar nas plataformas digitais e, a partir disso, gerando mais emprego para profissionais que começaram a oferecer esse tipo de serviço; por outro, esses mesmos profissionais acabaram acumulando funções, tendo seu trabalho banalizado e constantemente menosprezado. Em Pernambuco e João Pessoa, por exemplo, Anna Mello e Simone Bispo ratificaram que a “diferenciação entre profissional de conteúdo, atendimento, SAC, planejamento, monitoramento, é quase inexistente” (AM). Nesse cenário, “além de produzir, a gente publica, faz a interação e gera relatórios mensais”, explica SB – e é provavelmente o mais comum em todo o Brasil, felizmente ou infelizmente; o projeto Relatório Brasileiro de Social Media deve nos dar alguma resposta em alguns meses.

“Vai ser necessário muito tempo para provar que isso não funciona e que vale investir em uma agência ou consultoria que entrega o trabalho agregado por uma boa equipe e, caso isso não seja possível, espero que essas empresas percebam que precisam montar uma boa equipe”, opina Agnes Pires, de Pernambuco, sobre o fenômeno do faz-tudo digital. Já Lara Thaisa Telles, de Sergipe, vê o cenário com mais bons olhos: “O mercado de criação para o ambiente digital está cada vez mais receptivo, as próprias empresas estão abraçando mais a ideia, eles estão percebendo por si só o poder que a as redes sociais têm de difusão de conteúdo e alcance de público”. Fundadora da agência Molotov, ela é um exemplo dentre vários no Brasil de jovens que viram no digital uma oportunidade para fugir do mercado engessado das agências tradicionais e criar algo próprio – como foi o caso também da PaperCliQ, agência baiana encabeçada por Tarcízio Silva e Marcel Ayres que começou pequena e se tornou referência nacional.

“O resultado dessa mudança está sendo positivo, essas pequenas agências começaram atendendo clientes que não eram visados pelas gigantes do mercado e hoje estão conquistando cada vez mais o seu espaço”, aponta. Num cenário menos empreendedor, Agnes Pires complementa: “O que tenho visto de positivo é bastante gente indo atrás de qualificação, o que ajuda bastante”. Ou seja, não importa o cenário, o importante é não ficar parado de forma algumas. As mídias sociais são, sim, uma faca de dois gumes – não canso de repetir, pelas oportunidades e pela banalização – mas o mercado não vai mudar se continuarmos parados. É preciso buscar qualificação e especialização, para exigir e criar nas empresas uma consciência acerca dos esforços na comunicação digital, como também é necessário fazer isso para se desenvolver profissionalmente e possivelmente se diferenciar diante da multidão – é esse “o pulo do gato”, como disse Fahen Carvalho.

Enfrentando o oceano de conteúdo nas mídias sociais

Todo esse cenário comunicacional reconfigurado pelo advento das mídias sociais traz, conforme já discutido, diversos pontos positivos e negativos. Um dos principais desafios, a meu ver, é o que causou a própria “revolução” em si: a mudança de consumers para prosumers – ou, em português e numa visão menos mercadológica e mais acadêmica, o que André Lemos chama da liberação do pólo emissor. Somos cada vez mais bombardeados por conteúdos/informações em todas as plataformas digitais que temos hoje à nossa disposição. Marcas disputam a atenção dos usuários que, em seu feed do Facebook, Instagram e Twitter, não querem ver propaganda – estão bem mais interessados naquilo que seus amigos, conhecidos, artistas favoritos e veículos de mídia do seu interesse têm a dizer. Como se destacar nesse oceano de conteúdos que as mídias sociais têm se tornado? Para as pequenas e mídias empresas, então, como competir com, além dos atores já citados, grandes marcas que têm dinheiro para “forçar” a atenção dos usuários?

“Relevância. Nunca essa característica foi tão necessária. Martha Gabriel costuma dizer que o excesso de conteúdo gera pobreza de atenção e é a mais pura verdade. Não adianta mais olhar o que está dando certo na concorrência e fazer igual. Você precisa olhar para a concorrência e pensar no que ela não está fazendo. Não se chega a novos lugares seguindo as mesmas velhas pegadas […]”, aponta Suéllem Nascimento. De acordo, Simone Bispo reforça: “O conteúdo [dessas pequenas e médias empresas] precisa ser objetivo e diferenciado. Não adianta ir na onda do concorrente, pois o objetivo dele pode não ser o seu”. Também em consonância, Anna Mello indica: “Conheça seu propósito e conheça seu público. Invista em conteúdo relevante e de qualidade e busque fazer parcerias com pequenos influenciadores. É demorado, dá trabalho, mas o resultado é muito bom”.

A política e o esporte tem uma coisa em comum: a paixão do público. E esta paixão é motivo para o profissional de conteúdo trabalhar pisando em ovos. Sensatez é algo raro de se encontrar nos consumidores de conteúdo de esportes e política. Assim, é preciso conhecer profundamente seu público alvo quando falamos de política e esporte e saber como se relacionar com os “rivais” sem desrespeita-los. Um planejamento e um monitoramento bem feito podem te ajudar, mas não vai adiantar muito se você não estiver bem acostumado a lidar com estes temas. Isto vale tanto para quando você fala de uma boa partida de um clube de futebol ou quando você quer vender um bom projeto social numa campanha política. Uma palavra mal escolhida e você corre o risco de receber um caminhão de críticas e até ofensas pessoais.

Leo Morato

O primeiro passo para se fazer relevante, portanto, é compreender o seu público. “Para ter isso, só com muita pesquisa e planejamento estratégico. Você não precisa jogar uma bomba atômica no mercado ao estilo ‘BMW Films’, você precisa atingir de forma precisa o seu público, por menor que ele seja. E você só conseguirá isso se conhecê-lo muito bem. Pesquise, analise dados e comportamentos. É o primeiro passo antes de tentar elaborar qualquer ideia”, recomenda Leo Morato. O processo ideal, conforme recomendado pro Agnes Pires, segue o fluxo: investimento em pesquisa “para responder questões necessárias aos clientes de forma afinada”, antecipar necessidades a partir dos hábitos dos clientes já conhecidos e criar momentos que promovam experiências (investindo em mídia) para chegar mais próximo do seu público. Pode ser um trabalho complexo e/ou trabalhoso, mas deveria ser o mínimo a ser feito.

“As pequenas e médias empresas se destacam justamente no momento em que entregam um serviço e se posicionam como parte da solução da vida do interlocutor. Os pequenos poderiam mesclar curadoria à estratégia, já que podem não ter recursos/subsídios suficientes para manter uma produção exclusiva e dedicada”, explica Lidiane Faria. Ou seja, é preciso utilizar as ferramentas a seu favor para encontrar oportunidades especiais. “As pequenas e médias empresas possuem uma vantagem em relação às grandes: elas possuem mais proximidade aos seus clientes, se não possuem, podem garantir isso com mais facilidade. O que pode e deve ser feito, é alimentar esta relação cliente/empresa e criar uma rede fiel, certamente será um trabalho muito gostoso de fazer. Não se esqueça, para criar uma relação é preciso criar confiança, estar presente e mostrar que o cliente é de fato especial para a marca”, reforça Fahen Carvalho.

Tem várias marcas e clientes pequenos ou autogeridos que conseguem ter consistência e relevância nos conteúdos que produzem. Então, sim, é possível. Claro que um orçamento maior terá impacto direto na atenção que determinado conteúdo vai receber. Além da própria mídia que faz o alcance aumentar, os orçamentos acabam sendo um facilitador ou complicador na produção de imagens e fotos proprietárias e também produção de vídeos. As restrições orçamentais podem desencorajar bastante os profissionais de criar coisas originais e ficam presos em grades simples e formulaicas. Mas, aí moram muitas oportunidades. Afinal, marcas menores e independentes podem se arriscar mais. Por isso mesmo, essa é a maior fortaleza pra as marcas pequenas e médias: observar as brechas do mercado. Quanto mais diferente e escasso ele for, maior o potencial de chamar atenção. Aí também mora a chance de ouvir o que o público falar e responder diretamente em campanhas e conteúdos. Em redes sociais, não se trata necessariamente de falar mais alto, se trata de falar algo que os outros querem ouvir, replicar, compartilhar e se engajar.

Nathália Capistrano

E como a área mudou nos últimos anos? Para onde vamos?

A grande mudança que discutimos aqui até então foi a proliferação do conteúdo, devido ao aumento exponencial de produtores – tanto marcas quanto usuários comuns. Mas, em termos de formato/linguagem e estratégia, o que mudou? “A Publicidade, em sua essência, tem duas formas básicas de existir: ou ela é funcional, ou ela é entretenimento. A internet está abraçando essas frentes com bastante competência, que o diga a proliferação de inboud marketing e de branded content. O conteúdo passou a ser cada vez mais presente na vida das pessoas. Você aprende com ele, se emociona com ele, torce por ele. Quem pensa conteúdo hoje está pensando cada vez mais nos usuários e buscando entender melhor essas pessoas além de meros @’s”, opina Suéllem Nascimento, que começou a trabalhar fazendo seeding no Orkut – saiba mais sobre essa prática nesse outro post.

“De cinco anos para cá, as agências foram se profissionalizando e as contas idem. Foram desenvolvidos estudos de marca, layout, brand voices, planejamentos estratégicos. Também o crescimento das mídias fizeram com que as possibilidades e formatos fossem ficando mais sofisticados. Um fenômeno Tostines (os planejamentos melhoraram as performances ou os meios forçaram os planejamentos?) que pode ser explicado por McLuhan: novas gramáticas, mas uma prática não substitui a outra”, explica Maria Beatriz Barros. “Trabalhar com conteúdo ficou mais fácil e mais difícil ao mesmo tempo. Enquanto nas épocas do Orkut e do blogger.com – 10, 12 anos atrás – a capacidade de produzir conteúdo (e que esse conteúdo chegasse em uma parte significativa do público) era muito mais centrada em grandes players; a gente vê, de uns cinco anos pra cá, principalmente por causa do crescimento do YouTube, essa descentralização acontecer de forma a atingir uma fragmentação gigante”, acrescenta Anna Mello.

Essa “cauda longa” do conteúdo, na qual atualmente “o conteúdo de tua marca compete com todo nível de outras marcas, com os posts de outros usuários e com os posts de criadores de conteúdo pela atenção de uma pessoa que está cada vez com menos capacidade de foco” (AM) é um pouco disso tudo que debatemos aqui. “Todo mundo agora é criador de conteúdo, blogueiros aos montes, todos têm acesso às redes sociais e sabem como manuseá-las”, ratifica Fahen Carvalho. A criação de conteúdo sofreu um “boom” com a popularização da internet, sem dúvidas. […] É praticamente um cardume de conteúdos lançados no mar do Facebook, aí entram os anúncios, as promoções, tudo para conquistar a atenção dos usuários. O perfil do profissional mudou, a forma de criar mudou e a forma que os usuários recebem as informações, também mudou. Se você não acompanha essas transformações, provavelmente ficará de fora” (FC).

Agnes Pires e Simone Bispo também reforçam o quanto todo esse trabalho tem se profissionalizado, “o que antes era intuitivo e essencialmente teste, hoje é muito mais acessível de fazer” (AP) – ou seja, há uma demanda por entregas reais, resultados e um trabalho bem feito. Já Nathália Capistrano, que vem da publicidade “tradicional”, conta que um dos maiores conflitos nos últimos anos têm sido a insistência pela separação entre online e offline. “Isso fez com que os profissionais de criação fossem – e continuem sendo – cobrados cada vez mais para serem completos. Atualmente, eles devem saber se comunicar com o público final em todos os pontos de contato, e claro, isso é mais complexo nas plataformas digitais que evoluem e mudam tão rapidamente”, explica. E ratifica que essa mudança cultural trazida pelo digital impactou diretamente o processo criativo, que agora já é pensado com métricas, metas e KPIs. “As áreas de monitoramento, BI, social listening também norteiam as campanhas, mostrando possibilidades e fragilidades”, complementa.

O uso dos dados apoia o criativo no direcionamento estratégico e tático do conteúdo – e, na hora da reunião de apresentação do planejamento, é uma ótima fonte de argumentação. Mas, para trabalhar com dados, é importante saber fazer as perguntas corretas – especialmente quando se trabalha com grande volume de informações. Estas perguntas ajudam o produtor de conteúdo a se conectar com o analista de dados – este que, com capacidade lógica, desenvolve combinações de bases e explora todo o potencial dos dados. O trabalho do produtor de conteúdo é usar e transformar isso em informações, gráficos e histórias que permitam a audiência refletir, se conectar e/ou tomar decisões. Os dados também ajudam na escolha de formatos, linguagens e até mesmo no percurso que a conversa deve seguir. A marca/cliente/criativo/agência/etc. precisa entender que o conteúdo em mídias digitais não é feito e tampouco direcionado apenas para o público interno, já conhecido e muito menos para si mesmo. […] Os dados ajudam a defender ideias muitas vezes não aceitas pelo grupo participante do projeto, mas necessárias ao público que receberá a mensagem. E, por fim, os dados também ajudam a mensurar a efetividade da mensagem. Ter essas informações ajuda a voltar no planejamento e ajustar a campanha, a linguagem, o tom da mensagem, entre outros.

Lidiane Faria

Nesse cenário de conhecer muito bem o seu público e criar conteúdo de relevância, quem tem se destacado? É clichê falar isso, mas a principal referência de criação de conteúdo que surgiu nos últimos anos é a Netflix. Ela fez o mercado de comunicação brilhar os olhos para estratégias de criação de conteúdo, mas este case criou um monstro. Agora, todas as marcas querem ser uma Netflix e todo profissional de conteúdo quer fazer do seu cliente uma Netflix”, opina Leo Morato. “Mas estas pessoas se esquecem que a Netflix só é o que é porque conhece seu público e se comporta como sua audiência quer que ela se comporte. O produto e o público permitem este tipo de linguagem e posicionamento. Netflix só tem uma. Temos muito a agradecer a ela, à Prefeitura de Curitiba e a diversos outros cases que deram vitrine ao mercado de conteúdo. Agora, precisamos seguir em frente” (LM).

Tomando como exemplo a própria Netflix, acredito que podemos entrar em um consenso a concordar que a grande “revolução” das mídias sociais têm sido, de fato, a “emancipação” dos consumidores – como aborda Lara Thaisa Telles. Mais do que nunca, é preciso compreendê-los tanto em sua totalidade quanto em suas peculiaridades, ir além de dados tradicionais e mapear quem eles são, o que fazem, como se comportam, de que modo se apropriam de produtos/serviços, como se relacionam entre si, etc. – com isso em mãos, ficará bem mais fácil saber o que e para quem criar. “A produção de conteúdo deixou de ser apenas uma transmissão de mensagem e virou um serviço, algo que precisa ser útil caso o objetivo seja efetivamente fazer parte da vida de quem recebe. […] Se o conteúdo não for relevante na vida de quem lê, talvez não seja tão efetivo”, indica Lidiane Faria. Mas e o que o futuro nos guarda?

“Acredito que o futuro do conteúdo está nas experiências imersivas em realidade aumentada e realidade virtual. Quem criar conteúdo no futuro vai ter que pensar em tecnologia de uma forma muito mais latente do que hoje. O branded content aponta pra integração total do conteúdo com a tecnologia e as experiências que a internet das coisas poderá proporcionar. Vai ser um futuro muito Black Mirror, definitivamente”, aposta Suéllem Nascimento. Menos futurista, Lidiane Faria complementa: “Muito se fala também na automatização do conteúdo, mas não acredito na pura e simples substituição do humano pela máquina. O que pode acontecer (e será ótimo) é justamente o casamento do uso de dados para embasar a criação do conteúdo – e como diz Jean-Christophe Bonis, sócio-fundador da Oxymore em entrevista ao Meio&Mensagem, a comunicação permanecerá de humanos para humanos”.

“A produção de conteúdo também ganha um peso maior e tem o desafio de posicionar marcas na sociedade através de histórias, manifestos, propósitos, etc. e o desafio de expressar cada vez mais com poucas palavras. Nem tudo o que é interpretado é dito diretamente. Acredito cada vez mais no conteúdo como um serviço facilitador, desenvolvido boa parte das vezes a partir da observação da experiência e do comportamento do interlocutor”, indica Lidiane Faria. Uma mudança de caráter urgente, tanto para ela quanto para outras entrevistadas, é a reformulação do modelo tradicional de criação de conteúdo para internet – acoplando, agora, o quanto antes, também a produção de vídeos. “Tecnicamente também vejo como um desafio aos produtores de conteúdo a imersão no conteúdo audiovisual. O vídeo compete cada vez mais com texto e imagem, e conhecimentos técnicos mínimos são cada vez mais exigidos. Snapchat, Instagram Stories e YouTube estão aí”, explica.

A principal necessidade é abraçar linguagens do audiovisual, urgentemente, nos planejamentos e verbas de investimento. Ok que fazer uma foto é mais barato que produzir uma série de vídeos, mas num mercado como o brasileiro, em que vídeos são muito consumidos e com a necessidade crescente de brigar pela atenção do consumidor ou seguidor/fã de uma marca ou empresa, precisamos fugir da fórmula imagem + texto engraçadinho. Ainda por cima, o Facebook já afirmou que prioriza vídeo no alcance. Há uma divisão tida como ideal em um núcleo de mídias sociais, que é um planejamento, um redator, um designer, um monitoramento e um relacionamento, vamos incluir um editor de vídeos nessa equipe ideal. Também creio que trabalhemos mais com internet das coisas, então o conteúdo vai precisar ser pensado para mais formatos que celular e notebook. Pode ser um letreiro na Times Square mostrando tweets (ou seja lá qual for a rede da moda) ou uma etiqueta numa blusa, uma telinha num liquidificador. A C&A já fez um experimento com um cabide, que tinha a peça mais recomendada na rede social que eles criaram e ia mostrando as dicas das pessoas que participavam da rede. Há ainda muito a ser explorado. Transmissões ao vivo, stories e 360º estão só no começo. Até lá, teremos mais realidades virtuais, sejam aumentadas ou alternativas.

Maria Beatriz Barros

Fahen Carvalho e Lara Thaisa Telles reforçam a volatilidade da contemporaneidade, na qual “as coisas mudam muito em bem menos tempo” (FC). Por isso, prefere não fazer nenhuma aposta: “O universo digital se transforma muito rápido e eu tenho bastante medo desse futuro incerto. A tecnologia está a cada dia mais avançada e como será a distribuição de conteúdo daqui alguns anos? É uma dimensão grande demais para eu ter alguma certeza”. Já Lara Thaisa Telles, embora reconheça a imprevisibilidade gerada pela velocidade das mudanças tecnológicas, enxerga uma tendência: “a visão e a voz do consumidor estarão cada vez mais presentes no processo comunicativo, que passou a acontecer de maneira muito mais horizontal” (LTT). “Acredito que as plataformas, tanto quanto os consumidores, serão os responsáveis pelas grandes mudanças nos conteúdos digitais nos próximos anos”, aponta. Mas e no mercado, para onde vamos?

“Enxergo uma área bem saturada, com muitas pessoas de conhecimento mediano. Quem sairá na frente e terá mais oportunidades certamente serão os profissionais que buscam estudar, pesquisar e praticar além do marketing digital, indo mais fundo em questões sociais, antropológicas e de tecnologia da informação”, opina Agnes Pires – descrevendo o que, a meu ver, já é uma situação atual. “Certamente a área estará cada vez mais exigente no que diz respeito a conteúdo atrativo e, principalmente, criativo! Acredito que os profissionais da área terão que buscar novas maneiras de produzir, sair do básico e cada vez mais se especializar. Isso vai mostrar quem de fato produz conteúdo de qualidade e quem só atualizar perfis”, complementa Simone Bispo. Seguindo argumento parecido, Leo Morato aposta num “darwinismo conteudista” no qual só os melhores sobreviverão: “uma filtragem natural que manterá no mercado apenas aqueles que entendem dos processos”.

Para Nathália Capistrano, talvez a única mudança certa que possamos previr é o próprio ato de mudança em si – ou seja, sempre se adaptar ao contexto da forma mais adequada possível. “Talvez o caminho seja realmente sempre se reciclar e mudar. Além disso, não necessariamente podemos replicar a solução que achamos para um cliente em outro, as coisas, com digital ficam mais específicas, então, as agências devem começar a ser mais tailor made, mais sob medida mesmo. Sem dúvidas o maior desafio vai continuar sendo trazer soluções de negócio que realmente respondam coisas relevantes pro público“, opina. Ou seja, os modelos/formatos/processos de criação não devem ser tão engessados: Estamos falando de criação de soluções de negócios mesmo, pensar em funcionalidades para o produto ou como a marca pode atuar socialmente na vida real, as marcas não necessariamente produzirão conteúdo, e sim, serão apoiadoras de entretenimento” (NC).

E se o assunto é apoiar entretenimento, não há como pensar em influenciadores. “Acredito que estaremos lidando com uma audiência ainda mais fragmentada e trabalhando com micro-influenciadores”, opina Anna Mello. Particularmente também acredito que o trabalho com micro-influenciadores pode ser um grande trunfo na relação entre empresa-consumidor, tanto para pequenas quanto para grandes marcas. E isso envolve tudo que discutimos aqui: um árduo trabalho de pesquisa para compreender o(s) público(s) e identificar usuários – que também são criadores de conteúdo – relevantes e desenvolver um bom planejamento que contemple a tríade marca-consumidor-influenciador para finalmente chegar assertivamente no público final. “As marcas que não tiverem seu próprio conteúdo original, que não tiverem uma personalidade, estarão com dificuldades de atingir seus usuários”, acrescenta Anna Mello.

Tudo acaba sendo relacionado: conteúdo, influenciadores, comunidades. Afinal, os influenciadores podem ser potenciais geradores de conteúdo e movedores da comunidade. E, dentro das comunidades, temos potenciais temas para conteúdos e indicativos de preferências de influenciadores que funcionariam mais para impactar o público daquela determinada marca. Quando falamos da relação entre criação de conteúdo e comunidade, é importante admitir que não é toda marca que consegue reunir uma comunidade em sua volta. Tem marcas mais problemáticas ou que simplesmente não tem apelo ou necessidade disso. Uma comunidade é algo que tem continuidade, que mantém as pessoas/consumidores envolvidas. Ter uma página de Facebook que recebe comentários não é necessariamente ter uma comunidade, afinal, as pessoas que estão comentando ali podem ser meramente pontuais que foram impactadas pela mídia. Agora, quando temos uma lovebrand, uma marca que tem uma comunidade ao seu redor, ali é um baita ecossistema para testar conceitos criativos, medir a aceitação, retirar dos comentários histórias e dúvidas que podem nortear campanhas. E quando falamos sobre criação de conteúdo e influenciadores, eu diria que o essencial é pensar sempre em CO-criação. Não adianta meramente enviar o post ou roteiro prontinho para os influenciadores. Eles sabem como se comunicar com a base deles, do jeito deles, então, para melhores resultados, o ideal sempre é brifa-los com o conceito da campanha e ação e, então, a partir daí, criar em conjunto qual seria o discurso e participação dele. A entrega tem que ser algo que comunique o que o cliente precisa e que funciona com o público daquele influenciador, caso contrário, foi um desperdício. A criação de conteúdo entra nesse processo criativo, para dar as primeiras possibilidades, e validar a contraproposta do influenciador.

Nathália Capistrano

Para finalizar, acho importante retomar algumas das várias discussões abordadas neste texto extremamente rico – graças às entrevistadas: 1) na internet, o conteúdo é a porta de entrada em vários sentidos; com a “democratização” do acesso e da produção, todos viramos criadores e competimos entre si pela atenção uns dos outros; 2) é também parte desse fenômeno que causa a banalização do trabalho, cabendo a estagiários (como foi o meu caso) produzir conteúdo para web de maneira desleixada, sem qualquer preocupação técnica, criativa ou estratégica; por isso é importante manter um debate contínuo sobre a função do conteúdo, como ele está/deve/deveria ser criado e a quem ele atende – do lado dos profissionais, o mercado só vai evoluir quando as especializações se tornarem lugar comum; 3) e, enfim, tudo isso culmina na importância de planejar estrategicamente a sua comunicação; se você não sabe onde quer chegar, como vai chegar lá? A criatividade é o meio, não o fim.

Considerações finais

Se você quer pensar um pouco sobre conteúdo, é preciso tirar um tempo para entender as variações do próprio mercado e de movimentos sociais. A Skol é conhecida por anos a fio de campanhas de objetificação da mulher. Ao invés de negar esse passado, eles convidaram Ilustradoras e Artistas para repensarem as antigas artes machistas sob um novo olhar (vale dar uma olhada aqui) e deu o start para o novo posicionamento “Redondo é sair do seu passado”. A ideia é ótima, mas ela nunca teria sido posta em prática (ou sequer pensada) se não fosse o levante dos movimentos sociais (principalmente o feminismo). Tudo tem um contexto social, afinal seu conteúdo não está solto no vácuo profundo e frio do universo. Ele existe e coexiste dentro de um contexto e se alguém diz que ele está errado, você como marca tem o dever de assumir o erro e tentar minimamente reparar. Já passou da hora das marcas pararem de dizer que tal conteúdo ou tal campanha não foi entendida. Isso é simplesmente não querer assumir a responsabilidade por não ter pensado ou entendido direito as nuances do público. As pessoas não são idiotas, não as trate como tal. Ponto pra F/Nazca que tá fazendo com a Skol exatamente o que todo mundo pedia há anos e ninguém ouvia.

P.s: o reposicionamento tem o dedo da Lara Roncatti, uma Diretora de Arte incrível de lá da F/Nazca e uma das 3 únicas mulheres no Young Lions de 2017 (3 mulheres entre 50 candidatos – achei importante destacar o trabalho dela que, além de incrível, é mais do que representativo).

Bem, você gosta na Netflix? Então você precisa conhecer o trabalho da Mutato, uma agência do grupo JWT. Sabe todos aqueles vídeos incríveis que aparecem no Facebook da Netflix? Então, sai tudo de lá. O trabalho da Droga5 com a Under Armour é o tipo de coisa que faz você dar aquele sorriso de satisfação. O Burger King tem umas ativações sensacionais! Veja algo que realmente goste e vá atrás de quem fez. Inspiração é tudo, mas não fique preso ao que a Publicidade já criou. Procure conteúdo em outras áreas. Alimente-se com outras fontes que não sejam tão óbvias assim.

Suéllem Nascimento

Quando comecei a trabalhar com publicidade, em 2011, pensava com alguma irritação: mas será que não posso ficar no meu canto, escrevendo e sendo feliz? Ingenuidades de principiante. Talvez se eu fosse redatora publicitária e tivesse uma dupla de criação, chegasse a diretora de criação, poderia me ver no mesmo caminho. Mas a verdade é que, por mais que seja a atividade fim, e de maior vitrine ao trabalhar com mídias sociais, escrever para web em agência é sempre o primeiro passo. Logo, você quer crescer e ver a estratégia como um todo, quer participar do planejamento. Isso também é um problema do mercado, que coloca estagiários e recém-formados para escrever os conteúdos e criar as imagens. Virou uma profissão de iniciantes. Raro ver um sênior em texto para mídias sociais. Não só porque a profissão existe há pouco tempo, mas a tendência é a buscar mais. Outro problema do mercado, e aqui estão agência e clientes, é que poucas dão espaço para criar de verdade. Sair um pouco da casinha, sabe? Não digo pegar um meme, ou usar uma linguagem mais despojada. Isso tudo pode ser acordado em um planejamento. Falo dos estalos que temos às 14h de domingo na fila do cinema, “e se eu fizesse um cupom que atrelasse o produto x a uma atividade cotidiana”? E se eu criasse o dia nacional do churros, pra nesse dia meu cliente fazer uma grande ação em torno deles? De novo, é preciso ter frente e um planejamento azeitado para que o analista consiga ter tempo de parar e pesquisar e, com isso, criar ainda mais inovações.

Maria Beatriz Barros

Trabalhar com produção de conteúdo é uma das coisas que mais amo fazer. Criar estes relacionamentos com os usuários, conseguir perceber a humanização das marcas, ver o poder da comunicação na vida das pessoas é incrível. Meu conselho para quem deseja entrar neste mundo profissional é: pratique, esteja em busca de novas ideias, não deixe se acomodar pela correria da rotina. Quem trabalha com comunicação digital, precisa estar em constante movimento, faça isso. Abuse da sua criatividade, exercite-a, o caminho é difícil e nem todos os dias são de marés tranquilas, mas eu prometo que as recompensas serão incríveis! Boa sorte para quem está começando, se precisar de algo, é só prender o grito (mesmo!).

Fahen Carvalho

Há ainda uma lacuna grande em gestão digital, área que atuei nas últimas 3 agências que trabalhei. Minha preocupação sempre foi enxergar o lado humano da minha equipe e não vê-los como fazedores de conteúdo, nem como operários em uma fábrica. Me preocupa muito o ritmo extremamente acelerado e de cobrança imposto em muitas agências do nosso mercado, prezo e incentivo o equilíbrio e estimular com que o profissional consiga uma afinidade com o conteúdo que produz.

Também importante dizer que as meninas precisam ser mais confiantes de si e estudar liderança e gestão de pessoas, para que tenham oportunidade de se destacarem como líderes no momento oportuno. Essa ressalva é necessária pelo fato de, infelizmente, a tradição de gestores masculinos ainda ser majoritária quando se diz respeito a ambientes de criação e criação digital. Nós, mulheres, temos tanta capacidade criativa quanto os homens e o que falta é oportunidade. Espero que esse meu depoimento inspire outras mulheres a ocuparem esses espaços. Sempre busquei trabalhar o equilíbrio de gênero nas minhas equipes, bem como abraçar a diversidade: os candidatos que escolhi não sabiam, mas eu estava em busca de negros e LGBTs para ocuparem minha equipe e mostrar para a agência que poderíamos sim, ter profissionais pretos, lésbicas, gays, sem nenhum demérito. Essa minha postura nunca foi necessariamente declarada: fulano, você está ocupando esse cargo por questões de cota, mas é um compromisso meu em valorizar quem é bom e tem mais dificuldade de estar no mercado por essas questões. Espero que isso tenha feito diferença na vida deles assim como fez na minha.

Agnes Pires

Assim como no planejamento, os criadores de conteúdo devem sempre observar o mundo ao seu redor. Observar como as pessoas se comportam e reagem no ambiente físico e virtual, observar o que anda rolando no mundo da moda, da arte e do design. Ler bastante, ler sobre tudo, das coisas mais cultas às mais bobas. Ter conteúdo é fundamental para criar novos conteúdos, é preciso estar sempre antenado. Ficar sempre de olho nas novidades e nos memes também! Vocês já viram o sucesso que é a página da Netflix e como eles sabem criar e aproveitar os memes? Em um mar de conteúdo você precisa ser um barquinho que carregue consigo algo relevante e interessante suficiente para prender a atenção daquele usuário que está descendo freneticamente o seu feed, nem que por alguns segundos.

Lara Thaisa Telles

Apesar de vermos muitas vagas que exploram o profissional da área, é gratificante o nosso trabalho de encantar e seduzir através de palavras. Atuar com criação de conteúdo nos estimula a estar sempre em busca de informação, de aprimorar nosso conhecimento e facilita nossa relação dentro e fora das agências.

Simone Bispo

Se dedicar a um conteúdo original bem feito é muito mais importante do que ser uma fábrica de postagens. Entenda, como profissional, que o que funciona para uma marca não necessariamente funciona para outra e, seguir modelos populares talvez te dê números bons para por no relatório e um comentário ou outro elogiando o criador do conteúdo (quem nunca viu um ‘esse social media é foda’ nas postagens?), mas não vai te dar clientes fieis. E, por favor, entenda de comunicação.

Anna Mello

Importante reforçar que o olhar que expressei aqui se dá a partir de experiências em sua maioria com a produção de conteúdo em institucional e branding. Imagino que outros profissionais (especialmente publicitários) poderão acrescentar muitos outros exemplos e, desta forma, talvez possa valer a pena dividir no material os diversos tipos e abordagens na produção de conteúdo (institucional, mercadológico, SAC, real time, etc), assim como os formatos (áudio, vídeo, texto, imagem, etc) e canais (para blogs, para campanhas publicitárias, para branded contente etc).

Lidiane Faria

Cada marca é uma marca e cada público é um público. É muito legal admirar grandes cases de conteúdo. Mas precisamos seguir em frente e sem inveja dos profissionais que criaram esses cases. Repetir receitas de bolo é um grande erro na área de conteúdo. Não existe fórmula pronta. Entenda seu público, pesquise, analise e tenha referências. A partir daí você pode criar seu “case”. E ele não precisa ser uma nova Prefs ou uma nova Netflix. O que importa é se você impactou seu público e se refletiu nas metas da sua marca. Mais nada. O resto é ego.

Leo Morato

Infelizmente, criação ainda é uma área com pouca diversidade dentro das agências. Ao mesmo tempo, com as mudanças comportamentais dos consumidores e consequentes pressões para que as marcas sustentem discursos e ações mais adequadas para a realidade atual, existe uma crescente necessidade de repensar esse cenário. Ou seja, existe uma oportunidade enorme aí pra gente nova, um olhar mais fresco, profissionais com backgrounds e referências variadas. O que quero dizer, é que temos um baita espaço a ser ocupado por minas, mães, negros, periféricos, lgbts e todo mundo que tiver vontade de enriquecer os trabalhos, tornando não só tornando as campanhas, mas deixando o mercado de comunicação e publicidade como um todo, realmente mais representativo, impactante e poderoso. Por consequência, os ambientes serão mais equilibrados e as campanhas mais próximas de seus públicos. Acho que outro ponto para discutir é que ainda existe toda uma mística em volta das premiações e o tal glamour na área de criação. Isso pode ser extremamente sedutor e os eventos são realmente bastante divertidos. Estar entre tantos profissionais que admiramos, competir e ganhar, ser reconhecido pode ser positivo. Mas, é importante não passar a ter ideias que agradam somente ou agradam mais os jurados do que o público final, ou encarar os jobs como meras chances de ganhar prêmios e não de fato mandar mensagens que sejam importantes para o cliente. A profissão e o dia a dia não tem que girar em volta de prêmio. Temos que tomar cuidado para não esquecer o que fez a gente escolher a área da criação: a chance de contar histórias, realizar eventos significativos e memoráveis e produzir conteúdos que mexam com os outros. Mais uma consideração é sobre a necessidade de não viver apenas de referência do próprio mundo publicitário. Ter uma vida cheia de projetos paralelos, envolvimentos, interesses, hobbies e atividades fora da agência, não é só importante para a sanidade mental dos criativos que já passam tanto tempo ali e tantas vezes até virando noites, mas, também resultará que eles tenham uma visão mais abrangente de mundo, o que pode munir esses profissionais de ferramentas para gerar ideias ainda mais interessantes. A última coisa é que nós já sabemos que o mercado tem dezenas de problemas e mazelas. Mas, somos todos parte disso, eles não tem que ser vistos como algo alheio e imutável. Temos a chance e a responsabilidade de mudar as coisas que não estão legais. Então, ao conversar entre nós ou quando tivermos as chances dar feedbacks aos superiores e as pessoas que podem mudar as coisas, não devemos focar somente nos problemas, mas sim em trocar ideias e colocar sugestões no papo. Afinal, somos justamente a área que traz soluções para entraves de comunicação, que tal aplicar isso no próprio mercado?

Nathália Capistrano

FONTES DE REFERÊNCIA E INDICAÇÕES PARA ESTUDO

Filmes e documentários

– Abstract – The Art of Design (Netflix)

– Print the Legend (Netflix)

– Escada Para o Céu – A Arte de Cai Guo-Qiang (Netflix)

– Cosmos (Netflix)

– Chef’s Table (Netflix)

Participantes

Agnes Pires
De Recife, com 8 anos de experiência e formação em Artes Visuais e MBA em Marketing e Propaganda | LinkedIn | Twitter | Slideshare

Publicitária há mais de 15 anos e há 8 com expertise em digital: gestão de equipe, estratégia, planejamento e atendimento. Professora universitária desde 2010, tendo lecionado disciplinas na área de Criatividade, Branding e Marketing Digital. Já atuou como Coordenadora de Criação Digital na Agência Um, como Gestora de Mídias Digitais no Núcleo Digital da MV2 Comunicação e como Coordenadora do Núcleo Digital da DA-DPA. Desde 2009 faz parte do GogoJob, onde atua como coordenadora geral. É um projeto social sem fins lucrativos dedicado a divulgar oportunidades de vagas de emprego e estágio relacionados à indústria criativa, bem como cursos, eventos e dicas especialmente para quem está em início de carreira.

Anna Mello
Anna MelloDe João Pessoa, com 7 anos de experiência, formação em Marketing e mestranda em Cultura Digitais na UNISINOS | LinkedIn | Twitter | Blog

Carinhosamente – ou não – apelidada de Anna Sayu. Trabalha com produção de conteúdo para a web há 10 anos e é especialista em Estratégia de Conteúdo para Redes Sociais. Foi gerente de conteúdo na agência SODA Virtual, na Paraíba, tendo recentemente se mudado para o Rio Grande do Sul para fazer mestrado em Culturas Digitais na UNISINOS.

Fahen Carvalho
Fahen CarvalhoDe Porto Alegre, com 2 anos de experiência e formação em Jornalismo | LinkedIn | Twitter | Pulse

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, atua desde a formação, em 2015, com produção de conteúdo para blogues e redes sociais. Contribui com a equipe da Flua, como Gestora de Mídias Sociais, onde trabalha toda a sua expertise em produção para redes sociais de clientes de diversos segmentos e ainda trabalha com anúncios nas plataformas de relacionamento. Atua também como produtora de conteúdo no blog do Share, onde escreve sobre diversos temas, como: marketing digital, inbound marketing, redes sociais, marketing de relacionamento, entre outros. Também trabalha em uma agência de marketing digital, como produtora de conteúdo para blogues e redes sociais da Interativa Conteúdos, onde faz desde a produção, planejamento das campanhas e execução.

Lara Thaisa Telles
De Aracaju, com 2 anos de experiência e formanda em Publicidade e Propaganda | LinkedIn | Twitter

Entrei no curso de publicidade e propaganda sem nem saber direito o que um publicitário faz da vida, mas de um jeitinho bem curioso, acertei na escolha. Nessa jornada acadêmica acabei estagiando em algumas áreas: marketing em uma consultoria, redação na Trilha Propaganda e direção de arte na Bend Propaganda e na Anova Agência Digital (nessa foi só uma passadinha mesmo). Essas experiências somadas a uma dose de ousadia foram suficientes para que eu abrisse minha própria (mini) agência com um amigo, que mais tarde viria migrar para novos rumos. Foi aí que surgiu a Molotov, que acabou de completar 1 aninho, e hoje tem eu e Fernanda à frente dos negócios, fazendo de tudo um pouco e aprendendo bastante no caminho.

Leo Morato
Leo MoratoDe São Paulo, com 5 anos de experiência e formação em Publicidade e Propaganda | LinkedIn | Twitter

Formado em Jornalismo pela Universidade Mackenzie, minha carreira se encaminhou para os ofícios voltados à produção e gestão estratégica de conteúdo em plataformas de redes sociais. Atuei como redator e conteudista em campanhas políticas para vereadores e governadores, além de marcas como SporTV, Santander, Fototica, Lukscolor e SKY. Coordenei equipe de conteúdo de redes sociais durante as eleições para governador em 2014 e para o canal SporTV em acontecimentos como Copa América 2016, Eurocopa 2016, Jogos Olímpicos Rio 2016 e também o acidente aéreo com a equipe da Chapecoense.

Lidi Faria
Lidiane FariaDe São Paulo, com 7 anos de experiência, formação em Relações Públicas e pós-graduação em Jornalismo | LinkedIn | Twitter

Especialista em coordenação de projetos digitais e equipes multidisciplinares, com experiências em empresas e agências. Foi responsável pelo desenvolvimento e implementação da estratégia digital de TV Gazeta, Gazeta FM, Gazeta Esportiva e Faculdade Cásper Líbero, onde coordenou 30 profissionais multidisciplinares dedicados na produção de conteúdo para cerca de 120 canais digitais.

Maria Beatriz Barros
Maria Beatriz BarrosDo Rio de Janeiro, com 6 anos de experiência, formação em Comunicação Social e pós-graduação em Marketing Digital | LinkedIn | Twitter | Blog

Pós-graduada em Marketing Digital, trabalho com monitoramento e relacionamento em uma agência carioca. Meu foco é a comunicação integrada e performance. Pesquiso sobre Monitoramento, Inbound Marketing, Project Management, CRM, UX e Mobile. Blogueira, escrevo sobre mercado, marketing, beleza, moda e autoestima negra, em três projetos distintos.

Nathália Capistrano
Nathalia CapistranoDe São Paulo, com 10+ anos de experiência, formação em Publicidade e Propaganda/Design | LinkedIn | Blog

Atual supervisora de Criação na Artplan SP, sendo responsável pela integração de online e offline. Teve longas passagens pelas equipes de criação da W/McCann, Isobar e SalveTribal Worldwide. Formada em Publicidade e Propaganda pela Faculdade de Comunicação Cásper Líbero e em Design de Publicidade pela Escola Panamericana de Arte e Design. Atuou como designer até 2008 quando passou a trabalhar em redação e conteúdo. Começou focada em Social Media, passou por cargos de redação de digital mais completos e depois, como redatora integrada. Em 2010, seu projeto pessoal de produção e divulgação de bandas independentes nas redes sociais rendeu um prêmio de mídia e uma viagem ao Festival de Cannes. Segue apaixonada por projetos paralelos como o Trocaderia, o 5 coisas e o Ideias para Emprestar.

Simone Bispo
Simone BispoDe Recife, com 6 anos de experiência e formação em Publicidade e Propaganda | LinkedIn | Twitter | Blog

Trabalho com produção de conteúdo desde 2009, mas tudo começou apenas como uma necessidade de mostrar um projeto de extensão no ambiente digital. Desde então, venho me aprimorando na área e trabalhado com clientes de segmentos variados, o que me faz ter um conhecimento mais amplo.

Suéllem Nascimento
Suéllem NascimentoDo Rio de Janeiro, com 6 anos de experiência e formação em Publicidade e Propaganda | LinkedIn

Redatora focada em conteúdo digital com atuação em projetos de storytelling, tecnologia e entretenimento. Passou pela Match.com, onde trabalhou com SEO, web analytics, landing pages, métricas, monitoramento, blog e muito mais. Como redatora, trabalhou na InfoLink Teleinformática, Agência h1 e Kindle.

Fronteiras cambiantes da exposição pública e privada: Instagram Stories x Snapchat

Quem me segue no Twitter sabe que eu sou um grande entusiasta do Snapchat. Não tanto pela plataforma em si (também), mas provavelmente (bem) mais pelo meu rancor e ódio constante a tudo que Mark Zuckerberg toca. O modo como ele copiou na cara dura a funcionalidade mais importante do app amarelinho me assusta, mas não tanto quanto me assusta o fato de as pessoas terem lidado com isso “numa boa” – já não sei mais do que esse cara não é capaz, e aparentemente estamos ok com isso. Um mês atrás o Business Insider divulgou um gráfico da ascensão estrondosa de usuários diários ativos do Instagram Stories em comparação com o Snapchat (que deve começar a cair muito em breve, se já não começou). Atenção: cenas fortes abaixo.

COTD_4.24 instagram vs snapchat

Frente a esse cenário de profunda tristeza (é uma piada, mas também é sério), tentei tirar algum proveito de tudo isso. Tendo lido há algumas semanas o texto “Fronteiras cambiantes da vida pública e privada” de John B. Thompson para uma matéria da faculdade, comecei a pensar sobre a questão da privacidade no que tange ambas as plataformas. Porque embora possuam funcionalidades bem semelhantes (afinal Mark copiou tudo igualzinho, ratifico), as apropriações de cada uma delas partem de pressupostos relativamente diferentes. Antes de entrar nessa discussão, entretanto, trago algumas informações introdutórias sobre o texto em questão – e é importante enfatizar também que talvez esse não seja o melhor texto para essa análise (afinal ele foi feito para a disciplina de Política), mas estou partindo de uma necessidade de melhor compreensão do artigo utilizando algumas de suas ideias para tentar pensar alguns exemplos mais contemporâneos e pertinentes às mídias sociais.

O objetivo do autor é compreender como os domínios público e privado “se reorganizaram com o nascimento das novas formas mediadas de comunicação na Europa do início do período moderno”. Usa como base fundamental da sua argumentação um escândalo político de Parlamentares britânicos que tiveram suas más condutas escancaradas pela mídia de maneira que veio a chacoalhar o cenário político britânico como nunca anteriormente. O artigo é bastante denso, daqueles que parecem mais um capítulo de um livro – traz várias informações, conceitos e referências sobre o assunto. Está dividido em quatro grandes partes que conduzem sua linha de raciocínio: O público e o privado; O surgimento da visibilidade mediada; A transformação da privacidade; Fronteiras cambiantes entre o público e o privado – desses quatro, os dois últimos dialogam mais diretamente com algumas reflexões que trarei a seguir, mas os dois primeiros também são importantes.

Na primeira parte, Thompson faz uma breve – porém razoavelmente densa – contextualização histórica do pensamento acerca do público e do privado. Para isso, recorre a dois autores essenciais à discussão: Hannah Arendt e Jürgen Habermas. Seu objetivo nesse momento é mostrar que as fronteiras entre o público e o privado não são exclusividades da modernidade, já estavam presente nas sociedades desde a Grécia Antiga (porque todo texto de Ciência Política precisa voltar lá). Ele explica que, a partir do surgimento das cidades-estado, surge uma vida política separada da vida do lar, onde, nesse contexto, “o domínio privado era o do domicílio e da família” e “o domínio público era um espaço de aparição em que as coisas ditas e feitas poderiam ser vistas e ouvidas pelos demais”. A partir de Arendt, ele explica que o lar era a fonte da necessidade onde se provia a sobrevivência, enquanto o domínio público estava mais ligado a uma ideia de sociabilidade discursiva.

Ainda nessa primeira parte o autor se apoia em Arendt para apresentar como essa dinâmica muda muito tempo depois com o surgimento das sociedades modernas a partir dos séculos XVII e XVIII – explicando “o surgimento do social” e a emergência da “sociedade civil”. No entanto, ele faz importantes críticas ao trabalho de Arendt devido à sua omissão frente ao debate sobre as mídias comunicacionais (circulação massificada da informação) que começam a se proliferar também nesse momento. A partir daí traz Habermas para falar sobre a (refeudalização) da esfera pública e o contexto da sociedade do espetáculo de Debord. Explica aqui o conceito habermasiano de “princípio da publicidade”, a ideia de que “a opinião pessoal de indivíduos privados poderia caminhar para uma opinião pública a partir do debate racional e crítico entre um grupo de cidadãos”. Enfim, mostra como os sentidos de público e privados são realocados na modernidade, mesmo que algumas referências permaneçam.

A segunda parte do texto é guiada pela pergunta: o que é ser visível? “Visível é aquilo que pode ser visto, que é perceptível pelo sentido da visão”, seria a resposta mais simples. Ele parte da noção mais comum de visibilidade (da pré-modernidade), localizada, ou seja, “aqueles que são visíveis para nós são aqueles que compartilham conosco a mesma referência espaço-temporal” – o que exige um pressuposto de referencial recíproco também. No entanto, Thompson chama a atenção para como o desenvolvimento da mídia comunicacional (desde a mídia impressa até a eletrônica) oferece a essa noção mais comum de visibilidade um descanso ao referencial espaço-temporal de localização da copresença – surgindo aí o que chama de visibilidade mediada (“novas formas de visibilidade cujas propriedades específi cas são moldadas por meios específi cos de comunicação”), uma visão contemporânea mais ampliada.

As mídias eletrônicas possibilitaram a transmissão de informações e conteúdos simbólicos por largas distâncias com pouco ou mesmo nenhum atraso. Consequentemente criam um tipo de simultaneidade desespacializada: quem está distante pode se fazer visível praticamente no mesmo instante de tempo, pode ser ouvido no mesmo momento em que fala e pode ser visto no momento em que executa a ação, embora não compartilhe o mesmo referencial de espaço com os indivíduos para os quais está visível. Ainda, as mídias eletrônicas contam com uma riqueza de produções simbólicas possibilitando a reprodução de algumas das características da interação direta nessas novas mídias.

Como mencionei anteriormente, esses dois primeiros momentos não são essenciais ao assunto do post, mas acho importante descrever essas construções históricas para reforçar sempre que nada que compreendemos hoje enquanto sociedade e indivíduos sociais foi decisão divina – é tudo construção social (e se foi construído pode ser desconstruído). Na terceira parte do texto, por exemplo, ele mostra como a noção de privacidade se transformou com o tempo – mantendo ideais semelhantes, mas sob pressupostos diferentes. Na Grécia Antiga o “domínio privado era relevante apenas por dar as condições necessárias para que os indivíduos sobrevivessem e assim participassem do domínio público”, ou seja, era dado um valor muito maior ao domínio público, símbolo de liberdade “em que os seres humanos poderiam satisfazer todo seu potencial como seres humanos”. A privacidade estava ligada à privação da liberdade.

O sentimento em relação à privacidade já é outro na modernidade, onde “a esfera privada proporciona aos indivíduos um espaço para se recolher do brilho da vida pública e de ser constantemente visto e ouvido pelos outros”. Ou seja, o privado é visto com bons olhos, como espaço de autenticidade e autonomia. Thompson explica que essa noção parte do contexto social e político no qual emergem as questões da privacidade nos últimos séculos, pautado principalmente pela tradição da teoria política liberal democrática que se preocupa em definir os limites do Estado. Em segundo lugar, ele aponta que “hoje estamos inclinados a pensar a privacidade como um tipo de direito, algo que, como indivíduos, reclamamos que legitimamente nos pertence”. Na melhor definição: “Para Warren e Brandeis, a privacidade é o direito de ser deixado em paz”.

A maior parte das demais tentativas de conceituar a privacidade em termos de intimidade, de sigilo e do âmbito pessoal têm outras deficiências igualmente complicadas . Como poderíamos então conceituar privacidade? No meu ponto de vista, a maneira mais produtiva de se conceituar privacidade é em termos de controle. Em seu sentido mais fundamental, privacidade tem relação com a habilidade dos indivíduos em exercer controle sobre alguma coisa. Normalmente esta coisa é interpretada como informação: ou seja, privacidade é a habilidade de controlar as informações sobre si mesmo, e também de controlar a maneira e até a medida que essas informações são comunicadas aos outros.

O autor traz para discussão três dimensões de privacidade segundo Beate Rössler: a privacidade informacional, referente ao controle das informações (“sobre nós mesmos e o direito de protegê-las do acesso indesejável de outras pessoas”); a privacidade decisional, referente à escolha de quem ou o que possui acesso (“controle de nossas decisões e ações e o direito de protegê-las da interferência indesejada por parte de outras pessoas”); e privacidade espacial, referente ao: direito de proteger nossos espaços contra pessoas indesejadas (“controle de nossos próprios espaços e o direito de protegê-los contra a invasão indesejada de outras pessoas”). É importante pensar nessas dimensões para que possamos localizar também as violações passíveis a cada uma delas, pois essas infrações também variam de acordo com o contexto.

E é a partir do conceito de self de Erving Goffman que Thompson propõe uma “definição rudimentar” à noção de privado, onde “os direitos relacionados […] são aqueles em que o indivíduo tem que exercer controle e restringir o acesso dos outros”. Aqui, finalmente, já é possível abrir a ponte que pretendo fazer com as reflexões sobre o Instagram e o Snapchat. Isso porque Goffman é o principal autor no qual os textos sobre auto-apresentações em mídias sociais se baseiam atualmente. Para ele, “a informação a respeito do indivíduo serve para definir a situação, tornando os outros capazes de conhecer antecipadamente o que ele esperará deles e o que dele podem esperar” (GOFFMAN, 1972). É ele que consolida a ideia de performance, em que nós, enquanto atores sociais (e há uma ênfase mesmo ao teatro), agimos de maneira adequada à cena social onde nos apresentamos.

Dialogando diretamente com a proposta de Goffman, Thompson traz no texto o argumento de Helen Nissenbaum sobre “integridade contextual”: a privacidade também deve partir de um ponto de análise que leve em consideração seu referencial contextual – ou seja, “em cada uma delas há normas específi cas para regular o que é apropriado e aceitável na maneira como a informação é revelada e compartilhada”. A autora propõe dois tipos de normas: de adequação e de fluxo de distribuição/de informação. A primeira diz respeito a questões sobre o que compartilhar, onde e para quem, enquanto a segunda está relacionada à proliferação da informação, ou seja, para quem posso divulgar informações de terceiros. No texto, Thompson dá um exemplo de uma consulta no médico; aqui, podemos associar a primeira a uma nude enviada no Snapchat, por exemplo, e a segunda à divulgação dessa nude.

O autor segue a argumentar que a esfera privada não pode ser mais pensada (se é que um dia já pôde) como um espaço localizado, já que as novas tecnologias de comunicação expandem a noção de privacidade a outros níveis de sociabilidade – e reforça o aspecto do exercício de controle dos indivíduos. São, portanto, dois pontos de atenção que podemos associar ao debate Instagram Stories x Snapchat: em primeiro lugar, a noção mais facilmente identificada de gerenciamento de self em cada uma das plataformas; e, em segundo lugar, como a noção de privacidade (ou a sua falta) condiciona o modus operandi dos usuários em cada uma das plataformas. Para me ajudar a pensar sobre isso, pedi a ajuda dos meus seguidores do Twitter com a seguinte pergunta: vocês se sentem confortáveis para postar no Instagram Stories o mesmo que postavam no Snapchat?

As respostas se apoiaram em três pilares que são extremamente complementares, mas destrincho aqui cada uma delas para poder dissertar um pouco sobre suas peculiaridades: em primeiro lugar – e talvez mais importante, a nível informacional – o fato da funcionalidade Stories ter chegado depois, ter sido incorporado à plataforma do Instagram. Como eu mencionei lá no início do texto, mesmo que as plataformas sejam semelhantes (em termos de funcionalidade), os usuários se apropriam delas de maneiras diferentes. Se você for parar para pensar, tanto Twitter quanto Facebook também permitem a publicação de imagens, mas o Instagram – enquanto mídia social que surgiu com o único intuito de compartilhar retratos instantâneos – mesmo adotando novas funcionalidades, mantém uma “coerência sócio-cultural” por parte dos seus usuários.

E isso nos leva diretamente ao segundo ponto, que é a auto-apresentação das pessoas em cada uma das plataformas. Um ótimo exemplo disso é essa montagem feita com diferentes “Rihannas” em diferentes mídias sociais, conforme explicado brilhantemente – também a partir de Goffman – por Tarcízio Silva neste post. A identidade que construímos de nós mesmos na internet segue também fragmentada, adequando nossa performance (ou gerenciamento do self/auto-apresentação) a cada um dos contextos de sociabilidade convencionado para cada uma das plataformas. Em resposta à minha pergunta, uma amiga comentou sobre como no Instagram há uma imposição ainda mais forte sobre certa “ditadura da beleza”, ou seja, uma necessidade de se apresentar sempre bem – talvez uma herança dos primórdios do app, disponível apenas para usuários de iPhone.

Em comparação, no Snapchat, outro amigo comentou – vários, na verdade – que o app era bem mais despretensioso. Chegamos, portanto, no terceiro e mais importante ponto para esse post: como plataforma mais fechada, o fantasminha dava ao usuário maior controle sob sua privacidade. Há, inclusive, controvérsias sobre seu entendimento enquanto mídia social (no conceito acadêmico mais atualizado), justamente por ter uma usabilidade tão restrita entre os usuários. Embora tenha começado como chat para compartilhamento de imagens (snaps) com outros amigos, a plataforma só deslanchou de verdade com a consolidação do My Story – que permitia criar uma narrativa audiovisual a partir de vídeos (ou imagens) com até 10 segundos de duração. Ainda assim a sociabilidade do ambiente era bastante restrita, pois não havia acesso externo à plataforma – e o controle estava literalmente nas mãos dos próprios usuários.

Ao sucumbirmos ao Instagram, portanto, perdemos a nossa privacidade não apenas no senso comum da palavra, mas no sentido de território do self que Goffman propõe. Deixamos de lado – até certo ponto, obviamente – uma persona que constitui a nossa identidade para nos adequarmos às novas normas sociais convencionadas à usabilidade do Instagram. Odeio soar tão romântico, mas é uma observação que precisa ser pontuada. A transgressão da nossa privacidade, nesse sentido, também vem em forma de violação ao nosso controle, aquele que estabelecemos na nossa relação com o Snapchat durante os anos que permanecemos enquanto usuários do aplicativo.

É evidente que isso não significa que não estamos reféns da reprodutibilidade comum às novas tecnologias da comunicação – em tese, você pode publicar no Instagram o que publicava no Snapchat. O que quero chamar a atenção, entretanto, é que somos socialmente condicionados ao modo que atuamos nos diversos contextos sociais. Quando falamos de internet (ou mídias sociais), a privacidade – que não precisa ser necessariamente estruturada, mas pode ser também apropriada (pense em fakes do Twitter, por exemplo) – tem um papel importantíssimo na nossa construção de si. Quando perdemos o controle, nosso direito de ser é violado e se tivéssemos que apontar um culpado (além de nós mesmos): Mark Zuckerberg.

A habilidade dos indivíduos em exercer controle sobre seus territórios do self e de restringir o acesso a eles é constantemente posta em cheque, e em alguns contextos, comprometida pelo fato de que os outros podem se valer dos novos meios – tecnológicos, políticos e legais – para ter acesso, conseguir informações, explorá-las em benefício próprio e, em algumas ocasiões, torná-las públicas. As fronteiras mutantes entre a vida pública e a vida privada tornam-se um novo campo de batalha nas sociedades modernas, um terreno disputado em que os indivíduos e organizações travam um novo tipo de guerra da informação: usando de todos os meios disponíveis para obter informações sobre os outros e para controlar as informações sobre si mesmos, muitas vezes esforçando-se para lidar com mudanças que não puderam prever e com agentes cujas intenções não puderam entender. Trata-se de um terreno em que as relações de poder estabelecidas podem ser abaladas, vidas podem ser prejudicadas e até, em alguns casos, reputações podem ser perdidas.

Google Analytics para iniciantes: curso gratuito oferece um panorama geral da ferramenta

Em uma das minhas primeiras entrevistas de estágio, lembro que tive que fazer uma prova com algumas questões relacionadas à função do trabalho (era uma vaga de Estágio em Social Media com foco em performance, se me recordo bem). “Escreva com suas próprias palavras o que é ‘bounce rate'”, pedia um dos itens da avaliação. Eu não fazia ideia do que fosse (estava no segundo período da faculdade e não tinha começado a estudar sobre social media e derivados), então tentei responder conforme a tradução me indicava: “deve ser algo relacionado a bater de volta, tipo um rebote”, pensei. Enrolei da maneira que pude, mas não foi o suficiente e perdi aquela vaga – justo, afinal eu não estava apto a exercer aquela função (embora fosse estágio e o ideal é que ensinem em vez de cobrar).

Alguns anos depois, quanto fundei o blog e comecei a me interessar por métricas (mesmo de mídias sociais), percebi que precisaria, em algum momento, aprender a mexer no Google Analytics. A pesquisa d’O profissional de inteligência de mídias sociais no Brasil já me indicava isso, nos últimos dois anos. Embora o meu fascínio por métricas tenha se esvairado razoavelmente desde então, a análise que fiz sobre os conhecimentos mais requisitados em vagas de mídias sociais só reforçou a ideia de que eu precisava, sim, aprender GA. Porque mesmo para quem não trabalha com métricas (mas com planejamento, por exemplo), é importante conhecer – mesmo que superficialmente – perspectivas de outras áreas (esse foi um argumento frequente no último Profissão Social Media). Se você trabalha ou quer trabalhar com métricas, GA é pré-requisito; mas se você trabalha ou quer trabalhar com planejamento, por exemplo, GA pode ser diferencial.

Para a nossa sorte, no começo deste ano o Google lançou através da Analytics Academy quatro novas versões de seus cursos gratuitos sobre Google AnalyticsGoogle Analytics for Beginners, Advanced Google Analytics, Google Tag Manager FundamentalsEcommerce Analytics: From Data to Decisions. Desses quatro, os três primeiros já estão disponíveis por completo em português – e o quarto deve ser disponibilizado a qualquer instante. Ou seja, tem para todo mundo: se você é iniciante como eu, o primeiro curso foi feito para você; se já tem certa experiência, o curso mais avançado recicla seu conhecimento e pode te apresentar novas funcionalidades; se já trabalha com analytics e precisa conhecer a Google Tag Manager (uma das ferramentas bastante citadas no meu levantamento), tem curso para você também; e se souber em inglês e trabalhar com e-commerce, o último é todo seu.

Eu escolhi fazer o Google Analytics para iniciantes porque, embora tenha certo conhecimento sobre métricas de mídias sociais e conceitos principais sobre o tema, a minha experiência prática com o Google Analytics é quase nula. Este blog, por exemplo, nunca teve instalado o código da ferramenta – isso por dois motivos: 1) porque eu nunca tive interesse em averiguar números para não ficar refém deles, uma vez que este é um projeto totalmente pessoal e, portanto, livre de quaisquer amarras; e 2) por simples preguiça – eu já instalei o código em outras empreitadas pessoais que tive na minha adolescência (mesmo sem saber mexer nem ver direito, só queria saber o número de visitas mesmo), mas nunca me veio a necessidade de fazer o mesmo aqui. Unindo o útil ao agradável, resolvi usar o curso para analisar o site (e o site para analisar o curso). E como foi?

Unidade 1 – Introdução

A primeira parte de um curso para iniciantes é exatamente o que se espera: o básico do básico. Antes de qualquer coisa, os instrutores Justin Kutroni e Krista Seiden primeiro buscam explicar por que mensurar rastros digitais são importantes. É óbvio que eles utilizam o contexto do Google e mais especificamente da ferramenta Google Analytics como exemplo, mas a explicação deles sobre o conceito de digital analytics é bem abrangente. O mais legal é que, depois de cada lição, eles ainda oferecem links e leituras complementares sobre o assunto discutido. Neste primeiro momento, por exemplo, recomendam um artigo do Think With Google sobre a jornada do consumidor na compra online e um glossário do próprio Google Analytics (em português!, essencial para quem está começando a estudar).

Depois de ensinar a importância de acompanhar os rastros digitais de possíveis consumidores e alguns conceitos básicos de digital analytics (a tradução seria algo semelhante a métricas/indicadores digitais), eles mostram como funciona o processo de coleta de dados do Google Analytics desde a implementação do código JavaScript num site até o modo como a ferramenta armazena as informações. É ótimo porque eles alinham a teoria (conceitos e discussões sobre analytics de um modo geral) à prática, já que estão também tentando vender o produto. A lição três, por exemplo, é totalmente dedicada à familiarização do aluno com o GA – e todas as partes básicas de configuração, desde gerenciamento de contas/vistas até permissão de usuários. Eles chamam a atenção para a importância de configurar bem todo o escopo, já que os dados coletados pela ferramenta não são recuperados em quaisquer problemas.

E uma das coisas mais legais está na imagem de tela que você vê acima. Em todas as unidades pelo menos uma ou dois lições eles disponibilizam uma possibilidade completamente interativa da ferramenta. Desta forma, o aluno consegue ver com os próprios olhos todos os passos necessários para executar o que está aprendendo no curso. Além da legenda em português, é possível também conferir a transcrição completa e devidamente dividida nos tópicos da narração no site de Ajuda do Google. Como cheguei a mencionar no Twitter, é como se eles pegassem na mão do aluno e dissessem: “vamos juntos!”. Achei realmente incrível. E, novamente, após de várias lições, ainda há indicações de leituras para maior e melhor compreensão do assunto e também da comunidade de discussão da Analytics Academy, onde profissionais mais experientes estão à disposição para tirar quaisquer dúvidas de novatos.

A questão da configuração é algo que merece realmente muita atenção. Na última lição da primeira unidade, você é levado por um passo a passo de como aplicar o filtro numa vista (a hierarquia da ferramenta é: conta > propriedades > vistas). O exemplo que utilizam é um filtro para excluir o tráfego interno, ou seja, para que – no meu caso – todas as minhas visitas (feitas através do meu notebook) ao blog não sejam registradas naquela visualização. Infelizmente por algum descuido eu inseri meu I.P. errado (eles mostram como achar o seu) e acabei perdendo essa configuração. Ou seja, agora todos os dados que tenho coletado do GA têm também procedência minha – e eu entro muito no blog, por motivos óbvios. Então é algo realmente muito importante e que eles alertam desde o início – uma vez processados, os dados não podem ser alterados.

Ao final de cada unidade há uma avaliação para testar seu aprendizado. O certificado do curso que recebemos ao final só é disponibilizado àqueles que obtiverem uma média igual ou maior que 80% das respostas corretas. Mas a avaliação é ótima porque, além de revisar o que aprendeu, você também relembra quais foram os temas importantes daquela unidade (caso tenha interesse em retomar para revisar posteriormente). Na primeira, por exemplo, aprendemos sobre como o Google Analytics funciona (por que ele é importante e para que ele serve); o que tem a oferecer aos negócios; alguns conceitos, definições básicas de atributos e estrutura hierárquica da ferramenta; e a aplicação de filtros e do código JavaScript.

Unidade 2 – Layout

Daqui em diante o foco na ferramenta só aumenta. Novamente somos apresentados ao modo de demonstração do curso, através de uma plataforma que nos guia por uma tour numa conta “fake” do Google Analytics. Assim conhecemos funções básicas como: o alternador entre Conta, Propriedade e Vista; o ícone de alertas; as configurações, comentários e ajuda; a pesquisa por relatórios, personalização e navegação. Também conhecemos os principais relatórios: tempo real, público-alvo, aquisição, comportamento e conversão. Já falei mas reitero o que disse: é muito bom ter a possibilidade de ver de perto como a ferramenta funciona, porque ela oferece várias funcionalidades e geralmente quem nunca usou fica perdido com tantas opções de execução. Não que todas essas opções sejam úteis e essenciais para o trabalho diário, mas é importante saber que elas existem e como alcançá-las.

Toda a unidade é dedicada a mostrar a plataforma, principalmente através da navegação pelos relatórios disponibilizados. Pouco a pouco você vai descobrindo as inúmeras operações que o GA te oferece, desde visualização ao cruzamento de dados simples ou mais complexos, aprendendo também algumas configurações básicas do relatório geral através de personalizações de atributos. Na última lição você ainda aprende como montar painéis (dashboards) relevantes para o seu trabalho – e descobre que há uma intensa produção da comunidade de usuários que já disponibiliza algumas possibilidades padrões no Google Analytics Solutions Gallery. Fica claro que o Google tem uma preocupação em mostrar que a ferramenta é bastante completa, para evitar justamente que as pessoas saiam da plataforma para fazer outras funções – desde a coleta, passando pela análise até a apresentação dos dados.

E ainda que esta unidade seja mais focada na ferramenta, ainda aprendemos alguns conceitos importantes que podem ser replicados às realidades de mídias sociais também. Finalmente aprendi, por exemplo, o que é taxa de rejeição (“a porcentagem de visitas em que o usuário acessou seu website e saiu sem interagir”), assim como revi o conceito da empresa sobre métricas (“os números em um conjunto de dados, geralmente relacionados com dimensões”), estas que são “um atributo de um conjunto de dados organizado para possibilitar uma melhor análise” – ou seja, pode ser comparado a uma categoria de análise (como se fosse uma etiqueta da informação para gerar insights). Abaixo compartilho um conteúdo disponibilizado pelo próprio Google sobre suas principais métricas:

Definições das métricas pelo próprio Google

  • “Sessões” refere-se ao total de sessões em determinado período.
  • “Usuários” refere-se ao total de usuários que visitaram o site em determinado período.
  • Exibições de página” refere-se ao total de exibições das páginas que têm o código de acompanhamento do Google Analytics para os usuários. Isso inclui as visualizações repetidas de uma única página pelo mesmo usuário.
  • “Páginas por sessão” refere-se ao número médio de páginas visualizadas durante cada sessão. Isso também inclui as visualizações repetidas de uma única página.
  • “Duração média da sessão” refere-se à duração média de uma sessão com base nos usuários que visitaram seu site no período selecionado.
  • Taxa de rejeição” é a porcentagem de usuários que saíram do seu site após visualizar uma única página sem realizar nenhuma ação adicional.
  • “Porcentagem de novas sessões” é a porcentagem de sessões de novos usuários do seu site no período.

Unidade 3 – Relatórios básicos

A terceira unidade é mais curta em termos de aulas (são apenas três), mas relativamente mais fica em termos de conteúdo – você conhece de perto os três principais (ou básicos, como o título da unidade indica) relatórios: Público-Alvo, Aquisição e Comportamento.

– Relatórios de Público-alvo: o foco deste relatório está, como o próprio nome já diz, no público (ou seja, nos usuários); pode ser acessado através de uma visão geral ou de usuários ativos; oferecem dados para compreender as características dos usuários, como o local de onde acessaram o site, o idioma dos seus sistemas de navegação e a tecnologia utilizada no acesso; destaque também para o relatório de comportamento, que te ajuda a compreender como os usuários estão navegando pelo website – o que é extremamente rico para análises de melhoria de usabilidade e interface (os conhecidos UI Design e UX Design); confira mais sobre esses relatórios neste artigo em inglês.

– Relatórios de Aquisição: aqui a atenção está no tráfego do website, ou seja, de onde/como surgem as visitas; esses dados são coletados pelo Google através de três níveis: medium (mecanismo que leva as pessoas ao seu site), source (especificações desse mecanismo) e campaign (especificações da sua divulgação do site); o medium pode ser organic (visitantes que chegaram ao site através da busca comum do Google), CPC (visitas por campanhas pagas), referral (visitantes que chegaram através de outro site), e-mail e none (pessoas acessando o site de forma direta); o source oferece, portanto, a URL específica do mecanismo que levou à visita, enquanto a campanha é para a mensuração de planos de divulgação de marketing; confira mais sobre esses relatórios nesta página.

– Relatórios de Comportamento: como já mencionei anteriormente, este relatório é útil para conferir os rastros digitais que os visitantes deixaram no seu site; como bem pontuado pelos instrutores do curso, muitas visitas não necessariamente indicam um bom resultado – é preciso conferir se esses visitantes estão fazendo alguma outra ação dentro do site, caso contrário, pode haver algum problema de expectativa x realidade; é aqui, portanto, que você pode conferir as páginas por onde os visitantes chegaram e por onde saíram, para pode otimizar a performance do site de acordo com o que você tem como objetivo para os usuários; confira mais sobre esses relatórios neste artigo em inglês.

O legal dessa unidade é que após cada vídeo sobre os relatórios há também um breve questionário sobre algumas das informações que foram passadas em aula, desta forma você consegue se manter atualizado com a enxurrada de aprendizados que poderia sobrecarregar o aluno e fazer com que ele acabasse esquecendo as questões mais importantes. Ainda assim, foi aqui o primeiro momento onde não gabaritei a avaliação final da unidade – simplesmente porque, como eu disse, embora seja mais curtinha, é muito conteúdo (e especificações, termos técnicos, etc.)!

Unidade 4 – Acompanhamento básico de conversões e campanhas

A quarta unidade possui lições dedicadas a algumas disciplinas de marketing digital e mídia, ou seja, estratégias e meios de divulgação de um conteúdo. Na primeira aula, por exemplo, você finalmente entende tudo que está por trás de um URL como este: http://simplymeasured.com/blog/how-to-gut-check-your-performance-against-competitors/?utm_source=mkto&utm_medium=email&utm_content=20170421-prospects&utm_campaign=newsletter. Cada um desses parâmetros é importante para contabilizar por qual advento o visitante chegou ao seu site – além de medium, source e campaign, já comentados aqui, há também content que é uma etiqueta de qual conteúdo específico foi utilizado para divulgar aquele link. Ainda há o parâmetro search, para buscas pagas.

Se você trabalha com mídias sociais muito provavelmente esse Campaign URL Builder deve ser um dos sites favoritos do seu navegador. Ele é essencial para que a mensuração torne-se mais apurada, para que o analista possa compreender de perto sobre o tráfego do site a partir de visitas externas. Para quem cria conteúdo, é também importante para medir o que tem respondido de melhor forma ou não – por exemplo, é possível saber se um post específico no Facebook está gerando mais tráfego do que outro post do Facebook com outra imagem, ou até mesmo outro post no Twitter, por exemplo. Recomendo “brincar” um pouco com a ferramenta “Criador de URLs” para campanha mesmo que você não tenha um site para mensurar os resultados, apenas para fixar melhor a lógica por trás de cada parâmetro. E eles também disponibilizam uma planilha de automatização bem bacana.

Fica bastante claro que o Google Analytics funciona como uma espécie de ferramenta de monitoramento dos websites, no sentido que sua função é monitorar os rastros digitais de todos os visitantes (e como tirar inteligência a partir disso). A função de metas, por exemplo, que aprendemos na aula 3, traz isso à tona: você pode estabelecer metas na própria ferramenta para verificar a efetividade das ações do visitantes no site; para além disso, o próprio GA cria um funil de ações (semelhante ao funil de marketing) para mapear onde o visitante possivelmente desistiu de completar a ação. De forma prática: na pesquisa do Relatório Brasileiro de Social Media, por exemplo, poderíamos aferir em qual página o usuário desiste de responder as questões. Isso pode indicar uma fadiga pelo questionário estar muito grande – e podemos trabalhar para melhorar isso.

Cada uma dessas metas é completamente personalizável para se adaptar às suas necessidades de trabalho. No curso eles usam como exemplo (desde o início) uma loja de e-commerce, então mostram como configurar essa meta a partir do objetivo de venda de algum item na loja online. Essa meta (do que queremos que o usuário alcance) pode ser medida através do Destino (página específica), Duração (tempo de acesso), Páginas/Visualizações (acesso às páginas numa sessão) e Eventos (ações específicas). Aqui eles já abrem caminho para o outro curso da Academy, o E-commerce Analytics: From Data to Decisions (disponível apenas em inglês). Mas ainda no curso para iniciantes você aprende o passo a passo, com a ajuda dos instrutores, como criar e configurar essas metas – um processo simples, mas que pode ser confuso caso você não tenha familiaridade com a ferramenta. Justin e Krista passam por cada um dos detalhes da configuração, para não deixar nenhuma dúvida.

Na última aula antes da revisão do curso você ainda conhece outra plataforma bastante popular da empresa, a Google Adwords, que é mais voltada para compra de espaço publicitário do que para a análise de dados, como o GA. Ainda assim é uma ferramenta bastante popular no mercado e há cargos específicos para “Analista de Adwords”, que, a meu ver, seria uma ramificação da ramificação da ramificação do profissional de mídia – afinal, é tudo, como falei, compra de espaço publicitário online. O curso não entra no modo de usar o Adwords, mas explica alguns conceitos fundamentais (que todo profissional que trabalha com internet deve saber) sobre essa ferramenta de mídia e principalmente mostra como fazer a interação com o Analytics. Também passa rapidamente (bem rápido mesmo) sobre a questão do leilão – que se refere justamente à compra de termos de busca do Google – e de remarketing – que se refere à reexibição de anúncios baseado no histórico do visitante.

Revisão do Curso

Vamos revisar o que aprendemos no curso Google Analytics para Iniciantes. Nós discutimos:

  • como digital analytics (métricas/indicadores digitais) podem ajudar seu negócio;
  • mostramos como o Google Analytics funciona;
  • e te guiamos no processo de como criar uma conta, instalar o código de rastreamento, e configurar diferentes vistas com filtros para teste.

Você também deve se sentir confortável com como navegar pelo Analytics, como compreender visões gerais e relatórios completos, além de como configurar dashboards e atalhos para rapidamente encontrar os dados que você precisa.

Esperamos que você também entenda como fazer análise basicas nos relatórios de Público-Alvo, Aquisição e Comportamento. Ao final, te introduzimos ao rastreamento de campanhas e como configurar metas para medir conversões.

Nós também te mostramos como integrar suas contas do Analytics e Adwords para rastrear e otimizar campanhas do Adwords.


O curso é muito bom mesmo. Como mencionei anteriormente, já tinha certa familiaridade com a ferramenta, mas apenas em “aprendizados” empíricos de projetos pessoais sem objetivo algum. O modo como eles te guiam pela ferramenta é incrível, com todo o cuidado possível para que o aluno não se sinta desafiado pelos inúmeros relatórios, métricas, dashboards, funções etc. Além disso, têm toda uma preocupação de também, aliado à prática, passar uma teoria fundamental para quem trabalha com mídias sociais ou marketing digital. Mesmo tendo certo conhecimento sobre o assunto, sinto que aprendi bastante. Depois de fazer o curso o maior desafio (em vários sentidos) é colocar tudo que aprendeu em prática. Não apenas por ter que enfrentar a ferramenta sozinho, mas principalmente para realmente colocar em prática os aprendizados e treinar – porque só assim se aprende.

Eu mesmo fiz o curso faz dois meses e provavelmente já esqueci várias coisas. Instalei o GA aqui no blog e tenho tentado acompanhar algumas coisas, principalmente para me manter atualizado no que se refere à ferramenta. Recomendo a todos que façam o mesmo. Façam o curso e depois procure um projeto pequeno e/ou pessoal para treinar sempre. O certificado que você recebe (caso tenha uma nota maior do que 80% a partir das avaliações feitas em cada unidade) é apenas simbólico, o importante mesmo é aprender e encontrar outras maneiras de mostrar que aprendeu – produzindo um relatório público, quem sabe. Daqui em diante você também pode procurar outros cursos mais avançados, com professores brasileiros que te mostrem algumas aplicações reais do mercado.

A minha saga com redes sociais (ou por que é importante compreendê-las)

Eu sempre tive certo receio em me aprofundar nos conceitos de análise de redes sociais pelo simples motivo que achava que era tecnológico demais para alguém que valoriza tanto as humanidades. No último ano, entretanto, principalmente a partir do momento que comecei a trabalhar no IBPAD, tenho buscado rever esse preconceito para estar mais aberto às possibilidades e metodologias de pesquisa do universo digital. Nas últimas semanas, alguns acontecimentos pontuais me colocaram frente a frente com o tema, para que eu superasse de vez meu preconceito e aproveitasse devidamente as riquezas desse método de pesquisa.

Tudo começou quando li pela primeira vez o artigo “Diga-me com quem falas e dir-te-ei quem és: a conversação mediada pelo computador e as redes sociais na internet”, da Raquel Recuero, para uma aula da graduação. Não é o meu primeiro contato com seu trabalho – já fiz até um post sobre um de seus mais famosos artigos sobre sites de redes sociais e capital social. Muitas das ideias que ela apresenta no primeiro, de 2009, são atualizadas e “melhoradas” no segundo texto, de 2012. No entanto, foi interessante conhecer essa publicação mais antiga para compreender um pouco do contexto sobre os estudos de sites de redes sociais no Brasil, que têm hoje a autora como a principal referência acadêmica sobre o assunto. Ou seja, se você vai fazer algum trabalho na graduação sobre mídias sociais, quase obrigatoriamente passará por algum texto da professora.

Depois do lançamento do livro “Redes Sociais na internet”, em 2009, a obra tornou-se a principal fonte de referência e conhecimento sobre o assunto no Brasil. Poucos anos depois, em 2011, o aclamado “Métodos de pesquisa para a internet”, em co-autoria com Adriana Amaral e Suely Fragoso, também virou referência – e aqui é preciso elogiar a excelência de pesquisa e estudos da Unisinos, universidade com um dos mais preparados polos de estudos sobre novas mídias no Brasil. A consolidação do seu nome na academia, graças ao seu excelente trabalho, ocasionou numa importância e relevante discussão sobre os aspectos (também ligado a questões de nomenclatura) das conhecidas “redes sociais”. Desde então, há uma preocupação – pelo menos da academia, cenário ainda embrionário no mercado – de passar por essas discussões sobre redes sociais na internet.

E eu entendo isso. A própria popularização e consolidação da nomenclatura “redes sociais” para atribuir plataformas como Facebook, Instagram, Twitter e até o finado Orkut, exige uma criteriosidade acadêmica para colocar as coisas (conceitos, definições, etc.) em seus devidos lugares. Gosto muito – e já citei isso aqui no blog várias vezes – do trabalho de Beatriz Polivanov no livro (e sua anterior tese de doutorado) “Dinâmicas identitárias em sites de redes sociais”, no qual ela faz um apanhado bibliográfico para contextualizar dois grupos (ou duas correntes) que ela enxerga como tendo relevância nos atuais estudos sobre internet e cibercultura no Brasil.

Há uma tensão entre os estudiosos que pensam esse fenômeno [dos sites de redes sociais] sob dois olhares bastante distintos, quais sejam: aquele que defende a ideia de que estaria ocorrendo nesses lugares uma problemática superexposição dos sujeitos, de suas intimidades, relacionadas à lógica das sociedades de espetáculo (DEBORD, 2003) da hipervisibilidade e vigilância constante; e uma segunda perspectiva, à qual me afilio, que se interessa pela discussão sobre como se dão os processos de construção identitária nesses sites e de interação entre os atores sociais, que formam laços sociais entre si, focando primordialmente os modos através dos quais se dá essa construção e a relação do eu com o outro. (POLIVANOV, 2012, pg. 30/31)

Segundo ela, o primeiro grupo seria composto por autores como Paula Sibília (show do eu), Eugênio Trivinho (melancolia do único), Cíntia Dal (apareSer), Lauren Colvara (ilusão da sociabilidade) e Fernanda Bruno (autovigilância). O segundo grupo também se preocupa com questões mais amplas, como identidade e sociabilidade, porém sob outras perspectivas: “discutindo as diversas estratégias e modos através dos quais os interagentes constroem seus perfis nos SRSs, como o gerenciamento da impressão (impression management) e performance da amizade (friendship performance)” (POLIVANOV, 2012, pg. 31), dentre outros aspectos. Neste grupo, encontram-se danah boyd e Nicole Ellison, Daniel Miller, Judith Donath, Artur Matuck e Arthur Meucci, Alan Mocellim, Sonia Livingstone, apenas para citar alguns.

O que acontece: nessa segunda “corrente”, a qual tenho mais simpatia, as duas temáticas-pilares são interação e identidade (perceba como performance se encaixa no meio, por isso não a destaquei). Como, na faculdade, fui um aluno que desenvolveu muito interesse pelas questões de identidade (e, óbvio, por consequência, representação e performance), sempre fiquei um pouco incomodado com a relevância dada à estrutura dos sites de redes sociais (e suas interações) a partir principalmente do trabalho de Raquel Recuero. Isso porque, como citei anteriormente, seu trabalho se tornou a principal referência no Brasil. E aqui eu enfatizo que não quero DE FORMA ALGUMA menosprezar seu conhecimento enquanto pesquisadora. É simplesmente uma questão – literalmente, talvez – de gosto.

Porque uma coisa que os professores não te explicam na faculdade é que a verdade que eles pregam na aula não é absoluta, mas bem delimitada e extremamente contextualizada – principalmente (e deixo uma brecha em aberto porque não tenho experiência pra falar de exatas) nas humanidades. Ou seja, a partir do momento que você escolhe uma disciplina, você está aceitando tomar como referência conceitos, teorias e autores que dialogam entre si sobre determinada temática – não quer dizer que você tenha que aceitar, pode (e até deve) contestar algumas coisas, mas é daquele referencial que você deve partir seguindo adiante. É um pouco do que a própria Beatriz Polivanov faz em seu livro, a partir do levantamento que citei.

A minha questão é: uma vez que Recuero tornou-se o principal nome associado à pesquisa de/em sites de redes sociais no Brasil, consolidou-se um foco muito grande nas questões interacionais dos ambientes de sociabilidade digital. Não que isso esteja errado ou não seja assim também lá fora – a própria definição inicial, de 2007, e mundialmente conhecida de danah boyd e Nicole Ellison alertam para os aspectos estruturais das redes: “aqueles sistemas que permitem: i) a construção de uma persona através de um perfil ou página pessoal; ii) a interação através de comentários e iii) a exposição pública da rede social de cada ator” (RECUERO, 2009). Na atualização da definição, em 2011, ainda havia bastante foco nos aspectos estruturais: criação de um perfil público ou semi-público, lista de amigos (rede de contatos), produção de conteúdo e stream based updates.

Recuero destaca que os dois grandes elementos que constituem as redes sociais seriam: 1) os atores, ou seja, as pessoas envolvidas na rede em questão e 2) as conexões, constituídas pelos laços sociais “que, por sua vez, são formados através da interação social entre os atores”. A autora ressalta que as conexões em uma rede são, de certo modo, “o principal foco do estudo das redes sociais, pois é sua variação que altera as estruturas desses grupos” (2009, p. 30) e que a maneira de analisar e entender essas conexões é prestando atenção aos rastros que são deixa- dos nos SRSs, isto é, às mensagens, por exemplo, que são deixadas pelos atores sociais nesses lugares (e que na maioria das vezes não são apagadas), sendo que essas mensagens devem ser entendidas neste ponto como qualquer tipo de material que é compartilhado e comunicado numa interação social, e não apenas no sentido das mensagens textuais que são deixadas nos sites, como os scraps (recados) no Orkut. (POLIVANOV, 2014, pg. 36)

Tanto no artigo em questão quanto nesse resumo feito por Polivanov é possível perceber o valor que a autora dá às questões interacionais dos sites de redes sociais. E eu finalmente pude compreender o motivo graças a uma nota de rodapé do artigo: sua formação inicial é em Letras. Ou seja, é absolutamente compreensível a sua preocupação em lidar, compreender, analisar e estudar os aspectos relacionados à conversação (interações) nos sites de redes sociais. No próprio artigo em questão ela traz metodologias relacionadas à disciplina da Análise da Conversação cujo “foco era na compreensão da estrutura da comunicação estabelecida entre os atores sociais durante o processo de construção de um discurso” (RECUERO, 2009, pg. 119). Percebe como as coisas se encaixam?

O meu problema com a ARS, portanto, talvez fosse bem mais uma espécie de “recalque” inocente do que uma crítica embasada de fato. Apenas porque, como alguém mais interessado nas questões de identidade, performance e representação, via na popularização dessa metodologia de pesquisa certo esquecimento desses aspectos. O que, na prática, é um mito. A própria Raquel Recuero escreveu o capítulo “Métodos mistos: combinando etnografia e análise de redes sociais em estudos de mídia social” para o livro Etnografia e consumo midiático, onde propõe possibilidades de mesclas dessas abordagens. Enfim, o meu preconceito não passava disso: um preconceito. E eu dei a cara à tapa quando, num segundo momento, tive acesso ao curso online de Análise de Redes Sociais do IBPAD.

Será lançado em meados de maio, mas tive acesso como usuário beta para testar algumas funcionalidades. É o segundo curso online do instituto, que já tem disponível o Etnografia em Mídias Sociais e está produzindo outros dois de métricas e monitoramento. No mercado brasileiro, o IBPAD tem sido uma das principais vozes – talvez a principal – a promover a importância da análise de redes. Isso porque tem em sua essência uma relação bastante íntima com o conhecimento científico, sendo parceiros de Universidades e centros de pesquisa, “pois acreditamos que a academia é fundamental para endossar e colaborar com o desenvolvimento das metodologias de trabalho e ensino do Instituto”. Com guias, tutoriais, capítulos de livro e diversas outras produções, o curso vêm como a cereja do bolo.

E ele veio no melhor momento possível. Eu, que já havia sido ativado pela recente leitura do artigo sobre conversação online, estava mais do que aberto a debater sobre o assunto. A primeira coisa que o conteúdo me ofereceu, portanto, foi a quebra do meu preconceito e da percepção de que o tema era demasiadamente tecnológico e pouco humano para o meu gosto. Isso porque quase todo o primeiro módulo é dedicado a uma contextualização teórica e histórica da teoria de redes, muito anterior à análise de redes sociais para internet que conhecemos hoje. Para se ter uma ideia, o debate sobre redes engloba diferentes disciplinas como Física, Biologia, Psicologia, Administração, Geografia, Sociologia e Antropologia.

“Todos estes exemplos vêm de ciências e disciplinas diferentes, com referenciais teóricos e objetivos bem variados. O que eles têm em comum? Todos eles vêm a rede como artifício cognitivo e científico que permite entender proximidades, similaridades, diferenças, conjuntos e processos de um modo muito particular. A rede transforma a complexidade em algo manejável cognitivamente e permite representá-la em visualizações quase intuitivas.”

Tarcízio Silva

Embora o curso entre em diversos exemplos dessa diversidades dos estudos de redes (justamente para mostrar a sua relevância enquanto conhecimento científico), não vou me estender muito sobre esse aspecto – até porque não tenho repertório para tal. Chamo à atenção, apenas, que é o foco do nome da disciplina e também o foco da minha quebra de preconceito, para as redes sociais. Este fenômeno é muito anterior ao que conhecemos hoje como redes sociais (ou mídias sociais), datando desde o início do século 20, com estudos do sociólogo Georg Simmel – apenas um dos vários pensadores, dentre economistas, psicólogos, dentre outros. E é compreensível que seja uma preocupação de pensadores do século 20, momento histórico onde as relações humanas mais se entrelaçaram intensamente.

O primeiro estudioso a de fato publicar algum projeto de pesquisa sobre redes foi Jacob Moreno, com o experimento Dining Table. Mas o trabalho mais famoso e que mais me chamou atenção foi o do conhecido Stanley Milgram, na década de 60, sobre a ideia de mundo pequeno. Foi nesse projeto que surgiu a famosa Teoria dos seis graus de separação, argumentando que “no mundo, são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas”. É evidente que podemos complexificar essa teoria e tensionar, por exemplo, que o estudo foi feito nos Estados Unidos, um dos países com maior fluxo de conexões (físicas ou tecnológicas) do mundo. De qualquer forma, o que me interessa aqui não é a acuracidade da metodologia, mas a simples de ideia que estamos há de´cadas nos tornando cada vez mais conectados.

O Facebook, o maior site de rede social do mundo atualmente, também já fez uma pesquisa parecida. Em 2015, atribuíram 5 graus de separação para todos os usuários da plataforma e 4 para apenas pessoas dos Estados Unidos. No ano passado, esse número diminuiu: agora são apenas cerca de 3.57 passos entre todas as pessoas do mundo no site. Eu não sei para você, mas, para mim, parece-me um número bastante significativo. Embora o argumento da hiperconexão (não apenas entre atores, mas também para o mundo online) seja praticamente unânime e predominante, tudo isso me fez pensar o quanto – de fato – estamos conectados. E o quanto essas conexões, embora boa parte sejam “sustentadas” pela plataforma, são frutos de rastros sociais digitais – ou seja, em algum momento, houve intervenção humana.

Se o cenário de Jacob Moreno e Stanley Milgram já eram suficientes para tentar compreender as redes sociais daquela época, o atual contexto da internet – principalmente com as mídias sociais – fornece um campo de pesquisa extenso e riquíssimo para se analisar, cognitivamente, como as pessoas se articulam online. Com a liberação do chamado “pólo de emissão” (argumento de André Lemos), viramos todos, com a web 2.0, mídia. Somos nós quem fazemos a internet ser o que ela é hoje. As plataformas são importantes, podem coagir certa maneira de atuação ou serem apropriadas conforme releitura dos usuários, mas são estes que justamente produzem e consomem o que vivemos nos dias de hoje. Faz mais do que sentido, portanto, sermos capazes de compreender, analisar e estudar esses fenômenos sintáxicos.

Antes de finalizar, deixo um adendo: essa revolução da web 2.0 não – de forma alguma! – diminuiu a centralidade, relevância e influência de certos centros de informação anteriores a ela. O que percebemos hoje é que, na internet, temos hubs interacionais e informacionais, ou seja, atores com grande poder de propagação em um grupo – mas cuja soberanidade não é mais fixa ou única, disputando atenção com outros grandes e outros menores atores. Para essa discussão, vale a pena dar uma olhada no artigo que já resenhei aqui no blog de Raquel Recuero e no artigo “A força dos ‘laços fracos’ de Mark Granovetter no ambiente do ciberespaço”, de Dora Kaufman. Granovetter foi outro grande estudioso que contribuiu e hoje influencia bastante do debate sobre análise de redes sociais na internet.

Enfim, já é muito evidente para mim o valor de, principalmente na sociedade em que vivemos hoje, compreender alguns conceitos básicos sobre redes. Sendo alguém que trabalha com internet, ainda mais; sendo alguém que tem interesse por pesquisa acadêmica, mais um pouco; sendo alguém que aspira fazer pesquisa acadêmica na internet com foco em mídias sociais, então… Deixo o documento abaixo, Network Literacy: Essential Concepts and Core Ideas, produzido pelo NetSciEd – Network Science Education e traduzido em português pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados para concluir o meu argumento. Se estiver com preguiça, pode pular para a página 3 – já será o suficiente para compreender o valor das redes atualmente.

Referências bibliográficas

POLIVANOV, Beatriz. Dinâmicas identitárias em sites de redes sociais: Estudo com participantes de cenas de música eletrônica no Facebook. Rio de Janeiro, 2014.

RECUERO, Raquel. Diga-me com quem falas e dir-te-ei quem és: a conversação mediada pelo computador e as redes sociais na internet. Revista Famecos. Porto Alegre, 2009.

Profissão Social Media: planejamento – da teoria à prática

No segundo capítulo da série Profissão Social Media, trago à discussão um assunto bastante menosprezado por boa parte dos “social medias” de plantão: planejamento (que – pasmem – não é somente escolher os canais de atuação de uma marca!). Convidei mais uma vez 10 profissionais dos quatro cantos do país com distintas formações educacionais e diferentes realidades de trabalho na tentativa de ilustrar um cenário bastante complexo da profissão, condizente com a pluralidade de atuações que temos no Brasil. Antes de apresentá-las formalmente, abro um espaço para falar um pouco do projeto em si (principalmente para aqueles que ainda não conhecem).

A série surgiu do post  “Profissão Social Media: áreas de atuação e fontes para estudo”, que fiz no ano passado em parceria com Mayara MendesMari Ferreira e Juliana Freitas. Neste ano, resolvi dar continuidade ao conteúdo produzindo vários posts sobre cada uma das áreas destrinchadas, dessa vez com ainda mais minúcia e detalhamento às funções exercidas (além de referências para estudo). A me ajudar nessa jornada, convido 10 profissionais de repertórios diferentes que respondem a algumas questões sobre a profissão, o trabalho e o mercado. Recentemente também sugeri uma palestra sobre o projeto no Social Media Week SP, que acontece em setembro, e peço encarecidamente pelo seu voto através deste link. Por enquanto você já pode conferir o primeiro capítulo, sobre monitoramento, e, agora, nosso segundo tema: planejamento.

Novamente a predominância de profissionais de São Paulo se dá pelo simples motivo de ser o maior polo de agências de Comunicação/Publicidade/Marketing do Brasil. No entanto, tentei manter minha proposta de buscar diferentes referenciais, trazendo falas também do Norte e Nordeste. Ao final do post você pode conferir uma ficha mais detalhada e completa sobre cada uma das entrevistadas, mas, por enquanto, eis a lista: do Rio de Janeiro, Daniele Rodrigues, Francelle Jacobsen e Patrícia Moura; de Aracaju, Janaína Conceição; de Belém, Mayara Nobre; de Curitiba, Vívian Maciel; e, de São Paulo, Taís Oliveira, André Sinkos, Verônica Merege e Juliana Matheus.

Planejamento: o que é, como faz, onde entra?

Alguém que nunca teve contato com a matéria de planejamento (não apenas na graduação, mas em termos mais amplos de estudo/conhecimento) pode deduzir, através da própria palavra, que trata-se de algo referente a “estar preparado para” – ou seja, é uma ação anterior que pensa como executar uma ação posterior. Essa concepção, embora um pouco rasa, pode ser um bom ponta-pé inicial para abordarmos o assunto. Seguindo essa ideia de preparação, Francelle Jacobsen, professora e coordenadora na Faculdades Integradas Hélio Alonso – FACHA, define o planejamento voltado para mídias sociais como o “desenvolvimento de um plano de comunicação considerando os objetivos da marca, público alvo, estratégias, monitoramento, metas, métricas” que “contempla diferentes redes sociais, anúncios e integração com outras mídias”.

Ou seja, trata-se de “contextualizar o cenário digital, o comportamento do público e os desafios os quais a marca precisa enfrentar, apontando possíveis caminhos e abordagens para promover um relacionamento mais íntimo com estes públicos nas plataformas sociais”, explica Patrícia Moura, professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM (RJ). A partir desse escopo macro, caminha-se para um plano mais delimitado, compreendendo “as táticas a serem utilizadas para obtenção dos objetivos iniciais”. Embora essas propostas complementares de definição nos ajudem a compreender um pouco do trabalho com foco em mídias sociais, é importante dar um passo atrás para buscar “da fonte” um pouco do que já se compreende como trabalho de planejamento – muito antes das mídias sociais e da própria internet, embora venhamos a abordar suas atualizações mais adiante.

“Planejamento responde a um problema de negócio, buscando as melhores estratégias de comunicação para esse desafio”, explica Daniele Rodrigues, professora na Universidade de São Paulo – USP. Ela explica que “executar uma consistente análise Macroambiental (visão mais geral sobre a categoria, comportamento do consumidor e condições econômicas, culturais e sociais) e Microambiental (analisando os pormenores dos concorrentes e da marca/produto/serviço com o qual estamos trabalhando) é parte central do escopo dos planejadores”, uma vez que “o conceito estratégico e, posteriormente, o criativo, surgem nessas bases”. A partir daqui já podemos ver como o trabalho de planejamento, para além de estratégia e criação, atua intrinsecamente ligado a uma vasta produção de pesquisa e análise. Se você acha que ser planner é apenas sugerir formas estratégicas (criativas) e táticas de comunicação, sem um vasto embasamento teórico, está enganada(o).

A curiosidade e a vontade de entender as coisas que acontecem fazem parte do seu trabalho. Porque dentro da agência, você tem que ser a pessoa que entende o que está acontecendo. Você precisa pegar um monte de informação e fazer conexões, enxergar padrões e entender as motivações de um comportamento para criar algo que seja relevante, para o seu cliente e para as pessoas. Esse entendimento, esse raciocínio, é a nossa grande entrega. […] É seu papel entender como levar a melhor mensagem da melhor forma onde quer que o seu consumidor esteja pra recebê-la. O planejamento macro está sempre presente no micro, porque o tático nada mais é que um desdobramento da estratégia.
Vívian Maciel, Planejamento na agência SoWhat

Taís Oliveira – mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais da UFABC, linha de pesquisa Cultura, Comunicação e Dinâmica Social – sintetiza bem: “Planejamento é se debruçar para valer na história, contexto, nos públicos, nos problemas e objetivos de comunicação da organização. É documentar e estudar o material levantado afinco. E aí, diagnosticar problemas de comunicação e sugerir ações para resolvê-los.” Ainda melhor do que sua definição, está essa analogia que não deixa ninguém com dúvidas: “Para ilustrar, é como uma consulta médica. Você vai ao consultório e conta suas queixas, o médico solicita exames clínicos, depois do diagnóstico te sugere um tratamento e faz seu acompanhamento para verificar se há a melhora do problema queixado”. O termo “diagnóstico”, inclusive, é bastante comum à matéria de planejamento, e ajuda a compreender que: 1) há um problema; 2) foram feitas análises; 3) vamos propor uma solução.

E essa solução não é estável, única nem fixa. “É muito importante entender que o trabalho do planejamento não acaba quando as ações são implementadas”, alerta Mayara Nobre, especialista em marketing digital e Project Manager na empresa Empatia. Trata-se, portanto, de um trabalho constante de observação, “sempre em busca de oportunidades de ser relevante”, pontua Juliana Matheus, estrategista na R/GA e colunista no blog Jovens Planners. “O que você faz depois com as informações que coleta é apenas uma questão tática, de plataforma – o pensamento estratégico independe disso”, reforçando a importância da pesquisa e análise. Esse, no entanto, é o “mundo ideal” do trabalho de planejamento – aquele onde é “o primeiro passo para posicionar a marca de forma assertiva, seja no mercado, no relacionamento com o consumidor ou nas mídias sociais”, conforme pontua Janaína Conceição.

Planejamento na Base Propaganda, ela alerta para um dos principais problemas do mercado em pequenas e médias agências: “geralmente o trabalho de planejamento só acontece de fato quando a marca já está posicionada nas mídias sociais e precisa evoluir a sua estratégia de marketing ou corrigir erros que a presença não-planejada tenham ocasionado”. Do outro lado da moeda, em maiores agências e grandes clientes, “problemas” também surgem: “O desafio está naquele cliente que tem 5 agências, cada uma atendendo a uma frente, e todas são ativadas para entregar uma determinada campanha”, conta Verônica Merege, também estrategista na R/GA e colunista no JP. “Já vi muitos enxergarem nessa situação uma oportunidade de fazer o trabalho do outro, de mini concorrências em busca da ‘melhor verdade’, do ‘melhor insight’, de qual trabalho de fato guiará as outras agências na criação. […] É necessário entender que precisamos ajudar o cliente a criar uma comunicação unificada […]. Às vezes temos o controle, e às vezes precisamos ceder.”

Como podemos aferir, as adversidades que encontraremos no mercado podem ter diferentes faces – a depender de qual ator você vai encontrar pela frente. Apesar de tudo isso, podemos compreender que, no final das contas, o trabalho do planner é, de fato, diagnosticar um problema (de comunicação, neste caso).“Ao mesmo tempo em que ele amplia o repertório através de pesquisas, levantamentos, desk, integração com outras áreas, ele também precisa tomar a decisão de com base nesse caos, qual será o caminho que trilharemos para resolver o problema”, descreve André Sinkos, Supervisor de Planejamento na F.biz. “Ele é a pessoa responsável por investigar, entender e interpretar informações até encontrar a melhor forma, direcional, insight e mensagem que sejam capazes de estabelecer uma conexão real entre marca/produto e consumidor.”

E como faz?

Essa singela introdução nos ajuda a compreender melhor a proposta por trás do trabalho de planejamento. Já podemos perceber certo fluxo de atuação, conforme destrinchado por Dani Rodrigues: “1) pesquisa – etapa estruturante para o planejamento, onde buscamos as respostas às análises macro e microambiental; 2) insights a partir dos dados coletados/observados para transformá-los em planejamento de conteúdo e de mídia, bem como em ativações especiais; 3) análise dos caminhos estratégicos concebidos para ver se atendem aos objetivos de negócio e de comunicação do briefing”. Na prática, entretanto, essas etapas podem ser um pouco mais complexas, sendo condicionadas pela realidade do seu trabalho – se é uma grande agência, pequena/média agência, se está alocado no cliente, se trabalha numa cidadezinha ou numa grande metrópole como Recife ou São Paulo, etc.

A rotina diária exige organização e método. Receber briefing, entender claramente o que a empresa deseja comunicar, envolver outros setores sempre que necessário, executar plano de ação, fazer interface com criação e tecnologia, revisar publicações, acompanhar os resultados e propor melhorias. Gosto de trabalhar da seguinte forma: faço a interface com outras áreas, lidero equipe multidisciplinar, composta por três profissionais responsáveis por conteúdo, design e performance.
Francelle Jacobsen, Coordenadora de Marketing Digital e Professora na FACHA

Janaína Conceição, Vívian Maciel e Verônica Merege, em diferentes descrições, também reforçam as etapas anteriormente mencionadas: briefing > pesquisa: concorrência, mercado e consumidor + tendências + benchmarking > interface com demais áreas envolvidas > insight > guias editoriais (a persona, identidade da marca, identidade visual, posicionamento, linguagem, públicos e segmentações, etc.) > plano tático de execução e mensuração > acompanhamento. “Isso tudo acontece não necessariamente nessa ordem – às vezes tem parte da equipe analisando a concorrência e outra parte fazendo pesquisa, por exemplo – o fluxo é bem orgânico”, explica Vívian. As práticas se diferem entre agências, localidades e clientes, mas Janaína pontua que “os desafios são: entender o que vai ser dito, porque é relevante falar daquilo, qual o melhor momento para aquele conteúdo ir ao ar, através de que recurso e linguagem, como será segmentado e que tipo de interação esperamos do público”.

Cada agência conta com métodos e ferramentas distintas. Em geral, existe um fluxo quase fordista em grandes agências, onde um atendimento irá pegar o briefing, planejamento “planeja” e depois elaboramos o briefing criativo para criação ou conteúdo. Nos últimos anos outras áreas passaram a fazer parte desse fluxo, como mídia e B.I.. Eles estão envolvidos em todas as etapas do projeto de formas diferentes. Posso pedir para que mídia me alimente com informações de clusters e performance das últimas campanhas, ou para que o B.I. me ajude a construir um cenário do comportamento digital de determinado consumidor. Em geral o planejamento irá liderar essa investigação estratégica, utilizando diversas áreas como recursos para chegar a um insight mais poderoso.
André Sinkos, Supervisor de Planejamento na F.biz

Patrícia Moura e Juliana Matheus reforçam as diferenças das rotinas e fluxos de trabalho, argumentando pelo caráter cada vez mais integrado às demais áreas das agências. “De maneira geral, [planners] terão o aprofundamento do briefing, o desk research da categoria e a geração de insights sobre o público alvo como atividades base para o desenvolvimento da estratégia que será ativada nas mídias”, explica Patrícia. “O que percebemos é que, cada vez mais, o planner tem um papel mais holístico, um olhar sobre o projeto como um todo. É quase como um guardião do job, que vai olhar a entrega de ponta a ponta e garantir que ela resolva o problema do cliente e/ou do público final”, acrescenta Juliana.

Como se integra (com as demais áreas)?

Conforme já mencionado em algumas falas anteriores, o planejamento atravessa diversas partes – como “guardião”, precisa ter uma boa visão do todo e transitar bem entre todas as áreas. “O trabalho de um planner depende de um bom relacionamento com o atendimento para que ele traga a visão do cliente e ajude nos briefs; depende de um bom relacionamento com a criação para que as ideias conversem com a estratégia e tragam os resultados que o cliente espera; depende de um bom relacionamento com a mídia para garantir que a mensagem certa chegue à pessoa certa e no momento certo; depende de BI/Analytics para monitorar a evolução da campanha; e por aí vai”, defende Juliana Matheus.“É quem guia o job e quem mantém todas as áreas unidas, fazendo com que a entrega final esteja em sintonia com a estratégia”, acrescenta Vívian Maciel.

A integração com as demais equipes não é uma questão de aperfeiçoamento do trabalho, mas um pré-requisito básico. “Quando a equipe consegue acompanhar todos os passos do planejamento é muito mais fácil para que cada área execute sua parte da melhor forma, pois as pessoas além de sentirem que fazem parte de toda a construção, têm um entendimento e conhecimento melhor de onde/por quê/para quem surgiu cada passo”, pontua Mayara Nobre. Já Verônica Merege reforça o caráter de visão holística do planejamento, uma vez que “ideias virão, e cortes de gastos também, então é preciso ter sempre alguém de olho nas novas adaptações do projeto e das demandas para se manter fiel ao que mais tem fit com o público”. Nesse cenário, “o planejamento se atém a encontrar uma verdade do público com o qual se pretende gerar impacto, e se mantém fiel ao olhar do consumidor com o desenrolar do job”.

Trabalhe bem em equipe de forma que a Criação se sinta a vontade de discutir ideias: você verá muita diferença quando o insight realmente se transformar em uma ideia que gera impacto E SAI DO PPT (é muito importante isso :P). Trabalhe bem em equipe com a Mídia: há formatos cada vez mais novos e oportunidades cada vez mais interessantes para conversar com as pessoas. Trabalhe bem com o Atendimento e ganhe a liberdade de apresentar suas próprias ideias, de ganhar mais prazo, de oferecer propostas mais ousadas aos clientes. Muito dessa integração não está no job description de um planner, mas ela é essencial para que você faça tudo o que realmente acredita. Tenha as pessoas ao seu lado.
Verônica Merege, Estrategista na R/GA

Dani Rodrigues, além de ratificar a importância de áreas centrais como atendimento e criação, reforça o apoio das áreas de pesquisa/dados. “O trabalho de compreensão de mercado, consumidor e tecnologia – tríade das estratégias, é em parceria com profissionais de pesquisa, monitoramento e de business intelligence”, explica. “[…] Pesquisas de campo, entrevistas, netnografia, metodologias como ‘um dia na vida da pessoa’ e similares podem trazer resultados ainda mais assertivos e qualificados se contarmos com o apoio de profissionais que transformam dados isolados em sabedoria. […] Na era da alta performance, da otimização real time de cada centavo de mídia, atuar em cima de inteligência é pré-requisito de sucesso”, argumenta. Ela também alerta para a importância da tradução do trabalho de planejamento: “A maneira como “contamos” nossa estratégia é um recurso importante à compreensão das nossas ideias. O planejador é um contador de história, por isso […] ser empática à audiência da estratégia é parte do escopo do planejador”.

E onde estudar? Por onde começar?

Quem me conhece e/ou conhece o blog sabe o quanto eu acredito no autodidatismo – pelo menos quando o tema é trabalho em mídias sociais. A questão, entretanto, é, tratando-se de uma matéria muito além desse universo, é possível estudar por conta própria? Francelle Jacobsen argumenta que “sim, basta querer, pesquisar e se atualizar em relação às práticas do mercado, cases e ferramentas. Acompanhar blogs e canais no Youtube, tem muito conteúdo legal por aí”. A história de André Sinkos vai de encontro à essa possibilidade: “comecei a ler alguns livros e quando percebi o que realmente era o planejamento e seu potencial comecei a buscar alguns cursos pequenos e baratos para me capacitar”, conta. “Além disso busquei blogs, livros, Slideshare… acho que usei as skills investigativas de planejamento para me tornar planejamento.

Essencialmente relações públicas é uma profissão de planejamento, embora seja multidisciplinar podendo atuar em áreas mais específicas como assessoria de imprensa, cerimonial e protocolo e relações governamentais, por exemplo. Mas todas elas tem em comum a necessidade de planejar ações, logo, planejamento é uma espécie de core business das RP (junto com mapeamento de públicos, que é outra particularidade entre as habilitações de comunicação). Talvez a grande diferença entre publicidade e relações públicas seja o prazo e objetivo da comunicação, em geral RP planeja a médio e longo prazo com o objetivo de criar relacionamento e fortalecer imagem, por outro lado, publicidade planeja a curto prazo com o objetivo de vendas (claro que isso não é uma regra geral). E essas informações são importantes de se especificar no planejamento também.
Taís Oliveira, co-fundadora e colunista no blog Versátil RP

Há, entretanto, algumas ressalvas a serem pontuadas – Patrícia Moura explica: “vejo um certo grau de subjetividade na construção de narrativas de estratégia que não se aprende sozinho. A mentoria e feedbacks constantes são as chaves do sucesso de um planner”. Taís Oliveira complementa com mais rispidez: “O curso universitário e cursos complementares são muito importantes. A experiência é importante. Ter contato com pessoas mais experientes na área é importante. Acredito que é um combo de fatores que agregam no desenvolvimento do profissional”. Nesse sentido, para além do aprendizado individual, ambas recomendam a participação em grupos, presença em palestras, cursos e workshops para desenvolver um senso crítico interpessoal que as leituras sozinhas não dão conta. Já Verônica Merege e Juliana Matheus alertam para os perigos dos estudos superficiais – “estudar por conta própria” precisa ir além do consumo de textos na internet.

Existe um valor na pirâmide de Maslow que trend report nenhum vai substituir, se você não entender de fato o que ele significa. Existe um valor ao ler os longos conceitos do Kotler, a cultura de convergência do Jenkins, a semiótica da Santaella. Planejamento é ir a fundo, é ir atrás, é se perder no tempo enquanto lê sobre coisas aparentemente irrelevantes, mas que uma hora vão se conectar com todas as outras coisas que você andou lendo pelos últimos tempos. Não se contente em ver os links populares: procure pelo livro mais antigo, e também pelos textões sobre selfies mais recentes. Procure conhecer os heads de planejamento de outras agências, procure pelos primeiros planners de Londres. Entenda as discussões sobre o futuro do planejamento. Discuta sobre creative strategist vs. comms planner vs. brand strategists vs. ux strategists vs. seja lá qual for o próximo… Raciocine sobre o planejamento 360º e se pergunte se existe mesmo um Marketing 3.0. Por mais batido que seja o tema, é preciso ler diversos pontos de vista para formar o seu.
Juliana Matheus e Verônica Merege

Uma coisa que aprendi com o módulo de planejamento do CoLab Social Media é que repertório (tanto de teorias “tradicionais” quanto de novidades da área, do mercado, das plataformas, etc.) importa muito. Vívian Maciel explica que “as mudanças acontecem com tanta agilidade que a atualização precisa ser constante”. Seguindo esse argumento de que um planner nunca deve cessar seus aprendizados, Dani Rodrigues reforça que “um bom planejador precisa entender de ser humano e ser observador”, ou seja, “além de cursos e estudos de obras sobre planejamento e estratégia propriamente, é fundamental buscar conhecimento sobre comportamento do consumidor, metodologia de pesquisa, premissas de comunicação em plataformas sociais digitais, engajamento de audiência, linguagens, formatos e similares. Soma-se a isso, a necessidade de frequentar os lugares onde as transações e as experiências acontecem e ter repertório cultural.”

Como entrar no mercado?

Quando falamos de criação ou conteúdo, falar de portfólio é quase tão natural quanto necessidades humanas básicas. Nas áreas de monitoramento e métricas, a divulgação de relatórios públicos é algo também bastante valorizado. E para planejamento? “O portfólio também é indicado neste caso, apresentando os cases desenvolvidos como foco nos insights estratégicos apontados pelo planejamento e resultados alcançados”, indica Patrícia Moura. “Publicar textos e cases a partir de planejamentos colocados na rua em blogs e slideshare, por exemplo, é uma forma de demonstrar habilidade estratégica, sem expor o planejamento feito para um cliente, que é um documento confidencial. O importante para agências e marcas não é ver o tático do planejamento, mas ter confiança que o profissional sabe solucionar os desafios de comunicação e negócio mesmo em briefings complexos”, acrescenta Dani Rodrigues.

Taís Oliveira reforça que toda a série de habilidades requisitadas para o trabalho de planejamento (“pesquisar e interpretar dados secundários, analisar aspectos da cultura organizacional da marca, elaborar pesquisas mais específicas, análise de públicos, etc.”) podem se tornar documentos de apresentação que demonstram domínio de habilidades e técnicas. Para quem precisa desenvolver portfólio (mesmo sem nunca ter trabalhado), Janaína Conceição sugere algumas possibilidades: análise de comunicação de uma marca que consome; levantamento de soluções para problemas diagnosticados de uma marca específica; pesquisa sobre consumidor e perfil de público específico; estudo de mercado; dentre outras coisas. Não precisa ser o melhor trabalho do mundo, o importante é mostrar a que veio. “Tudo isso pode gerar insights riquíssimos para marcas […]. É ser proativo e entender cada vez de mercado, de negócio e de pessoas”, explica.

Para a nossa sorte, Verônica Merege do blog Jovens Planners já escreveu um post completamente dedicado à criação de portfólio para quem trabalha com planejamento. No texto, ela apresenta questões a serem refletidas pelos planners antes mesmo da criação do produto e, em seguida, dicas simples de como colocá-lo em prática. Além das ideias apresentadas, tanto ela quanto Juliana Matheus chamam a atenção de uma buzzword relativamente polêmica no mercado publicitário: networking. “Na maior parte das vezes, as vagas de planejamento nem chegam a ser divulgadas – são preenchidas por indicações de conhecidos”, argumenta Juliana. “O portfólio ajuda a ter uma visão do raciocínio, mas o contato com pessoas da área é o que possibilita o acesso às agências”. De fato, não adianta ter o que mostrar mas não ter para quem mostrar – e o contato com o ambiente de mercado ajuda bastante nesse aspecto.

O povo romantiza muito esse papo com profissionais da área e direciona tudo exclusivamente para VAGAS, mas networking é muito mais que isso: é saber exatamente quem são os líderes das agências aonde você quer trabalhar; é saber quem são as pessoas de suas equipes, é saber onde eles estudaram e que curso fizeram para chegar aonde estão. É ir atrás dessas pessoas, ou de pessoas que estão no mesmo nível que você, e conversar sobre suas percepções e seus problemas. Não é sempre que na agência ou na empresa você vá encontrar as melhores pessoas para conversar sobre carreira, e networking pra mim é isso: acumular pessoas valiosas que te acrescentam e muito na discussão sobre o futuro da sua área, e depois, eventualmente, ser indicado pra vaga dos sonhos.
Verônica Merege

Tanto Mayara Nobre quanto André Sinkos reforçam essa ideia de trabalhar em rede e se fazer relevante (não apenas produzindo, mas também estudando). “Acredito que de certa forma existe um perfil para essa área, você deve gostar de estudar, investigar, se aprofundar e estar aberto constantemente ao novo”, pontua André. Ele possui uma daquelas histórias inspiradores de alguém que se encontrou em planejamento, começou a estudar por conta própria e teve sorte de ser chamado para uma agência que acreditou em seu potencial, tendo sua rotina, seus chefes e cursos específicos como pilares essenciais para sua capacitação enquanto profissional. “Você não pode se colocar para baixo, mas também precisa reconhecer algumas limitações iniciais. A história que você vai contar muitas vezes acaba sendo mais importante que sua experiência em si, é essencial valorizar seus pontos positivos relacionados com a área”, orienta.

Ele sugere seis dicas para responder à pergunta que sintetizem bem o que foi dito até aqui – com algumas intervenções minhas: 1) se aproxime das pessoas certas do mercado através de cursos e eventos (networking básico); 2) estude sozinho (mas lembre-se de ir além de posts em blogs e corra atrás de livros e teorias mais cascudas); 3) produza conteúdo em canais públicos para criar sua reputação (sua imagem e o que você tem a dizer é o seu maior repertório); 4) faça cursos complementares como de gestão, trend hunter, antropologia humana (o aprendizado nunca acaba!); 5) saiba contar a sua história e suas motivações (a impressão que você causa diz muito sobre você enquanto pessoa e enquanto profissional); 6) arrisque. Quanto ao portfólio, dá uma última dica: “Muitas vezes o que planejamos acaba não gerando a criação final, por isso é importante contar a história por trás daquele planejamento”.

Mas como é a área no Brasil?

Depois do que eu acredito que foi uma ótima propaganda para a profissão, chega o momento de falar como estamos “na vida real”. Digo isso porque, se o próprio menosprezo pelo trabalho já tenha sido citado, temos algumas outras dificuldades a serem enfrentadas até em grandes metrópoles. No Rio de Janeiro, por exemplo, tanto Francelle Jacobsen quanto Patrícia Moura admitem a escassez de oportunidades. Em São Paulo, com a maior demanda, cresce também a competitividade por oportunidades. “Hoje vemos muitas pessoas que trabalham com conteúdo buscarem por funções mais estratégicas dentro da agência. Community Managers, Content Strategists, BI”, apontam Juliana Matheus e Verônica Merege. “Todos eles, se fizerem um bom estudo de comportamento e conseguirem compor um raciocínio de atuação em digital, conseguem executar bem a função de um planner.”

Elas reforçam que planners precisam buscar o conhecimento de diversas outras frentes para se manterem relevantes, opinião semelhante a de Janaína Conceição – que, ainda assim, vem de uma realidade bem distinta:“Num mercado super tradicional, onde o online só ganhou espaço há pouco tempo, o Planner não se justifica apenas com esta função”. Em Aracaju, onde atua, planejamento ainda é uma área muito tímida e decrescente, onde o profissional acaba tendo que atuar mesclando diversas outras funções. “Isso acontece porque, culturalmente, a maioria do clientes não tem um departamento de Marketing que entende a importância do planejamento. A marca flutua de acordo com o que o mercado está fazendo […]”, explica. “Estamos falando de um mercado ainda imaturo em vários aspectos, onde até os clientes maiores ainda apresentam certa resistência ao planejamento enquanto necessidade e enquanto função de extrema importância para a área”.

Essa problemática de planejamento a longo prazo também é uma questão importante em Belém, cidade de Mayara Nobre. “O mercado de Belém muitas vezes não visualiza o planejamento como algo estratégico – como ainda é um mercado muito varejista, acabam focando muito em campanhas sazonais”, conta. Além da inconstância da periodicidade do trabalho, a balança financeira também sempre decide literalmente o valor desse esforço. Em Curitiba, realidade bem diferente do restante do Paraná (onde “existe uma desvalorização do mercado como um todo e por consequência dos profissionais”), Vívian Maciel aposta na qualidade dos trabalhos. “Sinto que estamos caminhando pra um momento ainda mais interessante pros planejadores”, conta. “Apesar de termos um mercado bem fechado, com pouca vagas na área e poucos profissionais também (se comparado a grandes estruturas como SP), tenho acompanhado o trabalho de algumas agências daqui e tem saído muita coisa boa dessas terras.”

Planejamento para pequenas e médias empresas

Frente à essa pluralidade de realidades em pequenas e grandes cidades, aliado também à constatação feita anteriormente da dificuldade de justificar o trabalho de planejamento, fiz questão de perguntar às entrevistadas como vencer esse desafio – mirando principalmente um público que precisa ser mais “educado” quanto ao trabalho. “É uma demanda a mais explicar o processo e a razão de cada atividade dentro do planejamento”, pontua Taís Oliveira, que possui maior experiência justamente com esse público. “Outra questão que dificulta é a verba disponível para investimento de mídia, algo que deve ser previsto no planejamento, e que em pequeno porte por vezes nem existe ou é muito limitada. E não existe milagre em comunicação, sem verba muito menos”, explica. É um cenário complicado, cuja responsabilidade de planner pesa ainda mais.

O planejamento é importante para qualquer cliente, independente do porte. Mas, acredito que para os pequenos, um Planner tenha um peso ainda maior. Geralmente são clientes que sequer têm um departamento de Marketing. Não entendem de Publicidade e atuam sempre de forma muito intuitiva e impulsiva. O dono da marca, ou o Gerente Comercial, ou o Assessor de Comunicação são muitas vezes o principal ponto de contato com a agência e, com isso, o briefing nem sempre é mais preciso, as pautas e aprovações se perdem por conta da subjetividade e da inexperiência que guiam todo o processo. Neste cenário, o Planejador assume a responsabilidade sobre aquela marca e todos ganham com isso. No entanto, não é raro ver que uma coisa é o que está sendo pautado pelo planejamento e outra, bem diferente, é o que a marca efetivamente coloca em prática. A luta é diária.
Janaína Conceição, Diretora de Planejamento na Base Propaganda

Dani Rodrigues desenha, para que entendam melhor: “se a decisão por um filme na TV é baseado em análise estratégica, por que uma plataforma social digital que pode impactar milhões de pessoas não merece o mesmo respaldo e cuidado?”. É responsabilidade dos próprios planejadores argumentarem pela importância do seu trabalho. “Os planejadores que trabalham com estratégia em mídia social precisam passar segurança aos clientes, se comprometendo com resultados palpáveis (crescimento de x % nas vendas no e-commerce, por exemplo) para ganhar relevância”, argumenta. “Não é sobre estar na rede social do momento, é sobre atuar na plataforma que mais construir para seu cliente, com a mensagem mais assertiva, amplificando para o cluster de maior potencial de negócio ou construção de reputação”. Seguindo por essa ideia, André Sinkos reforça o argumento de que a responsabilidade está nas mãos dos próprios planejadores.

“Ter um profissional de planejamento é um dos primeiros passos para a maturidade de uma empresa. Se você fizer um bom trabalho você passará a ser essencial”, explica. Quanto à questão de fazer muito com pouco, ele e Mayara Nobre concordam que é preciso ter consciência das limitações de trabalho para propor entregas relevantes dentro de um contexto inóspito. “Se nosso trabalho é fazer escolhas para os clientes, também precisamos fazer escolhas no trabalho. Qual o nível de profundidade necessária? As pessoas vão valorizar essa entrega? Vale a pena brigar por essa?”, orienta. Vívian Maciel acrescenta que: “independente do tamanho da agência ou dos clientes, é importante manter um espírito questionador e desafiar o status quo e modelos preestabelecidos, porque sempre existem coisas novas para serem trabalhadas, novos modelos de trabalho e novas oportunidades que podem ser criadas e que vão mostrar cada vez a relevância da disciplina – seja na sua agência ou no ciente.”

Cada agência, cada operação, cada equipe e cada área têm diferentes prioridades. Mais do que o tamanho: o que você está procurando trabalhando com planejamento? Você pode ser uma ótima “business woman” e encontrar formas de conquistar novos negócios com a sua estratégia. Você pode ser muito solícita e ser agência “consultoria” estratégica do seu cliente. Você pode ser a agência de pesquisa que traz as informações mais relevantes do público consumidor. As agências pequenas têm propósitos que precisam estar alinhados aos seus. Eu, por exemplo, não queria ser uma mulher de negócios, queria (e quero) ser uma consultora estratégia. A qualidade do meu trabalho se mede pela estratégia, pelo caminho traçado para se alcançar e impactar um público. É essa a técnica que eu quero explorar, então foi atrás de agências que me permitissem desenvolver isso que corri atrás. Acho que o problema é esperar muito do lugar onde você trabalha sem ter muita noção do que se quer. Vá atrás de um curso, de um profissional, de livros ou de alguma orientação para saber o que exigir da sua agência, porque ela nunca vai mudar só pra você conseguir entregar o trabalho que sempre quis. Isso é um esforço particular.
Verônica Merege

E como a área mudou nos últimos anos? Para onde vamos?

Todas as áreas de comunicação e publicidade sofreram consideráveis mudanças na última década devido à internet. “A velocidade, a instantaneidade, as conversas, as relações, os formatos de mídia, o acesso, a diminuição da barreira geográfica e assim por diante [muda com a internet]”, pontua Taís Oliveira. Nesse cenário cada vez mais dinâmico, o planejamento precisa se adaptar às novas normas sócio-culturais/tecnológicas da contemporaneidade, já que “os tempos se encurtaram e as variáveis se complexificaram”, segundo Dani Rodrigues: “O consumidor muda a forma se relacionar com o mundo e com as marcas em períodos cada vez mais curtos. As variáveis que condicionam as estratégias são em maior número e mais desafiadoras frente ao que os planejadores encontravam anteriormente”.

Janaína Conceição também cita a agilidade e a volatilidade como dois dos aspectos mais importantes a serem considerados atualmente, obrigando planners a estarem sempre preparados: “É um planejar-se e “desplanejar-se” contante”, explica. Também graças à internet, ela cita que – não apenas como consumidores, mas também (e principalmente) como profissionais, o acesso a informações de pesquisa e análise ficou muito mais fácil. “Hoje em dia, temos pesquisas frequentes sobre o comportamento do consumidor, dentro e fora do universo digital, temos sites e blogs dedicados à análise de mercado e isso facilita muito no nosso dia a dia”, explica. Isso, no entanto, é uma faca de dois gumes: como explica André Sinkos, a partir do momento que temos hoje mais informações sobre tudo, temos também trabalho dobrado e mais exaustivo para se aprofundar em questões relevantes.

Basicamente esse conceito mostra como a internet pode expandir a capacidade de um planner. Isso porque nós temos novas possibilidades. Podemos buscar insights olhando pra BI e números de acessos, interações e experiências. Podemos fazer digital research e analisar até mesmo aquilo que as pessoas produzem sem estímulo. Podemos nos aproveitar de metodologias de UX para compreender experiências on e off-line. Podemos identificar e desenhar táticas para targets precisos por meio de segmentação. Podemos desenhar o papel de cada canal na estratégia. Podemos acompanhar resultados 24/7 e propor novas rotas. Ou seja, temos acesso a uma infinidade de novas competências e informações que se tivermos conhecimento podem contribuir muito.
Vívian Maciel

Outra importante mudança que vem acontecendo nos últimos anos e que também foi citada constantemente para o que veremos a seguir é a questão multidisciplinar do profissional de planejamento, que já foi citada em alguns momentos. “Surgiram vários modelos de planejamento e o planner precisa entender mais das outras áreas para gerar direcionamentos que vão conduzir de forma efetiva aqueles que irão tangibilizar seu trabalho”, explica André Sinkos. Vívian Maciel e Janaína Conceição também argumentam por essa transformação ainda em prática, em defesa de um profissional cada vez mais completo. A curitibana enxerga que: “As disciplinas estão cada vez mais interligadas. Ao mesmo tempo, todas as áreas tem suas particularidades e sua entrega que dificilmente alguém será tão capaz de fazer como você”. Talvez por isso Juliana Matheus e Verônica Merege destaquem as importância das especializações e habilidades secundárias.

De modo geral, acredito que o Planner precise ser cada vez mais completo. Precisamos entender de planejamento, criação, mídia, audiovisual, SEO, BI, mobile, CRM, Inbound Marketing e, principalmente, de negócio. Precisamos entender de mercado, de política, de economia e de tudo o que gera novos negócios para os clientes e para a agência. Temos que entende um pouco de tudo e ainda assim ter a certeza de que precisamos continuar estudando, lendo, pesquisando, desbravando. Com essa mentalidade, ganharemos mais espaço nas agências e nos departamentos de marketing, pois estaremos sempre um passo à frente, enxergando todo o universo da marca e não apenas em projetos isolados.
Janaína Conceição

Dani Rodrigues aponta outras duas mudanças recentes e crescentes: 1) a relevância ainda mais intensa da ciência de dados para pautar estratégias e; 2) a aferição dos resultados cada vez mais cobrada dos planejadores. “Com a facilidade do tracking de resultados de criativos, formatos de mídia e plataformas, o comprometimento com KPIs claro vira default”, explica. Para André Sinkos, “não existe nada mais humano do que os dados no digital, eles são gerados pelas pessoas e por isso são registros importantes de comportamentos muitas vezes sem filtros” – e foi isso que o levou para a área de BI, uma das grandes facilitadoras do trabalho atual de planejamento. Aqui vale destacar a crescente atuação de real-time marketing, que “não é uma modalidade de planejamento, mas uma condição para garantir a eficácia e oxigenação das estratégias”, explica, uma das principais referências no Brasil sobre o assunto.

Se antes concebíamos um planejamento estratégico por 5 anos, hoje precisamos revisá-lo conforme variáveis que se alteram num ritmo frenético. As frentes de comunicação ganham relevância ou são subjugadas de modo dinâmico de modo que, embora traçamos um racional a médio prazo – por exemplo, estabelecendo que uma determinada marca terá 4 ativações ao longo do ano, só vamos definir os pormenores dessas ações mais próximo da sua execução. As plataformas sociais digitais são alteradas quase semanalmente, fruto da forma como os consumidores as usam, inclusive. Olhar para o planejamento sob uma ótica real time permite que o conceito estratégico macro que rege a marca seja adaptado à contextos específicos, à micro-momentos da jornada do consumidor.
Dani Rodrigues, Real-Time na Coca-Cola

Para o futuro (que já é agora), ela aponta também a necessidade de compreender melhor o comportamento humano como um todo. “Por conta da lógica da sociedade em rede, o planejador precisará transitar com ainda mais naturalidade por áreas diversas do conhecimento. Entender o comportamento do ser humano será cada vez mais desafiador”. E ainda nessa discussão sobre humanização das marcas, Taís Oliveira suplica: “espero que os profissionais estejam mais atentos e dispostos a humanizar as propostas de planejamento, sobretudo a partir da responsabilidade ética. Que não seja necessário fazer gerenciamento de crise para as peças com machismo, racismo, sexismo, homofobia, mas que essas questões sejam pontuadas desde o início do processo de planejamento”.

Mais adiante, André Sinkos vê uma relevância cada vez maior para o planejamento, levando a visão estratégica para além da comunicação e tornando-se um asset das empresas. “Sabemos que sempre seremos responsáveis pela verdade do consumidor”, sintetiza as paulistas do blog JP. “Com as operações de conteúdo em real-time, a avaliação de resposta do que se é comunicado é dinâmica. Essa interpretação não é só de BI, é do planejamento. A mudança na criação deve ser guiada pelo planejamento. É preciso se tornar útil para a operação como um todo, é preciso ir atrás de novas formas de se tornar útil. Não sei se teremos um escopo de trabalho tão definido além de ‘ajude-os a encontrar uma forma de realmente causar impacto'”.

Considerações finais

Não existe forma correta de fazer o trabalho de planejamento, cada pessoa tem seu estilo, cada agência tem sua metodologia, cada entrega tem sua peculiaridade. Em um universo tão amplo eu considero essencial para o profissional dessa área estar sempre aberto e pré-disposto e sair área. Fazer cursos que inicialmente não tem relação, mas que depois você encontra a conexão. Ler livros de outras áreas, ver séries que você não gosta, usar ferramentas que inicialmente não fazem sentido. Mais do que um profissional completo, precisamos ser profissionais complexos. A riqueza do nosso trabalho está nisso. Não podemos ter preconceitos e medo de arriscar. Hoje em dia eu agradeço a maluquice dos meus pais de me colocarem em cursos de cerca elétrica para gado, panificação e costura. Por me fazerem assistir pequenas empresas grandes negócios depois de Globo Rural. Além de um repertório mais rico isso fez com que eu sempre estivesse aberto para mudanças e também atento para extrair de cada experiência aquilo que fizesse sentido para minha vida 🙂
André Sinkos
Acho que em resumo de tudo que falei, o importante é estar fazendo, quando a gente prolonga demais acaba perdendo o time, o ritmo e a chance. É não ter medo de testar, é buscar referências e estar disposto a se desconstruir dia a dia, o mundo já mudou e precisamos acompanha-lo. Precisamos estar alinhados ao espírito do nosso tempo!
Mayara Nobre
É duro ouvir dessa forma, mas não espere que alguém te ensine nada. A verdade é que quem faz sua carreira é você, e só você. Por isso, valorize demais quando teu chefe parar, sentar e te mostrar como se faz, isso vale ouro. A rotina e o trabalho cobram muito do seu chefe pra que ele faça isso. Mas seu chefe vai te cobrar também. Então a autonomia no aprendizado precisa ser grande. Absorva tudo que puder a todo momento. Reuniões, conversas, palestras, livros, tudo pode se transformar em insumo pro seu aprendizado. Mas também não se cobre pra saber tudo de uma hora pra outra. É uma caminhada, não uma corrida. Pense que quando você for a pessoa no cargo de liderança, precisará ter entendimento de todas as partes, de cada pedacinho do trabalho. Por isso, mesmo quando você ficar de saco cheio de algum trabalho que esteja fazendo, calma, que eu tenho certeza que isso vai se mostrar como algo muito relevante depois.
Vívian Maciel
Thunder only happens when it’s raining. Nós já viemos com o pacote completo para ser um ótimo profissional porque somos naturalmente curiosos só por termos escolhido trabalhar com estratégias. Dedicação é SEMPRE reconhecida, mais cedo ou mais tarde, e pelas pessoas que você menos imagina. Acreditamos que o que a maravilhosa bruxa Stevie Nicks quis dizer é que só quando nos entregamos e agimos como o profissional que queremos ser, é que as coisas acontecem. Seja todos os dias um pouquinho desse profissional que você está desesperadamente ansioso pra ser. Funciona pra gente 🙂
Juliana Matheus e Verônica Merege


FONTES DE REFERÊNCIA E INDICAÇÕES PARA ESTUDO

Cursos

– Bootcamp da Miami Ad School

– Workshop de Influenciadores do YouPix

– Sandbox

Cásper Líbero

Quero Ser Social Media

IBPAD

MIT OpenCourseWare

Miríada X

Laje

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André Sinkos
Andre SinkosDe São Paulo, com 8 anos de experiência e formação em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) | LinkedIn | Twitter | Slideshare

Planner Estratégico e Criativo + Business Intelligence Profissional focado em resultados. Acredito que o papel da comunicação é de encontrar verdades que conectem marcas e pessoas, para isso, nos últimos anos venho buscando novos modelos, metodologias e processos que permitam extrair dos consumidores informações necessárias para estabelecer essas relações.

Daniele Rodrigues
Daniele RodriguesDo Rio de Janeiro, com 10 anos de experiência, formação em Comunicação Social (Jornalismo) e mestrado em Ciências da Comunicação | LinkedIn | Twitter | Slideshare | Blog

Mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Graduou-se em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). É pesquisadora do COM+ e professora de pós-graduação em várias entidades, dentre elas USP, Faculdade Cásper Líbero, ESPM, IBDAP, Quero Ser Social Media, Perestroika, Senac e UNICEUB. Atuou como jornalista e há 10 anos atua com estrategista para marcas de diferentes segmentos (Netshoes, Pernod Ricard, Estadão, Itaú, Accor Hotels, Coca-cola e Turner Broadcasting). Além de professora, atualmente também é Real Time na Coca-Cola.

Francelle Jacobsen
Francelle JacobsenDo Rio de Janeiro, com 13 anos de experiência e formação em Administração | LinkedIn | Slideshare | Twitter | Facebook

Graduada em Administração de Empresas pela UCAM – Universidade Cândido Mendes. MBA em Marketing pela FGV. Trabalha com marketing digital desde 2004, com passagens pelas empresas Vizcaya, Editora O Dia e U.NEAR. Atualmente é responsável pelo planejamento estratégico em mídias sociais na Sharing for Social, tendo como principais clientes: TEDxRio, Babies, PetRoomie, Arteiras Comunicação, Grupo Scenarium, Skafe Cosméticos, Winco Sistemas Ltda, AVG Brasil e Casarão Ameno Resedá; Experiência em treinamento in company com atuação nas empresas: Contextual Comunicação, Arteiras Comunicação e workshop para blogueiras para Skafe Cosméticos e Lojas Rede; ministrou curso de mídias sociais e foi professora do módulo mídias do marketing direto nos MBAs em Marketing Digital e E-commerce, no Instituto Infnet. Atuamente é professora de Mídias Sociais na Ecommerce School e curso de extensão Planejamento em Mídias Sociais, na Faculdades Integradas Hélio Alonso – FACHA.

Janaína Conceição
Janaína ConceiçãoDe Aracaju, com 6 anos de experiência e formação em Comunicação Social (Rádio e TV) | LinkedIn

Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Rádio e TV, graduada em 2010, pela Universidade Estadual de Santa Cruz, na Bahia. Atua no mercado publicitário sergipano desde 2011, quando implantou o departamento de Marketing Digital da Ente Propaganda (extinta), migrando em seguida para a recém-criada Agência Lobby onde desenvolveu atividades de análise, produção de conteúdo, monitoramento e métricas para mídias sociais – além de planejar, coordenar e executar a implantação do projeto social Circulando Ideias. Em seguida, migrou para a Insight Propaganda onde atuou inicialmente como Social Media e, em seguida, como Analista de Convergência sendo responsável por planejar, coordenar e orientar projetos com foco na integração entre os meios on e off. Atuou também junto à Zeca, coordenando a produção de conteúdo para as redes sociais e o Planejamento Digital até assumir o Planejamento da Base Propaganda, onde atualmente planeja e desenvolve campanhas integradas e também coordena o núcleo de produção de conteúdo online e estratégias digitais dos clientes.

Juliana Matheus
Juliana MatheusDe São Paulo, com 5 anos de experiência e formação em Publicidade e Propaganda | LinkedIn |

Strategist na R/GA, observadora de gente e entusiasta de multiculturas. É co-fundadora do blog Jovens Planners e já passou por grandes agências como Ogilvy & Mather e DPZ&T. Participou do Bootcamp de Planejamento de Comunicação da Miami Ad School e possui um MBA em Ciências do Consumo Aplicadas pela ESPM.

Mayara Nobre
A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo, em pé, óculos de sol e atividades ao ar livreDe Belém, com 4 anos de experiência e formação em Publicidade e Propaganda | LinkedIn | Twitter | Blog

Especialista em Mkt Dígital e Project Manager na empresa Empatia, já trabalhou com gestão de equipe, planejamento e projeto de conteúdo para clientes como: Boulevard Shopping, Sorveteria Icebode, Cia Paulista de Pizza, Parque Shopping Belém, Sushi Ruy Barbosa, entre outros. Vem se aventurando também como facilitadora na escola Marco Zero, mergulhando nesse universo lindo de dar aulas pelo simples prazer de compartilhar.

Patrícia Moura
Patrícia MouraDo Rio de Janeiro, com 9 anos de experiência e formação em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) | LinkedIn | Twitter | Blog

Planejamento Estratégico e Digital da Heads Propaganda, atendendo Petrobras, O Boticário, Enel Energia, Rede Cityfarma, Eles por Elas – HeForShe ONU Mulheres e Shopping Madureira. Professora de cursos de extensão e MBA da ESPM online com as disciplinas de Mídias Sociais e Comunicação Eficaz em Redes Sociais.

Taís Oliveira
A imagem pode conter: 1 pessoa, óculos e close-upDe São Paulo, com 8 anos de experiência, formação em Relações Públicas e mestranda no Programa de Ciências Humanas e Sociais na linha Cultura, Comunicação e Dinâmica Social na UFABC | LinkedIn | Twitter | Blog

Taís Oliveira (@tais_so), 27 anos. É formada em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas (Conrerp/2: 4318) pela FAPCOM e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais da UFABC, linha de pesquisa Cultura, Comunicação e Dinâmica Social. Dentre os trabalhos no setor público e privado, agências e empresas tem experiência principalmente em mídias sociais na produção de conteúdo, gerenciamento de canais e equipes, planejamento de campanhas, planejamento editorial e atendimento ao consumidor. Atualmente gerencia de forma autônoma a performance digital de marcas e projetos. Co-fundadora e colunista no Versátil RP desde 2009, tem interesse em temas como comunicação, internet e tecnologia, ciências sociais, planejamento, empreendedorismo, cultura digital, diversidade, movimentos e causas sociais.

Verônica Merege
Verônica MeregeDe São Paulo, com 6 anos de experiência e formação em Publicidade e Propaganda | LinkedIn

Digital strategist. A cada dia tento ver menos séries, descobrir novos filmes e terminar mais livros. Especialização em Cinema, Especialização em Gestão de Mkt. É colunista no blog Jovens Planners, de onde foi uma das co-fundadoras.

Vívian Maciel
Vívian MacielDe Curitiba, com 3 anos de experiência e formação em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) | LinkedIn

Assistente de planejamento e quebra-galho de social media na SoWhat. Apaixonada por pesquisa, comportamento e estratégia de marcas deu início a pós-graduação em Branding, pela Universidade Positivo. Colabora no blog Jovens Planners.

Quais os conhecimentos mais requisitados em vagas de mídias sociais/digital?

No terceiro ou quarto período da faculdade, quando intensifiquei a minha busca por um estágio, tive uma ideia que nunca saiu do papel: catalogar as vagas enviadas na lista de e-mail do curso para contar quais eram os requisitos mais pedidos pelas empresas, visando, desta forma, possuir dados concretos do que eu precisava aprender e quais habilidades técnicas precisava desenvolver (para conseguir um estágio). Nessa época, entretanto, eu não sabia direito o que eu procurava enquanto profissional, nem muito menos tinha consciência do que o mercado de trabalho teria a me oferecer.

No ano passado, alguns anos depois dessa ideia que nunca foi para frente, me veio novamente a vontade de fazer algo semelhante. Não lembro perfeitamente de onde ressurgiu esse interesse, mas acredito que foi algo que me apeteceu em algumas das minhas constantes visitas a grupos de vagas no Facebook. Desta vez, além de contabilizar os conhecimentos e habilidades mais requisitados, surgiu também a curiosidade de entender outras particularidades, como as semelhanças e diferenças entre as descrições das vagas por áreas e o modo como elas se relacionam ou se diferenciam entre si. Depois de postergar a ideia por mais um tempinho (alguns meses), pude finalmente colocá-la em prática com uma metodologia completamente exploratória que pensei para a execução.

Fiz o seguinte: pedi a uma amiga dona de um grupo de vagas no Facebook focado em digital/social que rapidamente tornasse o grupo público para que eu pudesse puxar os dados dos posts com a netvizz. Como a base era muito grande (e eu apenas uma pessoa), optei por tratar apenas um ano de posts de vagas naquela comunidade. Com os dados no Excel, a única classificação que fiz foi referente à vaga/área daquele post, para que pudesse tratá-los em categorias no momento da análise. No entanto, considerei apenas as vagas que traziam, junto ao anúncio em si, pelo menos um requisito ou função daquele trabalho – afinal, era a partir desse recorte que seria feita a análise por vaga/área. Para fazer a contagem, utilizei a Voyant Tools e listei os termos mais frequentes, criando um ranking com comando simples de COUNTIF no próprio Excel.

O resultado desse trabalho eu compartilho humildemente logo abaixo. A intenção é mostrar aos estudantes, estagiários e aspirantes quais conhecimentos e habilidades eles precisam desenvolver para seguir uma carreira nas seguintes áreas. Com isso em mãos, é possível procurar por cursos específicos, treinamentos online, tutoriais de ferramentas, etc. Ratifico também que a classificação das áreas/vagas que criei foram baseadas no meu post original sobre a Profissão Social Media, ou seja, há algumas generalizações – como a complexa área de Criação, por exemplo. Além do mais, deixei de fora cargos como Atendimento, Gerente de Projetos, UX, Desenvolvedor Front-end, dentre outras, que estão relacionadas ao universo de digital (proposto pelo grupo), mas que não se encaixam no conteúdo do blog.

Business Intelligence

A área de Business Intelligence, assim como quase todas as outras, não é essencialmente de mídias sociais. No entanto, como tem mostrado a pesquisa d’O profissional de inteligência de mídias sociais nos últimos anos, o termo foi apropriado pelos profissionais da área de comunicação que viram na internet (e, mais especificamente, nas mídias sociais) uma ascensão da preocupação com a mensuração de resultados principalmente nas plataformas online. Além disso, o próprio termo “inteligência” se tornou um aparato argumentativo importante para mostrar às empresas como os dados (tanto de mídias sociais como quaisquer outros de negócios) eram capazes de gerar valor à marca.

O foco no valor (e, principalmente, nos números) explica por que Matemática é a Formação mais requisitada dentre todas as vagas analisadas. Aliás, a maioria das formações ou são ou dialogam diretamente com a área de exatas: Administração, Economia, Engenharia, Ciência da Computação, Física e Sistemas da Informação. De intrusas, Publicidade aparece no top 3 (após Administração) e Comunicação Social está no final da lista. Com um nível de sofisticação em alta, principalmente para saber mexer nas diversas ferramentas listadas a seguir, saber Inglês é pré-requisito – bem distante de Espanhol, mas que também pode ser um diferencial; aqui, vale citar que Português nem chega a ser citado, não porque não é importante, mas porque é o básico do básico do básico.

A lista de Ferramentas exigida é provavelmente a maior dentre todas as áreas: são ferramentas de métricas (Google Analytics, Facebook Insights, YouTube Analytics), de mídia (Google Adwords, Facebook Ads, Twitter Ads) e análise/dataviz (Microsoft Excel, Tableau, Qlikview, Microsoft PowerPoint). Destacam-se também principalmente, além das ferramentas nativas das plataformas, as de monitoramento (Scup, Socialbakers, Brandwatch) e as de mídia programática (DSP, DMP, DCM, Adserver). Embora o termo de BI tenha sido apropriado majoritariamente por profissionais de monitoramento/métricas, é possível perceber o quanto o mercado tem caminhado para um lado mais focado em mídia, para pensar estrategicamente (quase de forma científica) a análise e aplicação dos dados.

Isso fica ainda mais evidente quando observamos os Conhecimentos mais requisitados. Além de pedir habilidades intrapessoais como Raciocínio Lógico e Capacidade Analítica, são pedidos diversos conhecimentos com relação à manipulação para análise de dados, seja como “habilidade geral” (CRO, SEO) ou em ferramentas específicas como Excel (VBA, Macro, ProCV). Os conhecimentos de Séries Temporais e Regressões também indica uma inclinação à Ciência de Dados, ratificado pela exigência tímida porém “diferencial” em várias vagas quanto a Linguagens de programação (destaque para SQL, Python e R).

Confira o ranking completo abaixo:

Formação
  1. Matemática
  2. Administração
  3. Publicidade
  4. Economia
  5. Engenharia
  6. Ciência da Computação
  7. Comunicação Social
  8. Física
  9. Sistema de Informação
Conhecimentos
  1. Capacidade analítica
  2. Tagueamento
  3. Raciocínio lógico
  4. Estatística
  5. SEO
  6. CRO
  7. Heatmap
  8. VBA
  9. Macro
  10. ProCV
  11. Séries Temporais
  12. Regressões
  13. Inbound
Ferramentas
  1. Google Analytics
  2. Excel
  3. Adwords
  4. Facebook Ads
  5. PowerPoint
  6. Tableau
  7. Facebook Insights
  8. Adobe Omniture
  9. Pacote Office
  10. Qlikview
  11. YouTube Analytics
  12. Tag Manager
  13. Scup
  14. Socialbakers
  15. Twitter Ads
  16. Adservers
  17. Data Studio
  18. Keynote
  19. LinkedIn Ads
  20. Twitter Analytics
  21. DSP
  22. comScore
  23. Alteryx
  24. Audience Center
  25. Brandwatch
  26. DCM
  27. Flurry
  28. Iconosquare
  29. MixPanel
  30. Quintly
  31. Radian6
  32. Salesforce
  33. Klipfolio
  34. SEM Rush
  35. Stilingue
  36. Teallium
  37. DMP
  38. Navegg
Linguagens
  1. SQL
  2. Python
  3. R Programming
  4. R Stats
  5. HTML5
  6. JavaScript
  7. PHP
  8. ASP

Community Manager

Diferentemente da área de BI, Community Manager (como o próprio nome já indica, Gerente de Comunidade) não é uma “área”, mas especificamente um cargo. No entanto, também como BI, é um termo que se popularizou com a profissionalização do mercado de mídias sociais. Embora o título e a função varie de acordo com as empresas e (talvez principalmente) regionalmente, segundo descrição da trampos, “a função do Community Manager (CM) consiste em criar conteúdos e fazer interações de acordo com a linguagem da marca”. É o famoso “heavy user” de mídias sociais (sem querer soar pejorativo), só que profissionalizado.

Antes de entrar nos requisitos, preciso eticamente ratificar que a base de dados para a análise do cargo foi bem escassa. Isso é um reflexo também da “impopularidade” do termo, que ainda tenta se consolidar no mercado – mas também se refere ao período “curto” de recorte da análise (apenas um ano). Ainda assim, de acordo com as vagas divulgadas e fazendo também uma correlação com a matéria anteriormente citada, é possível perceber como o CM é um “Social Media evoluído”. Ele analisa, produz e responde. É o responsável por uma comunidade inteira. Em outras palavras, é o “social media” que deu certo.

Por isso os Conhecimentos mais requeridos são tão diversos: Redação, Monitoramento (que também detém as ferramentas mais citadas, Scup, Seekr e Buzzmonitor), Gestão, SAC, Planejamento, Performance (aqui, Facebook Ads). No entanto, eu argumentaria – mais pela análise quali do que quanti – que a função de Community Manager atravessa principalmente as áreas de planejamento, criatividade e relacionamento (o trabalho de monitoramento serve como base desse trabalho). Ainda assim, faço o mea culpa e ratifico que o banco de dados foi muito pequeno para tentar desenvolver qualquer argumentação sólida. Espero poder desenvolver algo maior e mais concreto ainda este ano.

Criação

 

Como mencionei na série Profissão Social Media, generalizei bastante a área de Criação – embora não tenha nada incongruente, apenas ratifico que coloquei diferentes funções técnicas no mesmo guarda-chuva criativo. Isso quer dizer que aqui temos Redatores, Designers (só aqui há várias ramificações de trabalho, para Web, UX, etc.), Diretores de Arte, Conteudistas em geral, dentre outros. No entanto, o foco é praticamente o mesmo para todos eles: são esses famosos criativos que vão elaborar o produto final – seja uma peça, um site, um banner, um vídeo, etc. É importante lembrar que o grupo onde foi feita a análise é de vagas para “digital”, ou seja, não há apenas trabalhos específicos para mídias sociais, mas engloba outras vertentes do online também.

A Formação que mais se destaca, como já era de se esperar, é Publicidade – e suas vertentes de Marketing. Em seguida, temos Comunicação Social, Design, Jornalismo e Administração. É curioso perceber, no entanto, como as vagas têm seguido um caminho para além da criação comum que conhecemos – dialogando cada vez mais com a frente de desenvolvedores e programadores. Os Conhecimentos em UX, UI, CSS e até mesmo SEO mostram como a área criativa está se adaptando à tecnologia (também, de certa forma, a partir de dados). Outros conhecimentos como Inbound, Monitoramento e Métricas reforça o caráter digital atribuído à área, que tem na internet um vasto campo de desenvolvimento tanto para dentro (pensando os profissionais) quanto para fora (pensando os usuários/consumidores).

Dentre as Ferramentas mais citadas, temos principalmente o famoso Pacote Adobe: Photoshop, Illustrator, InDesign, After Effects e até o DreamWeaver. No entanto, encontramos também várias outras consequentes do cenário digital, como WordPress para blog; Google AnalyticsScup, Seekr e Buzzmonitor para monitoramento e métricas; Hubspot e RDStation para inbound/e-mail marketing; Instamizer e Hootsuite para gestão, dentre outras. Esse cenário mostra que os criativos não vão deixar de lado seu cerne de criatividade, mas estão se adaptando às novas realidades interacionais digitais que podem vir a sustentar vários dos seus insights de criação.

Para você que trabalha com esta área, vale reforçar a importância de um portfólio (mesmo que seja óbvio, apareceu na nuvem de tags mas não coloquei em nenhuma categoria porque não se encaixava, embora fosse constante). Destaco também, além de mergulhar nos estudos sobre tecnologia (apenas reforçando), vários casos em que a vaga pedia por pessoas “apaixonadas” por certo universos – principalmente entretenimento, cultura pop e games. A Nathália Capis, no curso da CoLab, ratificou essa importância de desenvolver projetos paralelos que não apenas criem portfólio, mas (e talvez principalmente) mostre um pouco mais sobre você.

Ferramentas
  1. Photoshop
  2. Illustrator
  3. InDesign
  4. WordPress
  5. Pacote Adobe
  6. Blog
  7. Pacote Office
  8. Premiere
  9. After Effects
  10. Google Analytics
  11. Dreamweaver
  12. Sketch
  13. Scup
  14. Seekr
  15. Buzzmonitor
  16. Excel
  17. Adwords
  18. PowerPoint
  19. Socialbakers
  20. Hubspot
  21. Hootsuite
  22. MLabs
  23. Instamizer
  24. iMovie
  25. Hugme
  26. Gain
  27. Adobe Muse
  28. Adobe Flash
  29. Bootstrap
  30. Unbounce
  31. RDStation
  32. Corel
  33. Animate
  34. Prezi
Conhecimentos
  1. UX
  2. UI
  3. CSS
  4. SEO
  5. Inbound
  6. Gestão
  7. Tipografia
  8. Métricas
  9. JavaScript
  10. Edição de Vídeo
  11. Monitoramento
  12. Estatística

CRM

Assim como a base CM, as vagas de CRM também foram relativamente baixas (comparada às demais). No entanto, acho importante falar sobre essa área aqui porque vejo vários conteúdos abordando o assunto mas pouco falando sobre a profissãoCRM é a sigla em inglês de “Customer Relationship Management” (Gestão de Rleacionamento com o Cliente), cuja descrição da Salesforce explica bem: “se refere a um conjunto de práticas, estratégias de negócio e tecnologias focadas no cliente que, desde pequenas e médias, até grandes empresas, podem utilizar para gerenciar e analisar as interações com seus clientes, antecipar suas necessidades e desejos, otimizar a rentabilidade e aumentar as vendas e a assertividade de suas campanhas de captação de novos clientes.”

Assim como BI, o termo foi nos últimos anos apropriado pelas ferramentas de monitoramento de mídias sociais que também associam frequentemente esse trabalho ao famoso SAC 2.0. Deste modo, CRM/SAC 2.0 se consolida no mercado simplesmente como relacionamento com cliente, muitas vezes focado apenas na interação e sem dar a devida atenção ao valor que essa interação, quando transformada em dados, pode gerar às empresas. No Brasil, vários casos de interação entre marcas e clientes (bancos, varejos, etc.) viraram “cases” de mídias sociais, na era áurea da popularização e profissionalização do mercado. Nos últimos anos, no entanto, os usuários se acostumaram com as mirabolanças (sem querer soar pejorativo) e há pouco destaque para esses casos.

Seguindo, enfim, para as vagas, percebemos que não há preferências quanto à Formação: Publicidade, Jornalismo, Administração, Relações Públicas, Comunicação Social e até Sistemas de Informação aparecem com números semelhantes. Nos Conhecimentos, Monitoramento e Gestão se destacam, seguidos de habilidades de Redação e SAC. E as ferramentas seguem em consonância: Excel, Pacote Office, PowerPoint, Photoshop, Google Analytics, Scup (monitoramento), Illustrator e Salesforce (monitoramento/CRM). É importante pontuar que algumas dessas habilidades, novamente, ultrapassam as “barreiras” das mídias sociais – isso acontece porque, no grupo, algumas vagas de analista de CRM englobam tanto mídias sociais quanto e-commerce, por exemplo.

Assim como as demais áreas de dados, há uma tendência cada vez maior de integrar as informações das mídias sociais a demais informações de negócios. Embora isso seja essencial e urgente, acho que ainda falta um debate mais humano de como trabalhar o relacionamento com os usuários (não apenas clientes) de maneira sofisticada. Geralmente são grandes empresas que têm esse cuidado, principalmente banco (Bradesco, Itaú, etc.), que precisam desse fluxo de atendimento, mas também outras grandes companhias como Coca-Cola, Vivo, Avon, dentre outras.

Métricas

Enquanto fazia a classificação das vagas, fiquei na dúvida se unia os cargos de Métricas e monitoramento ou trazia de forma separada. Embora as duas atividades sejam bastante entrelaçadas no mercado (como a própria nuvem de palavras ilustra), achei que seria melhor tratá-las separadamente – até porque a maioria das vagas tinham funções específicas de monitoramento ou métricas (sem contar os cargos mais expandidos de BI, que já considerei de forma distinta anteriormente). As vagas daqui, portanto, são específicas de métricas – em sua nomenclatura.

Assim como Business Intelligence, a área de Métricas têm valorizado cada vez mais Formações em cursos de exatas: Administração, Matemática, Estatística, Economia e até Engenharia aparecem dentre as mais citadas, com Publicidade correndo por fora. Isso é reflexo de uma “cultura de dados” cada vez mais consolidada no país: de acordo com uma pesquisa da MediaMath em parceria com o Winterberry Group, “36% dos executivos aumentaram seus investimentos em marketing e publicidade orientados por dados, em comparação com 26% no ano anterior”. No entanto, há um recorte regional importante a ser considerado nesse contexto, como bem pontuou José Calasanz neste post – e que é refletido na minha análise, já que a maioria das vagas são de São Paulo.

De qualquer forma, esta é uma realidade que (mesmo que encontre certas dificuldades de se consolidar em alguns mercados específicos) não tem volta. A supremacia do Excel no topo da lista de Ferramentas mostra como tratar e analisar dados (das mídias sociais ou não) é uma prioridade de várias empresas. Destacam-se também ferramentas próprias (Google Analytics, Facebook Insights, YouTube Analytics) e de monitoramento (Scup, Socialbakers, Buzzmonitor, Seekr, Sprinklr). Ao que parece, as vagas de métricas têm nível mais Jr./Pleno, sendo atribuídas funções e o papel de Cientista de Dados mais aos profissionais Sênior, na área de BI. Não tenho certeza, mas essa é a impressão que eu tenho.

Formação
  1. Administração
  2. Matemática
  3. Estatística
  4. Publicidade
  5. Economia
  6. Engenharia
Ferramentas
  1. Excel
  2. Google Analytics
  3. PowerPoint
  4. Scup
  5. Facebook Insights
  6. YouTube Analytics
  7. Socialbakers
  8. Buzzmonitor
  9. Adobe Analytics
  10. Seekr
  11. Quintly
  12. Sprinklr
  13. Adserver
  14. Tag Manager
  15. IBM Coremetrics
  16. Webtrends

Mídia

As vagas para a área de Mídia foram, disparadamente, as mais frequentes dentre o recorte da análise. De modo superficial, pode-se atrelar esse fator a duas questões relevantes: 1) como já comentei neste post, não há mais como atuar nas mídias sociais sem pagar pedágio – muito recentemente o Facebook anunciou que tem mais de 5 milhões de anunciantes; 2) novamente, reitero que o grupo não limitava as vagas à área de mídias sociais, ou seja, algumas das posições analisadas englobavam não apenas o universo de social, mas geralmente solicitava um conhecimento mais amplo dos profissionais – como fica evidente na lista de ferramentas, por exemplo, onde várias delas são provenientes de mídia programática.

Aqui é interessante perceber que, embora seja uma área com uma abundância (e relevância) de dados cada vez maior, a Formação em Publicidade se mantém como mais requisitada em números bem além das segunda colocadas, Matemática e Estatística. Aliás, dentre todas as áreas já citadas, esta leva o título de maior variedade entre as formações: Economia, Comunicação Social, Administração, Jornalismo, Relações Públicas, Ciências Humanas e Engenharia. O conhecimento da língua inglesa também foi bastante reforçado em várias oportunidades, o que mostra uma exigência mais clara e talvez dialogue com o fato de que várias das ferramentas utilizadas são completamente em Inglês. Como diferencial que pode gerar valor ao candidato, o Espanhol também aparece com bem mais frequência do que nas demais áreas.

Ao observarmos os Conhecimentos, percebemos o que mencionei anteriormente, para além das mídias sociais: são fatores de mídia digital como um todo (Display, Search, Links Patrocinados, Shopping, Remarketing, SEO, Retargeting, Dashboards, Inbound) e de mídia programática (RLSA, Truview). Dentre as ferramentas, essas categorias se repetem: mídias de social (Facebook Ads, Twitter Ads, LinkedIn Ads, Instagram Ads, Power Editor), mídia digital (Adwords, Google Analytics, Bing Ads), mídia programática (DSP, DCM, Bid Manager, Adservers, ) e ferramentas de pesquisa de mídia “tradicionais (TGI, Ibope, ComScore, Ipsos) – a lista completa você confere abaixo. Se você é um profissional em busca de realocação, saiba que o mercado de mídia (digital, não apenas social) é pulsante.

Formações
  1. Publicidade
  2. Estatística
  3. Matemática
  4. Economia
  5. Comunicação Social
  6. Administração
  7. Jornalismo
  8. Relações Públicas
  9. Ciências Humanas
  10. Engenharia
Conhecimentos
  1. Display
  2. Programática
  3. Search
  4. Links Patrocinados
  5. Shopping
  6. Remarketing
  7. SEO
  8. Native Ads
  9. Dashboards
  10. Tagueamento
  11. Inbound
  12. Retargeting
  13. RLSA
  14. Trueview Bumper Ads
Ferramentas
  1. Adwords
  2. Excel
  3. Facebook Ads
  4. Google Analytics
  5. PowerPoint
  6. Twitter Ads
  7. LinkedIn Ads
  8. Adservers
  9. Ibope
  10. Instagram Ads
  11. Power Editor
  12. ComScore
  13. Bid Manager
  14. Pacote Office
  15. TGI
  16. DBM
  17. Tag Manager
  18. DSP
  19. Turn
  20. DCM
  21. Hubspot
  22. Bing Ads
  23. Kenshoo
  24. Workstation
  25. Planview
  26. Mailchimp
  27. Supermetrics
  28. Klipfolio
  29. DMPS
  30. Ad Espresso
  31. Melt
  32. Business Manager
  33. DataXu
  34. Critix
  35. Yahoo Search
  36. Marketing
  37. Ipsos
  38. SEMrush
  39. Adobe Site Catalyst
  40. Criteo

Monitoramento

Há duas frentes que tomaram conta do trabalho de Monitoramento no mercado: a primeira, diz respeito aos cargos e funções que usam o monitoramento apenas como aporte tecnológico para interações e relacionamento com cliente (CRM, como já citado aqui); já a segunda, tão comum quanto, está relacionado a performance/buzz, ou seja, usar do monitoramento para avaliar a receptividade do público perante alguma situação (lançamento de uma campanha, ação, produto novo, etc.). Não que essas atribuições sejam rasas, mas há de se lamentar o potencial subutilizado do monitoramento de mídias sociais. Estudos de público, audiência, segmentos, personas e muitas outras análises mais profundas que não condizem com as realidades urgentes das agências de comunicação.

Diferente das demais áreas correlatas de dados, as vagas de monitoramento têm no escopo de Formação certa variedade: Comunicação Social, Relações Públicas, Sociologia, Jornalismo, Publicidade e até Matemática. No Idioma, Inglês aparece com certa frequência e Espanhol vem como diferencial – geralmente em vagas de empresas com bases na América Latina, como a LATAM. Dentre os Conhecimentos, noções de métricas são bastante valorizadas, além de tagueamento e CRM. É interessante perceber como há uma associação com métricas que parte mais daqui para lá do que de lá para cá. Talvez isso esteja associado ao fato de que o monitoramento foi associado a métricas no contexto de mídias sociais, mas web analytics surgiu e se consolidou de forma independente.

Dentre as Ferramentas, a predominância de plataformas de monitoramento como era de se esperar: Scup, Socialbakers, Seekr, Sprinklr, Brandcare, Tweetdeck, Radian6, Brandwatch, Vtracker – fora dessa curva, mas ainda se destacando, estão Pacote Office: principalmente Excel e PowerPoint. Há também, entretanto, ferramentas de métricas (Facebook Insights, Twitter Analytics, YouTube Analytics, Google Analytics – além das próprias ferramentas de monitoramento que também trazem módulos específicos de analytics) e até de mídia (Facebook Ads). Comparado às demais áreas “de exatas”, entretanto, a lista é relativamente curta – mais importante do que saber manusear, é saber “estrategicizar”.

Formação
  1. Comunicação Social
  2. Publicidade
  3. Relações Públicas
  4. Jornalismo
  5. Sociologia
  6. Matemática
Conhecimentos
  1. Métricas
  2. Tagueamento
  3. CRM
Ferramentas
  1. Scup
  2. Excel
  3. Socialbakers
  4. Seekr
  5. PowerPoint
  6. Facebook Insights
  7. Twitter Analytics
  8. Sprinklr
  9. Brandcare
  10. Tweetdeck
  11. YouTube Analytics
  12. Radian6
  13. Pacote Office
  14. Quintly
  15. Brandwatch
  16. Facebook Ads
  17. Vtracker
  18. Google Analytics

Planejamento

Como a nuvem de palavras já indica, o profissional de Planejamento precisa ter um amplo guarda-chuva de conhecimentos sobre várias e diferentes nuances de negócios/comunicação (social e digital) – mesmo que esse não seja aprofundado, mas pelo menos relativamente sólido. Entrarei em mais detalhes sobre a função no próximo capítulo da série Profissão Social Media, mas achei interessante pontuar esse fator porque é algo que tenho visto constantemente em artigos, debates e materiais sobre a área – em suma, é esse lema: repertório importa (e muito!).

Nas vagas analisadas, foram poucas que exigiram especificamente alguma Formação para o cargo – dentre esse seleto grupo, apareceram Publicidade, Comunicação Social e (para destoar completamente) Estatística. A proficiência em Inglês, entretanto, foi ressaltado em diversas oportunidades, sendo o Espanhol tratado novamente como diferencial (semelhante ao Monitoramento). Os Conhecimentos estão em consonância com o que falei anteriormente (de tudo, um pouco): Performance, Métricas, UX, Monitoramento, Inbound, Web Analytics, CRM, SEO, Design Thinking.

Na lista de Ferramentas, que também segue essa pluralidade de conhecimentos, acho interessante pontuar um fato curioso: foi a primeira vez que o PowerPoint apareceu na frente do Excel dentre todas as áreas – se juntar com a frequência do Keynote, dispara ainda mais. No mais, temos ferramentas de mídia (Adwords, Facebook Ads), de métricas (Socialbakers, Google Analytics, Omniture), de monitoramento (Scup, Seekr) e de criação (Photoshop, FinalCut). Arrisco dizer que, para trabalhar com planejamento, é preciso ter mais habilidades “qualitativas” do que técnicas (além do já mencionado repertório).

Conhecimentos
  1. Performance
  2. Métricas
  3. UX
  4. Monitoramento
  5. Inbound
  6. Web Analytics
  7. CRM
  8. SEO
  9. Design Thinking
Ferramentas
  1. PowerPoint
  2. Excel
  3. Keynote
  4. Adwords
  5. Facebook Ads
  6. Socialbakers
  7. Google Analytics
  8. Scup
  9. Omniture
  10. Seekr
  11. Adservers
  12. Twitter Ads
  13. LinkedIn Ads
  14. Photoshop
  15. FinalCut
  16. iMovie
  17. TGI

Social

Por fim, analisei as vagas cujo título remetiam de alguma forma ao trabalho de Social Media (ou simplesmente Social). Embora haja um argumento de que essa realidade generalista esteja um pouco ultrapassada, há ainda grande demanda por esses cargos “faz-tudo” – na base que analisei, ficou atrás apenas de Mídia em número de oportunidades. No entanto, o que percebo é que, diferente das demais áreas, este cargo não tem uma “funcionalidade” específica, é mais uma atribuição para indicar que: 1) o trabalho é voltado para mídias sociais e/ou; 2) você vai fazer de tudo, um pouco.

Dentre as Formações mais citadas, não há grande variedade: Publicidade, Jornalismo, Relações Públicas e Comunicação Social. Inglês é essencial e um bom Português também é pré-requisito, enquanto Espanhol continua sendo diferencial para algumas oportunidades específicas. E o profissional “faz-tudo” se concretiza ao observarmos os Conhecimentos solicitados: monitoramento, planejamento, redação, gestão, SAC, métricas, SEO, performance e web analytics. Uma vaga trouxe especificamente o pedido por: “planejamento, produção de conteúdo, programação de postagens, pesquisas de concorrentes, monitoramento e SAC”.

Todos esses tentáculos de conhecimento também se traduzem nas ferramentas, que podem ser consideradas básicas para quem trabalha no mercado, sem nenhum aprofundamento em área mais específica. Facebook Ads, Excel, Google Analytics, Photoshop, Adwords, Scup, Sprinklr, Socialbakers, Twitter Ads, LinkedIn Ads, Pacote Office, Buzzmonitor e Illustrator. Segundo o mercado, é só isso que você precisa para ser um social media e ter sua própria eu-quipe. Não que conhecimento não seja bom, mas conhecimento qualificado tem mais valor do que conhecimento generalizado.


Antes compartilhar alguns apontamentos finais, só por curiosidade, compartilho o “ranking” geral (Conhecimentos, Ferramentas, Formação, Linguagens) com todas as áreas juntas – e já deixo meu adendo: se você quiser trabalhar com digital/mídias sociais, é melhor garantir a proficiência em inglês e aprender o máximo possível de Excel:

Considerações finais

  1. Agradeço a Mariana Oliveira, dona do grupo VAGAS do <3 – Social, BI, Mídia, Digital, por ter proporcionado o trabalho. Sem isso, não teria análise! Muito obrigado, Mari <3
  2. Agradeço também a Mayara Mendes e Anna Carolina, que me ajudaram na classificação das mais de 600 vagas que coletei no período de um ano; a Ana Cláudia Zandavalle, Juliana Freitas e Kaique Oliveira, que tentaram me ajudar a não cometer gafes.
  3. Feitos os agradecimentos, algumas ressalvas importantes: este foi um projeto bem exploratório. Eu fiz (quase) tudo manualmente, na unha, apenas com o intuito de tentar levantar um cenário razoavelmente sólido do mercado.
  4. Houve, por exemplo, alguns “empecilhos” metodológicos: algumas vagas divulgam textos apenas em inglês (o que não impossibilita puxar o nome de ferramentas, mas dificulta como um todo), outras nem requisitos apresentam – apenas divulgam a oportunidade; dentre outras coisas.
  5. Peço desculpas e um pouco de paciência caso eu tenha cometido alguma gafe ao falar sobre áreas que desconheço, principalmente Mídia. Se há alguma correção a ser feita, por favor, peço a sinalização para que eu possa consertar no texto.
  6. Reforço que foi um estudo exploratório. Há muita coisa que poderia ser feita (e espero que seja, algum dia): analisar um recorte maior para conferir a evolução dos requisitos de mesmos cargos; verificar as demandas por grupos e (principalmente) por estados; usar uma base de dados mais ampla, como de sites específicos de vagas para ampliar as informações; dentre várias outras coisas.
  7. Com uma demanda e oferta cada vez maior de cursos livres de mídias sociais e marketing digital, esse é um tipo de estudo que pode ajudar muito a elaborar cursos pensados em caixinhas para profissionais e áreas específicas.
  8. Não sei se tenho permissão para divulgar publicamente a planilha porque há informações razoavelmente restritas nela, mas pode entrar em contato que tentamos conversar alguma maneira de fazer isso.
  9. Obrigado!

CoLab Social Media: conteúdo, criatividade e comunidades (6/6)

E chegamos, enfim, à conclusão do curso CoLab Social Media da Trespontos. Foram nove módulos e seis posts: 1) comportamento do consumidor e planejamento estratégico para as mídias sociais; 2) real-time marketing; 3) mídia online (plataformas, estratégias e práticas); 4) métricas, relatórios e dataviz; 5) monitoramento; 6) e, agora, por fim, conteúdo, criatividade e comunidades. Uma carga-horária de 40h de material com um time de feras com muito conteúdo, de fato, a oferecer: Vivian Jung (LiveAD), Felipe Attílio (W3haus), Kelli Lima (Mirago), Julie Teixeira (Remix), Marcel Ayres (COM) e Nathália Capistrano (Artplan). Antes de me despedir, entretanto, preciso continuar a minha missão de compartilhar conhecimento desta vez com os últimos dois módulos da formação: conteúdo e comunidades.

Preciso ratificar que Nathália Capistrano fechou com chave de ouro o curso. E o curioso é que eu não sei exatamente o porquê, uma vez que a área de criação nunca me apeteceu (e, de certo modo, eu sempre me afastei propositalmente). No entanto, a publicitária formada em Design que trabalha como supervisora de criação na Artplan parece ter uma capacidade incrível de fisgar a atenção do aluno para ouvir o que ela tem a dizer – qualidade essa que só tinha conhecido em outra professora ao conhecer o trabalho da Dani Rodrigues. Ou seja, prestei (muita) atenção a tudo que ela tinha a dizer, compartilhar, até mesmo não sendo a minha área. Talvez o fato de que ela fez uma “contextualização histórica” do trabalho e do mercado também tenha me fascinado, já que esse sim é um tema que me chama a atenção e que eu tenho bastante curiosidade de entender o panorama que se desenvolveu na última década.

Foi muito interessante, portanto, descobrir que um dos primeiros trabalhos de mídias sociais no Brasil começou há praticamente 10 anos, no Orkut: ela começou fazendo “seeding”, que era basicamente entrar em comunidades importantes para as marcas e tentar gerar conversas a respeito de algum assunto determinado que tivesse relação com o universo da empresa. Eu gostaria muito de ler algo a respeito de uma espécie de genealogia histórica das mídias sociais a partir do trabalho das marcas. Há uma tentativa desse registro no capítulo “O mercado de inteligência de mídias sociais” da Ana Cláudia Zandavalle para o livro do IBPAD, mas como as constatações são baseadas em dados da pesquisa do profissional de monitoramento/métricas (inteligência) que começou apenas em 2011, há uma lacuna histórica entre a realidade contada pela designer e o registro do livro – sem contar também o recorte para o mercado de inteligência. Ou seja, fica aí uma dica de projeto bacana.

Acho mais do que importante ter esse registro histórico porque precisamos, enquanto mercado, ter uma noção de onde viemos e para onde pretendemos ir. Ela conta que, no início da década (ou seja, o Orkut já estava praticamente morto), o cenário era meio esquizofrênico: as marcas tinham como premissa que precisam entregar o máximo possível de conteúdo aos clientes para que elas não perdessem a sua atenção, portanto, havia uma curadoria de links e várias postagens por dia; não satisfeitas, ainda buscavam uma onipresença em todas as mídias sociais simplesmente como forma de marcar território – e, na maioria dos casos, o conteúdo era replicado em diferentes plataformas; ainda não satisfeitas, muitas vezes criavam uma página/perfil para cada produto ou iniciativa da marca, ou seja, uma presença confusa e difusa. Era também dessa época o mito do crescimento orgânico (importante já que o orçamento para digital era quase nulo ou inexistente), após a popularização estrondosa do Facebook, que nos faz refém até hoje.

“O always on é sempre estar presente onde os usuários/consumidores/público-alvo está. Era muito encarado duma forma que tínhamos que ter três posts por dia, estar com minha grade de conteúdo amarradinha, porque senão eu não sou mais relevante para essa pessoa, ela vai esquecer de mim, vai me trocar pelo meu concorrente. O always on começou a ser repensado, ele não é mais encarado da mesma forma. Você não precisa ter a sua ‘gradezinha’ de post e vender isso como um produto de prateleira pro seu cliente. Agora a gente está falando de pensar nos posts e no conteúdo de uma forma mais inteligente, e não simplesmente para cumprir uma tabela (um fee que ele te pague). ‘Essa mensagem aqui é importante, como vamos fazer, qual formato vamos utilizar?’ E isso mudou a forma que a gente tem de pensar.”

Esse cenário parecia caótico e realmente bem confuso: ela conta que as empresas não enxergavam muito valor no trabalho (não convertia, não rendia vendas rapidamente, etc.) e os profissionais também não tinha muita noção de como monetizar os esforços, além de não ter ideia do valor agregado ao trabalho de branding nas mídias sociais. É claro que, já naquele momento, havia iniciativas de agências, empresas, institutos e até mesmo profissionais para comprovar o valor do trabalho de social media. No entanto, foi uma evolução gradual e bastante custosa – literalmente: o pay to play mudou o jogo. Já num contexto onde o Facebook era o rei, Mark começou a mostrar suas asinhas e matou o alcance/crescimento orgânico, o que acabou forçando as marcas a reverem suas estratégias digitais (o investimento em mídia já não era mais opcional, mas indispensável). Nas palavras da própria: “Foi péssimo na época mas foi importante para profissionalizar o mercado”.

Nesse processo de mutação constante e contínua, as grandes marcas conseguiram se adequar (aos trancos e barrancos) e as pequenas e médias empresas foram quem mais sofreram, embora algumas tenham conseguido triunfar perante os novos desafios. Se antes a ideia era que uma marca precisava ser uma espécie de revista eletrônica dos temas que lhe interessavam, hoje temos um cenário com aspecto mais publicitário, onde preza-se pela produção de conteúdo único e proprietário das marcas através da fórmula: genialidade criativa + investimento em mídia. E como traz Capistrano, os desafios não param por aí: temos hoje uma saturação das redes, com muitas marcas produzindo muito conteúdo; uma aversão às marcas  (uso crescente de ad block); uma preocupação consolidada com privacidade e veracidade, ou seja, transparência (já temos nível de maturidade para entender que as marcas querem vender, mas há maneiras de engajar o cliente de forma útil); uma avalanche de conteúdo por marcas, amigos, (web)celebridades, políticos, etc.; dentre várias outras coisas.

Alguns fatores que transformaram o cenário nos últimos anos, segundo Nathália Capistrano

#1 O mobile mudou o jogo: estamos online o tempo inteiro – “entrar” na internet já não é mais um evento específico do dia-a-dia, mas uma constante da nossa vivência

#2 Tudo é conteúdo: post, tweet, foto, snap, vídeo, gif, 360, listas, passo a passo, quizz, playlist, live, blog/vlog, ebook, tutorial, etc. – os meios são diversos, ou seja, há infinitas possibilidades de entregas criativas

#3 Vídeos dominaram (nova velha forma de se comunicar): planos 3G/4G acessíveis, wifi liberadas, autoplay, mudança de comportamento, on demand, consumidos sem áudio, legendas, hook inicial em até 5s – todos esses aspectos são importantes a serem considerados por produtores de conteúdo

#4 Tempo real virou uma demanda: tudo em tempo real (respostas, interações, eventos, memes, etc) – é tudo aqui e agora

#5 O monitoramento também evoluiu: não é mais manual, é mais sofisticado – o mercado se profissionalizou

#6 A integração on e off é crucial – TUDO É INTEGRADO.

O cenário atual, portanto, é mais desafiador, mais complexo e mais sofisticado – as empresas já sabem o valor do trabalho em social/digital, mas será que sabem como deve ser feito? Talvez essa tenha sido a indagação que mais me animou para escrever este post final. Isso porque praticamente no mesmo dia que assisti a esse módulo, recebi uma proposta de freela que pedia: “alguém que gerencie e crie conteúdo para facebook (1x por dia/ 5x por semana), instagram (1x por dia/ 5x por semana) e blog (1 ou 2x por semana)”. Ou seja, o cenário pode ter avançado e evoluído para os grandes players (marcas, agências e empresas de grande porte), mas realidade diária do trabalho de um social media solitário ainda é bem caricata. Arrisco dizer que a eu-quipe citada no curso e o Analista de Mídias Sociais (ou somente “Social Media) que faz de tudo um pouco (apresentado no capítulo do livro anteriormente citado) é a realidade predominante em todo o país.

Por isso acredito que nós, enquanto profissionais, precisamos nos responsabilizar pela capacitação qualificada do trabalho para explicar às empresas que não se trata simplesmente de fazer umas peças (ou uns posts) para o Facebook. A série Profissão Social Media que teve sua origem embrionária no ano passado e está crescendo aos poucos este ano é (mais) uma das minhas humildes tentativas de qualificar esse cenário. Uma das propostas que tenho para o blog é justamente fazer a ponte entre as realidades luxuosas das grandes agências e as realidades “verdadeiras” de um Brasil de pequenas e médias empresas. Como já disse em outro texto, se, por um lado, as mídias sociais democratizaram o acesso à produção mercadológica de mídia (mensagem, comunicação) para pequenas marcas, também banalizou o trabalho de forma bem irresponsável. Cabe, portanto, aos próprios profissionais, superar os desafios e seguir por um caminho mais sofisticado.

O que podemos fazer, portanto, além de buscar constantes capacitações profissionais de aprendizado, quanto a entregas mais sérias e reais (com foco na área de criação/conteúdo)? Nathália tem algumas dicas:

  1. Alinhar as expectativas do cliente: quais são os objetivos (e os KPIs) definidos? Além de uma entrega quanti (em números), quais devem ser as metas quali (percepções) do trabalho? Ou seja, qual é o problema de comunicação que estamos tentando superar?
  2. Decidir contextos e temas: levando em consideração o trabalho de planejamento, quais serão as áreas criativas que trabalharemos a partir do conhecimento dos produtos, iniciativos e posicionamento da marca?
  3. Aplicar esses contextos e temas em entregas reais de formatos adequados para atingir a meta: em diálogo constante com a área de mídia, como podemos utilizar o melhor que as plataformas têm a oferecer para entregar um conteúdo relevante aos usuários?
  4. Elaborar conteúdos impactantes e de fácil consumo que comunique o conceito da campanha/marca: tendo todas as pontas amarradas com outras equipes, produzir criatividade assertiva.
  5. Incrementar com um investimento em mídia adequada para as possibilidades do cliente: mais uma vez o diálogo com mídia se faz crucial, principalmente no atual contexto das mídias sociais.
  6. Verificar os resultados, aprendemos e evoluímos a partir disso: além das entregas para os clientes, a equipe de monitoramento/métricas também deve ter uma entrega interna para os criativos.

Para finalizar o papo sobre criação e conteúdo, ela ainda oferece mais algumas diquinhas úteis: abre oportunidades, mas sem forçar a barra e tendo cuidado com possíveis retaliações – ou seja, esteja atento à conversa mas tenha cautela para adentrá-la; fuja de formulinhas específicas, afinal, os públicos tendem a ser bem diferentes uns dos outros; crie uma identidade – suas imagens falam! (e ajudam a criar um laço com o usuário); lembre-se da regra da escassez: produza conteúdo único ou de maneira única – as marcas têm que entregar o que os consumidores não esperam de nenhuma outra senão ela; nada supera uma história real, verdadeira, transparente. Criação na prática: se for ad, texto curto, assertivo; se for branded, pode textão, detalhar; para conversão, pode imperativo, impositivo; para engajar, estimule a imaginação; para ter consistência, crie checklist com premissas a seguir nos entregáveis: tom solto, call to action (pra converter), etc.

Tendo colocado esses pontos importantes sobre criação, entramos num assunto que deve ser anterior à produção de conteúdo: comunidades. Parece simples/trivial, mas é provável que a maioria das marcas (pequenas e médias) que atuam nas mídias sociais não conhecem (ou aproveitam, de fato) o seu público. No entanto, são nas comunidades onde acontecem as conversas – seja num post específico, num grupo, num canal, etc. Segundo Nathália, o mercado havia perdido essa preocupação com as comunidades a partir do momento que popularidade virou sinônimo de sucesso (vide as famosas métricas de vaidade), no entanto, há um esforço recente para retomar essa preocupação com o seu público. Afinal, eles são seu (possível) consumidor final – ajudam com pesquisa, relacionamento, etc. Se você não está dialogando com ele, está falando para ou com quem? Há uma tendência recente de investir tudo em mídia sem se preocupar com quem está recebendo aquela mensagem.

As pequenas marcas podem achar que esse trabalho de pesquisa não é apropriado para elas, talvez por não existir uma comunidade ativa em sua página, entretanto, esse público-alvo está em algum outro lugar. É preciso justamente compreendê-lo em sua totalidade para pensar no conteúdo apropriado que irá impactá-lo (em todos os sentidos, tanto emocional quando midiaticamente) e chamá-lo para a sua página.  As comunidades – estando elas nos seus canais próprios ou não – fomentam a produção criativa, ou seja, o que seus seguidores falam ou o modo como se comportam online oferece munição para ideias de ação e conteúdo. Trabalhar com mídias sociais é participar da conversa, sabendo o que falar e em qual momento falar. As empresas precisam entender que são intrusas no ambiente de sociabilidade online, portanto, não podem ser aquele amigo chato com assuntos irrelevantes ou inconvenientes na conversa do bar, mas aquele convidado interessante que tem algo legal para compartilhar com a mesa.

Questões para definir se haverá um esforço pra gerar uma comunidade ou não:

  • Você conhece o seu público? Não demograficamente, mas quanto a comportamento do consumidor/hábitos psicográficos.
  • Ele está maduro para o que você deseja? Há uma congruência entre a sua proposta e o que eles esperam?
  • O que ele anda pedindo? Você sabe o que eles estão dizendo?
  • Você tem defensores e haters?
  • Quão disposto a falar com eles e não para eles você está? Não é mais unilateral, mas um diálogo.
  • Você tem uma equipe para manter essa conversa viva?
  • Sua marca tem muitos pontos fracos ou problemáticos?

A partir disso entramos em outro assunto bastante delicado, mas em constante debate: influenciadores – e eu vou dar alguns pitacos pessoais. Primeiro preciso dizer que me espanta quando vejo a desdenha que alguns profissionais da área tratam esses produtores de conteúdo quando vejo notícias sobre os mesmos em grupos de discussão no Facebook. Enquanto grandes marcas e agências já estão trabalhando diariamente com essas webcelebridades, profissionais de pequenas e médias agência ainda parecem ter bastante preconceito com esse público. Não consigo compreender como isso acontece, uma vez que eles alcançaram tudo que uma marca gostaria de alcançar. Criaram conteúdo, fidelizaram um público e reverteram isso em lucro (pessoal, vendendo a própria marca). Devíamos, enquanto mercado “amador”, aprender bastante com esse pessoal. São, de fato, creators.

E é evidente que os últimos anos consagrou algumas webcelebridades a níveis estratosféricos, com direito até a filmes nas salas de cinema de todo o Brasil. No entanto, há também produtores (blogueiros, vloggers, produtores de conteúdo para Facebook e Instagram) que possuem um trabalho de criação extremamente competente e capaz de formar um público nichado. Como sua empresa provavelmente não tem orçamento para bancar um Júlio Cocielo ou Kéfera, há ainda bastante espaço para procurar influenciadores que produzem conteúdo sem tanta popularidade. Na minha opinião, poderíamos classificar o “universo” de influenciadores em três grandes grupos, seguindo também uma lógica de cauda longa: webcelebridades (Whindersson Nunes, JoutJout, etc.), digital influencers (Fernando Escarião, Nátaly Neri, etc.) e produtores (aquele que possui apenas 2 mil seguidores no Instagram, mas tem um público extremamente engajado que se relaciona com tema/s específico/s).

No capítulo “Influenciadores” do livro do IBPAD, Gabriel Ishida, ao apresentar uma possibilidade de metodologia para mensuração desses produtores, classifica-os em três grupos: broadcasters, conectores e legitimadores. Embora seja parecido com o que mencionei, tem uma proposta mais voltada para ações/campanhas e menos pensando na perspectiva geral de seus trabalhos perante o grande público: o primeiro tem foco em awareness, ou seja, propagação; o segundo, em conectar (fazer a ponte); e o terceiro, em buscar uma autoridade em determinado assunto. Enquanto as grandes marcas têm poder aquisitivo para contratar webcelebridades/broadcasters, há bastante espaço para pequenas e médias empresas buscarem por produtores de conteúdo que se encaixam melhor num orçamento mais enxuto. E o influenciador nesse caso não precisa ter um YouTube ou uma conta no Instagram, mas pode ser uma página sobre um tema específico que já tenha desenvolvido ali mesmo uma comunidade que se conecta com os valores e posicionamento da empresa.

Slide 28 do material “Conteúdo”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media

No curso ainda discute-se as questões legais do trabalho com influenciadores (conforme minha categorização, as webcelebridades e digital influencers, especificamente), mas vou deixar de lado esse debate para desenvolver uma teoria arbitrária que tenho para mim: a Pirâmide de Maslow na criação de conteúdo em social media. Essa ideia parte de um texto de Tarcízio Silva no qual ele explica, em suma, como a proposta do psicólogo Abraham Maslow na década de 40 se relaciona com o que encontramos hoje como conversação nas mídias sociais. Sua conclusão é que “produtos que atendem necessidades fisiológicas são alvo de conversações nas mídias sociais quando atendem também necessidades simbólicas”, ou seja, quanto mais para o topo da pirâmide estiver o imaginário sobre a marca/empresa (realização pessoal, estima), maior deve ser a conversação sobre seus produtos no ambiente de sociabilidade mediada por computador.

Seguindo a mesma lógica, tenho para mim que a produção de conteúdo – pelas marcas e não pelos consumidores – também têm relação com a facilidade de comunicação com o público. Ou seja, é “mais fácil” criar conteúdo quando se está no topo da pirâmide, sendo a Netflix. Não é tão fácil dialogar com o público quando se está quase na base da pirâmide (segurança), sendo um banco, por exemplo. Isso não quer dizer que as marcas que essencialmente ocupam a base da pirâmide não consigam criar um diálogo com as pessoas online, mas que vão precisar de camadas simbólicas ligadas aos valores do topo para conseguir uma melhor interação com os usuários. É o caso do Itaú, por exemplo, com case apresentado no curso sobre o Digitaú – um banco (segurança) utilizando influenciadores para criar uma narrativa de realização pessoal e estima através do afeto com suas avós.

piramide de maslow - necessidades
Fonte: http://tarciziosilva.com.br/blog/necessidades-humanas-camadas-simbolicas-e-o-monitoramento-de-midias-sociais/

Finalizando, portanto, o conteúdo e todo o curso CoLab, compartilho aqui alguns aprendizados importantes concedidos no último módulo: pense mobile (inclusive em formato); esqueça quantidade, qualidade ganhou: pense no seu post como a publicidade pensa em print (revista) – com o benefício de trabalhar interatividade; explore e reimagine os formatos que as plataformas disponibilizam; encontre soluções para conteúdo em vídeo: produtores audiovisuais amadores ou influenciadores; influenciadores e creators são forças a serem exploradas; monitore sua comunidade: são de lá os melhores aprendizados. Um futuro não tão distante ainda vê conteúdo mais personalizado, funcionários como influenciadores, dark social e bots tomando conta, conversão em social commerce, realidade aumentada, credibilidade em alta, mais possibilidades de conteúdo live e/ou limitado, empatia compulsória e briga das plataformas por usuários (mesmas funcionalidades) para continuarem ali.

Termino este post da maneira que comecei: bastante empolgado. Motivado a continuar compartilhando conhecimento e (tentando) atingir cada vez mais profissionais que também almejem por uma evolução de parte do mercado ainda atrasada. Eu entendo que as realidades são completamente diferentes e o dinheiro não é um fator simples a ser ignorado, mas há muito o que fazer (e aprender) no desenvolvimento de um trabalho sério, compromissado, responsável e sofisticado. Parabenizo também a Trespontos e todos por trás da iniciativa CoLab, que ofereceram um conteúdo riquíssimo e de alta qualidade por um dos preços mais acessíveis do mercado. Além do mais, continuam com um esforço contínuo de mostrar que social media não é só fazer posts pro Facebook – nem fazer isso + patrocinar. É um trabalho sério, que demanda pesquisa, planejamento, criatividade e conhecimento aprofundado das plataformas.

CoLab Social Media: monitoramento de mídias sociais (5/6)

Meu CoLab Social Media da Trespontos está vivo, sim! Depois de uma largada frenética no início do ano, tive que diminuir a velocidade e abrir espaço para outras pautas aqui no blog. Isso não quer dizer, todavia, que tenha esquecido dessa série de posts tão importante. Se este é o primeiro contato que você tem meus textos sobre o CoLab, sugiro começar do começo e seguir na ordem: planejamento, real-time, mídia, métricas e dataviz. Todos os módulos do curso da Trespontos já tiverem seu conteúdo compartilhado aqui no blog, e agora chegamos à reta final com apenas mais dois posts: monitoramento e conteúdo/comunidades.

No penúltimo episódio desta saga, temos Marcel Ayres, sócio-diretor da COM Inteligência Digital e doutorando em cibercultura na UFBA, trazendo os principais ensinamentos sobre monitoramento de mídias sociais – um dos temas mais comuns aqui do blog. No conteúdo, ele apresenta conceitos, processos (da configuração aos relatórios) e cases do trabalho de monitoramento. Sobre o professor, antes de entrar no conteúdo de fato gostaria de abrir um parênteses para recomendar aos leitores o Slideshare da PaperCliQ Comunicação, empresa baiana fundada pelo próprio Marcel com Tarcizio Silva, que possui um dos acervos mais ricos e ainda bastante atuais do trabalho de monitoramento de mídias sociais.

Nosso problema não é mais a escassez de informação, ou sua fragilidade, mas o desafio arrebatador de selecioná-la, entendê-la e encontrar verdade e relevância nos dados.
Paul Levitz

Agora entrando de fato no curso, peço licença para me permitir ser menos ponte e mais comentador (como você já deve ter percebido pela “entonação” do texto) do conteúdo – já que monitoramento é provavelmente o assunto mais discutido aqui no blog nesses poucos anos de vida. Achei bacana o material ser introduzido com essa frase do Levitz porque me impressiona como, em pelo menos 10 anos de monitoramento de mídias sociais (contando a partir do momento em que as primeiras grandes empesas começaram a oferecer esse serviço, como a Sysomos), o trabalho ainda é menosprezado. E quando digo isso tenho um público específico em mente, que são (obviamente) as pequenas e médias empresas.

Enquanto que para as grandes (e/ou mais maduras) agências e marcas o desafio está no volume, e como encontrar dados relevantes para a organização utilizar de maneira estratégica e gerar resultado para as empresas, uma gama enorme de pequenos e médios “social medias” vêm no trabalho de mídias sociais apenas criação e mídia. Entendo alguns fatores tendo levado a esses cenários, como os esforços diversos do Facebook em facilitar o gerenciamento de seus anúncios e afins em paralelo contrário a um encarecimento das principais plataformas de monitoramento do mercado brasileiro. Nesse contexto, monitoramento vira artigo de luxo. Mas não é (ou não deveria ser). Meu primeiro relatório público de monitoramento foi feito apenas com recursos gratuitos.

Enfim, depois de apresentar alguns conceitos básicos do trabalho (desafios e limitações pontuados), Marcel apresenta o ciclo (ou as etapas) do monitoramento: coleta de dados, armazenamento, classificação, categorização, adição de informações, análise e recomendações. Aqui é interessante cruzar com aquela famosa imagem “dados / informação / conhecimento / insight / sabedoria”, onde a coleta e o armazenamento seriam os dados, a classificação e categorização seriam a informação, a adição de informações seriam o conhecimento, a análise seria o insight e as recomendações seriam a sabedoria. É claro que não são exclusivos, mas dá para fazer uma associação simples para melhor compreensão de ambos os conteúdos.

Quanto aos objetivos do trabalho, são diversos – conforme traz o conteúdo: avaliar sentimentos, motivações, desejos e percepções em torno do objeto monitorado; identificar perfis dos públicos de interesse, analisando especificidades destes perfis (linguagem, interesses, hábitos de consumo midiático, relação com a marca/produto), insumos para a definição de personas, etc. Marcel recomenda, inclusive, assim como fiz no início do texto, um material da PaperCliQ, de 2010 (!), assinado por Tarcízio Silva. É interessante tanto para quem nunca teve contato com o tema, porque ainda se faz muito atual em vários aspectos, mas também para quem já está por dentro do assunto e tem curiosidade de ver o quanto avançamos (ou precisamos avançar, vide a data).

Antes de entrar de fato na execução do trabalho, é importante, como ressalta Marcel, ter um bom planejamento. E o que vai guiar todo esse fluxo e estruturação será o objetivo alinhado perante o cliente. Ou seja, o que se deseja monitorar? O que se deseja saber? O que se deseja fazer? Essas são algumas perguntas que ajudam a definir não apenas por onde seguir, mas como configurar os processos para alcançar o caminho procurado. No material, ele chama a atenção para a configuração das palavras-chave (e termos da chamada busca booleana). A maioria das ferramentas de hoje em dia já possuem uma busca avançada que não necessita mais desse conhecimento, mas é bom ter conhecimento pelo menos de suas lógicas essenciais para caso se faça necessário em algum momento do trabalho. O cuidado também com o refinamento das buscas, como apelidos e abreviações, apropriações e erros de grafia também são pontos de atenção importante para um trabalho de monitoramento bem feito.

Slide 19 do material “Monitoramento”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media

Esses são alguns dos pontos importantes a serem definidos no momento de planejamento do monitoramento, antes da execução de fato:

  • Cuidado com os termos genéricos: uma busca de monitoramento é como uma busca feita no Google – quanto mais precisão, melhor;
  • Ambientes de busca: quais serão os canais (Facebook, Twitter, Instagram, YouTube, blogs, etc.) que serão monitorados? Vale ficar de olho nos concorrentes?;
  • Volume de menções: numa busca exploratória, qual foi o volume de menções médio? Esse é um ponto importante para definir o tamanho da equipe, o fluxo de trabalho e o plano da ferramenta, dentre outros fatores;
  • Definição de categorias e tags: este é um dos fatores mais importantes da etapa de planejamento, já que é aqui que – como mencionei anteriormente – começamos aplicar valor (e, possivelmente, conhecimento) aos dados e às informações; parte sempre do objetivo, ou seja, deve responder à demanda de informação; quanto à classificação de sentimento, deve ser sempre nível comparativo, para entender outras variáveis;
  • Relatórios: estes dependem principalmente de dois aspectos, a urgência do projeto e o tamanho da equipe (além, é claro, do próprio objetivo); do primeiro, porque pode exigir maior velocidade nas entregas (e um tipo de entrega mais enxuta); do segundo, porque a entrega depende também da mão de obra; e do terceiro, porque um trabalho de perfilização de público demanda muito mais do que uma análise de campanha, por exemplo.

Aqui eu acho importante abordar um assunto bem importante do monitoramento de mídias sociais que não foi levantado no curso mas que é dúvida constante da maioria dos alunos: e o Facebook? Como alguns já devem saber, houve uma grande mudança no trabalho de monitoramento em maio de 2015 devido ao fechamento da API do Facebook. Desde então, o monitoramento “tradicional” do imaginário social de pesquisar sobre um termo ou expressões específicas têm sofrido algumas alterações, também devido a esse fato. Atualmente, é comum que o monitoramento da rede social de Mark Zuckerberg seja feito a partir de comentários de páginas (próprias ou de terceiros). Ou seja, para além do monitoramento de termos, há também o monitoramento de canais, grupos de usuários, metadados e imagens.

Feito esse importantíssimo adendo, podemos seguir com o conteúdo (e cronograma) do curso: agora, a ferramenta. Como Marcel explica, ela não é o fim, mas o meio do trabalho – e não (!) faz todo o trabalho sozinha. Além disso, há várias opções disponíveis no mercado (além de alternativas acadêmicas), por isso, é importante levar em conta se a ferramenta escolhida atende às suas expectativas quanto a coleta, armazenamento, adiciona informações e representações gráficas. Algumas perguntas a serem respondidas e levadas em consideração nesse momento de comparativo entre as ferramentas:

  • O valor aumenta com o números de ambientes monitorados?
  • E qual o limite de menções a serem coletadas em cada plano?
  • Quais os recursos contemplados?
  • É possível realizar monitoramentos Custo distintos simultaneamente?
  • Tem ambientes que me interessam? Pode inserir RSS?
  • Quais parâmetros de buscas disponíveis?
  • Permite segmentação por diferentes línguas?
  • Fluxo de trabalho é contemplado? Interface é amigável?
  • Como é a integração com outras aplicações?
  • Gera Gráficos? Exporta dados? Emite alertas?

Quanto ao setup da ferramenta, embora cada plataforma possua suas peculiaridades, há alguns pontos-comum a serem abordados: 1) o cadastro de palavras-chave e definição de ambientes de busca, ou seja, configurar o cerne da pesquisa (onde e o quê); 2) a configuração de regras para automatização do processo de monitoramento, ou seja, ensinar à ferramenta condições básicas para tomada de ações internas (ex: no monitoramento do The Voice Kids, sempre que houver, na menção, a palavra “ivete” ou “veveta”, atribuir a categoria “Técnicos – Ivete Sangalo”); 3) a visualização e adição de informações: neste terceiro momento, os dados já foram coletados e você os têm na plataforma, sendo possível adicionar informações (classificar, categorizar, etc.), visualizar as informações (gráficos) e exportar os dados (para cruzamento com outros bancos de dados, por exemplo), além de outras atribuições mais específicas como CRM.

Para mensurar os dados do monitoramento, Marcel apresenta algumas possibilidades. Entretanto, deixa claro que “a correlação de dados do monitoramento depende do objetivo”, ou seja, a mensuração é peculiar a cada projeto. Ainda assim, há alguns KPIs mais comuns, como share of voice (representatividade das menções, a relação de uma parte com o todo), taxa de resposta (representatividade da demanda de informação do público, o quanto o atendimento/relacionamento com os usuários têm sido eficiente) e grau de sentimento (que eu não conhecia, por isso compartilho logo abaixo). Novamente, acho importante ratificar que essas métricas/KPIs são bem genéricos, e devem servir principalmente como base de trabalho ou apoio didático. Repetindo: o que você vai medir no monitoramento deve ser definido desde o início, como demanda de informação relacionado ao seu objetivo.

Slide 68 do material “Monitoramento”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media

Por fim, temos a produção do relatório. No material, há uma preocupação grande na temática de visualização de dados. Nesse aspecto, recomendo conferir o material da Julie Teixeira, que também foi facilitadora do CoLab nos módulos de métricas e dataviz. Em suma, os dois principais pontos de um relatório são: 1) apresentação transparente da metodologia de pesquisa (canais, termos de busca, período de coleta, etc.); e 2) contar uma história. E aqui não precisa ser um conto da Disney, mas uma narrativa coerente e coesa que – novamente – responda aos questionamentos tensionados lá no início, quanto à demanda de informação. Ou seja, é importante mostrar o cenário da pesquisa conforme os caminhos seguem ao resultado final. No curso, Marcel oferece ainda alguns aspectos de uma estrutura básica (padrão) de um relatório mensal: volume/tempo, valor, assuntos, emissores, menções/canal, wordclouds, destaques, sentimento, avaliação e recomendações estratégicas.

Um conteúdo que eu achei legal, antes de finalizar, foi a apresentação de três fluxos/divisão de trabalho propostas por Marcel. Nesses cenários (melhores desenvolvidos nas imagens abaixo), temos três diferentes profissionais/atuações de monitoramento: o primeiro (mais operacional), num nível mais júnior, em que a pessoa é responsável pela configuração e categorização dos dados; o segundo (mais tático), num nível pleno, em que a pessoa é responsável pelo conteúdo e relacionamento com os clientes a partir dos dados; e o terceiro, num nível mais sênior, em que a pessoa é responsável pelo processamento e finalização do relatório. Mais detalhes abaixo:

Slide 80 do material “Monitoramento”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media
Slide 81 do material “Monitoramento”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media
Slide 82 do material “Monitoramento”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media

As duas recomendações finais do curso são muito importantes: se familiarizar com relatórios de monitoramento públicos – podem ser de temáticas (Churrasco no Instagram), concorrentes (Análise de Facebook Pages de Fast Fashion), eventos (Tomorrowland) ou produtos (Paçoquita x Nutella); e conhecer os livros “Para Entender o Monitoramento de Mídias Sociais” (2012), “Monitoramento e métricas de mídias sociais: do estagiário ao CEO” e “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações” – sendo que duas dessas obras serão resenhadas muito em breve aqui no blog, caso precise despertar ainda mais curiosidade e interesse. Além disso, se desdobrar pelas dezenas (talvez centenas) de materiais sobre o assunto que se encontram no Slideshare. Para um âmbito mais acadêmico (ou mais avançado), recomendo também o 100 Fontes sobre Pesquisa e Monitoramento de Mídias Sociais.

No mais, preciso confessar que foi um alívio quebrar com a predominância de sotaques sudestinos e sulistas para ouvir um baiano falando. Também gostei bastante da disposição de conteúdo no material e nos vídeos, foi enxuto porém bem resumido e bastante prático. Com isso, chegamos à reta final do CoLab Social Media: só faltam agora os módulos de conteúdo e comunidades, com Nathália Capistrano (Artplan) – que estou bastante ansioso para conferir por serem assuntos dos quais nunca tive experiência com cursos. Até lá! 🙂

Como encontrar páginas com conteúdo relevante para benchmarking de conteúdo

Como bem pontuado pelo comentário do leitor Daniel, a Netvizz repudia seu uso para fins comerciais – sendo permitida apenas para uso pessoal e pesquisa acadêmica. Este post, portanto, tem o intuito apenas de demonstrar como funciona a ferramenta e como usuários podem utilizá-la para desenvolver pesquisa por páginas e seus respectivos conteúdos no Facebook.

Um dos esforços mais básicos e comuns (espera-se) do trabalho de social media é o benchmarking de conteúdo. Trata-se, em termos simples, de uma pesquisa prática de qual tipo de conteúdo marcas e empresas de um mesmo segmento estão produzindo. É a famosa pergunta: “Pessoal, poderiam indicar/recomendar páginas que fazem um bom trabalho de [insira um segmento ou tipo de serviço/produto aqui]?”, tão comum quase diariamente em grupos de discussão no Facebook. Para ajudar a responder a essa pergunta de forma mais esquematizada (profissional), neste post vou mostrar como a ferramenta Netvizz pode te ajudar a encontrar páginas relevantes muito facilmente.

Antes de continuar a leitura, recomendo se familiarizar ou pelo menos conhecer a protagonista deste texto através desse fabuloso post de Roberta Cardoso, “Como extrair dados de páginas do Facebook usando Netvizz”, onde dá detalhes da ferramenta e apresenta algumas das possibilidades de aplicação. Em suma, trata-se de um aplicativo criado pelo pesquisador Bernhard Rieder, do grupo de pesquisa Digital Methods Initiative da Universidade de Amsterdam – para mais informações sobre ele ou sobre outros pesquisadores do grupo, vale conferir o material 100 Fontes sobre Pesquisa e Monitoramento de Mídias Sociais, do IBPAD. Em termos técnicos (e práticos), a Netvizz atua no próprio Facebook para puxar da API dados públicos da plataforma.

Para demonstrar como podemos utilizá-la nesse trabalho de planejamento, vou explicar o procedimento de forma detalhada para que todos sejam capazes de fazer (basta ter um conhecimento básico de Excel). A proposta é localizar páginas de determinado segmento ou tipo de serviço que possuam um bom público para então analisar qual é o tipo de conteúdo que elas têm publicado online. Utilizarei como exemplo um pedido feito num grupo do Facebook por páginas de panificadora, no entanto, reforço que essa busca pode ser feita por páginas de imobiliárias/construtoras, personal trainers, academias de pilates, oficinas de carro, restaurantes, etc. Compartilho já o resultado dessa pesquisa (sobre panificadoras), que você pode acessar clicando aqui.

1º passo

Antes de começarmos, é preciso instalar a Netvizz – não se preocupe, a instalação é feita diretamente no Facebook (e não no seu computador), como se fosse um joguinho ou um app. Para isso, basta acessar esta página e clicar em “Install app”. Em seguida, você será direcionado (se não for, clique novamente no link apresentado) para a página principal da ferramenta. Para fazer a pesquisa, basta clicar em “search” e, no Módulo de Pesquisa (Search Mode), digitar no query do tipo page o assunto/serviço/segmento que você está buscando. Ao clicar em “enviar”, será feita a pesquisa e a página deve ficar mais ou menos assim:

Pesquisa realizada na Netvizz para páginas relacionadas ao termo “Panificadora”

Feito a pesquisa, pode baixar o arquivo clicando em “zip archive”. Antes de seguir adiante, recomendo fazer a pesquisa com mais de um termo. Por exemplo, no caso de panificadora, pesquisei também “pão” e “padaria” – poderia fazer muito mais (o que eu até recomendo), mas, para fins didáticos, esses três termos serão suficientes. O procedimento é o mesmo: depois de baixar o arquivo zipado, insira o termo que deseja procurar no campo em aberto e clique em “enviar”. Feita a pesquisa, faça o download do arquivo. E assim em diante. Sugiro que, durante o processo, renomeie os arquivos baixados com o nome da pesquisa para saber do que se trata depois.

2º PASSO

Tendo feito o download dos arquivos de pesquisa, pode extraí-los para uma pasta qualquer do computador, mas não os perca de vista (recomendo deixar numa pasta específica, sempre com os nomes certinhos)! Você vai perceber que eles estão em formato .tab (aqui recomendo novamente renomeá-los), que é o que usaremos para trabalhar no Excel. Para utilizá-los na ferramenta da Microsoft, abra um arquivo em branco. Na aba “Dados”, clique em “Obter dados externos” de texto. Ao procurar pelo arquivo na pasta onde salvou, atente-se para que a opção exibir “Todos os arquivos” esteja selecionada. Caso tenha se atrapalhado aqui, este post pode te ajudar.

Tela após a importação de arquivos externos, no caso, os arquivos .tab da pesquisa

Se você chegou à tela acima, ótimo! Conseguiu selecionar os arquivos para a importação. Daqui em diante, basta ajustar algumas configurações básicas: nessa janela da imagem acima, selecione para “Origem do Arquivo” a opção “65001 : Unicode (UTF-8)” – é um dos últimos da lista – e clique em Avançar. Na tela seguinte, na seção “Delimitadores”, deixe marcado apenas a opção “Tabulação” e avance. Em seguida, basta clicar em “Concluir”. Uma janela de “Importar dados” possivelmente surgirá, basta dar ok. Caso seus dados tenham sido organizados num lugar avulso da planilha, é só excluir as células e linhas em branco que eles se acertam.

2º PASSO E MEIO

Este terceiro passo é o segundo repetido, mas também explica o que eu pedi no primeiro. Por que você precisa repetir o processo com a pesquisa de mais de um termo? Simplesmente porque a Netvizz não permite fazer a busca de termos booleanos, por exemplo, onde poderíamos nos basear em apenas uma busca. Se estamos, portanto, pesquisando por páginas relacionadas à panificadora (neste caso), precisamos pensar vários termos que podem ser atribuídos a páginas desse tipo de serviço. Por isso é importante fazer a pesquisa por vários termos.

Para repetir esse procedimento, você pode criar uma nova aba na mesma planilha e repetir o processo: dados -> obter dados externos (de texto) -> exibir todos os arquivos -> importar arquivo .tab -> origem do arquivo: UTF-8 -> delimitadores: tabulação -> concluir -> importar dados: ok. Basta repetir esse procedimento com todos os arquivos de busca que você baixou. Ao final, um passo importante: precisamos juntar todo o resultado numa mesma aba. Para isso, é só selecionar todas as linhas de cada aba (menos a primeira) e copiar e colar as demais numa só planilha.

PS. Se preferir, você pode importar os arquivos .tab todos numa mesma aba. Você só precisa garantir de deixar selecionado (ou marcar depois, no momento de importação dos dados) a célula onde deseja que os dados entrem. Caso já tenha experiência Excel (e tenha feito várias buscas), pode ser mais rápido e eficiente.

3º PASSO

Aqui você já tem em mãos os resultados de todas as suas buscas num mesmo arquivo – provavelmente centenas e possivelmente mais de mil páginas. No entanto, há também muito lixo. Para além disso, precisamos achar uma maneira de encontrar quem produz conteúdo relevante. Para isso, vamos ter que abdicar do senso crítico de que números (e métricas de vaidade) não são significam qualidade. Há duas opções: selecionar a coluna fan_count (número de fãs/seguidores) ou a coluna talking_about_count (número de interações com a página). Na minha opinião, a última possui mais relevância para o que desejamos aqui. Seleciona toda a linha (pode clicar na letra F, se for essa a sua coluna) e procure por “Classificar e Filtrar” do maior para o menor.

Janela que será exibida após o comando para classificar do maior para o menor – selecione “expandir seleção” e clique em classificar

Aqui você provavelmente vai perceber a quantidade de lixo que mencionei anteriormente (na busca por “pão”, por exemplo, a Netvizz traz várias páginas com o prefixo “Pao” em palavras como “Paola”, por exemplo). Para selecionar as páginas apropriadas, recomendo inserir uma coluna antes do “id” que vai servir como filtragem das páginas. A partir disso, basta, nessa nova coluna criada, colocar um “sim” (ou qualquer outra coisa) quando a linha for referente a uma página de panificadora. Você pode selecionar 5, 10, 20, 50 páginas… Depende das suas circunstâncias de trabalho. Novamente para fins didáticos, selecionei apenas 10. Ao finalizar, retorne à primeira célula da coluna (no meu caso, dei o nome de “Benchmarking”) e acione o filtro.

Coluna “Benchmarking” inserida antes de “ID”, para classificar as páginas apropriadas e fazer a filtragem

4º PASSO

Agora que temos páginas com um bom nível de engajamento para com seus respectivos públicos, precisamos olhar de fato para o conteúdo que elas produzem. Antes, precisamos configurar algo importante: seleciona a coluna “id” (onde estão vários números grandes demais para saber falar) e, na aba “Página Inicial” da planilha, procure pela seção “Número”. No que provavelmente estará selecionado como Geral, selecione a opção Número. Você pode perceber que alguns códigos que continham letras e números agora estão somente em numeral, ainda com decimais zerados. Para removê-los, basta, ainda com toda a coluna selecionada, clicar na seção Número em “Diminuir Casas Decimais”. É possível que, mais adiante, quando precisar desses IDs na Netvizz, apareça uma mensagem de erro – utilize esta página para encontrar o ID correto.

O que vamos fazer agora é descobrir, das páginas selecionadas (mais “populares”), quais são os conteúdos que mais fizeram sucesso. Vale pontuar que este passo pode ser feito em outras ferramentas, como a Fanpage Karma, por exemplo, mas vou continuar na Netvizz para demonstrar que ela também é capaz. Para isso, voltaremos à página da ferramenta no Facebook – neste link – e, em vez de seguirmos pelo módulo “Search”, que usamos anteriormente, vamos até o módulo “Page Data”. Se você tem conhecimento da língua inglesa, consegue entender o que será disponibilizado a seguir – caso não tenha, recomendo novamente conferir o post de Roberta Cardoso sobre a ferramenta. Em suma, vamos fazer o download de vários dados públicos disponíveis (postagens, links, curtidas, reações, etc.).

Módulo para configurar o download dos dados de uma página na Netvizz

Para isso, você precisará do ID das páginas. Lembra que eu falei que teríamos que os valores no início deste passo? É agora que isso importa. Com eles em mãos, fazemos o download dos dados das 10 páginas selecionadas separadamente: insira o ID no campo “page ID”; selecione um período a seu critério no campo “data scope” (você pode selecionar também uma quantidade exata de posts, cujo padrão é 50); e, no campo “data to get”, selecione “full data”. Para baixar, clique em “post by page only”. Você será redirecionado para uma página onde a ferramenta exibe o processamento para a extração dos dados – é importante ter em mente que, se o período selecionado for muito extenso (ou muita produção de conteúdo), é possível que demore um pouco para que os dados fiquem prontos para download.

5º PASSO

No arquivo zip que será disponibilizado após o processamento, haverá cinco arquivos: quatro .tab e um .gdf. Para o momento, precisaremos apenas do arquivo fullstats.tab. O procedimento é o mesmo do segundo passo para importar os dados externos para uma planilha do Excel. O que você tem em mãos agora são todas as publicações feita pela página no período específico que você selecionou (ou no número de postagens mais recentes, depende das suas configurações na Netvizz). Para encontrarmos os conteúdos mais relevantes, procuramos pela coluna engagement_fb (que soma curtidas, reações, comentários e compartilhamentos) e repetimos o procedimento para ordenar os posts do maior para o menor.

Planilha com os dados do arquivo fullstats.tab sendo ordenado para exibir os posts com maior engajamento no topo

Feito isso, é só repetir o processo com as demais páginas. Agora você tem 10 páginas com um ótimo nível de engajamento por parte do público e vários dos seus posts ordenados por popularidade. Criando novas colunas de classificação como “Formato” (citações, fotos do produto, depoimento do cliente, etc.) e “Assunto” (no caso das padarias, doces, salgados, sopas, etc.), é possível fazer uma análise extensa de benchmarking para munir a equipe de criação com diversas referências de conteúdo. Ao analisar as 10 postagens mais populares de cada página, por exemplo, são 100 posts de referência. É possível encontrar padrões, tendências e, consequentemente, pontos fora da curva para inovar.


Para algumas pessoas, todo esse processo pode ser trabalhoso demais. No entanto, quando falamos de planejamento, é imprescindível um esforço de pesquisa muito bem fundamentado para alimentar as demais equipe com referenciais criativos e estratégicos para o bom desenvolvimento de uma missão digital. Para quem trabalha como freelancer, todo esse esquema mais “profissional” pode servir de justificativa para cobrar por um trabalho mais metódico e, consequentemente, mais completo. Além disso, trata-se de um esforço necessário para um avanço e capacitação do mercado.

É importante mencionar que, como qualquer metodologia de pesquisa, esta é apenas uma das possibilidades. Poderia, por exemplo, em vez de optar pela Netvizz, sugerir o uso do Facepager. Além disso, há algumas limitações: se quiséssemos encontrar páginas de cantores sertanejos, por exemplo, não teríamos muito sucesso porque as páginas não são intituladas “Cantor Luan Santana” ou “Luan Santana – Sertanejo”; a própria escolha de optar por analisar páginas a partir de métricas teoricamente superficiais é uma limitação, uma escolha completamente arbitrária. Portanto, estou mais que disposto a ouvir críticas e sugestões para aprimorar essa prática.

No mais, espero poder ter ajudado alguém! Estou disponível no Twitter (ou até mesmo no Facebook) para tirar quaisquer dúvidas sobre os procedimentos e a Netvizz. 🙂