Profissão Social Media: relacionamento – da teoria à prática

No quarto texto da série Profissão Social Media, mais 10 profissionais do mercado foram convidados para falar sobre o trabalho focado em Relacionamento Digital (ou Atendimento, SAC, SAC 2.0, CRM, etc.). Há alguns anos, era difícil dissociar esse tema do trabalho de Social Media em sua noção mais ampla, já que vários “cases” de marcas – bancos, Coca-Cola, etc. – ganhavam notoriedade nas esferas de discussão dos profissionais do mercado principalmente através de menções em portais de comunicação. Muito do que se criou em torno da imagem de “Social Media”, na verdade, foi sustentado por esses casos de interação com os usuários – o Pinguim do Ponto Frio, a Prefs de Curitiba, e, atualmente, a própria Netflix, dentre outros.

O objetivo deste texto, portanto, é discutir sobre esse pilar importantíssimo do trabalho das marcas nas mídias sociais a partir da experiência de profissionais de diferentes realidades, cargos e formações. Se você não conhece a série, ela surgiu do post  “Profissão Social Media: áreas de atuação e fontes para estudo”, que fiz no ano passado em parceria com Mayara MendesMari Ferreira e Juliana Freitas. Ao longo deste ano venho produzindo um post específico para cada área/função, tendo já publicado: monitoramento, planejamento e criação de conteúdo. Até setembro, além deste post, mais dois serão publicados sobre as áreas de mídia e métricas, para que eu possa então – graças ao votos de vocês! – apresentar a palestra “Profissão Social Media: da teoria à prática” no Social Media Week, em São Paulo.

Todo o debate e conteúdo apresentado será baseado na série que apresento aqui, com as principais falas/dicas dos mais de 50 profissionais que toparam compartilhar um pouco do seu conhecimento sobre a profissão e o mercado de trabalho. Para conversar sobre relacionamento/Social CRM, convidei: de São Paulo, Marcelo Salgado, Janaína Martins, Carol Terra, Tatiane Marina, Ana Clara Matta e Tatiana Puzzovio; do Rio de Janeiro, Bárbara Vilas e Raphael Costa; do Paraná, Suellen Figueiredo; da Bahia, Clarissa Motta. Como de costume, para conferir a ficha completa dos participantes e entender melhor de onde veio seus repertórios, basta chegar ao fim do post. E é também lá no final que você confere indicações de cursos, livros e outras fontes de estudo/referência para o trabalho!

Relacionamento: o que é, como faz, onde entra?

Assim como planejamento, a “matéria” de relacionamento com o consumidor precede em décadas o famigerado advento da internet e das mídias sociais. Nas palavras de Ana Clara Matta, Community Manager Senior na Sunset Comunicação: “O relacionamento com o cliente e o acompanhamento de clientes pós-venda sempre foi uma parte importante do plano de comunicação de qualquer empresa, mas com a ascensão da internet, a dissolução do papel do vendedor no momento de compra (e fidelização no storefront) e com a percepção crescente da empresa como uma entidade munida de uma persona digital, as expectativas em relação ao planejamento desse tipo de relacionamento aumentaram”.

Se você, seja na faculdade de Publicidade/Comunicação Social ou na sua vida profissional como leitura complementar, já se deparou com alguns dos livros de Philip Kotler, provavelmente está familiarizado com a importância do relacionamento. “O trabalho de relacionar-se com o cliente envolve do “p” ao “P”, isto é, do porteiro ao presidente. Tem que ser uma filosofia da empresa atender e se relacionar bem com o cliente, priorizando-o”, explica Carolina Terra, Consultora e Professora no ECA-USP. O que mudou nos últimos anos? “Hoje o consumidor quer firmar uma relação Indivíduo-Empresa na internet, ao invés da dinâmica Comprador-Vendedor que acontecia nas lojas, e é o profissional de relacionamento/Social CRM que torna possível a ‘personificação’ dos valores da empresa e permite a formação de um diálogo”, pontua Ana Clara Matta.

Para Bárbara Vilas, Supervisora de Social CRM na Coca-Cola Brasil, “o trabalho de relacionamento baseia-se em colocar o consumidor no centro da estratégia”, ou seja, “em um conceito amplo de comunicação, é pensar que toda ação de marketing deve ser construída para estreitar os laços entre o consumidor e a empresa”. Não se trata, portanto, de uma estratégia pontual (tática) de atuação da empresa, mas da pintura de um cenário muito mais amplo que pode resultar em ações positivas em momentos oportunos no futuro: “É uma forma de conduzir este consumidor, que lida com tantas marcas no seu cotidiano e que possui a fidelidade alinhada ao custo-benefício, escolha a sua marca entre todas as outras, no momento de decisão de consumo, não só pela qualidade do seu produto/serviço, mas também pela atenção que você dispensa a ele”, complementa..

Entender a jornada do consumidor é importante para qualquer setor de comunicação de uma empresa, seja ela uma multinacional seja de esquina. Os pontos de contato que você disponibiliza a seus consumidores constroem múltiplas experiências de consumo, porque cada um de nós é um ser humaninho especial. Digo isso porque o trabalho de relacionamento, num escopo macro, cobrou um exercício da minha sensibilidade, empatia e atenção a detalhes que o consumidor levantava para, dessa forma, ter uma troca rica com outras agências e profissionais – como marketing operacional ou comunicação corporativa. Estabelecer conversas com os consumidores, já focando no escopo micro, é articular em cada interação a voz e necessidades de um tripé: a marca, o consumidor em questão e – como estamos falando de redes sociais – de todos aqueles que acompanham as páginas e terão acesso ao que foi dito.

Raphael Costa, Assistente de Relacionamento Digital na L’Oreal

Nesse debate sobre do que se trata o trabalho de relacionamento, é muito comum que os esforços de Social CRM (ou SAC 2.0, como preferir) sejam associados ao simples fluxo de atendimento aos consumidores. Não que essa seja uma percepção incorreta, no entanto, como já levantado anteriormente, a lógica das mídias sociais exige um reposicionamento das marcas frente a esse contexto. Sobre isso, Marcelo Salgado, Gerente de Mídias Sociais no Bradesco, explica: “As empresas, ao longo do tempo, se tornaram grandes estruturas hierárquicas e perderam a capacidade de se conectar genuinamente com as pessoas. A dinâmica de rede permitiu que elas enxergassem esse gap e pudessem reduzi-lo. Todo o trabalho de redes sociais, do relacionamento à criação de conteúdo, deveria ser, em seu propósito, o de estabelecer ou fortalecer conexões com as pessoas”.

Ainda nesse tom, Bárbara Vilas complementa: “O atendimento é a premissa do CRM, mas não a única zona limitante. O CRM também é responsável por construir um relacionamento constante – alinhado à base de dados – com contatos personalizados para cada consumidor, gerar engajamentos, construir/reforçar a presença em campanhas e promoções e manter a lembrança de marca com o consumidor”. Ou seja, embora faça parte da estrutura burocrática de “resolver problemas”, hoje o trabalho de relacionamento com o cliente vai muito além do contato entre atendente e consumidor, abrangendo toda a esfera comunicacional das marcas. Em termos simples, Suellen Figueiredo, Analista de Estratégia Digital na HouseCricket Digital & Direct, coloca: “No ambiente de mídias sociais, realizar o trabalho de SAC é ainda mais difícil, pois todo retorno dado é passível de print e posterior exposição pública”.

De maneira mais ampla, isso quer dizer que o trabalho de relacionamento com os usuários, no digital, também integra parte fundamental da construção da marca enquanto brand persona. “A forma como é feito fica a critério da marca: trabalhar mais a parte do ‘pós-venda’, ser apenas um SAC 2.0 e resolver as reclamações que chegam, ou até mesmo aproveitar o espaço para ficar mais próximo do cliente e criar um relacionamento mais forte e verdadeiro”, explica Tatiane Marina, Analista de Interações e Monitoramento no Grupo Rái. “O trabalho de Social CRM consiste em respeito ao cliente que dedicou tempo para falar com a marca. […] A preocupação é tanto no consumidor, que deve ter uma experiência positiva com sua marca, como também aos fluxos da empresa, que precisa ter tudo acertado para todas as situações, desde um elogio a uma crítica”, acrescenta Tatiana Puzzovio, Gerente de Data Sciente na Riot.

Ser Social CRM significa cuidar para que cada experiência de um cliente com a marca e o produto seja o mais especial e satisfatório possível, seja fazendo uma reclamação ou um elogio. É um grande “marketing de gentileza”, se preocupar com cada pessoas e lembrar que do outro lado da tela tem um humano. […] Também influencia no processo “pré-venda”: já sabemos que grande parte das pessoas procuram as redes sociais em casos de dúvidas e ter alguém para respondê-las pode influenciar na escolha do cliente pela sua marca. A preocupação com a “brand persona” também faz parte do dia a dia em relacionamento: qual linguagem podemos usar para responder cada menção? Podemos usar um meme, emoji, uma brincadeira ou um tom mais sério?

Tatiane Marina da Costa, Analista de Interações e Monitoramento no Grupo Rái

De forma prática, “o relacionamento começa desde a adaptação do conteúdo de acordo com o que os consumidores demostram interesse, até nas respostas de forma personalizada; soluções de problemas customizados, e não através de respostas padrões; avaliações de cada e-mail recebido e feedbacks personalizados (por e-mail ou até telefonema)”, explica Clarissa Motta, Consultora e Pesquisadora Digital. E Carolina Terra acrescenta: “No escopo das mídias sociais, o simples fato da organização estar presente no ambiente digital já demanda atendimento, isso porque as pessoas irão interagir ali e vão requerer respostas por parte da empresa. O Social CRM tem que estar integrado ao atendimento convencional ou das mídias tradicionais”.

E como faz?

Tendo entendido do que se trata, na teoria, o trabalho de relacionamento com foco em mídias sociais, podemos seguir para compreendê-lo como funciona no dia-a-dia das empresas e agências. Embora Janaína Martins, Analista de Mídias Sociais Sênior da Salve Tribal World Wide, alerte para a variabilidade do trabalho prático de acordo com agência/cliente/escopo, foi possível perceber um padrão dentre as respostas: monitorarclassificaranalisarresponder. “De maneira geral, um profissional de relacionamento analisa as conversações em rede, as interpreta e transforma em uma ação: direta e externa quando interage com o usuário ou indireta e interna quando aplica a informação colhida para aprimoramento da experiência do usuário com o canal, campanha, produto ou serviço”, explica Marcelo Salgado.

“No caso do analista responsável por relacionamento, sua atividade se inicia com o setup de um monitoramento em alguma ferramenta de captura, a organização e tratamento das citações capturadas (tagueamento e classificação), a interação em si, criando uma conversação natural com as pessoas, o workflow e acompanhamento das manifestações internamente, e a compilação e análise dos dados qualitativos e de volumetria das interações, entre outras funções de acoplagem nas demais áreas de redes sociais”, completa Marcelo Salgado. Ana Clara Matta ratifica: “O profissional de relacionamento com foco em Social deve interagir com o consumidor em todos os fronts digitais em que a empresa opera, classificar e taguear menções para a produção de relatórios e mensuração dos resultados de sua própria ação, e estar completamente imerso no planejamento de cada campanha para que ele assuma, de maneira natural, a voz da empresa ou da campanha”.

“É um profissional que vai precisar dos dados para se relacionar com os usuários/clientes. Portanto, muitas vezes, vai ‘pilotar’ uma ferramenta de monitoramento, vai postar conteúdos ali para divulgação da organização, mas também vai ter que responder aos usuários; vai ter que produzir relatórios, sejam eles sobre menções (positivas, negativas ou neutras) ou específicos sobre uma situação/data/campanha/produto. É alguém que precisa entender de conteúdo, de dados e estatísticas, de relacionamento e de formas de análise e avaliação”, complementa Carolina Terra. “Ele deve ter um bom domínio de plataformas de classificação e da operação dos perfis proprietários. Um senso de humor e a capacidade de produzir conteúdo de qualidade em suas próprias redes sociais (logo, uma habilidade nata no Twitter e Facebook) também são desejáveis”, acrescenta Ana Clara Matta.

O Social CRM utilizará uma ferramenta de monitoramento responder as menções coletadas, conforme planejamento, objetivos e linguagem de cada marca. Ele também trabalha com a parte de classificação de sentimento (positivo, negativo ou neutro) e tagueamento (produto, natureza, assunto, definido de acordo com planejamento e necessidade de cada marca). Pode fazer parte do dia a dia do profissional a criação e atualização de FAQs, conforme as dúvidas mais frequentes observadas no buzz da marca, e o envio de reclamações e sugestões para os setores responsáveis (caso a empresa tenha um SAC próprio, por exemplo). É necessário também manter um relacionamento com o Marketing da empresa para qualquer notificação, como crises ou decisões sobre as atividades. Por ser a pessoa com mais contato direto com os consumidores, o Social CRM pode participar dos relatórios, gerando insights conforme o que foi observado. Esses insights podem auxiliar em criação de conteúdo e até mesmo a produção dos produtos.

Tatiane Marina

Assistente de Relacionamento Digital na L’Oréal, Raphael Costa conta que, desde que começou a trabalhar na área, suas atividades já sofreram alterações internas: “Enquanto agência minhas principais funções eram coletar e organizar dados para relatórios semanais e mensais, construir e revisar FAQs e dar suporte à equipe de estagiários, principalmente em casos sensíveis. Essas funções eram intercaladas com o auxílio cotidiano à gestora do projeto no atendimento ao cliente: uma multinacional com aproximadamente 20 marcas + comunicação corporativa e célula de SAC Tradicional”, conta. Hoje, com o trabalho consolidado e maior repertório profissional, sua função ganhou mais relevância: “Integro a equipe de SAC e dou tratativa para reclamações, crio alertas para casos sensíveis, consolido dados para outros setores da corporação e participo de reuniões e treinamentos para posicionar sobre problemas fora da curva que nossos consumidores nos relatam”.

Nesse sentido, Bárbara Vilas chama a atenção para a integração do relacionamento em mídias sociais com outras áreas de relacionamento e/ou atendimento de uma empresa, como é o caso de grandes companhias de telefonia ou bens de consumo. “É importante ter controle da informação dispensada ao consumidor, […] até mesmo um Excel pode ajudar no trabalho. O importante é ter o registro e controle da informação”, pontua. Nesse trabalho, tudo que é falado torna-se registro, sempre buscando uma otimização e melhoria dos serviços, como é o caso do Script de Respostas: “Esse arquivo é criado geralmente antes da agência assumir as redes sociais da marca e contém perguntas e respostas previstas – incluindo informações de perguntas frequentes que já eram recebidas via SAC convencional – e é alimentado quase que diariamente com as dúvidas e retornos que surgem ao longo do trabalho de moderação”, explica Suellen Figueiredo.

Esse tipo de documento ratifica três pontos essenciais do trabalho: agilidade, antecipação e adaptação. “Temos que ficar muito atentos ao andamento da campanha, post ou qualquer que seja atividade que o cliente esteja desenvolvendo, verificar se a FAQ desenvolvida está de acordo com os objetivos, mas também supre as possíveis questões que podem ser levantadas pelos clientes/seguidores/usuários das redes sociais”, explica Janaína Martins. Em suma, Tatiana Puzzovio reitera que o profissional de mídias sociais “deve estar antenado com o mercado digital, entender de tendências e inovações, estudar sobre o mercado em que seu cliente atua para criar oportunidades diferenciadas para a conta. É um profissional que não pode tornar o trabalho mecânico, caso contrário uma máquina é capaz de substituí-lo e essa não é a intenção”.

Como se integra (com as demais áreas)?

A própria descrição prática do trabalho de relacionamento nas mídias sociais já evidencia que se trata de uma área que atua em conjunto com várias outras frentes da empresa/agência. “A função de relacionar-se precisa fazer contato com diversas áreas: às vezes marketing, às vezes, RH; outras vezes, jurídico; processos; operação, SAC tradicional etc. Essa integração é excelente quando se tem um processo bem definido por trás. Um fluxograma com responsabilidades e timings de ação para todos os envolvidos no processo”, explica Carolina Terra. Clarissa Motta, que parte uma realidade de freelancer, também reitera a constante troca da área com os respectivos responsáveis: “O contato muitas vezes acontece diretamente com o(s) dono(s) da mesma. Assim, a avaliação e os feedbacks acontecem de forma mais personalizada para cada cliente/internauta”, explica.

“Construímos e disponibilizamos relatórios de acordo com o produto e recorte de público, a fim de ajudar a refinar a comunicação, além de oferecer um ‘olhar do consumidor final’ na revisão de dinâmicas de promoção, propostas de produto e outros materiais que o marketing constrói”, complementa Raphael Costa. Já Marcelo Salgado, entretanto, critica a falta de fluidez da integração entre as partes na maior parte do mercado: “Acredito que a dinâmica de rede exige uma integração que permita o funcionamento fluido de uma engrenagem, a que eu chamo de ciclo social: o relacionamento aprende com a conversação com o usuário, o business intelligence aplica esse aprendizado ao estudo de audiência, o estudo gera a segmentação e os insights de formato criativo, a criação e o planejamento propõem uma conversação saudável, quase sempre co-criando com creators (para alcançar públicos diferentes e de forma ainda mais legítima), a conversação acontece e gera mais aprendizado, e assim por diante”.

As opções de contribuição do relacionamento são bem vastas por conta deste viés tão próximo ao consumidor, em um cenário de agência, por exemplo, pode ser o que auxilia a agência na criação de peças publicitárias para explicar melhor uma mecânica de promoção. Na área de qualidade, pode contribuir com o histórico de reclamações de determinado produto, possibilitando que a empresa melhore sua qualidade. Na área de marketing, por exemplo, o relacionamento pode direcionar um insight, de acordo com pedidos do consumidor em relação à um produto específico, por exemplo, ou pode mudar o rumo de uma campanha de acordo com a percepção que traz do consumidor sobre uma divulgação.Na área de inovação, pode trazer o que provavelmente agradaria o consumidor em frente ao histórico de solicitações que tem do público. Na área jurídico, pode já trazer um status de alguns consumidores que informaram que iriam processar a Companhia e deixar a empresa já planejada para possíveis ações judiciais, ou que prontamente já entre em contato com estes consumidores evitando uma ação legal. As possibilidades do CRM são grandes, só basta o olhar cuidado da empresa para esta ferramenta muito poderosa e que ajuda a entender o consumidor.

Bárbara Vilas, Supervisora de Social CRM na Coca-Cola Brasil

Embora pelo menos três áreas (planejamento, conteúdo e monitoramento) tenham sido citadas com frequência dentre as respostas, Janaína Martins chama a atenção para o planejamento: “No meu ponto de vista, o CRM é responsável por auxiliar com insights as estratégias da área de planejamento. Somos nós que recebemos a primeira informação e repassamos para os demais setores, tal como um termômetro”, pontua. Nesse sentido, destaca-se também a fala – e o alerta – de Tatiana Puzzovio: “Vejo que muitas empresas ainda não aproveitam a riqueza de dados que o CRM fornece e acho esse o maior erro de algumas ações planejadas e divulgadas. Hoje eu trabalho em parceria com as áreas de planejamento, B.I e mídia, fornecendo dados do comportamento do consumidor das marcas que atendo para então trabalharmos juntos em ideias para que a marca converse com o público em potencial”.

Além da área de planejamento, vale destacar também a integração com o trabalho de monitoramento. Como explica Tatiane Marina: “O relacionamento e o monitoramento andam juntos, muitas vezes fazem parte do mesmo setor e fazem as duas funções. Em casos de buzz owned/interno, o Social CRM pode fazer toda a parte de classificação da marca enquanto responde as menções. Caso precise monitorar concorrentes, pode haver uma equipe para isso, dependendo da demanda, mas geralmente os trabalhos se integram”. Essa associação entre as áreas não é coincidência: as ferramentas de monitoramento que são líderes do mercado (Scup, Seekr e Buzzmonitor) têm, nos últimos anos, direcionado cada vez mais seus produtos para a funcionalidade de Social CRM – afinal, para termos de negócios, é muito mais fácil vender atendimento/relacionamento, por ser algo mais palpável, do que inteligência propriamente dita.

Concordando que “muitas vezes não há distinção entre” essas duas áreas, embora seja necessária, Tatiane Marina explica: “Ninguém melhor para ajudar no monitoramento do que quem lê 100% das mensagens de uma página. A pessoa de Social CRM é a pessoa que conhece a fundo os sentimentos humanos acima das tags e polarização de ferramentas e que pode levar mais sensibilidade aos relatórios de monitoramento”. Concordando que são duas áreas que podem caminhar lado a lado, Janaína Martins complementa: “Uma vez que [a área de monitoramento] é responsável pela interpretação dos indicadores e auxílio no desenvolvimento das estratégias com base no que deu e não deu certo durante o período, sua combinação com a área de CRM otimiza ainda mais esse trabalho de compreensão dos dados e também pode indicar em tempo real se a estratégia desenvolvida está dando certo ou não”.

E é também nesse contexto que a área pode ser uma grande ajudante do conteúdo, “utilizando os comentários como insights para publicações, atualizações de sites, posts em blogs e futuras campanhas”, como explica Tatiane Marina. “Muitos insights surgem a partir do olhar da moderação, pois o profissional que responde os comentários possui feeling suficiente para saber que tipo de conteúdo vai engajar […] e quais são os maiores temas das dúvidas. […] Se vejo que meu público é muito velhinho e está com dificuldades para comprar no site, sinalizo a Criação e Atendimento da agência para fazermos um passo a passo didático de como comprar no e-commerce. Se a maior dúvida do meu público é ‘onde encontrar’, posso sugerir um post falando sobre isso e sei que ele terá um bom desempenho, pois é um assunto de interesse dos usuários do canal”, complementa Suellen Figueiredo.

Dessa relação direta com conteúdo surgiu o cargo de Community Manager – conforme apontado nesse outro post. Esse profissional representa a integração completa da criação com o relacionamento, este que reconfigurou todo o processo criativo das marcas perante os consumidores e público-alvo devido à “horizontalidade” produtiva. “Brinco que o Community é o ‘stand up comedian’ da publicidade. É um profissional de criação que deve produzir conteúdo instantâneo e adaptado à demanda”, explica Ana Clara Matta. “É de enorme importância a integração do Community Manager com o time de criação, pois as estratégias de hygiene [manutenção de canais] e relacionamento em cada publicação em Social Media é uma extensão natural do texto do redator e da arte do D.A”, complementa. Trata-se de um profissional que vem ganhando cada vez mais notoriedade e que, assim como Business Intelligence e Growth Hacker, merece um “Profissão Social Media” só para si.

E onde estudar? Por onde começar?

Se você gostou de tudo que leu até aqui e está interessado em buscar uma oportunidade na área de relacionamento, saiba que (assim como em todas as outras áreas abordadas na série) a possibilidade de estudo extra-curricular é imensa. “Eu acredito que com a disponibilidade de materiais que existem online, fica muito fácil melhorar o conhecimento”, opina Janaína Martins, endossada também por Raphael Costa. “Hoje com acesso à internet a pessoa interessada consegue ter acesso à informação que ela deseja e, caso não encontre, ela pode através de redes de contato como LinkedIn acionar profissionais da área para trocar experiências e aprendizados. Para montarmos uma concorrência, por exemplo, nós profissionais estudamos 60% do tempo em cima dos canais online do cliente, ou seja: é possível, sim!”, explica Tatiana Puzzovio.

De modo geral, há dois pilares principais para estudar sobre relacionamento com foco em mídias sociais: o lado técnico e o lado teórico. “A primeira dica para estudar sobre Social CRM por conta própria é: conheça as ferramentas de monitoramento do mercado. No próprio site de cada uma delas é possível encontrar materiais disponíveis, ebooks, vídeo-aulas e até treinamentos gratuitos para você entender um pouco mais. Algumas delas possuem também versões gratuitas ou um período de teste para você conhecer melhor. Procure pelo Scup, Buzzmonitor, Seekr, OpSocial, Stilingue, entre outras. Em paralelo estude: gestão de crises, marketing de relacionamento e comportamento do consumidor. Entender as pessoas e o que elas querem quando te procuram com uma dúvida, reclamação e elogio é essencial para você que consiga levar a melhor resposta para cada uma delas”, recomenda Tatiane Marina.

“Existem cursos interessantes via Coursera e EDX sobre Gestão de Crise e Atuação em Social Media, e conhecimento geral de produção e planejamento de conteúdo é muito importante (e, se possível, do mercado em que a empresa está inserida, como saber sobre futebol ao trabalhar para um time, e saber sobre maquiagem para trabalhar com uma empresa de cosméticos). Mas acima de tudo, viver as redes sociais diariamente é o mais importante para se adequar 100% ao ritmo e à linguagem dos meios”, complementa Ana Clara Matta. Na prática, Clarissa Motta pontua: “O grande lance nesse trabalho é estar aberto, ser criativo e trazer reais soluções aos clientes. Se a empresa é do ramo alimentício e um cliente reporta que a comida esta estragada, não adianta apenas dizer que vamos melhorar da próxima vez. É necessário avaliar a fundo o motivo, perguntar ao gerente da loja e dar um retorno real ao cliente e entregar algo a mais”.

Mais pragmática, Bárbara Vilas pondera: “Eu acredito que tudo na vida é possível estudar por forma autônoma, principalmente com a vasta gama de conhecimentos que existem no meio online. Só que creio também que o ensino mais acadêmico ajuda o profissional a ter um conhecimento mais amplo, o que possibilita uma visão menos limitada em frente ao trabalho”. E Marcelo Salgado complementa: “Existem cursos muito bons para dar uma visão geral, de ponta a ponta, e de ferramentas, além de visão mais profissional e realmente conectada com a comunidade, para além (muito além) da publicidade vazia. Há profissionais que aprenderam na prática e cuja formação em jornalismo ou RP deu base e sustentação para acoplar a experiência e aprendizados diários que a rede dá, mas ainda acho que, mesmo nestes casos, algum aprendizado se deu por transferência de conhecimento entre pessoas, muitas vezes alguém que já estudou e desbravou caminhos”.

Acredito que a melhor forma de estudar isso é observando as ações de moderação de grandes marcas, benchmarks e concorrentes dos seus clientes, isso já traz muitos insights do que fazer ou não fazer. Contudo, nada me ensinou mais do que o dia a dia de moderação. Afinal, gestão de crise e geração de relacionamento com os usuários também são coisas que necessitam de experiência e conhecimentos sobre o momento sociocultural em que estamos vivendo. Imagine que um post passa pela aprovação de vários setores, que avaliam se a linguagem está adequada e não-problemática. Já cada resposta dada em redes sociais também é vista como uma comunicação da marca, então o profissional que as produz precisa ter muito tato e a linguagem na ponta da língua. Além disso, empatia para saber se colocar no lugar de quem está reclamando é fundamental.

Suellen Figueiredo, Analista de Estratégia Digital na HouseCricket Digital & Direct

Quem acompanha o blog sabe que eu sou grande defensor e grande crítico da academia. No entanto, perante um mercado cada vez mais repulsivo a qualquer tipo de conhecimento acadêmico, tento sempre levantar a bandeira da academia. Para quem trabalha diretamente com mídias sociais, há uma extensa produção brasileira e estrangeira que pode ajudar a compreender melhor sobre comunicação, negócios, pesquisa, sociedade em rede e muito mais. É essencial, portanto, que, aliado ao estudo “técnico” de ferramentas, plataformas e usabilidades, busque-se também uma visão mais ampla de comunicação, sociedade e publicidade. Por exemplo: “O trabalho do Com+ é exatamente de fazer pontes entre teoria e prática; entre mercado e academia. Preocupamo-nos em estudar o que acontece no mercado e dar olhares teóricos a isso e vice-versa”, explica Carolina Terra sobre o grupo de pesquisa COM+ do qual faz parte na ECA-USP.

É nesse contexto acadêmico, por exemplo, que surge o termo usuário-mídia: “Entendemos que o usuário-mídia é um usuário ativo tanto da internet como das mídias sociais e que produz, compartilha, dissemina conteúdos próprios e de seus pares, bem como os endossa junto às suas audiências em blogs, microblogs, fóruns de discussão on-line, sites de relacionamento, entre outros”, explica a pesquisadora. “Cada um de nós pode ser um canal de mídia: um produtor, criador, compositor, montador, apresentador, remixador ou apenas um difusor dos seus próprios conteúdos. […] “Estamos na era da midiatização dos indivíduos, na possibilidade de usarmos mídias digitais como instrumentos de divulgação, exposição e expressão pessoais”, complementa. Apenas com essa simples inserção ao debate os profissionais do mercado podem repensar suas estratégias e atuar em função das novas dinâmicas comunicacionais da contemporaneidade, tendo apenas como auxílio – não como verdades absolutas – as discussões acadêmicas.

Como entrar no mercado?

Essa é sempre uma pergunta difícil para quem tem interesse em trabalhar em médias e grandes agências – que são as que provavelmente têm esse trabalho específico para relacionamento digital focado em mídias sociais, como expliquei nesse outro post. No entanto, assim como nas outras áreas apresentadas nesta série, há sempre uma solução para quem não tem nenhuma experiência – basta um pouco de esforço e criatividade. “Uma vez um profissional consolidado me disse algo que nunca vou esquecer: o portfólio do Community Manager inclui todas as suas redes sociais. Sua capacidade de ser divertido em seu Twitter, ou produzir boas mixtapes no Spotify, tudo isso diz muito sobre o profissional”, pontua Ana Clara Matta.

Para quem já trabalha com isso é sempre mais fácil, como indicado por Carolina Terra: “Pode listar os casos que atendeu, como reverteu, os principais resultados atingidos e por aí vai. Quem vai contratar quer saber resultados práticos de quem está pleiteando a vaga”. No mesmo contexto, Janaína Martins conta: “Onde eu trabalho utilizamos diferentes FAQ’s, um para cada tipo de campanha. Nas FAQ’s que fazemos dentro da agência descrevemos respostas desenvolvidas, para possíveis questionamentos sobre a campanha. Esse documento elaborado por todos da área CRM poderá ser usado como portfolio do meu trabalho, quando necessário”. Ainda assim, mesmo para quem já tem experiência no cargo, Raphael Costa e Suellen Figueiredo chamam a atenção para o problema confidencialidade dos dados: “É difícil ilustrar ou criar um portfólio de moderação, pois você pode esbarrar em questões que o cliente não quer divulgar”, alerta a última.

A solução pode estar, portanto, na sugestão de Tatiane Marina: “Acho interessante a pessoa observar cases de relacionamento e falar sobre o que acha das soluções dadas. Como uma marca respondeu uma crise? Qual é a atitude dela com os elogios? Ela tenta ser mais próxima ou procura só responder o que é necessário, sem criar um relacionamento mais próximo? Essa fórmula, além de ajudar como portfólio, ainda mostra o poder de crítica e de procurar novas soluções para o que está acontecendo”. Escrevi um pouco sobre isso nesse outro post, mas reitero com as próprias palavras dela: “Para qualquer profissão na área de humanas é importante ter um espaço para mostrar sua opinião, sua escrita, sua linguagem, por isso, é sempre bom ter um blog ou um página em qualquer rede social para compartilhar isso. O LinkedIn também pode ser usado”.

Se eu fosse contratar alguém focado nisso para minha equipe, gostaria de saber se a pessoa possui experiência com crises em redes sociais, se trabalhou com clientes de segmentos diferenciados (pois saber transformar respostas técnicas em didáticas é um diferencial), qual o modo como reagia às reclamações, se possui boa escrita, se é alguém empático e que saiba lidar com trabalho em equipe e contato com outros profissionais da agência e do SAC. Também gostaria de saber se tem experiência com elaboração e utilização de scripts de respostas, clientes com muitos atendimentos diários (já trabalhei com demandas de mais de 5 mil atendimentos por dia), tagueamento e conhecimento sobre KPIs e ferramentas de moderação e monitoramento. Acredito que todas essas informações podem ser descritas no currículo mesmo e exploradas melhor em uma posterior entrevista, já que não são critérios tão visuais.

Suellen Figueiredo

Bárbara Vilas e Marcelo Salgado chamam atenção para o aspecto mais “psicológico” – e menos operacional – do trabalho de relacionamento: “Na área de relacionamento, é importante saber se relacionar. Não adianta você querer falar com pessoas se você for introvertido. Mesmo em um contato online, a empatia é fundamental”, explica a Supervisora de Social CRM da Coca-Cola. “É imprescindível cultivar uma capacidade empática e demonstrar isso na vida real e nos seus perfis sociais. E é desejável que ele demonstre experiência no relacionamento com clientes, porque ainda que por meios mais analógicos, como telefone ou pdv [ponto de venda], o contato diário com as pessoas forja profissionais mais capazes de lidar com pessoas”, acrescenta o Gerente de Mídias Sociais do Bradesco.

“Além disso, uma boa digitação, um bom conhecimento textual, entender com quem você está falando é essencial e, principalmente se for em uma entrevista para uma vaga de relacionamento: conheça o público desta marca, o estude, entenda como a marca fala na página e conheça sua Brand Persona” (BV); ou seja: “É imprescindível ter capacidade de expressão escrita clara e com repertório para se adaptar ao contexto/usuário” (MS). Nesse sentido, Tatiana Puzzovio também ratifica: “Se ao entrevistar alguém, recebesse uma lista de interações diferenciadas que essa pessoa já elaborou, seria um grande diferencial no momento da contratação! Além disso, gosto também de pessoas engajadas na escrita de temas relevantes para o mercado. Então um blog com textos também ajudaria nesse início”.

Planejamento para pequenas e médias empresas

Antes de entrar nesse debate propriamente dito, preciso fazer um mea culpa: geralmente é aqui que trago para discussão a questão do mercado de trabalho em diferentes estados do Brasil. Para este post, entretanto, falhei na minha missão de conseguir profissionais de diferentes localidades, concentrando a maioria dos esforços no Rio de Janeiro e em São Paulo. Portanto, excepcionalmente para este capítulo da série, não trarei a visão regional para o debate. Ainda assim, acredito que a própria dificuldade de não encontrar profissionais focados atuando em cidades “fora do eixo” já indica duas realidades complementares: 1) empresas pequenas/médias não têm uma área dedicada a isso porque não há “demanda” e; 2) o profissional responsável por esse relacionamento digital é o próprio “Social Media”, como abordei lá no início do texto.

Com isso, podemos puxar o gancho para o debate sobre como pequenas e médias empresas/agências podem usar do trabalho de relacionamento para alcançar relevância frente a um público cada vez mais disperso. “Como se destacar em universo que o consumidor pode se desligar de você com um click ou passagem do dedo? Este é um desafio e tanto, ainda mais com o pequeno alcance orgânico dado pelas mídias sociais (Facebook, Twitter, Instagram)”, levanta Bárbara Vilas. “Muito mais do que driblar os conteúdos em mídia sociais, é driblar o tanto de anúncios que essa pessoa vê em um dia (na televisão, no outdoor, na revista, no celular e etc)”, complementa. Para superar esse desafio, foi unânime dentre as entrevistadas: é preciso conhecer seu público (saber ouvir) para poder responder a altura e engajar. É aí que o trabalho de relacionamento mostra seu trunfo.

“Entender o que o consumidor realmente deseja, acompanhar o movimento dos mesmos nas redes sociais, escutar, observar e criar um conteúdo que esteja alinhado com o que os mesmos gostam é uma forma de se destacar”, aponta Clarissa Motta. “Para mim essa é a mina de ouro: conversar com um cliente que já conhece a sua empresa, já experimentou seu produto ou serviço, tornar o relacionamento mais forte e mostrar como uma marca pode ser humana. Os benefícios são bem claros, nós transformamos a marca em uma ‘amiga’, uma empresa que aquele cliente/internauta pode contar e está aberta a ouvir”, complementa. Ela é autora do capítulo “Relacionamento e monitoramento” do livro Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: Metodologias, aplicações e inovações (2016, IBPAD), no qual apresenta, além de toda uma fundamentação teórica, um case inspirador de relacionamento ativo para empresas de pequeno/médio porte.

Marcelo Salgado, também um dos autores do livro, no capítulo “SAC e Social CRM: Os 13 passos para estabelecer conversações”, indica, para todos os cenários, a implementação do “ciclo social”. Trata-se, de forma simples, de ouvir “o usuário para tirar disso insights criativos, e buscar nos anseios da própria comunidade os gatilhos para conteúdos mais genuínos”. Tomando suas palavras do próprio capítulo: “Meios novos, com dinâmicas próprias, requerem metodologias novas que, estruturalmente, coloquem as áreas de redes sociais para funcionar como uma só, como um ecossistema. Um ciclo íntegro que se retroalimente e que sirva à conversação. Estratégia, gestão e criação de conteúdo, BI, digital PR e SAC 2.0 devem funcionar sob o mesmo céu, para ouvir e conversar com o usuário, aprender com ele e, com isso, criar conteúdos, campanhas, produtos, serviços e canais mais próximos e legítimos”.

Imagem retirada do livro “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações” (2016, IBPAD)

Janaína Martins, Carolina Terra e Bárbara Vilas apontam também para a importância de um conteúdo relevante, personalizado aos interesses dos clientes (ouvir para engajar). “O ruim é que a maioria das empresas acabam falando apenas de si e esquecem de se comunicar com o consumidor”, explica a última. “Criatividade é a base de tudo. Vemos o tempo todo o mesmo atendimento padrão, seguindo FAQs perfeitinhas e o mesmo roteiro engessado do famoso telemarketing. Claro, algumas marcas precisam desse tipo de atendimento, mas sempre que possível é bom sair um pouco desse padrão e buscar outras formas de responder seu público. […] É muito importante conhecer com quem você está falando para saber de qual forma você pode lidar com cada assunto, transformando o atendimento em uma ótima experiência”, ratifica Tatiane Marina.

Sobre a produção de conteúdo baseada em formatos de linguagem e tecnologia que se tornam populares e se desmontam rapidamente, é preciso ser cauteloso por todos os lados. “A empresa que se destaca é a empresa que tem a coragem de ser early adopter e a organização de fazer isso de maneira rápida sem ser impulsivo ou pouco planejado. Isso só acontece com integração total entre os diferentes estágios de ação”, explica Ana Clara Matta. No entanto, Bárbara Vilas alerta: “Navegar em uma onda, em um trending topics, é ótimo para impulsionar seu conteúdo, porém, se não for do perfil da marca esse tipo de trending topics, por exemplo, não use, pois provavelmente seu público não irá se identificar”, indicando a atuação de conteúdo transmídia para atingir os usuários.

Do ponto de vista mais operacional, Suellen Figueiredo compartilha uma opinião da qual eu endosso veementemente: “É interessante pensar em estratégias que não priorizem o volume de conteúdo e sim uma divisão de verba mais inteligente. Posso investir menos em produção de conteúdo para que haja também verba para a mídia”. As pequenas e médias empresas (também por culpa dos profissionais e agências, que vendem pacotes “por post”) ficam muito ligadas a quantidade e abrem mão da qualidade que realmente engaja e possivelmente converte. “Também é importante criar conteúdos em movimento (GIF e vídeo, por exemplo) e que tenham call to actions claros (caso seja uma imagem estática), de forma que eu consiga atrair a atenção do meu usuário no momento em que meu post passa pelo feed dele (1 a 3 segundos)”, indica a entrevistada.

A conversa em mídia social, é bilateral, é troca, fale com o seu público, não fale com a massa, gere conversas, construa este relacionamento e não dispare apenas o que você quer falar, inclua em um contexto. É importante entender que um conteúdo que mostre apenas o produto, sem uma informação que gere interesse (benefícios, descontos e promoções) é ignorado. Ninguém gosta de ouvir uma pessoa falando de si, sem ter nado agregado para sua vida, então a sua marca também tem que se entender como uma pessoa, ter personalidade e ter algo para agregar para o consumidor, se não essa comunicação não atinge.

Bárbara Vilas

E como a área mudou nos últimos anos? Para onde vamos?

Com a conversa estabelecida até aqui já dá para perceber como o cenário de comunicação e relacionamento com o cliente tomou novos rumos na última década. Um dos principais fatores para essa reestruturação do trabalho de comunicação, não apenas na frente de relacionamento, mas de modo geral, é a ascensão e consolidação do imediatismo como estilo de vida – e a resposta das empresas e marcas a isso. “Com as tecnologias da informação e da comunicação, [o cenário atual] exige imediatismo de resposta e a exposição que o usuário dá ao problema é imensa. […] A necessidade de se tomar conta disso, responder, solucionar obriga as organizações a terem um timing distinto de atuação. E se não resolverem, correm o risco de parecer negligentes, displicentes, mal avaliadas”, explica Carolina Terra.

Em consonância, Marcelo Salgado ratifica: “As empresas descobriram que podem conversar de verdade com as pessoas, para além da publicidade de uma via só e para além do mero registro de reclamações. Com isso, a voz do usuário passou a fazer parte do cotidiano das empresas mais conscientes da mecânica de rede, ajudando a transformá-las por dentro. E o gap entre o tempo do usuário e o tempo das empresas também vem diminuindo, à medida que fica cada vez mais evidente a necessidade de compartilhar da preocupação e das jornadas dos usuários”. Ou seja, as novas dinâmicas comunicacionais digitais mudaram tudo: o que era visto como esforço agora é visto como pré-requisito, principalmente no quando se trata da interação cliente-marca, que ganha outro nível hierárquico com o advento das mídias sociais.

Hoje estamos em um universo de CRM 3.0, e o que isso quer dizer? Falamos de uma comunicação que evoluiu do 1.0, em que o consumidor tinha o desejo de conversar com a marca e escrevia uma carta para levar até a empresa, aguardando depois a solução que poderia demorar mais de um mês. A empresa não tinha mais informações que as básicas que ele preencheu na carta, ou seja, tinha total controle sobre esse consumidor, já que poderia resolver ou não a situação de forma amigável e melhor ao consumidor ou de forma negativa, que o máximo que aconteceria seria uma nova carta desse cliente insatisfeito. Após essa fase, entramos na era 2.0, que então percebemos um movimento de marcas começando a se preocupar com o consumidor, agora que ele tinha acesso a informação pelo digital e passou a ganhar poder em sites e blogs, comentando sobre produtos e satisfação com atendimento. Nessa fase as marcas passaram a se preocupar com a exposição e o trabalho de gerenciamento de crise passou a ter um grande esforço. Passada essa fase, evoluímos para o cenário do 3.0, em que o consumidor ganhou ainda mais força, já que comenta em tempo real a sua experiência com a marca. […] Ou seja, se as marcas não se preocuparem com o cliente de hoje, elas estão expostas a situações negativas que conseguem afetar o escopo macro, indo para o micro do digital e fazendo um tremendo barulho!

Tatiane Puzzovio, Gerente de Data Science na RIOT

“Aquilo que é o ‘mínimo esperado’ era anteriormente um diferencial gigantesco para algumas marcas. O consumidor já espera responsividade e bom atendimento, o que ele realmente quer é ser surpreendido. E surpreender esse consumidor está ficando cada vez mais difícil”, aponta Ana Clara Matta. “Hoje, as redes sociais já são a primeira alternativa de muita gente, mesmo antes de contatar um SAC por telefone. Afinal, eu pergunto pra marca na minha hora, ela me responde (rápido, por favor!), e eu respondo novamente na hora em que estiver disponível, otimizando o meu tempo. […] Além disso, hoje, mesmo o comentário considerado neutro (que não seja uma reclamação ou dúvida) pode ser um atendimento, pois eu tenho oportunidade de responder criando relacionamento e/ou oferecendo meus produtos”, complementa Suellen Figueiredo.

Além desse imediatismo exacerbado, Bárbara Vilas também aponta a “transmidiaticização” do relacionamento marca-consumidor: “O consumidor exige mais da marca, então o atendimento é totalmente personalizado. Hoje não ficamos apenas no mural do Facebook, exploramos o contato nos comentários, nos replies, fazemos ativo no Twitter[…], falamos no Instagram, fazemos contato geolocalizado no Instagram, enfim, se o consumidor explorou novas formas de se comunicar na internet, nós também caminhamos nesta mesma direção”. E Clarissa Motta complementa: “A empresa que usa essa ferramenta [de SAC 2.0] de forma correta e realmente busca uma melhoria através dos feedbacks recebidos online se torna ainda competitiva e atrativa para seus consumidores”.

Hoje sabemos que grande parte da população acredita que a internet se resume ao facebook, ou seja, estar nas redes sociais e ter esse canal como um SAC da marca já não é mais uma opção principalmente para as grandes marcas. O atendimento nas redes sociais já é um dos mais canais mais utilizados e mais eficientes para o contato, ou seja, área foi obrigada a crescer rapidamente por causa dessa grande demanda. Acredito que, conforme as pessoas foram tendo voz e conhecendo seu poder na internet, mais esse trabalho foi ficando necessário. Graças aos compartilhamentos, rapidez de transmissão de informações, o fácil acesso em qualquer hora e local com celulares, tudo influencia para que o trabalho de Social CRM tenha que ser cada vez mais rápido e sem erros (pois esses também serão compartilhados rapidamente, caso aconteçam). Se antes o telefone era o meio mais procurado, ou até mesmo o site da empresa, hoje as pessoas querem que alguém as atenda em qualquer hora e local, sem precisar parar o seu tempo, esperar na linha ou fazer uma grande pesquisa: eles sabem para quem recorrer e onde perguntar e sabem que serão ouvidas.

Tatiane Marina

E do mesmo jeito que essa relação horizontal pode vir como oportunidade para as marcas, pode também surgir como grande problema – uma verdadeira faca de dois gumes: “Hoje as marcas estão mais engajadas no digital. Antes o que era mais simples de popularizar ou ‘criar um buzz’, hoje percebemos que o que tem tornado viral são experiências negativas que as pessoas passam com a marca ou uma propaganda que abraçou um público e gerou polêmica. O público de 5 anos atrás não sabia o poder que tinha nas palavras ao contestar uma ação e hoje qualquer ‘ponto fora da curva’ eles cornetam”, explica Tatiana Puzzovio. Ou seja, em suma, as marcas precisam ser ágeis (ter uma boa engrenagem interna), eficazes e prestativas. Essa é a realidade de ontem e hoje – e quanto ao futuro, o que nos guarda? Tudo isso ainda mais intenso.

“Todos os prognósticos apontam para a utilização de bots e machine learning para reduzir a carga de interações diária para o profissional de Social CRM, especialmente quando aplicado a dúvidas e SAC”, opina Ana Clara Matta. “Sinto que a gente precisa começar a pensar em bots e automatização de uma maneira mais corriqueira. Não serão, logo mais, uma alternativa ‘legal’, serão o básico. Essa mudança é bem importante para pensar como traduzir a marca para um atendimento automatizado, leve e inteligente”, acrescenta Raphael Costa. O debate sobre chatbots ganhou outra proporção nos últimos dois anos, e em 2017 é um dos principais temas das palestras que acontecerão no Social Media Week SP. Mas a pergunta que fica é: o que isso significa?

“A automação parece ter tomado conta das discussões, sobretudo com o investimento do principal player do mercado, o Facebook, em APIs para chatbots. No entanto, nenhuma experiência conseguiu ainda realmente resolver problemas e encantar as pessoas. Então um dos principais desafios nos próximos anos é aprimorar inteligência artificial para ser capaz de ir além de uma árvore de decisão”, pondera Marcelo Salgado. De acordo, Tatiane Marina complementa: “Os bots podem servir como um atalho para um número grande de interações e dúvidas frequentes, mas para criar e manter um bom relacionamento com o consumidor é essencial que um ser humano esteja por trás de tudo. Por isso o futuro pode ser um trabalho menos ‘braçal’ e mecânico para o Analista e mais criativo, usando cada vez mais facilitadores tecnológicos”.

Embora todas as respostas apontem para a tendência à automatização e chatbots, todas também ponderam o fator humano do trabalho. “Cada vez mais atendimentos automatizados, porém, que atendam de fato as necessidades das pessoas. Facilidade de acesso ao atendimento em função da ubiquidade. Ferramentas integradas ao universo móvel”, indica Carolina Terra. “Acredito que em 5 anos os processos serão ainda mais automatizados e acessíveis ($), mas o profissional ainda precisa estar de olho e acompanhar de perto, para tornar o relacionamento o mais humanizado possível”, opina Clarissa Motta. “A personalização do atendimento e o deep profiling custam tempo e verba de operação, mas fortalecem os laços entre marcas e clientes de maneira muito mais efetiva. O fator humano ainda não se tornou descartável”, acrescenta Ana Clara Matta.

Tatiane Marina ainda enxerga com otimismo o futuro da área para aqueles que desejam trabalhar com Social CRM: “Acredito que o SAC tradicional vai perder cada vez mais espaço para as redes sociais, ou seja, a área vai precisar estar cada vez mais preparada para o aumento dessa demanda, procurando profissionais mais capacitados e que entendam muito mais do que apenas a parte do SAC: pessoas que entendam do contexto geral de mídias sociais e os objetivos delas”. Também sobre isso, Raphael Costa opina: “Essa virada vai solicitar profissionais cada vez mais multidisciplinares: aquele profissional de marketing, apaixonado por jogos e programação, mas que também entende tudo de moda. São pessoas assim que vão construir um relacionamento de qualidade num futuro extremamente digital e com pontos de contato que se multiplicam segundo a segundo”.

Acredito que a área de CRM certamente ocupará o centro das estratégias de marketing. Hoje em dia, muitas empresas trabalham com o conceito de consumidor no centro, mas desconhecem totalmente o funcionamento da sua área de relacionamento. É por isso que entendo que o maior desafio da área é mostrar que é muito mais que um SAC, é uma importante fonte de conhecimento, que deve ter seus dados dentro da área de Business Intelligence e contribuir na construção de estratégias de marketing e de negócio. Cada vez mais o consumidor tende a ser parte da estratégia, com isso o CRM tem a responsabilidade de ter uma análise mais detalhadas dos seus dados, ter um controle de informação, construindo uma grande plataforma de big data do consumidor.

Bárbara Vilas

E se chatbots parece ser o trending topic da vez, um assunto que mesmo após anos de debate mantém sua relevância no mercado é a questão dos influenciadores. E como eles se encaixam dentro do contexto de relacionamento entre marca e consumidores? Marcelo Salgado, um dos “embaixadores” do trabalho da youPIX em prol dos “creators”, tem a resposta: “A co-criação se alimenta da interação com as pessoas para se estruturar e gera mais conversações quando vai para a rua. Quando ampliamos o impacto dos conteúdos para audiências às quais não teríamos acesso sem o creators, também abrimos portas de conexão e conversação. O ciclo social gira mais aquecido e eficiente do ponto de vista de conexão com as pessoas com a co-criação”. Ou seja, cada ação faz parte de uma estratégia que deve englobar todo o ciclo social que gere a ação das marcas na internet e principalmente nas mídias sociais.

Recentemente um texto sobre microinfluenciadores reacendeu o debate sobre quem são influenciadores, quem são microinfluenciadores e o que eles podem fazer para as empresas. No contexto do relacionamento, Tatiana Puzzovio dá sua opinião: “Trabalhar o relacionamento é criar micro influenciadores. Dessa forma entendemos quais são os amantes da marca, os reclamões, o perfil que conversa mensalmente e ressaltar quais são os assuntos também”, explica. Esses personagens surgem num mercado cada vez mais saturado de ações incoerentes entre marcas e “creators” (ou influenciadores digitais de massa, webcelebridades), com aponta: “[São] pessoas comuns, com volume mediano de seguidores, mas que têm um apego a marca e que impactaria um volume menor de pessoas, mas com reversão alta no resultado final”.

Com certeza a área de relacionamento digital é uma das que mais deve sofrer alterações nos próximos anos, e não seria prudente tentar avaliar, tendenciosamente, se essas mudanças virão “para o bem ou para o mal”. A comunicação digital é uma esfera cultural que tem mudado cada vez mais rápido, e novas dinâmicas interacionais não necessariamente surgem para substituir antigos hábitos, mas para otimizar funções e atribuições que têm espaço para melhoria. Ainda assim, é preciso ser bastante crítico às novidades e não se vender facilmente ao que é novo apenas porque brilha. Finalizo, então, recomendando o relatório “The Conversational Business: how chatbots will reshape digital experiences”, do Altimeter Research da Prophet, para quem tiver interesse no assunto.

Considerações finais

Agências, escutem seus Community Managers. Eles não são operadores glorificados de Telemarketing. Se uma agência é um organismo humano, os CMs são os 5 sentidos. Eles escutam as demandas, e agem sobre elas.

Ana Clara Matta

Trabalhar com comunicação é difícil, o mercado não é o mais propício para empregos e a disputa por vagas é grande, mas se você gosta muito de comunicação social e quer mesmo trabalhar com essa área, não se limite as barreiras do cotidiano. Não conseguiu um emprego, busque um freela, não conseguiu um freela, faça algo para você e aplique em uma marca sua, mas não deixe de estar presente na área. O mercado já é ruim e se você se afastar da área de atuação é ainda pior. Então esteja sempre buscando atuar na área, mesmo que seja pra você mesmo. Ah, e não deixe de estudar, eu acredito mesmo que o conhecimento é uma das grandes formas de destaque de um profissional e o melhor do marketing digital, é que ele é online e o conhecimento está na rede…então explore o quanto puder os cursos do Google, faça os cursos do Facebook, entre em Blogs e coloque a sua energia para aprender, pois marketing digital está ligado a tecnologia e a tecnologia está sempre mudando.

Bárbara Vilas

Estudar sempre, uma vez que esse é um universo mutante, dinâmico, volátil e efêmero.

Carolina Terra

Eu digo que esse trabalho precisa ser feito com uma dose extra de amor. Não são só números e menções para um relatório, são pessoas reais, que consomem o produto e serviço que estão ali para oferecer informações valiosas às empresas. Escutar, observar e pensar em estratégias e soluções baseado nesses aprendizados faz toda a diferença. Palavra de quem vê isso na prática. Dicas: fazer o máximo de cursos online possível, como os da IBPAD, HUBSpot, Google Digital Academy, Rock Content, Future Learn.

Clarissa Motta

Bom minha gente, a área de social CRM/SAC 2.0 é muito boa! É uma satisfação para mim, que atuo na área, ver como os usuários das redes interagem de volta com nossas respostas aos seus comentários. Oriente que para quem quer entrar nessa é imprescindível ter muita atenção, bom conhecimento das gírias da internet e compreender o que a marca deseja passar para o cliente, em cada campanha.

Janaína Martins

Redes são, sobretudo, conversações. Então tudo o que temos a fazer é olhar para a essência destes ambientes e trabalhar sobre ela. Tudo o que temos de responder é: como estabeleço melhores conversações aqui? Todo o entorno deve funcionar como um mecanismo intrincado cujo o principal objetivo é que cada conexão criada ou surgida torne-se mais forte. Se fizermos isso, estaremos fazendo rede na sua plenitude e para o bem mútuo.

Marcelo Salgado

Ser um profissional de social media não precisa significar estar 24/7 conectado. Fuja de vagas que pedem esse perfil. Já fui muito viciado em redes sociais e isso me ajudou a ter uma visão muito boa de estratégia, conteúdo e penetração de público, mas é na “vida real” (adicione quantas aspas quiser) que a gente constrói base para levar conteúdo interessante pras mídias sociais. O mercado solicita profissionais cada vez mais multidisciplinares e não, isso não precisa significar que você saiba Photoshop, Excel, Power BI e Salesforce. Isso significa que você precisa entender como esses programas automatizam certos processos e entender esses processos é o mais importante para um trabalho de qualidade. Em vez de procurar sobre ferramenta, procure sobre Gestalt, Storytelling, Data Journalism e leia relatórios interessantes que possam te oferecer muito mais que uma aula de excel no youtube. A aula vem quando você já sabe o que quer fazer, só não sabe como. Ainda 😉

Raphael Costa

Li o artigo inicial e concordei com muitas das divisões. Acho que realmente ainda há muita divergência sobre o que é um profissional de social media, principalmente em pequenas empresas/pequenas agências. A maioria das vagas que vejo por aqui (Curitiba) pedem que o profissional seja mídia online, diretor de arte e redator, atendimento, planejamento… e ah, e responda os comentários! Essa parte de relacionamento ainda não é vista como uma profissão específica na maioria das agências daqui, mas acredito que essa cultura irá mudar bastante nos próximos anos. Eu comecei em social fazendo esse tipo de serviço e hoje minhas demandas diárias são muito focadas em moderação, análises, levantamentos e métricas, além do próprio relacionamento com cliente, atendimento e criação (que consomem uma boa parcela do meu dia). Não sei como dava pra ser tão multifuncional em 2013! Hehe ainda bem que o mercado finalmente está entendendo que, se você trabalha com atividades de tantas áreas diferentes, você não consegue se especializar em nada.

Suellen Figueiredo

Acredito que está bem completo e o mais importante: não deixem nunca de estudar. Aprendam CRM, Monitoramento, B.I, Mídia, planejamento… sejam multi tarefa! Esse é o maior desafio!

Tatiana Puzzovio

Se você quer começar na área de Mídias Sociais o Social CRM pode ser uma ótima porta de entrada. Logo de cara você poderá ter a oportunidade de trabalhar com grande marcas e em grandes agências. Não deixe de estudar muito e estar ligado em tudo o que acontece, esteja sempre atualizado e, principalmente, trabalhe com muito amor. 🙂

Tatiane Marina

FONTES DE REFERÊNCIA E INDICAÇÕES PARA ESTUDO

 

Participantes

Ana Clara Matta
De São Paulo, com 2 anos de experiência e formação em Publicidade e Propaganda | LinkedIn | Twitter | Facebook

Blogueira e jornalista cultural por grande parte da minha juventude, e produtora em um festival de cinema, já iniciei meu caminho na publicidade como Social CRM na J. Walter Thompson e hoje sou Community Manager na Sunset Comunicação.

Bárbara Vilas
Do Rio de Janeiro, com 5 anos de experiência, formação em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) Pós-Graduação em Marketing e Design Digital | LinkedIn | Facebook | Medium

Profissional de publicidade e propaganda, que encontrou no marketing digital sua grande paixão. Realizo um trabalho focado em marketing online há 5 anos: na parte de owned media com atuação em relacionamento em redes sociais, extração de dados de CRM, monitoramento e métricas.

Carolina Terra
carolterraDe São Paulo, com 15 anos de experiência, formação em Relações Públicas e doutorado em Interfaces Sociais da Comunicação | LinkedIn | Slideshare | Twitter | Blog

Iniciou sua carreira em Bauru, atuando em empresas como FIAT e Associação Hospitalar de Bauru. Atuou por quatro anos e meio como Relações Públicas da Vivo, foi coordenadora de comunicação corporativa do MercadoLivre, diretora de Mídias Sociais da Agência Ideal e gerente de mídias sociais do Grupo Nestlé, onde era responsável pela presença digital da marca Garoto e consultora das demais marcas da Nestlé. Além disso, é docente para os cursos de pós-graduação em Comunicação Organizacional e Digital, da ECA-USP e diversos MBAs na FIA. Atualmente, possui uma consultoria de mídias sociais. É, também, autora de diversos livros, dentre eles: Mídias Sociais…e agora? e Blogs Corporativos (Difusão Editora) e editora dos blogs RPalavreando e Relações.

Clarissa Motta
De Salvador, com 6 anos de experiência, formação em Publicidade e Propaganda e MBA em Marketing e Gestão Empresarial | LinkedIn

Histórico comprovado na gestão de projetos de comunicação e marketing. Construção e supervisão de reposicionamento de marca através de estratégias de comunicação superando as expectativas da organização. Intensa vivência e conhecimento na área de marketing digital. Excelente capacidade de análise, escrita, raciocínio, planejamento e cumprimento de prazos.

Janaína Martins
De São Paulo, com 4 anos de experiência e formação em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) | LinkedIn

Analista de Mídias Sociais Sênior na Salve Tribal World Wide. Jana, paulista, falante, bem humorada e que tentou ser administradora, mas apesar do inúmeros conhecimentos adquiridos, se apaixonou pela área de marketing. Descobriu a publicidade e entrou de cabeça para se aventurar na área de monitoramento de redes sociais. Vive feliz desde então! Ao longo do tempo também semeou conhecimento dando cursos na Faculdade Zumbi dos Palmares, onde estudou. Fico muito feliz em poder levar -ao ponto de partida- um pouco do que aprendeu como profissional.

Marcelo Salgado
De São Paulo, com 18 anos de experiência e formação em Letras, Comunicação e Marketing Digital | LinkedIn | Twitter | Medium

Especialista em Mkt Dígital e Project Manager na empresa Empatia, já trabalhou com gestão de equipe, planejamento e projeto de conteúdo para clientes como: Boulevard Shopping, Sorveteria Icebode, Cia Paulista de Pizza, Parque Shopping Belém, Sushi Ruy Barbosa, entre outros. Vem se aventurando também como facilitadora na escola Marco Zero, mergulhando nesse universo lindo de dar aulas pelo simples prazer de compartilhar.

Raphael Costa
Do Rio de Janeiro, com 1 ano de experiência e graduando em Estudos de Mídia | LinkedIn

Assistente de Relacionamento Digital na L’Oréal. Graduando em Estudos de Mídia e profissional de CRM e Social CRM com foco pessoal/profissional em trendwatching – com tecnologia, arte e beauty market como nortes temáticos -, reporting e data journalism.

Suellen Figueiredo
Do Paraná, com 4 anos de experiência, formação em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) | LinkedIn

Analista de Estratégia Digital na HouseCricket Digital & Direct. Comecei a trabalhar com mídias sociais em janeiro de 2013. Desde então, minha profissão mudou muito e cresci com isso, acabando por me especializar em atividades como análises de métricas e relacionamento com o consumidor.

Tatiana Puzzovio
De São Paulo, com 7 anos de experiência, formação em Relações Públicas e especialização em Direito Digital | LinkedIn | Slideshare

Gerente de Data Science, Graduada em Relações Públicas e especializada em Direito Digital, Storytelling, Análise de Big Data e consumo do consumidor digital. Presente no mercado digital há quase 7 anos,trabalhando nas áreas de qualidade, inteligência de mercado, planejamento digital e também atendimento ao consumidor para mais de 40 clientes nacionais como Habib’s, Oi, Hyundai, Sadia, Perdigão, Piracanjuba, OMO, AdeS, Brastemp, Consul, SulAmérica, Cielo.

Tatiane Marina
De São Paulo, com 2 anos de experiência e formação em Marketing | LinkedIn

Analista de Interações e Monitoramento no Grupo Rái. Formada em Marketing, apaixonada por mídias sociais, trabalhou no relacionamento e monitoramento de marcas como Grupo L’Oréal, Usaflex Calçados, Clínica Fares, Pizza Hut, entre outras.

Relacionamento, relevância e tipologias: influenciadores digitais x marcas, por Dayana Souza

[Texto escrito por Dayana Souza, mestranda no PPGCOM/UFF e Analista de Mídias Sociais]

Antes de tudo, acho importante dizer que influenciadores existem antes do digital – parece uma afirmação óbvia, mesmo assim, o óbvio, algumas vezes, precisa ser dito. Começo assim, pois acho importante pensarmos no que é influenciar, acredito que esse seja um parâmetro chave, muitas vezes “esquecido” por marcas, quando contratam um “influenciador digital”. Devo pagar caro no cara com 1.0000 de seguidores ou é ok contratar aquele com 35k? Depende, não é 8 ou 80. É necessário pensar em uma séries de coisas, conhecer a sua marca, pensar no público, na narrativa que quer contar. Eu digo, sem medo de arriscar, que é um trabalho que envolve um olhar sobre sociedade. Estamos falando para seres humanos, que vão decodificar e ressignificar o conteúdo de acordo, também com suas experiências. Precisa fazer sentido!

É preciso pensar em engajamento, porque a gente bem sabe que tem uma galerinha que compra seguidores, curtidas e afins. Mas como pensar nesta questão? Existem plataformas que ajudam a entender a relevância desses influenciadores dentro de alguns nichos, como a Air Influencers. Ah, então já facilitou a vida e tá tudo certo? Mais ou menos. É preciso pensar para além dos nichos, no capital social que aquela pessoa detém dentro de determinado assunto, e ter também um olhar minucioso sobre o discurso. Por exemplo, Paola Carosella é extremamente participativa nas mídias sociais, não necessariamente uma blogueira, mas detém capital social no ambiente online (o poder da fala dela no que tange o nicho gastronômico/alimentício é grande). Ela constantemente cita termos que dialogam com alimentação saudável etc. Faz sentido colocá-la para falar de suco industrializado, cheio de corantes, com 10% de fruta – mesmo que seja vendido como algo saudável? NÃO!

É um exemplo básico, mas é um equívoco que acontece bastante. Existe um público atento que busca identificação com o que lhe é passado. Muitas pessoas se intitulam influenciadores digitais, mas ficam as questões: influenciam quem? Onde? Quando? Há a possibilidade de ser influente em um nicho, mas o discurso não ser potente para determinada marca dentro daquele universo, justamente por uma questão de aderência do público. Quem nunca ouviu casos de blogueiras de beleza que fizeram posts sobre cremes que não tinham a ver com o seu público alvo e o mesmo reclamou, criticou duramente? É necessário pensar nesse pilar: marca – coerência no discurso – “influenciador” – público. Tornando o processo de escolha e alinhamento com a campanha/marca ainda mais claro, há algumas tipologias possíveis para a classificação de tipos de influenciadores.

Uma delas é proposta por Gabriel Ishida, publicada originalmente no livro , do IBPAD. O autor parte de uma visão de profissional de BI (métricas, monitoramento e negócios), ou seja, está preocupado principalmente no que tange aos resultados trazidos por influenciadores – e é a partir desse contexto que traça três tipos de perfis: broadcasters, conectores e legitimadores.

Slide da apresentação “Influenciadores”, para o Simpósio de Inteligência em Mídias Sociais do IBPAD (2016). Clique na imagem para acessar o material.

a) Broadcasters – influenciadores com uma grande base de seguidores e alto alcance. Ishida, nos alerta para algo interessante: estas pessoas não precisam ser necessariamente uma celebridade, mas podem atrair o público pelo estilo, conteúdo e afins (vide algumas socialites etc.)

b) Conectores – Estes estão relacionados a outros influenciadores, principalmente broadcasters. É alguém que promove, estimula a conversa entre diferentes grupos. Sabe aquele discurso que exerce um certo poder? Então, esta é uma das características dos conectores.

c) Legitimadores – Aqueles influenciadores que são referências em determinado assunto. Podem ser low profile, que são aqueles que quase não postam nem costumam se expor. Há também os legitimadores de tribo, que são os que causam identificação e representam algum estilo de vida ou afins e possuem um discurso forte dentro daquele meio.

Já o Youpix, que parte de um referencial mais ligado à realidade do próprio produtor de conteúdo (ou creators, como costumam chamá-los), apresenta os influenciadores em 7 tipos diferentes, de acordo com os critérios: alcance (audiência), ressonância (repercussão e engajamento) e relevância.

  1. Top Celeb – o ponto chave aqui é o alcance; esse influenciador consegue falar com um alto número de pessoas, mas não necessariamente tem influência direta dentro de determinado assunto, pois sua audiência é um tanto quanto genérica.
  2. Fit Celeb – alto alcance e, ao mesmo tempo, grande proximidade com o assunto/público alvo da empresa.
  3. Autoridade – Seu discurso exerce um certo respeito, poder dentro do nicho da marca. Tem grandes chances de engajar e exercer influência em seu público. Pode endossar a imagem e percepção acerca de uma marca.
  4. Ecossistema – um conjunto de pequenos influenciadores, que acabam conseguindo influenciar fortemente dentro de determinado contexto. São bons para fortalecer posicionamento de marcas.
  5. Trendsetter – fortes nomes profissionais em seu campo de atuação. Reconhecidos e respeitados, acabam exercendo um certo poder de fala, um alto capital simbólico.
  6. Jornalistas – presentes na mídia tradicional, grande alcance e não precisam ter alta relevância temática. Seu ponto chave é a audiência.
  7. Público interno – micro-influenciadores ou funcionários da empresa. Seu discurso pode aproximar o público e a marca, além de levar uma certa humanização.

Por fim, a ferramenta Traackr, que tem se dedicado bastante ao trabalho de influencer marketing lá fora, traz ainda outra classificação possível – que se assemelha, até certo ponto, com a do Youpix – aqui, são 10 perfis diferentes: a celebridade, a autoridade, o conector, a marca em pessoa, o analista, o ativista, o entendedor, o engajado, o disruptivo e o jornalista. Neste post do blog da Media Education você encontra uma boa explicação e aplicação dessa tipologia – vale conferir!

Essas classificações não necessariamente se excluem ou se contradizem, mas nos ajudam a pensar como podemos organizar – estrategicamente – a parceira com influenciadores no universo digital. No final das contas, tudo depende do objetivo. Exemplo: uma marca de telefonia móvel contratou uma grande (no quesito seguidores/popularidade geral) blogueira para uma propaganda que vai ao ar na TV e internet (olha aí como as mídias coexistem e precisamos olhar para isso). Ela é uma autoridade do nicho? Não necessariamente, mas o alcance é grande e tem uma outra questão que é o fascínio dela enquanto pessoa pública. Pode fazer sentido para a marca. Então, tudo bem, desde que não desfoque do posicionamento que aquela pessoa tem online. O que quero dizer é que é importante para as empresas entenderem o seu objetivo e enxergarem além dos números de seguidores.

Precisamos começar a olhar dados, mas também pensar se a história está sendo passado de forma conexa. No mais, acho que aos poucos vamos caminhando para uma dinâmica de marcas – influenciadores menos amadora, mas é um caminho bem longo, de construção de diálogo, observação e desconstrução de ideias muito “quadradas” e que não olham para o consumidor final como um agente que também detém poder e voz e quer sentir-se representado. É tempo de alinhar os discursos, a imagem e ideias que as marcas querem passar através desses influenciadores que são os que vão contar isso e ajudar na produção de sentido em torno da narrativa contada. Mais uma vez: PRECISA FAZER SENTIDO!

O debate sobre influenciadores não é atual e ao mesmo tempo continua bastante atual. Não é atual porque não é necessariamente recente, mas também é atual porque continua sendo relevante mesmo depois de anos de aprendizado. No Social Media Week São Paulo deste ano, por exemplo, além de chatbots e inteligência artificial, o outro tema frequente nas palestras é a questão dos influenciadores. Ou seja, o debate continua e é importante que continuemos a debater para que possamos continuar aprendendo uns com os outros. Recentemente um texto na Proxxima também desencadeou o debate sobre ROI, que resultou nesse texto do Ishida e nessa recomendação do grupo de pesquisa COM+ da USP.

E para quem acha que academia e mercado devem andar separados, “finalizo” esse post com um gancho para continuarmos o debate: compartilho aqui o 3º Encontro de Pesquisa do COM+, que reuniu profissionais do mercado e da academia para falar sobre influenciadores. Além de debaterem a partir do viés mercadológico, levando marketing, estratégia e resultados em consideração, discutiu-se também em diálogo com a academia, que tem muito a oferecer quando o assunto é influência e capital social. Vale a pena conferir:

O que aprendemos e como continuar estudando sobre métricas/BI, por Kaique Oliveira

[Texto escrito por Kaique Oliveira, cientista de dados na Focusnetworks e professor de marketing digital na FAAP]

Chegamos ao último artigo da minha série sobre Business Intelligence aplicado em agências de comunicação. Antes de disponibilizar o material completo da minha aula de métricas e monitoramento de mídias sociais, gostaria de compartilhar com vocês alguns comentários que recebi nos últimos artigos publicados no Insightee 🙂

“Vindos de um universo cada vez mais perdido em indicadores superficiais e não relacionados as regras de negócio, apenas focados em IV sem metas. É motivador ver textos com uma linha racional realmente voltada para o que realmente importa, o resultado do negócio.“
Marcio Ulpiano

“Acho incrível como ele consegue transformar o que pintam como um bicho de 7 cabeças em algo tão simples (e útil).“
Pedro Meirelles

“Realmente, o quanto a gente se perde vendo só números bonitos (que chamo de métricas de vaidade) e esquecemos o que realmente importa.“
Mabia Barros

“Manda mais Kaique no blog que tá pouco.“
Roberta Cardoso

“Tudo bem explicadinho. Obrigado Kaique.“
Welson Murici

Cada comentário foi um combustível para essa série de conteúdo que eu produzi ao longo de praticamente um mês. Se você ainda não leu os artigos, aproveite agora para conferir cada um deles e aplicar no seu cotidiano como profissional de Business Intelligence:

  1. O que os profissionais de BI de agências digitais podem aprender com o BI tradicional?
  2. Como utilizar indicadores de controle e verificação para medir a performance da sua campanha
  3. Como fazer um plano de métricas para campanhas

Por fim, abaixo está o material completo da aula de métricas e monitoramento que ministrei no curso de marketing digital na FAAP. Compartilhe este material com seus amigos e deixe seu comentário nesta publicação para que possamos conversar um pouco mais:

Esse material foi a inspiração para todo o conteúdo que eu compartilhei aqui no blog. Antes de finalizar a série – e para mostrar que o aprendizado não acaba quando termina -, gostaria de destacar alguns cursos e especialidades que fazem toda a diferença para quem deseja trabalhar como Analista de Dados, ou Analista de Business Intelligence.

Quando falamos de especialidades, temos um artigo completo feito pelo Pedro Meirelles que abrange não somente o Analista de BI, mas todas as profissões que estão dentro do contexto digital. Perceba que as palavras relatórios, mídia, Google Analytics e Excel estão em destaque na pesquisa. Não é por menos. Cerca de 70% da nossa rotina está dentro deste universo. Apesar de falarmos de dashboards personalizados, os relatórios em PPT ainda não saíram de moda.

Para ajudá-los nessa rotina e também a ter uma visão macro de possibilidades dentro de Business Intelligence, trouxe uma lista de cursos que eu considero extremamente relevante. Espero que seja útil para todos vocês que me acompanharam até aqui 🙂

1) MBA – ANÁLISE DE INTELIGÊNCIA DE NEGÓCIO – IGTI

2) CURSOS – DASHBOADS, ESTATÍSTICA, ETC – IGTI (R$19,90 mês com acesso ilimitado)

3) CURSOS – MÉTRICAS, MONITORAMENTO, ESTATÍSTICA – IBPAD

4) CURSO – MONITORAMENTO E MÉTRICAS – ATLAS MEDIA LAB

5) CURSO DE MARKETING DIGITAL – UDACITY

6) BOOTCAMP – POWER BI – DOT INSIGHT

7) MBA – CIÊNCIA DE DADOS – FIAP

8) CURSOS – MÉTRICAS – SÃO PAULO DIGITAL SCHOOL

9) PÓS – COMUNICAÇÃO E MARKETING DIGITAL – FAAP

10) CURSO – MARKETING DIGITAL – FUTURE LEARN

Todas as escolas e cursos que indiquei foram referências que recebi de amigos e a maioria delas tenho muita propriedade para indicar. Por exemplo, estou no final do meu MBA em Inteligência de Negócio no IGTI, ministro aulas na FAAP, fiz cursos pela Future Learn e estou matriculado no Bootcamp de Power BI.

De alguma forma, tenho ou tive contato com todas essas indicações que fiz nesta publicação. Se você também conhece alguma indicação que citei, ou possui outras recomendações, por favor, deixe nos comentários.

Por fim, para encerrar a minha participação, quero agradecer a todos que me acompanharam no Insightee. Qualquer dúvida, sugestão ou crítica, sintam-se à vontade para compartilharem nos comentários. Até breve!

Como é o mercado de comunicação digital no Rio de Janeiro (para quem está começando)?

[Texto originalmente publicado no LinkedIn]

Por mais que possa parecer óbvio, começo este texto ratificando desde já que se trata de um artigo completamente enviesado. O que trago aqui (para possível debate, talvez — espero), parte da minha vivência enquanto migrante que veio para a grande metrópole “apenas” para fazer faculdade e tentar, posteriormente, lançar a carreira num mercado supostamente mais consolidado e com mais oportunidades do que o resto do Brasil.

E é exatamente com esse ponto que eu começo: quando, em 2012, tentava esquizofrenicamente escolher para qual vestibular prestaria, sabia que muito provavelmente acabaria no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Embora tivesse Salvador e Recife ainda como alternativas plausíveis, sempre que conversava com alguém, fosse um amigo, um parente, ou um desconhecido que acabaria conversando comigo sobre vestibular porque nesse momento da vida o assunto é onipresente, os dois locais de destino que se apresentavam constantemente eram Rio e SP.

Pelo menos no meu contexto social (e econômico, vale pontuar), esse era o senso comum. Se você pretende fazer algum curso voltado para Comunicação, é recomendável seguir para os “dois grandes pólos” midiáticos e econômicos do Brasil. Então eu fui. Primeiro, para São Paulo, quando pensei que gostaria de trabalhar com audiovisual. Experiência fracassada. Por motivos pessoais, desisti ainda no primeiro período do curso de Rádio, TV e Internet e segui para Niterói, onde havia sido selecionado para o curso de Estudos de Mídia, na UFF.

Embora não tenha arrependimento algum de ter seguido nesse curso e no estado do Rio de Janeiro, hoje – já há algum tempo, na verdade – percebo que o senso comum que pairava o imaginário social do meu grupo de amigos, parentes e desconhecidos de Aracaju, onde eu cresci, não estava assim tão apurado. É fato, numericamente, em termos econômicos, que o mercado do Rio de Janeiro e de São Paulo são mais robustos do que a maioria de – senão todas – capitais do Nordeste. O que tenho percebido, entretanto, nos últimos anos, é que, pelo menos na área de comunicação digital, SP dá um banho no Rio (em termos de oportunidades).

Antes de entrar nessa comparação talvez até desleal, gostaria de falar com você que faz (ou pretende fazer) faculdade de Comunicação Social, Publicidade e Propaganda ou afins no RJ e deve trabalhar com comunicação digital (marketing, mídias sociais, etc.) eventualmente: na busca por um estágio, quais são as oportunidades à frente? Há algumas opções “categóricas” que pretendo abordar resumida e superficialmente – e ratificando mais uma vez: a partir da minha vivência enquanto estudante em busca de estágios – a seguir:

#1 Freela

Como falei em outro texto (e constantemente menciono isso porque não há muito como fugir dessa explicação), a internet e principalmente as mídias sociais abriram muitas portas para quem trabalha com comunicação. Devido à facilidade de acesso às ferramentas de produção de conteúdo e gerenciamento de mídia, hoje em dia qualquer um pode vender “serviços de comunicação estratégica” para qualquer empresa disposta a pagar (tanto o profissional quanto a mídia — no caso, o Facebook). Se esses serviços serão responsáveis e/ou coerentes com as estratégias de negócio, aí já é outra história, mas o fato é que as plataformas estão aí cada vez mais disponíveis para quem desejar.

Se você tem um espírito aventureiro (ou empreendedor) e gosta de ter sua liberdade auto-condicionada, essa é uma opção bastante coerente. Isso não quer dizer que é fácil, exige muito jogo de cintura e conhecimentos abrangentes para dar conta de tudo que um “Social Media” (ou profissional de marketing digital) faz. Além dessas habilidades técnicas, é essencial correr atrás também de competências voltadas para a compreensão de negócios. Idealmente, além de um trabalho de “publicidade e propaganda” (que envolve também pesquisa e planejamento), um freelancer também deve entregar resultados reais – principalmente se tratando de pequenos e médios clientes, que precisam ser educados da importância do digital.

#2 Pequenas agências

Também no embalo do “advento das mídias sociais”, as pequenas agências (algumas específicas de comunicação/marketing digital) surgiram em peso e continuam surgindo (enquanto algumas morrem) na última década. São agências de pequeno porte, geralmente com no máximo 10 pessoas – que já é um número razoavelmente elevado – na equipe de marketing digital/mídias sociais. Podem ser também uma “expansão” de uma agência já tradicional, com um departamento recém-criado para atender as demandas que surgiram com a internet – o que não faz sentido para grandes marcas, mas que pode ser uma dinâmica coerente numa lógica de pequenos clientes (que não têm dinheiro para outros esforços de comunicação senão digitais).

A má notícia é que por mais que nesta opção haja uma equipe com quem você possa trabalhar, é ainda muito comum que as vagas sejam anunciadas de maneira extremamente generalista, como “Estagiário de Social Media”. Logo, assim como no freela, geralmente procuram um “faz tudo”, que vai fazer post, impulsionar no Facebook, elaborar um relatório simples de métricas, etc. A boa notícia é que neste nível de maturidade digital, as atividades de mídias sociais se limitam a esses três exemplos – principalmente os dois primeiros. Ou seja, você precisa saber mexer no Photoshop e saber utilizar o Gerenciador de Anúncios do Facebook (novamente, porque esta é a mídia social que importa neste cenário). É tipo o criativo e o mídia da tradicional Publicidade, só que extremamente banalizado.

#3 Agências medianas

Aqui, o cenário começa a melhorar um pouco. A equipe dedicada ou com foco em comunicação/marketing digital não é tão pequena e a maturidade das agências já é mais consciente da responsabilidade dos esforços que o ambiente digital exige. Portanto, as vagas não são anunciadas com o título tão generalista, mas com as próprias especificidades do trabalho: Estagiário de Conteúdo, Analista de Mídia Online, Analista de Adwords, etc. Ainda assim, o escopo das oportunidades nesse caso é bastante limitado a essas duas frentes operacionais de conteúdo e mídia. A boa notícia é que, neste caso, você precisa focar seu aprendizado apenas em uma delas.

São exemplos: 14AvantareOslo DigitalPipoca Digitalh1FrogAgência3Wide e Kindle – estas três últimas têm, segundo o LinkedIn, uma mão de obra entre 50 e 200 funcionários, mas coloco neste cenário “mediano” devido à popularidade mais exacerbada dos agências grandes que trarei. E também pela tecla que venho tocando constantemente: com exceção da Frog, que eu sei que desenvolve um trabalho de monitoramento/pesquisa/inteligência, todas essas outras têm como foco essas duas frentes de atuação: conteúdo e mídia. Novamente, digo isso a partir do que tive contato superficialmente no site e na divulgação de vagas dessa empresa. A Avantare, por exemplo, é completamente focada em performance (que é basicamente a junção de mídia e métricas).

#4 Grandes agências

E, finalmente, neste seleto grupo da “elite” carioca de comunicação digital, estão aqueles que atendem Coca-Cola e L’Oreal: CUBOCC, Flagcx, WMcCANN e E.life – além da NBS, que acho que não atende nenhuma das duas, mas atende Bob’s, Oi, dentre outras. E tem a FSB Comunicação também. E a Artplan. E a B2W Digital. Não vou continuar a listagem porque, além de não ter conhecimento amplo, sei que o pessoal que faz Publicidade deve conhecer muito bem essas grandes empresas que todo jovem sonha em trabalhar (ou não) – quem não conhece, pode ver já nessa pesquisa. O que difere essas opções das demais é que, neste cenário, as especificações de trabalho são ainda mais delimitadas.

Por serem agências grandes, atendendo a marcas grandes, as vagas de trabalho voltadas para a comunicação digital são tão complexas quanto o cenário multifacetado da internet e das mídias sociais pede. Geralmente não há vaga de criação de conteúdo (para internet), porque essas empresas pré-digital já têm um time bem definido de criação, com redator, DA, designer UX, etc. Também não há vagas de Analista de Adwords, por exemplo, porque o trabalho de compra publicitária é do time geral de mídia – que pode ou não ter uma divisão com foco em digital. Já as oportunidades para profissionais de inteligência são anunciadas como tal: Analista de Monitoramento, Coordenador de BI, etc.


Ainda que esses exemplos que eu trouxe sejam focados em agências, o cenário é semelhante também do outro lado, dos clientes. Pequenas empresas buscam profissionais de “Social Media” que desenvolvam uma presença digital (geralmente apenas no Facebook) para a marca; empresas um pouco maiores podem ter um departamento voltado para a área digital, portanto, oferecendo oportunidades para trabalhos um pouco mais específicos; e grandes marcas, como a própria Coca-Cola, por exemplo, que citei, têm toda a sua estratégia de comunicação desenvolvida integralmente com a interface digital, ou seja, busca profissionais (pelo menos na área de inteligência) com capacitações bem específicas.

É comum também nas vagas divulgadas em grupos cariocas a nomenclatura tradicional de “Assistente de Marketing”, por exemplo, na qual a descrição das atividades se assemelha bastante ao cenário das pequenas agências – procuram um faz-tudo. Nesse caso, o próprio marketing é banalizado ao cenário de saber mexer no Photoshop e no Facebook Ads. Essa realidade, aliás, é bastante sintomática de como as empresas têm enxergado o ambiente digital nos últimos anos, ignorando completamente o caráter de sociabilidade que a internet tem desenvolvido nos últimos anos. E aí, quando tudo vira mídia (também literalmente), quem está ouvindo? Mas a discussão sobre essa panfletagem desenfreada fica para outro texto.

Entre o Rio e São Paulo

Os cenários que descrevi acima são baseados em quatro anos de experiência empírica de participação em grupos de vagas para comunicação no Rio de Janeiro. Há pouco mais de um ano e meio, entretanto, comecei também a fazer parte de um grupo de vagas que concentra oportunidades na capital paulista. Em pouco tempo de participação, pude confirmar o que já desconfiava: o mercado de comunicação digital de São Paulo é muito mais maduro digitalmente do que o do Rio. Além da maior frequência de posts (que não tenho como comprovar, mas que aparentava ser maior do que a soma de todos os grupos de vagas do RJ juntos), as oportunidades eram de abrilhantar os olhos.

Esse encantamento me levou a fazer uma análise exploratória das vagas publicadas no grupo, para que pudesse levantar quais eram as oportunidades mais frequentes e quais requisitos eram mais solicitados dentro de cada área – o resultado pode ser visto nesse post: “Quais os conhecimentos mais requisitados em vagas de mídias sociais/digital?”. Apesar de alguns obstáculos metodológicos (que cito no texto), consegui mapear as principais formações, conhecimentos (técnicos), ferramentas, linguagens e fluência de idioma foram mais comuns para vagas de Business Intelligence, Criação, CRM, Métricas, Mídia, Monitoramento, Social e Community Manager.

O trabalho de Community Manager, por exemplo, é uma realidade quase exclusiva do mercado paulista. Durante esses anos que estive nos grupos de ambas as cidades, enquanto vi (e continuo vendo) várias vagas com essa descrição em empresas e agências de SP, nunca encontrei nenhum anúncio com essa nomenclatura em vagas do RJ. E antes que apareçam com algum link para me mostrar alguma vaga no Rio com esse job title: não estou dizendo que não existe, mas que é muito mais raro – ou até inexistente – enquanto no outro “grande pólo”, as oportunidades são muito mais numerosas e qualificadas – em todos os sentidos. A própria existência do grupo, que especifica “Social, BI, Mídia, Digital”, já diz muito sobre o mercado paulista.

Considerações finais

A proposta deste texto não tem como intenção deixar ninguém triste (ou irritado). A ideia surgiu, na verdade, de uma pergunta que fizeram em um desses grupos de vagas para a área de comunicação, na qual uma pessoa formada em Design perguntou como era a área de marketing digital no Rio, pois estava pensando em fazer uma especialização. No momento, respondi de maneira curta e extremamente resumida, apenas para dar conta do questionamento levantado. Alguns dias depois, achei que seria interessante fazer esse post para compartilhar algumas das minhas visões (que estão mais que abertas para constatações) e falar um pouco de como enxergo o mercado.

Muitas pessoas veem no marketing digital ou nas mídias sociais uma oportunidade de emprego “fácil”, já que o número de empresas – de todos os portes – anunciando só cresce. Nesse cenário, há muitos questionamentos, pelo menos em grupos de vagas do RJ, sobre fazer ou não uma especialização/pós-gradução/MBA voltada para marketing digital. A minha resposta, nessa situação, é sempre: depende. Depende do seu repertório, da sua experiência, do que você procura, etc. Particularmente, sou mais a favor de cursos livres ou de média duração – só é preciso ter muito cuidado na hora de escolhê-los. No entanto, conheço excelentes profissionais que dão aula na Infnet, FACHA, FGV e ESPM.

O “mérito” dos cursos livres é que, na verdade, eles representam uma mobilização do mercado em torno de uma contínua capacitação e qualificação dos profissionais de comunicação digital. Junto a eles, estão também palestras, simpósios, workshops e summits que desenvolvem todo um “ecossistema” de debates, trocas e aprendizados que só colaboram na evolução de agências, clientes, empreendedores, etc. Embora o Rio esteja começando a desenvolver esse ciclo produtivo de conhecimento compartilhado (com instituições de cursos livres de qualidade como a M2BR Academy e a Lapa Comunicação), ainda não há uma mobilização de eventos voltados para o digital.

No próximo mês acontece o Share Talks Edição Rio. Será a primeira vez que o evento realiza uma edição carioca e, talvez, quem sabe, pode ser o início de todo um processo evolutivo que estamos precisando. Por ora, o line-up dos palestrantes já diz muito: dos 14 apresentados, somente 2 trabalham no Rio de Janeiro – enquanto 10 trabalham em São Paulo. Eu não sei exatamente o quê, mas acho que isso diz muito sobre o mercado carioca e sua consequente relação com o mercado paulista. Enquanto isso, no Rio, social media continua sinônimo de criação/mídia e marketing digital continua sinônimo de marketing de performance.

Como fazer um plano de métricas para campanhas, por Kaique Oliveira

[Texto escrito por Kaique Oliveira, cientista de dados na Focusnetworks e professor de marketing digital na FAAP]

Chegamos ao terceiro artigo da minha série sobre Business Intelligence aplicado em agências digitais. Entendemos a origem do profissional de BI no primeiro artigo chamado de O que os profissionais de BI de agências digitais podem aprender com o BI tradicional? e em seguida começamos a aprofundar um pouco mais na rotina da profissão.

Antes de continuarmos, eu recomendo que você leia o segundo artigo da série que ensina Como utilizar os indicadores de controle e verificação para medir a performance da sua campanha. Basicamente entendemos neste artigo que indicadores de controle e verificação são importantes para definirmos as métricas que serão monitoradas na campanha.

Iniciaremos agora o nosso plano de métricas, dividido em algumas etapas que eu defini como: levantamento de informações, definição dos indicadores de controle e verificação, mapeamento dos sistemas de informação e especificação dos entregáveis.

Etapa 1. Levantamento de informações

Precisamos entender como extrair informações relevantes de um briefing. Eu irei apresentar neste momento um exemplo de perguntas que eu utilizo para fazer este levantamento que antecede a construção do meu plano de métricas. Você pode modificar de acordo com as suas necessidades. O importante é você conseguir ter uma visão completa do que irá acontecer na campanha e começar a traçar a estratégia de monitoramento com base nisso.

01. Qual é o contexto atual da marca?
Ex: A escola de inglês XYZ possui o ensino mais rápido do mercado.
02. Qual é o objetivo de marketing?
Ex: Aumentar as matrículas em 5% na capital de São Paulo.
03. Qual é o objetivo de comunicação?
Ex: Ser reconhecida pela qualidade no ensino de língua estrangeira.
04. Qual é o objetivo de mídia?
Ex: Gerar 10.000 leads por mês durante a campanha.
05. Qual é o público-alvo?
Ex: Jovens, de 18-22 anos, em busca de recolocação no mercado.
06. Qual é o período de veiculação?
Ex: 01 de julho de 2017 a 30 de setembro de 2017.
07. Quais são as propriedades?
Ex: Landing page (Teste AB).
08. Quais são as embaixadas (canais em plataformas que não pertencem à marca)?
Ex: Facebook.
09. Qual é a estratégia?
Ex: Destacar os diferenciais da escola.
10. Quais são os recursos?
Ex: R$250.000,00.

Estas informações geralmente estão presentes no briefing do projeto. Observe que as respostas no exemplo acima foram simples, porém eficientes. Com essas informações conseguiremos iniciar a segunda etapa do plano de métricas que é a definição dos indicadores da campanha.

Etapa 2. Definição dos indicadores de controle e verificação

Se você leu o artigo sobre indicadores que eu indiquei no início deste texto, provavelmente, ao passar pelo levantamento de informações, começou a mapear mentalmente as métricas mais relevantes do projeto.

Em uma primeira leitura do levantamento de informações da escola de inglês que exemplificamos conseguimos identificar que trata-se de uma campanha de geração de leads, o que impacta diretamente no negócio do cliente. Sendo assim, os indicadores de controle ficam mais evidentes. Em geral, eles estão dentro das respostas que trazem o objetivo de marketing e mídia da campanha. Se fossemos mapeá-los teríamos:

  • IC – Objetivo de marketing: Aumentar as matrículas em 5% na capital de São Paulo.
  • IC – Objetivo de mídia: Gerar 10.000 leads por mês durante a campanha.

Na maioria dos casos os indicadores de controle estarão dentro destas duas esferas, pois trata-se sempre de números e metas da campanha. Agora que chegamos nos ICs, precisamos identificar os IVs, ou seja, os indicadores de verificação.

Se pegarmos o investimento total da campanha e dividirmos por 3 meses (período da campanha), teremos um investimento estimado de R$83.333 por mês. Se formos um pouco mais longe e dividirmos este valor por 10.000 leads (meta mensal de leads), teremos um custo estimado de R$8,33 por lead. Podemos dizer então que, para atingir meu IC de 10.000 leads por mês, preciso investir R$83.333 mensais e manter o custo por lead dentro de R$8,33.

Assim chegamos nos IVs que irão garantir que atingimos a meta do IC que está dentro do objetivo de mídia da campanha – a geração de leads. Sendo assim, teremos:

  • IV – Investimento mensal: R$83.333 por mês
  • IV – Custo máximo por lead: R$8,33 por lead

Para garantir a obtenção do IC relacionado ao objetivo de marketing, precisamos garantir que os leads gerados pela campanha sejam qualificados. Ou seja, não basta entregar um monte de formulários para o seu cliente se ninguém fizer a matrícula. Assim, nesse caso, seria necessário definir com o cliente a margem máxima de perda entre os leads gerados e as matrículas para garantir o alcance da meta do objetivo de marketing.

Claro que o objetivo sempre é fazer com que este número seja o menor possível, porém, existem diversas variáveis que podem impactar neste resultado esperado. Vamos avançar agora para o mapeamento dos sistemas de informação.

Etapa 3. Mapeamento dos sistemas de informação

Se na etapa 2 respondemos a pergunta O QUE monitorar, na etapa 3 iremos responder COMO monitorar. Já sabemos quais métricas precisam ser entregues e monitoradas, então precisamos agora buscar as ferramentas que irão nos apoiar nessa extração de dados.

No exemplo citado basicamente extrairíamos os dados do Google Analytics, do Business Manager do Facebook e do Banco de dados da empresa. Pelo Business Manager do Facebook iremos monitorar o volume investido na campanha e o custo por lead. O Google Analytics irá nos ajudar no teste AB, citado no briefing, e no acompanhamento do histórico de usuários que preencheram o formulário na landing page. Por fim, o banco de dados do cliente irá nos ajudar no cálculo da perda entre o volume de leads gerados e o número de pessoas que realizaram a matrícula na escola.

Importante lembrar que todas as ferramentas exigem um set up antes da ativação. Não esqueça de incluir isso no seu plano de métricas.

Etapa 4. Especificação dos entregáveis

Provavelmente tudo ficará mais claro para você agora. Eu vou apresentar uma tabela final que representaria a especificação geral do plano de métricas para o exemplo da escola de inglês que trabalhamos neste texto.

A tabela acima está em um modelo resumido. Você pode incluir mais detalhes dentro de cada campo para deixar o plano mais claro para a sua equipe. Eu vou explicar abaixo como preencher cada coluna:

  • Indicador – Qual é o nome da métrica que você quer monitorar?
  • IC ou IV – A métrica representa que tipo de indicador?
  • Fonte – Onde está essa métrica? Qual é o sistema de informação?
  • Objetivo – O que você pretende monitorar com essa métrica?
  • Cálculo – Qual será o cálculo utilizado para chegar na métrica?
  • Meta – Qual é a meta que está atrelada a sua métrica?
  • Período – Qual é a periodicidade que você precisa reportar esses dados?

Esta metodologia, como disse no último artigo, eu trouxe da disciplina de monitoramento e melhoria contínua de processo. Foi muito útil entender isso para a minha rotina de análises no departamento de dados.

O seu plano de métricas não precisa se resumir a esta simples tabela. Você pode e deve incluir no documento todos os detalhes que forem necessários para garantir a qualidade do monitoramento da sua campanha. Inclusive, se você utiliza alguma ferramenta de dashboards, será essencial ter este plano completo para definir as métricas que seus gráficos devem representar, a origem de cada uma delas e a periodicidade de cada uma delas.

Nos próximos artigos eu irei ajudá-los com algumas indicações de ferramentas para construção de dashboards e cursos que eu considero relevantes da área de business intelligence. Se tiverem outras dúvidas, por favor, deixem nos comentários 🙂

Como utilizar os indicadores de controle e verificação para medir a performance da sua campanha, por Kaique Oliveira

[Texto escrito por Kaique Oliveira, cientista de dados na Focusnetworks e professor de marketing digital na FAAP]

Este é o segundo artigo da minha série sobre Business Intelligence aplicado em agências digitais. Em minha primeira contribuição eu falei sobre O que os profissionais de BI de agências digitais podem aprender com o BI tradicional?. Agora o objetivo é aprofundar um pouco mais nos temas que envolvem a rotina desta profissão em agências digitais.

Antes de falarmos de Indicadores de Controle e Indicadores de Verificação, precisamos resgatar uma preocupação do BI tradicional chamada: regra de negócio. Regra de negócio é o processo de entendimento das métricas que realmente são relevantes para a empresa. Quando falamos de indicadores em mídias sociais, sabemos que existe uma grande massa de números que podem ser analisados. Porém, a principal tarefa do profissional de BI é entender a relação desses indicadores com as metas de negócio. Podemos chamar este processo de entendimento da regra de negócio. Guarde este primeiro conceito, pois agora iremos um pouco mais a fundo neste tema.

Entende-se por Indicador de Controle (IC) o resultado final de um produto ou processo. Este conceito eu trouxe da matéria de monitoramento e melhoria continua de processo. É um conceito simples e que pode ser aplicado no entendimento da regra de negócio. Exemplo: O objetivo da campanha é aumentar em 10% o volume de vendas de um determinado produto no período de três meses. Neste caso, este deve ser o seu resultado final, ou seja, o seu IC. Talvez você tenha relacionado o IC com o conceito de KPI, certo? Você não está errado. O IC precisa ser o seu KPI. Quando for montar o seu dashboard de controle, este deve ser o indicador principal no painel.

Agora que entendemos o IC, vamos para o Indicador de Verificação (IV). O IV será a métrica de suporte que irá garantir o alcance do seu IC. Exemplo: A sua meta de vendas foi projetada com um custo médio por conversão no seu e-commerce, ou seja, o valor investido em mídia dividido pelo número total de vendas. Este custo médio por conversão será o seu IV. Quando houver uma anomalia no seu IC, você poderá fazer um drill down (aprofundamento) para entender quais foram os IVs que impactaram no seu resultado final.

  • IC (KPI): Aumentar em 10% o volume de vendas do produto X em três meses.
  • IV: Custo médio por conversão no e-commerce.

O exemplo acima tem relação com uma campanha de performance, que geralmente facilita o entendimento dos indicadores e regras de negócio, pois o objetivo na maioria das vezes está relacionado a vendas. Porém, quando falamos de campanhas de branding, que possuem como objetivo gerar a lembrança de marca, qual seria o melhor indicador de controle relacionado à regra de negócio? Se a sua resposta foi Brand Lift¹, está correta. Claro, está é uma métrica muito aplicada no digital, mas que pode impactar em outros indicadores de negócio, como o CLTV (Customer Lifetime Value), valor de marca, entre outros. Plataformas de mídia, como o Facebook e o Youtube, possuem pesquisas específicas de Brand Lift para campanhas de branding. Visualmente podemos então citar um novo exemplo de IC e IV para campanhas de branding:

  • IC (KPI): Alcançar um brand lift de no mínimo 30% das pessoas impactadas pela campanha no ano.
  • IV: Frequência média mensal da campanha.

Mostramos dois exemplos em que o IC estava relacionado à uma regra de negócio. Porém, essa mesma estrutura de definição de indicadores pode ser utilizada em casos em que não existe uma regra de negócio. Por exemplo, se você tiver uma meta de pageviews no seu portal, este pode ser o seu IC e o seu IV pode ser o Custo por Clique (CPC) da sua campanha de anúncios que direciona para o portal. Os IVs também podem ter como objetivo manter a qualidade do processo. Por exemplo, definir um tempo médio das visitas ao portal. Assim você garante a qualidade do volume de pessoas que acessarem o site.

Não existe um limite de ICs e IVs para um projeto. Mesmo assim, lembre-se que indicadores precisam ser eficientes. Quanto menos indicadores você tiver para monitorar, maior será a velocidade do seu trabalho. Pense sempre na qualidade do indicador e, sempre que possível, no impacto que ele tem no negócio do cliente.

Vale ressaltar que os ICs são as métricas que mais interessam para o nível executivo e gerencial de uma empresa. Ou seja, estes são os números que você precisa reportar com maior frequência para o seu cliente. Os IVs, geralmente, são controles internos da agência que podem ser monitorados por você (BI), ou por departamentos diferentes. Podemos utilizar como exemplo o nosso mapeamento de indicadores da campanha de performance. O custo médio por conversão no e-commerce pode ser um IV que será monitorado pelo departamento de mídia. Você, como profissional de BI, precisa garantir o resultado final, ou seja, o IC.

Ao utilizar este mapeamento de indicadores, você reduz os relatórios infinitos, centraliza o que é relevante em dashboards e distribui o monitoramento de performance da campanha com outros departamentos.

No próximo artigo eu irei trazer um modelo de plano de métricas para sua campanha. O plano de métricas inclui os indicadores que apresentei neste artigo e a visão completa do que será necessário para o monitoramento da performance do projeto.

¹Em termos simples, é a métrica que mede a lembrança da marca após a pessoa ser impactada por uma campanha.

Planner Summit 2017: palestras extras online sobre insights, carreira e diversidade

Cerca de um mês atrás aconteceu mais uma edição do Planner Summit, evento anual da Media Education que tem a proposta de debater, discutir e provocar reflexões acerca do trabalho de planejamento na área de comunicação. Neste ano, além da dobradinha workshop + palestras, a organização preparou também alguns benefícios extras para que o processo de aprendizado não se limitasse aos encontros presenciais: um relatório oficial com as principais ideias levantadas durante o evento e três palestras inéditas divulgadas em seu canal no YouTube.

Com a diversidade em pauta, o evento se preocupou em trazer falas que discutissem com propriedade não apenas a questão da representatividade enquanto ato político, mas também as particularidades e peculiaridades dos públicos e consumidores brasileiros em seus diferentes níveis de comportamento e consumo. O argumento principal é que a avalanche de dados que temos à disposição nos dias de hoje é o mais potente artifício que possuímos para tentar dar conta da complexidade dos indivíduos/usuários/consumidores – e é onde os profissionais de planejamento precisam cada vez mais se ancorar para criar conceitos e campanhas responsáveis, coerentes e coesos com todos os propósitos do trabalho. As palestras extras, as quais você confere abaixo, foram tangenciais a esse debate.

A palestra “Será que esse é o insight correto?”, de André Sinkos (supervisor de planejamento da F.biz) remete bastante a uma percepção que tive a partir da elaboração do Profissão Social Media: Planejamento – que é: o planner deve ser sempre inquieto. Conforme apresenta algumas soluções para responder ao tensionamento do título, podemos perceber que o trabalho de planejamento exige uma constante provocação de verdades absolutas. Há uma preocupação bastante forte também com a metodologia do trabalho, que merece atenção redobrada em todos os pontos e deve se manter fiel à linha de argumentação do início ao fim. E, por fim, o lema cada vez mais adotado no mercado – pelo fim do achismo: “In God we trust, all other must bring data”.

“O insight é uma correlação de informações que te permite encontrar uma solução para um problema.”

Mais curtinha, a palestra “Como o planejamento pode ir além em sua carreira”, de Karen Oliveira (consultora de marketing da TopperMinds) é bastante interessante. Relevante porque traz algumas provocações sobre como precisamos nos enxergar, enquanto profissionais, também como marcas e principalmente estarmos cientes de negócios. Gostei particularmente dos três pilares indicados para um planner: o olhar, a sensibilidade e a objetividade. O primeiro diz respeito a repertório, um dos pontos de atenção mais comum quando falamos da profissão; o segundo, ao caráter de etnógrafo, aquele que deve observar e compreender indivíduos, comportamentos, valores, etc.; e, por fim, a objetividade de negócios que visam o lucro.

Fechando com chave de ouro (tanto este post quanto a série de palestras presenciais e online do Planner Summit), Nathalia Andrijic (estrategista na R/GA) dá uma aula na palestra “Gênero e diversidade. Como planejar corretamente?”. O roteiro é uma expansão e adensamento de um texto semelhante publicado no blog Jovens Planners, o qual já recomendei veementemente aqui no blog em outras ocasiões. Ela apresenta seis desculpas reais que profissionais engajados na tentativa de melhorar a questão da representatividade em agências de comunicação/publicidade enfrentam (pelos outros e por consigo mesmos) ao serem chamados a atenção quando o assunto é diversidade (e gênero). Para superá-las (além da boa vontade), ela contra-argumenta com seis atitudes que devemos adotar para trabalharmos com maior responsabilidade.

A palestra me lembrou também a fala de Fernando Montenegro, da consultoria Etnus, no debate “Dados para conhecer melhor as diversidades” no II Simpósio de Mídias Sociais no IBPAD. Na ocasião, entretanto, o recorte não era de gênero, mas de raça. Pegando esse gancho, vale provocar também – já que estamos em processo de contínuo aprendizado – o debate sobre raça em eventos de comunicação. Enquanto a pauta de gênero parece ter ganhando e continua ganhando cada vez mais espaço e legitimidade no mercado, há ainda uma lacuna muito grande no que tange a preocupação com representatividade racial em ambientes de negócios. Sobre o tema, recomendo o texto “Muito mais que 8%, muito além da temática racismo”, de Taís Oliveira.

Feita a crítica construtiva, só tenho a parabenizar a Media Education pela incrível iniciativa. Como infelizmente não pude comparecer ao evento, fiquei extremamente satisfeito de poder ter um pouco de acesso às temáticas debatidas através de outros pontos de conexão com tanta qualidade quanto os debates que aconteceram presencialmente. E, mais uma vez, parabéns por colocar em pauta o tema da diversidade que ao mesmo tempo que é político, é também (ou pelo menos deveria ser) apenas o comum.

O que os profissionais de BI de agências digitais podem aprender com o BI tradicional?, por Kaique Oliveira

[Texto escrito por Kaique Oliveira, cientista de dados na Focusnetworks e professor de marketing digital na FAAP]

Antes de tudo é importante saber, ou reforçar, que o profissional de BI nâo nasceu em agências moderninhas de comunicação. Este profissional existe há anos, desde os tempos que as empresas entenderam a importância da utilização de dados na tomada de decisão em um negócio.

Apenas para contextualizar, o BI tradicional geralmente é um projeto que tem como objetivo reunir todos os dados disponíveis em uma empresa, tratá-los e disponibilizá-los de forma estratégica para os responsáveis na organização. De forma compilada, o BI tradicional é uma ferramenta de apoio à tomada de decisão.

“Pode-se descrever Business Intelligence (BI) como o processo de recolha e tratamento de informação que apoiam a gestão de negocio ”

Gilberto Barbosa Mota

Imagine uma rede de lojas espalhada pelo Brasil. Pense como seria compilar todos os dados de vendas e esforços em marketing de todas essas lojas, em tempo real, e tomar uma decisão com base nessa informação. O BI tradicional foi e continua sendo a solução para casos como este, em que a empresa gera um volume alto de dados e precisa de velocidade nos movimentos estratégicos.

Agora que entendemos o BI tradicional, vamos voltar para o BI que nasceu em agências digitais. A primeira coisa que aprendemos com o modelo tradicional de BI é que o objetivo de todos os esforços é gerar inteligência para a tomada de decisão de negócio. Este sempre foi o motivo da existência de profissionais e soluções nesta área. Na prática é refletir se os dados entregues para o cliente realmente impactam no negócio dele.

Um segundo item tratado neste texto é a velocidade de entrega destas análises. Identifique os indicadores relevantes para o negócio do seu cliente e trabalhe em automatizar a visualização destes dados. Se eles são importantes, eles precisam ser controlados em tempo real.

A terceira lição do BI tradicional, também diluída nas outras, é a importância da atuação ao longo do processo e não somente no final. O BI não é o profissional que entrega relatórios finais na agência. O BI é o responsável por monitorar os indicadores de performance durante os projetos e ele deve identificar as causas de cada anomalia para corrigir rotas ou até mesmo melhorar o que está bom.

Se você trabalha nesta área, guarde bem essas lições. Não existe o BI antigo ou o novo BI, ambos precisam ser relevantes para o negócio do cliente.

Este foi o primeiro artigo da minha série de textos relacionados ao universo de Business Intelligence. Nos próximos eu irei tratar de outros temas mais específicos, como a diferença entre indicadores de controle e verificação e a relação deles com os KPIs, modelo para plano de métricas, ferramentas utilizadas no mercado e outros assuntos relevantes da área.

Alguns conceitos básicos para entender a análise de redes em mídias sociais

Se você está na graduação e pretende fazer algum trabalho sobre mídias sociais (seja a atividade final de uma disciplina, uma leitura num grupo de estudos ou até mesmo o próprio TCC), provavelmente vai se deparar com o livro Redes Sociais na internet (2009), de Raquel Recuero. A pesquisadora – como já mencionei nesse outro post – é hoje a maior referência na academia brasileira quando o assunto é sites de redes sociais (e enfatizo o foco nesse recorte específico, já que outros pesquisadores como André Lemos, por exemplo, possui um trabalho extenso sobre cibercultura “em geral” há muito mais tempo – sendo também um nome importante na área).

A sua influência (ou capital social) na academia tem contribuído para que, nos últimos anos, a técnica de análise de redes sociais tenha se consolidado enquanto parte importante do debate nesse ambiente quando o tema é mídias sociais. Junto a ela, o pesquisador Fábio Malini, do Laboratório de estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic/UFES), também tem sido um importante influenciador (e propagador) do tema, muitas vezes expandido o conhecimento científico para fora da academia – como tem feito também o DAPP-FGV. Seguindo nessa direção, blogs como o Na base dos dados, do jornalista Fábio Vasconcellos, têm apresentado para o “público geral” algumas visualizações de rede que também colaboram para a difusão do tema. Além dele, o Nexo Jornal – que faz um trabalho excelente de análise e visualização de dados – também já publicou algumas matérias com redes.

network_rt_pt_4
Grafo da repercussão da gravação de Michel Temer no Twitter – feito por Fábio Malini e equipe do Labic/UFES

Enquanto no jornalismo (de dados) a técnica é cada vez mais legitimada, no mercado a análise de redes sociais ainda é pouquíssima explorada em toda a sua potencialidade. Embora grandes empresas como Sysomos e Brandwatch tenham incorporado a funcionalidade às suas ferramentas de monitoramento, ainda há muito o que ser aprendido e debatido sobre a técnica como inteligência de negócio. No Brasil, o pioneirismo da V-Tracker e da BrandCare – esta sob a orientação de Tarcízio Silva, à época gerente de produto e pesquisador comprometido com a interação academia/mercado – foi importante para que a Stilingue, uma das ferramentas que mais cresce em popularidade no Brasil atualmente, pudesse se destacar sob o mesmo tema. Ainda assim, há um longo caminho a ser percorrido para que as marcas enxerguem valor nesse tipo de pesquisa – o que nem sempre é culpa delas, mas das próprias ferramentas.

Todo esse cenário elucida a necessidade urgente de popularizarmos ainda mais alguns conceitos básicos sobre análise de redes – tanto na academia e no mercado, mas também na sociedade civil como um todo. No outro post que fiz sobre a mesma temática, compartilhei o documento Network Literacy: Essential Concepts and Core Ideas, traduzido para português pelo IBPAD como Iniciação a Redes: Conceitos Essenciais e Principais Ideias, que apresenta as primeiras ideias sobre os estudos de redes. Como também nesse primeiro momento, analisar o mundo através das redes não é algo exclusivo das Ciências Sociais nem muito menos dos sites de redes sociais, sendo um método de pesquisa comum às disciplinas exatas e biológicas há muito mais tempo. Ou seja, pensar (e analisar) as mídias sociais como redes sociais é apenas um tipo de interpretação possível.

Grafo feito pelo jornalista Thiago Barone em jogo da Champions League para avaliar a “ausência” de Messi (clique para conferir a análise)

É importante entender, portanto, que: 1) as “redes sociais”, em seu sentido mais amplo, são muito anteriores aos fenômenos das mídias sociais e/ou dos sites de redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram, etc.) como os quais entendemos hoje – sociólogos estudavam sobre esse tema desde a década de 20, como mencionei anteriormente; e 2) o enfoque sob a prisma de redes sociais para pensar as mídias sociais parte tanto da influência de pesquisadoras relevantes na academia quanto da própria disposição tecnológica das plataformas de sociabilidade digitais, que são em grande parte pautadas no fluxo conversacional e de informações entre os usuários (ou atores) – o que facilita bastante a proposta de análise desses espaços enquanto estruturas de sociabilidade, podendo assim, nas palavras de Raquel Recuero, “observar como a rede existe em relação aos vários elementos que fazem parte dela”.

Então… O que eu preciso saber sobre análise de redes sociais?

O primeiro passo, portanto, é entender o que são redes sociais: no livro “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações”, Tarcízio Silva e Max Stabile trazem o conceito a partir de David Passmore, que explica o fenômeno como uma “estrutura social composta de indivíduos (ou organizações) chamados de ‘nós’, que são ligados (conectados) por um ou mais tipos de interdependência, como amizade, parentesco, interesse comum, trocas financeiras, aversões, relacionamentos sexuais ou relacionamentos de crença, conhecimento ou prestígio”. Ou seja, como o critério condicional é a conexão, tem mais a ver com um modo de enxergar fenômenos sociais do que como um fenômeno social em si. As redes funcionam, portanto, como “artifício cognitivo e científico que permite entender proximidades, similaridades, diferenças, conjuntos e processos de um modo muito particular”.

A análise de redes é um conceito extremamente amplo, oriundo da Teoria dos Grafos, original da Matemática. Já a análise de redes sociais, que é o que nos interessa aqui, trata-se da interface entre esse conceito e as humanidades – fortemente atrelado à Sociologia, e atualmente reforçado nas disciplinas ligadas à Comunicação Digital. Uma vez que a análise de redes “parte do princípio que mais informação pode ser gerada a partir da compreensão de como os elementos de um conjunto estão interligados”, é fundamental compreender a linguagem e o formato que a ARS utiliza enquanto técnica de análise e apresentação/visualização de dados. Para quem não tem nenhuma familiaridade com o tema, segue abaixo um pequeno resumo (ênfase para a redundância) com alguns dos termos/conceitos mais comuns:

  • Rede/Grafo: são as visualizações de atores e suas conexões formadas por nós/vértices e laços/arestas;
  • Nós/Vértices: são os objetos que estabelecem as conexões da rede (podem ser perfis, páginas, sites/blogs ou hashtags – depende do contexto);
  • Laços/Arestas: são as conexões feitas pelos conjuntos de nós (“a definição sobre o que é um laço pode mudar completamente a interpretação de sua rede, afinal, se estamos falando de uma técnica que enfatiza as condições relacionais do seu objeto, você precisa entender o que explica essa relação”);
  • Relações direcionadas: interação que indica um caminho, que possui a intenção de um ator em relação a outro (possivelmente indicada visualmente por setas);
  • Relações não direcionadas: interação sem orientação, que não possui diferença entre a intenção dos atores (por exemplo, uma amizade no Facebook);
  • Redes de co-presença/co-interações: nós presentes numa mesma publicação (comum no caso de estudo com hashtags, por exemplo);
  • Rede de afiliação: são redes cujas definições dos nós ou atores pertencentes são muito distintas entre si (ou seja, não há uma conexão direta, mas ambos pertencem a um mesmo grupo).

Esses são apenas alguns dos termos e conceitos introdutórios para começar a entender a análise de redes em mídias sociais. É importante ratificar que todas as suas explicações partem de um contexto próprio da técnica voltada para o tema das plataformas digitais sociais, já que, como dito anteriormente, trata-se de um método bastante contextual, que precisa ser adequado ao escopo e à disciplina de onde parte a análise. No entanto, esses são alguns dos pontos basilares para começar a entender as análises em geral. Tomemos como exemplo o relatório “Beyond Hashtags: #Ferguson, #Blacklivesmatter, and the online for offline struggle”, desenvolvido pelos pesquisadores Deen Freelon (American University), Chartlton D. Mcilwain (New York University) e Meredith D. Clark (University of North Texas), para entender as definições aqui postas.

Essa rede – ou grafo – mostra o cenário do período 7 da análise, quando foram coletados 5.3 milhões de tweets sobre o tema produzidos por mais de 1 milhões de usuários – para saber mais sobre o relatório e a pesquisa, conferir esse post. Os nós (ou vértices) são os círculos que concentram grupos específicos de usuários falando sobre o tema na época: BLM 1 e BLM 2 são ativistas e/ou usuários simpatizantes ao movimento #BlackLivesMatter, que denunciava a violência policial racista nos Estados Unidos, por exemplo; e os laços/arestas são as conexões estabelecidas entre esses atores, que poderia vir em forma de tweet ou retweet – e aqui vale destacar também o artifício visual (afinar ou engrossar) utilizado para dar peso a essas interações, que também nos ajuda a perceber como o fluxo das conversas/informações estava se estabelecendo diante todo o cenário.

Embora seja um exemplo metodologicamente bastante complexo, a rede acima é relativamente simples para discutirmos essas noções básicas da análise de redes em mídias sociais. A própria visualização dos dados é um fator de extrema importância para a técnica, que se apoia com força na interpretação estrutural do escopo da análise. Ainda assim, conhecer esse termos e conceitos são essenciais para dar conta dos fluxos de comunicação e conexão estabelecidos na internet. A ideia de laços fracos, por exemplo, é fundamental para pensar a facilitação do acesso no ambiente online. A partir dos estudos de Mark Granovetter, pesquisadoras e pesquisadores como a própria Raquel Recuero vão apontar como, no contexto dos sites de redes sociais, a abundância desse tipo de conexão é importante para que haja “pontes” entre atores que seriam essencialmente distintos na rede. Confira alguns outros termos e conceitos importantes abaixo:

  • Grau: é a métrica que indica o número de conexões de um nó na rede;
  • Grau de Entrada: é a métrica que indica o número de conexões recebidas por um nó na rede;
  • Grau de Saída: é a métrica que indica o número de conexões oferecidas por um nó na rede;
  • Centralidade de Autovetor: métrica que analisa a centralidade de um nó através de conexões de outros nós também muito conectados (semelhante à métrica de PageRank, comum no mercado);
  • Centralidade de Intermediação: métrica que calcula os caminhos entre os nós para identificar possíveis “pontes” relevantes na rede;
  • Redes Egocentradas: é um tipo de rede que parte de um nó central e suas conexões;
  • Redes Sociocentradas: é um tipo de rede que com delimitação específica a partir de um recorte “externo”, cujo escopo é “anterior” à própria análise;

Para conferir esses conceitos na prática, vamos observar essa rede interativa desenvolvida pelo IBPAD a partir de um estudo exploratório da polarização política no Brasil através de páginas da Direita e da Esquerda no Facebook. Trata-se de uma rede polarizada, mas poderia também ser compreendida como duas redes sociocentradas, já que foram desenvolvidas a partir de páginas com referenciais explícitos às suas respectivas posições. Na plataforma interativa, ao pesquisar por páginas como CartaCapital e Jair Messias Bolsonaro (as mais referenciadas em seus devidos grupos/clusters), você pode ver os graus de cada uma delas, ou seja, quantas páginas as referenciam, quantas são referenciadas por elas e o total de conexões. Já a página da Folha de S. Paulo aparece com elevada centralidade de intermediação, uma vez que é a ponte entre os dois lados.

No contexto de mídias sociais, esses tipos de métricas são importantes para avaliar a articulação dos nós dentro de uma rede, analisando valores relevantes de influência, autoridade, preferências, engajamento e mobilização. Além disso, a técnica vem sendo legitimada por sua “poderosa capacidade de resumir sem perder o detalhe, e de poder ver o todo sem perder a perspectiva do único”, como explica Tarcízio Silva e Max Stabile no capítulo do livro anteriormente mencionado. E acrescentam: “Com a técnica é possível ter uma visão panorâmica dos dados, seus agrupamentos e suas perspectivas (Malini, 2016), e identificar quais atores e narrativas foram mais relevantes. Ao mesmo tempo, é possível analisar com mais detalhes e construir uma análise completa”.

Para desenvolver esse trabalho, há diversas ferramentas utilizadas por pesquisadores, acadêmicos, programadores, cientistas de dados e profissionais do mercado. No entanto, pelo menos no Brasil, as duas ferramentas mais comuns são a NodeXL e o Gephi – bastante utilizados por Raquel Recuero e Fábio Malini em seus grupos de pesquisa (no mercado, algumas ferramentas plenas de monitoramento já possuem essa funcionalidade integrada, o que pode ser uma mão na roda). Em suma, funciona da seguinte forma: os dados são coletados (através de plugins, das próprias ferramentas, ou de códigos de programação em linguagem R ou Phyton, por exemplo), processados, trabalhados pelos analistas (executando métricas, layouts, etc.) e, depois, divulgados nas visualizações que costumamos ver.

Para quem deseja se aprofundar no estudo sobre análise de redes e aprender na prática como funciona todo esse processo, o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD) lançou neste mês o MOOC (massive online open course) de Análise de Redes em Mídias Sociais. Com os professores Max Stabile, Tarcízio Silva e Marcelo Alves, o curso oferece mais de 90 aulas (dentre vídeo-aulas, artigos, leituras orientadas, tutoriais, estudos de caso e quizzes) para “capacitar os estudantes a coletar, processar, visualizar e interpretar redes baseadas em dados de mídias sociais”. São cinco módulos que passam pelos conceitos, aplicações e histórico do pensamento sobre redes; as particularidades das redes nas mídias sociais; a utilização prática de softwares para a análise e a monetização do trabalho.

Todos os conceitos que apresentei neste post são frutos tanto das aulas do Módulo 1 do curso quanto do capítulo do livro “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações”, também do instituto. Se você tiver interesse em saber mais (e com muito mais propriedade e profundidade) sobre o que discuti neste post – como o conceito de métricas como Tamanho da Rede, Diâmetro da Rede, Densidade, Inclusividade de Rede, Centralização de Rede, dentre outras -, recomendo veementemente esse novo curso. E o melhor: tem um desconto exclusivo para leitores deste blog que vos fala! Basta usar o cupom insightee10ars para garantir a sua vaga com um precinho ainda mais camarada – que já está abaixo do normal por ser a semana de lançamento.

E já que iniciei o post falando da importância de conhecer o trabalho de Raquel Recuero caso você esteja numa graduação (ou pós), posso garantir que o curso também é dedicado para alunos e pesquisadores interessados no tema. Marcelo Alves, que já apareceu neste blog em outro momento, é doutorando na UFF e desenvolve um trabalho fantástico sobre política e redes sociais no Brasil. Aliás, quem quiser conhecer outros pesquisadores, vale dar uma olhada no material 100 Fontes sobre Pesquisa e Monitoramento de Mídias Sociais. Recomendo também seguir o blog Essa Tal Rede Social, que vem fazendo um trabalho bem bacana com ARS. No mais, adquirir o livro Análise de Redes para Mídia Social, de Raquel Recuero, Gabriela Zago e Marco Bastos. Para finalizar, deixo aqui uma série de posts feitas por Tarcízio Silva para introduzir o tema:

Profissão Social Media: criação de conteúdo – da teoria à prática

Talvez um dos mais aguardados de toda a série, chegou a vez do Profissão Social Media: Criação de Conteúdo! Digo isso (não apenas pelo meu pequeno atraso, mas) porque acredito que é aqui onde todos (ou pelo menos muitas pessoas) começam. Meu primeiro estágio numa pequeníssima agência de marketing digital em Niterói foi criando conteúdo – embora o título fosse “Estagiário de Social Media”. Foi também o combustivo para que eu criasse o Estudando Social Media, na tentativa de encontrar outras possibilidades para além do conteúdo que me permitissem atuar em social media sem ter que trabalhar diariamente no Photoshop – e felizmente encontrei, vide a série em desenvolvimento.

Ainda assim é inegável que a criação de conteúdo pode ser a porta de entrada mais fácil para o trabalho em mídias sociais. Como escrevi em outro texto, a popularização da internet e a consolidação das mídias sociais abriram diversas portas para o mundo da publicidade – por justamente permitir que todos virassem produtores de conteúdo, banalizou os esforços estratégicos comunicacionais de uma profissão consolidada ao mesmo tempo em que criou uma briga imensa pela atenção das pessoas, que nunca antes na história tiveram que se deparar com tanto conteúdo e informação. Por esse e outros motivos é mais que necessário discutir com responsabilidade, coerência e profissionalismo o trabalho de criação de conteúdo.

É importante ratificar também, diante de todo esse contexto complexo, que as realidades do trabalho de criação de conteúdo – assim como social media como um todo, mas acredito que aqui especificamente por ser justamente o pontapé inicial – é bastante diferente a depender do seu estado, região, tamanho da empresa/agência, etc. Mais uma vez, portanto, convidei 10 profissionais com diferentes repertórios para contar um pouco sobre suas realidades e opiniões de trabalho: de João Pessoa, Anna Mello; de Porto Alegre, Fahen Carvalho; de Aracaju, Lara Thaisa Telles; do Rio de Janeiro, Suéllem Nascimento e Maria Beatriz Barros; de Recife, Agnes Pires e Simone Bispo; e de São Paulo, Nathália Capistrano, Leo Morato e Lidi Faria.

Em tempo: esta série surgiu do post  “Profissão Social Media: áreas de atuação e fontes para estudo”, que fiz no ano passado em parceria com Mayara MendesMari Ferreira e Juliana Freitas. Neste ano resolvi dar continuidade ao conteúdo produzindo vários posts sobre cada uma das áreas destrinchadas, dessa vez com ainda mais minúcia e detalhamento às funções exercidas (além de referências para estudo). Para me ajudar, convido sempre 10 profissionais que respondem a algumas questões sobre a profissão, o trabalho e o mercado. O primeiro tema foi sobre monitoramento e o segundo sobre planejamento. Aproveito também para pedir seu voto no Social Media Week SP: quero levar o projeto para o palco em setembro e, para isso, preciso da sua ajuda – é só clicar e deixar um like!

Criação de conteúdo: o que é, como faz, onde entra?

Antes de qualquer coisa, é preciso enfrentar a problemática: Criativo x conteúdo x criação x criação de conteúdo – quem é quem, o que é o quê? Esse já era um problema que enfrentei na hora de elaborar o primeiro post, embrionário, e que mantive em reflexão durante todo o processo deste também. Cheguei a comentar, nesse primeiro momento, que era extremamente generalizante colocar no mesmo guarda-chuva de “criação” profissionais com peculiaridades de trabalho como redatores, designers, diretores de arte, etc. Isso porque, na área da publicidade, as agências têm essas delimitações profissionais muito bem estabelecidas. Eu diria, inclusive, que a criação foi e ainda é a área mais “famosa” da publicidade, por isso recebe tanta atenção e consegue pautar suas diferenças.

Suéllem Nascimento, redatora, do Rio de Janeiro, pontuou que, geralmente, “quando falamos de criativo, estamos se referindo ao cara que trabalha na Criação (com C maiúsculo e que supostamente ganha Cannes)”, enquanto que quando falamos da criação de conteúdo para mídias sociais, estamos falando de uma equipe voltada para este ambiente. “Muito redator consegue o primeiro estágio numa equipe de mídias sociais porque é a forma mais fácil de começar a escrever numa agência, aí depois ele vai migrando de área ou absorvendo skills”, comenta. Essa é a realidade de alguém que começou a trabalhar com mídias sociais a partir do contato quase exclusivo com uma agência de publicidade (provavelmente mais tradicional), mas o que temos visto nos últimos anos são diferentes contextos profissionais que reconfiguraram o trabalho na internet.

A criação de conteúdo tem um papel que às vezes é subestimado. Explico: criação para mídias sociais em alguns momentos é vista como uma subcategoria da Criação (aquela com C maiúsculo e que ganha Cannes). Uma tremenda bobagem. A Criação com C maiúsculo vai lá e cria uma campanha, aí ela chega na equipe de mídias sociais e recebe uns “tapinhas” para ser adaptada pro digital. Isso é um tremendo erro. O conteúdo tem que ser bem pensado desde o início e o ideal seria que todas as equipes de uma mesma conta trabalhassem juntas – mas nem sempre é isso o que acontece.

Suéllem Nascimento, redatora com foco em conteúdo digital

Uma dessas possíveis realidades é essa: a produção de conteúdo para mídias sociais a partir do trabalho de uma agência tradicional que primeiro pensa a comunicação como um todo e depois adapta a mensagem ao contexto digital. No entanto, empresas como Coca-Cola, por exemplo, tem cada vez menos pensado o contexto digital como ramificação dos esforços comunicacionais de uma campanha e mais como a própria base de todo o planejamento. Nesse caso, não há mais uma equipe de mídias sociais que produz o conteúdo exclusivamente para esse ambiente, mas a própria equipe de criação como um todo (a que supostamente ganha Cannes) que vai direcionar seu trabalho para as plataformas digitais. Nesse contexto, um profissional que comece produzindo conteúdo para internet pode, sim, desenvolver-se profissionalmente para trabalhar também em outras mídias.

Outra realidade que vemos com frequência por aí e que já citei anteriormente é aquela de um pequeno profissional, freelancer ou agência que começa a atender clientes regionais a partir do momento que a internet – e principalmente as mídias sociais – forneceu(ram) as ferramentas necessárias para que esse pequeno/médio negócio finalmente pudesse construir uma frente comunicacional do seu serviço, já que os anúncios tradicionais não cabiam em seu orçamento – a não ser panfletagem. Nesse caso, o “profissional de criação” não pensa muito em deslocamento para outras frentes fora do contexto digital, já que este é praticamente o único – e principal – ambiente de comunicação possível para aquela realidade. Ou seja, a produção de conteúdo aqui não é apenas completamente pensada para o ambiente digital, como no exemplo da Coca-Cola, mas exclusiva do ambiente digital – já que é o máximo que se pode ir, é o limite.

No cenário atual, as pequenas e médias empresas conquistaram algo que nunca tiveram com a publicidade tradicional de anos atrás: presença. O meio digital tornou a propaganda muito mais democrática porque a tornou financeiramente acessível. Clientes de pequeno e médio porte eram incapazes de anunciar em meios de massa (TV e rádio) devido aos custos altíssimos de veiculação, no ambiente digital isso não acontece. Mesmo sem contar com o auxílio de uma agência, uma marca consegue se fazer presente nas mídias sociais, e quando realizado por profissionais, esse trabalho tem rendido resultados incríveis com um custo X benefício bem acessível. Essa mudança na maneira de anunciar tem afetado diretamente o mercado, pequenas marcas que conseguem prestar um bom serviço agora estão alcançando um público cada vez maior, crescendo a ponto de incomodar seus grandes concorrentes.

Lara Thaisa Telles, fundadora da agência sergipana Molotov

O meu objetivo aqui, portanto, é voltar o olhar mais para a produção de conteúdo em mídias sociais. Como a área de criação, a partir de suas diferentes realidades profissionais (pequenas, médias, grandes agências e/ou clientes), têm trabalhado com criação nesse contexto digital de sociabilidade? Dentre todas as respostas, percebi dois pontos principais: conversa e relevância. “Eu vejo a criação de conteúdo como uma ferramenta que podemos utilizar para mostrar que a empresa também pode ser interessante, sabe? Você pode trazer assuntos que sejam realmente relevantes para o seu público, de uma maneira que as pessoas possam se informar, saber mais sobre a área de atuação da sua empresa”, explica Fahen Carvalho, redatora, blogueira e gestora de mídias sociais, do Rio Grande do Sul. “O conteúdo é uma maneira de vender o peixe, sem ser chato.”

Seguindo por essa linha, Suéllem Nascimento ratifica: “Mídia social não foi, não é e nunca será algo pensado para as marcas. O que a gente faz lá, como marca, é tentar participar de uma conversa sem parecer interrupção”. Leo Morato, conteudista, de São Paulo, complementa que “conteúdo é a humanização e credibilidade de uma marca”. Para ele, esses dois valores são indispensáveis para criar uma relação entre empresa e público, já que as vendas – que, não podemos esquecer, é a meta final mais importante – precisam ser conquistadas com a credibilidade que uma estratégia de conteúdo bem feita pode oferecer. Agnes Pires, professora, de Pernambuco, complementa: “Mesmo uma marca que não possua fins lucrativos precisa se relacionar com seu público, então, para criar conteúdo, é necessário criar uma audiência, promover assuntos que sejam de interesse dessa audiência e incitar a necessidade de mais informações ou produtos.”

O papel da criação de conteúdo institucional nas mídias digitais é estabelecer diálogos e reflexões, enquanto a abordagem mercadológica da atividade propõe a conexão com marca, a conversão de resultados. Em termos táticos e operacionais, o papel da criação de conteúdo é direcionar a mensagem para que o objetivo de comunicação, marketing e negócios sejam cumpridos. Com o olhar de relações públicas, percebo cada vez mais um equilíbrio fundamental entre o interesse do público e da empresa. A mensagem agressiva, direta e unilateral é substituída pela mensagem acolhedora, útil, como um convite para uma conversa, uma troca de experiências. Produzir conteúdo é dosar o conhecimento e a sensibilidade sobre o público para estabelecer trocas comunicacionais relevantes.

Lidiane Faria, Consultora de Comunicação e Digital PR

Já é possível perceber que o trabalho de produção de conteúdo para a internet não é tão simples quanto possa parecer, mas que exige – como pontua Simone Bispo, analista, de Pernambuco – pesquisa, estudo, análise e mais um pouco: “Não adianta apenas criar postagens engraçadinhas, é necessário envolver as pessoas, fazê-las chegar no objetivo que nós desejamos, seja ele relacionamento, captação de leads ou vendas”. Nesse sentido, vale trazer a descrição de Maria Beatriz Barros, analista, do Rio de Janeiro, sobre a criação de conteúdo para mídias sociais: “é o planejamento e desenho de estratégia do que a marca ou empresa quer comunicar, pesquisa e benchmarking do que o mercado está produzindo, a produção em si do conteúdo e sua divulgação”. Vale pontuar, entretanto, que esse escopo mais “expansivo”, embora seja idealmente pensado para o profissional conteudista, deve envolver – em agências maiores, pelo menos – outras áreas.

É o caso de atuar junto a planejamento, por exemplo, como coloca Lara Thaisa Telles, Diretora da Molotov, de Sergipe – que ratifica que a estratégia vem antes da produção em si: “A probabilidade de se obter resultados reais e positivos é muito maior quando o conteúdo é relevante e adequado aos seus seguidores”, explica. O conteúdo, muitas vezes, é apenas a ponta do iceberg de um longo trabalho e esforço de comunicação e marketing (que envolve muita pesquisa e) que faz a ponte entre os objetivos de uma empresa e a ativação com os consumidores ou, no caso específico, com os próprios usuários. Ou seja, o profissional de conteúdo, nas palavras de Anna Mello, conteudista, de João Pessoa: “é aquele que transforma a identidade da marca e a estratégia digital em algo palpável dentro da web”. Em consonância, Nathália Capistrano, supervisora de criação, de São Paulo:

O papel dos criativos é tornar aquela mensagem em algo que seja relevante pro público final ter curiosidade de saber mais, se envolver, ter o gatilho de compra ou aumentar sua relação e consideração com a marca. E, pra isso, eles precisam ter uma mistura de referências interessantes, bom senso e originalidade. Só assim, eles conseguem medir se aquela faísca inicial pode resultar em algo. A criação precisa justamente trazer respostas não só adequadas, mas supreendentes aos briefings e fazer as provocações de “e se” que ninguém estava pensando antes. No caso de criação de conteúdo para social e para digital, esse processo criativo precisa ser ainda mais dinâmico, já que online tudo acontece muito rápido e as respostas são praticamente imediatas. Justamente por isso, os criativos da área precisam também de ser muito adaptáveis.

Nathália Capistrano, Creative Lead na Artplan

E como faz?

Frente a todo esse cenário de diferentes perspectivas ideais acerca do trabalho de criação de conteúdo, é preciso colocar os pés no chão e debater como funciona tudo isso na prática. “A rotina é bem variável e vai depender dos recursos que você tem”, já alerta Suéllem Nascimento. Com discutido anteriormente, tudo vai depender da realidade profissional daquela empresa, agência ou freelancer – o que nem sempre garante um contexto justo/adequado de trabalho. “Se coloca muito a responsabilidade da criação a um conteudista, quando deve ser de uma equipe”, aponta Agnes Pires. Cada cenário exige uma metodologia específica que será adequada ao tamanho da equipe, tamanho dos clientes, pautas, orçamento, dentre diversos outros fatores. O que percebi perante a maioria das respostas, entretanto, é que há – para além das peculiaridades – um fluxo de criação: demanda > brainstorming > proposta/aprovação > produção.

“Os conteúdos devem buscar um equilíbrio entre o que os clientes precisam falar pontualmente, o aproveitamento de timings, e o reforço de branding que deve ser algo mais perene”, explica Nathália Capistrano. No caso de contas mais focadas ou exclusivamente do universo digital, Maria Beatriz Barros, Simone Bispo e Suéllem Nascimento mencionaram um planejamento editorial semanal/mensal comum a essa realidade, onde “é enviado um planejamento de estratégias e datas comemorativas a serem trabalhadas em um dado período, assim como uma planilha de distribuição de conteúdo por tipo ao longo da semana/mês para que os temas e estratégias sejam aprovados previamente” (MBB). Nesse cenário é trabalhado o que foi conceituado como conteúdo “frio”, cuja aprovação prévia permite uma maior liberdade para possibilidades emergenciais (novas tendências conversacionais) que possam surgir.

Lara Thaisa Telles argumenta que “a organização é algo essencial já que o fluxo de criação de conteúdo é bastante intenso com uma alta demanda”, e explica: “Isso acontece porque a vida útil de uma peça digital costuma ser menor que uma peça off-line, portanto há um volume muito maior de produção, mas em compensação, a complexidade e os prazos são menores”. De acordo que “na criação de conteúdo para mídias sociais o dia a dia pode ser bastante intenso”, Nathália Capistrano complementa: “Tanto para aproveitar timings e oportunidades em tempo hábil, mas também porque, em muitos clientes a quantidade de posts combinada ainda é alta e o ritmo de pedidos para posts é frenético (e, muitas vezes, esforços desnecessários). Para não cair nesse fluxo, é importante ter um processo desenhado que busque prazos razoáveis, contemplando tempo de aprovação e idas e vindas com o cliente”.

Para quem trabalha com conteúdo, não existe rotina fixa, não existem formatos fixos, não existe fluxo pré-estabelecido. Cada dia é um dia, cada projeto é um projeto, cada cliente é um cliente e cada público é um público. Este profissional precisa ser viciado em consumir… conteúdo. Curiosidade e referências são a base fundamental para qualquer pessoa que trabalhe criando conteúdo, seja com foco em redes sociais ou em outros formatos. Se você quer trabalhar com criação de conteúdo, é preciso de referência para a criação e metodologias para avaliar se seus objetivos foram alcançados ao final de um período ou de um projeto.

Leo Morato, atuou como Community Manager Senior do SporTV em 2016

Entre a teoria e a prática, como ficamos, então? “Na teoria, o profissional de conteúdo faz uma imersão constante no mercado em que trabalha. Para isso, estuda diariamente todo o universo que compõe seu cliente, incluindo também seus concorrentes”, explica Lidiane Faria. “Quando um briefing chega, o ideal seria avaliar o que os outros estão fazendo, sejam de concorrentes diretos ou indiretos. Levantar com as outras áreas da agência as fraquezas e potenciais daquele briefing para, em seguida começar a trabalhar no conceito mais adequado para passar a mensagem”, acrescenta Nathália Capistrano. As duas ressaltam a importância da interação com as demais áreas, principalmente planejamento e mídia, além de métricas/BI. “Também é importante ressaltar na ‘rotina ideal’ a aplicação de uma linha editorial, a dosagem correta de distribuição de conteúdo, a identificação e aplicação da linguagem do interlocutor – e, por fim, se tudo isso faz realmente sentido dentro dos objetivos de comunicação”, conclui LF.

Na prática, entretanto, sabemos que a realidade é bem diferente – principalmente quando pensamos em proporções menores de trabalho. “A depender da estrutura de onde o analista trabalhe, é ele quem planeja, pesquisa, cria texto e imagem – e de mais de um cliente”, pontua Maria Beatriz Barros. Como enfrentar essa realidade? Ela dá a dica: “tenha a maior sorte de insumos possíveis do seu cliente, trabalhe com templates prontos para pautas frias e agilize o processo de aprovação de pautas tendo assuntos e temas fixos por dia da semana ou quinzena” – e recomenda esse vídeo do Comunicadores. Mas as realidades são diversas: “Na minha rotina de trabalho por exemplo, separo um dia para planejamento de blog, um dia para redes sociais, um dia para eBooks e por aí vai”, conta Fahen Carvalho. Para Lara Thaisa Telles, “o primeiro passo é analisar o planejamento e discutir o que vai cair na pauta, organizando cada item com seu devido prazo para distribuir as tarefas entre o redator e o diretor de arte”.

Ou seja, não há fórmula secreta. Como mencionei lá no início, cada realidade é distinta e o importante é desenvolver uma metodologia adequada que funcione na triangulação entre agência/freelancer, cliente e mídias sociais. Se fosse para resumir, ficaria com essas duas chamadas de atenção: 1) “ter um método que ajude a estabelecer os processos deixa a criação muito mais eficaz”, argumenta LTT; e 2) “o profissional de conteúdo precisa estar sempre atualizado das novidades nas plataformas e do que está acontecendo dentro do nicho do cliente e no ambiente externo”, sintetiza Ana Mello. Se houver o luxo de uma equipe de criação com designer, redator e diretor de arte, é preciso criar um fluxo produtivo de diálogo constante; se a situação for mais crítica, de “eu-quipe”, é preciso criar uma rotina saudável para dar conta de todas as demandas mínimas do trabalho.

Como se integra (com as demais áreas)?

Fiquei um ano como analista de monitoramento e métricas em uma agência baiana e foi um grande desafio monitorar a empresa de energia do estado. Na seguinte fiz um experimento como mídia, não exitoso. Fiquei 10 meses como community manager em uma startup. E ali aprendi sobre CRM, régua de relacionamento, li muito sobre SAC. Mas a redação esteve comigo em todos esses momentos. Por mais que a minha função fosse outra, eu contribuía para uma ou outra conta fazendo conteúdo textual e, especialmente trabalhando como monitoramento, fico sempre atenta ao conteúdo que está sendo feito. Sei que ele influencia no engajamento ou não, gera maior conversão ou não. E essas métricas são importantes de se discutir com o cliente.

Maria Beatriz Barros, Analista de Redes Sociais na Wide Comunicação Expandida

Se o conteúdo é a ponta do iceberg de todo o trabalho de comunicação, aquela parte visível e sob a água que o público finalmente tem à vista, é compreensível pensar que seu desenvolvimento é sustentado por todas as outras áreas possíveis. “Todas as áreas de uma agência devem estar bem integradas, pois todas elas são interdependentes, são partes que se juntam para formar um todo e por isso precisam funcionar em sincronia”, argumenta Lara Thaisa Telles. Seguindo por essa linha, Nathália Capistrano reforça a importância da integração durante o fluxo de criação: “Antes de mais nada é sempre bom lembrar que um insight interessante para criar um conteúdo pode surgir das outras áreas além da própria criação, seja planejamento, community manager/sac ou monitoramento. Aí sim, caberá aos criativos realmente concretizar em um conteúdo, seja ele um post mais simples, ou algum conteúdo aproveitando algum dos formatos mais elaborados”.

Duas áreas, entretanto, foram mais citadas nas respostas: “O time de conteúdo precisa estar de braços dados com os times de Planejamento e Monitoramento. Rede Social é um teste constante, para entender o que funciona e o que não funciona e como melhor afinar as estratégias digitais”, explica Anna Mello. “O planejamento diz o que vai ser, o monitoramento fala qual tem sido a resposta e a necessidade de cada marca”, simplifica Maria Beatriz Barros. “O monitoramento pode dar insights valiosos pra produção de conteúdo. É possível, inclusive, diminuir a demanda para outras áreas se o seu conteúdo está bem pensado. Exemplo: Se o pessoal do monitoramento/SAC identificar que tem muita gente fazendo a mesma pergunta, criar um conteúdo que esclareça essa dúvida, reduzindo o trabalho da outra equipe”, explica Suéllem Nascimento, reforçando que a integração precisa ser muito bem estruturada, para que o timing esteja adequado à velocidade da realidade da internet.

Como cada empresa e agência acaba estruturando sua equipe de formas diferentes, com nomenclaturas diferentes para os cargos, inclusive, pode variar muito a abertura e a interação entre as áreas. Mas, o racional é geralmente parecido, o briefing criativo vem da área de planejamento, com pesquisas, caminhos e estratégias potenciais para melhores resultados. A conversa entre planning e criação e conteúdo é essencial, para que não seja entregue algo totalmente diferente do que foi planejado ou seja feito aquele retroplanejamento, para justificar porque o público funciona com o conceito, mas sim, ao contrário: como o público norteou a criação do conceito. Em digital, a integração com as áreas de monitoramento e social listening acabam sendo vitais, mas ainda existem muitas dificuldades de fazer isso numa rotina prática, já que as entregas das duas áreas ocorrem em momentos diferentes. Isso é definitivamente um ponto de atenção para quem trabalha em criação de conteúdo, como aproximar os relatórios do dia a dia e aproveita-los como insumo na hora de criar a grade de posts, na escolha de influenciadores e na produção de outros conteúdos mais sofisticados quando necessário.

Nathália Capistrano

No entanto, essas não são as únicas áreas a serem ativadas. “Também é muito importante dialogar com o departamento de mídia, para saber formatos e possibilidades novas para campanhas, bem como as limitações que os canais digitais têm, para que não se perca tempo criando conteúdo inviável”, acrescenta Agnes Pires. Ter ao seu lado também a área de Business Intelligence, atendimento e possivelmente um gerente de projeto pode ser um bônus, conforme reforça Leo Morato. “Ao utilizar os dados das demais áreas da agência – desde o feedback do atendimento sobre o desejo do cliente até os dados de monitoramento sobre a marca – os demais parceiros do time conseguem enxergar o valor estratégico de seu trabalho”, complementa Lidiane Faria, reforçando a importância da integração de equipes multidisciplinares. “No dia-a- dia, vale desde um bate-papo informal até uma reunião semanal. Tudo depende da cultura da empresa ou agência e dos profissionais envolvidos” (LF).

Mas o que acontece quando você é toda a sua equipe? Nesse caso, o seu melhor parceiro é o seu próprio cliente. “É preciso conhecer o cliente e saber o que ele espera do seu trabalho. O briefing nunca chegará completo em nossas mãos, por isso, é preciso conhecer quem se atende, para conseguir realizar um trabalho que chegue perto do que foi esperado. A criação e a redação precisam utilizar de suas expertises para criar de acordo com o que o cliente espera, mas também com o que vá de encontro à estratégia da marca”, explica Fahen Carvalho. E essa é uma realidade também para quem trabalha em agência e dispõe de uma equipe ou uma pessoa de atendimento, como ratifica Simone Bispo: “Quanto mais claro o Atendimento deixa para a criação o que o cliente deseja/espera, maior será a chance de deixá-lo satisfeito. Além disso, é primordial que a comunicação interna seja o mais objetiva possível, uma vez que isso evita a famosa refação e também para atingir o público desejado com maior assertividade”.

No caso de freelancers, ser esse profissional OMO (multiuso) é um desafio – físico mesmo – muito maior. É preciso ter em vista, como mencionado anteriormente, quais são as prioridades do seu trabalho, do cliente e das próprias mídias sociais. Provavelmente você não será capaz de fazer o monitoramento ou estudos/análises de inteligência conforme ideal, mas trabalhar pelo menos com mídia e planejamento – além da própria criação de conteúdo – pode ser o básico do básico. Lidiane Faria compartilhou algumas perguntas importantes que poderiam ser compartilhadas com colegas de trabalho, mas achei interessante também utilizá-las como guia para esse profissional de tentáculos. “Ter essas respostas embasadas por pesquisas e dados […] ajudam a produzir e defender as ideias e conteúdo”, explica. Por mais que algumas perguntas demandem certa complexidade e aprofundamento de análise, podem ser também bons norteadores do trabalho geral de social media:

  • O que os consumidores estão dizendo sobre sua marca?
  • O que estão pedindo?
  • De que forma os interlocutores consomem o conteúdo da marca?
  • Quais é o retorno qualitativo?
  • Quais são as principais impressões e associações?
  • Quais são as oportunidades dentro do universo expandido da marca?
  • De que forma você pode minimizar ruídos de comunicação e usabilidade?

E onde estudar? Por onde começar?

Há uma desvalorização e descrença no mercado de comunicação cada vez maior em torno da importância de uma graduação – e isso ocorre por diversos fatores (até políticos), mas o problema (e argumento) central é que a maioria dos cursos se mantêm demasiadamente engessados (até pela burocracia da academia) e muitas vezes não dão conta da volatilidade comunicacional/informacional dos tempos atuais. Isso não quer dizer, entretanto, que o conhecimento científico que a academia tem a proporcionar não seja útil para quem trabalha na área. Em termos de inovação tecnológica e de discussões sócio-culturais, cada vez mais em voga no mercado, há muito o que a academia tem a oferecer ao mercado. O sonho é que ambas as partes andassem lado a lado, para que uma lavasse a mão da outra: para a primeira não morrer asfixiada e para a segunda apurar técnicas e o pensamento crítico.

No entanto, eu entendo, principalmente a partir do argumento referido, quando várias entrevistadas revelam que boa parte do aprendizado acontece depois da graduação. “Se alguém quiser realmente aprender, precisa ir além do que o ensino formal fornece (e isso independe da área)”, argumenta Suéllem Nascimento. “Quando me formei em jornalismo, percebi que estava completamente crua nas noções de marketing digital, social media e tudo mais. Tive que correr atrás de tudo na internet, tive que assistir muitos tutoriais, buscar webinars, cursos gratuitos, etc.”, complementa Fahen Carvalho. A boa notícia é que, sim, há muito conteúdo de qualidade para aprender mais sobre a área de criação de conteúdo – ou qualquer outra – na internet. “Ir atrás de conteúdos, pesquisas, livros, e- books, aumenta o repertório de conhecimento e agrega muito no que esse profissional vai desenvolver”, explica Agnes Pires, professora universitária que estimula o estudo autônomo.

“Eu sou bem um exemplo disso, aprendi as ferramentas Adobe através de um site com vídeos tutoriais chamado Cursou, foram essas aulas (gratuitas inclusive) que me permitiram começar a me arriscar fazendo umas artes no Photoshop e Illustrator”, conta Lara Thaisa Telles. Em complemento, Agnes Pires propaga a ideia de “life long learning”, uma perspectiva na qual o aprendizado informal possibilita adquirir conhecimento por toda a vida: “Estudar não deve focar somente a graduação, pós e cursos baseados em instituições renomadas. Às vezes um curso menor pode te agregar bastante”, explica. “Acredito também nos conteúdos transversais: se você descobriu que o que te motiva é trabalhar com mídias digitais, já fez todos os cursos possíveis e imaginados, que tal agora partir para estudar antropologia, filosofia, fotografia ou outros assuntos indiretos que acrescentem e aumentem teu repertório, sem necessariamente serem cursos na área de comunicação?”, provoca AP.

A graduação vai tentar te dar um formato, só que não existe fórmula mágica que vá funcionar com todos os clientes em todas as situações. Um bom profissional de criação obrigatoriamente necessita de renovação constante. Quanto mais dentro da bolha ele ficar, menos relevante e mais tedioso o seu trabalho vai ser. Inspiração para fazer conteúdo vem de referência, não do divino. Não existe ‘sacadinha’ sabe? É tudo uma conexão de referências. Particularmente para quem trabalha com criação é importante que se busque cursos não só voltados para o mercado, mas para fora dele. Cursos, artigos, livros, ares diferentes que vão te fazer enxergar as coisas com um olhar modificado, fora das regrinhas do mercado. Isso aí qualquer um pode fazer sozinho. Existem muitos cursos de graça na internet que são ótimos, como na Coursera, mas existe algo que todo mundo pode fazer a qualquer momento sem precisar pagar nada: escutar as pessoas. Ouvir a história de vida delas, entender porque elas gostam disso e não daquilo. Pergunta a tua avó porque ela gosta da novela das oito, mas acha a das seis chata. Pergunta a teu amigo porque ele achou o filme chato. E por aí vai.. Essas novas perspectivas vão te fazer um criador de conteúdo melhor.

Anna Mello, Estrategista de Conteúdo Digital

Nathália Capistrano também sugere a busca por “cursos co-relacionados, áreas analogas, que complementam o conhecimento ou até contribuam no aprimoramento de técnicas que você ainda não domina”. Um designer de digital e redes sociais pode procurar cursos de fotografia, arte ou tipologia; um redator pode buscar aprimorar técnicas de elaboração de roteiros, estudar sobre neurociência ou buscar cursos sobre tecnologia que possam “ajudar a descobrir e pensar em funcionalidades, ferramentas e soluções que funcionam para seus clientes”, por exemplo. “Ou seja, buscar temas e universos diferentes para aprimorar sua visão de mundo, já que um insight criativo para uma campanha e conteúdo surge das referências que você vai acumulando”, explica. “Como se trata de uma ciência extremamente humana, não existe uma cartilha para a carreira de quem trabalha em criação e conteúdo. Tudo que você aprender, até aulas de mecânica ou culinária, podem ajudar na hora de sentar e criar” (NC).

A palavra-chave para quem trabalha com produção de conteúdo, portanto, é referência. “O profissional bebe de diversas fontes […] Se você trabalha com conteúdo, tudo te interessa. Indiferente de qual graduação tenha feito, você precisa entender dos conceitos estratégicos para elaborar um conteúdo e, de novo, ter referências”, explica Leo Morato. “Uma simples orelhada em uma conversa no metrô pode virar uma ideia valiosa para o cliente. O bom produtor de conteúdo é, antes de tudo, um bom ouvinte e um excelente observador da sociedade onde vive e, especialmente, do público interlocutor”, complementa Lidiane Faria. Em consonância, Nathália Capistrano diz que “o maior trunfo do criativo é não se acomodar”, ou seja, “ser inquieto e buscar referências novas o tempo todo” – e dá a dica: “Para estudar de maneira autônoma, o importante é setar metas e compromissos, do tipo, vou me envolver em um curso livre por mês, vou aprender uma habilidade a cada 6 meses, etc.”.

Como entrar no mercado?

Se os últimos posts da série serviram de indicação, já é conhecimento básico que a porta de entrada para o mercado é a produção de um trabalho relevante. Quando falamos da área de criação, não é preciso nem discutir a importância de um portfólio. A questão é: como e quais trabalhos apresentar? “É fundamental ter ‘em mãos’ os principais trabalhos, sabe? Aqueles que você olha e pensa ‘nossa, queria mostrar para o mundo inteiro e falar que eu sou parte disso”, recomenda Simone Bispo. E Maria Beatriz Barros complementa: “O método de escolha é esse mesmo: peças que atingiram melhor seus objetivos, de engajamento, venda ou conversão; peças que te deixem orgulhosa por algum motivo, seja pelo trabalho, pela ideia genial, por conseguir romper com algum padrão engessado. Organize online, num behance da vida, ou guarde em pdf com você, mas organize os posts por data, cliente, objetivo a ser alcançado e números. Se a ideia é mostrar que você faz conteúdo matador, prove!”

Manter esse repertório é uma forma de criar identidade profissional e desenvolver seu próprio legado. “Criação é uma área que o profissional evolui diariamente e é muito comum olhar para trabalhos de dois meses atrás e pensar ‘nossa, como isso foi aprovado?’. A gente acaba ficando bem chato com os próprios trabalhos, às vezes até duros demais, mas o segredo é manter boas referências e buscar atualizar sempre o portfólio com peças que você sinta aquele orgulhinho de ter feito e que vão ter relevância na hora de te representar como profissional”, aponta Lara Thaisa Telles. Outra questão importante, conforme reforçam Simone Bispo e Anna Mello, é ficar atento à variação dos formatos e temáticas do seu trabalho. “Se a seleção dos teus trabalhos favoritos se limita a cinco peças para o mesmo cliente, é melhor incluir duas ou três peças que não são tão perfeitas assim, mas que mostram que você consegue fazer mais do que só seguir uma única linha”, explica a segunda, ressaltando a importância de manter-se organizado.

Portfólio pra mim tem que mostrar como você pensa. E isso vale muito pra quem tá começando agora desanimado e pensando “Como eu vou conseguir estágio se eu não tenho peça pra mostrar?”. Chama aquele brother que tá na pilha de criar também e faz umas campanhas, posts pro Facebook, alltypes. Pensou num filme irado? Faz o roteiro e cria um storyboard (uma versão “de imagens estáticas” do roteiro). Você pode fazer um projeto pessoal ou escolher uma marca bacana e oferecer consultoria. Sabe aquele bar que você sempre vai com os amigos no fim de semana, mas tem uma marca horrível? Se apresenta pro dono e cria uma marca nova. Faz o redesign de alguma coisa. Escreve um conto, um roteiro ou um post. Dá pra fazer absolutamente tudo. O importante é sair do lugar. Depois que você começar a se mexer vai ver que criar é um caminho sem volta. O Behance é uma plataforma ótima porque funciona como rede também, então você vai poder entrar em contato com outros profissionais. O Cargo Collective tem uma navegação fluida e tem o Squarespace também (só pra citar algumas plataformas). O importante é ter um pouco de tudo e tudo o que você colocar lá precisa refletir algo que você tenha vontade de fazer de novo. Se você gosta de arte urbana, tenta colocar algo sobre graffiti, skate ou cultura underground em geral. Curte música? Faz um trabalho pra uma banda e coloca lá. Não adianta fazer um portfólio inteiro só com post de Facebook porque na hora que o DC (Diretor de Criação) perguntar “Hm, bacana, mas você faz conteúdo institucional pra site também?” você vai gaguejar e vai se sentir intimidado. Coloque boas ideias, evite títulos de duplo sentido e aquelas velhas sacadinhas que podem soar como o tio do pavê. É importante que o seu trabalho conte uma história, diga algo sobre você. Diretores de Arte: aqui é a hora que vocês mostram o que vocês sabem fazer. Manipulação, escolha de cor, estética, tipografia, etc. Redatores: escrevam! Mas só o suficiente. Peguem leve no excesso de texto. Lembre sempre: internet não é página dupla de jornal.

Suéllem Nascimento

Para se destacar na multidão, a dica é tentar ser o mais original (ou criativo) possível. “Estes dias vi o portfólio de um webdesigner, ele criou um site que trazia o visual do jogo do Mário, você mexia nas setas do teclado e o Mário ia “caminhando” pelo portfólio dele. Achei a ideia incrível e original. É isto o que precisamos, de portfólios originais, que sejam bonitos, que as pessoas vejam e entendam do que se trata o seu trabalho, sabe?”, destaca Fahen Carvalho. O importante, tanto para ela quanto para Nathália Capistrano, é colocar sua personalidade no que faz e contar bem a sua ideia através do portfólio. “Eu sempre aconselho para quem vem me mostrar pasta: conte do jeito que você contaria em uma entrevista ao vivo, escreva exatamente desse jeito primeiro e parta daí. Nem sempre uma prancha ou um videocase necessariamente serão a melhor forma de mostrar. Muitas ideias legais acabam parecendo menores quando simplesmente jogadas num behance ou cargocollective”, explica NC.

Ou seja, o importante é ficar atento à história que você quer contar – na qual você, enquanto profissional, é o protagonista. Para Agnes Pires – que já viu portfólio até no Buzzfeed – e Leo Morato, ela pode ser desenvolvida nessas plataformas já citadas, como Behance, mas até no Pinterest ou no LinkedIn mesmo. A dica é achar “jeitos para valorizar, tanto visualmente, quanto na explicação: gifs, fotos do processo e progresso, títulos chamativos, minidescrições bem contadas e resultados com prints de respostas, etc.”, explica Nathálica Capistrano. “Além disso, vem os conselhos mais básicos: escolha os seus trabalhos mais legais, de 6 a 10, crie um fluxo para explicar o racional de problema-solução e deixe claro qual foi seu papel e envolvimento no projeto. Vale colocar sim ideias-conceito e coisas que não foram ao ar, mas também deixe isso claro para não induzir o recrutador ao erro ou parecer uma desonestidade” (NC).

Por fim, mas não menos importante, a dica de Lidiane Faria: “Ter projetos pessoais/paralelos sempre ajuda muito, seja para testar uma ferramenta ou para treinar uma habilidade”. No curso CoLab Social Media da Trespontos Brasil, mais especificamente no módulo de conteúdo-criatividade-comunidades, Nathália Capistrano também reforçou esse argumento, incentivando que profissionais de criação sempre fomentassem ideias pessoais tanto para fortalecer repertório quanto para estimular a criatividade – ou seja, além de expandir os conhecimentos sobre assuntos diversos (que vai de encontro à sugestão de fazer cursos não relacionados à comunicação), também pode se tornar um material de trabalho para apresentar. “Blogs, cursos, textos e projetos voluntários sempre ajudam a desenvolver o processo criativo e a apresentar o potencial do candidato. Particularmente, tento ser e gosto de pessoas que circulam em diferentes ambientes e que demonstram abertura para troca e aprendizado”, explica LF.

Mas como é a área no Brasil?

Se tudo que foi dito até aqui foi o suficiente para se apaixonar pela área de criação, este é o momento de colocar os pés no chão: o cenário é próspero, mas as adversidades são constantes. “Se pensar que está ruim nada nunca estará bom. Assim como você nunca está preparado para enfrentar um desafio que te dá muito medo, se ficar esperando o mercado melhorar, você vai morrer de velhice. Faça seu próprio caminho e esteja sempre preparado”, opina Suéllem Nascimento, que reconhece que a crise financeira e política do Rio de Janeiro afeta o mercado de comunicação. No Rio Grande do Sul, o cenário é semelhante: “Acredito que o mercado esteja se recuperando aos poucos, 2016 foi bem difícil, vi diversos amigos desempregados e, agora, todos já estão com seus empregos”, conta Fahen Carvalho. “A oferta é consideravelmente boa, a maioria das vagas são para Diretores de Arte, mas podemos encontrar muitos freelas para produção de conteúdo, para blog e redes sociais” (FC).

E aqui chegamos no dilema que já mencionei anteriormente a partir de outro artigo: por um lado, as mídias sociais proporcionaram um aumento de oferta e demanda na área de comunicação, com empresas pequenas que não tinham orçamento para isso começando a se aventurar nas plataformas digitais e, a partir disso, gerando mais emprego para profissionais que começaram a oferecer esse tipo de serviço; por outro, esses mesmos profissionais acabaram acumulando funções, tendo seu trabalho banalizado e constantemente menosprezado. Em Pernambuco e João Pessoa, por exemplo, Anna Mello e Simone Bispo ratificaram que a “diferenciação entre profissional de conteúdo, atendimento, SAC, planejamento, monitoramento, é quase inexistente” (AM). Nesse cenário, “além de produzir, a gente publica, faz a interação e gera relatórios mensais”, explica SB – e é provavelmente o mais comum em todo o Brasil, felizmente ou infelizmente; o projeto Relatório Brasileiro de Social Media deve nos dar alguma resposta em alguns meses.

“Vai ser necessário muito tempo para provar que isso não funciona e que vale investir em uma agência ou consultoria que entrega o trabalho agregado por uma boa equipe e, caso isso não seja possível, espero que essas empresas percebam que precisam montar uma boa equipe”, opina Agnes Pires, de Pernambuco, sobre o fenômeno do faz-tudo digital. Já Lara Thaisa Telles, de Sergipe, vê o cenário com mais bons olhos: “O mercado de criação para o ambiente digital está cada vez mais receptivo, as próprias empresas estão abraçando mais a ideia, eles estão percebendo por si só o poder que a as redes sociais têm de difusão de conteúdo e alcance de público”. Fundadora da agência Molotov, ela é um exemplo dentre vários no Brasil de jovens que viram no digital uma oportunidade para fugir do mercado engessado das agências tradicionais e criar algo próprio – como foi o caso também da PaperCliQ, agência baiana encabeçada por Tarcízio Silva e Marcel Ayres que começou pequena e se tornou referência nacional.

“O resultado dessa mudança está sendo positivo, essas pequenas agências começaram atendendo clientes que não eram visados pelas gigantes do mercado e hoje estão conquistando cada vez mais o seu espaço”, aponta. Num cenário menos empreendedor, Agnes Pires complementa: “O que tenho visto de positivo é bastante gente indo atrás de qualificação, o que ajuda bastante”. Ou seja, não importa o cenário, o importante é não ficar parado de forma algumas. As mídias sociais são, sim, uma faca de dois gumes – não canso de repetir, pelas oportunidades e pela banalização – mas o mercado não vai mudar se continuarmos parados. É preciso buscar qualificação e especialização, para exigir e criar nas empresas uma consciência acerca dos esforços na comunicação digital, como também é necessário fazer isso para se desenvolver profissionalmente e possivelmente se diferenciar diante da multidão – é esse “o pulo do gato”, como disse Fahen Carvalho.

Enfrentando o oceano de conteúdo nas mídias sociais

Todo esse cenário comunicacional reconfigurado pelo advento das mídias sociais traz, conforme já discutido, diversos pontos positivos e negativos. Um dos principais desafios, a meu ver, é o que causou a própria “revolução” em si: a mudança de consumers para prosumers – ou, em português e numa visão menos mercadológica e mais acadêmica, o que André Lemos chama da liberação do pólo emissor. Somos cada vez mais bombardeados por conteúdos/informações em todas as plataformas digitais que temos hoje à nossa disposição. Marcas disputam a atenção dos usuários que, em seu feed do Facebook, Instagram e Twitter, não querem ver propaganda – estão bem mais interessados naquilo que seus amigos, conhecidos, artistas favoritos e veículos de mídia do seu interesse têm a dizer. Como se destacar nesse oceano de conteúdos que as mídias sociais têm se tornado? Para as pequenas e mídias empresas, então, como competir com, além dos atores já citados, grandes marcas que têm dinheiro para “forçar” a atenção dos usuários?

“Relevância. Nunca essa característica foi tão necessária. Martha Gabriel costuma dizer que o excesso de conteúdo gera pobreza de atenção e é a mais pura verdade. Não adianta mais olhar o que está dando certo na concorrência e fazer igual. Você precisa olhar para a concorrência e pensar no que ela não está fazendo. Não se chega a novos lugares seguindo as mesmas velhas pegadas […]”, aponta Suéllem Nascimento. De acordo, Simone Bispo reforça: “O conteúdo [dessas pequenas e médias empresas] precisa ser objetivo e diferenciado. Não adianta ir na onda do concorrente, pois o objetivo dele pode não ser o seu”. Também em consonância, Anna Mello indica: “Conheça seu propósito e conheça seu público. Invista em conteúdo relevante e de qualidade e busque fazer parcerias com pequenos influenciadores. É demorado, dá trabalho, mas o resultado é muito bom”.

A política e o esporte tem uma coisa em comum: a paixão do público. E esta paixão é motivo para o profissional de conteúdo trabalhar pisando em ovos. Sensatez é algo raro de se encontrar nos consumidores de conteúdo de esportes e política. Assim, é preciso conhecer profundamente seu público alvo quando falamos de política e esporte e saber como se relacionar com os “rivais” sem desrespeita-los. Um planejamento e um monitoramento bem feito podem te ajudar, mas não vai adiantar muito se você não estiver bem acostumado a lidar com estes temas. Isto vale tanto para quando você fala de uma boa partida de um clube de futebol ou quando você quer vender um bom projeto social numa campanha política. Uma palavra mal escolhida e você corre o risco de receber um caminhão de críticas e até ofensas pessoais.

Leo Morato

O primeiro passo para se fazer relevante, portanto, é compreender o seu público. “Para ter isso, só com muita pesquisa e planejamento estratégico. Você não precisa jogar uma bomba atômica no mercado ao estilo ‘BMW Films’, você precisa atingir de forma precisa o seu público, por menor que ele seja. E você só conseguirá isso se conhecê-lo muito bem. Pesquise, analise dados e comportamentos. É o primeiro passo antes de tentar elaborar qualquer ideia”, recomenda Leo Morato. O processo ideal, conforme recomendado pro Agnes Pires, segue o fluxo: investimento em pesquisa “para responder questões necessárias aos clientes de forma afinada”, antecipar necessidades a partir dos hábitos dos clientes já conhecidos e criar momentos que promovam experiências (investindo em mídia) para chegar mais próximo do seu público. Pode ser um trabalho complexo e/ou trabalhoso, mas deveria ser o mínimo a ser feito.

“As pequenas e médias empresas se destacam justamente no momento em que entregam um serviço e se posicionam como parte da solução da vida do interlocutor. Os pequenos poderiam mesclar curadoria à estratégia, já que podem não ter recursos/subsídios suficientes para manter uma produção exclusiva e dedicada”, explica Lidiane Faria. Ou seja, é preciso utilizar as ferramentas a seu favor para encontrar oportunidades especiais. “As pequenas e médias empresas possuem uma vantagem em relação às grandes: elas possuem mais proximidade aos seus clientes, se não possuem, podem garantir isso com mais facilidade. O que pode e deve ser feito, é alimentar esta relação cliente/empresa e criar uma rede fiel, certamente será um trabalho muito gostoso de fazer. Não se esqueça, para criar uma relação é preciso criar confiança, estar presente e mostrar que o cliente é de fato especial para a marca”, reforça Fahen Carvalho.

Tem várias marcas e clientes pequenos ou autogeridos que conseguem ter consistência e relevância nos conteúdos que produzem. Então, sim, é possível. Claro que um orçamento maior terá impacto direto na atenção que determinado conteúdo vai receber. Além da própria mídia que faz o alcance aumentar, os orçamentos acabam sendo um facilitador ou complicador na produção de imagens e fotos proprietárias e também produção de vídeos. As restrições orçamentais podem desencorajar bastante os profissionais de criar coisas originais e ficam presos em grades simples e formulaicas. Mas, aí moram muitas oportunidades. Afinal, marcas menores e independentes podem se arriscar mais. Por isso mesmo, essa é a maior fortaleza pra as marcas pequenas e médias: observar as brechas do mercado. Quanto mais diferente e escasso ele for, maior o potencial de chamar atenção. Aí também mora a chance de ouvir o que o público falar e responder diretamente em campanhas e conteúdos. Em redes sociais, não se trata necessariamente de falar mais alto, se trata de falar algo que os outros querem ouvir, replicar, compartilhar e se engajar.

Nathália Capistrano

E como a área mudou nos últimos anos? Para onde vamos?

A grande mudança que discutimos aqui até então foi a proliferação do conteúdo, devido ao aumento exponencial de produtores – tanto marcas quanto usuários comuns. Mas, em termos de formato/linguagem e estratégia, o que mudou? “A Publicidade, em sua essência, tem duas formas básicas de existir: ou ela é funcional, ou ela é entretenimento. A internet está abraçando essas frentes com bastante competência, que o diga a proliferação de inboud marketing e de branded content. O conteúdo passou a ser cada vez mais presente na vida das pessoas. Você aprende com ele, se emociona com ele, torce por ele. Quem pensa conteúdo hoje está pensando cada vez mais nos usuários e buscando entender melhor essas pessoas além de meros @’s”, opina Suéllem Nascimento, que começou a trabalhar fazendo seeding no Orkut – saiba mais sobre essa prática nesse outro post.

“De cinco anos para cá, as agências foram se profissionalizando e as contas idem. Foram desenvolvidos estudos de marca, layout, brand voices, planejamentos estratégicos. Também o crescimento das mídias fizeram com que as possibilidades e formatos fossem ficando mais sofisticados. Um fenômeno Tostines (os planejamentos melhoraram as performances ou os meios forçaram os planejamentos?) que pode ser explicado por McLuhan: novas gramáticas, mas uma prática não substitui a outra”, explica Maria Beatriz Barros. “Trabalhar com conteúdo ficou mais fácil e mais difícil ao mesmo tempo. Enquanto nas épocas do Orkut e do blogger.com – 10, 12 anos atrás – a capacidade de produzir conteúdo (e que esse conteúdo chegasse em uma parte significativa do público) era muito mais centrada em grandes players; a gente vê, de uns cinco anos pra cá, principalmente por causa do crescimento do YouTube, essa descentralização acontecer de forma a atingir uma fragmentação gigante”, acrescenta Anna Mello.

Essa “cauda longa” do conteúdo, na qual atualmente “o conteúdo de tua marca compete com todo nível de outras marcas, com os posts de outros usuários e com os posts de criadores de conteúdo pela atenção de uma pessoa que está cada vez com menos capacidade de foco” (AM) é um pouco disso tudo que debatemos aqui. “Todo mundo agora é criador de conteúdo, blogueiros aos montes, todos têm acesso às redes sociais e sabem como manuseá-las”, ratifica Fahen Carvalho. A criação de conteúdo sofreu um “boom” com a popularização da internet, sem dúvidas. […] É praticamente um cardume de conteúdos lançados no mar do Facebook, aí entram os anúncios, as promoções, tudo para conquistar a atenção dos usuários. O perfil do profissional mudou, a forma de criar mudou e a forma que os usuários recebem as informações, também mudou. Se você não acompanha essas transformações, provavelmente ficará de fora” (FC).

Agnes Pires e Simone Bispo também reforçam o quanto todo esse trabalho tem se profissionalizado, “o que antes era intuitivo e essencialmente teste, hoje é muito mais acessível de fazer” (AP) – ou seja, há uma demanda por entregas reais, resultados e um trabalho bem feito. Já Nathália Capistrano, que vem da publicidade “tradicional”, conta que um dos maiores conflitos nos últimos anos têm sido a insistência pela separação entre online e offline. “Isso fez com que os profissionais de criação fossem – e continuem sendo – cobrados cada vez mais para serem completos. Atualmente, eles devem saber se comunicar com o público final em todos os pontos de contato, e claro, isso é mais complexo nas plataformas digitais que evoluem e mudam tão rapidamente”, explica. E ratifica que essa mudança cultural trazida pelo digital impactou diretamente o processo criativo, que agora já é pensado com métricas, metas e KPIs. “As áreas de monitoramento, BI, social listening também norteiam as campanhas, mostrando possibilidades e fragilidades”, complementa.

O uso dos dados apoia o criativo no direcionamento estratégico e tático do conteúdo – e, na hora da reunião de apresentação do planejamento, é uma ótima fonte de argumentação. Mas, para trabalhar com dados, é importante saber fazer as perguntas corretas – especialmente quando se trabalha com grande volume de informações. Estas perguntas ajudam o produtor de conteúdo a se conectar com o analista de dados – este que, com capacidade lógica, desenvolve combinações de bases e explora todo o potencial dos dados. O trabalho do produtor de conteúdo é usar e transformar isso em informações, gráficos e histórias que permitam a audiência refletir, se conectar e/ou tomar decisões. Os dados também ajudam na escolha de formatos, linguagens e até mesmo no percurso que a conversa deve seguir. A marca/cliente/criativo/agência/etc. precisa entender que o conteúdo em mídias digitais não é feito e tampouco direcionado apenas para o público interno, já conhecido e muito menos para si mesmo. […] Os dados ajudam a defender ideias muitas vezes não aceitas pelo grupo participante do projeto, mas necessárias ao público que receberá a mensagem. E, por fim, os dados também ajudam a mensurar a efetividade da mensagem. Ter essas informações ajuda a voltar no planejamento e ajustar a campanha, a linguagem, o tom da mensagem, entre outros.

Lidiane Faria

Nesse cenário de conhecer muito bem o seu público e criar conteúdo de relevância, quem tem se destacado? É clichê falar isso, mas a principal referência de criação de conteúdo que surgiu nos últimos anos é a Netflix. Ela fez o mercado de comunicação brilhar os olhos para estratégias de criação de conteúdo, mas este case criou um monstro. Agora, todas as marcas querem ser uma Netflix e todo profissional de conteúdo quer fazer do seu cliente uma Netflix”, opina Leo Morato. “Mas estas pessoas se esquecem que a Netflix só é o que é porque conhece seu público e se comporta como sua audiência quer que ela se comporte. O produto e o público permitem este tipo de linguagem e posicionamento. Netflix só tem uma. Temos muito a agradecer a ela, à Prefeitura de Curitiba e a diversos outros cases que deram vitrine ao mercado de conteúdo. Agora, precisamos seguir em frente” (LM).

Tomando como exemplo a própria Netflix, acredito que podemos entrar em um consenso a concordar que a grande “revolução” das mídias sociais têm sido, de fato, a “emancipação” dos consumidores – como aborda Lara Thaisa Telles. Mais do que nunca, é preciso compreendê-los tanto em sua totalidade quanto em suas peculiaridades, ir além de dados tradicionais e mapear quem eles são, o que fazem, como se comportam, de que modo se apropriam de produtos/serviços, como se relacionam entre si, etc. – com isso em mãos, ficará bem mais fácil saber o que e para quem criar. “A produção de conteúdo deixou de ser apenas uma transmissão de mensagem e virou um serviço, algo que precisa ser útil caso o objetivo seja efetivamente fazer parte da vida de quem recebe. […] Se o conteúdo não for relevante na vida de quem lê, talvez não seja tão efetivo”, indica Lidiane Faria. Mas e o que o futuro nos guarda?

“Acredito que o futuro do conteúdo está nas experiências imersivas em realidade aumentada e realidade virtual. Quem criar conteúdo no futuro vai ter que pensar em tecnologia de uma forma muito mais latente do que hoje. O branded content aponta pra integração total do conteúdo com a tecnologia e as experiências que a internet das coisas poderá proporcionar. Vai ser um futuro muito Black Mirror, definitivamente”, aposta Suéllem Nascimento. Menos futurista, Lidiane Faria complementa: “Muito se fala também na automatização do conteúdo, mas não acredito na pura e simples substituição do humano pela máquina. O que pode acontecer (e será ótimo) é justamente o casamento do uso de dados para embasar a criação do conteúdo – e como diz Jean-Christophe Bonis, sócio-fundador da Oxymore em entrevista ao Meio&Mensagem, a comunicação permanecerá de humanos para humanos”.

“A produção de conteúdo também ganha um peso maior e tem o desafio de posicionar marcas na sociedade através de histórias, manifestos, propósitos, etc. e o desafio de expressar cada vez mais com poucas palavras. Nem tudo o que é interpretado é dito diretamente. Acredito cada vez mais no conteúdo como um serviço facilitador, desenvolvido boa parte das vezes a partir da observação da experiência e do comportamento do interlocutor”, indica Lidiane Faria. Uma mudança de caráter urgente, tanto para ela quanto para outras entrevistadas, é a reformulação do modelo tradicional de criação de conteúdo para internet – acoplando, agora, o quanto antes, também a produção de vídeos. “Tecnicamente também vejo como um desafio aos produtores de conteúdo a imersão no conteúdo audiovisual. O vídeo compete cada vez mais com texto e imagem, e conhecimentos técnicos mínimos são cada vez mais exigidos. Snapchat, Instagram Stories e YouTube estão aí”, explica.

A principal necessidade é abraçar linguagens do audiovisual, urgentemente, nos planejamentos e verbas de investimento. Ok que fazer uma foto é mais barato que produzir uma série de vídeos, mas num mercado como o brasileiro, em que vídeos são muito consumidos e com a necessidade crescente de brigar pela atenção do consumidor ou seguidor/fã de uma marca ou empresa, precisamos fugir da fórmula imagem + texto engraçadinho. Ainda por cima, o Facebook já afirmou que prioriza vídeo no alcance. Há uma divisão tida como ideal em um núcleo de mídias sociais, que é um planejamento, um redator, um designer, um monitoramento e um relacionamento, vamos incluir um editor de vídeos nessa equipe ideal. Também creio que trabalhemos mais com internet das coisas, então o conteúdo vai precisar ser pensado para mais formatos que celular e notebook. Pode ser um letreiro na Times Square mostrando tweets (ou seja lá qual for a rede da moda) ou uma etiqueta numa blusa, uma telinha num liquidificador. A C&A já fez um experimento com um cabide, que tinha a peça mais recomendada na rede social que eles criaram e ia mostrando as dicas das pessoas que participavam da rede. Há ainda muito a ser explorado. Transmissões ao vivo, stories e 360º estão só no começo. Até lá, teremos mais realidades virtuais, sejam aumentadas ou alternativas.

Maria Beatriz Barros

Fahen Carvalho e Lara Thaisa Telles reforçam a volatilidade da contemporaneidade, na qual “as coisas mudam muito em bem menos tempo” (FC). Por isso, prefere não fazer nenhuma aposta: “O universo digital se transforma muito rápido e eu tenho bastante medo desse futuro incerto. A tecnologia está a cada dia mais avançada e como será a distribuição de conteúdo daqui alguns anos? É uma dimensão grande demais para eu ter alguma certeza”. Já Lara Thaisa Telles, embora reconheça a imprevisibilidade gerada pela velocidade das mudanças tecnológicas, enxerga uma tendência: “a visão e a voz do consumidor estarão cada vez mais presentes no processo comunicativo, que passou a acontecer de maneira muito mais horizontal” (LTT). “Acredito que as plataformas, tanto quanto os consumidores, serão os responsáveis pelas grandes mudanças nos conteúdos digitais nos próximos anos”, aponta. Mas e no mercado, para onde vamos?

“Enxergo uma área bem saturada, com muitas pessoas de conhecimento mediano. Quem sairá na frente e terá mais oportunidades certamente serão os profissionais que buscam estudar, pesquisar e praticar além do marketing digital, indo mais fundo em questões sociais, antropológicas e de tecnologia da informação”, opina Agnes Pires – descrevendo o que, a meu ver, já é uma situação atual. “Certamente a área estará cada vez mais exigente no que diz respeito a conteúdo atrativo e, principalmente, criativo! Acredito que os profissionais da área terão que buscar novas maneiras de produzir, sair do básico e cada vez mais se especializar. Isso vai mostrar quem de fato produz conteúdo de qualidade e quem só atualizar perfis”, complementa Simone Bispo. Seguindo argumento parecido, Leo Morato aposta num “darwinismo conteudista” no qual só os melhores sobreviverão: “uma filtragem natural que manterá no mercado apenas aqueles que entendem dos processos”.

Para Nathália Capistrano, talvez a única mudança certa que possamos previr é o próprio ato de mudança em si – ou seja, sempre se adaptar ao contexto da forma mais adequada possível. “Talvez o caminho seja realmente sempre se reciclar e mudar. Além disso, não necessariamente podemos replicar a solução que achamos para um cliente em outro, as coisas, com digital ficam mais específicas, então, as agências devem começar a ser mais tailor made, mais sob medida mesmo. Sem dúvidas o maior desafio vai continuar sendo trazer soluções de negócio que realmente respondam coisas relevantes pro público“, opina. Ou seja, os modelos/formatos/processos de criação não devem ser tão engessados: Estamos falando de criação de soluções de negócios mesmo, pensar em funcionalidades para o produto ou como a marca pode atuar socialmente na vida real, as marcas não necessariamente produzirão conteúdo, e sim, serão apoiadoras de entretenimento” (NC).

E se o assunto é apoiar entretenimento, não há como pensar em influenciadores. “Acredito que estaremos lidando com uma audiência ainda mais fragmentada e trabalhando com micro-influenciadores”, opina Anna Mello. Particularmente também acredito que o trabalho com micro-influenciadores pode ser um grande trunfo na relação entre empresa-consumidor, tanto para pequenas quanto para grandes marcas. E isso envolve tudo que discutimos aqui: um árduo trabalho de pesquisa para compreender o(s) público(s) e identificar usuários – que também são criadores de conteúdo – relevantes e desenvolver um bom planejamento que contemple a tríade marca-consumidor-influenciador para finalmente chegar assertivamente no público final. “As marcas que não tiverem seu próprio conteúdo original, que não tiverem uma personalidade, estarão com dificuldades de atingir seus usuários”, acrescenta Anna Mello.

Tudo acaba sendo relacionado: conteúdo, influenciadores, comunidades. Afinal, os influenciadores podem ser potenciais geradores de conteúdo e movedores da comunidade. E, dentro das comunidades, temos potenciais temas para conteúdos e indicativos de preferências de influenciadores que funcionariam mais para impactar o público daquela determinada marca. Quando falamos da relação entre criação de conteúdo e comunidade, é importante admitir que não é toda marca que consegue reunir uma comunidade em sua volta. Tem marcas mais problemáticas ou que simplesmente não tem apelo ou necessidade disso. Uma comunidade é algo que tem continuidade, que mantém as pessoas/consumidores envolvidas. Ter uma página de Facebook que recebe comentários não é necessariamente ter uma comunidade, afinal, as pessoas que estão comentando ali podem ser meramente pontuais que foram impactadas pela mídia. Agora, quando temos uma lovebrand, uma marca que tem uma comunidade ao seu redor, ali é um baita ecossistema para testar conceitos criativos, medir a aceitação, retirar dos comentários histórias e dúvidas que podem nortear campanhas. E quando falamos sobre criação de conteúdo e influenciadores, eu diria que o essencial é pensar sempre em CO-criação. Não adianta meramente enviar o post ou roteiro prontinho para os influenciadores. Eles sabem como se comunicar com a base deles, do jeito deles, então, para melhores resultados, o ideal sempre é brifa-los com o conceito da campanha e ação e, então, a partir daí, criar em conjunto qual seria o discurso e participação dele. A entrega tem que ser algo que comunique o que o cliente precisa e que funciona com o público daquele influenciador, caso contrário, foi um desperdício. A criação de conteúdo entra nesse processo criativo, para dar as primeiras possibilidades, e validar a contraproposta do influenciador.

Nathália Capistrano

Para finalizar, acho importante retomar algumas das várias discussões abordadas neste texto extremamente rico – graças às entrevistadas: 1) na internet, o conteúdo é a porta de entrada em vários sentidos; com a “democratização” do acesso e da produção, todos viramos criadores e competimos entre si pela atenção uns dos outros; 2) é também parte desse fenômeno que causa a banalização do trabalho, cabendo a estagiários (como foi o meu caso) produzir conteúdo para web de maneira desleixada, sem qualquer preocupação técnica, criativa ou estratégica; por isso é importante manter um debate contínuo sobre a função do conteúdo, como ele está/deve/deveria ser criado e a quem ele atende – do lado dos profissionais, o mercado só vai evoluir quando as especializações se tornarem lugar comum; 3) e, enfim, tudo isso culmina na importância de planejar estrategicamente a sua comunicação; se você não sabe onde quer chegar, como vai chegar lá? A criatividade é o meio, não o fim.

Considerações finais

Se você quer pensar um pouco sobre conteúdo, é preciso tirar um tempo para entender as variações do próprio mercado e de movimentos sociais. A Skol é conhecida por anos a fio de campanhas de objetificação da mulher. Ao invés de negar esse passado, eles convidaram Ilustradoras e Artistas para repensarem as antigas artes machistas sob um novo olhar (vale dar uma olhada aqui) e deu o start para o novo posicionamento “Redondo é sair do seu passado”. A ideia é ótima, mas ela nunca teria sido posta em prática (ou sequer pensada) se não fosse o levante dos movimentos sociais (principalmente o feminismo). Tudo tem um contexto social, afinal seu conteúdo não está solto no vácuo profundo e frio do universo. Ele existe e coexiste dentro de um contexto e se alguém diz que ele está errado, você como marca tem o dever de assumir o erro e tentar minimamente reparar. Já passou da hora das marcas pararem de dizer que tal conteúdo ou tal campanha não foi entendida. Isso é simplesmente não querer assumir a responsabilidade por não ter pensado ou entendido direito as nuances do público. As pessoas não são idiotas, não as trate como tal. Ponto pra F/Nazca que tá fazendo com a Skol exatamente o que todo mundo pedia há anos e ninguém ouvia.

P.s: o reposicionamento tem o dedo da Lara Roncatti, uma Diretora de Arte incrível de lá da F/Nazca e uma das 3 únicas mulheres no Young Lions de 2017 (3 mulheres entre 50 candidatos – achei importante destacar o trabalho dela que, além de incrível, é mais do que representativo).

Bem, você gosta na Netflix? Então você precisa conhecer o trabalho da Mutato, uma agência do grupo JWT. Sabe todos aqueles vídeos incríveis que aparecem no Facebook da Netflix? Então, sai tudo de lá. O trabalho da Droga5 com a Under Armour é o tipo de coisa que faz você dar aquele sorriso de satisfação. O Burger King tem umas ativações sensacionais! Veja algo que realmente goste e vá atrás de quem fez. Inspiração é tudo, mas não fique preso ao que a Publicidade já criou. Procure conteúdo em outras áreas. Alimente-se com outras fontes que não sejam tão óbvias assim.

Suéllem Nascimento

Quando comecei a trabalhar com publicidade, em 2011, pensava com alguma irritação: mas será que não posso ficar no meu canto, escrevendo e sendo feliz? Ingenuidades de principiante. Talvez se eu fosse redatora publicitária e tivesse uma dupla de criação, chegasse a diretora de criação, poderia me ver no mesmo caminho. Mas a verdade é que, por mais que seja a atividade fim, e de maior vitrine ao trabalhar com mídias sociais, escrever para web em agência é sempre o primeiro passo. Logo, você quer crescer e ver a estratégia como um todo, quer participar do planejamento. Isso também é um problema do mercado, que coloca estagiários e recém-formados para escrever os conteúdos e criar as imagens. Virou uma profissão de iniciantes. Raro ver um sênior em texto para mídias sociais. Não só porque a profissão existe há pouco tempo, mas a tendência é a buscar mais. Outro problema do mercado, e aqui estão agência e clientes, é que poucas dão espaço para criar de verdade. Sair um pouco da casinha, sabe? Não digo pegar um meme, ou usar uma linguagem mais despojada. Isso tudo pode ser acordado em um planejamento. Falo dos estalos que temos às 14h de domingo na fila do cinema, “e se eu fizesse um cupom que atrelasse o produto x a uma atividade cotidiana”? E se eu criasse o dia nacional do churros, pra nesse dia meu cliente fazer uma grande ação em torno deles? De novo, é preciso ter frente e um planejamento azeitado para que o analista consiga ter tempo de parar e pesquisar e, com isso, criar ainda mais inovações.

Maria Beatriz Barros

Trabalhar com produção de conteúdo é uma das coisas que mais amo fazer. Criar estes relacionamentos com os usuários, conseguir perceber a humanização das marcas, ver o poder da comunicação na vida das pessoas é incrível. Meu conselho para quem deseja entrar neste mundo profissional é: pratique, esteja em busca de novas ideias, não deixe se acomodar pela correria da rotina. Quem trabalha com comunicação digital, precisa estar em constante movimento, faça isso. Abuse da sua criatividade, exercite-a, o caminho é difícil e nem todos os dias são de marés tranquilas, mas eu prometo que as recompensas serão incríveis! Boa sorte para quem está começando, se precisar de algo, é só prender o grito (mesmo!).

Fahen Carvalho

Há ainda uma lacuna grande em gestão digital, área que atuei nas últimas 3 agências que trabalhei. Minha preocupação sempre foi enxergar o lado humano da minha equipe e não vê-los como fazedores de conteúdo, nem como operários em uma fábrica. Me preocupa muito o ritmo extremamente acelerado e de cobrança imposto em muitas agências do nosso mercado, prezo e incentivo o equilíbrio e estimular com que o profissional consiga uma afinidade com o conteúdo que produz.

Também importante dizer que as meninas precisam ser mais confiantes de si e estudar liderança e gestão de pessoas, para que tenham oportunidade de se destacarem como líderes no momento oportuno. Essa ressalva é necessária pelo fato de, infelizmente, a tradição de gestores masculinos ainda ser majoritária quando se diz respeito a ambientes de criação e criação digital. Nós, mulheres, temos tanta capacidade criativa quanto os homens e o que falta é oportunidade. Espero que esse meu depoimento inspire outras mulheres a ocuparem esses espaços. Sempre busquei trabalhar o equilíbrio de gênero nas minhas equipes, bem como abraçar a diversidade: os candidatos que escolhi não sabiam, mas eu estava em busca de negros e LGBTs para ocuparem minha equipe e mostrar para a agência que poderíamos sim, ter profissionais pretos, lésbicas, gays, sem nenhum demérito. Essa minha postura nunca foi necessariamente declarada: fulano, você está ocupando esse cargo por questões de cota, mas é um compromisso meu em valorizar quem é bom e tem mais dificuldade de estar no mercado por essas questões. Espero que isso tenha feito diferença na vida deles assim como fez na minha.

Agnes Pires

Assim como no planejamento, os criadores de conteúdo devem sempre observar o mundo ao seu redor. Observar como as pessoas se comportam e reagem no ambiente físico e virtual, observar o que anda rolando no mundo da moda, da arte e do design. Ler bastante, ler sobre tudo, das coisas mais cultas às mais bobas. Ter conteúdo é fundamental para criar novos conteúdos, é preciso estar sempre antenado. Ficar sempre de olho nas novidades e nos memes também! Vocês já viram o sucesso que é a página da Netflix e como eles sabem criar e aproveitar os memes? Em um mar de conteúdo você precisa ser um barquinho que carregue consigo algo relevante e interessante suficiente para prender a atenção daquele usuário que está descendo freneticamente o seu feed, nem que por alguns segundos.

Lara Thaisa Telles

Apesar de vermos muitas vagas que exploram o profissional da área, é gratificante o nosso trabalho de encantar e seduzir através de palavras. Atuar com criação de conteúdo nos estimula a estar sempre em busca de informação, de aprimorar nosso conhecimento e facilita nossa relação dentro e fora das agências.

Simone Bispo

Se dedicar a um conteúdo original bem feito é muito mais importante do que ser uma fábrica de postagens. Entenda, como profissional, que o que funciona para uma marca não necessariamente funciona para outra e, seguir modelos populares talvez te dê números bons para por no relatório e um comentário ou outro elogiando o criador do conteúdo (quem nunca viu um ‘esse social media é foda’ nas postagens?), mas não vai te dar clientes fieis. E, por favor, entenda de comunicação.

Anna Mello

Importante reforçar que o olhar que expressei aqui se dá a partir de experiências em sua maioria com a produção de conteúdo em institucional e branding. Imagino que outros profissionais (especialmente publicitários) poderão acrescentar muitos outros exemplos e, desta forma, talvez possa valer a pena dividir no material os diversos tipos e abordagens na produção de conteúdo (institucional, mercadológico, SAC, real time, etc), assim como os formatos (áudio, vídeo, texto, imagem, etc) e canais (para blogs, para campanhas publicitárias, para branded contente etc).

Lidiane Faria

Cada marca é uma marca e cada público é um público. É muito legal admirar grandes cases de conteúdo. Mas precisamos seguir em frente e sem inveja dos profissionais que criaram esses cases. Repetir receitas de bolo é um grande erro na área de conteúdo. Não existe fórmula pronta. Entenda seu público, pesquise, analise e tenha referências. A partir daí você pode criar seu “case”. E ele não precisa ser uma nova Prefs ou uma nova Netflix. O que importa é se você impactou seu público e se refletiu nas metas da sua marca. Mais nada. O resto é ego.

Leo Morato

Infelizmente, criação ainda é uma área com pouca diversidade dentro das agências. Ao mesmo tempo, com as mudanças comportamentais dos consumidores e consequentes pressões para que as marcas sustentem discursos e ações mais adequadas para a realidade atual, existe uma crescente necessidade de repensar esse cenário. Ou seja, existe uma oportunidade enorme aí pra gente nova, um olhar mais fresco, profissionais com backgrounds e referências variadas. O que quero dizer, é que temos um baita espaço a ser ocupado por minas, mães, negros, periféricos, lgbts e todo mundo que tiver vontade de enriquecer os trabalhos, tornando não só tornando as campanhas, mas deixando o mercado de comunicação e publicidade como um todo, realmente mais representativo, impactante e poderoso. Por consequência, os ambientes serão mais equilibrados e as campanhas mais próximas de seus públicos. Acho que outro ponto para discutir é que ainda existe toda uma mística em volta das premiações e o tal glamour na área de criação. Isso pode ser extremamente sedutor e os eventos são realmente bastante divertidos. Estar entre tantos profissionais que admiramos, competir e ganhar, ser reconhecido pode ser positivo. Mas, é importante não passar a ter ideias que agradam somente ou agradam mais os jurados do que o público final, ou encarar os jobs como meras chances de ganhar prêmios e não de fato mandar mensagens que sejam importantes para o cliente. A profissão e o dia a dia não tem que girar em volta de prêmio. Temos que tomar cuidado para não esquecer o que fez a gente escolher a área da criação: a chance de contar histórias, realizar eventos significativos e memoráveis e produzir conteúdos que mexam com os outros. Mais uma consideração é sobre a necessidade de não viver apenas de referência do próprio mundo publicitário. Ter uma vida cheia de projetos paralelos, envolvimentos, interesses, hobbies e atividades fora da agência, não é só importante para a sanidade mental dos criativos que já passam tanto tempo ali e tantas vezes até virando noites, mas, também resultará que eles tenham uma visão mais abrangente de mundo, o que pode munir esses profissionais de ferramentas para gerar ideias ainda mais interessantes. A última coisa é que nós já sabemos que o mercado tem dezenas de problemas e mazelas. Mas, somos todos parte disso, eles não tem que ser vistos como algo alheio e imutável. Temos a chance e a responsabilidade de mudar as coisas que não estão legais. Então, ao conversar entre nós ou quando tivermos as chances dar feedbacks aos superiores e as pessoas que podem mudar as coisas, não devemos focar somente nos problemas, mas sim em trocar ideias e colocar sugestões no papo. Afinal, somos justamente a área que traz soluções para entraves de comunicação, que tal aplicar isso no próprio mercado?

Nathália Capistrano

FONTES DE REFERÊNCIA E INDICAÇÕES PARA ESTUDO

Filmes e documentários

– Abstract – The Art of Design (Netflix)

– Print the Legend (Netflix)

– Escada Para o Céu – A Arte de Cai Guo-Qiang (Netflix)

– Cosmos (Netflix)

– Chef’s Table (Netflix)

Participantes

Agnes Pires
De Recife, com 8 anos de experiência e formação em Artes Visuais e MBA em Marketing e Propaganda | LinkedIn | Twitter | Slideshare

Publicitária há mais de 15 anos e há 8 com expertise em digital: gestão de equipe, estratégia, planejamento e atendimento. Professora universitária desde 2010, tendo lecionado disciplinas na área de Criatividade, Branding e Marketing Digital. Já atuou como Coordenadora de Criação Digital na Agência Um, como Gestora de Mídias Digitais no Núcleo Digital da MV2 Comunicação e como Coordenadora do Núcleo Digital da DA-DPA. Desde 2009 faz parte do GogoJob, onde atua como coordenadora geral. É um projeto social sem fins lucrativos dedicado a divulgar oportunidades de vagas de emprego e estágio relacionados à indústria criativa, bem como cursos, eventos e dicas especialmente para quem está em início de carreira.

Anna Mello
Anna MelloDe João Pessoa, com 7 anos de experiência, formação em Marketing e mestranda em Cultura Digitais na UNISINOS | LinkedIn | Twitter | Blog

Carinhosamente – ou não – apelidada de Anna Sayu. Trabalha com produção de conteúdo para a web há 10 anos e é especialista em Estratégia de Conteúdo para Redes Sociais. Foi gerente de conteúdo na agência SODA Virtual, na Paraíba, tendo recentemente se mudado para o Rio Grande do Sul para fazer mestrado em Culturas Digitais na UNISINOS.

Fahen Carvalho
Fahen CarvalhoDe Porto Alegre, com 2 anos de experiência e formação em Jornalismo | LinkedIn | Twitter | Pulse

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, atua desde a formação, em 2015, com produção de conteúdo para blogues e redes sociais. Contribui com a equipe da Flua, como Gestora de Mídias Sociais, onde trabalha toda a sua expertise em produção para redes sociais de clientes de diversos segmentos e ainda trabalha com anúncios nas plataformas de relacionamento. Atua também como produtora de conteúdo no blog do Share, onde escreve sobre diversos temas, como: marketing digital, inbound marketing, redes sociais, marketing de relacionamento, entre outros. Também trabalha em uma agência de marketing digital, como produtora de conteúdo para blogues e redes sociais da Interativa Conteúdos, onde faz desde a produção, planejamento das campanhas e execução.

Lara Thaisa Telles
De Aracaju, com 2 anos de experiência e formanda em Publicidade e Propaganda | LinkedIn | Twitter

Entrei no curso de publicidade e propaganda sem nem saber direito o que um publicitário faz da vida, mas de um jeitinho bem curioso, acertei na escolha. Nessa jornada acadêmica acabei estagiando em algumas áreas: marketing em uma consultoria, redação na Trilha Propaganda e direção de arte na Bend Propaganda e na Anova Agência Digital (nessa foi só uma passadinha mesmo). Essas experiências somadas a uma dose de ousadia foram suficientes para que eu abrisse minha própria (mini) agência com um amigo, que mais tarde viria migrar para novos rumos. Foi aí que surgiu a Molotov, que acabou de completar 1 aninho, e hoje tem eu e Fernanda à frente dos negócios, fazendo de tudo um pouco e aprendendo bastante no caminho.

Leo Morato
Leo MoratoDe São Paulo, com 5 anos de experiência e formação em Publicidade e Propaganda | LinkedIn | Twitter

Formado em Jornalismo pela Universidade Mackenzie, minha carreira se encaminhou para os ofícios voltados à produção e gestão estratégica de conteúdo em plataformas de redes sociais. Atuei como redator e conteudista em campanhas políticas para vereadores e governadores, além de marcas como SporTV, Santander, Fototica, Lukscolor e SKY. Coordenei equipe de conteúdo de redes sociais durante as eleições para governador em 2014 e para o canal SporTV em acontecimentos como Copa América 2016, Eurocopa 2016, Jogos Olímpicos Rio 2016 e também o acidente aéreo com a equipe da Chapecoense.

Lidi Faria
Lidiane FariaDe São Paulo, com 7 anos de experiência, formação em Relações Públicas e pós-graduação em Jornalismo | LinkedIn | Twitter

Especialista em coordenação de projetos digitais e equipes multidisciplinares, com experiências em empresas e agências. Foi responsável pelo desenvolvimento e implementação da estratégia digital de TV Gazeta, Gazeta FM, Gazeta Esportiva e Faculdade Cásper Líbero, onde coordenou 30 profissionais multidisciplinares dedicados na produção de conteúdo para cerca de 120 canais digitais.

Maria Beatriz Barros
Maria Beatriz BarrosDo Rio de Janeiro, com 6 anos de experiência, formação em Comunicação Social e pós-graduação em Marketing Digital | LinkedIn | Twitter | Blog

Pós-graduada em Marketing Digital, trabalho com monitoramento e relacionamento em uma agência carioca. Meu foco é a comunicação integrada e performance. Pesquiso sobre Monitoramento, Inbound Marketing, Project Management, CRM, UX e Mobile. Blogueira, escrevo sobre mercado, marketing, beleza, moda e autoestima negra, em três projetos distintos.

Nathália Capistrano
Nathalia CapistranoDe São Paulo, com 10+ anos de experiência, formação em Publicidade e Propaganda/Design | LinkedIn | Blog

Atual supervisora de Criação na Artplan SP, sendo responsável pela integração de online e offline. Teve longas passagens pelas equipes de criação da W/McCann, Isobar e SalveTribal Worldwide. Formada em Publicidade e Propaganda pela Faculdade de Comunicação Cásper Líbero e em Design de Publicidade pela Escola Panamericana de Arte e Design. Atuou como designer até 2008 quando passou a trabalhar em redação e conteúdo. Começou focada em Social Media, passou por cargos de redação de digital mais completos e depois, como redatora integrada. Em 2010, seu projeto pessoal de produção e divulgação de bandas independentes nas redes sociais rendeu um prêmio de mídia e uma viagem ao Festival de Cannes. Segue apaixonada por projetos paralelos como o Trocaderia, o 5 coisas e o Ideias para Emprestar.

Simone Bispo
Simone BispoDe Recife, com 6 anos de experiência e formação em Publicidade e Propaganda | LinkedIn | Twitter | Blog

Trabalho com produção de conteúdo desde 2009, mas tudo começou apenas como uma necessidade de mostrar um projeto de extensão no ambiente digital. Desde então, venho me aprimorando na área e trabalhado com clientes de segmentos variados, o que me faz ter um conhecimento mais amplo.

Suéllem Nascimento
Suéllem NascimentoDo Rio de Janeiro, com 6 anos de experiência e formação em Publicidade e Propaganda | LinkedIn

Redatora focada em conteúdo digital com atuação em projetos de storytelling, tecnologia e entretenimento. Passou pela Match.com, onde trabalhou com SEO, web analytics, landing pages, métricas, monitoramento, blog e muito mais. Como redatora, trabalhou na InfoLink Teleinformática, Agência h1 e Kindle.

Planner Summit 2017: diversidade em pauta, por Anna Martinez

[Texto escrito por Anna Carolina Martinez, graduanda em Estudos de Mídia na UFF]

Nos dias 20 e 21 de maio aconteceu na cidade de São Paulo o Planner Summit, evento anual sobre planejamento realizado pela Media Education. A curadoria este ano ficou por conta de Gabi Terra (DM9DDB), que trouxe ao palco pesquisas, debates e palestras inspiradoras sobre um assunto bastante importante: diversidade. A proposta era mostrar como quebrar “paradigmas de dentro para fora e de fora para dentro dos clientes e das agências para ter marcas e campanhas mais verdadeiras e conectadas com o momento em que estamos vivendo”.

O evento, na verdade, acontece em dois dias: no primeiro, um workshop (que este ano contou com a própria curadora, Luiz Guimarães e Ricardo Sales); e, no segundo, as palestras. Embora não tenha participado na sexta-feira, tive a sorte de ganhar o ingresso para o segundo dia num sorteio feito pela organização do evento, e o que posso dizer é que segui o conselho que ouvi da Martha Gabriel em outro evento: “temos que aproveitar as oportunidades no momento em que elas aparecem”. Comprei a passagem de última hora (moro no RJ) e fui correndo pra São Paulo – de madrugada, sem nunca ter ido antes.

A minha proposta aqui, portanto, é compartilhar com vocês um pouco do que vi, junto a alguns tweets que rolaram durante o evento e outros conteúdos mais. Nesse sentido, já adianto que não sou a primeira: a Tuani Carvalho também fez um ótimo post sobre isso no Medium – que recomendo bastante a leitura. Aliás, foi um presente muito bom ter contato com trabalhos e profissionais incríveis. Incentivo quem quiser e puder ir a esses encontros porque faz toda a diferença poder ouvir as experiências e vivências dessas pessoas, é um aprendizado que vai muito além de um ppt bonitinho.

Nesta quinta edição do evento vários profissionais dividiram com a gente pesquisas e projetos com dados extremamente relevantes. Todos foram decididos a mostrar que é possível e necessário trabalhar a diversidade na propaganda (e na vida) de forma inteligente. E não só isso: para fazer diferença dentro e fora da agência basta querer dar o primeiro passo. Esse debate vai além de um tema “da moda”, e não aderir a essa mudança de cenário e consumidores não é só se manter num formato ultrapassado, é investir sem planejamento em um consumidor que muitas vezes sequer existe. É jogar dinheiro fora, de maneira irresponsável e perpetuando estereótipos e preconceitos.

Pude perceber que o evento se estruturou sob alguns prismas, se é que posso colocar desta forma: 1) representatividade na propaganda precisa ser mais inclusiva, “se não for por justiça que seja por inteligência” (Fala feita pelo Renato Meirelles do Instituto Locomotiva em sua apresentação sobre Diversidade na Propaganda); 2) atenção ao que é ativismo e o que é oportunismo; 3) a diversidade não pode ser da boca pra fora, tem que vir de dentro… O que está realmente sendo feito por essa mudança? Depois de muita reflexão e choques de realidade vem a cobrança de digerir tudo e o dever de começar a agir.

Por mais que o evento seja focado em publicidade foi muito rico pra mim como social media inserida num contexto de marketing digital. Somos profissionais que planejamos, criamos, lidamos com pessoas e propagamos conteúdo da mesma forma, fazemos parte do processo. Está na hora de abraçar a responsabilidade. Pois bem, respiremos por um instante. Antes de entrar nos detalhes das palestras, gostaria de agradecer novamente ao pessoal do Media Education pela oportunidade, e a Gabi Terra e Alexandre Formagio pelo evento. Não menos importante, ao Pedro por mais um convite de estar escrevendo para esse blog que tanto amo (<3). Agora sim, sigamos.

A primeira palestra foi a TODXS? – Uma análise da representatividade na publicidade brasileira com Isabel Aquino (Heads Propaganda). Em tempo, um parênteses: o uso do “x” como opção na linguagem inclusiva é bastante comum, mas ao mesmo tempo dificulta a leitura para algumas as pessoas. Fica uma dica sobre outras maneiras de usar as formas neutras. Ela apresentou a terceira onda da pesquisa feito pela Heads, uma análise feita a partir das propagandas exibidas na TV brasileira e os posts de marcas no Facebook, por uma semana – sendo repetido de seis em seis meses para poder acompanhar as possíveis mudanças. A pesquisa é bastante completa e os dados são os primeiros “tapas na cara” do dia.

E começamos com a seguinte pergunta:

Muita gente responde esse pergunta com um grande e sonoro: Não! Após a análise apresentada pela Heads ficou claro o porquê disso. A pesquisa mostra o quanto as estatísticas são alarmantes na divisão por gênero e o cenário fica muito mais crítico quando visto por raça. São analisados os personagens protagonistas, coadjuvantes, biotipos, estratégias usadas que reforçam estereótipos mas também alternativas pra mudar o cenário e por ações com empoderamento.

Só 7% dos negros são representados como protagonistas contra 83% de homens brancos, enquanto 12% de mulheres negras são protagonistas contra 84% de mulheres brancas. Os negros e outros tipos de representação só são lembrados quando é para retratar como sociedade é. E não para por ai…

Vimos estatísticas de reforço de estereótipos e o quanto mostram a presença de racismo, gordofobia, machismo, sexismo e tantos outros preconceitos ainda na publicidade. Abaixo estão algumas estratégias que são usadas que perpetuam essas desigualdades:

Já dá para perceber por que as pessoas não se veem representadas nas propagandas e quanto isso é problemático, não só pelo dinheiro que está sendo investido em uma imagem irreal mas também por perpetuar desigualdades. Para finalizar, Isabel mostra a comparação das ondas anteriores a essa. Por mais que o mercado esteja tentando se acertar com uma certa queda de conteúdos que reforçam estereótipos de gênero, ainda não houve aumento de comerciais que empoderam.

E qual a conclusão disso tudo? Temos como predominantes propagandas e posts que reforçam estereótipos e não representam a diversidade de raça e gênero da sociedade. A imagem principal utilizadas pelas marcas são homens, brancos e as mulheres seguem atrás com o mesmo perfil, pessoas negras são muito mal representadas, como protagonistas então são pouquíssimas. Isto quer dizer que temos muito trabalho pela frente. Vale ressaltar que a Heads foi a primeira agência a assinar o compromisso da ONU Mulheres para equidade de gênero. Não é pra enaltecer ninguém por tá sendo mais respeitoso mas é importante mostrar quando a proposta de mudança vai além do comercial.

A segunda palestra foi NOVOS CONSUMIDORES, NOVOS MERCADOS com Renato Meirelles (Instituto Locomotiva). Na minha humilde opinião foi uma das melhores se não a melhor palestra do dia. A pesquisa do Instituto Locomotiva apresentada por Renato foi muito feliz por vir logo após a fala de Isabel. Afinal todos nós já estávamos cientes do que estava acontecendo na propaganda, agora íamos saber que a situação é mais densa ainda.

Um trabalho de pesquisa extremamente bem feito, mostra que não só o cenário com o novo público consumidor e novos mercados estão ai e não sendo aproveitados, como mostra que as agências de publicidade precisam urgentemente rever seus conceitos, e se não for respeito e justiça social que seja por inteligência para não perder mais dinheiro. Esses são alguns dos dados apresentados:

  • 95% das pessoas não comprarão marcas ou produtos que, de alguma forma, não respeite a diversidade.
  • 79% afirmam que não aceitam calados qualquer tipo de preconceito na comunicação.
  • 85% apoiariam iniciativas de empresas que promovessem igualdade de oportunidades.
  • 67% das mulheres afirmam que as propagandas de TV mostram um padrão de beleza que é muito diferente da realidade brasileira
  • 61% concordam que as mulheres sentem-se frustradas quando não conseguem ter o corpo e a beleza das mulheres mostradas nas propagandas na TV.
  • 70% dos brasileiros afirmam que propagandas que ridicularizam homossexuais estão ultrapassadas. – Preconceito e homofobia definitivamente não são engraçados.

Mais um vez voltamos ao protagonismo negro que ainda é tratado como nicho, como apresentado anteriormente pela pesquisa da Heads.

Relembramos que são 130 Bilhões investidos em publicidade para isso:

Ainda preciso falar mais alguma coisa? Os dados já falam por si, esse modelo antigo de fazer publicidade está definitivamente ultrapassado. A mudança é questão de necessidade. Mas calma, ainda não acabamos:

Usar recorte de classes/ renda, para classificar o perfil do seu consumidor é falho.

É essa realidade que os planejadores e criadores de conteúdo se embasam? Pelo que vimos, não, né?! Agora, ousando ainda mais… Será que você está no recorte de classe que acredita fazer parte?

Esses equívocos simplesmente acontecem porque as agências estão lotadas por pessoas que fazem parte de uma “bolha social” e não pesquisam que o seu publico consumidor não é igual a si, não fazem parte do “seu quadrado” e não correspondem ao seu imaginário. As propagandas são reflexo de quem está no planejamento, criação e divulgação desses conteúdos.

Se pararmos pra pensar em todos esses dados apresentados, fica evidente que não dá mais, e nem é inteligente ignorar a maior parte da população brasileira. Para fechar, fica mais um ensinamento trazido por Renato: o que é óbvio pra você pode não ser obvio para o outro. Ainda precisa ter muita pesquisa, ouvir o outro, atentar ao ponto de vista de quem consome e não mais fazer conteúdo embasado em achismos e certezas que ficam restritas a um público.

Logo em seguida veio o primeiro painel do dia: E o que você está fazendo sobre isso? Os participantes eram Neivia Justa (Johnson & Johnson), Fernanda de Lamare (Wieden+Kennedy), Flávia Spinelli (Mcgarrybowen) e Ian Black (New Vegas) com a mediação de Gabi Terra. Como já dissemos, para a mudança acontecer, tem que começar de dentro, na sua agência, no seu trabalho, em você e no seu discurso. E esse painel tem esse intuito de mostrar o que esses líderes estão promovendo em seus ambientes de trabalho.

As estratégias são inúmeras: Neivia Justa apresentou que desde o início da empresa a Johnson & Johnsons é voltada para o empoderamento feminino, inclusive tendo o acordo com a ONU e núcleos de mulheres para discutir as necessidades; foram apresentados projetos de inclusão trans num acordo com o Jovem Aprendiz pela Flávia Spinelli (Mcgarrybowen); o Ian Black da New Vegas falou sobre a sorte de ter uma equipe mista, seu ativismo negro e que promove cursos voltados para as “minorias” – deu exemplos de cursos exclusivamente para negros e da possibilidade de abrir turmas para mãe solos; e Fernanda de Lamare (Wieden+Kennedy) também falou sobre os projetos de inclusão social na empresa.

Clique na imagem para assistir um trecho do debate

Sem dúvida o debate foi interessante, pois são ações que já estão sendo postas em prática. É o início da mudança. Agora, mudando a perspectiva: quantas pessoas negras, gays, trans, pobres, deficientes existem no seu ambiente de trabalho? Tem algo que você pode fazer para mudar essa realidade? Se sim, faça.

A última apresentação fechando o turno da manhã foi da Letícia Milião da Polis Consulting com Dados ajudando a decidir suas estratégias. A palestra basicamente reforçou que o planejamento precisa ser embasado por informações consistentes. E reforçou a importância do monitoramento não só para decidir a estratégia, como também entender cluster e oportunidades. Usemos os dados ao nosso favor, afinal, como disse a Letícia: “Se você não sabe o que esperar… Qualquer resultado é satisfatório”.

Logo depois da pausa para o almoço voltamos com mais atenção e calma no coração (sem fome) para a próxima palestra: Skol e diversidade: Como evoluir uma marca para uma postura mais democrática e contemporânea com Daniel Feitoza (AMBEV). A proposta da apresentação era mostrar o reposicionamento da marca não só adotando um novo discurso mas entendendo e aceitando seu passado para lidar com a transição e com o público. Afinal, não é porque a Skol decidiu vender diversidade que o consumidor vai esquecer das suas campanhas antigas, que na época davam um bom retorno, mas hoje – felizmente – não é mais assim.

Eu confesso que assisti e fiquei com um certo pé atrás. Por mais que ele tenha se esforçado em mostrar todo o processo com ações da marca adotando o novo posicionamento é difícil acreditar que de uma hora para a outra uma empresa extremamente machista mudaria de valores, ainda mais “partindo do presidente” como foi colocado pelo Daniel. Aliás, fiquei com essa dúvida: o presidente mudou junto com o reposicionamento da marca? Enfim, acho que só o tempo poderá nos dizer até onde é verdadeira a mudança da Skol.

Seja como for, é válido ressaltar o quanto é positivo que marcas com o alcance da Skol trabalhe o respeito e diversidade em suas ações. É uma forma de expandir a discussão, naturalizar a diversidade e ser um meio para ampliar falas de minorias que há tempos estão sendo ditas mas não tinham a devida atenção até então. Mas Daniel que me perdoe, essa história ainda não está convencendo… Gostaria de, inclusive, fazer alguns adendos nessa parte já que eu já estava fazendo alguns estudos paralelos sobre o tema.

Antes de mais nada a Skol fortalecia um estilo de vida em todas as suas campanhas e ações anteriores de caráter machista, sexista, reproduzindo o velho discurso do jovem homem que aproveita a vida zoando, bebendo cerveja e acha muito legal a objetificação de mulheres. Ok, pausa. Vocês já disseram que isso ficou no passado e acho ótimo, inclusive o trabalho de vocês para mudar essa imagem está sendo bem forte não só nas campanhas como no trabalho de social media nas fanpages, admiro isso.

“Curiosamente”, vocês decidiram se reposicionar depois de serem acusados de apologia ao estupro e serem obrigados a tirar a campanha de carnaval “Esqueci o não” das ruas. Isso foi em 2015, ano em que o feminismo e pautas associadas a igualdade de gênero estavam em seu ápice (na internet) – e isso sequer foi comentado como um dos motivos da mudança. Como uma empresa poderia ficar com uma imagem tão negativa com o seu público alvo? Ai começam os esforços… Novo slogan, nova linguagem, múltiplos eventos associados as ‘minorias’, promoção da diversidade e #RespeitoIsOn.

O que eu quero dizer com isso tudo é que acho maravilhoso o reposicionamento, mas me incomodou muito esse discurso/defesa de mudança radical como se tivesse latente na empresa e de uma hora pra outra ela veio à tona. Vocês foram pressionados, não aconteceu naturalmente, vocês não mudaram porque o seu presidente é mais humano… Pode até ser, mas isso não era levado em conta enquanto o perfil machista dava lucro.

Lucro é um bom ponto pra gente falar, já que o próprio Daniel citou que as vendas melhoraram bastante após o reposicionamento – o que é compreensível pelo cenário que já vimos anteriormente com as outras palestras. Mas é o que o Ian Black levantou na discussão do primeiro painel: como está esse reposicionamento dentro da empresa? Gostaria que ainda tivesse lá para ter participado com essa resposta.

Agora que já fiz minhas intervenções posso dizer que espero muito que a Skol continue nesse caminho, e parabenizo principalmente pelas campanhas “Reposter” e “Skolors” que foram feitas em parceria com pessoas que tem autoridade sobre o assunto. No mais, ficaremos acompanhando as novidades.

A segunda palestra da parte da tarde foi Trabalhar com o coração: viabilizando um projeto que nasceu para viver com Gustavo Rosa e Juliana Fava, ambos da Questto|NóA proposta do projeto com esse documentário é um tanto polêmica: falar com os homens sobre igualdade de gênero. Eles entraram em parceria com a ONU Mulheres e Papo de Homem para trabalharem juntos, e assim realizar e viabilizar esta pesquisa de abrangência nacional.

Na apresentação, mostraram quais os desafios e dificuldades que encontraram para que o projeto saísse do papel: os meses de pesquisa e estudo se aprofundando no tema e a busca por fontes diversas; o tema central ser o “calcanhar de Aquiles”: “de que forma pensar em falar com homens sobre igualdade de gênero sem colocá-los no lugar de vítima?”; a metodologia usada; e o percurso até encontrarem parceiros que os ajudassem.

Achei que a palestra focou mais nos “bastidores” – metodologia, processo com parceiros e resultados – do que no conteúdo do documentário. Para quem tem um primeiro contato, sem referência do que realmente se trata, isso não é tão bom. De qualquer forma, após a palestra eu assisti para entender melhor a proposta – e para poder escrever aqui com menos dúvidas.

Pois bem, quando eles disseram que queriam ouvir os homens pra falar sobre feminismo e igualdade de gênero eu quase tive um negócio na cadeira, mas conforme foram explicando fui ficando mais calma. A ideia foi utilizar as parcerias como meios para dialogar com as pessoas, isso é, o Papo de Homem conversar com os meninos sobre as pressões impostas socialmente na construção do que é “ser homem”, junto com a ONU mulheres que apoia a entrada de homens para o debate de igualdade de gênero – como com o projeto #HeforShe.

Essas experiências gravadas somadas a diversas entrevistas com profissionais convidados e pessoas pelas ruas, pesquisas quantitativas, e apresentações bastante didáticas dos múltiplos processos sociais para a construção de imaginário e identidade vão dando forma ao documentário.

Acho uma proposta interessante e válido o diálogo com os meninos. Essa abertura para falar sobre gênero não é fácil. A grande maioria segue a lógica patriarcal de como agir em sociedade e qual papel deve assumir. Muitos já tem isso tão naturalizado que reproduzem essas lógicas e comportamentos e não raramente diminuem as mulheres de inúmeras formas. Fazemos parte de um sistema machista e sexista em que muitos meninos crescem condicionados e ensinados a oprimir e reproduzir violências, e cabe a todos nós mudar isso ensinando o contrário: valores como respeito e igualdade.

Se esse documentário conseguir promover a abertura real de um diálogo pra melhorar a equidade será um ganho imenso para todos nós. Achei importante a dinâmica feita pelo pessoal do Papo de Homem nas escolas mas ao mesmo tempo me pergunto se essa metodologia não pode contribuir para um silenciamento da fala de uma mulher neste processo. Talvez seja uma forma deles se sentirem mais à vontade, mas de qualquer forma é um receio da minha parte.

É muito tênue falar sobre a necessidade de uma ‘desconstrução’ do que é ser homem sem tocar no que sofremos com esse sistema. Não reproduzir a lógica imposta pra eles não necessariamente faz com que tenham noção da gravidade de suas ações já naturalizadas e não continuem agindo com violência com as mulheres – nesse caso vai muito além da violência física. Por isso é fundamental a participação de mulheres neste processo.

Em um “mundo ideal” (ou do meu imaginário), quando o documentário já tivesse presente nas escolas, os relatos poderiam não só vir das participantes mas também de mulheres do ciclo dessas pessoas – mães, amigas, irmãs, avós…- talvez a familiaridade junto ao novo possa ser uma boa alternativa para que os meninos se sintam mais tocados e abertos a mudança.

Seja como for, espero que esse projeto abra uma brecha para torná-los cientes dos privilégios sociais que tem; ensiná-los a dar valor, importância e respeito ao lugar de fala e vivência de mulheres, e que cada vez menos reproduzam lógicas machistas. O projeto já tem tudo a seu favor vendo os resultados que alcançaram:

Agora seguiremos para o segundo painel do evento: Eu não sou igual a você. Os participantes dessa vez foram Verônica Merege e Juliana Matheus (R/GA), Rita Romão (Por Mais Turbantes Nas Ruas), Gustavo Otto (NBS) e Ana Cortat (Hybrid).

 

O objetivo desse painel era mostrar que a publicidade brasileira não reflete seu próprio povo. E isso nada mais é do que um reflexo da falta de diversidade nas equipes.

Adorei essa conversa, todos os participantes foram unânimes em dizer o quanto a realidade das agências é predominantemente fechada a diversidade, como existe a dificuldade de muitos planejadores e criadores em verem além da bolha que pertencem e quanto isso influencia no resultado final das propagandas.

E a única saída para melhorar esse cenário é trazer diversidade para ocupar esses espaços. Assim, vai chegar um momento em que o diferente vai ser naturalizado. E não é só colocar pessoas negras, gays, trans, ou qualquer “minoria” que seja só pra ocupar vaga e dizer que sua equipe é diversa ou para falar só quando o assunto for minoria, é dar espaço/oportunidade, trocar, construir junto.

Gustavo Otto compartilhou os preconceitos que passou dentro do ambiente de trabalho, e que hoje ele não se importa mais com gente que se incomoda pelo jeito como ele é e ou por como se veste. Acho ótimo que tenha conseguido chegar a esse ponto – aliás, amei sua saia prateada maravilhosa – mas quantas pessoas com trabalhos incríveis vão ter seus espaços restritos, engolir preconceitos e aprender a ignorar na marra pra que parem de pôr os achismos e preconceitos a frente?

Rita Romão também comentou a respeito, disse que é muito mais fácil você se sentir a vontade pra ser você mesmo num lugar onde existam outras pessoas com essa liberdade. Apresentou o projeto Por Mais Turbantes Nas Ruas e como ele tem um papel importante, ajudando a empoderar meninas negras, fortalecer essa identidade, além de promover um lindo símbolo de resistência.

Ela tinha uma energia contagiante, a mais falante, alegre e com ideias brilhantes – não digo que queria colocar ela num potinho de tão maravilhosa porque o mundo inteiro merece ver e ouvir essa menina. O que mais me tocou foi quando ela disse que tudo que alguém precisa é de uma oportunidade, o que mais tem por ai é gente boa demais sem espaço pra mostrar isso. Oportunidades como a que ela teve para estar ali no evento dividindo com a gente um pouco do seu trabalho e experiência – e que eu tive para poder contar isso tudo pra vocês.

As meninas Verônica Merege e Juliana Matheus – que estiveram aqui no blog na série Profissão Social Media – comentaram sobre como tentam fazer a diferença dividindo conhecimento, indicando contatos e ajudando como podem com o Jovens Planners. Eu andei vendo e parece ser bem interessante. E ela, Ana Cortat, apesar de muitos posicionamentos incríveis que reforçaram a ideia da necessidade da diversidade dentro das agências, uma das falas mais significativas para a discussão ao meu ver foi essa:

Por mais que já seja algo positivo um debate desse tipo e uma mudança visível em alguns posicionamentos de marcas e suas campanhas, o tema só vai tá sendo levado realmente a sério quando sair de um setor e virar pauta entre os CEOS. Enquanto a mentalidade não mudar de dentro pra fora, ficará difícil acreditar numa mudança real e não achar que é só mais uma galera se aproveitando do tema que está em alta.

Foi um debate muito rico e de muito aprendizado, espero que alguém disponibilize algum vídeo para poder dividir aqui.

Tá acabando, agora a penúltima palestra: Basta! As marcas precisam se posicionar! Caio Baptista da Mutato veio dividir a experiência de participar da campanha de reposicionamento da AVON e para mostrar a necessidade de um posicionamento das marcas. A publicidade contribui muito para a construção de imaginário, reforça valores e precisa ser mais responsável pelo que produz. Não dá mais para ficar se preocupando com as oposições e xingamentos.

Ele trouxe vários exemplos de campanha de reposicionamento, em uma delas, #MãeSemCulpa,  a protagonista foi a mãe dele falando sobre filhos e sexualidade, e quanta gente mandou mensagem para ela emocionado com a história e como ela agiu na situação. Outras como Máscara Big & Define apresenta: #OQueTeDefine com Karol Conka, Mc Carol e LAY , e Dona Dessa Beleza que tem a participação de influenciadoras fora do “padrão” para mostrar que beleza não é uma só, dentre outros exemplo. Como se já não tivesse lacrando o suficiente, ainda trouxe o Gustavo Bonfiglioli para falar um pouquinho como foi participar da campanha BB Cream Color Trend e a Democracia da Pele.

E pra fechar esse evento maravilhoso, André Chaves do Papel&Caneta levou a palestra O PODER DO COLETIVO PARA MUDAR O MUNDO. Ele apresenta o Papel&Caneta, uma empresa colaborativa e sem fins lucrativos, onde líderes de várias partes do mundo estavam dispostos a trabalhar juntos e buscar mudanças positivas em diversas causas.

Contou como foi sua jornada em NY, buscando ver o que estava acontecendo de novo no mercado e correndo atrás desses novos colaboradores. O primeiro projeto de sucesso, inclusive que o proporcionou indicação para Cannes, foi uma mobilização para ajudar a comunidade trans negra.

Além de citar outros projetos que já fez, André, falou um pouco sobre os líderes – todos premiados em Cannes, por sinal – e seus trabalhos para ajudar jovens. Alguns deles foram 25 Forty, sobre a diversidade na indústria; e Venice pop up park.

Não sei se é porque não sou publicitária mas fiquei muito mais interessada na parte em que ele contou sobre os projetos dessas pessoas do que quantos prêmios elas receberam. Acho que existem muitos trabalhos feitos de forma colaborativa que merecem atenção por trazerem valores e mudanças positivas, principalmente, se tiver muita gente diferente para trocar e somar aos projetos, envolvidos de fato pela causa.

Espero que tenha conseguido passar um pouco do que foi esse evento e mostrar como pode ser rico e importante participar desses encontros. Tive a honra de conhecer profissionais maravilhosos, seus trabalhos e suas experiências, além de ter contato com outras pessoas da área que tem tanto a agregar quanto os palestrantes que estavam no palco. Só tenho a agradecer, a todos. Até a próxima!