Mestrando em Cultura e Territorialidades pela Universidade Federal Fluminense, formado em Estudos de Mídia pela mesma instituição. Interessado em pesquisa digital, métodos digitais, análise de dados, cultura, sociedade e Nordeste. Pesquisador no Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados. (+)
No final do ano passado, já em dezembro, a Trespontos Brasil trouxe um presente de Natal incrível para quem trabalha com mídias sociais: uma formação online, gratuita e completa no formato MOOC (Massive Open Online Course) que passa por todas as áreas de atuação de um profissional de social media. O Lab Social Media, duas vezes apontado na pesquisa d’O profissional de inteligência de mídias sociais no mercado brasileiro (em 2015 e em 2016) como um dos cursos livres mais populares e relevantes da área, foi reformulado e reestruturado com novos professores, novo nome e um conteúdo mais atualizado que se adequa às recentes mudanças do trabalho com mídias sociais nos últimos anos. Apresento-lhes o CoLab Social Media:
Projeto ousado, objetivo, com conteúdo de ponta, feito por profissionais que lideram algumas das maiores agências de comunicação do Brasil. […] É um curso completo, feito para gerar impacto no mercado e te ajudar na estruturação da sua carreira. – Thiago Ribeiro, CEO da Trespontos Brasil
Como já mencionei, o curso é online e gratuito (!): ou seja, qualquer um pode fazer, basta ter uma conta de e-mail ativa – clique aqui para se inscrever. Após a inscrição, o aluno tem 30 dias para consumir todo o conteúdo disponível; caso não consiga finalizar a tempo, é possível comprar um acesso vitalício por um preço bem razoável. A Trespontos também oferece outros recursos premium (pelo que vi até agora, são desafios práticos e conteúdos extras em cada módulo) e um certificado de 48h ao fim do curso para quem estiver disposto a desembolsar uma graninha pelo conteúdo disponibilizado. Além disso, é possível comprar os módulos “avulsos” com o mesmo material disponível porém com um acesso ilimitado e um certificado de 4h. São 9 módulos ao total, com professoras e professores de agências nacionalmente reconhecidas:
Comportamento do Consumidor e Planejamento, com Vivian Jung (w3haus);
Real Time, com Felipe Attílio (w3haus);
Mídia Online, com Kelli Lima (Remix);
Métricas e Dataviz, com Julie Teixeira (Trip Editora);
Monitoramento, com Marcel Ayres (ComInteligência/ Engenho);
Conteúdo e Comunidades, com Nathália Capistrano (Artplan).
O legal é que a própria Trespontos envia um e-mail com “orientações” de como tirar melhor proveito do curso, que envolve fazer um pequeno resumo do que aprendeu, criar relações com outras leituras/cursos e compartilhar suas anotações com outros participantes – ou seja, o que eu já venho fazendo há mais de um ano aqui no blog! Para quem não tem nenhum espaço onde escrever sobre o que aprendeu, há também um grupo no Facebook onde os alunos são encorajados a compartilhar suas ideias, dúvidas e debater sobre o conteúdo. Como não é o meu caso, este espaço servirá como meu caderninho de anotações. Para tal, dividi o conteúdo (e, acredite, é muita coisa!) em seis partes, juntando os módulos que têm os mesmos professores – afinal, muitas vezes são informações complementares que, aliadas, só enriquecem o conhecimento. Vamos lá!
Comportamento e consumo – o valor das referências (Vivian Jung, W3Haus)
O primeiro módulo do curso é bem introdutório e parece simples, mas é muito importante para quem trabalha com comunicação digital. Trata-se de saber uma resposta conhecida aos usuários do Twitter: “O que está acontecendo?”. Em suma, refere-se a compreender onde estamos enquanto sociedade – em outras palavras, é o que dá sustância àquele adjetivo “antenado” nas vagas que se veem por aí. Jung explica que: “Conhecer as pessoas é uma vantagem competitiva em qualquer cenário/segmento”. Para isso, nós, profissionais de comunicação, precisamos ter um olhar diferenciado para com as experiências ao nosso redor – enquanto outras pessoas estão apenas as vivenciando, precisamos estar atentos ao seu movimento e o que lhes compõem. Ela indica várias fontes para se manter atualizados em diferentes campos culturais:
Parece algo bobo, mas é uma questão importante e que realmente faz sentido: quem trabalha com comunicação digital precisa, sim, ser “heavy-user” de mídias sociais. Isso não significa ficar 24h/dia com o celular na mão sem tirar o olho da tela; mas, precisa ser alguém interessado nas conversações, nos debates, nas atualidades, nas polêmicas, no cochicho, nas aglomerações, etc. Ainda assim, é impossível ser antenado em todas as frentes – a própria lista indicada, embora relativamente extensa, não esconde um público bastante específico, seletivo e exclusivo. De qualquer forma, vai do interesse de cada um, mas é importante enxergar além da sua bolha para tentar entender, por exemplo, o fenõmeno Kondzilla, que ultrapassou as barreiras de classe (graças à plataforma) e eventualmente alcança um público bem diferente do que costuma consumir seus vídeos.
Slide 29 do material “Comportamento e Consumo”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media
Os exemplos de propaganda, campanhas e tendências nos últimos anos têm demonstrado uma aproximação a causas e questões sociais emergentes na nossa sociedade – pensar nas pessoas e no meio ambiente. O último ano, por exemplo, mostrou marcas como Avon e até mesmo a problemática Skol se aproximando de influenciadores de peso na luta pelo empoderamento negro, da mulher e dos LGBTs. No entanto, é importante refletir sobre as ações enquanto prática: há, de fato, algum efeito sendo causado pelo apoio da marca, ou é ação para ganhar biscoito? Por isso achei muito interessante o case apresentado no curso, “Touch the Prickle”, da Whisper na Índia. Nesse caso não se trata nem tanto de empatia, mas de responsabilidade social – uma consciência que não pode ser deixada às marcas, mas exigida de nós, enquanto indivíduos de uma sociedade ainda extremamente racista, machista e LGBTfóbica.
Como já citei aqui no blog diversas vezes, nas palavras de Richard Rogers: “A questão não é mais saber o quando da sociedade e da cultura está online, mas sim como diagnosticar mudanças culturais e condições da sociedade através da internet”. Afinal, quando falamos de internet (mídias sociais), estamos falando de pessoas, que compõem a sociedade e transcendem a cultura – por isso “estar antenado” significa ficar de olho “no que as pessoas querem/para onde querem ir e o que isso representa”. O estudo de disciplinas das Ciências Sociais como Sociologia e Antropologia nesse cenário pode ser um grande trunfo para quem trabalha com comunicação e deseja entender melhor a sociedade e os indivíduos. O vídeo abaixo, por exemplo, apresentado no curso como tendência de comportamento emergente, pode ser assistido com outros olhos quando se tem esse tipo de repertório:
Quem já estudou, leu ou pesquisou sobre cultura do consumo – em suas diferentes vertentes (preferencialmente não conservadoras, mas críticas) de análise – compreende muito bem como a nossa relação com a mercadoria e os produtos foi construída histórica, midiática e culturalmente. Não é de hoje que o consumo pauta nossa construção identitária, e seria ingênuo pensar que nós somos culpados por isso, quando esse imaginário social foi criado e sustentado por décadas pelas próprias empresas e consequentemente pelas ações publicitárias – afinal, com tanta coisa no mercado, precisavam criar motivos lúdicos para vender. Olhar para trás nos ajuda a compreender por que a sociedade atual é como ela é, seus valores, ambições, qualidades e defeitos. Entender, por exemplo, que a categoria juventude foi criada historicamente a partir da década de 50 dentro do processo de modernidade do ocidente – recomendo este artigo – e se tornou mais do que apenas uma classe de faixa etária.
Enfim, voltando ao curso: um conteúdo bacana que foi passado é uma espécie de metodologia para a decodificação cultural a partir de um embasamento semiótico para identificar códigos culturais residuais, dominantes e emergentes. Eles podem ser úteis para compreender, através de pesquisa com entrevista em profundidade, por exemplo, como a sociedade era, como ela se vê, e qual caminho ela deve seguir. As famosas “tendências”, por exemplo, estão associadas a um comportamento emergente, ou seja, pode ser um pensamento ainda muito “radical” para a maior parte da população. Mapear esse pensamento ou comportamento é uma tarefa difícil, porque envolve várias nuances de uma cultura em movimento que vive no embate da modernidade entre romper com o antigo e ser estranho demais para se tornar o novo. Essa é uma dificuldade que nós, que trabalhamos com pesquisa e comunicação digital, precisamos estar dispostos a enfrentar para conceber metodologias responsáveis que nos permitam instrumentalizar a compreensão do público que nos interessa estudar, conhecer, compreender.
Residual: O antiquado. Pensamentos que estão há muito tempo por aí, estereótipos ultrapassados, em descompasso com a cultura atual.
Dominante: O mainstream. Constituem a maior parte do discurso da sociedade contemporânea. O que se considera “normal” no momento. Muito usados na cultura, já não despertam tanta curiosidade.
Emergente: O inovador. Novas formas de pensar na sociedade, pensamentos disruptivos com alto poder de diferenciação e vanguarda. Com mais adesão, tendem a se tornar dominantes e, mais tarde, residuais.
Slide 37 do material “Comportamento e Consumo”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media
Vale lembrar que essa “decodificação cultural” exige uma metodologia extremamente minuciosa para que não haja uma representação enviesada do assunto compreendido. No último momento do módulo, por exemplo, propõe-se uma atividade para organizar macrotendências da sua vida. Para isso, sugere-se que listemos algumas experiências recentes que temos vivenciado (o que se tem feito nos finais de semana, quais piadas fazem e não fazem mais sucesso, etc.) e, posteriormente, organizemos essa lista em assuntos similares. Para mais informações sobre essa atividade é preciso pagar por recursos premium do acesso vitalício, mas cito aqui só para ilustrar a importância da responsabilidade metodológica da pesquisa – nesse caso específico, é preciso reconhecer que são referenciais bem enviesados de um grupo social específico de pessoas.
Planejamento para Social (Vivian Jung, W3Haus)
Quem acompanha o blog sabe que planejamento é uma área que muito me apetece. Talvez por juntar pesquisa e “criação”, fui fisgado pelo trabalho de planner desde que assisti a primeira aula com a Dani Rodrigues, no curso do Quero Ser Social Media. Aliás, a quem tiver interesse, sugiro a leitura dos dois posts (parte 1 e parte 2) que fiz na época sobre o conteúdo do módulo de planejamento – servem de leitura complementar para o que vamos discutir a seguir sobre os aprendizados do CoLab para planejamento. Antes, é bom lembrar que esse trabalho não é uma ciência exata, ou seja, não há um modelo único, fixo e pronto para executar o trabalho de planner – mas há, como será possível perceber, alguns pontos em comum que ratificam certos aspectos importantes desse trabalho.
O conteúdo do módulo no curso responde à seguinte demanda: como montar um planejamento para social media? Para isso, passa primeiro pelo papel do planejador na relação entre agência e cliente; em seguida, aborda questões para o levantamento de dados (pesquisa) que levem à elaboração de uma estratégia de posicionamento de marca; ensina como construir uma missão digital, como montar sua persona, quais canais habitar e em quais momentos falar; até chegar ao momento de passagem para a criação e outras áreas, mostrando também como ajudar a acompanhar e direcionar (melhorar) os resultados pretendidos. Ou seja, o primeiro momento é definido por um trabalho de levantamento de dados para embasar o trabalho seguinte, o segundo momento usa essa pesquisa a fim de elaborar uma criação justificada e o terceiro momento é focado em otimização. Vamos por partes!
1. Cenário, tendências, manifestações e pesquisa
Essa primeira “fase” está relacionada a, basicamente, olhar ao seu redor e entender o que está acontecendo. Ou seja, precisa se informar sobre dados do mercado (penetração da categoria, share das marcas, lembrança de comunicação, imagem de marca, etc.) para entender “quais são os desafios do cliente frente aos concorrentes”. É um trabalho (muitas vezes menosprezado quando se fala em mídias sociais) básico que te ajuda simplesmente a não entrar no jogo às cegas, no escuro, achando que está inventando a roda. A partir do momento que é feita uma pesquisa simples sobre outros atores em rede, adquire-se um repertório que identifica os melhores aprendizados e agrega à produção de um conteúdo mais assertivo. Para tanto, indica-se que seja feito um trabalho de:
Identificar posicionamentos: conhecer a promessa e o propósito de cada marca (do mesmo segmento ou categoria);
Mapear territórios ocupados e livres: identificar os territórios conceituais que reforçam o posicionamento (através de quais assuntos eles ocupam territórios para posição da marca?);
Presença, alcance e engajamento: mapear presença em canais e dados quantitativos de engajamento, levantar dados qualitativos de engajamento, monitoramento de menções espontâneas (volume, sentimentos e assuntos);
Benchmarks: dominar boas práticas do segmento – e de outros com afinidade conceitual – inspirando inovações de canais, ferramentas e abordagens.
Esse cenário do mercado e de comunicação pode (e deve) ser aliado a outras análises mais macro onde a marca pode ser inserida – que são os estudos de tendências e exploração de manifestações sociais digitais, conforme sugerido pelo curso. As pesquisas de tendências (que podem ser consultadas nas fontes citadas no módulo anterior) podem ser úteis para entender novos fenômenos sócio-culturais da sociedade, estes que podem fornecer insumos criativos – ou até mais – para o desenvolvimento do posicionamento da marca. Ainda nessa direção, é importante estar antenado às manifestações em rede das mídias sociais para verificar quais oportunidades há nesse território que pode ser útil. O que está acontecendo na internet relacionado à nossa categoria/segmento/produto? É a tal da cibercultura, simplificada.
Por fim, mas não (!) menos importante, uma pesquisa mais detalhada e trabalhada pode ser uma grande vantagem estratégica – para quem tem mão de obra para tal. Essas pesquisas podem ser o grande diferencial que vai te permitir criar uma conexão sincera com seu público-alvo onde quer que você precise estar na internet. Respondendo às perguntas: Como o target se comporta em relação à categoria e à sua marca? Como se sente em relação às tendências? A solução está na pesquisa de dados que podem ser secundários (disponíveis em fontes de terceiros, como publicações e banco de dados) ou primários (coleta de dados). Confira mais sobre estes nos slides apresentados abaixo:
Entrevista
Slide 43 do material “Comportamento e Consumo”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media
Focus groups
Slide 45 do material “Comportamento e Consumo”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media
Questionários
Slide 47 do material “Comportamento e Consumo”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media
Mentions
Slide 49 do material “Comportamento e Consumo”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media
Friends
Slide 51 do material “Comportamento e Consumo”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media
2. Estratégia, missão digital, territórios, conteúdo, canais, sazonalidades e brand persona
Uma coisa que eu senti falta no curso foi o famoso exercício de análise SWOT (forças, fraquezas, oportunidades e ameaças). Tudo bem que isso está presente superficialmente na fase anterior, de análise do cenário, mas achei que precisava de uma preocupação maior com essa metodologia para fundamentar, principalmente, as estratégias e posteriores conceitos comunicacionais que serão abordados daqui em diante. Sugiro, portanto, para complementar o aprendizado, a leitura da parte 2 do meu post sobre o módulo de Planejamento do curso Mídia Social de Ponta a Ponta do QSSM: a Dani Rodrigues oferece um esquema bem rico para descobrir quais são as forças e as oportunidades que se podem encontrar para a marca – consumer, category, culture e brand insights.
“Consumidores são pessoas que estão ocupadas com algo mais importante do que sua marca. Para ouvirem o que você está vendendo, você precisará captar atenção com algo que importa pra elas. O desafio é encontrar o benefício mais emocional ligado à entrega racional do produto ou serviço (relevante + proprietário).”
Slide 33 do material “Planejamento”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media
O desafio da citação acima, retirada do material do curso, fica bem mais fácil de enfrentar quando temos bem definidos quem somos e o que entregamos (enquanto empresa, marca, etc.). A proposta sugerida é criar uma missão digital, uma espécie de discurso/conceito que comece com um verbo e sirva de referência para os esforços comunicacionais da marca no ambiente digital. A ideia é se debruçar sob um caráter mais inspirador (poetizado) para, a partir de todo o repertório adquirido na primeira fase de pesquisa, elaborar quase que um manifesto para entregar aos criativos – que são os responsáveis por crias as peças (imagens, vídeos, etc.) para a marca nas mídias sociais. Uma dúvida que eu tive é se essa missão é externa ou interna, pois os exemplos dados não deixam muito claro de quais marcas se tratam.
Outra etapa importante do planejamento é mapear quais territórios de assuntos serão preferidos para a marca entrar na conversa. Estes devem seguir a composição de: interesses do target no digital (exemplo: receitas, blogs, decoração) + comportamento do target na vida (bem estar, cultura, tecnologia) + pesquisas e tendências + benefícios emocionais do produto (sabor, conforto caseiro, introspecção) + conexão com a missão digital. A junção de todos esses fatores garante a elaboração de um campo de conteúdo amplo porém bem direcionado (assuntos relevantes para o target e para a marca) que auxilia, por exemplo, na criação dos chamados editoriais de mídias sociais – que são os assuntos/temáticas/abordagens que as marcas acionam na criação de peças para o digital.
Essa parte do curso é bem interessante para quem trabalha direto com criação! São apresentados algumas possibilidades de abordagens para pautar a criação do conteúdo voltado para as mídias sociais. A sugestão é que nunca se crie uma peça que fale somente do produto ou somente do conceito, mas que seja dado ênfase a determinado aspecto enquanto outros estão menos identificáveis. Confira abaixo quais são essas possibilidades de “formato”:
PRODUTO
Contexto: inserção do produto em momentos da vida do consumidor (exemplo: momentos de leitura e relaxamento em casa);
Uso prático: foco na aplicação ou consumo do produto (exemplo: receitas com o produto e sugestões de acompanhamento);
Diferenciais: destaque dos diferenciais funcionais (exempo: preparo dos produtos da marca para reforçar a imagem de artesania).
CONCEITO
Inspiração: conteúdo inspiracional e aspiracional (exemplo: quotes para momentos de reflexão, o que também está relacionado a um momento aspiracional de consumo);
Identificação: identificação com sentimentos, situações cotidianas, características do target (exemplo: situação de cumplicidade entre irmãos).
Talvez anterior à definição dessa abordagem de conteúdo, seja importante definir em quais canais a marca terá presença digital. Já é sabido a esta altura do campeonato que não é necessário estar presente em todas as mídias sociais para fazer um bom trabalho nesse ambiente. Como sugere o curso, o importante é conhecer o tamanho do seu target na internet e onde estão situados em cada canal – o Twitter ou o Pinterest podem ser mídias estrategicamente mais coerentes para um determinado público do que o grandioso Facebook, por exemplo. Isso não quer dizer que as empresas precisam escolher apenas uma ou duas mídias para atuar, mas ter bem definido quais são os canais perenes, pontuais e influenciadores – nomenclatura que eu desconhecia, mas achei bem interessante. Abaixo, um maior detalhamento desse conteúdo:
Slide 55 do material “Planejamento”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media
É importante também ter mapeado para esses canais quais são seus fluxos (o que leva para onde?), sua contribuição para a missão digital e a quais objetivos eles atendem (que tipo de resultado se espera de cada um). Ainda nesse cenário é preciso pontuar a sazonalidade da conversação da marca (quando falar?), ou seja, definir quais momentos do ano são importantes tanto para o serviço/negócio quanto para o conceito de comunicação – onde será possível transmitir os valores da marca. Uma estratégia comum é manter uma continuidade de conteúdo nos canais durante todo o tempo com algumas ativações esporádicas (dentro de um contexto que faz sentido, como, por exemplo, feriados de Sol para uma marca de bronzeador) para criar uma curva de engajamento bem estruturada.
Por fim, mas não menos importante, é preciso criar sua brand persona. Existe muito conteúdo na web sobre como fazer isso, e é provável que todos eles estejam corretos. Em suma, trata-se de responder a perguntas como: que tipo de conteúdo essa pessoa (marca) publicaria? como se relacionaria com os amigos? que tipo de linguagem ela usa? quais são suas características? Recomendo, para início de conversa, esse texto, esse outro texto, e esse guia. Um exercício interessante para entender melhor sobre a construção de persona é analisar as páginas de produtos da Coca-Cola: como fala a Sprite? E a Fanta? O conteúdo que a Schweppes aborda é o mesmo da Kuat? Os sucos Del Valle passam a mesma mensagem dos chás Leão Fuze (já que, a priori, o público poderia ser semelhante)? Todos esses aspectos semânticos e visuais ajudam a definir as características de cada marca.
Slide 63 do material “Planejamento”, disponibilizado pela Trespontos para os alunos do curso CoLab Social Media
3. Avaliação e controle
O trabalho de planejamento não acaba quando termina. Para passar a bola para a criação, que é quem vai desenvolver os materiais que serão publicados nas mídias sociais, é preciso muita conversa, diálogo e sinergia que garanta uma troca de motivações e conceitos constante. Como a área de planejamento é quem mais estudou e esteve imerso no trabalho de elaborar todo esse universo comunicacional, o desenvolvimento criativo precisa vir acompanhado de touchpoints de calibragem que permitam que as duas áreas construam juntas e possuam uma troca constante de referências. Essa integração, na verdade, acontece com praticamente todos os setores de uma agência, já que, como dito lá no começo, é a área de planejamento que faz a integração entre cliente, consumidor e agência.
A avaliação do trabalho, por exemplo, integra o planejamento com outros setores como métricas, monitoramento, mídia e possivelmente business intelligence. É importante ressaltar que os famosos KPIs (Indicadores-Chave de Performance, em português) são definidos ainda no momento do planejamento – recomendo a leitura desse texto do blog da DP6 para maior compreensão sobre o assunto. É o planner quem, obviamente acompanhado dos profissionais de mídia e métricas, estabelece(m) quais serão os indicadores importantes e as metas que se desejam alcançar (seja em questão de share of voice, vendas, investimento, etc.). A partir do momento que o planejamento está em execução, o curso recomenda: rondas periódicas pelos canais, leitura dos comentários, observação a reação dos concorrentes e troca de percepções com as demais áreas.
Os relatórios finais de campanhas ou ações pontuais também têm peso de importância para os planejadores, afinal, foram eles que indicaram o caminho para que se desenvolvessem os aspectos comunicacionais da marca. Nesse momento é importante atentar-se aos KPIs, metas e big numbers para avaliar quais mudanças de rotas são possíveis para atingir o que não foi possível. Precisa ser um conteúdo claro e objetivo, que exponha medidas práticas para explicar o que aconteceu (se errou ou se acertou) e por que aconteceu dessa forma (por que errou ou por que acertou), explicando o que será feito para solucionar quaisquer problemas.
A última parte do módulo propõe mais um desafio para os assinantes do acesso vitalício: utilizar o guia apresentado para fazer o trabalho de planejamento para uma marca sua ou alguma do seu interesse. Ainda não tive tempo de fazer esse exercício (que acho importante) para colocar em prática tudo que aprendi, mas criei uma planilha no Google Drive com cada um dos campos desenvolvidos aqui, desde pesquisa (e tendências) até a definição das métricas de avaliação. Talvez seja útil para outras pessoas, então estou disponibilizando aqui embaixo para quem tiver interesse (basta clicar na imagem para ter acesso e fazer o download):
Clique na imagem para acessar!
E você? Também fez o curso? Está fazendo? Manda uma mensagem aqui nos comentários, no contato ou no Twitter para trocarmos figurinha sobre o conteúdo! 🙂
A sexta edição da pesquisa “O profissional de inteligência de mídias sociais no Brasil” me trouxe uma ótima notícia: o insightee – blog que criei a partir do Estudando Social Media – apareceu no top 10 das respostas dos blogs e/ou portais que servem de referência na área. Uma honra que recebi com muita humildade, mas também com muita responsabilidade – afinal, o que eu, com 1 ano de experiência, tenho a oferecer aos profissionais do mercado?
Quando criei o Estudando Social Media em 2015, a minha intenção era fazer uma curadoria dos conteúdos disponíveis na internet que servissem de material educativo para profissionais da área e criar uma espécie de “caderno virtual” que mostrasse às empresas que eu não tinha experiência (para conseguir estágio), mas tinha interesse e principalmente dedicação ao assunto. Os primeiros posts eram espécies de “resenhas” de materiais que o Scup (à época, com o ótimo – e hoje falecido – blog Ideas) compartilhava a partir da criação de profissionais que já trabalhavam no mercado, como Gabriel Ishida, Mariana Oliveira, Cinara Moura, etc. Esse era o processo: eu lia, marcava os destaques (estudava) e depois compartilhava os aprendizados no blog.
E talvez essa tenha sido a minha maior contribuição como referência na área. Não produzi, mas compartilhei conhecimento. Colaborei para que o conteúdo rodasse, fosse redistribuido, consumido de forma consciente, sem compartilhar por compartilhar ou ler por ler – mas absorvendo o máximo do aprendizado que o material poderia oferecer. Embora a área de mídias sociais seja ainda muito nova, o meu pensamento desde então (que prevalece até hoje) é que não é inteligente tentar inventar a roda todos os dias no digital. Se podemos aprender uns com os outros e ajudar o mercado a evoluir, esse deve ser o caminho responsável a se fazer.
Retomando a pesquisa citada no começo do texto, 83% dos 368 participantes responderam que o local onde mais aprenderam sobre o trabalho foi na própria rotina do dia a dia (resultado semelhante a 2015, 84% de 296). Embora eu concorde que o aprendizado empírico é riquíssimo, ainda considero esses números bem elevados para o que poderíamos construir enquanto comunidade e ajudar na evolução do mercado. Nesse sentido, o crescente interesse por cursos livres (na pesquisa, de 2015 para 2016 houve um aumento de 47% para 58% dentre profissionais que fizeram algum curso livre) mostra que os profissionais estão, sim, preocupados em se capacitar, aprender novas (boas) práticas, trocar aprendizados e melhorar suas atuações profissionais.
Para quem não tem a oportunidade de fazer cursos (seja por motivos financeiros ou geográficos), resta o aprendizado online. Os “materiais online”, que correspondem a 51% da fonte de aprendizado dos respondentes, são com certeza ótimos métodos alternativos de aprendizado para quem trabalha na área. O grande problema é que com a popularidade do chamado inbound marketing e marketing de conteúdo nos últimos anos, fica cada vez mais difícil fazer uma filtragem qualificada do que é, de fato, um material educativo e instrutivo para o trabalho em mídias sociais e o que é apenas um PDF com mais imagens do que texto que não está preocupado em ensinar, mas a vender uma ferramenta, uma empresa, uma plataforma, etc.
O grande indicador que me fez enxergar o material do Scup como fonte de aprendizado qualificada foi a autoria ser concedida a profissionais que já trabalhavam com monitoramento. Na grande maioria das vezes, quando o conteúdo de “ensino” é publicado sem uma autoria profissional, mas da empresa, trata-se de um material feito apenas para gerar leads, vender, melhorar SEO. Estampar o carimbo do nome de um profissional experiente tende a indicar um trabalho mais cuidadoso e responsável, afinal, nenhum profissional respeitável que se preze deseja associar seu nome a um conteúdo meia-boca. Ou seja, o conhecimento (na internet), quando quer ser compartilhado e atribuído qualidade, vem num tom mais pessoal do que corporativo. Portanto, por que não blogs?
A última frase deste slide da quarta edição da pesquisa mostra um cenário que ainda não mudou, com grandes portais sobre comunicação, internet e publicidade em geral continuando como fontes de referência na área. E para não continuar apenas com a pesquisa em questão, trago também uma conclusão do resultado da 1ª edição da pesquisa “O raio-X dos profissionais de mídias sociais no Brasil“, realizada pela trampos em parceria com a Alma Beta. Ao elaborar a seção da pesquisa em que referências deveriam ser indicadas pelos respondentes e visto a escassez das respostas, fizeram o seguinte alerta (que permaneceu na 2ª edição, mesmo mudando o caráter das perguntas):
“A realidade é que um a cada dois profissionais de Mídias Sociais do país está trabalhando no escuro, sem grandes referências do que pode fazer ou até onde pode chegar. Há uma parte positiva, que poderia supor a chegada de ideias novas com gente nova. Mas a falta de referências acarreta também em repetição de erros. […] Do lado do profissional, também é imprescindível se interessar mais pela curta, mas existente história sobre o mercado de Mídias Sociais brasileiro e internacional. Buscar cases e melhores práticas contribui com um trabalho mais assertivo, o que torna a área mais respeitada e acaba contribuindo até nas questões salariais tão reclamadas nesta pesquisa.”
Retorno à pergunta: por que não blogs? Sim, é bem verdade que a explosão de blogs tenha acontecido nos últimos anos como nunca mais tínhamos visto desde os primórdios de sua proliferação na década da passada. No entanto, como já mencionei anteriormente, são blogs majoritariamente corporativos, interessados em conseguir cliques, leads, e-mails, etc. Embora alguns ainda (mesmo com esse propósito) oferecem um conteúdo de qualidade (como é o caso do Simply Measured, que eu sempre elogio; e do próprio IBPAD, se me permitem), a grande maioria se tornou um canal de conteúdo genérico, repetitivo e cansativo sobre marketing digital e mídias sociais. Quem, portanto, irá nos salvar?: nós mesmos.
Por que criar um blog: profissional de 2/3 anos de mercado
Você, assim como eu, não possui uma bagagem muito grande e repertório suficiente para produzir conhecimento para a área. No entanto, você pode – e foi por nós que eu mudei o título do texto! – compartilhar conhecimento. A primeira impressão que tive quando criei meu blog foi que havia muito material disponível para estudar, era só procurar – ou seja, a nós, cabe a curadoria. Com o tempo, os aprendizados adquiridos tanto na rotina quanto nos estudos se entrelaçam e podem virar fontes de conteúdo inédito e ainda mais enriquecedor. Esse é o caminho mais seguro para quem deseja entrar no mercado: produzir conteúdo online, como já ensinaram aqui e aqui.
Por que criar um blog: profissional de 3 a 6 anos de mercado
Você já tem bastante conteúdo e bagagem para produzir conhecimento para a internet, mas provavelmente não tem tanto tempo assim para fazer isso. Tudo bem, eu entendo que as demandas e as pressões estão cada vez piores. No entanto, este tipo de trabalho pode dar mais visibilidade ao seu repertório profissional. Na pesquisa do profissional de inteligência de mídias sociais, nos três últimos anos, pelo menos 8 dos 10 profissionais têm algum material online produzido e compartilhado – seja blog, Slideshare, etc. Isso pode abrir portas para que instituições de ensino (de cursos livre ou pós/especialização) te convidem para dar aula e para que departamentos de RH te enxerguem com mais cautela.
Por que criar um blog: profissional com mais de 6 anos de mercado
Você já viu e viveu muita coisa, mais do que seu analista pleno descrito acima. Enquanto a visão dele possa ser mais operacional, seu posicionamento pode enriquecer o debate se trouxer um conteúdo estratégico que ajude o mercado a argumentar com áreas financeiras, gerenciais, etc. Além disso, tanto a sua produção de conteúdo quanto a do seu analista ajuda para que vocês encontrem, na próxima vaga aberta na empresa, profissionais (e estagiários) mais capacitados, que já conhecem um pouco do desenvolvimento do trabalho graças à sua colaboração gratuita. Ou seja, todo mundo sai ganhando: ele porque pôde aprender mais antes de praticar e você porque vai ter um profissional responsável já ciente de suas atribuições e responsabilidades.
Enfim
Todos nós desejamos que o mercado evolua. Para evoluir, precisamos construir uma rede que vá além de “tira-dúvidas” em grupos de discussão no Facebook e construa um diálogo aberto, transparente e responsável para o trabalho que desenvolve em mídias sociais. Isso não significa produzir em ritmo industrial tais quais os blogs corporativos de ferramentas e plataformas com textos pobres sobre mais do mesmo, mas tentar desenvolver uma responsabilidade pessoal de ajudar para melhorar. Peço desculpas pela brincadeira com as palavras, mas é inacreditável que de “social” só tenhamos a função/o cargo. Quando produzimos conhecimento e discutimos melhores práticas, estamos ajudando todo mundo. É bom para mim, é bom para você, é bom para todos.
Para 2017, já tenho em vista vários “projetos” que desejo desenvolver para o blog no sentido do texto proposto. Tendo começado ainda este ano, com a produção coletiva do post Profissão Social Media: áreas de atuação e fontes para estudo, pretendo continuar convidando profissionais para escrever sobre o trabalho, compartilhar aprendizados e construir uma fonte digna da referência na pesquisa. Caso você não esteja disposto a se comprometer à criação de um blog, esse talvez seja um bom caminho: seja o convidado no post de um colega. O conteúdo ainda flui e a conversa só enriquece.
Hoje abri o Facebook e me deparei com a divulgação de uma vaga de “Estágio em Mídias Sociais”. Na descrição, a pessoa explicava que as principais funções seriam criar artes (peças publicitárias) e fazer a edição de vídeos – dois pré-requisitos essenciais para o trabalho. Reli o título para confirmar: o anúncio era de “Estágio em Mídias Sociais”.
Esse não é um fenômeno recente e também não é a primeira vez que eu vejo algo do tipo – na verdade, é tão comum que chega a ser considerado normal. É o reflexo da democratização das ferramentas e plataformas de criação e comunicação com o advento da internet e a popularização das mídias sociais. Ou seja, o que era para ser bom foi reapropriado pelas empresas que conseguiram achar uma maneira de terceirizar e desvalorizar os esforços de comunicação digital.
Para fazer uma comparação absurda, porém analogicamente razoável: imagine que você, aprendiz de cozinha, está à procura de um emprego. Na busca, encontra uma vaga que pede que suas principais atribuições sejam produzir diferentes tipos de salgados e doces para uma marca (não pode reclamar, eles te darão todos os ingredientes e ambiente necessário para isso). No fim, sua comida não servirá de alimento para ninguém, mas serão tiradas fotos dos pratos para publicar no Facebook. Logo, achou-se apropriado anunciar a vaga como “Estágio em Mídias Sociais”.
Na minha perspectiva, isso revela pelo menos duas coisas (que são bem relacionadas): 1) certa “cegueira” de profissionais dispostos e entusiasmados em trabalhar com/em Social Media; 2) um aproveitamento desonesto das empresas que tentam colocar um véu de Social Media nas funções exercidas para justificar trabalhos extremamente dedicados e salários pífios. De certa forma, ambas fazem parte do fenômeno de um mundo corporativo – e social, diga-se de passagem – que ainda não entendeu (ou não quer entender) o trabalho em mídias sociais (mesmo 10 anos depois).
Aliado a esses fatos ainda há um mercado jovem, pulsante e desafiador que não se responsabiliza em elucidar – ou pelo menos definir e impor limitações responsáveis a – o(s) escopo(s) de trabalho em/com Social Media. Isso não significa excluir do vocabulário ou abolir o uso do termo/da definição “Social Media” (ou “Xoxo Media”, o que desvaloriza ainda mais o trabalho), até porque, como eu disse antes, a democratização dos meios de comunicação/produção foi ótimo para muita gente, mas agir com mais responsabilidade (e até rispidez) quando for falar do trabalho.
Às empresas, cabe parar de desvalorizar e menosprezar o trabalho em mídias sociais. Ao mercado (profissionais), cabe um discurso mais rígido e responsável quanto às funções do trabalho. E ao trabalhador/freelancer/Social Media/Analista de Mídias Sociais, cabe compreender todo o ecossistema de trabalho para se munir de ferramentas (capacitadoras e discursivas) que fortaleçam o seu desenvolvimento profissional.
Aconteceu em São Paulo nos dias 25 e 26 de novembro o Social Analytics Summit 2016, realizado pela Media Education. Com a curadoria de Gabriel Ishida e Vinícius Ghise, a quinta edição do evento reuniu centenas de profissionais dos mais diferentes cargos e funções de trabalho em dois dias recheados de palestras interdisciplinares sobre como trabalhar de forma inteligente com dados na/da internet. Este ano, pela primeira vez, tive a oportunidade de estar presente na Faculdade Cásper Líbero para acompanhar tanto o workshop, na sexta-feira, quanto o evento, no sábado.
No entanto, como reitero desde o início do blog, embora os cursos e eventos aconteçam na rua (geralmente em São Paulo), muito do que se produz ali também chega de alguma forma à internet. Portanto, para ajudar aqueles que por quaisquer motivos não puderam (ou não quiseram) presenciar o SAS 2016, relato aqui o que rolou no evento de acordo com o Twitter. Para ajudar a estruturar a narrativa, conto também com o perfil da Media Education no Slideshare – que merece todos os elogios por sempre disponibilizarem os materiais de seus diversos eventos gratuitamente para quem tiver interesse em aprender. Antes, um adendo: infelizmente eles só divulgarão as apresentações daqui a alguns dias, ou seja, por ora, teremos apenas o Twitter para nos guiar.
Na sexta-feira, 25, aconteceu o workshop com palestras de Eduardo Faria (Pesquisas com dados digitais), Vinícius Ghise (Transformando dados em planejamento), Gustavo Pereira (Planejamento e resultados de mídia) e Beatriz Blanco (Data visualization). Como o público era bem menor e o caráter das palestras mais “educativo”, infelizmente não tivemos produção de tweets suficientes para contar como foi o dia. Ou seja, atualizo o post assim que as apresentações no Slideshare forem disponibilizadas para acrescentar mais conteúdo e contar o que rolou no workshop. Partimos, portanto, para sábado, dia do evento, com palestras sobre influenciadores, dashboards, big data, pesquisa, gestão de crise e estratégia.
A primeira palestra, “Dashboards e inteligência em tempo real”, foi comandada por Ingrid Pino com algumas intervenções de Leonardo Naressi, ambos da dp6. Ela falou sobre o assunto em três aspectos: 1) a diferença entre medir em tempo real e agir em tempo real; 2) quais dados entregar em um dashboard para inteligência em real-time; 2) como comunicar os dados para melhorar as ações. Ou seja, quando falamos de “real-time“, precisamos tratar de três pilares básicos: para que medir (objetivos práticos), o que medir (método) e como apresentar (data viz). Ou seja, é preciso que tudo esteja muito bem alinhado e estruturado porque é tudo muito rápido. Nas palavras dos próprios: “Planeje o que vai medir, prepare-se para agir e esteja aberto para improvisar”.
Poder de decisão é fundamental em ações d real time. Basta um pouco de burocracia do cliente e você perde a oportunidade #AnalyticsNaCasper
Embora a expressão “marketing real-time” tenha se popularizado pela adoção de uma estratégia de guerrilha de grandes empresas, como Coca-Cola, eles mostraram que essa prática não é tão “ostentiva” assim. Tendo um guia de conduta bem planejado e responsável, algumas ferramentas de criação de dashboards possuem uma taxa razoavelmente barata para implementar o necessário desse tipo de atuação, que pode ser útil para empresas de médio porte que estão bem imersas no universo digital (como e-commerces, por exemplo) – e não apenas para gestão de crises, mas também para criação de oportunidades. Felizmente o Slideshare já está disponível para quem tiver interesse:
Em seguida, foi a vez de Maira Berutti (MC15), Gabriel Ishida (Atlas Media Lab) e Leandro Bravo (Celebrity’s) assumirem o palco para um debate riquíssimo e muito importante: influenciadores trazem resultado? Berutti trouxe sua visão enquanto pesquisadora, Ishida pôde contribuir através da experiência com grandes marcas e estudos recentes sobre o assunto, e Bravo colaborou com uma visão de quem faz casting de produtores de conteúdo. Dividi algumas questões que foram abordadas em tópicos:
Como justificar o investimento em influenciadores?
Essa é uma questão que acho importante fazer um recorte. Na minha percepção, grandes empresas já compreenderam a importância (e contribuição) de se trabalhar com influenciadores digitais – o que deve ter sido relativamente fácil, já que a publicidade historicamente usa de celebridades há décadas para promover uma marca ou um produto. Ou seja, já não se precisa mais argumentar tanto assim com marcas como Coca-Cola, Skol, McDonald’s, Vivo, etc. quanto ao uso de influenciadores, principalmente quando o público que querem atingir é mais jovem. Entretanto, quando se trata de marcas menores ou de pequenas e médias empresas, a pergunta fica mais apropriada.
Essa cobrança toda por performance é herança de vender digital como “Métricas fantásticas e onde habitam” #AnalyticsNaCasper
E aí a questão fica mais adequada: como justificar o investimento em influenciadores para marcas menores, pequenas e médias empresas? A resposta parece simples, mas a execução é bem mais desafiadora: educando o cliente. Acredito que uma falha seja a decisão de trabalhar com influenciadores antes de ter definido qual é o objetivo estratégico de comunicação da marca/empresa. O influenciador precisa vir como “ferramenta” ou “plataforma” para endossar a mensagem que se quer passar – e, neste caso, vale citar McLuhan para argumentar que o meio também é mensagem. Tendo os objetivos em mente, é possível argumentar com os clientes como e por qual motivo aquele influenciador pode ser um recurso para aquele esforço comunicacional: para ajudar na argumentação, vale embasar a fala na pesquisa da Traackr que listou os “tipos” de influenciadores.
“É preciso ter claro o objetivo da ação p escolha do influenciador.” É venda, relacionamento ou gerar credibilidade? #analyticsnacasper
Ao mesmo tempo em que o objetivo é definido e pensa-se num influenciador para uma ação ou uma campanha, é importante discutir também quais são os valores acionados por aquela pessoa e como esses aspectos simbólicos podem beneficiar ou destratar a imagem da empresa. Para selecionar com inteligência e responsabilidade o influenciador (seja ele youtuber, ex-viner, famoso do Snapchat ou Instagram, blogueiro, ou simplesmente um fã influente na sua comunidade de consumidores), é preciso analisar tanto os números (o que em termos de mensuração a pessoa pode entregar) quanto o histórico, valores simbólicos/culturais do indivíduo. Talvez o termo mais apropriado para discutir sobre a escolha de influenciadores não seja influência, mas relevância – e isso é sempre relativo, depende de referenciais distintos.
Se o tempo permitisse, o debate sobre influenciadores com certeza durariam alguns dias. Para quem tiver mais interesse no assunto, recomendo o capítulo escrito por Gabriel Ishida para o novo livro do IBPAD, “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações”, onde ele compilou descobertas de estudos que têm feito sobre a significância de influência e relevância nas mídias sociais. Para uma perspectiva mais acadêmica, conheci recentemente o trabalho de Crystal Abidin, que estuda sobre influenciadores, blogueiras e webcelebridades no Oeste da Ásia. Considero um assunto de tremenda importância e que precisa ser debatido com mais seriedade e responsabilidade, indo além das falácias e celebrações mercadológicas que vemos por aí.
A penúltima palestra da manhã, “Dados para quê mesmo?”, foi ministrada por Willian Zanette, da F/Nazca Saatchi. Ele falou sobre o uso de dados para embasar decisões estratégicas e gerar resultados valiosos. Sua fala foi bastante inspiradora para aqueles que trabalham com métricas e indicadores digitais em geral, argumentando que os profissionais data-driven já não são mais trunfos para as empresas, mas essenciais ao mercado. Por outro lado, ele também fez colocações importantes sobre a “generalização apressada” de dados como verdades absolutas, o que serve para refletir as limitações que o digital também apresenta. Em resumo, uma frase da apresentação que explica bem sua fala: “Pensamento integrado com inteligência de dados orientado para resultados”.
“Erros com dados são menos ruins do que erros sem dado algum”. Pelo fim do achismo, pelo amor do Pai! 🙏🏼 #analyticsnacasper
A palestra da Polis Consulting, patrocinadora do evento, “Identificação de influenciadores: como os dados podem te ajudar?” fechou o turno da manhã. Eles mostraram alguns dos trabalhos que têm desenvolvido na pesquisa e monitoramento de mídias sociais. apresentando também algumas aplicações para o famoso Facebook Topic Data. Um adendo cômico: como o horário do almoço estava próximo, a produção de tweets caiu bastante – mas, mesmo sendo breve, a apresentação foi bem interessante, principalmente no quesito de visualização de dados. Espero que disponibilizem em breve o Slideshare (e atualizo aqui quando isso acontecer).
A @opsocialBR tá de parabéns por botar no ar. Mas o FB limita demais os dados, o mercado precisa evoluir pra usar bem #analyticsnacasper
Retornando do almoço, tivemos o resultado da pesquisa “O profissional de inteligência de mídias sociais no Brasil” apresentada por Ana Claudia Zandavalle, que visa gerar informação estratégica para o mercado. Em sua sexta edição, a pesquisa, que já foi comandada por Tarcício Silva e Júnior Siri, teve seu número mais alto de respondentes (386), com representantes de 24 dos 26 estados brasileiros. Os resultados apresentam informações sobre demografia, formação e estudos, ferramentas e conhecimento na área, campo de trabalho, fontes de informação e referências. Para quem tiver interesse, vale também dar uma olhada no capítulo homônimo do novo livro do IBPAD, que conta com descrições mais detalhadas sobre a pesquisa e seus dados evolutivos.
Se falarem pra vocês que “academia” não serve, chequem essa pesquisa. Mestres e doutores ganham muito mais #analyticsnacasper
Pretendo me aprofundar mais na pesquisa quando fizer um post (ainda este ano) sobre produzir conteúdo para a internet. Preciso, entretanto, utilizar este breve espaço para agradecer a você – leitor – que, ao responder a pesquisa, recomendou este blog como um dos principais blogs/portais de referência. Com pouco mais de 1 ano de blog, já colhi frutos extraordinários de aprendizados (para quem não sabe, consegui meu atual estágio graças ao blog) e de vivências que a vida me proporcionou ao conhecer pessoas e profissionais incríveis em quem me espelho fielmente para traçar minha jornada profissional. Aos interessados, a boa notícia é que o Slideshare da pesquisa já está disponível tanto no perfil do Media Education quanto no perfil da Ana Claudia, que você confere logo abaixo:
Em seguida, foi a vez de Fabiane Nardon, da Tail Target, para falar sobre “O verdadeiro big data: possibilidades e desafios”. Esta foi sem dúvida uma das melhores – se não, a melhor – palestras de todo o Social Analytics Summit 2016. Além do conteúdo ter sido extraordinário (crédito para Fabiane), foi uma apresentação muito importante para o mercado no momento em que “big data” já foi (des)conceitualizado de várias formas. Ela apresentou como tem sido feito o trabalho com big data no Brasil e no exterior, apresentando possibilidades de atuação para o mercado digital e para onde o futuro aponta. Vale mencionar também seu alerta sobre o uso automatizado irresponsável dos dados, que reproduzem os preconceitos dos próprios indivíduos (no caso, aqueles que programam as máquinas).
Outra pesquisa incrível foi a “Dados para pesquisas sociais”, de Débora Zanini (Ovilgy). Mais do que uma palestra, foi uma verdadeiro aulão: ela quis mostrar ao público que é possível fazer pesquisas de âmbito sociais, políticas e culturais nas mídias sociais (desde que fique ciente suas proporções e limitações), ou, nas palavras de Richard Rogers: “A questão não é mais saber o quando da sociedade e da cultura está online, mas sim como diagnosticar mudanças culturais e condições da sociedade através da internet”. Para quem tiver interesse, escrevi um pouco sobre isso no curso que fiz no IBPAD sobre Etnografia para Mídias Sociais e na resenha que publiquei sobre o livro “Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos” – especialmente no capítulo de Christine Hine, citada na apresentação (sobre os 3 “e”s da internet).
Pensando aqui que “interdisciplinaridade” pode ser o caminho para aprender a interpretar dados de forma relevante. #AnalyticsNaCasper
Ela apresentou resumidamente um pouco da metodologia para realizar pesquisa sócio-político-cultural nas mídias sociais, tendo em visto as plataformas, os contextos sociais e os usuários e suas reapropriações. Também indicou diversas ferramentas acadêmicas para essa finalidade, como a Netvizz e a Netlytic. Destaco também o exemplo que trouxe para o evento, o relatório “The iconic image on social media”, realizado pelo grupo de pesquisa Visual Social Media Lab sobre a imagem do menino sírio que mudou o debate sobre imigração. Foi talvez a palestra mais rica em conteúdo, com assunto que poderia se desdobrar em muito mais conhecimento. Para nossa sorte, isso já aconteceu: recomendo o capítulo de sua autoria para o livro do IBPAD e o curso (que já fiz!) “Etnografia para mídias sociais”, que em breve terá sua modalidade online.
Gestão de risco é tudo o que acontece antes da merda efetivamente acontecer #analyticsnacasper
Por fim, como os tweets acima indicam, a última palestra foi sobre “Um novo patamar na gestão de crise”, por Willian Rocha. Ele apresentou um framework bem interessante para a utilização de práticas de monitoramento e métricas na gestão de crise (e de risco). Foi uma apresentação bem rápida, principalmente devido ao tempo curto que lhe restara, mas o conteúdo foi bem útil para aqueles que trabalham com Community Management e SAC 2.0/Relacionamento nas mídias sociais. Infelizmente o Slideshare ainda não está disponível, mas, assim que estiver, atualizo o post com o conteúdo.
Em suma, posso dizer que foi um grande evento. Destaco principalmente as palestras das mulheres, que tiveram falas bastante focadas e ricas em conteúdo, sem dar muitas voltas sobre o que tinham a falar. Não há críticas a se fazer sobre o local do evento, mas acho que seria interessante pensar um modo de aumentar ainda mais o networking dos profissionais atendentes. Talvez fosse legal programar algumas mesas de debates mais abertas e horizontais, com alguns mediadores que estimulassem a participação do público em geral. No mais, parabéns a Gabriel Ishida e Vinícius Ghise pela curadoria, e à Media Education pelo evento – até 2017!
É muito difícil, para quem está começando, conseguir enxergar todo o ecossistema de Social Media. A chamada “profissão Social Media”, na verdade, engloba diversas áreas de atuação e práticas profissionais diferentes, tanto referentes à democratização da produção e acesso aos canais de mídia quanto ao caráter essencial das novas plataformas e tecnologias da comunicação. No entanto, quem começa a trabalhar com mídias sociais sem o reforço de um curso de graduação apropriado geralmente tem dificuldade de identificar todos os tipos de prática dentro desse universo comunicacional.
Para além disso, é importante admitirmos que a grande maioria dos profissionais trabalhando com mídias sociais são “novatos” da comunicação (digital). A primeira pesquisa d’o perfil do Social Media brasileiro realizada pela trampos em parceria com a Alma Beta elencou cinco “tipos” de profissionais: novato, júnior, empreendedor, sênior e freelancer, sendo os dois primeiros (estagiário e analista jr.) a maioria esmagadora a responder à pesquisa. Baseado no que tenho visto enquanto entusiasta e estudante (e estagiário atrás de vagas), enxergo pelo menos três níveis de maturidade das empresas que reflete nos tipos de profissionais e suas atuações:
1) O mundo ideal: aquele profissional (jornalista, publicitário, etc.) que trabalha em médias ou grandes agências/empresas, cujo escopo de trabalho é bem delimitado e específico para tratar de questões que correspondem apenas à sua formação e experiência profissional;
2) O mundo da fantasia: o profissional que já trabalha numa agência de publicidade e comunicação, mas que acaba sendo (muitas vezes o único, mas também numa equipe mais curta) responsável pelos esforços de comunicação online/digital/em mídias sociais;
3) O mundo real: um profissional independente, geralmente freelancer, que atende a pequenas e médias empresas e é também um faz-tudo: pesquisa, planeja, produz, publica, promove, etc. (quando fisicamente possível).
No mercado glamourizado e extremamente restrito da publicidade brasileira, é evidente que o que mais encontramos por aí – também graças à descentralização de poder comunicativo proporcionada pelas mídias sociais – é o mundo 2 e o mundo 3 (com algumas nuances, mas essencialmente dentro dessas condições). Ao mesmo tempo em que a popularização do “profissional de mídias sociais” foi benéfica ao trazer para jogo várias oportunidades de um mercado historicamente bem fechado, também resultou num desgaste – ou numa desvalorização – das atividades práticas que envolvem o marketing digital.
Nesse contexto, alguns profissionais buscam cursos livres, cursos de especialização e cursos de pós-graduação/MBA para procurar uma qualificação mais responsável à sua área de atuação. No entanto, mesmo aqueles determinados em se capacitar para obter um diferencial encontram certa dificuldade para se localizar naquele “universo” de possibilidades que instituições de ensino têm a oferecer. Como, frente a tanto conteúdo, encontrar aquilo que: 1) é útil para sua atuação profissional; 2) é com o que você aspira trabalhar; 3) dialoga com o que você enxerga para o seu futuro profissional?
A proposta deste post, portanto, é te ajudar a encontrar as respostas para essas perguntas. Não é para o profissional já bem acomodado no mundo da publicidade e que tem noção de todos os micro-universos da comunicação, mas para quem está começando ou deseja começar nesse mundo e tem interesse em procurar mais fontes para estudar e desenvolver cada uma dessas habilidades. A ideia é jogar uma luz no que está por trás da “profissão Social Media” e ajudar tanto o profissional que quer começar, que está começando ou que pretende se especializar, a encontrar a área de atuação que mais lhe contempla.
Com ajuda de Mari Ferreira, Mayara Mendes e Juliana Freitas, elencamos 7 áreas baseado no que temos visto em sites de vagas, experiência profissional, grupos de discussão no Facebook e consumo de pesquisas sobre o mercado. Não são exatamente setores ou departamentos da área digital, mas “práticas de atuação” que se expandem e se desdobram em várias outras especializações. Se você compreende que há alguma incoerência na divisão ou nas próprias descrições, sinta-se mais que convidado para compartilhar a sua opinião – nos comentários – e enriquecer o texto para que a discussão se expanda e mais pessoas possam ter uma visão concreta de como encontrar a sua área (pretendo atualizar o post conforme esses feedbacks vão surgindo).
Monitoramento
Eu diria que a área de monitoramento de mídias sociais é umas das aqui listadas com mais “representatividade” (com ênfase nas aspas) no mercado, ou seja, cujo escopo de trabalho ficou mais evidente com o passar dos anos, por diversos fatores – a popularização de empresas especializadas, pesquisas específicas, profissionais referência, etc. Arrisco dizer também que o trabalho de monitoramento tenha ganhado tanta força porque atravessa diversos outros campos não apenas nas mídias sociais, mas na própria internet.
O livro Para Entender o Monitoramento de Mídias Sociais, organizado por Tarcízio Silva ainda em 2012, traz colaborações de vários autores que dialogam com o trabalho de monitoramento em diferentes perspectivas: SAC e Social CRM, mensuração (métricas), SEO, relações públicas, netnografia, pesquisa de mercado, etc. Alguns anos antes, Silva desenhou uma definição para o trabalho de monitoramento que se tornou referência em diversas pós, especializações e MBAs ao redor do país:
O Monitoramento de Mídias Sociais consiste na coleta, armazenamento, classificação, categorização, adição de informações e análise de menções online públicas a determinado(s) termo(s) previamente definido(s) e seus emissores, com os objetivos de: (a) identificar e analisar reações, sentimentos e desejos relativos a produtos, entidades e campanha; (b) conhecer melhor os públicos pertinentes; e (c) realizar ações reativas e pró-ativas para alcançar os objetivos da organização ou pessoa de forma ética e sustentável” (SILVA, 2010).
Particularmente acho o trabalho de monitoramento extremamente “gratificante” (não sei se essa seria a palavra correta, mas não consegui pensar em nada melhor) porque ele é bastante representativo do fenômeno das mídias sociais na última década, onde as pessoas se apropriaram de um espaço tecnológico e criaram um novo contexto de sociabilidade. E onde há social, há oportunidade (valor) – é como se fortalecem os dois (ou três) próximos itens, sobre os quais escreverei pouco por falta de conhecimentos avançados.
Pesquisa e monitoramento não seriam a mesma coisa? Não exatamente. Eu diria, com humildade, que o monitoramento é uma metodologia de pesquisa, ou seja, um modo de executar o trabalho investigativo. Isso quer dizer que há outras formas de fazer pesquisa nas mídias sociais – várias delas, inclusive, herdeiras da “tradicional” pesquisa de mercado: surveys, entrevistas, etc. – tudo no contexto de mídias sociais. Aqui o que chamo de “pesquisa” está mais ligado à tradicional pesquisa de mercado, que geralmente tem foco maior na indústria, no público-alvo, nas plataformas, na sociedade como um todo e não exatamente nos consumidores.
Como mencionei anteriormente, a sociabilidade que se instaurou no ciberespaço abriu caminho para que “novos” processos de significação criassem um espaço simbólico de trocas interacionais. Ou, simplificando: se as pessoas vivem a internet, há culturas atravessando esse espaço – com isso, alguns métodos de pesquisa “tradicionais” (pré-internet) foram herdados para esse novo contexto. Embora seja uma herança mais academicista, algumas empresas já reconhecem o valor da pesquisa etnográfica e incorporam essa prática aos seus departamentos. Em termos muito (muito!) simplificador, trata-se de métodos das ciências sociais para o estudo das culturas.
Outro método de pesquisa também filho da academia é a análise de redes sociais (ARS). No Brasil, esse tipo de análise despontou de alguns anos para cá principalmente como recurso para compreender disputas discursivas no campo da política nas mídias sociais. Embora haja uma resistência do mercado em adotar esse tipo de metodologia para a análise de dados, ela oferece perspectivas únicas para analisar conversas nas mídias sociais e pode ser muito útil para estudos que queiram focar na disseminação de informação/atores em rede – no caso de influenciadores, por exemplo.
A parte de planejamento é talvez uma das mais importantes e ao mesmo tempo mais subestimadas de social media (pelo menos em pequenas agências/empresas). Planejar, como a própria palavra indica, significa – de certa forma – antecipar-se, procurar medidas eficazes para esquematizar uma ação em prol de um objetivo. Nesse sentido, para o contexto da comunicação (digital), o planejamento está ligado a estudar e compreender cenários para desenvolver planos de atuação responsáveis que deem conta de resolver um problema comunicacional.
O profissional de planejamento, portanto, precisa estar de olho no mercado, nas plataformas, nos consumidores, nas novas tecnologias, nas culturas, na sociedade, etc. Ou seja, conhecimentos em Publicidade e Propaganda, Marketing, Jornalismo, Estudos de Mídia, Relações Públicas, Sociologia, Psicologia e Administração são muito bem-vindos. O planner precisa ter uma visão bem panorâmica de todo o cenário (social, digital, econômico, cultural, etc.) para saber estruturar responsavelmente os esforços de comunicação.
Em suma, sabe aquela importante história de que não adianta falar sem propósito (mesmo nas mídias sociais, onde isso é fácil e geralmente gratuito)? A proposta de planejamento está alinhada justamente a esse argumento. É unir pesquisa, estratégia e criatividade para pensar a comunicação e desenvolver minuciosamente toda a estrutura de um esforço comunicacional responsável (embasamento teórico é fundamental) para solucionar um problema.
Talvez este seja o tópico mais apropriado para reforçar que esta lista não se trata exatamente de profissões específicas, mas de áreas (ou “práticas”) que envolvem a comunicação digital. O que indico aqui como criação de conteúdo, por exemplo, contempla diferentes profissionais da área de publicidade, como redatores, designers, diretores de arte, produtores audiovisual, etc. – os famosos “criativos”. É aqui onde a estratégia do planejamento vira tática criativa; o problema é que grande parte dos trabalhos de social media passam por cima do planejamento para simplesmente criar peças criativas e publicá-las de qualquer forma no Facebook, Instagram, etc.
Isso não quer dizer que o trabalho criativo não seja tão importante ou seja menos importante que o de planejamento, mas é que são extremamente complementares e dependentes entre si. Sempre aliado às áreas de pesquisa e planejamento, a produção de conteúdo orienta-se em estratégias de criação focadas na brand persona definidas para cada marca/cliente. Definir o tipo, a linguagem, o tom e a identidade visual no ambiente digital é um passo fundamental para dar consistência ao seu conteúdo, passar uma mensagem clara ao seu consumidor e não deixar ruídos na comunicação com seu público-alvo.
Tendo embasamento do planner, o profissional de criação consegue “guiar” sua criatividade para responder às demandas pré-estabelecidas. Isso permite que ele “brinque” dentro dos trilhos, sem limitar sua criatividade, mas orientando sua criação para aquilo que é necessário. Acho importante ressaltar isso tanto para o contexto da internet onde o “meme pelo meme” não tem valor – embora a adequação da linguagem é mais do que necessária, mas sempre dentro de um contexto pensado, planejado e estruturado -, quanto para o glamour, luxo e riqueza da publicidade para publicitários de Cannes.
Por fim, é nesse contexto criativo que vão surgir termos comuns como storytelling, gamification, branded content, transmídia, etc. São formas criativas de contar histórias (para vender, porque no final das contas é isso), geralmente pautadas nas peculiaridades (e novidades) das plataformas e nos hábitos culturais da sociedade. Ou seja, é ainda mais indício de que planejamento e criação precisam andar de mãos dadas, porque enxergar bem o(s) cenário(s) só facilita – e estimula – a criatividade.
O que aqui estou chamando de gestão de conteúdo dialoga um pouco com o trabalho de planejamento. No entanto, não tenho certeza que essa seja uma posição/ocupação comum nas agências ou setores de publicidade de grandes empresas. Seria, talvez, algo associado à função de Gerente de Projetos– aquele que coordena os jobs – mas a ideia aqui é mais específica, provavelmente mais comum em pequenas agências ou trabalhos de freelancers.
Fazer a gestão de conteúdo aqui está ligado à prática de organizar esquematicamente a comunicação nas mídias sociais. Ou seja, é desenvolver calendário de postagens, categorizar mensagens, planejar ações, etc. É ter a senha do Instamizer e do Hootsuite, sabe? É a pessoa que ama planilhas e calendários. Não é quem vai desenvolver a arte para o Facebook, mas quem vai fazer o pedido ao designer (se não for o próprio) e colocar a peça na rua.
Ratifico que não acredito que seja um cargo “real” em médias e grandes agências, mas é uma atividade importante – e comum – para quem atende marcas de pequeno porte (seja como freelancer ou numa pequena agência digital). Não substitui de forma alguma o trabalho de planejamento (!), mas é um passo inicial aceitável para quem deseja avançar da irresponsabilidade de “postar apenas por postar” nas mídias sociais.
Para falar de relacionamento, já tendo elencado gestão e criação de conteúdo, acho importante abrir um parênteses para falar de Community Management. Embora acredite que não haja uma definição fixa do trabalho desse profissional, matérias sobre Community Managers explicam que se trata justamente da união do que foi descrito de gestão, criação e – agora – relacionamento com os consumidores. O dia a dia deste profissional pode envolver desde a criação de posts, arte/peças, até a criação de replies, comentários e alguns insights do cotidiano.
Destaco essa profissão porque acredito que, pelo menos em sua essência, ela reforça um dos principais valores da “revolução” das mídias sociais na relação entre consumidores e marcas: criar uma atmosfera de comunidade. Não, não é fácil: para empresas pequenas, porque é difícil reter o público num espaço em comum; nem para empresas grandes demais (e facilmente odiáveis, como bancos), porque as discussões saem do controle. Mas é importante ter em mente que as mídias sociais (diferente de outros canais da própria internet, até) não foram feitas para atendimento, mas para relacionamento – mesmo que seja uma tarefa difícil.
Muito se fala sobre o que de fato seria o SAC 2.0 e eu acredito que todo debate é enriquecedor, mas o foco dessa área é fato: pessoas – ou, melhor, usuários. Trabalhar com relacionamento (ou atendimento, como preferir) nos sites de redes sociais exige um esforço organizacional que estruture processos de maneira, rápida, clara e eficaz. Trata-se de antecipar as demandas dos usuários e fertilizar o terreno para colher qualquer pepino inesperado que venha a surgir. Isso envolve mapear, ouvir, dialogar, resolver, conectar e responder. Não é uma tarefa fácil, mas extremamente necessária – principalmente no universo digital.
Esta talvez seja a área que mais cresceu no “mercado de social media” no último ano. Se antes estavam todos felizes porque os canais tinham sido “democratizados”, a preocupação foi grande quando o Facebook matou o alcance orgânico e mostrou as asinhas de quem detém o poder do meio. Atualmente é praticamente impossível falar em social media sem falar em mídia paga, principalmente no Facebook, onde estão a maioria das empresas e marcas no Brasil – por isso o destaque no título.
O papel do profissional de mídia já era comum à publicidade muito antes da internet, como aquele que negociava com os canais (TV, rádio, jornal, etc.) para a divulgação das peças publicitárias. No ciberespaço, esse contexto de mídia primeiro apareceu nos blogs e portais digitais, através de anúncios “banners” bem parecidos com outdoors, por exemplo. Hoje, depois da glória e declínio do conteúdo orgânico nas mídias sociais, o trabalho de mídia é essencial para mostrar ao público o que os planners planejaram e os criativos criaram.
Nesse contexto, novamente devido à popularidade da plataforma, o trabalho de mídia no Facebook é o mais popular dos dias de hoje – principalmente para pequenas e médias empresas. Por meio do Gerenciador de Anúncios do Facebook é possível ter um direcionamento de mídia para conversão de sites, aplicativos, alcance de publicações e páginas em diferentes formatos explorados no Facebook e também para publicações e perfis no Instagram.
A área de social ads também se expande para outras plataformas, é claro, como Twitter, LinkedIn, Pinterest, etc., mas é o Facebook o poderoso-chefão das mídias sociais. Vale ressaltar que o profissional de mídia geralmente expande seu escopo de trabalho para além dos sites de redes sociais, necessitando conhecimentos também em compras de mídia no Google (Pesquisa, Display, Mobile, Vídeo e Shopping) e portais de notícias/blogs através do famoso mídia kit.
Mensuração de Dados (Métricas e Indicadores Digitais)
Depois de pesquisar/monitorar, planejar, criar, gerir, conectar e promover, chega o momento de fazer as contas. Na verdade, embora (para fins didáticos) eu tenha seguido essa ordem e colocado a área de mensuração no final (tentando seguir certa lógica), é importante elucidar que medir nunca deve ser deixado apenas para o final. Como se trata de um ciclo, este item poderia muito bem vir em primeiro lugar – afinal, tanto monitoramento quanto métricas deve servir de fundamento básico para tudo que se deseje construir em cima ou a partir disso.
Assim como monitoramento, é uma área que ganhou muita força nos últimos anos principalmente pela possibilidade quase inédita de finalmente ser possível quantificar (ou mensurar) os resultados dos esforços comunicacionais. Embora algumas polêmicas envolvendo bots, click-baits e números inflados estejam presentes desde a popularização da análise de dados da web, é inegável o quão poderoso tem sido para as empresas ter a possibilidade de avaliar suas ações e compreender melhor seus consumidores através dos dados gerados nas mídias sociais, sites institucionais, e-commerces, Google, etc.
O economista Douglas Hubbard explica que “mensuração é uma redução quantitativamente expressa de incerteza, baseada em uma ou mais observações”, ou seja, o trabalho com métricas/indicadores digitais envolve traduzir os números (rastros sociais digitais) em estratégias eficazes de re-avaliação para melhor a assertividade. Assim como fiz em monitoramento, acho legal trazer essa citação que costuma estar sempre presente nos materiais de cursos e especialização sobre métricas para mídias sociais:
“Uma métrica é um sistema de mensuração que quantifica uma tendência, dinâmica ou característica. Métricas são usadas para explicar fenômenos, diagnosticar causas, compartilhar descobertas e projetar os resultados de eventos futuros.” – Paul Farris, Neil Bendle, Phillip Pfeifer, David Reibstein
No entanto, as famosas métricas não são exclusivas das mídias sociais. Sites, blogs e e-commerces, por exemplo, como já mencionados, também possuem suas próprias lógicas de métricas para avaliação. Não pretendo me aprofundar no assunto porque sair das mídias sociais envolve mais um universo de possibilidades (como Adwords, SEO, etc.), mas é importante ressaltar que o Google Analytics é uma plataforma de extrema importância também para as mídias sociais, uma vez que a integração site + rede social é bastante comum.
A minha ideia inicial era fazer mais uma seção “indo além” para destrinchar inbound marketing/marketing de conteúdo, SEO, Adwords, etc., mas, dada a extensão do post, optei por manter a base apenas com o trabalho dentro de mídias sociais – o que já é bastante coisa. Sem mais delongas, apenas reforço o que expliquei na introdução: não quer dizer que cada uma dessas áreas seja única ou que as profissões/departamentos atuem exatamente dessa forma nas agências/empresas, mas foram “ambientes” do ecossistema de social media que identifiquei e estruturei de tal forma apenas para fins didáticos.
Eu espero que o conteúdo seja útil para quem está começando e precisa encontrar um rumo para sua carreira. Espero também que as referências sejam úteis e que acrescentem a quem precise, nem que seja apenas para começar a se ambientar com alguns termos específicos desconhecidos – agora você já pode compreender melhor as vagas publicadas em grupos no Facebook. No mais, agradeço imensamente às moças que me ajudaram a montar todo esse material e me aturaram durante todos esses dias.
Foi lançado na semana passada, dia 25 de outubro, o livro “Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos”, organizado por Carla Barros e Bruno Campanella, ambos professores do PPGCOM e do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense. A coletânea reúne textos de palestrantes que participaram, em setembro de 2015, do Seminário Internacional Etnografia e Consumo Midiático: Novas Tendências e Desafios Metodológicos, e de outros autores com reconhecido interesse em discussões metodológicas relacionadas à pesquisa contemporânea de consumo midiático – dando, assim, continuidade aos debates iniciados naquele momento e expandindo algumas questões importantes ainda não trabalhadas.
“Os textos apresentados na presente coletânea são atravessados por reflexões acerca dessa crescente complexificação das práticas de consumo midiático, assim como das formas de estudá-lo que tomam como ponto de partida as abordagens etnográficas. […] Com o objetivo de enriquecer ainda mais o debate, a coletânea também traz propostas de abordagens metodológicas alternativas capazes de complementar a etnografia. Em suma, o livro busca lançar luz sobre os desafios, oportunidades e dificuldades da abordagem etnográfica na pesquisa dos meios de comunicação, em especial a internet.”
As minhas motivações para adquirir o livro foram três: 1) a organização realizada por dois professores cujo trabalho eu admiro muito (e gostaria que eles dessem mais aula para a graduação, caso venham a ler este post); 2) o assunto etnografia para pesquisa na internet (e em mídias ou sites de redes sociais), um debate que muito me interessa tanto acadêmica quanto profissionalmente; e, 3) a colaboração de Christine Hine, autora que conheci recentemente e que preciso ler mais, de Raquel Recuero, que fez uma proposta interessante para o capítulo que desenvolveu, e de Beatriz Polivanov, também professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídias (curso de Estudos de Mídia) cuja pesquisa eu já citei aqui no blog algumas vezes, com Deborah Santos. Para minha felicidade, ainda fui positivamente surpreendido por textos bem interessantes de outros autores/pesquisadores que não conhecia, superando as minhas expectativas.
A começar pela Introdução escrita pelos organizadores do livro, onde eles reconhecem as transformações sociais e tecnológicas que “criaram oportunidades e desafios na pesquisa da articulação entre meios de comunicação e cultura”, para então desenvolver uma breve – e importante, principalmente para leitores pouco habituados com as discussões da abordagem etnográfica para a internet, como eu – historicização do fenômeno do consumo midiático (“enquanto um sistema de valores”) e, principalmente, da constituição da etnografia na disciplina antropológica. Nesse contexto, ainda elucida a “evolução” dos estudos de comunicação mediada por novas tecnologias, posicionando-se criticamente a algumas leituras que, sob uma nova perspectiva, aparenta ser um pouco inadequada. Ainda assim, abrindo terreno para as contribuições (e discussões) dos colaboradores, reitera:
“Não se compartilha a mesma concepção do que seja a pesquisa realizada no âmbito da internet. Enquanto que para alguns autores a etnografia aparece como uma conjunção de técnicas específicas – primordialmente, a observação participante com a entrevista em profundidade – para outros ela não pode ser reduzida a um conjunto de técnicas, pois sua importância reside no fato de ela ser propriamente uma abordagem. A proposição de polissemia nas mensagens midiáticas encontrada nos estudos de recepção, especificamente, facilitou uma maior adesão às pesquisas de abordagem etnográfica. No entanto, nem todas as pesquisas autointituladas como de “recepção” atendiam aos princípios da etnografia, como a imersão prolongada em campo e a compreensão do contexto sociocultural mais amplo no qual as práticas midiáticas estavam inseridas.”
No capítulo “Estratégias para etnografia da internet em estudos de mídia”, Christine Hine apresenta algumas estratégias para a condução de estudos etnográficos da mídia na era digital. Para isso, ela introduz os novos contextos de formas de sociabilidade na internet (relacionando com a “proliferação de rastros do consumo midiático”) e retoma a discussão das fronteiras entre o on-line e o off-line, tanto sob a perspectiva do usuários quanto sob a perspectiva dos etnógrafos – e, consequentemente, seus desafios. Antes de entrar nessas questões, acho interessante compartilhar algumas considerações feitas pela autora sobre o papel do etnógrafo, principalmente levando em conta aqueles “novatos” na área:
“[O etnógrafo] procura alcançar um profundo engajamento com os detalhes confusos contidos naquilo que as pessoas realmente fazem com a mídia na prática”;
“seus interesses vão além de momentos de engajamento entre pessoas pré-selecionadas individualmente e textos midiáticos específicos”;
“o significado reside não no texto propriamente dito, mas em uma gama de relações sociais que antecedem e, ao mesmo tempo, resultam daqueles momentos de engajamento com o texto”.
Feita essa introdução do contexto e da pesquisa/do pesquisador, ela apresenta o que chama de qualidades da internet nos dias atuais para discutir “três tipos de estratégias que ajudam um etnógrafo a lidar com essas qualidades: abordagens móveis, multilocalizadas e conectivas ao campo; mapeamento, visualização e associação; e uso dos insights autoetnográficos a fim de maximizar a compreensão da internet como um fenômeno sensorial”. Antes, no entanto, ela apresenta uma discussão conhecida de seu trabalho, sobre a internet incorporada, corporificada, cotidiana (embedded, embodied and everyday) – na qual argumenta que não falamos mais em “ficar on-line”, mas vivemos online, incorporamos a internet em “em múltiplas estruturas de construção de significado”. Diz ela:
“Qualquer fragmento individual dos dados derivados da internet é, por isso, passível de ser interpretado de uma série de formas, dependendo dos contextos em que se incorpora e adquire significado […]. Isso apresenta desafios metodológicos significativos para um etnógrafo que deseja descobrir o significado de determinado aspecto da internet para um grupo específico de pessoas. Podemos começar com um foco particular ou uma questão intrigante em mente, mas a imprevisibilidade e caráter escorregadio dessa internet incorporada, corporificada e cotidiana torna muito difícil resolver onde ir para encontrar as respostas e como trazer questões interessantes à luz.”
Hine argumenta que, para que o etnógrafo “desenvolva insights e teste teorias em desenvolvimento através da interação”, seu trabalho não deve ser distante, como um observador que apenas coleta e processa dados de ambientes virtuais, mas participante e engajado com seu foco de pesquisa. “Ser ativo no ambiente permite que o etnógrafo aprenda com a imersão e o questionamento criterioso que encoraja as pessoas a refletirem, em voz alta, sobre suas experiências”, argumenta. À diante, apresenta como as características da internet nos dias atuais pode ser apropriada estrategicamente por pesquisadores para dar conta dos desafios e oportunidades que são enfrentados no trabalho etnográfico. Pensando a “volatilidade” dos grupos sociais online, a massividade de dados à disposição e os processos sensoriais da internet, ela apresenta as seguintes perspectivas:
Multilocalizada, móvel e conectiva: o campo de pesquisa é uma construção arbitrária, pré-existente, “construído a partir de uma rede complexa e contingente de interconexões possíveis entre diferentes localidades, e estendida em diversas mídias e formas de interação”; logo, “podemos esperar que o etnógrafo aceite a responsabilidade por construir um estudo que se encaixe em um conjunto particular de interesses estratégicos [para pensar novas comunidades virtuais].”
Mapeando, visualizando e associando: uma das principais dificuldades enfrentadas pela etnografia na internet é a abundância de dados; além de delimitar os estudos numa localidade e num período de tempo específicos, a autora propõe defende que “uma visualização ou mapeamento de atividades on-line pode ser muito útil no direcionamento da atenção do etnógrafo para locais de interesse, utilizando técnicas de associação para realizar a ‘topografia de campo’ antes de decidir no que focar em profundidade”.
Percebendo, sentindo e refletindo: uma vez que a experiência da internet é um processo bastante individual, o etnógrafo precisa reconhecer as limitações subjetivas da compreensão das diferentes experiências dos indivíduos, no entanto, é possível “tirar vantagem da nossa imersão no campo para refletir sobre o que contém e o que possibilita seus movimentos particulares e suas formas de compreensão”, enfrentando “qualquer tendência residual que tenhamos para tratar o campo como se simplesmente o tivéssemos encontrado e descrito como ele era”.
Na conclusão, admite (e reitera) as dificuldades e os desafios que a prática etnográfica enfrenta e continuará enfrentando com o desenvolvimento das novas tecnologias. Afirma que “não será impossível, mas envolverá um esforço maior na obtenção de dados, construindo e desenvolvendo relações de confiança com os participantes-chave a partir de práticas reminiscentes das etnografias dos tempos pré-internet”. Nesse sentido, compreende que “novas formas de etnografia realizadas tecnologicamente irão inevitavelmente continuar a emergir mas, espero, continuarão em diálogo com os princípios estabelecidos do etnógrafo como uma forma de produção de conhecimento aprofundada, imersiva e criticamente engajada”.
O capítulo “Métodos mistos: combinando etnografia e análise de redes sociais em estudos de mídia social”, de Raquel Recuero, é bem interessante pois discute a aproximação (ou melhor, combinação) de duas abordagens essencialmente distintas para o estudo de objetos decorrentes de mídias sociais, levantando também as vantagens e desvantagens desses métodos mistos. Ao introduzir a análise de redes sociais (ARS), a autora destaca a popularização dessa abordagem no campo dos estudos de cibercultura no Brasil e a justifica pela facilidade de acesso aos dados e pelo próprio caráter estrutural prolífico dos sites de redes sociais, o que favorece uma abordagem na qual as relações interacionais dos atores entre si e com a plataforma são o centro da análise. Explica:
“A análise de redes sociais é uma perspectiva cujo foco pode ser compreendi- do como teórico e metodológico (Wasserman e Faust, 1994). Enquanto a ARS busca estudar os padrões das interações e laços sociais (Wellman, 2001), ela também busca modos de medir esses padrões (Degenne e Forsé, 1999) e visualizá-los (Freeman, 2001). […] Desse modo, a análise de redes sociais constitui-se em uma abordagem relacional, cujo foco é construído nas relações entre os atores, na sua medida e exploração estrutural, a partir de perspectivas interdisciplinares.”
Destrinchando as raízes e premissas básicas da ARS, ela passa rapidamente por algumas questões – e aspectos – importantes desse método de análise: “O grafo é uma representação das relações e da estrutura da rede, que é construído através de algoritmos específicos e em cima de dados obtidos em campo”. Ela explica que, para que seja feita as visualizações das estruturas que auxilia a percepção visual das relações entre os atores, há a aplicação de alguns cálculos matemáticos (métricas de nó e métricas de rede) para avaliar a centralidade dos atores na rede e a estrutura da rede em geral. Nesse contexto, citando Linton C. Freeman, ela destaca quatro elementos que devem aparecer em conjunto na organização da análise estrutural: a intuição estrutural, ou seja, focada nos laços que conectam os atores; a construção sobre dados empíricos coletados de modo sistemático; a base em gráficos e imagens que representam os dados da pesquisa; e a utilização de modelos computacionais ou matemáticos.
Não entrarei em detalhes sobre o que a autora discorre sobre a etnografia virtual porque acredito que a introdução do capítulo de Hine já ilustra muito bem como ocorre, quais são as premissas, dificuldades e vantagens da abordagem etnográfica na internet. Destaco, no entanto, a citação de Gemma Edwards apresentada pela autora, na qual ela explica que as abordagens quantitativas “mapeiam e medem as redes através da simplificação das relações sociais em dados numéricos, onde os laços são ausentes ou presentes”, enquanto as abordagens qualitativas “permitem aos analistas considerar elementos relativos à construção, reprodução, variabilidade e dinâmicas dos laços sociais complexos”. Chegamos, então, à ideia principal de Recuero:
“A ideia é trabalhar com perspectivas metodológicas distintas, tanto quantitativas quanto qualitativas, combinadas de modo a dar conta de um determinado problema de pesquisa. Métodos qualitativos, grosso modo, tendem a focar mais em palavras como elementos descritivos, enquanto os quantitativos, em números; bem como pesquisas mais qualitativas focam perguntas mais abertas, pesquisas quantitativas focam questões fechadas; além disso, pesquisas qualitativas tendem a focar na interpretação dos dados coletados, geralmente no ambiente dos participantes, enquanto as quantitativas tendem a focar em medidas, variáveis e procedimentos numéricos (Creswell, 2014, p. 12). […] Os métodos mistos, por outro lado, constituem ‘uma abordagem para a pesquisa envolvendo a coleta de dados qualitativa e quantitativa, integrando as duas formas de dados e usando desenhos de pesquisa que possam envolver questões filosóficas e abordagens mais teóricas’ (Creswell, 2014, p. 4).”
Para compor sua proposta, a autora apresente algumas questões importantes de aplicação e alguns exemplos de objetos que se encaixem num contexto de pesquisa adequada aos métodos mistos. Para tanto, esses objetos precisam ter: questões de pesquisa relacionais (análise de estrutura das conexões da rede + componente cultural dentro da estrutura); dados passíveis de coleta/captura para análise de rede de forma manual ou automática; questões apropriadas para atender a objetivos da ARS e da etnografia. “Enquanto a análise de redes se ocuparia com a estrutura do grupo, a etnografia focaria as práticas culturais emergentes dessa estrutura”, explica, trazendo como exemplos: grupos sociais determinados e suas interações on-line, grupos sociais constituídos diante de discursos/conversações específicas e estudos sobre informação e difusão de práticas culturais. Em seguida, ela apresenta alguns modelos mais comuns de uso de métodos mistos, elencados:
Métodos mistos convergentes e paralelos:“os dados são coletados de modo qualitativo e quantitativo geralmente ao mesmo tempo e convergem ou são misturados na análise”; o objetivo é a complementariedade dos dados para a análise.
Métodos mistos explanatórios sequenciais:“há primeiro a condução de uma pesquisa quantitativa, cujos resultados servem de base para uma pesquisa qualitativa”; o trabalho qualitativo expande e aprofunda as questões do trabalho quantitativo.
Métodos mistos exploratórios e sequenciais:“a abordagem qualitativa vem primeiro e, nessa primeira fase, são constituídos elementos que servem de base para a abordagem quantitativa posterior”; útil quando as variáreis mais importantes para análise são desconhecidas.
Nas considerações finais, Recuero ratifica que, dentre os benefícios da adoção de métodos mistos, “está primeiramente a complementariedade dos dados e das análises e a possibilidade de explorar fenômenos mais complexos do que com apenas um dos métodos”. E complementa: “Em termos de mídia social, onde os dados são bastante distanciados dos grupos sociais, a combinação desses métodos pode ser extremamente vantajosa, justamente por permitir compreender o fenômeno em sua abordagem mais ampla”. No entanto, a autora faz questão de pontuar alguns desafios importantes para o pesquisador: o uso mútuo e compreensível de ambas abordagens de forma coerente/coesa, a discussão de limitações e vantagens da coleta de dados e as questões éticas da pesquisa em canais supostamente públicos.
“A ARS dá à etnografia uma possibilidade de mais abrangência e maior fundamentação em dados, ao mesmo tempo que lhe rouba parte da subjetividade que lhe é característica. Já a etnografia, por sua vez, complementa a ARS com uma visão contextual, mas pode também lhe conferir um caráter subjetivo e interpretativo que pode trazer uma certa instabilidade ao estudo quantitativo. […] Assim, os dados de uma devem servir à outra e devem ser ambos compreendidos em sua totalidade pelo pesquisador. A perspectiva de métodos mistos é uma combinação do desenho metodológico, onde o pesquisador precisa compreender ambos e não apenas utilizar um método como suporte e outro apenas para agregar os dados sem analisá-los.”
Para finalizar, trago alguns apontamentos do capítulo “Términos de relacionamentos e Facebook: desafios da pesquisa etnográfica em sites de redes sociais”, escrito por Beatriz Polivanov e Deborah Santos. Gostei muito do capítulo porque ele dialoga com os outros dois supracitados, principalmente (por questões óbvias) com o de Hine, ainda que haja uma “menção honrosa” a proposta de Recuero, lá no final do texto, não descartam que “abordagens mistas, que lidam com grandes e “pequenos” dados, possam ser enriquecedoras”. Para além disso, gostei muito da contribuição das autoras porque há fundamentação teórica, discussão metodológica e – principalmente – inquietações empíricas de uma pesquisa ainda em andamento. Ao final, elas apresentam cinco eixos que esperam servir como “pequenos guias norteadores” para outras pesquisas.
Uma vez que o objetivo das autoras é “chamar atenção para desafios específicos” de sua pesquisa, não entrarei a fundo na fundamentação teórica (muito bem) apresentada no texto – embora recomende veemente a todos interessados na discussão sobre as diferentes etnografias (“tradicional” e virtual) e construção de identidade on-line que assim o façam. Trago, portanto, apenas os cinco eixos de desafios metodológicos que têm tensionado a atuação das pesquisadoras no estudo sobre “sujeitos que passaram por um final de relacionamento amoroso e como essa sua performance de si se dá no Facebook em um momento pós-término”, discutindo se há alteração em suas performances e quais tipos de narrativas são acionadas para se adequar a imperativo da felicidade.
“Entendemos, assim, que, de um modo geral, busca-se manter certa coerência expressiva entre os selves off-line e nos sites de redes sociais. Isto é, nesses ambientes – e em especial no Facebook, nosso objeto de estudo – os atores sociais tendem a querer mostrar traços identitários que consideram “reais”, como nome, local onde trabalham/estudam, gostos relacionados à indústria cultural, pessoas com as quais se relacionam, locais que frequen- tam etc., ainda que possa haver rupturas e desencaixes nessa construção por uma série de razões (intencionais ou não).”
Embora eu tenha optado por atropelar as discussões teóricas que precedem a discussão metodológica (apenas por motivos práticos), acho importante lembrar que alguns dos “problemas” levantados pelas autoras estão em total consonância com aspectos específicos da problematização da etnografia (virtual), da identidade on-line, etc. – ou seja, de certa forma, essas questões atravessarão os desafios metodológicos da pesquisa em sites de redes sociais apresentados a seguir:
a) Investigação sobre indivíduos e/ou casais
Um dos motivos pelo qual me interesso bastante pelo trabalho de Polivanov é que suas pesquisas geralmente focam em aspectos identitários “isolados”, como seu trabalho com participantes de cenas de música eletrônica no Facebook. Isso foge um pouco da prática comum da etnografia para internet (e mídias sociais) de estudar grupos ou comunidades específicas – como ela reitera, no atual trabalho “estamos mais interessadas, em nossa pesquisa, em conhecer em profundidade experiências particulares do que em estudar as dinâmicas de um grupo ou um número maior de casos”. Entretanto, isso se torna um problema primário à pesquisa uma vez que precisa-se fazer um recorte e delimitar o campo do objeto de estudo. “Mas como selecioná-los?”
b) Escolha e interpelação dos sujeitos de pesquisa
“A partir de um processo de conversas informais – on e off-line – com conhecidos de nossas redes de contatos e a partir da técnica da ‘bola de neve’ (Weiss, 1994), conseguimos sugestões de possíveis informantes que atendessem nossos critérios. Para além daqueles que fizessem parte de nossas redes, a escolha da parte da amostra de “desconhecidos” foi feita a partir da procura de grupos temáticos, conforme apontado acima, focando desse modo nosso olhar a pessoas que atravessaram algum conflito amoroso e usaram (usam) a rede e o suporte (semi)público para lidar com situações dessa natureza, sendo nosso interesse conhecer como se dá essa relação de “desabafo” entre o sujeito e a plataforma, no caso, o Facebook.”
c) Grau de inserção do(a) pesquisador(a)
“Aqui valeria a pena nos perguntar até que ponto esse tipo de aproximação, sem aviso aos informantes de que estão sendo observados, é eticamente correta. Além disso, seria apenas a observação, participante ou não, suficiente para entender as dinâmicas e discursos dos sujeitos ou necessariamente de- vem ser realizadas entrevistas? […] Nossa proposta metodológica entende que somente a observação dos sujeitos analisados não seria suficiente para responder as questões de pesquisa, sendo necessária uma aproximação direta e privada (ainda que virtual) com os mesmos que outorgue integralidade à pesquisa. Para isso é nosso propósito entrar em contato com cada um dos sujeitos escolhidos como amostra e realizar entrevistas, tanto on quanto off-line com eles, que complementem os dados obtidos na etapa de observação, tentando fugir assim dessa posição um tanto voyeurística e procurando vias diferentes de acesso à informação.”
d) Recorte temporal da pesquisa e da coleta de dados
Esse item é bem interessante porque elas tratam duas questões: primeiro, a problemática de delimitação de tempo de uma pesquisa empírica. Em resposta, defendem que “a observação sistemática dos acontecimentos e a coleta de dados deve ocorrer até atingir determinado ponto de saturação, isto é, até que não seja possível – seja por um limite de tempo, verba ou do próprio corpus – obter dados categoricamente novos”. Segundo, porque, citando Markham, as autoras “desmitificam” o véu de imparcialidade do etnógrafo, explicando que “os pesquisadores sempre interferiram no contexto de algum modo enquanto conduzem suas pesquisas” e que “em diferentes medidas, as noções de sujeito/objeto, pesquisador/pesquisado não devem ser tomadas como instâncias separadas, mas ao contrário, como afetações mútuas”.
e) Pesquisa de campo ou campos de pesquisa no Facebook
“Cabe, assim, a cada pesquisador(a) determinar o recorte do corpus que irá analisar e que ferramentas irá utilizar para tal. Em nosso percurso até o momento temos optado por dar especial atenção aos campos da seção “Sobre” e das postagens diversas feitas pelos sujeitos em suas linhas do tempo, buscando analisá-las não em grupos definidos quanto ao seu tipo de linguagem, mas sim enquanto unidades materiais-discursivas multissemióticas que devem ser entendidas principalmente a partir do momento e da intencionalidade de publicação, elementos que só podemos investigar a partir da realização de entrevistas direcionadas.”
A ideia de Polivanov e Santos foi justamente trazer alguns desafios e questões (tanto teóricas quando metodológicas) que têm atravessado seu trabalho de pesquisa no Facebook. Ao final, não apresentam soluções, mas “inquietações ainda em pleno processo de digestão”, o que considerei extremamente poético, coerente e justo por parte das autoras. Essa é a ideia do livro, levantar tensões e tentar travar um diálogo com acadêmicos, estudiosos e pesquisadores de forma geral sobre o espaço multidisciplinar que é a internet corporificada. Ainda há capítulos enriquecedores de Jair de Souza Ramos, sobre o modo como as discussões teóricas podem orientar a observação e a análise para etnógrafos, e de Laura Graziela Gomes, a pesquisa própria do meio digital (cibercultura).
Este é um post que estava engavetado há meses. Prova disso é que tenho, no meu quarto, um quadro branco onde mantenho minhas tarefas, aspirações e inspirações; hoje, quando tentei apagar “post Black Mirror e coerência expressiva”, uma mancha deixou uma marca como se me dissesse para não adiar tanto assim as minhas ideias que precisam ser desenvolvidas na prática. Portanto, antes tarde do que nunca, compartilho aqui no blog várias das inquietações que me fisgaram quando assisti à série Black Mirror – mais especificamente, ao episódio “Be Right Back”, da segunda temporada – e por que ele me remeteu tanto à ideia de coerência expressiva, desenvolvidos por Polivanov e Sá (2012). Antes de entrar nos detalhes da história e como relacionei com esse conceito, precisamos falar de Black Mirror.
Nas palavras da Wikipédia: “Black Mirror é uma série de televisão britânica antológica criada por Charlie Brooker, que apresenta ficção especulativa com temas sombrios e às vezes satíricos que examinam a sociedade moderna, especialmente no que diz respeito às consequências imprevistas das novas tecnologias”. Nas minhas palavras, é uma série enxuta – são apenas duas temporadas com três episódios cada, e um especial de Natal – que traz uma história diferente (com elenco, cenografia, tudo diferente) em cada episódio. Os temas perpassam discussões acerca de política, moral, sociedade do espetáculo, memória, morte, tecnologia e a nossa relação com as mídias em geral. Mesmo que não a conheça, talvez tenha ouvido falar que a terceira temporada estreia no dia 21 de outubro deste ano na Netflix – provavelmente um dos principais motivos que me coagiu a tirar esse post da gaveta. Não serei aquela pessoa que insistirá que você assista à série, mas recomendo muito, principalmente para profissionais, pesquisadores e pensadores das áreas de comunicação, tecnologia, política e mídias.
Imagem: Netflix
Como já mencionei, embora todos os episódios tenham mexido muito com a minha cabeça (esse é o objetivo), o episódio que quero abordar aqui é o primeiro da segunda temporada, intitulado “Be Right Back” (Volto Já, em tradução livre). A história é a seguinte (com ajuda do imdb): Martha e Ash são um casal de apaixonados que decidem morar juntos numa casa do interior. Um dia depois da mudança, ao devolver a van alugada para tal, Ash se envolve num acidente de carro fatal. No funeral, uma amiga de Martha recomenda um serviço novo que ajuda pessoas em luto a lidar melhor com a situação, criando um Ash “virtual” que se comunica com ela através de informações (dados) obtidos de mídias sociais e da internet como um todo. Ela não aceita bem a indicação da amiga, mas esta acaba a inscrevendo no serviço mesmo assim – o que só descobre quando recebe um e-mail do “novo” Ash. A partir daí, ela começa a ter vários embates pessoais e morais sobre (não manter) essa relação com esse personagem, e a trama se desenvolve justamente nesses conflitos internos. Podemos seguir daqui.
Dada essa introdução, pretendo apresentar quase que cronologicamente – porém de forma bem aleatória, arbitrária – – algumas questões que o episódio levanta. A primeira “problemática” sobre a qual precisamos nos debruçar é a questão da hiper-visibilidade e superexposição. Aqui, entretanto, não enxergo essa questão de modo conservador como vários estudos sobre privacidade, vigilância e narcisismo tem tratado este assunto – embora tenha esta linha de pensamento como importante para reflexão, acredito humildemente que parte de um juízo de valor um pouco ultrapassado que precisa, para avanço do debate, ser superado; recomendo, neste sentido, o subitem“Os discursos sobre a superexposição do eu e a era da vigilância”, do primeiro capítulo do livro Dinâmicas identitárias em sites de redes sociais, da Prof. Dra. Beatriz Polivanov, no qual ela revisa essas discussões e propõe uma brecha na para seguirmos em frente. Ainda assim, mesmo que o debate fosse trazido para discussão, eu argumentaria que, pros fins da história, essa superexposição acabou sendo bom para o personagem.
Explico: o “novo” Ash, sintético, passa por um processo de machine learning. Para que ele se torne o Ash que Martha, sua esposa, consiga identificá-lo como seu antigo marido, o serviço no qual sua amiga a inscreve consome todo tipo de conteúdo que o “verdadeiro” Ash já publicou online – não apenas em mídias sociais, mas também em e-mail, mensagens instantâneas, etc. Cada rastro social digital que ele tenha deixado enquanto vivo se transforma em fonte de alimento para que o robô (se é que posso utilizar esse termo tecnicamente estigmatizado) simule – e aqui reitero a noção de reproduzir – quem ele era antes. Isso expõe a importância de que ele tenha, ainda vivo, criado uma identidade (performance, ou narrativa, como prefiro) de quem ele era no ciberespaço. E, por mais importante que essa construção do eu enquanto conflito interno seja importante psicologicamente falando, argumento que ainda mais importante é o fato de, para além de se construir, narrar a sua construção. A identidade que ele criou para si quando era vivo, para que se tornasse “completa”, necessitava da interação com o outro – ou seja, precisava ser narrada.
Acho importante tocar nessa questão porque é algo que me parece essencial à discussão da construção de si, como vão argumentar diversos autores como Hall, Pollak e Bourdieu – a identidade é construída no discurso, na linguagem. Na minha humilde opinião, os trabalhos apresentados sobre a construção do eu no ciberespaço parecem ter superado muito fácil essa ideia e se ancoram demais (justificadamente) nos conceitos apresentados por Goffman. A meu ver, o sistema de interpretação e comunicação é um só, o que muda nesse (novo) contexto é apenas as plataformas e dispositivos de narração. No entanto, vou segurar esse argumento aqui para que o post não se torne muito grande e complexo (e porque é debate pra cacife grande), quando a proposta que pretendo trazer para discussão aqui é outra: a ideia de coerência expressiva. Isso quer dizer que, para além de atuar nesses instrumentos e dispositivos de narração para compor a sua identidade, o sujeito depende do outro para se constituir. Eu crio minha narrativa através das construções sociais e culturais que me atravessam mas projeto sempre minha história no outro.
É este processo que chamamos de coerência expressiva dos atores nas redes sociais. E com esta expressão, interessa-nos demarcar este processo, intensamente complexo, precário, inacabado, de ajuste da “imagem” própria aos significados que se quer expressar para o outro, e que é muito fortemente ancorado na utilização de bens culturais-midiáticos, tais como letras de músicas, filmes, clipes, etc., utilizados a partir da avaliação pelos atores de sua adequação ao que querem expressar, traduzir, apresentar e comunicar nos sites. Processo que se dá em tensão, sujeito a ruídos, uma vez que sempre atravessado pela relação com os outros atores da rede sócio-técnica na qual o usuário se insere. O que nos permite sugerir, talvez, uma ilusão da coerência expressiva, à maneira como Bourdieu fala da ilusão biográfica, a fim de desconstruir qualquer suposição de estabilidade, controle ou de concretude do sujeito como resultado do processo. (Sá e Polivanov, 2012)
Da primeira vez que assisti ao episódio, este foi o aspecto que mais me chamou a atenção. Um dos maiores embates e conflitos internos pelo qual a personagem principal, Martha, passa, é nessa questão de ter, naquele robô, uma narrativa reflexivamente construída que emula quem seu marido um dia foi. Desde o primeiro contato entre os dois, quando ela recebe o e-mail desse ser virtual e se dispõe a respondê-lo, o elo que eles criam se dá pelo fato que a máquina tenha processado as informações e aprendido a simular o que Ash falaria. E isso, esse conforto que ela constrói conforme eles vão se comunicando, é possibilitado apenas pelo modo como ele se apresentava online. Para além disso, reforço o fato de que essa narrativa que ele construiu enquanto vivo no ciberespaço era construída num sentido de auto-reflexividade que também supera, em certos pontos, o argumento da exposição descontrolada ou desenfreada no ambiente das mídias (e sites de redes) sociais. Quando ela se depara com a versão material do “computador”, o elogio que ela faz à sua aparência e a resposta que ele dá (“as fotos costumam ser boas”) ratifica o processo meticuloso pelo qual a narrativa mediada por computadores tem nos submetido durante os anos.
Imagem: Netflix
Ainda nesse contexto, mas reforçando mais a ideia de que só nos construímos no outro, há uma cena (duas, na verdade) que parecem ter sido escritas propositalmente para que fosse levantada essa questão na discussão: ainda vivo, Ash decide publicar em algum site de rede social uma foto dele ainda criança. Ele justifica essa ação explicando à esposa que acredita que as pessoas irão achar aquela foto engraçada. No entanto, na mesma cena, ele revela que aquela foto não tinha nada de engraçada – remontava, em sua memória, pelo contrário, um fato bem triste. Ou seja, ele resignificou aquela imagem para conscientemente criar uma nova narrativa simbólica do que aquele evento o remetia. No final do episódio, esse arco narrativo é retomado (talvez em tom de crítica) quando o robô Ash vê aquela foto na sala e comenta: “Ha, engraçado” – provavelmente porque o desenrolar da ação primária do Ash “verdadeiro”, quando publicou a foto no SRS, tenha se dado nesse contexto cômico da situação, através de comentários de amigos e do próprio em resposta àquele estímulo comunicacional. Isso, no entanto, coloca-nos outro fato muito importante – que, novamente, rebate a superexposição desenfreada: a narrativa que construímos de nós mesmos no ciberespaço é insuficiente.
Esse embate que limita a simulação de Ash entra em pauta principalmente no final do episódio, quando pequenas situações de desconforto são criadas entre Martha e o “novo” Ash. Num primeiro momento, a história toca nesse aspecto quando, numa cena de sexo, o personagem explica que não há “registros” desse contexto processadas pela sua tecnologia de deep learning – o que é rapidamente superado pela proposta de aprendizado em outras fontes, no caso, sites de vídeos pornô. Esse embate pode ser reforçado pelo argumento de Silva (2015, online) que explica que “produtos que atendem necessidades fisiológicas são alvo de conversações nas mídias sociais quando atendem também necessidades simbólicas”, contextualizando – e abrangendo – essa argumentação a um universo maior de conversação, que não envolve apenas produtos, mas a sociabilidade digital como um todo. No final da história, essas incongruências começam a se tornar ainda mais conflitantes para a personagem principal, num contexto no qual acho coerente apresentar um conceito de Giddens abordado no artigo em questão:
Em seu argumento, o autor lista seis características principais das relações puras, quais sejam:
1) “em contraste com laços pessoais próximos em contextos tradicionais, a relação pura não está ancorada em condições exteriores da vida social e econômica – é como se flutuasse livremente” (2002, p. 87);
2) “a pura relação é buscada apenas pelo que a relação pode trazer para os parceiros envolvidos (…) é precisamente neste sentido que a relação é ‘pura’” (p. 88);
3) “a relação pura é reflexivamente organizada, de modo aberto e em base continua”. (p.89);
4) “o ‘compromisso’ tem um papel central nas relações puras” (p. 89);
5) “a relação pura enfoca a intimidade, que é uma condição principal de qualquer estabilidade de longo prazo que os parceiros logrem atingir” (p. 91) e;
6) “a relação pura depende da confiança mútua entre os parceiros, que por sua vez se liga de perto à realização da intimidade. (…) a confiança não é e não pode ser tida como “dada”: como outros aspectos da relação, deve ser trabalhada – a confiança do outro precisa ser ganha” (p. 92).
Sob essa perspectiva de Giddens, é essa questão da relação pura que escancara as rachaduras do novo “relacionamento” do casal. Estendendo-se nessa ideia, Sá e Polivanov (2012) explicam o conceito de self-disclosure de Baym no qual “a necessidade de ‘abertura’ para com a figura do outro de forma a mostrar-se como sujeito ‘crível’, ‘verídico’ e passível de se tornar confiável” é traço fundamental para a relação pura. No entanto, esse argumento poderia ser rebatido com o fato de que, nos sites de redes sociais, temas como sexo não são realmente expostos, mas em outros canais como e-mail, mensagens instantâneas, etc., poderiam ser. É aí que entra uma questão mais subjetiva, na qual a quebra de expectativa que prejudica o relacionamento e auxilia na quebra de sentido que a narrativa de machine learning construíra para Ash acontece porque o “eu” construído não é total, ou seja, não corresponde à compreensão de Martha do que seu marido, enquanto sujeito plural, apresentava ser. Uma das últimas cenas, bastante emblemática, quando, depois de passar por todos esses conflitos, ela desabafa e pede que ele se destrua – jogando-se de um penhasco – exemplifica sua “limitação” identitária.
Imagem: Netflix
No entanto, retomando minha argumentação no sexto parágrafo sobre narrativas e plataformas, confesso que sou um pouco cético sobre essa limitação ser um aspecto exclusivo de plataformas e dispositivos de comunicação mediada por computador. Como também mencionei anteriormente, a construção da identidade é feita no discurso, na narrativa, é uma construção linguística. Entretanto, a meu ver, a própria língua enquanto instrumento comunicacional é limitante ao tentar fixar (e representar) a identidade. Ou seja, a identidade, nesta minha linha de raciocínio, é múltipla, flexível, contínua, inconstante, etc. demais para que alguma ferramenta comunicacional seja capaz de narrá-la em sua plenitude. Por isso tenho a interpretação de “presentation” em Goffman (graças a minha querida prof. Ana Lúcia Enne), como aquilo que se presentifica, que pode vir a ser (um devir) como mais apropriada para pensar a construção identitária narrada pelos sujeitos.
Para finalizar, gostaria de pedir paciência (e compreensão) caso qualquer uma das minhas ideias apresentadas aqui tenham parecido pretensiosas ou prepotentes. Estou atualizando meu repertório sobre identidade no ciberespaço através de um projeto que tenho desenvolvido no estágio, que tem me proporcionado conhecer vários autores estrangeiros que já trouxeram à discussão esse caráter da sociedade atual. A minha ideia aqui era expor pensamentos, indagações, reflexões e inquietudes sobre o que pude absorver do episódio da série referida, para então trazer para debate e estar sujeito a quaisquer críticas que possam ser pautadas sobre minha argumentação. Espero que tenha sido prazeroso ao leitor e prometo (talvez) retomar as ideias deste post em outros momentos, talvez pelo terceiro episódio da nova temporada da série, que também vai abordar satiricamente a identidade na era das mídias sociais.
Referências bibliográficas
PEREIRA DE SÁ, Simone; POLIVANOV, Beatriz. Auto- reflexividade, coerência expressiva e performance como categorias para análise dos sites de redes sociais. Contemporânea, v. 10, n. 3, set-dez 2012, pp. 574-596.
SILVA, Tarcízio. Necessidades humanas, camadas simbólicas e o monitoramento de mídias sociais. Tarcízio Silva, online, 2015. Disponível em: http://tarciziosilva.com.br/blog/necessidades-humanas-camadas-simbolicas-e-o-monitoramento-de-midias-sociais/.
Aconteceu na semana passada, entre os dias 12 e 16 de agosto, mais uma edição do Social Media Week no Museu da Imagem e Som (MIS) de São Paulo. O evento é uma organização global que ministra conferências e palestras em diferentes países do mundo, como Índia, Reino Unido, Chile, Estados Unidos, Itália, Indonésia, dentre vários outros. A proposta é compartilhar com profissionais e entusiastas da área as melhores ideias e inovações sobre como o universo das mídias sociais – e da tecnologia como um todo – tem mudado a sociedade, os negócios e a cultura contemporânea.
Infelizmente o Brasil é um país de dimensões continentais e milhares de profissionais não têm a oportunidade de comparecer ao encontro para participar das discussões e descobrir melhores práticas de atuação no mercado. No entanto, vários dos palestrantes disponibilizam anualmente o conteúdo de apresentação no Slideshare, site que costumo “exaltar” constantemente pelo seu vasto acervo didático para estudo. Este ano o evento brasileiro foi merecidamente protagonizado pelas mulheres, que puderam compartilhar suas histórias de empreendedorismo através do canal Plano Feminino no blog oficial do SMW. Coincidentemente (ou não), as melhores apresentações que encontrei online são de mulheres que fizeram a diferença. Confira abaixo:
Do real time marketing à comunicação estratégica de contexto – Dani Rodrigues
Sabe aquela questão fundamental de como as marcas devem se adaptar aos ambientes digitais? Acredito que, hoje, a profissional e pesquisadora mais capacitada a responder esse questionamento é a Dani Rodrigues. Eu, fã de carteirinha e um dos frequentadores mais assíduos de suas aulas e palestras, diria que sua fala pode ser compreendida em: análise + estratégia/avaliação/planejamento + criatividade. Além dos slides, recomendo a leitura do capítulo de sua autoria, “Do live marketing à comunicação estratégica de micro-momentos”, que inspirou a palestra e faz parte do e-book Tendências em Comunicação Digital, produzido pelo grupo de pesquisa COM+, da ECA-USP. Quem tiver interesse em aprender mais com ela recomendo o curso “Análise de Dados e BI para Planners”, do IBPAD.
Gestão do Conhecimento: uma ferramenta de gestão necessária às agências de comunicação! – Cinara Moura
Outra profissional que já apareceu no blog em materiais sobre monitoramento e métricas, sobretudo a partir de uma perspectiva de gestão de trabalho, é a Cinara Moura – que também apresentou uma palestra no #SMWSP. A considero a principal referência quando o assunto é gestão de processos e conhecimento, pensando principalmente como extrair o melhor dos profissionais e colaboradores das empresas/agências. Além dos slides, nos quais ela apresenta qual é o valor vital para a gestão de conhecimento nas agências de comunicação, recomendo o e-book de sua autoria, “Social Media: A Operação”, produzido pelo Quero Ser Social Media, no qual ela conceitua algumas questões fundamentais para a otimização de projetos, operações e processos. Há também um curso do IBPAD a quem possa interessar.
Monitoramento de mídias sociais: como construir um portfólio público – Ana Claudia Zandavalle
A apresentação da Ana Cláudia Zandavalle com certeza era uma das que eu mais queria ter assistido – felizmente ela disponibilizou o conteúdo na web para quem, assim como eu, tivesse a curiosidade de responder à inquietação da sua proposta. Referenciando Tarcízio Silva, Mariana Oliveira e Pri Muniz (todos profissionais de inteligência em mídias sociais cujos materiais sobre monitoramento e métricas estão disponíveis online), ela conceituou rapidamente o monitoramento e apresentou algumas das duas possibilidades, trazendo cases de relatórios disponíveis publicamente na internet por agências e profissionais da área. Por fim, mostrou um pouco da metodologia que utilizou para a produção do seu estudo “Acne: não é da idade” (muito útil para quem, assim como eu, deseja elaborar um portfólio de monitoramento de mídias sociais) e deu algumas dicas finais sobre divulgação de conteúdo na web (onde este blog apareceu! uhu!).
Como não cometer gafes sobre questões de gênero e feminismo nas redes sociais – Mônica Duarte Bulgari
Mais do que simplesmente um “guia”, o material da jornalista Mônica Bulgari é uma aula sobre poder de fala, discurso, cultura, gênero e publicidade. É talvez o assunto que mais seja necessário aos cursos e às faculdade de Publicidade e Propaganda e que mais passam batido. É discutir o que matérias das Ciências Sociais vêm discutindo há muito tempo, pensando mídia, poderes hegemônicos, lugar de fala, humor como artefato cultural que reforça representações sociais equivocadas, e muito mais. E ainda recomenda o documentário “O Riso dos Outros”. Uma apresentação mais que necessária, responsável, adaptada ao público do evento, coerente e muito bem explicativa. Recomendo ainda a matéria citada na apresentação, “Machismo é a regra da casa”, que denuncia os absurdos da publicidade brasileira.
Seja um Social Media Hacker e ganhe autoridade – Agnes Pires
Para finalizar, trago a palestra da Agnes Pires, que apresentou algumas dicas fundamentais para todos os profissionais de social media. Confesso que fiquei um pouco receoso com o adjetivo “hacker”, que particularmente considero um pouco supervalorizado em outras titulações do mercado que têm ganhado autoridade nos últimos anos – trata-se de um profissional de mídia inteligente. Entretanto, fui fisgado pela importância dada às outras áreas de estudo como antropologia, cibercultura e psicologia.
Essas são apenas algumas das várias apresentações que o evento ministrou na semanada passada. Abaixo, listo ainda alguns materiais que não dispõem de tanto valor didático no conteúdo, mas que considero de relevância para quem tiver interesse em procurar os profissionais capacitados nos assuntos específicos:
Começo este post avisando que daqui deve sair um misto de diário pessoal (devaneios), artigo acadêmico e publicação para a web. Se tudo encaminhar conforme minimamente organizado na minha mente, esse é o formato já instaurado e que continuar a seguir.
Diante do caos social e político que se estabeleceu no Brasil nesta semana, um dia após o processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, tomei a humilde decisão de associar uma espécie de “adesivo virtual” à minha foto de perfil do Facebook – com o simples fundamento, na minha cabeça, de que “não dava mais para não se posicionar”. Esse pensamento “fácil” se alinha ao fato de que: 1) demonstrei meu apoio a um candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, sendo que não resido atualmente na cidade; 2) mesmo que tivesse demonstrado o apoio a um candidato que simpatizo na minha cidade atual, seria um apoio simbólico, pois meu título eleitoral ainda pertence à cidade onde cresci, no Nordeste. Ou seja, naquele momento, o motivo por trás da minha ação não tinha nenhum valor “efetivo”, apenas simbólico – deixar claro a todos (amigos e desconhecidos) qual é o meu posicionamento político e quais valores estão associados a ele. E aí passei o dia refletindo sobre o assunto.
Trago aqui, portanto, alguns pensamentos, reflexões e devaneios pelos quais passeei durante os últimos dias. Antes de abrir essa porta, no entanto, acho importante dizer que fui atrás de bibliografia que me ajudasse a entender sobre o tema. Quem me conhece, conhece o blog ou já leu a página sobre mim daqui sabe o quanto eu valorizo a compreensão social (da sociedade) estruturada nas metodologias acadêmicas. Aprendi com uma queridíssima professora e não cansarei de propagar que as leituras da universidade (de “humanas”, pelo menos) nos ajudam a entender melhor o mundo em que vivemos. Busquei, portanto, em fontes confiáveis cujo trabalho já tive contato superficial em outros momentos: Raquel Recuero e Fábio Malini. Esses pesquisadores, no entanto, apesar de trabalharem bastante com a questão de política em rede, não abordam o tema pensando a construção de identidade, mas propondo (geralmente) análises de discurso pautado em dados de SRSs. Embora seja um bom ponto de partida para entender o contexto, não atendem à minha demanda.
Também procurei no Google Acadêmico, no Google normal e no Sci-Hub: não encontrei nada que se encaixasse minimamente na minha linha de raciocínio reflexivo. Confesso que a busca não foi tão apurada assim – tivesse menos ansioso para escrever sobre o assunto, talvez teria encontrado alguns materiais que dialogassem comigo de alguma forma. Portanto, peço humildemente ao caro leitor que: 1) caso conheça algum artigo, dissertação, tese ou qualquer produção acadêmica que corresponda aos pensamentos que vou expor aqui, ofereça tais sugestões na seção de comentários – agradeço desde já; 2) perdoa-me pela irresponsabilidade científica – mas lembra que isso é um blog e o formato desse texto já não corresponde às severas diretrizes da academia. Antes de abordar algumas questões relacionadas à construção de identidade em sites de redes sociais (contextualização importante para estruturar as ideias que compartilharei em seguida), trago aqui um trecho do livro “How the World Change Social Media”, que mapeia minimamente a bibliografia – internacional – sobre política e internet:
The immense literature available on the internet and politics, and more specifically on politics and social media, has changed over time. It began with a focus upon the role of the internet in new social movements in the 1990s, and was followed by the problem of digital divides and e-governance, the role of Web 2.0 platforms and user-generated content. Most recent studies have considered the consequences of the affordances of WiFi and mobile media such as smartphones, particularly regarding their role in organising collective political activity. Chadwick and Howard present an excellent volume on the critical debates about the relationship between the internet, state politics and citizenship, while Postill concisely summarises key research in digital politics and the ways in which ethnographic inquiry contributes to understanding the ecologies of protest movements. In the early 2000s there was a distinct sense of optimism around e-governance and e-government, and the potential they offered for bridging the digital divide. The internet and social networking sites were seen to be transforming ‘the public sphere’, a concept associated with social theorist Jurgen Habermas. More recently attention has been turned to the role of social media in organising political action, particularly in the various regional experiences of the Arab Spring. This was in a sense the turning point in such studies, prompted by Morozov’s work on the use of digital technologies for political repression during these events. Since then there has been a growing body of research critical of assumptions that the main role of digital technologies is to increase meaningful democratic participation. However, there is also considerable interest in the use of new media as the basis for alternative forms of collective action, for example research by the anthropologist Coleman on Anonymous and other online political activists.
A publicação faz parte da série Why We Post, um projeto de pesquisa comandado por Daniel Miller da University College London. Assinam, além do próprio, Elisabetta Costa, Nell Haynes, Tom McDonald, Razvan Nicolescu, Jolynna Sinanan, Juliano Spyer, Shriram Venkatraman e Xinyuan Wang, com uma visão antropológica sobre o uso das mídias sociais no Brasil, Chile, China, Inglaterra, Índia, Itália, Trindade e Turquia. Vale lembrar que, além das 11 publicações que serão publicadas até o final do projeto (três já estão disponíveis para download no site oficial), a terceira turma do curso correspondente ao projeto que começará em 31 de outubro na FutureLearn está com as inscrições abertas! Caso você tenha interesse no assunto (não só na temática política, mas pensar as mídias sociais de maneira antropológica como um todo), recomendo veemente tentar fazer o curso – será a minha também terceira tentativa de participar e eu garanto que dessa vez não passa. Mas voltemos ao que interessa…
Como muito bem detalhadamente explica a citação, os estudos sobre política e internet durante as últimas décadas têm observado a temática majoritariamente sobre o viés “tecnológico”, debatendo a funcionalidade das novas mídias digitais enquanto influência política na sociedade. A minha proposta para o post é pensar – e reitero: pensar, refletir, filosofar, sem nenhum compromisso de “responsabilidade” – o assunto política no que tange à construção do sujeito online. Para não dizer que não encontrei nada sobre a temática conforme minha linha de pensamento, compartilho aqui a conclusão do capítulo específico sobre política do livro supracitado do Miller, após uma análise que identifica três problemáticas relativas às normas de relacionamento nos sites de redes sociais, à imposição de monitoramento estatal sobre questões de política nacional em diferentes países e como essas duas coisas causam diferentes abordagens do tópico nas conversações:
In general we have found that, if one turns to ordinary field sites, politics on social media has a much lower profile than we might otherwise have expected. In some cases this may be because it is suppressed, leading to a highly conservative representation of people’s lives and opinions online. In other cases, however, it is because social media is more associated with entertainment and social bonding than with serious issues such as politics.
O problema é que essa conclusão não me atende. Desde 2013 a temática política não tem saído das pautas de conversa dos sites de redes sociais no Brasil, como corroboram vários – centenas? – de artigos acadêmicos que fizeram questão de abordar o assunto nos últimos anos. Só coloquei esse trecho para reforçar que eu procurei, sim, bibliografia sobre a dinâmica da qual o post trata. Na verdade, a citação me permite puxar um gancho que já tinha passado pela minha cabeça e trago aqui para começar a teorizar (irresponsavelmente) sobre alguns desdobramentos da temática; eu compartilho com o pensamento do campo dos Estudos Culturais que reconhecem a cultura como arena de disputas onde se travam as principais lutas políticas e sociais. Muitos autores também abordam esse tópico falando não (apenas) de cultura, mas também de discurso: Bahktin, Certeau, Bhabha, Hall e o próprio Foucault para falar de relações de saber e relações de poder. O que quero dizer é: quando falamos de política, falamos de cultura; quando falamos de cultura, falamos sobre disputa e relações de poder (política).
E aí precisamos resgatar Hall em “A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo” para entender como o debate entrou em pauta. No texto, ele explica que a cultura, desde o seu sentido mais amplo (produção de hábitos, valores, tradições, etc. que todo grupo social tem), é fundamental. No entanto, é a partir do século XX que a ela se torna uma problemática para o homem ocidental – quando, por volta da década de 50 e 60, torna-se central e substancial, numa espécie de revolução cultural que materializa a cultura, onde não há como escapar da discussão a que a cerca. Nesse contexto, quatro eixos da vida contemporânea podem ser compreendidos como condicionadores de sua substancialização: a expansão dos meios tecnológicos (cultura das mídias); a cultura e a globalização (multiculturalismo); cultura e cotidiano (o materialismo da sociedade de consumo de bens culturais); e cultura e identidade (subjetividades), o sujeito social e o sujeito eu.
Esse quarto eixo é o que mais me interessa no momento e que, de certa forma, abarca o contexto social que vivemos hoje – a ascensão individualista do sujeito e sua construção simbólica (identidade). Não é por acaso que essa “virada cultural” acontece também numa época onde há um levante forte de movimentos sociais (negros, mulheres, LGBTs) que atuam nesse dualismo entre sujeito e coletivo – é preciso se reconhecer individualmente enquanto homossexual, por exemplo, enquanto também faz-se mais que necessário compreender o grupo no qual minhas vivências e experiências de vida são contempladas. Sobre isso, trago mais uma explicação acerca do pensamento de Hall que ajuda a desbravar as ideias:
Hall partilha da idéia de que a identidade não pode ser tomada de forma cristalizada, mas sim como um processo. E propõe duas maneiras de se pensar a “identidade cultural”, que aqui tomo como referência para a identidade social. A primeira posição, diz ele, define identidade cultural nos termos de uma cultura partilhada, criando um tipo de pertencimento verdadeiro e coletivo. Seria, portanto, uma construção de identidades por um partilhamento de interesses e visões. No entanto, existiria uma segunda via, que trabalhará a partir das diferenças, do reconhecimento de um com outro, com quem se estabelecerão relações conflituosas e por vezes complementares. Portanto, para o autor, é impossível pensar a construção das identidades como resultante somente de partilhamentos de pontos comuns, ou do estabelecimento de contrastes e oposições. A produção da identidade, enquanto processo, deve conter os dois eixos ou vetores, como ele mesmo chama. (ENNE e LACERDA, 2011)
Em “A identidade cultural na pós-modernidade”, dialogando com Giddens e Bauman, Hall também vai ratificar o caráter multifacetado e fragmentado das construções identitárias na contemporaneidade. Esse discurso é complementado por Goffman que afirma “que todos performatizamos aspectos das nossas identidades, atuando de modos diversos em diferentes meios sociais e para diferentes públicos”. Ou seja, é tudo encenação – e aqui é mais do que necessário remover qualquer valor de julgamento que englobe a palavra maneira pejorativa; mas se nos construímos na interação com o outro, é no mínimo compreensível que vivemos de performance(s). No ciberespaço, de maneira bem mais controlada (em todos os sentidos), “os atores sociais optam por tornar visíveis e ocultar determinados conteúdos nos sites de redes sociais, em um processo marcado pela escolha em grande medida consciente e refletida sobre os materiais apropriados em seus perfis” (POLIVANOV, 2014).
Trata-se, portanto, de uma construção discursiva performatizada, dirigida para uma audiência (imaginada) (BOYD, 2011), que permite sua autoapresentação e interação com outros nesse lugar, sempre atravessada pelos discursos de outros atores com os quais interage (BERTO E GONÇALVES, 2011). […] Os perfis dos atores no Facebook são personas […] no sentido de serem construções ou versões de si que os atores sociais – com mais ou menos cuidado e nível de autorreflexão – elaboram (e reelaboram constantemente) performaticamente, selecionando comportamentos e materiais de acordo com a impressão que querem causar à sua audiência em determinado momento.
As pesquisas de Miller (2011) e Polivanov (2012), embora tenham uma consideração semelhante de que há, nesses ambientes, uma busca por sociabilidade e expressão de si, não chegam a discutir/abordar conteúdos de teor político como estratégia também na construção da identidade online – talvez pelo “distanciamento” dos objetivos de pesquisa desse tema. A lacuna, portanto, fica aberto para que pensemos juntos como esse conteúdo é ativo pelos atores sociais e por quais motivos são acionados de tal maneira. Sabendo que a visão política é um marcador tradicional de identidade (PEMPEK, YERMOLAYEVA e CALVERT, 2009 apud POLIVANOV, 2012) que, assim, como religião, idade, renda, orientação sexual, etc., eram informações consideradas para as gerações anteriores extremamente pessoais e particulares (LIVINGSTONE, 2012 apud POLIVANOV, 2012), o que significa para os indivíduos – enquanto sujeitos que criam suas identidades pluralmente – entrar nesse novo campo de esfera pública e travar as disputas que alavancam?
Para responder a essa pergunta (talvez o principal motivo de ter feito esse post), vou recorrer a uma teoria minha que explicarei brevemente e num outro momento pretendo escrever sobre aqui no blog. Antes, novamente, peço licença aos mais academicistas para deixar de lado as citações (nem tanto), o aporte teórico e, como já citado anteriormente, a responsabilidade científica dessa(s) teoria(s). Estou falando enquanto personagem desse contexto através da minha compreensão de mundo, sem me preocupar com qualquer discussão coletiva acerca dessas problemáticas – poderia, por exemplo, conduzir entrevistas com algumas pessoas para obter um respaldo metodológico que me permitisse basear com mais critérios os argumentos que apresento. No entanto, ratifico porque sinto que preciso ter (pelo menos) essa responsabilidade: é um devaneio pessoal e particular, a partir de preposições sociais e culturais que me atravessam, é claro, mas não mais que isso.
Logo, voltemos ao momento quando decidi apoiar simbolicamente um candidato à prefeitura do Rio de Janeiro. Como já mencionei anteriormente, a minha decisão para o ato foi completamente pautada no outro: queria mostrar às pessoas quais valores eu compreendo enquanto cidadão para uma política pública responsável. No entanto, como os próprios autores que mencionei aqui no post, esse jogo identitário se dá tanto no campo coletivo quanto no campo pessoal. No primeiro, recorro a recursos imagéticos de significação que precisam ser compreendidos pelos demais para que seja feita a associação desejada entre os valores e a pessoa. No segundo, a minha própria decisão de fazer isso deve corresponder aos meus processos de experiência de vida que me atravessaram durante todos esses anos, correspondendo à minha compreensão de mundo e como ela fez morada em mim para que eu pudesse então compartilhar com os outros o que isso significa para mim.
Mas, afinal, por que recorrer a essas estratégias de construção de identidade (que, como mencionado, antes não eram colocadas em discussão) quando podemos buscar ferramentas midiáticas mais fáceis para assim a fazermos? A resposta é bastante diplomática: uma não exclui nem abdica da outra. E aí retomo novamente Hall para ratificar o perfil multifacetado das identidades na contemporaneidade, além da “virada cultural” que pôs no centro das discussões tudo que engloba cultura enquanto a compreendemos. Por mais que os editoriais de revistas e outros produtos midiáticos insistam em dissociar política e cultura (isso por apreender cultura numa fusão iluminista e romântica, na qual o passado é venerado para a iluminação espiritual do indivíduo), enxergo que as duas forças nem deveriam ser chamados de campos distintos, uma vez que estão completamente entrelaçados.
É de se esperar, então, que, quando surge um “novo” espaço cibernético de sociabilidade, todos os trâmites culturais ocupem esse novo ambiente. As arenas de disputa de significado e significação, portanto, também estão projetadas nesses espaços online – por isso as “brincadeiras” (sic) de denúncia social são tão importantes quanto às mobilizações off-line, porque os sites de redes sociais tornaram-se locais de luta de significado que interferem diretamente na cultura de um grupo enquanto nação. Esse embate reflete também a construção de personas dos indivíduos online, que cada vez mais são estimulados a entrarem nesse campo de debate e tomarem uma posição (arriscada ou não) política de assuntos sociais. É o que fazemos quando compartilhamos textos, imagens, vídeos de veículos com editoriais detalhadamente localizados politicamente, grupos/coletivos de movimentos sociais ou pessoas que compartilham dos nossos valores. A luta também acontece no campo discursivo.
Para fechar, lembro a todos que a minha adesão foi feita (embora o conteúdo que eu compartilho já revelasse meu posicionamento) através da foto de perfil, o que implica em mais algumas discussões sobre o assunto, conforme a própria Polivanov (2014) destaca no seu estudo. No mais, agradeço a todos que chegaram até aqui e peço desculpas por qualquer inconveniência de irresponsabilidade científica no texto – sim, toco nesse ponto novamente porque sei como as pessoas da internet são estimuladas a expor o erro do outro. No mais, espero que a reflexão tenha feito sentido e que agregue ao pensamento de quem chegou até aqui – estou mais que disposto a trocar ideias sobre o assunto seja nos Comentários ou em outro local mais privado.
Referências bibliográficas
COSTA, Elisabetta; HAYNES, Nell; MCDONALD, Tom; MILLER, Daniel; NICOLESCU, Razvan; SINANAN, Jolynna; SPYER, Juliano; VENKATRAMAN, Shriram; WANG, Xinyuan. How the World Changed Social Media. UCL, 2016.
ENNE, Ana; LACERDA, Andressa. Gírias, hibridizações, negociações, negações: o discurso como objeto e lugar de disputas na arena da cultura. ENECULT – Salvador, BA, 2011.
HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Porto Alegre: Educação & Realidade, 1997.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2005.
POLIVANOV, Beatriz. Dinâmica identitárias no Facebook: estratégias de publicização e ocultamento de conteúdos. XII Congreso ALAIC, 2014.
POLIVANOV, Beatriz. Dinâmicas de autoapresentação em sites de redes sociais: performance, autorreflexividade e sociabilidade em cenas de música eletrônica. Niterói, RJ, 2012.
“Quanto custa um bom curso de mídias sociais?” é uma pergunta frequente nos grupos sobre social media do Facebook. De alguns anos pra cá, vários cursos têm se consolidado no mercado enquanto referências para profissionais começando ou buscando capacitação em diferentes campos de mídias sociais – destaco aqui o Quero Ser Social Media e o Atlas Media Lab, além do novato IBPAD – e isso é ótimo para a nossa área. No entanto, embora o mapeamento que eu tenha feito no Estudando Social Media tenha resultado em ótimas experiências enquanto aluno, posso dizer que há boas oportunidades também para aqueles que não conseguem desembolsar tanta grana para cursos livres sobre monitoramento, data intelligence, etc. – ou para quem simplesmente deseja expandir seus conhecimentos.
No primeiro post que fiz sobre o também primeiro curso que estou fazendo no FutureLearn, contei um pouco sobre o site: trata-se de uma plataforma de MOOCs (Massive Open Online Course), um ambiente virtual de educação à distância que oferece diversos cursos gratuitos para pessoas de todos os níveis de graduação. As aulas são liberadas semanalmente e os alunos podem concluir os estudos no seu tempo – a única implicação (além de perder a discussão com os colegas) é que aqueles que desejam fazer a inscrição têm apenas até a última semana “oficial” a partir do início do curso para que assim a faça. Portanto, para ninguém perder boa oportunidades, separei alguns cursos sobre big data, data analysis, social media e marketing digital que achei que poderiam ser úteis para profissionais de monitoramento e métricas – mas também para quem trabalha com social media de uma maneira geral.
Embora não tenha realizado nenhum dos cursos abaixo, tenho algumas considerações (e indicações mais veementes) a fazer: 1) os três primeiros cursos fazem parte do programa Big Data Analytics da Queensland University of Technology (QUT), mesma universidade que ofereceu o curso de Social Media Analytics que estou fazendo; 2) o curso de linguística de corpus é altamente recomendado pelo Tarcízio Silva; 3) por fim, é a terceira turma do curso da UCL com Daniel Miller e cia. sobre antropologia da social media este ano, provavelmente a última – vamos todos fazer juntos?. Vale ratificar que há diferentes níveis de aprendizado e conhecimento antes mesmo de começar cada um dos cursos – os seis primeiros, por exemplo, exigem do aluno um repertório maior e mais aprofundado sobre estatística, programação, etc. – mas tem para todos os gostos!
Resumo: “Everyone has heard of big data. Many people have big data. But only some people know what to do with big data when they have it. So what’s the problem? Well, the big problem is that the data is big—the size, complexity and diversity of datasets increases every day. This means that we need new technological or methodological solutions for analysing data. There is a great demand for people with the skills and know-how to do big data analytics.”
Resumo: “Have you ever wondered how mathematics can be used to solve big data problems? This course will show you how. Mathematics is everywhere, and with the rise of big data it becomes a useful tool when extracting information and analysing large datasets.”
Resumo: “Data visualisation is an important visual method for effective communication and analysing large datasets. Through data visualisations we are able to draw conclusions from data that sometimes are not immediately obvious, and interact with the data in an entirely different way.”
Resumo: “Over the past years, more and more people have turned to data for help. Huge amounts of data are collected every day from millions of sources. This data has a lot to tell us! But data by itself is mute—it can only help us if we learn to make it speak and tell its story. In this short free online course, we will introduce basic ideas about collecting data, and techniques for turning data into information we can use.”
Descrição: “The course focuses on data exploration and discovery, showing you what to look for in statistical data, however large it may be. We’ll also teach you some of the limitations of data and what you can do to avoid being misled. We use data visualisations designed to teach you these skills quickly, and introduce you to the basic concepts you need to start understanding our world through data.”
Descrição: “This hands-on course will teach you how to write your own computer programs, one line of code at a time. You’ll learn how to access open data, clean it and analyse it and to produce visualisations. You will also learn how to write up and share your analyses, privately or publicly.”
Resumo: “The course aims to: equip those taking the course with skills necessary for collecting and analysing large digital collections of text (corpora); provide educational support for those who want to use the corpus method; demonstrate the use of corpus linguistics in the humanities, especially History; give a sense of the incredibly wide uses that corpora have been put to; allow those with an interest in language, who have not heard of the corpus approach before, a new way of looking at language; demonstrate that corpus approaches to social science can offer valuable insight into social reality by investigating the use and manipulation of language in society.”
Descrição: “This free online course is based on the work of nine anthropologists who each spent 15 months in fieldsites in Brazil, Chile, industrial and rural China, England, India, Italy, Trinidad and Turkey.”
Descrição: “This short course introduces you to exciting new concepts and applications of digital marketing. It takes an informal “story telling” approach, encouraging you to share your own stories as consumers and/or marketers for the benefit of the learner group as a whole.”
Descrição: “This free online course will introduce you to the rapidly evolving world of digital marketing and the role it plays in driving awareness and sales for online businesses. We will go on a customer journey together, to discover how people use digital to search, engage, review and buy.”
Na semana passada dei início à “série” de posts sobre um novo curso que comecei a fazer no FutureLearn. Se você acabou de chegar, explico: realizado pela australiana Queensland University of Technology, no Digital Media Research Centre, trata-se de um ambiente virtual de aprendizado – ou MOOCs (Massive Open Online Course) – onde qualquer um com acesso a internet e conhecimento da língua inglesa pode participar. O curso em questão, Social Media Analytics: Using Data to Understand Public Conversations, comandado pelas pesquisadoras Jean Burgess, Axel Bruns e Tim Highfield, começou no dia 18 de julho – com duração de apenas três semanas – e continua com as inscrições abertas até dia 6 de agosto (creio eu, já que é quando termina a última semana). Caso tenha interesse, vale dar uma olhada no primeiro post que fiz sobre ele, onde descrevi a primeira etapa de aprendizado e apresentei mais informações institucionais.
SEMANA 2
A primeira atividade dessa segunda semana foi divulgada, na verdade, só na sexta-feira: a professora Jean Burgess e o professor Axel Bruns responderem algumas perguntas que os alunos fizeram durante os últimos dias nos “fóruns” de discussão. Eles explicaram o motivo da escolha das ferramentas que utilizamos no curso (com foco no Tableau), falaram um pouco sobre as limitações de pesquisa no Facebook (comparado ao Twitter) e comentaram sobre algumas questões específicas da prática das atividades que fizemos. Um ponto que eu gostaria de trazer à tona desse Q&A, retomando um tópico da última semana, é sobre a provocação de que o Twitter estaria ficando “menos sociável”. Em resposta a uma colega da turma, a profª. Jean explicou o que eu tinha pontuado no outro post – porém não tinha a base teórica para sustentar minha compreensão – sobre os embates de significados com relação à palavra “sociabilidade”:
Jean, there has been discussion in the first week about sociability and what we mean by social media, in response to your post on Medium. Could you tell us how you understand social and sociability?
Jean: Yeah, the term social is often used interchangeably with sociability. But they actually have two different meanings and in sociology, sociability has a specific meaning. So we can talk about social media in terms of something that brings people together and they interact without thinking about the value of that or whether it’s a positive or negative experience. Sociability carries with it the idea of playfulness and pleasure and cooperation. So the idea of a sociable social media environment is where people actually enjoy themselves, interact in a positive and constructive way with each other and contribute to building society through their interactions on the platform.
A conversa com os professores em vídeo foi importante para sentirmos as suas presenças no curso, mas não foi muito aprofundada em termos teóricos e/ou de discussão – foram apenas 7 perguntas respondidas e cerca de 10 minutos de vídeo. Acredito que esse formato se encaixe no modelo “rápido” do curso, uma vez que a discussão e o debate acadêmicos sobre alguns assuntos que já vimos na primeira semana seja extensa e mereça uma abordagem mais estruturada para dar conta de tamanha complexidade. Aliado a isso, tem o fato de que, diferentemente da primeira semana, essa segunda etapa do curso foi bem mais mão-na-massa – ou hands-on, para usar a expressão que eles usam – o que, a meu ver, mais uma vez reflete a proposta do curso: o objetivo é oferecer aos alunos conhecimento e habilidades práticas para começar o seu trajeto na análise de dados voltada para sites de redes sociais. Isso não diminui, em nenhum instante, a sua qualidade, apenas se adéqua ao formato disponibilizado pelo próprio FutureLearn. Dito isso, continuemos com o conteúdo programático.
Depois de conhecermos, na semana passada, o TAGS, fomos apresentado ao Tableau – “um programa de análise e visualização de dados que te ajudará a analisar e compreender toda a informação coletada”. Muito do que aprendemos nas atividades desta semana – praticamente tudo, na verdade – foram ensinamentos iniciais sobre a utilização desse programa. Para o post não ficar muito grande (e até porque acredito que ainda não tenho conhecimento suficiente para escrever sobre o assunto, mesmo já tendo aprendido algumas coisas – mas não quero ensinar nada errado), vou compartilhar aqui somente o que nos foi proposto a executar na ferramenta com os dados que coletamos do TAGS. Quem tiver interesse em conhecer mais do Tableau (com mais detalhes práticos), há uma página específica de treinamento e tutoriais no site deles com vídeos que ensinam vários passo-a-passos para todos os níveis de conhecimento – que eu mesmo devo conferir com mais calma em breve e, se possível, compartilho alguns aprendizados também aqui no blog.
Antes de entrar nessa parte mais prática, no entanto, acho válido colocar em pauta um pouco da “breve” parte teórica que vimos nesta semana. Como eu já tinha mencionado antes: embora o FutureLearn indique a carga-horária de 3 horas necessárias para a conclusão das atividades semanais, se você quiser dar conta de todos os níveis de informação (atividades, artigos, comentários, etc.), você provavelmente precisará de mais tempo. Com isso em mente, tomei a consciente decisão de abrir mão da discussão com meus colegas de turma para conseguir ler alguns dos artigos propostos por Burgess e Bruns. O primeiro, Twitter Hashtags from Ad Hoc to Calculated Publics, de autoria dos próprios, traz um apanhado interessante sobre o contexto das hashtags no espaço e tempo – pensado em mudanças técnicas, reapropriações, etc. – que nos ajuda a pensar a análise prática mais pra frente. Eis alguns pontos que achei interessante ratificar e trazer para a discussão:
Sobre características de hashtags
A hashtag é como um mecanismo gerado por usuários para etiquetar e coletar tweets que são relacionados a algum tópico específico;
Ela foi decisiva na identidade do Twitter para ser reconhecido como plataforma da criação instantânea de audiências que são formadas, reformadas e coordenadas através de dinâmicas de redes comunicacionais e cuja conectividade social é organizada prioritariamente em volta de questões e eventos ao invés de grupos sociais pré-existente;
Elas nascem de dentro de comunidades do próprio Twitter, sejam através de planejamentos prévios ou consensos rápidos entre os usuários, ou até mesmo de disputas discursivas que acarretam na utilização de hashtags conflitantes;
A discussão em torno de hashtags atua num nível macro do Twitter (Bruns & Moe, 2014), comparado à estrutura mais definida de “personal publics” (Schmidt, 2014) que age dentro do nível meso de seguidores e também à conversação mediada através de replies, num nível micro.
Sobre a história de hashtags
Muitas das técnicas oferecidas e aplicações culturais do Twitter que define seu papel na comunicação pública tão significante foram originalmente inovações criadas por usuários, sendo somente incorporados à arquitetura da plataforma depois de um tempo;
O uso das hashtags nasceu numa proposta feita por Chris Messina, um tecnólogo de São Francisco, em 2007, quando fez um post no seu blog: ‘Groups for Twitter, or a Proposal for Twitter Tag Channels’. Sua sugestão para o uso de hashtags – como conhecemos hoje, criando um sistema de canais etiquetados utilizando o símbolo do jogo da velha para que as pessoas pudessem seguir e contribuir em conversações sobre assuntos de interesse particular – tinha o intuito de “melhorar a contextualização, o filtro de conteúdo e sensação de exploração satisfatória no Twitter”.
Sobre a dinâmica entre hashtags e publics
O que chamamos de “publics”, aqui, pode ser compreendido como audiência; a partir disso, podemos pontuar que a compreensão tradicional de audiência para os meios de comunicação de massa é traduzida num grande grupo de pessoas estranhas que acompanham um conteúdo editorialmente curado por uma instituição comunicacional;
Nos casos das hasgtags, esse cenário muda um pouco – em partes: embora os usuários possam, como um todo, contribuir para a comunicação e conversação entre si, há também uma curadoria da própria plataforma – seja por popularidade ou relevância, a depender das situações – que também norteia o consumo de informação dos tweets.
Sobre a “anatomia” de hashtags
Alguns aspectos podem ser observados em tweets com hashtags que envolvem “crises”: por terem um caráter mais voltado para a intensa e rápida propagação de conteúdo, esses tweets geralmente contêm mais URLs (links, imagens, etc.) e retweets;
Já tweets que envelopam, por exemplo, eventos televisivos, são mais “originais”: são menos URLs e retweets e mais menções originais, uma vez que os usuários já possuem um guia-condutor da conversa e desejam, majoritariamente, expressar uma opinião original/própria sobre o assunto.
A segunda leitura da semana, o artigo “Towards more systematic Twitter analysis: metrics for tweeting activities“, de Axel Bruns e Stefan Stieglitz, já traz um conteúdo mais voltado para a prática dos métodos digitais. Compreendendo métricas como “medidas quantificadas que nos permite analisar, comparar e contrapor dados [do Twitter, para o caso específico do curso]”, somos apresentados a três “níveis” de métricas propostos pelos autores do artigo: como os usuários contribuem para a conversação, como a atividade acontece e o padrão de certos usuários ao passar do tempo. O objetivo aqui é propor algumas métricas básicas que forneçam um suporte de análise que possa crescer e desenvolver outros indicadores mais complexos – ou seja, construir um terreno comum entre pesquisadores que sirva de base inicial. Não vou aprofundar aqui na discussão completa do artigo, pois ele traz tantas funcionalidades importantes para a análise de dados no Twitter que merecia um post sozinho, mas destaco esses principais níveis de métricas:
User Metrics: apresentam geralmente uma cauda longa com um grupo pequeno de usuários sendo mais ativos e tendo mais visibilidade do que o restante dos usuários*;
Atividade: a simples contagem de tweets enviados por cada usuário, o que fornece uma compreensão do seu envolvimento (e comprometimento) com a hashtag;
Visibilidade: o levantamento dos usuários mais mencionados na base de dados apresenta os que são, provavelmente, mais visíveis naquele contexto;
*Aqui é interessante fazer uma comparação, além de entre os indivíduos, também entre esses grupos – no modelo proposto por Tedjamulia, por exemplo, de três grupos: o top1%, top9% e top90%.
Temporal metrics: essa medida ajuda a ter uma visão temporal de como a hashtag foi incorporada pelos usuários ao passar do tempo, o que permite observar, por exemplo, picos de volume ou quedas bruscas de atividade – a partir daí, é possível identificar de maneira qualitativa alguns comportamentos dos usuários e da comunidade como um tempo para determinado período.
Combined metrics: essa métrica permite fazer uma extensão da análise ao assimilar descobertas sobre usuários com descobertas sobre atividade ao passar do tempo – isso pode revelar quem está dominando a conversação em momentos-chave.
Um benefício-chave de estabelecer uma caixa de ferramentas de métricas padrões para a análise de datasets de hashtag no Twitter são as oportunidades aprimoradas para comparação e correlação em torno de uma série diversa de caso de estudos. Tal comparação pode pontuar semelhanças e diferenças em padrões de uso do Twitter, e pode direcionar para a identificação de um número de gêneros comuns de comunicação baseada em hashtag no Twitter; conforme a plataforma e sua utilização evolui, e conforme a base de usuários geral se desenvolve, nós também podemos acompanhar essas mudanças ao passar do tempo. […] Isso demonstra como a abordagem quantitativa para análise de dados do Twitter em larga escala, cujos métodos e métricas que introduzimos aqui torna possível, pode gerar clara evidência de padrões comunicacionais no Twitter.
Outro artigo cuja leitura foi recomendada mas do qual eu não consegui dar conta de ler a tempo foi o “Tweet, Tweet, Retweet: Conversational Aspects of Retweeting on Twitter”, de danah boyd, Scott Golder e Gilad Lotan. A proposta desta etapa era trazer uma compreensão teórica da dinâmica dos retweets na plataforma, uma vez que eles demonstram “qual conteúdo carrega peso na conversação e na comunidade”. O argumento aqui é que essa prática do Twitter tem um valor bastante significativo no universo de interações da plataforma, pensando também como a informação se move com relação a um assunto ou a um problema dentro daquele contexto. No curso fomos apresentado à história de Jerry, um simples fabricante de lâmpadas residente da cidade de Nova York que ganhou uma visibilidade enorme no Twitter graças às fãs do One Direction – você pode conhecer e entender essa história nessa timeline dinâmica criada pelo pessoal da QUT.
Tendo destrinchado minimamente a parte teórica, podemos seguir para o restante da semana: Tableau na prática. Como já mencionei anteriormente, acho que não cabe trazer ao post o passo a passo de como realizei cada uma das atividades (esse acompanhamento foi disponibilizado no próprio curso), mas trago aqui o que criei com a ferramenta – quem tiver curiosidade em saber como foi feito pode deixar perguntas nos comentários que posso orientar mais minuciosamente. Portanto, o que eu fiz, num primeiro momento, no Tableau:
Utilizei a coleta de dados que fiz com a TAGS;
Desenvolvi um gráfico de evolução temporária da hashtag monitorada;
Encontrei (e explorei) os retweets proeminentes da minha base de dados, comparando também esses retweets com tweets de maior “alcance”;
Criei dois gráficos para descobrir quem foram os usuários mais ativos e mais visíveis;
Encontrei os usuários mais “influentes” (com o maior número de seguidores) da minha base;
Já que na semana passada eu ainda não tinha definido exatamente qual seria o meu tópico de estudo para o curso, tive a sorte de “participar” de um movimento que aconteceu no Twitter esta semana em resposta a uma reportagem do cantor Biel. Numa entrevista ao TV Fama, ele proclamou que a repórter que a denunciou por assédio tinha prejudicado muito sua carreira – foi o suficiente para o Twitter entrar em turbilhão e colocá-lo mais uma vez em pauta. Usuários começaram a procurar tweets antigos do cantor com referências racistas, machistas, etc., expondo os absurdos através de retweets e prints que circularam a plataforma e culminou na hashtag: #BielExposedParty. Quando a encontrei nos Trending Topics, já eram mais de 10.000 menções utilizando a hashtag – achei que seria interessante, portanto, juntando a curiosidade à prática, fazer os exercícios do Tableau com essa base de dados que consegui coletar através do TAGS, ferramenta que foi apresentada na primeira semana do curso. Foram 11.149 tweets em 24h de hashtag e o resultado foi esse:
Para além de ter feito essa atividade na prática, acho válido – necessário, na verdade – pontuar algumas observações que podem ser feitas a partir desse simples cruzamento de dados. Podemos compreender, por exemplo, através da análise temporal, que o principal período de adesão à hashtag aconteceu entre às 21h e 23h; podemos também perceber que os retweets tiveram um papel essencial para a disseminação, propagação e viralização da mensagem que a hashtag queria passar (expor o cantor, basicamente) – o volume de tweets originais é muito menor do que o volume de retweets; quando você olha mais afundo para tentar descobrir a crescente exponencial do volume de tweets entre 21h e 22h, consegue encontrar a adesão de algumas contas (@forumpan, @gifboardbrasil e @bchartsbr, por exemplo) que foram essenciais na propagação da hashtag; ao mesmo tempo, os tweets originais também apresentam uma crescente nesse período uma vez que esse é o momento em que as pessoas entram na conversa para conseguir também sua porção de visibilidade na conversação.
Quando olhamos para as menções com o maior número de retweets, podemos fazer uma simples (e estaticamente incorreta, mas aqui vale) dedução que essas contas são bastante ligadas ao mundo pop – uma análise mais aprofundada poderia nos ajudar a compreender como a informação se moveu nessas conversações. Quando comparamos a visibilidade com a atividade dos usuários, percebemos que o uso frequente da hashtag não corresponde a um maior nível de atenção dos usuários; no entanto, vários dos usuários de maior visibilidade também se encontram dentre as menções com mais retweets – o que pode indicar, superficialmente, que estes foram essenciais na circulação da mensagem dentro do universo da hashtag; quando olhamos para alcance dos tweets e usuários mais seguidos, no entanto, observamos que vários dos tweets de maior alcance não necessariamente foram retweets, mas menções originais de usuários com uma grande leva de seguidores.
Vale ressaltar que essa é uma análise bem simples e inicial do cruzamento de dados que foi apresentado no curso. Caberia, sim, um aprofundamento nas discussões e no tema para que pudéssemos desenvolver hipóteses mais concretas e buscar uma compreensão sobre o tema. No entanto, por motivos de tempo, esse estudo mais aprofundado vai ter que ficar para um outro momento. Ainda houve, por fim, mais duas atividades práticas nessa segunda semana de aprendizado, entretanto, por se tratar de um cruzamento de dados um pouco mais complexo e que eu gostaria de tratar com outra abordagem, vou deixar essa parte final para o post da próxima semana – vai ser interessante também porque será possível cruzar com algumas aplicações que devemos fazer no Gephi e tal, então acredito que se encaixe mais na publicação da semana seguinte. Combinado? Novamente, quem estiver fazendo curso ou quem estiver interessado em fazer e queira saber mais, entra em contato comigo. Estou à disposição!