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Introdução à análise de redes sociais online: quais são os principais conceitos?

[Este post faz parte de uma série de resumos comentados do e-book “Introdução à análise de redes sociais online” (2017), de Raquel Recuero]

No post anterior, vimos os precedentes da análise de redes muito antes de chegarmos às redes sociais na internet (ou aos sites de redes sociais). Em resumo, no primeiro capítulo do e-book, Raquel Recuero apresenta as duas teorias metodológicas fundadoras do pensamento de redes: a Sociometria de Jacob Moreno e a Teoria dos Grafos da matemática. São desses pilares que surge a análise de redes sociais, cuja origem pode ser remontada ainda à primeira metade do século XX. Sua popularização nas últimas décadas é justificada pelo aumento de dados produzidos e disponibilizados na plataformização da vida social e também pelo avanço das técnicas (ferramentais) de análise à disposição de pesquisadores.

Outro fundamento teórico importante o qual a autora resume na primeira parte é referente à ideia de (sites de) redes sociais, a partir principalmente do conceito e discussões propostas pela americana danah boyd. A ideia de “públicos em rede” (ou networked publics) traz características específicas dos sites de redes sociais que permitiram também essa proliferação da análise de redes, sendo elas: a persistência (os registros) das interações/conexões, a replicabilidade, a escalabilidade e a buscabilidade. Tudo isso reitera as dinâmicas de audiências invisíveis, colapso dos contexts e borramento das fronteiras entre o público e o privado encontrado nesses públicos em rede que estão na internet.

A ideia de “redes sociais” é uma metáfora estrutural para que se observem grupos de indivíduos, compreendendo os atores e suas relações. Ou seja, observam-se os atores e suas interações, que por sua vez, vão constituir relações e laços sociais que originam o “tecido” dos grupos. Essas interações proporcionam aos atores posições no grupo social que podem ser mais ou menos vantajosas e lhes dar acesso a valores diferentes. […]

O grafo é, desse modo, uma representação de dois conjuntos de variáveis (nós e conexões). Concebendo uma rede social como uma dessas representações, os nós seriam os atores sociais (compreendendo esses atores como organizações sociais, grupos ou mesmo indivíduos no conjunto analisado) e suas conexões (aqui entendidas como os elementos que serão considerados parte da estrutura social, como interações formais ou informais, conversações etc.).

RECUERO, 2017, p. 23.

O segundo capítulo do e-book segue com foco na teoria por trás das discussões, apresentando diversos conceitos importantes (ou, até mesmo, básicos) para a análise de redes sociais na internet. Ela começa de uma concepção mais geral em torno das redes sociais em sua composição representativa, até chegar nos elementos que as constituem: nós (ou vértices) e arestas (ou laços) – cujas conexões entre eles podem representar diferentes tipos de relações sociais. É a partir daí que elenca conceitos como laços fracos, capital social, homofilia, etc. – cada um desses está diretamente ligado à representação das redes “como sociogramas (grafos sociais), que são analisados a partir das medidas de suas propriedades estruturais”.

É importante ter em vista que a representação dos dados não é somente um artifício visual-estético, mas tem fundamentação nas matrizes matemáticas da teoria dos grafos, que estipulam “as relações entre os atores do grupo” e “servem de base para a estrutura geral da rede”. Nesse mesmo sentido, a representação de uma rede é também uma abordagem teórico-metodológica, em que os nós (ou nodos) podem representar coisas diferentes e até distintas. A autora apresenta como exemplo o caso das redes bimodais, em que nós de uma mesma rede podem representar tanto indivíduos quanto categorias ou grupos.

Exemplo de rede bimodal em que os nós representam 1) imagens e 2) labels associadas a essas imagens

– As conexões: laços sociais [e o conceito de laços fracos]

Tão importantes quanto os nós são as chamadas arestas ou laços (ou, ainda, arcos), que indicam a conexão entre os atores – nas redes sociais, pode representar interação, conversação, relação de amizade/pertencimento, etc. Essa agência necessária, ou seja, o “esforço” ou a “ação” que envolve esse indicador é o que levou Mark Granovetter (1973) a propor uma classificação de laços fortes, fracos ou ausentes: ainda no caso de redes sociais, o primeiro estaria associado a relações de maior proximidade e/ou intimidade, “enquanto os laços fracos representariam associações mais fluidas e pontuais”; por fim, aqueles ausentes “seriam insignificantes em termos de importância estrutural ou completamente ausentes”.

Granovetter (1973, p. 1361) define a “força” do laço como “uma combinação (provavelmente linear) da quantidade de tempo, da intensidade emocional, da intimidade (confiança mútua) e da reciprocidade que caracterizam o laço”. Desse modo, presume-se que a quantidade de interações entre dois atores pode representar, assim, a força da conexão, uma vez que conexões fortes requerem maior investimento do que conexões fracas. A partir dessa discussão, podemos observar que os tipos de laço social representam conexões que são qualitativamente diferentes, e é um desafio importante compreender como a estrutura construída através dos dados e da análise de redes pode, efetivamente, representar esse conceito complexo.

RECUERO, 2017, p. 26.

A autora aponta como, na análise de redes (sociais), “as conexões são representadas de modo numérico e direcional, indicando um valor que é relacionado ao ‘peso’ da conexão” – é, portanto, essa métrica que auxilia na identificação dos tipos de laços sociais existentes entre determinados atores. Lembra também que as conexões (ou seja, as arestas) podem ser direcionadas, como no caso de interações (online ou off-line); ou não direcionadas, como no caso de laços de amizade (do Facebook), por exemplo. Esse (não) direcionamento é fundamental para calcular o peso das conexões.

REDE DIRECIONADA (GRAFO DIRECIONADO)

As conexões possuem direção (geralmente representados por uma seta), ocorre quando as conexões estabelecidas não são iguais (ou não têm o mesmo peso) [p. 36]

REDE NÃO DIRECIONADA (GRAFO NÃO DIRECIONADO)

As conexões não possuem direção ou a direção não importa (geralmente representada por uma linha), mostram uma matriz na qual os dados dessas conexões são exatamente iguais entre os dois atores. [p. 36]

Outro conceito também muito importante que está relacionado aos laços (fortes) é o de clusters ou agrupamento, que é “um conjunto de nós mais densamente conectados (ou mais inteconectados) do que os demais na rede”, ou seja, em que as conexões são mais recíprocas. Essa característica fica evidente na estrutura da rede, em que os nós estão mais próximos “ou porque interagem mais (e suas arestas têm um peso maior) ou porque possuem mais conexões entre si do que com os demais nós da rede”. É justamente essa presença de laços mais fortes que indicam, em termos sociológicos, características mais próximas das definições de comunidade.

– Capital social e os valores das conexões

Recuero também parte do conceito de laços sociais de Granovetter (1973) para introduzir a discussão sobre capital social, cujas formas correspondem às vantagens estruturais das quais os atores se beneficiam (informação, intimidade e reciprocidade). A discussão em torno desse conceito, entretanto, é muito mais complexa e extrapola os estudos de redes sociais em seu caráter metodológico, mas o que interessa aqui é o que está no cerne da expressão: se trata de um capital, há tanto negociação quanto acúmulo (de valores, posições, vantagens, etc.), e esses dois aspectos têm relação direta com as matrizes das redes.

Desse modo, “as trocas sociais implicam na construção de valores cuja percepção por parte do grupo também atua na construção de relações de confiança, resultado dos investimentos individuais na estrutura”. A autora aponta que a maioria dos autores concorda, portanto, que o capital social representa um valor associado à estrutura social – “Burt (1992) argumenta que o conceito é uma metáfora para as transação que caracterizam as interações sociais”, enquanto Putnam (2000) separa dois tipos: bridging (pontes ou laços fracos entre atores de diferentes grupos) e bonding (qualidade/força das conexões ou laços fortes num mesmo grupo).

Estar em uma rede social, assim, permite a construção de valores para os atores. Desse modo, as relações sociais são constituídas de trocas através das quais os atores buscam atingir objetivos e interesses, como um sistema econômico. É preciso investir (interagir) na estrutura social para colher os benefícios. Os valores de capital social são, desse modo, associados a normas de comportamento, participação e às próprias conexões que alguém possui, além de vantagens competitivas advindas desses valores. (BURT, 1992, p. 348)

RECUERO, 2017, p. 29.

Na perspectiva de redes, portanto, os laços sociais (e, portanto, sua posição na estrutura) são como a moeda que garantem acesso a determinados bens, como informações novas e diferentes (mais associados a laços fracos) ou confiança e intimidade (mais associados a laços fortes). Essas vantagens são atribuídas não somente aos indivíduos (ou atores), mas para os grupos sociais (os clusters) como todo, que detêm valores próprios entre si. E além da circulação de informação, mais associado ao conceito de capital social nos estudo das redes, há também outros valores disponíveis em negociação.

  • BERTOLINI E BRAVO (2004) – tipologia de níveis de capital na rede
    • Primeiro nível: apropriado de modo individual e relacionado a elementos de laços fracos / tipos: 1) as conexões sociais que os atores possuem, 2) as informações às quais têm acesso e 3) o conhecimento das normas associadas ao grupo que pertencem;
    • Segundo nível: apropriado de modo coletivo e relacionado a elementos de laços fortes / tipos: 1) a confiança no ambiente social e 2) a institucionalização relacionado ao reconhecimento do grupo como tal.

Outro valor também muito importante na perspectiva dos sites de redes sociais é aquele relacionado à popularidade: “é uma concessão, no sentido de que o ator popular concentra mais capital social, em termos de atenção e visibilidade de seus pares, do que outras pessoas não populares”. Fica ainda mais evidente, neste caso, a relação de apropriação e escassez, em que os próprios recursos de vínculos sociais (a serem investidos ou capturados) são também limitados. Recuero retoma o trabalho de Barabási (2003) sobre a presença de conectores (grupos pequenos muito conectados entre si) para complementar o argumento de que todos detemos de capital social, mas a sua lógica própria exige a distribuição desproporcional de recursos.

– Homofolia, [Pontes, Conexões Reduntantes,] Buracos Estruturais e Fechamentos

O conceito de homofilia, de modo simplificado, diz respeito à ideia de que “pessoas mais próximas tendem a ter interesses comuns e padrões de comportamento semelhantes”, seja isso tanto efeito quanto causa. Ou seja, um grupo social pode ser identificado enquanto tal justamente por agregar pessoas “parecidas”, o que resulta “no fato de que esses atores tendem a ter acesso às mesmas fontes e a circular as mesmas informações”. Essa característica, portanto, também se relaciona ao capital social, “uma vez que pode auxiliar na construção e no fortalecimento dos laços sociais que vão gerá-lo”.

Outro conceito também muito importante nas redes sociais são as chamadas conexões “pontes“, aquelas que se conectam a vários grupos, transitando em círculos variados e aproximando grupos distantes/diferentes entre si. São fundamentais para que as informações circulem na rede, formadas geralmente de laços fracos. O conceito de “buraco estrutural” parte dessa ideia, em que os buracos “representam a ausência de conexões entre dois nós que possuem grupos/fontes informativas complementares ou não redundantes”.

Um cluster geralmente tem conexões redundantes, ou seja, conexões que interligam o mesmo conjunto de nós. Já conexões não redundantes são aquelas que interligam os atores de diferentes grupos. Conexões redundantes o são porque nelas circulam as mesmas informações. Já as não redundantes são aquelas capazes de trazer informações novas para o grupo. Assim, como dissemos, as conexões transmitem informação e estão relacionadas ao conceito de capital social. O buraco estrutural, portanto, representa uma falha no caminho de transmissão de informações, que poderia dar acesso a fontes de informação diferentes para os dois grupos em questão. Desse modo, aqueles atores que fazem a “ponte” (ou mediação) entre diferentes grupos possuem uma vantagem em relação aos demais, pois têm acesso a tipos diferentes de informação, enquanto que os buracos estruturais representam uma desvantagem para os grupos.

RECUERO, 2017, p. 32.

Já a ideia de “fechamento da rede” é o oposto dos buracos estruturais: “é a qualidade associada a todos os nós de uma determinada rede estarem interconectados”. Está associada aos chamados clusters, que são grupos mais fechados entre si (atores que compartilham de mais conexões uns com os outros) – cujo fechamento completo (inteiramente conectado) é chamado de clique, “um grupo em que todas as conexões possíveis existem”. Assim como o conceito de homofilia, pontes, conexões reduntantes e buracos estruturais, também corresponde à noção de capital social por operar no intercâmbio relacional da rede.

– Graus de separação [e estrutura de mundo pequeno]

Vimos na primeira parte que um dos fundamentos da Teoria dos Grafos é o enigma das Pontes de Königsberg, em que foi feito a tentativa de calcular qual era a distância mínima entre dois pontos sem repetir um mesmo caminho. Na perspectiva das redes, isso veio a se chamar de “grau de separação”, ou seja, a distância entre dois nós. As métricas de “caminho médio” ou “distância média” (average path) calculam justamente o caminho médio mais curto entre todos os nós da rede, podendo indicar “o quão interconectada está a rede pelos diversos laços existentes”.

Recuero parte do conceito de grau de separação para falar da teoria de mundo pequeno, que foi apropriada no estudo de redes de modo que “uma rede mundo pequeno é aquela em que um conjunto de nós é aproximado na rede por algumas conexões, que terminam por reduzir a distância (grau de separação) entre todos os nós na estrutura”. A importância aqui está no fato de que nós (ou indivíduos) mais conectados (mais conhecidos) podem diminuir significativamente a distância entre os demais atores da rede.

A estrutura de mundos pequenos, assim, é encontrada em redes sociais e está relacionada à presença de “pontes” entre os vários nós da rede e à redução do “caminho” (path) entre dois nós quaisquer da rede pela presença dessas conexões, que são apresentadas por autores como Granovetter (1973) e Watts e Strogats (1998) como conexões fracas ou associadas aos laços fracos, e portanto, ao capital social do tipo bridging de Putnam (2000), pois permitem que os atores tenham acesso a fontes diferentes de informações

RECUERO, 2017, p. 34.

REDE EGO

A estrutura é desenhada a partir de um indivíduo central, determinando, a partir desse “ego”, um número de graus de separação; [p. 37]

REDE INTEIRA

É mapeada na sua integridade, quando é possível limitar essa rede de modo externo [p. 37].


Recapitulando, neste post (e neste segundo capítulo) vimos os conceitos de: redes sociais, nós/vértices e conexões/arestas, redes bimodais, laços fracos/fortes/ausentes, redes direcionadas e não direcionadas, clusters, capital social, briding/bonding, homofilia, pontes, conexões redundantes, buracos estruturais, fechamentos, graus de separação, estrutura de mundos pequenos, redes ego e redes inteiras. Anotou tudo?

Referências citadas neste capítulo

  • BURT, R. The Social Structure of Competition. In: BURT, R. Structural Holes: the social structure of competition. Cambridge: Harverd University Press, 1992.
  • BERTOLINI, S.; BRAVO, G. Social Capital, a Multidimensional Concept. [S.l.:s.n.], [2004]. Disponível em: http://www.ex.ac.uk/shipss/politics/research/socialcapital/other/bertolini.pdf. Acesso em: 17 out. 2004.
  • BARABÁSI, A. Linked: How everything is connected to to Everything Else and What It Means for Business, Science, and Everyday Life. New York: Basic Books, 2003.
  • GRANOVETTER, M. S. The Strength of Weak Ties. American Journal of Sociology, Chicago, v. 78, n. 6, p. 1360 – 1380, 1973.
  • PUTNAM, R. D. Bowling Alone: The collapse and Revival of American Community. New York: Simon e Schuster, 2000.
  • WATTS, D.; STROGATZ, S. Collective dynamics of ‘small-world’ networks. Nature, [S.l.], v. 393, p. 440-442, 1998.

Introdução à análise de redes sociais online: o que é a análise de redes?

[Este post faz parte de uma série de resumos comentados do e-book “Introdução à análise de redes sociais online” (2017), de Raquel Recuero]

Em abril de 2017, publiquei aqui no blog o texto “A minha saga com redes sociais (ou por que é importante compreendê-las)“, no qual contava um pouco da minha relação com redes sociais enquanto abordagem teórico-metodológica. Nesta época estava começando a escrever meu TCC (sobre identidade nordestina em sites de redes sociais) e tinha acabado de dar início também (como relato no post) ao curso de Análise de Redes para Mídias Sociais do IBPAD. Em dezembro desse mesmo ano, Raquel Recuero lançou pela Coleção Cibercultura/Lab404 da EDUFBA um e-book introdutório sobre análise de redes sociais online.

Três anos depois, muita coisa já aconteceu: apresentei minha monografia com uma metodologia atravessada por análise de redes, ofereci uma palestra em parceria com Toth no Social Media Week SP 2018 sobre o assunto, escrevi três artigos acadêmicos (e um capítulo de um livro no prelo) utilizando redes semânticas e outro com redes de imagens; dentre vários outros projetos que assumi no trabalho com redes de vídeos/canais do YouTube, tweets/perfis, etc. Aqui no blog, também produzi algumas análises “simples” com redes semânticas e de imagens. Mais recentemente, fui responsável por um relatório de influenciadores sobre a COVID-19 no Twitter.

Com certeza o Pedro de 2017, ainda bastante resistente a análise de redes, não esperava que tudo isso fosse (ou sequer poderia) acontecer. E faço essa introdução porque esta série que inicio com este post tem também essa função incentivadora (assim como foi a palestra no SMWSP), para aqueles que têm vergonha de perguntar, que tem medo ou que acham desnecessária (ou demasiadamente “quantitativa”, como era o meu caso) essa abordagem teórico-metodológica. A ideia é utilizar a excelente publicação de Raquel Recuero para a editora da UFBA como fonte teórica e propulsora para uma iniciação ao trabalho de análise de redes para mídias sociais.

É importante salientar que há outra obra, mais completa e publicada por Recuero em parceria com Gabriela Zago e Marcos Bastos em 2015, “Análise de Redes para Mídia Social” (Editora Sulina). O e-book produzido para a Coleção Cibercultura/Lab404 da UFBA é, como o próprio nome já indica, uma introdução à temática, ainda que traga novas referências como fruto da própria experiência de aprendizado constante da autora. Trata-se de uma obra condensada, “uma pequena compilação dos principais conceitos e elementos da ARS” cujo norte “está na busca das aplicações empíricas e no aprendizado pela prática”.

Esse “guia introdutório e simplificado de conceitos, práticas e formas de análise” está dividido em quatro capítulos: 1. O que é Análise de Redes?; 2. Quais são os principais conceitos de ARS?; 3. Quais são as principais métricas de Análise de Redes? 4. Como coletar, analisar e visualizar dados para Análise de Redes?. Os títulos como perguntas reitera a proposta direto ao ponto da obra, em que cada parte do texto é desencadeada conforme as discussões abordadas, “fornecendo as bases para a compreensão de como fazer análise de redes e a seguir, trazendo elementos complementares”. Neste primeiro post, sigamos apenas com o primeiro capítulo.

O QUE É ANÁLISE DE REDES?

O primeiro esforço que a autora faz é o de deixar claro que a análise de redes sociais é uma abordagem para analisar grupos sociais, ou seja, é muito anterior (quase um século) à análise de redes online. Suas premissas metodológicas, com respaldo teórico, têm fundamento (ou raízes) na Sociometria e na Teoria dos Grafos, as quais serão explicadas mais adiante. De modo simplificado, a análise de redes (sociais) é uma perspectiva teórico-metodológica que permite estudarmos estruturas e fenômenos sociais como redes.

“A rede dentro da qual qualquer indivíduo está inserido (ou seu grupo social) é também a responsável por uma grande parcela de influência sobre esse indivíduo. O lugar de alguém na estrutura social advém de uma série complexa de relações, da qual emergem normas, oportunidades e, inclusive, limitações. […] Ou seja, a percepção da estrutura em torno dos atores é fundamental para que possamos compreender também seu comportamento. Além disso, o comportamento individual dos atores reflete-se na rede como um todo, moldando-a e adaptando-a, sendo também, portanto, fundamental para que possamos compreender a estrutura em si.”

RECUERO, 2017, p. 13.

Ela complementa que “a ideia que embasa os estudos das estruturas sociais é aquela de que os indivíduos, os atores sociais, estão inseridos em estruturas complexas de relações com outros atores”. Os grupos sociais (família, escola, trabalho, etc.) os quais nós enquanto indivíduos fazemos parte “têm um papel fundamental no [nosso] comportamento e na [nossa] visão de mundo”, em que as relações que estabelecemos conferem determinadas posições nas redes, que são tanto produto quanto produtora das interações e associações.

– De onde vem a Análise de Redes Sociais?

A origem da análise de redes sociais pode ser creditada a variados campos do saber (numa perspectiva interdisciplinar) no início do século XX, sobretudo a partir da década de 30. A posição da autora a é de seguir com o consenso estabelecido pela revisão literária de que há dois pilares fundadores: a Sociometria e a Teoria dos Grafos, “embora traços dos conceitos possam ser observados em trabalhos muito anteriores”. Sociologia, Antropologia e Psicologia são apenas algumas das disciplinas que, ancoradas na contribuição da Matemática, começaram a esquematizar um método para a análise de redes sociais.

Scott (2001) credita o “nascimento” da ARS como abordagem ao desenvolvimento da Sociometria, que trouxe sistematização analítica a partir de fundamentos da teoria dos grafos. Já o desenvolvimento desse método, o autor atribui aos pesquisadores que, na década de 1930, passaram a estudar os padrões de relações e a formação de grupos sociais como cliques e, finalmente, aos antropólogos que a partir desses elementos começaram a estudar os conceitos de “comunidade”. Para o autor, são essas tradições que vão formar aquilo que, na década de 1960, vai se constituir na tradição dos estudos de análise de redes.

RECUERO, 2017, p. 14.

A sociometria é a denominação dada à abordagem de Jacob Moreno na invenção do sociograma (1930), “a representação da rede, no qual os atores sociais são apresentados como nós, e suas conexões, representadas por linhas que unem esses nós”. Os estudos do psicólogo, com ajuda da sua colaboradora Helen Jennings, tinha como objetivo “medir as relações dos grupos, compreendendo […] como esses conjuntos de atores eram estruturados”. Foi fundamental para direcionar o foco à “estrutura social para que se compreendesse a dinâmica dos grupos”, embora só tenha sido desenvolvida (reabordadas por outros grupos) como análise de redes após a década de 50.

Já a Teoria dos Grafos foi responsável por fornecer “formas mais sistemáticas de medida […]” das estruturas sociais, cuja teorização das redes dispõem as principais métricas para a compreensão das posições dos nós e de sua própria estrutura. É uma disciplina da matemática “que estuda conjuntos de objetos e suas conexões”, cuja origem estaria “no trabalho de Ëuler e na solução que ele propôs para o enigma das Pontes de Königsberg”. Cartwright e Harary teriam sido os primeiros a aplicar grafos à leitura dos sociogramas de Moreno, o que permitiu “que novas perspectivas fossem compreendidas dentro da dinâmica dos grupos sociais”.

Mas se a análise de redes sociais tem sua consolidação em meados do século XX, com sementes originárias datando de décadas antes (até Simmel e Weber, por exemplo), por que há uma crescente popularização dessa abordagem? Recuero credita isso à “ampliação do foco do estudo de grupos pequenos para grupos em larga escala”, fazendo com que novas disciplinas cruzem fronteiras entre as Ciências Exatas e Ciências Sociais e Humanas. Duas justificativas para esse novo contexto da análise de redes sociais possa surgir são: “a disponibilização de dados sociais, especialmente pelas ferramentas digitais de comunicação” e; “o uso de métodos computacionais, que permitiram a coleta e a análise desses dados sociais”.

– Redes sociais e sites de redes sociais são a mesma coisa?

Em julho de 2019, a autora publicou no Medium o texto “Mídia social, plataforma digital, site de rede social ou rede social? Não é tudo a mesma coisa?”, somente dois anos após o lançamento do e-book. Essa é uma pergunta que provavelmente deve continuar sendo feita ainda por muito tempo, mesmo com todos os (constantes) esforços para respondê-la. O problema está principalmente no fato de que, no Brasil, chamamos tudo de “rede social”; no entanto, como a própria discussão da origem das análises de redes sociais já indica, redes sociais são muito “anteriores” aos sites de redes sociais.

O argumento apresentado no e-book parte do conceito primeiro proposto pelas autoras danah boyd e Nicole Ellison em publicação de 2007 (a data é importante para contextualizar o momento pelo qual a internet passava, pensando Facebook, Orkut, etc.) que “algumas ferramentas online apresentam modos de representação de grupos sociais baseados nas relações entre os atores”. Seriam características dessas: “(1) permitir que os atores construam um perfil público ou semipúblico; (2) permitir que esses atores construam conexões com outros atores; e (3) permitir que esses atores possam visualizar ou navegar por essas conexões“.

“Enquanto uma rede social está relacionada à percepção de um grupo social determinado pela sua estrutura (a “rede”), que é geralmente oculta, pois só está manifesta nas interações, as ferramentas sociais na internet são capazes de publicizar e influenciar essas estruturas sociais. (BOYD; ELLISON, 2007) Ou seja, o Facebook, por si só, não apresenta redes sociais. É o modo de apropriação que as pessoas fazem dele que é capaz de desvelar redes que existem ou que estão baseadas em estruturas sociais construídas por essas pessoas […].”

RECUERO, 2017, p. 16.

Sites não necessariamente refletem redes sociais do espaço offline, mas “amplificam conexões sociais, permitem que estas apareçam em larga escala (RECUERO, 2009) e também atuam de modo a auxiliar na sua manutenção”. Pessoas que você conhece (ou conheceu) offline, por exemplo, podem manter uma conexão com você no Facebook devido à facilidade de manutenção desse laço fraco; ou, ainda, pessoas que você não conhece offline podem aparecer no seu news feed enquanto perfil ou até mesmo publicações, devido à característica própria da ferramenta. As redes sociais na internet, portanto, “são outro fenômeno, característico da apropriação dos sites de rede social.”

Outro conceito que Recuero traz de boyd para diferenciar os sites de redes sociais (e, portanto, as redes sociais online) é o de “públicos em rede” (networked publics). “Embora esse conceito não esteja diretamente relacionado com análise de redes, ele auxilia a compreensão de como os sites de rede social influenciam os processos de representação dos grupos“, explica. São affordances que explicitam “elementos que emergem das características técnicas dessas ferramentas e suportam suas apropriações“:

  1. Persistência: interações/conexões dos meios online permanecem no tempo (podem ser recuperadas); o que permite que a conversa seja assíncrona (atores não estão presentes ao mesmo tempo), ampliando “as possibilidades de manutenção e recuperação de conexões e valores sociais”.
  2. Replicabilidade: como as interações/conexões permanecem, são mais facilmente replicadas (podem circular mais rápida e fidedignidamente);
  3. Escalabilidade: a junção de esses dois elementos permite que as informações percorram toda a estrutura de redes (viralidade);
  4. Buscabilidade: devido à permanência (registro), as informações podem ser buscáveis.

“São esses elementos que proporcionam os contextos nos quais podemos perceber como as redes sociais na internet podem ser diferentes em suas apropriações e práticas sociais, e na circulação de informações das redes sociais offline.”

RAQUEL RECUERO

Ainda pensando num contexto mais conversacional (e não de laços estabelecidos, como amigos/seguidores – ou conexões associativas, para utilizar o conceito da própria), Recuero também recupera boyd para destacar as dinâmicas dos públicos em rede. O foco dessas outras características, entretanto, estaria no modo como “influenciam as redes sociais que emergem desse processo”:

  1. Audiências invisíveis: diferente das redes offline, em que a autora argumenta que conseguimos “peceber” com mais facilidade (por ser menor e menos conectada), as redes de SRSs são “imediatamente discerníveis” pelas “audiências que rodeiam as interações no espaço online”.
  2. Colapso dos contextos: ao permanecerem e serem replicadas, deslocamentos de contextos são comuns, o que potencializa a possibilidade de conflitos entre grupos distintos.
  3. Borramento das fronteiras entre o público e o privado: diz respeito à “dificuldade em demarcar espaços que são tipicamente dados nos grupos sociais offline” (família, amigos, etc.), o que “acaba por expor os atores, aumentando a percepção de intimidade e sua participação pela rede”.

– Para que serve a ARS?

Como mencionado anteriormente, a análise de redes sociais tem se popularizado devido a dois fatores principais: “graças ao aumento da quantidade de dados sociais disponibilizados por conta dos usos das ferramentas de comunicação mediada pelo computador” e, também, “por ser uma abordagem bastante propícia para o estudo e a visualização de grandes quantidades de dados”. É nesse contexto que tem sido utilizada em áreas como Comunicação Social e Sociologia Computacional, “para compreender fenômenos associados à estrutura das redes sociais, principalmente, online”.

A autora encerra o primeiro capítulo, portanto, listando os cenários em que a análise de redes sociais pode ser utilizada: 1) estudos das relações entre os elementos da estrutura do fenômeno; 2) estudos nos quais o objeto possa ser estruturalmente mapeado; 3) estudos nos quais o problema de pesquisa foque um conjunto de dados passível de ser coletado e mapeado com os recursos disponíveis. Ela está chamando a atenção para o fato de que nem toda pesquisa cabe uma abordagem de redes, por isso é preciso ficar atento a esses “critérios” básicos e se perguntar: a resposta que eu preciso responder pode ser alcançada com a análise de redes?

Se você quer identificar como o capital social é constituído em determinado grupo, como a informação circula num determinado grupo social ou quais são os subgrupos – ou clusters – dentro de uma grande grupo – ou rede, por exemplo, sim. Se o objeto pode ser mapeado e sua estrutura será visível (os dados são acessíveis), também. Se há a possibilidade de realizar todo o processo, de mapeamento à coleta e posterior análise seguindo as premissas metodológicas da análise de redes sociais, também.

Referências citadas neste capítulo

  • SCOTT, J. Social Network Analysis: Ahandbook. 2. ed. New York: SAGE, 2001.
  • BOYD, D.; ELLISON, N. Social Network Sites: Definition, History, and Scholarship. Journal of Computer-Mediated Communication, [S.l.], v. 13, n. 1, p. 210-230, 2007.
  • BOYD, D. Social Network Sites as Networked Publics: Affordances, Dynamics, and Implications. In: PAPACHARISSI, Z. (Ed.). ANetworked Self: Identity, Community, and Culture on Social Network Sites. New York: Routledge, 2010. p. 39-58
  • BRUNS, A. et al. #qldfloods and @QPSMedia: Crisis Communication on Twitter in the 2011 South East Queensland Floods. Brisbane, Qld: ARC Centre of Excellence for Creative Industries and Innovation, 2012.
  • BRUNS, A.; BURGESS, J. E. Researching news discussion on Twitter: New methodologies. Journalism Studies, Florida, v. 13, 2012.
  • DEGENNE, A.; FORSÉ, M. Introducing Social Networks. London: SAGE, 1999.
  • FREEMAN, L. The development of social network analysis: a study in the sociology of science. Vancouver: Empirical Press, 2004.
  • MALINI, F. Um método perspectivista de análise de redes sociais: Cartografando topologias e temporalidades em rede. In: ENCONTRO DACOMPÓS, 25., 2016, Goiânia. Anais… Campós: Goiânia, 2016. Disponível em: http://www.compos.org.br/biblioteca/compos_malini_2016_3269.pdf. Acesso em: 23 de maio de 2017
  • RECUERO, R. Redes Sociais na Internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.
  • RECUERO, R. A Conversação em Rede: comunicação mediada pelo computador. Porto Alegre: Sulina, 2012.
  • RECUERO, R. Contribuições da Análise de Redes Sociais para o estudo das redes sociais na Internet: o caso da hashtag #Tamojuntodilma e #CalaabocaDilma. Revista Fronteiras, São Leopoldo, v. 16, p. 60-77, 2014.
  • RECUERO, R.; BASTOS, M. T.; ZAGO, G. Análise de Redes para Mídia Social. Porto Alegre: Sulina, 2015.
  • WASSERMAN, S.; FAUST, K. Social Network Analysis: methods and aplications. Cambridge: Cambridge University Press, 1994.

Alguns conceitos básicos para entender a análise de redes em mídias sociais

Se você está na graduação e pretende fazer algum trabalho sobre mídias sociais (seja a atividade final de uma disciplina, uma leitura num grupo de estudos ou até mesmo o próprio TCC), provavelmente vai se deparar com o livro Redes Sociais na internet (2009), de Raquel Recuero. A pesquisadora – como já mencionei nesse outro post – é hoje a maior referência na academia brasileira quando o assunto é sites de redes sociais (e enfatizo o foco nesse recorte específico, já que outros pesquisadores como André Lemos, por exemplo, possui um trabalho extenso sobre cibercultura “em geral” há muito mais tempo – sendo também um nome importante na área).

A sua influência (ou capital social) na academia tem contribuído para que, nos últimos anos, a técnica de análise de redes sociais tenha se consolidado enquanto parte importante do debate nesse ambiente quando o tema é mídias sociais. Junto a ela, o pesquisador Fábio Malini, do Laboratório de estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic/UFES), também tem sido um importante influenciador (e propagador) do tema, muitas vezes expandido o conhecimento científico para fora da academia – como tem feito também o DAPP-FGV. Seguindo nessa direção, blogs como o Na base dos dados, do jornalista Fábio Vasconcellos, têm apresentado para o “público geral” algumas visualizações de rede que também colaboram para a difusão do tema. Além dele, o Nexo Jornal – que faz um trabalho excelente de análise e visualização de dados – também já publicou algumas matérias com redes.

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Grafo da repercussão da gravação de Michel Temer no Twitter – feito por Fábio Malini e equipe do Labic/UFES

Enquanto no jornalismo (de dados) a técnica é cada vez mais legitimada, no mercado a análise de redes sociais ainda é pouquíssima explorada em toda a sua potencialidade. Embora grandes empresas como Sysomos e Brandwatch tenham incorporado a funcionalidade às suas ferramentas de monitoramento, ainda há muito o que ser aprendido e debatido sobre a técnica como inteligência de negócio. No Brasil, o pioneirismo da V-Tracker e da BrandCare – esta sob a orientação de Tarcízio Silva, à época gerente de produto e pesquisador comprometido com a interação academia/mercado – foi importante para que a Stilingue, uma das ferramentas que mais cresce em popularidade no Brasil atualmente, pudesse se destacar sob o mesmo tema. Ainda assim, há um longo caminho a ser percorrido para que as marcas enxerguem valor nesse tipo de pesquisa – o que nem sempre é culpa delas, mas das próprias ferramentas.

Todo esse cenário elucida a necessidade urgente de popularizarmos ainda mais alguns conceitos básicos sobre análise de redes – tanto na academia e no mercado, mas também na sociedade civil como um todo. No outro post que fiz sobre a mesma temática, compartilhei o documento Network Literacy: Essential Concepts and Core Ideas, traduzido para português pelo IBPAD como Iniciação a Redes: Conceitos Essenciais e Principais Ideias, que apresenta as primeiras ideias sobre os estudos de redes. Como também nesse primeiro momento, analisar o mundo através das redes não é algo exclusivo das Ciências Sociais nem muito menos dos sites de redes sociais, sendo um método de pesquisa comum às disciplinas exatas e biológicas há muito mais tempo. Ou seja, pensar (e analisar) as mídias sociais como redes sociais é apenas um tipo de interpretação possível.

Grafo feito pelo jornalista Thiago Barone em jogo da Champions League para avaliar a “ausência” de Messi (clique para conferir a análise)

É importante entender, portanto, que: 1) as “redes sociais”, em seu sentido mais amplo, são muito anteriores aos fenômenos das mídias sociais e/ou dos sites de redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram, etc.) como os quais entendemos hoje – sociólogos estudavam sobre esse tema desde a década de 20, como mencionei anteriormente; e 2) o enfoque sob a prisma de redes sociais para pensar as mídias sociais parte tanto da influência de pesquisadoras relevantes na academia quanto da própria disposição tecnológica das plataformas de sociabilidade digitais, que são em grande parte pautadas no fluxo conversacional e de informações entre os usuários (ou atores) – o que facilita bastante a proposta de análise desses espaços enquanto estruturas de sociabilidade, podendo assim, nas palavras de Raquel Recuero, “observar como a rede existe em relação aos vários elementos que fazem parte dela”.

Então… O que eu preciso saber sobre análise de redes sociais?

O primeiro passo, portanto, é entender o que são redes sociais: no livro “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações”, Tarcízio Silva e Max Stabile trazem o conceito a partir de David Passmore, que explica o fenômeno como uma “estrutura social composta de indivíduos (ou organizações) chamados de ‘nós’, que são ligados (conectados) por um ou mais tipos de interdependência, como amizade, parentesco, interesse comum, trocas financeiras, aversões, relacionamentos sexuais ou relacionamentos de crença, conhecimento ou prestígio”. Ou seja, como o critério condicional é a conexão, tem mais a ver com um modo de enxergar fenômenos sociais do que como um fenômeno social em si. As redes funcionam, portanto, como “artifício cognitivo e científico que permite entender proximidades, similaridades, diferenças, conjuntos e processos de um modo muito particular”.

A análise de redes é um conceito extremamente amplo, oriundo da Teoria dos Grafos, original da Matemática. Já a análise de redes sociais, que é o que nos interessa aqui, trata-se da interface entre esse conceito e as humanidades – fortemente atrelado à Sociologia, e atualmente reforçado nas disciplinas ligadas à Comunicação Digital. Uma vez que a análise de redes “parte do princípio que mais informação pode ser gerada a partir da compreensão de como os elementos de um conjunto estão interligados”, é fundamental compreender a linguagem e o formato que a ARS utiliza enquanto técnica de análise e apresentação/visualização de dados. Para quem não tem nenhuma familiaridade com o tema, segue abaixo um pequeno resumo (ênfase para a redundância) com alguns dos termos/conceitos mais comuns:

  • Rede/Grafo: são as visualizações de atores e suas conexões formadas por nós/vértices e laços/arestas;
  • Nós/Vértices: são os objetos que estabelecem as conexões da rede (podem ser perfis, páginas, sites/blogs ou hashtags – depende do contexto);
  • Laços/Arestas: são as conexões feitas pelos conjuntos de nós (“a definição sobre o que é um laço pode mudar completamente a interpretação de sua rede, afinal, se estamos falando de uma técnica que enfatiza as condições relacionais do seu objeto, você precisa entender o que explica essa relação”);
  • Relações direcionadas: interação que indica um caminho, que possui a intenção de um ator em relação a outro (possivelmente indicada visualmente por setas);
  • Relações não direcionadas: interação sem orientação, que não possui diferença entre a intenção dos atores (por exemplo, uma amizade no Facebook);
  • Redes de co-presença/co-interações: nós presentes numa mesma publicação (comum no caso de estudo com hashtags, por exemplo);
  • Rede de afiliação: são redes cujas definições dos nós ou atores pertencentes são muito distintas entre si (ou seja, não há uma conexão direta, mas ambos pertencem a um mesmo grupo).

Esses são apenas alguns dos termos e conceitos introdutórios para começar a entender a análise de redes em mídias sociais. É importante ratificar que todas as suas explicações partem de um contexto próprio da técnica voltada para o tema das plataformas digitais sociais, já que, como dito anteriormente, trata-se de um método bastante contextual, que precisa ser adequado ao escopo e à disciplina de onde parte a análise. No entanto, esses são alguns dos pontos basilares para começar a entender as análises em geral. Tomemos como exemplo o relatório “Beyond Hashtags: #Ferguson, #Blacklivesmatter, and the online for offline struggle”, desenvolvido pelos pesquisadores Deen Freelon (American University), Chartlton D. Mcilwain (New York University) e Meredith D. Clark (University of North Texas), para entender as definições aqui postas.

Essa rede – ou grafo – mostra o cenário do período 7 da análise, quando foram coletados 5.3 milhões de tweets sobre o tema produzidos por mais de 1 milhões de usuários – para saber mais sobre o relatório e a pesquisa, conferir esse post. Os nós (ou vértices) são os círculos que concentram grupos específicos de usuários falando sobre o tema na época: BLM 1 e BLM 2 são ativistas e/ou usuários simpatizantes ao movimento #BlackLivesMatter, que denunciava a violência policial racista nos Estados Unidos, por exemplo; e os laços/arestas são as conexões estabelecidas entre esses atores, que poderia vir em forma de tweet ou retweet – e aqui vale destacar também o artifício visual (afinar ou engrossar) utilizado para dar peso a essas interações, que também nos ajuda a perceber como o fluxo das conversas/informações estava se estabelecendo diante todo o cenário.

Embora seja um exemplo metodologicamente bastante complexo, a rede acima é relativamente simples para discutirmos essas noções básicas da análise de redes em mídias sociais. A própria visualização dos dados é um fator de extrema importância para a técnica, que se apoia com força na interpretação estrutural do escopo da análise. Ainda assim, conhecer esse termos e conceitos são essenciais para dar conta dos fluxos de comunicação e conexão estabelecidos na internet. A ideia de laços fracos, por exemplo, é fundamental para pensar a facilitação do acesso no ambiente online. A partir dos estudos de Mark Granovetter, pesquisadoras e pesquisadores como a própria Raquel Recuero vão apontar como, no contexto dos sites de redes sociais, a abundância desse tipo de conexão é importante para que haja “pontes” entre atores que seriam essencialmente distintos na rede. Confira alguns outros termos e conceitos importantes abaixo:

  • Grau: é a métrica que indica o número de conexões de um nó na rede;
  • Grau de Entrada: é a métrica que indica o número de conexões recebidas por um nó na rede;
  • Grau de Saída: é a métrica que indica o número de conexões oferecidas por um nó na rede;
  • Centralidade de Autovetor: métrica que analisa a centralidade de um nó através de conexões de outros nós também muito conectados (semelhante à métrica de PageRank, comum no mercado);
  • Centralidade de Intermediação: métrica que calcula os caminhos entre os nós para identificar possíveis “pontes” relevantes na rede;
  • Redes Egocentradas: é um tipo de rede que parte de um nó central e suas conexões;
  • Redes Sociocentradas: é um tipo de rede que com delimitação específica a partir de um recorte “externo”, cujo escopo é “anterior” à própria análise;

Para conferir esses conceitos na prática, vamos observar essa rede interativa desenvolvida pelo IBPAD a partir de um estudo exploratório da polarização política no Brasil através de páginas da Direita e da Esquerda no Facebook. Trata-se de uma rede polarizada, mas poderia também ser compreendida como duas redes sociocentradas, já que foram desenvolvidas a partir de páginas com referenciais explícitos às suas respectivas posições. Na plataforma interativa, ao pesquisar por páginas como CartaCapital e Jair Messias Bolsonaro (as mais referenciadas em seus devidos grupos/clusters), você pode ver os graus de cada uma delas, ou seja, quantas páginas as referenciam, quantas são referenciadas por elas e o total de conexões. Já a página da Folha de S. Paulo aparece com elevada centralidade de intermediação, uma vez que é a ponte entre os dois lados.

No contexto de mídias sociais, esses tipos de métricas são importantes para avaliar a articulação dos nós dentro de uma rede, analisando valores relevantes de influência, autoridade, preferências, engajamento e mobilização. Além disso, a técnica vem sendo legitimada por sua “poderosa capacidade de resumir sem perder o detalhe, e de poder ver o todo sem perder a perspectiva do único”, como explica Tarcízio Silva e Max Stabile no capítulo do livro anteriormente mencionado. E acrescentam: “Com a técnica é possível ter uma visão panorâmica dos dados, seus agrupamentos e suas perspectivas (Malini, 2016), e identificar quais atores e narrativas foram mais relevantes. Ao mesmo tempo, é possível analisar com mais detalhes e construir uma análise completa”.

Para desenvolver esse trabalho, há diversas ferramentas utilizadas por pesquisadores, acadêmicos, programadores, cientistas de dados e profissionais do mercado. No entanto, pelo menos no Brasil, as duas ferramentas mais comuns são a NodeXL e o Gephi – bastante utilizados por Raquel Recuero e Fábio Malini em seus grupos de pesquisa (no mercado, algumas ferramentas plenas de monitoramento já possuem essa funcionalidade integrada, o que pode ser uma mão na roda). Em suma, funciona da seguinte forma: os dados são coletados (através de plugins, das próprias ferramentas, ou de códigos de programação em linguagem R ou Phyton, por exemplo), processados, trabalhados pelos analistas (executando métricas, layouts, etc.) e, depois, divulgados nas visualizações que costumamos ver.

Para quem deseja se aprofundar no estudo sobre análise de redes e aprender na prática como funciona todo esse processo, o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD) lançou neste mês o MOOC (massive online open course) de Análise de Redes em Mídias Sociais. Com os professores Max Stabile, Tarcízio Silva e Marcelo Alves, o curso oferece mais de 90 aulas (dentre vídeo-aulas, artigos, leituras orientadas, tutoriais, estudos de caso e quizzes) para “capacitar os estudantes a coletar, processar, visualizar e interpretar redes baseadas em dados de mídias sociais”. São cinco módulos que passam pelos conceitos, aplicações e histórico do pensamento sobre redes; as particularidades das redes nas mídias sociais; a utilização prática de softwares para a análise e a monetização do trabalho.

Todos os conceitos que apresentei neste post são frutos tanto das aulas do Módulo 1 do curso quanto do capítulo do livro “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações”, também do instituto. Se você tiver interesse em saber mais (e com muito mais propriedade e profundidade) sobre o que discuti neste post – como o conceito de métricas como Tamanho da Rede, Diâmetro da Rede, Densidade, Inclusividade de Rede, Centralização de Rede, dentre outras -, recomendo veementemente esse novo curso. E o melhor: tem um desconto exclusivo para leitores deste blog que vos fala! Basta usar o cupom insightee10ars para garantir a sua vaga com um precinho ainda mais camarada – que já está abaixo do normal por ser a semana de lançamento.

E já que iniciei o post falando da importância de conhecer o trabalho de Raquel Recuero caso você esteja numa graduação (ou pós), posso garantir que o curso também é dedicado para alunos e pesquisadores interessados no tema. Marcelo Alves, que já apareceu neste blog em outro momento, é doutorando na UFF e desenvolve um trabalho fantástico sobre política e redes sociais no Brasil. Aliás, quem quiser conhecer outros pesquisadores, vale dar uma olhada no material 100 Fontes sobre Pesquisa e Monitoramento de Mídias Sociais. Recomendo também seguir o blog Essa Tal Rede Social, que vem fazendo um trabalho bem bacana com ARS. No mais, adquirir o livro Análise de Redes para Mídia Social, de Raquel Recuero, Gabriela Zago e Marco Bastos. Para finalizar, deixo aqui uma série de posts feitas por Tarcízio Silva para introduzir o tema:

Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos

etnografia-consumoFoi lançado na semana passada, dia 25 de outubro, o livro “Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos”, organizado por Carla Barros e Bruno Campanella, ambos professores do PPGCOM e do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense. A coletânea reúne textos de palestrantes que participaram, em setembro de 2015, do Seminário Internacional Etnografia e Consumo Midiático: Novas Tendências e Desafios Metodológicos, e de outros autores com reconhecido interesse em discussões metodológicas relacionadas à pesquisa contemporânea de consumo midiático – dando, assim, continuidade aos debates iniciados naquele momento e expandindo algumas questões importantes ainda não trabalhadas.

“Os textos apresentados na presente coletânea são atravessados por reflexões acerca dessa crescente complexificação das práticas de consumo midiático, assim como das formas de estudá-lo que tomam como ponto de partida as abordagens etnográficas. […] Com o objetivo de enriquecer ainda mais o debate, a coletânea também traz propostas de abordagens metodológicas alternativas capazes de complementar a etnografia. Em suma, o livro busca lançar luz sobre os desafios, oportunidades e dificuldades da abordagem etnográfica na pesquisa dos meios de comunicação, em especial a internet.”

As minhas motivações para adquirir o livro foram três: 1) a organização realizada por dois professores cujo trabalho eu admiro muito (e gostaria que eles dessem mais aula para a graduação, caso venham a ler este post); 2) o assunto etnografia para pesquisa na internet (e em mídias ou sites de redes sociais), um debate que muito me interessa tanto acadêmica quanto profissionalmente; e, 3) a colaboração de Christine Hine, autora que conheci recentemente e que preciso ler mais, de Raquel Recuero, que fez uma proposta interessante para o capítulo que desenvolveu, e de Beatriz Polivanov, também professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídias (curso de Estudos de Mídia) cuja pesquisa eu já citei aqui no blog algumas vezes, com Deborah Santos. Para minha felicidade, ainda fui positivamente surpreendido por textos bem interessantes de outros autores/pesquisadores que não conhecia, superando as minhas expectativas.

A começar pela Introdução escrita pelos organizadores do livro, onde eles reconhecem as transformações sociais e tecnológicas que “criaram oportunidades e desafios na pesquisa da articulação entre meios de comunicação e cultura”, para então desenvolver uma breve – e importante, principalmente para leitores pouco habituados com as discussões da abordagem etnográfica para a internet, como eu – historicização do fenômeno do consumo midiático (“enquanto um sistema de valores”) e, principalmente, da constituição da etnografia na disciplina antropológica. Nesse contexto, ainda elucida a “evolução” dos estudos de comunicação mediada por novas tecnologias, posicionando-se criticamente a algumas leituras que, sob uma nova perspectiva, aparenta ser um pouco inadequada. Ainda assim, abrindo terreno para as contribuições (e discussões) dos colaboradores, reitera:

“Não se compartilha a mesma concepção do que seja a pesquisa realizada no âmbito da internet. Enquanto que para alguns autores a etnografia aparece como uma conjunção de técnicas específicas – primordialmente, a observação participante com a entrevista em profundidade – para outros ela não pode ser reduzida a um conjunto de técnicas, pois sua importância reside no fato de ela ser propriamente uma abordagem. A proposição de polissemia nas mensagens midiáticas encontrada nos estudos de recepção, especificamente, facilitou uma maior adesão às pesquisas de abordagem etnográfica. No entanto, nem todas as pesquisas autointituladas como de “recepção” atendiam aos princípios da etnografia, como a imersão prolongada em campo e a compreensão do contexto sociocultural mais amplo no qual as práticas midiáticas estavam inseridas.”

No capítulo “Estratégias para etnografia da internet em estudos de mídia”, Christine Hine apresenta algumas estratégias para a condução de estudos etnográficos da mídia na era digital. Para isso, ela introduz os novos contextos de formas de sociabilidade na internet (relacionando com a “proliferação de rastros do consumo midiático”) e retoma a discussão das fronteiras entre o on-line e o off-line, tanto sob a perspectiva do usuários quanto sob a perspectiva dos etnógrafos – e, consequentemente, seus desafios. Antes de entrar nessas questões, acho interessante compartilhar algumas considerações feitas pela autora sobre o papel do etnógrafo, principalmente levando em conta aqueles “novatos” na área:

  • “[O etnógrafo] procura alcançar um profundo engajamento com os detalhes confusos contidos naquilo que as pessoas realmente fazem com a mídia na prática”;
  • “seus interesses vão além de momentos de engajamento entre pessoas pré-selecionadas individualmente e textos midiáticos específicos”;
  • “o significado reside não no texto propriamente dito, mas em uma gama de relações sociais que antecedem e, ao mesmo tempo, resultam daqueles momentos de engajamento com o texto”.

Feita essa introdução do contexto e da pesquisa/do pesquisador, ela apresenta o que chama de qualidades da internet nos dias atuais para discutir “três tipos de estratégias que ajudam um etnógrafo a lidar com essas qualidades: abordagens móveis, multilocalizadas e conectivas ao campo; mapeamento, visualização e associação; e uso dos insights autoetnográficos a fim de maximizar a compreensão da internet como um fenômeno sensorial”. Antes, no entanto, ela apresenta uma discussão conhecida de seu trabalho, sobre a internet incorporada, corporificada, cotidiana (embedded, embodied and everyday) – na qual argumenta que não falamos mais em “ficar on-line”, mas vivemos online, incorporamos a internet em “em múltiplas estruturas de construção de significado”. Diz ela:

“Qualquer fragmento individual dos dados derivados da internet é, por isso, passível de ser interpretado de uma série de formas, dependendo dos contextos em que se incorpora e adquire significado […]. Isso apresenta desafios metodológicos significativos para um etnógrafo que deseja descobrir o significado de determinado aspecto da internet para um grupo específico de pessoas. Podemos começar com um foco particular ou uma questão intrigante em mente, mas a imprevisibilidade e caráter escorregadio dessa internet incorporada, corporificada e cotidiana torna muito difícil resolver onde ir para encontrar as respostas e como trazer questões interessantes à luz.”

Hine argumenta que, para que o etnógrafo “desenvolva insights e teste teorias em desenvolvimento através da interação”, seu trabalho não deve ser distante, como um observador que apenas coleta e processa dados de ambientes virtuais, mas participante e engajado com seu foco de pesquisa. “Ser ativo no ambiente permite que o etnógrafo aprenda com a imersão e o questionamento criterioso que encoraja as pessoas a refletirem, em voz alta, sobre suas experiências”, argumenta. À diante, apresenta como as características da internet nos dias atuais pode ser apropriada estrategicamente por pesquisadores para dar conta dos desafios e oportunidades que são enfrentados no trabalho etnográfico. Pensando a “volatilidade” dos grupos sociais online, a massividade de dados à disposição e os processos sensoriais da internet, ela apresenta as seguintes perspectivas:

  • Multilocalizada, móvel e conectiva: o campo de pesquisa é uma construção arbitrária, pré-existente, “construído a partir de uma rede complexa e contingente de interconexões possíveis entre diferentes localidades, e estendida em diversas mídias e formas de interação”; logo, “podemos esperar que o etnógrafo aceite a responsabilidade por construir um estudo que se encaixe em um conjunto particular de interesses estratégicos [para pensar novas comunidades virtuais].”
  • Mapeando, visualizando e associando: uma das principais dificuldades enfrentadas pela etnografia na internet é a abundância de dados; além de delimitar os estudos numa localidade e num período de tempo específicos, a autora propõe defende que “uma visualização ou mapeamento de atividades on-line pode ser muito útil no direcionamento da atenção do etnógrafo para locais de interesse, utilizando técnicas de associação para realizar a ‘topografia de campo’ antes de decidir no que focar em profundidade”.
  • Percebendo, sentindo e refletindo: uma vez que a experiência da internet é um processo bastante individual, o etnógrafo precisa reconhecer as limitações subjetivas da compreensão das diferentes experiências dos indivíduos, no entanto, é possível “tirar vantagem da nossa imersão no campo para refletir sobre o que contém e o que possibilita seus movimentos particulares e suas formas de compreensão”, enfrentando “qualquer tendência residual que tenhamos para tratar o campo como se simplesmente o tivéssemos encontrado e descrito como ele era”.

Na conclusão, admite (e reitera) as dificuldades e os desafios que a prática etnográfica enfrenta e continuará enfrentando com o desenvolvimento das novas tecnologias. Afirma que “não será impossível, mas envolverá um esforço maior na obtenção de dados, construindo e desenvolvendo relações de confiança com os participantes-chave a partir de práticas reminiscentes das etnografias dos tempos pré-internet”. Nesse sentido, compreende que “novas formas de etnografia realizadas tecnologicamente irão inevitavelmente continuar a emergir mas, espero, continuarão em diálogo com os princípios estabelecidos do etnógrafo como uma forma de produção de conhecimento aprofundada, imersiva e criticamente engajada”.

O capítulo “Métodos mistos: combinando etnografia e análise de redes sociais em estudos de mídia social”, de Raquel Recuero, é bem interessante pois discute a aproximação (ou melhor, combinação) de duas abordagens essencialmente distintas para o estudo de objetos decorrentes de mídias sociais, levantando também as vantagens e desvantagens desses métodos mistos. Ao introduzir a análise de redes sociais (ARS), a autora destaca a popularização dessa abordagem no campo dos estudos de cibercultura no Brasil e a justifica pela facilidade de acesso aos dados e pelo próprio caráter estrutural prolífico dos sites de redes sociais, o que favorece uma abordagem na qual as relações interacionais dos atores entre si e com a plataforma são o centro da análise. Explica:

“A análise de redes sociais é uma perspectiva cujo foco pode ser compreendi- do como teórico e metodológico (Wasserman e Faust, 1994). Enquanto a ARS busca estudar os padrões das interações e laços sociais (Wellman, 2001), ela também busca modos de medir esses padrões (Degenne e Forsé, 1999) e visualizá-los (Freeman, 2001). […] Desse modo, a análise de redes sociais constitui-se em uma abordagem relacional, cujo foco é construído nas relações entre os atores, na sua medida e exploração estrutural, a partir de perspectivas interdisciplinares.”

Destrinchando as raízes e premissas básicas da ARS, ela passa rapidamente por algumas questões – e aspectos – importantes desse método de análise: “O grafo é uma representação das relações e da estrutura da rede, que é construído através de algoritmos específicos e em cima de dados obtidos em campo”. Ela explica que, para que seja feita as visualizações das estruturas que auxilia a percepção visual das relações entre os atores, há a aplicação de alguns cálculos matemáticos (métricas de nó e métricas de rede) para avaliar a centralidade dos atores na rede e a estrutura da rede em geral. Nesse contexto, citando Linton C. Freeman, ela destaca quatro elementos que devem aparecer em conjunto na organização da análise estrutural: a intuição estrutural, ou seja, focada nos laços que conectam os atores; a construção sobre dados empíricos coletados de modo sistemático; a base em gráficos e imagens que representam os dados da pesquisa; e a utilização de modelos computacionais ou matemáticos.

Não entrarei em detalhes sobre o que a autora discorre sobre a etnografia virtual porque acredito que a introdução do capítulo de Hine já ilustra muito bem como ocorre, quais são as premissas, dificuldades e vantagens da abordagem etnográfica na internet. Destaco, no entanto, a citação de Gemma Edwards apresentada pela autora, na qual ela explica que as abordagens quantitativas “mapeiam e medem as redes através da simplificação das relações sociais em dados numéricos, onde os laços são ausentes ou presentes”, enquanto as abordagens qualitativas “permitem aos analistas considerar elementos relativos à construção, reprodução, variabilidade e dinâmicas dos laços sociais complexos”. Chegamos, então, à ideia principal de Recuero:

“A ideia é trabalhar com perspectivas metodológicas distintas, tanto quantitativas quanto qualitativas, combinadas de modo a dar conta de um determinado problema de pesquisa. Métodos qualitativos, grosso modo, tendem a focar mais em palavras como elementos descritivos, enquanto os quantitativos, em números; bem como pesquisas mais qualitativas focam perguntas mais abertas, pesquisas quantitativas focam questões fechadas; além disso, pesquisas qualitativas tendem a focar na interpretação dos dados coletados, geralmente no ambiente dos participantes, enquanto as quantitativas tendem a focar em medidas, variáveis e procedimentos numéricos (Creswell, 2014, p. 12). […] Os métodos mistos, por outro lado, constituem ‘uma abordagem para a pesquisa envolvendo a coleta de dados qualitativa e quantitativa, integrando as duas formas de dados e usando desenhos de pesquisa que possam envolver questões filosóficas e abordagens mais teóricas’ (Creswell, 2014, p. 4).”

Para compor sua proposta, a autora apresente algumas questões importantes de aplicação e alguns exemplos de objetos que se encaixem num contexto de pesquisa adequada aos métodos mistos. Para tanto, esses objetos precisam ter: questões de pesquisa relacionais (análise de estrutura das conexões da rede + componente cultural dentro da estrutura); dados passíveis de coleta/captura para análise de rede de forma manual ou automática; questões apropriadas para atender a objetivos da ARS e da etnografia. “Enquanto a análise de redes se ocuparia com a estrutura do grupo, a etnografia focaria as práticas culturais emergentes dessa estrutura”, explica, trazendo como exemplos: grupos sociais determinados e suas interações on-line, grupos sociais constituídos diante de discursos/conversações específicas e estudos sobre informação e difusão de práticas culturais. Em seguida, ela apresenta alguns modelos mais comuns de uso de métodos mistos, elencados:

  • Métodos mistos convergentes e paralelos: “os dados são coletados de modo qualitativo e quantitativo geralmente ao mesmo tempo e convergem ou são misturados na análise”; o objetivo é a complementariedade dos dados para a análise.
  • Métodos mistos explanatórios sequenciais: “há primeiro a condução de uma pesquisa quantitativa, cujos resultados servem de base para uma pesquisa qualitativa”; o trabalho qualitativo expande e aprofunda as questões do trabalho quantitativo.
  • Métodos mistos exploratórios e sequenciais: “a abordagem qualitativa vem primeiro e, nessa primeira fase, são constituídos elementos que servem de base para a abordagem quantitativa posterior”; útil quando as variáreis mais importantes para análise são desconhecidas.

Nas considerações finais, Recuero ratifica que, dentre os benefícios da adoção de métodos mistos, “está primeiramente a complementariedade dos dados e das análises e a possibilidade de explorar fenômenos mais complexos do que com apenas um dos métodos”. E complementa: “Em termos de mídia social, onde os dados são bastante distanciados dos grupos sociais, a combinação desses métodos pode ser extremamente vantajosa, justamente por permitir compreender o fenômeno em sua abordagem mais ampla”. No entanto, a autora faz questão de pontuar alguns desafios importantes para o pesquisador: o uso mútuo e compreensível de ambas abordagens de forma coerente/coesa, a discussão de limitações e vantagens da coleta de dados e as questões éticas da pesquisa em canais supostamente públicos.

“A ARS dá à etnografia uma possibilidade de mais abrangência e maior fundamentação em dados, ao mesmo tempo que lhe rouba parte da subjetividade que lhe é característica. Já a etnografia, por sua vez, complementa a ARS com uma visão contextual, mas pode também lhe conferir um caráter subjetivo e interpretativo que pode trazer uma certa instabilidade ao estudo quantitativo. […] Assim, os dados de uma devem servir à outra e devem ser ambos compreendidos em sua totalidade pelo pesquisador. A perspectiva de métodos mistos é uma combinação do desenho metodológico, onde o pesquisador precisa compreender ambos e não apenas utilizar um método como suporte e outro apenas para agregar os dados sem analisá-los.”

Para finalizar, trago alguns apontamentos do capítulo “Términos de relacionamentos e Facebook: desafios da pesquisa etnográfica em sites de redes sociais”, escrito por Beatriz Polivanov e Deborah Santos. Gostei muito do capítulo porque ele dialoga com os outros dois supracitados, principalmente (por questões óbvias) com o de Hine, ainda que haja uma “menção honrosa” a proposta de Recuero, lá no final do texto, não descartam que “abordagens mistas, que lidam com grandes e “pequenos” dados, possam ser enriquecedoras”. Para além disso, gostei muito da contribuição das autoras porque há fundamentação teórica, discussão metodológica e – principalmente – inquietações empíricas de uma pesquisa ainda em andamento. Ao final, elas apresentam cinco eixos que esperam servir como “pequenos guias norteadores” para outras pesquisas.

Uma vez que o objetivo das autoras é “chamar atenção para desafios específicos” de sua pesquisa, não entrarei a fundo na fundamentação teórica (muito bem) apresentada no texto – embora recomende veemente a todos interessados na discussão sobre as diferentes etnografias (“tradicional” e virtual) e construção de identidade on-line que assim o façam. Trago, portanto, apenas os cinco eixos de desafios metodológicos que têm tensionado a atuação das pesquisadoras no estudo sobre “sujeitos que passaram por um final de relacionamento amoroso e como essa sua performance de si se dá no Facebook em um momento pós-término”, discutindo se há alteração em suas performances e quais tipos de narrativas são acionadas para se adequar a imperativo da felicidade.

“Entendemos, assim, que, de um modo geral, busca-se manter certa coerência expressiva entre os selves off-line e nos sites de redes sociais. Isto é, nesses ambientes – e em especial no Facebook, nosso objeto de estudo – os atores sociais tendem a querer mostrar traços identitários que consideram “reais”, como nome, local onde trabalham/estudam, gostos relacionados à indústria cultural, pessoas com as quais se relacionam, locais que frequen- tam etc., ainda que possa haver rupturas e desencaixes nessa construção por uma série de razões (intencionais ou não).”

Embora eu tenha optado por atropelar as discussões teóricas que precedem a discussão metodológica (apenas por motivos práticos), acho importante lembrar que alguns dos “problemas” levantados pelas autoras estão em total consonância com aspectos específicos da problematização da etnografia (virtual), da identidade on-line, etc. – ou seja, de certa forma, essas questões atravessarão os desafios metodológicos da pesquisa em sites de redes sociais apresentados a seguir:

a) Investigação sobre indivíduos e/ou casais

Um dos motivos pelo qual me interesso bastante pelo trabalho de Polivanov é que suas pesquisas geralmente focam em aspectos identitários “isolados”, como seu trabalho com participantes de cenas de música eletrônica no Facebook. Isso foge um pouco da prática comum da etnografia para internet (e mídias sociais) de estudar grupos ou comunidades específicas – como ela reitera, no atual trabalho “estamos mais interessadas, em nossa pesquisa, em conhecer em profundidade experiências particulares do que em estudar as dinâmicas de um grupo ou um número maior de casos”. Entretanto, isso se torna um problema primário à pesquisa uma vez que precisa-se fazer um recorte e delimitar o campo do objeto de estudo. “Mas como selecioná-los?”

b) Escolha e interpelação dos sujeitos de pesquisa

“A partir de um processo de conversas informais – on e off-line – com conhecidos de nossas redes de contatos e a partir da técnica da ‘bola de neve’ (Weiss, 1994), conseguimos sugestões de possíveis informantes que atendessem nossos critérios. Para além daqueles que fizessem parte de nossas redes, a escolha da parte da amostra de “desconhecidos” foi feita a partir da procura de grupos temáticos, conforme apontado acima, focando desse modo nosso olhar a pessoas que atravessaram algum conflito amoroso e usaram (usam) a rede e o suporte (semi)público para lidar com situações dessa natureza, sendo nosso interesse conhecer como se dá essa relação de “desabafo” entre o sujeito e a plataforma, no caso, o Facebook.”

c) Grau de inserção do(a) pesquisador(a)

“Aqui valeria a pena nos perguntar até que ponto esse tipo de aproximação, sem aviso aos informantes de que estão sendo observados, é eticamente correta. Além disso, seria apenas a observação, participante ou não, suficiente para entender as dinâmicas e discursos dos sujeitos ou necessariamente de- vem ser realizadas entrevistas? […] Nossa proposta metodológica entende que somente a observação dos sujeitos analisados não seria suficiente para responder as questões de pesquisa, sendo necessária uma aproximação direta e privada (ainda que virtual) com os mesmos que outorgue integralidade à pesquisa. Para isso é nosso propósito entrar em contato com cada um dos sujeitos escolhidos como amostra e realizar entrevistas, tanto on quanto off-line com eles, que complementem os dados obtidos na etapa de observação, tentando fugir assim dessa posição um tanto voyeurística e procurando vias diferentes de acesso à informação.”

d) Recorte temporal da pesquisa e da coleta de dados

Esse item é bem interessante porque elas tratam duas questões: primeiro, a problemática de delimitação de tempo de uma pesquisa empírica. Em resposta, defendem que “a observação sistemática dos acontecimentos e a coleta de dados deve ocorrer até atingir determinado ponto de saturação, isto é, até que não seja possível – seja por um limite de tempo, verba ou do próprio corpus – obter dados categoricamente novos”. Segundo, porque, citando Markham, as autoras “desmitificam” o véu de imparcialidade do etnógrafo, explicando que “os pesquisadores sempre interferiram no contexto de algum modo enquanto conduzem suas pesquisas” e que “em diferentes medidas, as noções de sujeito/objeto, pesquisador/pesquisado não devem ser tomadas como instâncias separadas, mas ao contrário, como afetações mútuas”.

e) Pesquisa de campo ou campos de pesquisa no Facebook

“Cabe, assim, a cada pesquisador(a) determinar o recorte do corpus que irá analisar e que ferramentas irá utilizar para tal. Em nosso percurso até o momento temos optado por dar especial atenção aos campos da seção “Sobre” e das postagens diversas feitas pelos sujeitos em suas linhas do tempo, buscando analisá-las não em grupos definidos quanto ao seu tipo de linguagem, mas sim enquanto unidades materiais-discursivas multissemióticas que devem ser entendidas principalmente a partir do momento e da intencionalidade de publicação, elementos que só podemos investigar a partir da realização de entrevistas direcionadas.”

A ideia de Polivanov e Santos foi justamente trazer alguns desafios e questões (tanto teóricas quando metodológicas) que têm atravessado seu trabalho de pesquisa no Facebook. Ao final, não apresentam soluções, mas “inquietações ainda em pleno processo de digestão”, o que considerei extremamente poético, coerente e justo por parte das autoras. Essa é a ideia do livro, levantar tensões e tentar travar um diálogo com acadêmicos, estudiosos e pesquisadores de forma geral sobre o espaço multidisciplinar que é a internet corporificada. Ainda há capítulos enriquecedores de Jair de Souza Ramos, sobre o modo como as discussões teóricas podem orientar a observação e a análise para etnógrafos, e de Laura Graziela Gomes, a pesquisa própria do meio digital (cibercultura).