Por mais responsabilidade com o termo “Social Media”

[Texto originalmente publicado no LinkedIn]

Hoje abri o Facebook e me deparei com a divulgação de uma vaga de “Estágio em Mídias Sociais”. Na descrição, a pessoa explicava que as principais funções seriam criar artes (peças publicitárias) e fazer a edição de vídeos – dois pré-requisitos essenciais para o trabalho. Reli o título para confirmar: o anúncio era de “Estágio em Mídias Sociais”.

Esse não é um fenômeno recente e também não é a primeira vez que eu vejo algo do tipo – na verdade, é tão comum que chega a ser considerado normal. É o reflexo da democratização das ferramentas e plataformas de criação e comunicação com o advento da internet e a popularização das mídias sociais. Ou seja, o que era para ser bom foi reapropriado pelas empresas que conseguiram achar uma maneira de terceirizar e desvalorizar os esforços de comunicação digital.

Para fazer uma comparação absurda, porém analogicamente razoável: imagine que você, aprendiz de cozinha, está à procura de um emprego. Na busca, encontra uma vaga que pede que suas principais atribuições sejam produzir diferentes tipos de salgados e doces para uma marca (não pode reclamar, eles te darão todos os ingredientes e ambiente necessário para isso). No fim, sua comida não servirá de alimento para ninguém, mas serão tiradas fotos dos pratos para publicar no Facebook. Logo, achou-se apropriado anunciar a vaga como “Estágio em Mídias Sociais”.

Na minha perspectiva, isso revela pelo menos duas coisas (que são bem relacionadas): 1) certa “cegueira” de profissionais dispostos e entusiasmados em trabalhar com/em Social Media; 2) um aproveitamento desonesto das empresas que tentam colocar um véu de Social Media nas funções exercidas para justificar trabalhos extremamente dedicados e salários pífios. De certa forma, ambas fazem parte do fenômeno de um mundo corporativo – e social, diga-se de passagem – que ainda não entendeu (ou não quer entender) o trabalho em mídias sociais (mesmo 10 anos depois).

Aliado a esses fatos ainda há um mercado jovem, pulsante e desafiador que não se responsabiliza em elucidar – ou pelo menos definir e impor limitações responsáveis a – o(s) escopo(s) de trabalho em/com Social Media. Isso não significa excluir do vocabulário ou abolir o uso do termo/da definição “Social Media” (ou “Xoxo Media”, o que desvaloriza ainda mais o trabalho), até porque, como eu disse antes, a democratização dos meios de comunicação/produção foi ótimo para muita gente, mas agir com mais responsabilidade (e até rispidez) quando for falar do trabalho.

Às empresas, cabe parar de desvalorizar e menosprezar o trabalho em mídias sociais. Ao mercado (profissionais), cabe um discurso mais rígido e responsável quanto às funções do trabalho. E ao trabalhador/freelancer/Social Media/Analista de Mídias Sociais, cabe compreender todo o ecossistema de trabalho para se munir de ferramentas (capacitadoras e discursivas) que fortaleçam o seu desenvolvimento profissional.

Social Analytics Summit 2016: o evento segundo o Twitter (e o Slideshare)

Aconteceu em São Paulo nos dias 25 e 26 de novembro o Social Analytics Summit 2016, realizado pela Media Education. Com a curadoria de Gabriel Ishida e Vinícius Ghise, a quinta edição do evento reuniu centenas de profissionais dos mais diferentes cargos e funções de trabalho em dois dias recheados de palestras interdisciplinares sobre como trabalhar de forma inteligente com dados na/da internet. Este ano, pela primeira vez, tive a oportunidade de estar presente na Faculdade Cásper Líbero para acompanhar tanto o workshop, na sexta-feira, quanto o evento, no sábado.

No entanto, como reitero desde o início do blog, embora os cursos e eventos aconteçam na rua (geralmente em São Paulo), muito do que se produz ali também chega de alguma forma à internet. Portanto, para ajudar aqueles que por quaisquer motivos não puderam (ou não quiseram) presenciar o SAS 2016, relato aqui o que rolou no evento de acordo com o Twitter. Para ajudar a estruturar a narrativa, conto também com o perfil da Media Education no Slideshare – que merece todos os elogios por sempre disponibilizarem os materiais de seus diversos eventos gratuitamente para quem tiver interesse em aprender. Antes, um adendo: infelizmente eles só divulgarão as apresentações daqui a alguns dias, ou seja, por ora, teremos apenas o Twitter para nos guiar.

Na sexta-feira, 25, aconteceu o workshop com palestras de Eduardo Faria (Pesquisas com dados digitais), Vinícius Ghise (Transformando dados em planejamento), Gustavo Pereira (Planejamento e resultados de mídia) e Beatriz Blanco (Data visualization). Como o público era bem menor e o caráter das palestras mais “educativo”, infelizmente não tivemos produção de tweets suficientes para contar como foi o dia. Ou seja, atualizo o post assim que as apresentações no Slideshare forem disponibilizadas para acrescentar mais conteúdo e contar o que rolou no workshop. Partimos, portanto, para sábado, dia do evento, com palestras sobre influenciadores, dashboards, big data, pesquisa, gestão de crise e estratégia.

Alguns slides do workshop já estão disponíveis:

A primeira palestra, “Dashboards e inteligência em tempo real”, foi comandada por Ingrid Pino com algumas intervenções de Leonardo Naressi, ambos da dp6. Ela falou sobre o assunto em três aspectos: 1) a diferença entre medir em tempo real e agir em tempo real; 2) quais dados entregar em um dashboard para inteligência em real-time; 2) como comunicar os dados para melhorar as ações. Ou seja, quando falamos de “real-time“, precisamos tratar de três pilares básicos: para que medir (objetivos práticos), o que medir (método) e como apresentar (data viz). Ou seja, é preciso que tudo esteja muito bem alinhado e estruturado porque é tudo muito rápido. Nas palavras dos próprios: “Planeje o que vai medir, prepare-se para agir e esteja aberto para improvisar”.

Embora a expressão “marketing real-time” tenha se popularizado pela adoção de uma estratégia de guerrilha de grandes empresas, como Coca-Cola, eles mostraram que essa prática não é tão “ostentiva” assim. Tendo um guia de conduta bem planejado e responsável, algumas ferramentas de criação de dashboards possuem uma taxa razoavelmente barata para implementar o necessário desse tipo de atuação, que pode ser útil para empresas de médio porte que estão bem imersas no universo digital (como e-commerces, por exemplo) – e não apenas para gestão de crises, mas também para criação de oportunidades. Felizmente o Slideshare já está disponível para quem tiver interesse:

Em seguida, foi a vez de Maira Berutti (MC15), Gabriel Ishida (Atlas Media Lab) e Leandro Bravo (Celebrity’s) assumirem o palco para um debate riquíssimo e muito importante: influenciadores trazem resultado? Berutti trouxe sua visão enquanto pesquisadora, Ishida pôde contribuir através da experiência com grandes marcas e estudos recentes sobre o assunto, e Bravo colaborou com uma visão de quem faz casting de produtores de conteúdo. Dividi algumas questões que foram abordadas em tópicos:

Como justificar o investimento em influenciadores?

Essa é uma questão que acho importante fazer um recorte. Na minha percepção, grandes empresas já compreenderam a importância (e contribuição) de se trabalhar com influenciadores digitais – o que deve ter sido relativamente fácil, já que a publicidade historicamente usa de celebridades há décadas para promover uma marca ou um produto. Ou seja, já não se precisa mais argumentar tanto assim com marcas como Coca-Cola, Skol, McDonald’s, Vivo, etc. quanto ao uso de influenciadores, principalmente quando o público que querem atingir é mais jovem. Entretanto, quando se trata de marcas menores ou de pequenas e médias empresas, a pergunta fica mais apropriada.

E aí a questão fica mais adequada: como justificar o investimento em influenciadores para marcas menores, pequenas e médias empresas? A resposta parece simples, mas a execução é bem mais desafiadora: educando o cliente. Acredito que uma falha seja a decisão de trabalhar com influenciadores antes de ter definido qual é o objetivo estratégico de comunicação da marca/empresa. O influenciador precisa vir como “ferramenta” ou “plataforma” para endossar a mensagem que se quer passar – e, neste caso, vale citar McLuhan para argumentar que o meio também é mensagem. Tendo os objetivos em mente, é possível argumentar com os clientes como e por qual motivo aquele influenciador pode ser um recurso para aquele esforço comunicacional: para ajudar na argumentação, vale embasar a fala na pesquisa da Traackr que listou os “tipos” de influenciadores.

Ao mesmo tempo em que o objetivo é definido e pensa-se num influenciador para uma ação ou uma campanha, é importante discutir também quais são os valores acionados por aquela pessoa e como esses aspectos simbólicos podem beneficiar ou destratar a imagem da empresa. Para selecionar com inteligência e responsabilidade o influenciador (seja ele youtuber, ex-viner, famoso do Snapchat ou Instagram, blogueiro, ou simplesmente um fã influente na sua comunidade de consumidores), é preciso analisar tanto os números (o que em termos de mensuração a pessoa pode entregar) quanto o histórico, valores simbólicos/culturais do indivíduo. Talvez o termo mais apropriado para discutir sobre a escolha de influenciadores não seja influência, mas relevância – e isso é sempre relativo, depende de referenciais distintos.

Se o tempo permitisse, o debate sobre influenciadores com certeza durariam alguns dias. Para quem tiver mais interesse no assunto, recomendo o capítulo escrito por Gabriel Ishida para o novo livro do IBPAD, “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações”, onde ele compilou descobertas de estudos que têm feito sobre a significância de influência e relevância nas mídias sociais. Para uma perspectiva mais acadêmica, conheci recentemente o trabalho de Crystal Abidin, que estuda sobre influenciadores, blogueiras e webcelebridades no Oeste da Ásia. Considero um assunto de tremenda importância e que precisa ser debatido com mais seriedade e responsabilidade, indo além das falácias e celebrações mercadológicas que vemos por aí.

A penúltima palestra da manhã, “Dados para quê mesmo?”, foi ministrada por Willian Zanette, da F/Nazca Saatchi. Ele falou sobre o uso de dados para embasar decisões estratégicas e gerar resultados valiosos. Sua fala foi bastante inspiradora para aqueles que trabalham com métricas e indicadores digitais em geral, argumentando que os profissionais data-driven já não são mais trunfos para as empresas, mas essenciais ao mercado. Por outro lado, ele também fez colocações importantes sobre a “generalização apressada” de dados como verdades absolutas, o que serve para refletir as limitações que o digital também apresenta. Em resumo, uma frase da apresentação que explica bem sua fala: “Pensamento integrado com inteligência de dados orientado para resultados”.

A palestra da Polis Consulting, patrocinadora do evento, “Identificação de influenciadores: como os dados podem te ajudar?” fechou o turno da manhã. Eles mostraram alguns dos trabalhos que têm desenvolvido na pesquisa e monitoramento de mídias sociais. apresentando também algumas aplicações para o famoso Facebook Topic Data. Um adendo cômico: como o horário do almoço estava próximo, a produção de tweets caiu bastante – mas, mesmo sendo breve, a apresentação foi bem interessante, principalmente no quesito de visualização de dados. Espero que disponibilizem em breve o Slideshare (e atualizo aqui quando isso acontecer).

Retornando do almoço, tivemos o resultado da pesquisa “O profissional de inteligência de mídias sociais no Brasil” apresentada por Ana Claudia Zandavalle, que visa gerar informação estratégica para o mercado. Em sua sexta edição, a pesquisa, que já foi comandada por Tarcício Silva e Júnior Siri, teve seu número mais alto de respondentes (386), com representantes de 24 dos 26 estados brasileiros. Os resultados apresentam informações sobre demografia, formação e estudos, ferramentas e conhecimento na área, campo de trabalho, fontes de informação e referências. Para quem tiver interesse, vale também dar uma olhada no capítulo homônimo do novo livro do IBPAD, que conta com descrições mais detalhadas sobre a pesquisa e seus dados evolutivos.

Pretendo me aprofundar mais na pesquisa quando fizer um post (ainda este ano) sobre produzir conteúdo para a internet. Preciso, entretanto, utilizar este breve espaço para agradecer a você – leitor – que, ao responder a pesquisa, recomendou este blog como um dos principais blogs/portais de referência. Com pouco mais de 1 ano de blog, já colhi frutos extraordinários de aprendizados (para quem não sabe, consegui meu atual estágio graças ao blog) e de vivências que a vida me proporcionou ao conhecer pessoas e profissionais incríveis em quem me espelho fielmente para traçar minha jornada profissional. Aos interessados, a boa notícia é que o Slideshare da pesquisa já está disponível tanto no perfil do Media Education quanto no perfil da Ana Claudia, que você confere logo abaixo:

Em seguida, foi a vez de Fabiane Nardon, da Tail Target, para falar sobre “O verdadeiro big data: possibilidades e desafios”. Esta foi sem dúvida uma das melhores – se não, a melhor – palestras de todo o Social Analytics Summit 2016. Além do conteúdo ter sido extraordinário (crédito para Fabiane), foi uma apresentação muito importante para o mercado no momento em que “big data” já foi (des)conceitualizado de várias formas. Ela apresentou como tem sido feito o trabalho com big data no Brasil e no exterior, apresentando possibilidades de atuação para o mercado digital e para onde o futuro aponta. Vale mencionar também seu alerta sobre o uso automatizado irresponsável dos dados, que reproduzem os preconceitos dos próprios indivíduos (no caso, aqueles que programam as máquinas).

Outra pesquisa incrível foi a “Dados para pesquisas sociais”, de Débora Zanini (Ovilgy). Mais do que uma palestra, foi uma verdadeiro aulão: ela quis mostrar ao público que é possível fazer pesquisas de âmbito sociais, políticas e culturais nas mídias sociais (desde que fique ciente suas proporções e limitações), ou, nas palavras de Richard Rogers: “A questão não é mais saber o quando da sociedade e da cultura está online, mas sim como diagnosticar mudanças culturais e condições da sociedade através da internet”. Para quem tiver interesse, escrevi um pouco sobre isso no curso que fiz no IBPAD sobre Etnografia para Mídias Sociais e na resenha que publiquei sobre o livro “Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos” – especialmente no capítulo de Christine Hine, citada na apresentação (sobre os 3 “e”s da internet).

Confira a apresentação:

Ela apresentou resumidamente um pouco da metodologia para realizar pesquisa sócio-político-cultural nas mídias sociais, tendo em visto as plataformas, os contextos sociais e os usuários e suas reapropriações. Também indicou diversas ferramentas acadêmicas para essa finalidade, como a Netvizz e a Netlytic. Destaco também o exemplo que trouxe para o evento, o relatório “The iconic image on social media”, realizado pelo grupo de pesquisa Visual Social Media Lab sobre a imagem do menino sírio que mudou o debate sobre imigração. Foi talvez a palestra mais rica em conteúdo, com assunto que poderia se desdobrar em muito mais conhecimento. Para nossa sorte, isso já aconteceu: recomendo o capítulo de sua autoria para o livro do IBPAD e o curso (que já fiz!) “Etnografia para mídias sociais”, que em breve terá sua modalidade online.

Por fim, como os tweets acima indicam, a última palestra foi sobre “Um novo patamar na gestão de crise”, por Willian Rocha. Ele apresentou um framework bem interessante para a utilização de práticas de monitoramento e métricas na gestão de crise (e de risco). Foi uma apresentação bem rápida, principalmente devido ao tempo curto que lhe restara, mas o conteúdo foi bem útil para aqueles que trabalham com Community Management e SAC 2.0/Relacionamento nas mídias sociais. Infelizmente o Slideshare ainda não está disponível, mas, assim que estiver, atualizo o post com o conteúdo.

Em suma, posso dizer que foi um grande evento. Destaco principalmente as palestras das mulheres, que tiveram falas bastante focadas e ricas em conteúdo, sem dar muitas voltas sobre o que tinham a falar. Não há críticas a se fazer sobre o local do evento, mas acho que seria interessante pensar um modo de aumentar ainda mais o networking dos profissionais atendentes. Talvez fosse legal programar algumas mesas de debates mais abertas e horizontais, com alguns mediadores que estimulassem a participação do público em geral. No mais, parabéns a Gabriel Ishida e Vinícius Ghise pela curadoria, e à Media Education pelo evento – até 2017!

Profissão Social Media: áreas de atuação e fontes para estudo

[Post feito com a colaboração de Mayara MendesMari Ferreira e Juliana Freitas]

É muito difícil, para quem está começando, conseguir enxergar todo o ecossistema de Social Media. A chamada profissão Social Media”, na verdade, engloba diversas áreas de atuação e práticas profissionais diferentes, tanto referentes à democratização da produção e acesso aos canais de mídia quanto ao caráter essencial das novas plataformas e tecnologias da comunicação. No entanto, quem começa a trabalhar com mídias sociais sem o reforço de um curso de graduação apropriado geralmente tem dificuldade de identificar todos os tipos de prática dentro desse universo comunicacional.

Para além disso, é importante admitirmos que a grande maioria dos profissionais trabalhando com mídias sociais são “novatos” da comunicação (digital). A primeira pesquisa d’o perfil do Social Media brasileiro realizada pela trampos em parceria com a Alma Beta elencou cinco “tipos” de profissionais: novato, júnior, empreendedor, sênior e freelancer, sendo os dois primeiros (estagiário e analista jr.) a maioria esmagadora a responder à pesquisa. Baseado no que tenho visto enquanto entusiasta e estudante (e estagiário atrás de vagas), enxergo pelo menos três níveis de maturidade das empresas que reflete nos tipos de profissionais e suas atuações:

1) O mundo ideal: aquele profissional (jornalista, publicitário, etc.) que trabalha em médias ou grandes agências/empresas, cujo escopo de trabalho é bem delimitado e específico para tratar de questões que correspondem apenas à sua formação e experiência profissional;

2) O mundo da fantasia: o profissional que já trabalha numa agência de publicidade e comunicação, mas que acaba sendo (muitas vezes o único, mas também numa equipe mais curta) responsável pelos esforços de comunicação online/digital/em mídias sociais;

3) O mundo real: um profissional independente, geralmente freelancer, que atende a pequenas e médias empresas e é também um faz-tudo: pesquisa, planeja, produz, publica, promove, etc. (quando fisicamente possível).

No mercado glamourizado e extremamente restrito da publicidade brasileira, é evidente que o que mais encontramos por aí – também graças à descentralização de poder comunicativo proporcionada pelas mídias sociais – é o mundo 2 e o mundo 3 (com algumas nuances, mas essencialmente dentro dessas condições). Ao mesmo tempo em que a popularização do “profissional de mídias sociais” foi benéfica ao trazer para jogo várias oportunidades de um mercado historicamente bem fechado, também resultou num desgaste – ou numa desvalorização – das atividades práticas que envolvem o marketing digital.

Nesse contexto, alguns profissionais buscam cursos livres, cursos de especialização e cursos de pós-graduação/MBA para procurar uma qualificação mais responsável à sua área de atuação. No entanto, mesmo aqueles determinados em se capacitar para obter um diferencial encontram certa dificuldade para se localizar naquele “universo” de possibilidades que instituições de ensino têm a oferecer. Como, frente a tanto conteúdo, encontrar aquilo que: 1) é útil para sua atuação profissional; 2) é com o que você aspira trabalhar; 3) dialoga com o que você enxerga para o seu futuro profissional?

A proposta deste post, portanto, é te ajudar a encontrar as respostas para essas perguntas. Não é para o profissional já bem acomodado no mundo da publicidade e que tem noção de todos os micro-universos da comunicação, mas para quem está começando ou deseja começar nesse mundo e tem interesse em procurar mais fontes para estudar e desenvolver cada uma dessas habilidades. A ideia é jogar uma luz no que está por trás da “profissão Social Media” e ajudar tanto o profissional que quer começar, que está começando ou que pretende se especializar, a encontrar a área de atuação que mais lhe contempla.

Com ajuda de Mari Ferreira, Mayara Mendes e Juliana Freitas, elencamos 7 áreas baseado no que temos visto em sites de vagas, experiência profissional, grupos de discussão no Facebook e consumo de pesquisas sobre o mercado. Não são exatamente setores ou departamentos da área digital, mas “práticas de atuação” que se expandem e se desdobram em várias outras especializações. Se você compreende que há alguma incoerência na divisão ou nas próprias descrições, sinta-se mais que convidado para compartilhar a sua opinião – nos comentários – e enriquecer o texto para que a discussão se expanda e mais pessoas possam ter uma visão concreta de como encontrar a sua área (pretendo atualizar o post conforme esses feedbacks vão surgindo).

monitoramento

Monitoramento

Eu diria que a área de monitoramento de mídias sociais é umas das aqui listadas com mais “representatividade” (com ênfase nas aspas) no mercado, ou seja, cujo escopo de trabalho ficou mais evidente com o passar dos anos, por diversos fatores – a popularização de empresas especializadas, pesquisas específicas, profissionais referência, etc. Arrisco dizer também que o trabalho de monitoramento tenha ganhado tanta força porque atravessa diversos outros campos não apenas nas mídias sociais, mas na própria internet.

O livro Para Entender o Monitoramento de Mídias Sociais, organizado por Tarcízio Silva ainda em 2012, traz colaborações de vários autores que dialogam com o trabalho de monitoramento em diferentes perspectivas: SAC e Social CRM, mensuração (métricas), SEO, relações públicas, netnografia, pesquisa de mercado, etc. Alguns anos antes, Silva desenhou uma definição para o trabalho de monitoramento que se tornou referência em diversas pós, especializações e MBAs ao redor do país:

O Monitoramento de Mídias Sociais consiste na coleta, armazenamento, classificação, categorização, adição de informações e análise de menções online públicas a determinado(s) termo(s) previamente definido(s) e seus emissores, com os objetivos de: (a) identificar e analisar reações, sentimentos e desejos relativos a produtos, entidades e campanha; (b) conhecer melhor os públicos pertinentes; e (c) realizar ações reativas e pró-ativas para alcançar os objetivos da organização ou pessoa de forma ética e sustentável” (SILVA, 2010).

Particularmente acho o trabalho de monitoramento extremamente “gratificante” (não sei se essa seria a palavra correta, mas não consegui pensar em nada melhor) porque ele é bastante representativo do fenômeno das mídias sociais na última década, onde as pessoas se apropriaram de um espaço tecnológico e criaram um novo contexto de sociabilidade. E onde há social, há oportunidade (valor) – é como se fortalecem os dois (ou três) próximos itens, sobre os quais escreverei pouco por falta de conhecimentos avançados.

PARA MAIS INFORMAÇÕES

– Pesquisa

Pesquisa e monitoramento não seriam a mesma coisa? Não exatamente. Eu diria, com humildade, que o monitoramento é uma metodologia de pesquisa, ou seja, um modo de executar o trabalho investigativo. Isso quer dizer que há outras formas de fazer pesquisa nas mídias sociais – várias delas, inclusive, herdeiras da “tradicional” pesquisa de mercado: surveys, entrevistas, etc. – tudo no contexto de mídias sociais. Aqui o que chamo de “pesquisa” está mais ligado à tradicional pesquisa de mercado, que geralmente tem foco maior na indústria, no público-alvo, nas plataformas, na sociedade como um todo e não exatamente nos consumidores.

PARA MAIS INFORMAÇÕES

– (N)Etnografia

Como mencionei anteriormente, a sociabilidade que se instaurou no ciberespaço abriu caminho para que “novos” processos de significação criassem um espaço simbólico de trocas interacionais. Ou, simplificando: se as pessoas vivem a internet, há culturas atravessando esse espaço – com isso, alguns métodos de pesquisa “tradicionais” (pré-internet) foram herdados para esse novo contexto. Embora seja uma herança mais academicista, algumas empresas já reconhecem o valor da pesquisa etnográfica e incorporam essa prática aos seus departamentos. Em termos muito (muito!) simplificador, trata-se de métodos das ciências sociais para o estudo das culturas.

PARA MAIS INFORMAÇÕES

– Análise de Redes

Outro método de pesquisa também filho da academia é a análise de redes sociais (ARS). No Brasil, esse tipo de análise despontou de alguns anos para cá principalmente como recurso para compreender disputas discursivas no campo da política nas mídias sociais. Embora haja uma resistência do mercado em adotar esse tipo de metodologia para a análise de dados, ela oferece perspectivas únicas para analisar conversas nas mídias sociais e pode ser muito útil para estudos que queiram focar na disseminação de informação/atores em rede – no caso de influenciadores, por exemplo.

PARA MAIS INFORMAÇÕES

planejamento

Planejamento

A parte de planejamento é talvez uma das mais importantes e ao mesmo tempo mais subestimadas de social media (pelo menos em pequenas agências/empresas). Planejar, como a própria palavra indica, significa – de certa forma – antecipar-se, procurar medidas eficazes para esquematizar uma ação em prol de um objetivo. Nesse sentido, para o contexto da comunicação (digital), o planejamento está ligado a estudar e compreender cenários para desenvolver planos de atuação responsáveis que deem conta de resolver um problema comunicacional.

O profissional de planejamento, portanto, precisa estar de olho no mercado, nas plataformas, nos consumidores, nas novas tecnologias, nas culturas, na sociedade, etc. Ou seja, conhecimentos em Publicidade e Propaganda, Marketing, Jornalismo, Estudos de Mídia, Relações Públicas, Sociologia, Psicologia e Administração são muito bem-vindos. O planner precisa ter uma visão bem panorâmica de todo o cenário (social, digital, econômico, cultural, etc.) para saber estruturar responsavelmente os esforços de comunicação.

Em suma, sabe aquela importante história de que não adianta falar sem propósito (mesmo nas mídias sociais, onde isso é fácil e geralmente gratuito)? A proposta de planejamento está alinhada justamente a esse argumento. É unir pesquisa, estratégia e criatividade para pensar a comunicação e desenvolver minuciosamente toda a estrutura de um esforço comunicacional responsável (embasamento teórico é fundamental) para solucionar um problema.

PARA MAIS INFORMAÇÕES

criacao

Criação de Conteúdo

Talvez este seja o tópico mais apropriado para reforçar que esta lista não se trata exatamente de profissões específicas, mas de áreas (ou “práticas”) que envolvem a comunicação digital. O que indico aqui como criação de conteúdo, por exemplo, contempla diferentes profissionais da área de publicidade, como redatores, designers, diretores de arte, produtores audiovisual, etc. – os famosos “criativos”. É aqui onde a estratégia do planejamento vira tática criativa; o problema é que grande parte dos trabalhos de social media passam por cima do planejamento para simplesmente criar peças criativas e publicá-las de qualquer forma no Facebook, Instagram, etc.

Isso não quer dizer que o trabalho criativo não seja tão importante ou seja menos importante que o de planejamento, mas é que são extremamente complementares e dependentes entre si. Sempre aliado às áreas de pesquisa e planejamento, a produção de conteúdo orienta-se em estratégias de criação focadas na brand persona definidas para cada marca/cliente. Definir o tipo, a linguagem, o tom e a identidade visual no ambiente digital é um passo fundamental para dar consistência ao seu conteúdo, passar uma mensagem clara ao seu consumidor e não deixar ruídos na comunicação com seu público-alvo.

Tendo embasamento do planner, o profissional de criação consegue “guiar” sua criatividade para responder às demandas pré-estabelecidas. Isso permite que ele “brinque” dentro dos trilhos, sem limitar sua criatividade, mas orientando sua criação para aquilo que é necessário. Acho importante ressaltar isso tanto para o contexto da internet onde o “meme pelo meme” não tem valor – embora a adequação da linguagem é mais do que necessária, mas sempre dentro de um contexto pensado, planejado e estruturado -, quanto para o glamour, luxo e riqueza da publicidade para publicitários de Cannes. 

Por fim, é nesse contexto criativo que vão surgir termos comuns como storytelling, gamification, branded content, transmídia, etc. São formas criativas de contar histórias (para vender, porque no final das contas é isso), geralmente pautadas nas peculiaridades (e novidades) das plataformas e nos hábitos culturais da sociedade. Ou seja, é ainda mais indício de que planejamento e criação precisam andar de mãos dadas, porque enxergar bem o(s) cenário(s) só facilita – e estimula – a criatividade.

PARA MAIS INFORMAÇÕES

gestao

Gestão de Conteúdo

O que aqui estou chamando de gestão de conteúdo dialoga um pouco com o trabalho de planejamento. No entanto, não tenho certeza que essa seja uma posição/ocupação comum nas agências ou setores de publicidade de grandes empresas. Seria, talvez, algo associado à função de Gerente de Projetos – aquele que coordena os jobs – mas a ideia aqui é mais específica, provavelmente mais comum em pequenas agências ou trabalhos de freelancers.

Fazer a gestão de conteúdo aqui está ligado à prática de organizar esquematicamente a comunicação nas mídias sociais. Ou seja, é desenvolver calendário de postagens, categorizar mensagens, planejar ações, etc. É ter a senha do Instamizer e do Hootsuite, sabe? É a pessoa que ama planilhas e calendários. Não é quem vai desenvolver a arte para o Facebook, mas quem vai fazer o pedido ao designer (se não for o próprio) e colocar a peça na rua.

Ratifico que não acredito que seja um cargo “real” em médias e grandes agências, mas é uma atividade importante – e comum – para quem atende marcas de pequeno porte (seja como freelancer ou numa pequena agência digital). Não substitui de forma alguma o trabalho de planejamento (!), mas é um passo inicial aceitável para quem deseja avançar da irresponsabilidade de “postar apenas por postar” nas mídias sociais.

PARA MAIS INFORMAÇÕES

relacionamento

Relacionamento/SAC 2.0 (+ Community Management)

Para falar de relacionamento, já tendo elencado gestão e criação de conteúdo, acho importante abrir um parênteses para falar de Community Management. Embora acredite que não haja uma definição fixa do trabalho desse profissional, matérias sobre Community Managers explicam que se trata justamente da união do que foi descrito de gestão, criação e – agora – relacionamento com os consumidores. O dia a dia deste profissional pode envolver desde a criação de posts, arte/peças, até a criação de replies, comentários e alguns insights do cotidiano.

Destaco essa profissão porque acredito que, pelo menos em sua essência, ela reforça um dos principais valores da “revolução” das mídias sociais na relação entre consumidores e marcas: criar uma atmosfera de comunidade. Não, não é fácil: para empresas pequenas, porque é difícil reter o público num espaço em comum; nem para empresas grandes demais (e facilmente odiáveis, como bancos), porque as discussões saem do controle. Mas é importante ter em mente que as mídias sociais (diferente de outros canais da própria internet, até) não foram feitas para atendimento, mas para relacionamento – mesmo que seja uma tarefa difícil.

Muito se fala sobre o que de fato seria o SAC 2.0 e eu acredito que todo debate é enriquecedor, mas o foco dessa área é fato: pessoas – ou, melhor, usuários. Trabalhar com relacionamento (ou atendimento, como preferir) nos sites de redes sociais exige um esforço organizacional que estruture processos de maneira, rápida, clara e eficaz. Trata-se de antecipar as demandas dos usuários e fertilizar o terreno para colher qualquer pepino inesperado que venha a surgir. Isso envolve mapear, ouvir, dialogar, resolver, conectar e responder. Não é uma tarefa fácil, mas extremamente necessária – principalmente no universo digital.

PARA MAIS INFORMAÇÕES

socialads

Facebook Ads/Social Ads

Esta talvez seja a área que mais cresceu no “mercado de social media” no último ano. Se antes estavam todos felizes porque os canais tinham sido “democratizados”, a preocupação foi grande quando o Facebook matou o alcance orgânico e mostrou as asinhas de quem detém o poder do meio. Atualmente é praticamente impossível falar em social media sem falar em mídia paga, principalmente no Facebook, onde estão a maioria das empresas e marcas no Brasil – por isso o destaque no título.

O papel do profissional de mídia já era comum à publicidade muito antes da internet, como aquele que negociava com os canais (TV, rádio, jornal, etc.) para a divulgação das peças publicitárias. No ciberespaço, esse contexto de mídia primeiro apareceu nos blogs e portais digitais, através de anúncios “banners” bem parecidos com outdoors, por exemplo. Hoje, depois da glória e declínio do conteúdo orgânico nas mídias sociais, o trabalho de mídia é essencial para mostrar ao público o que os planners planejaram e os criativos criaram.

Nesse contexto, novamente devido à popularidade da plataforma, o trabalho de mídia no Facebook é o mais popular dos dias de hoje – principalmente para pequenas e médias empresas. Por meio do Gerenciador de Anúncios do Facebook é possível ter um direcionamento de mídia para conversão de sites, aplicativos, alcance de publicações e páginas em diferentes formatos explorados no Facebook e também para publicações e perfis no Instagram.

A área de social ads também se expande para outras plataformas, é claro, como Twitter, LinkedIn, Pinterest, etc., mas é o Facebook o poderoso-chefão das mídias sociais. Vale ressaltar que o profissional de mídia geralmente expande seu escopo de trabalho para além dos sites de redes sociais, necessitando conhecimentos também em compras de mídia no Google (Pesquisa, Display, Mobile, Vídeo e Shopping) e portais de notícias/blogs através do famoso mídia kit.

PARA MAIS INFORMAÇÕES

metricas

Mensuração de Dados (Métricas e Indicadores Digitais)

Depois de pesquisar/monitorar, planejar, criar, gerir, conectar e promover, chega o momento de fazer as contas. Na verdade, embora (para fins didáticos) eu tenha seguido essa ordem e colocado a área de mensuração no final (tentando seguir certa lógica), é importante elucidar que medir nunca deve ser deixado apenas para o final. Como se trata de um ciclo, este item poderia muito bem vir em primeiro lugar – afinal, tanto monitoramento quanto métricas deve servir de fundamento básico para tudo que se deseje construir em cima ou a partir disso.

Assim como monitoramento, é uma área que ganhou muita força nos últimos anos principalmente pela possibilidade quase inédita de finalmente ser possível quantificar (ou mensurar) os resultados dos esforços comunicacionais. Embora algumas polêmicas envolvendo bots, click-baits e números inflados estejam presentes desde a popularização da análise de dados da web, é inegável o quão poderoso tem sido para as empresas ter a possibilidade de avaliar suas ações e compreender melhor seus consumidores através dos dados gerados nas mídias sociais, sites institucionais, e-commerces, Google, etc.

O economista Douglas Hubbard explica que “mensuração é uma redução quantitativamente expressa de incerteza, baseada em uma ou mais observações”, ou seja, o trabalho com métricas/indicadores digitais envolve traduzir os números (rastros sociais digitais) em estratégias eficazes de re-avaliação para melhor a assertividade. Assim como fiz em monitoramento, acho legal trazer essa citação que costuma estar sempre presente nos materiais de cursos e especialização sobre métricas para mídias sociais:

“Uma métrica é um sistema de mensuração que quantifica uma tendência, dinâmica ou característica. Métricas são usadas para explicar fenômenos, diagnosticar causas, compartilhar descobertas e projetar os resultados de eventos futuros.” – Paul Farris, Neil Bendle, Phillip Pfeifer, David Reibstein

No entanto, as famosas métricas não são exclusivas das mídias sociais. Sites, blogs e e-commerces, por exemplo, como já mencionados, também possuem suas próprias lógicas de métricas para avaliação. Não pretendo me aprofundar no assunto porque sair das mídias sociais envolve mais um universo de possibilidades (como Adwords, SEO, etc.), mas é importante ressaltar que o Google Analytics é uma plataforma de extrema importância também para as mídias sociais, uma vez que a integração site + rede social é bastante comum.

PARA MAIS INFORMAÇÕES


A minha ideia inicial era fazer mais uma seção “indo além” para destrinchar inbound marketing/marketing de conteúdo, SEO, Adwords, etc., mas, dada a extensão do post, optei por manter a base apenas com o trabalho dentro de mídias sociais – o que já é bastante coisa. Sem mais delongas, apenas reforço o que expliquei na introdução: não quer dizer que cada uma dessas áreas seja única ou que as profissões/departamentos atuem exatamente dessa forma nas agências/empresas, mas foram “ambientes” do ecossistema de social media que identifiquei e estruturei de tal forma apenas para fins didáticos.

Eu espero que o conteúdo seja útil para quem está começando e precisa encontrar um rumo para sua carreira. Espero também que as referências sejam úteis e que acrescentem a quem precise, nem que seja apenas para começar a se ambientar com alguns termos específicos desconhecidos – agora você já pode compreender melhor as vagas publicadas em grupos no Facebook. No mais, agradeço imensamente às moças que me ajudaram a montar todo esse material e me aturaram durante todos esses dias.

Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos

etnografia-consumoFoi lançado na semana passada, dia 25 de outubro, o livro “Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos”, organizado por Carla Barros e Bruno Campanella, ambos professores do PPGCOM e do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense. A coletânea reúne textos de palestrantes que participaram, em setembro de 2015, do Seminário Internacional Etnografia e Consumo Midiático: Novas Tendências e Desafios Metodológicos, e de outros autores com reconhecido interesse em discussões metodológicas relacionadas à pesquisa contemporânea de consumo midiático – dando, assim, continuidade aos debates iniciados naquele momento e expandindo algumas questões importantes ainda não trabalhadas.

“Os textos apresentados na presente coletânea são atravessados por reflexões acerca dessa crescente complexificação das práticas de consumo midiático, assim como das formas de estudá-lo que tomam como ponto de partida as abordagens etnográficas. […] Com o objetivo de enriquecer ainda mais o debate, a coletânea também traz propostas de abordagens metodológicas alternativas capazes de complementar a etnografia. Em suma, o livro busca lançar luz sobre os desafios, oportunidades e dificuldades da abordagem etnográfica na pesquisa dos meios de comunicação, em especial a internet.”

As minhas motivações para adquirir o livro foram três: 1) a organização realizada por dois professores cujo trabalho eu admiro muito (e gostaria que eles dessem mais aula para a graduação, caso venham a ler este post); 2) o assunto etnografia para pesquisa na internet (e em mídias ou sites de redes sociais), um debate que muito me interessa tanto acadêmica quanto profissionalmente; e, 3) a colaboração de Christine Hine, autora que conheci recentemente e que preciso ler mais, de Raquel Recuero, que fez uma proposta interessante para o capítulo que desenvolveu, e de Beatriz Polivanov, também professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídias (curso de Estudos de Mídia) cuja pesquisa eu já citei aqui no blog algumas vezes, com Deborah Santos. Para minha felicidade, ainda fui positivamente surpreendido por textos bem interessantes de outros autores/pesquisadores que não conhecia, superando as minhas expectativas.

A começar pela Introdução escrita pelos organizadores do livro, onde eles reconhecem as transformações sociais e tecnológicas que “criaram oportunidades e desafios na pesquisa da articulação entre meios de comunicação e cultura”, para então desenvolver uma breve – e importante, principalmente para leitores pouco habituados com as discussões da abordagem etnográfica para a internet, como eu – historicização do fenômeno do consumo midiático (“enquanto um sistema de valores”) e, principalmente, da constituição da etnografia na disciplina antropológica. Nesse contexto, ainda elucida a “evolução” dos estudos de comunicação mediada por novas tecnologias, posicionando-se criticamente a algumas leituras que, sob uma nova perspectiva, aparenta ser um pouco inadequada. Ainda assim, abrindo terreno para as contribuições (e discussões) dos colaboradores, reitera:

“Não se compartilha a mesma concepção do que seja a pesquisa realizada no âmbito da internet. Enquanto que para alguns autores a etnografia aparece como uma conjunção de técnicas específicas – primordialmente, a observação participante com a entrevista em profundidade – para outros ela não pode ser reduzida a um conjunto de técnicas, pois sua importância reside no fato de ela ser propriamente uma abordagem. A proposição de polissemia nas mensagens midiáticas encontrada nos estudos de recepção, especificamente, facilitou uma maior adesão às pesquisas de abordagem etnográfica. No entanto, nem todas as pesquisas autointituladas como de “recepção” atendiam aos princípios da etnografia, como a imersão prolongada em campo e a compreensão do contexto sociocultural mais amplo no qual as práticas midiáticas estavam inseridas.”

No capítulo “Estratégias para etnografia da internet em estudos de mídia”, Christine Hine apresenta algumas estratégias para a condução de estudos etnográficos da mídia na era digital. Para isso, ela introduz os novos contextos de formas de sociabilidade na internet (relacionando com a “proliferação de rastros do consumo midiático”) e retoma a discussão das fronteiras entre o on-line e o off-line, tanto sob a perspectiva do usuários quanto sob a perspectiva dos etnógrafos – e, consequentemente, seus desafios. Antes de entrar nessas questões, acho interessante compartilhar algumas considerações feitas pela autora sobre o papel do etnógrafo, principalmente levando em conta aqueles “novatos” na área:

  • “[O etnógrafo] procura alcançar um profundo engajamento com os detalhes confusos contidos naquilo que as pessoas realmente fazem com a mídia na prática”;
  • “seus interesses vão além de momentos de engajamento entre pessoas pré-selecionadas individualmente e textos midiáticos específicos”;
  • “o significado reside não no texto propriamente dito, mas em uma gama de relações sociais que antecedem e, ao mesmo tempo, resultam daqueles momentos de engajamento com o texto”.

Feita essa introdução do contexto e da pesquisa/do pesquisador, ela apresenta o que chama de qualidades da internet nos dias atuais para discutir “três tipos de estratégias que ajudam um etnógrafo a lidar com essas qualidades: abordagens móveis, multilocalizadas e conectivas ao campo; mapeamento, visualização e associação; e uso dos insights autoetnográficos a fim de maximizar a compreensão da internet como um fenômeno sensorial”. Antes, no entanto, ela apresenta uma discussão conhecida de seu trabalho, sobre a internet incorporada, corporificada, cotidiana (embedded, embodied and everyday) – na qual argumenta que não falamos mais em “ficar on-line”, mas vivemos online, incorporamos a internet em “em múltiplas estruturas de construção de significado”. Diz ela:

“Qualquer fragmento individual dos dados derivados da internet é, por isso, passível de ser interpretado de uma série de formas, dependendo dos contextos em que se incorpora e adquire significado […]. Isso apresenta desafios metodológicos significativos para um etnógrafo que deseja descobrir o significado de determinado aspecto da internet para um grupo específico de pessoas. Podemos começar com um foco particular ou uma questão intrigante em mente, mas a imprevisibilidade e caráter escorregadio dessa internet incorporada, corporificada e cotidiana torna muito difícil resolver onde ir para encontrar as respostas e como trazer questões interessantes à luz.”

Hine argumenta que, para que o etnógrafo “desenvolva insights e teste teorias em desenvolvimento através da interação”, seu trabalho não deve ser distante, como um observador que apenas coleta e processa dados de ambientes virtuais, mas participante e engajado com seu foco de pesquisa. “Ser ativo no ambiente permite que o etnógrafo aprenda com a imersão e o questionamento criterioso que encoraja as pessoas a refletirem, em voz alta, sobre suas experiências”, argumenta. À diante, apresenta como as características da internet nos dias atuais pode ser apropriada estrategicamente por pesquisadores para dar conta dos desafios e oportunidades que são enfrentados no trabalho etnográfico. Pensando a “volatilidade” dos grupos sociais online, a massividade de dados à disposição e os processos sensoriais da internet, ela apresenta as seguintes perspectivas:

  • Multilocalizada, móvel e conectiva: o campo de pesquisa é uma construção arbitrária, pré-existente, “construído a partir de uma rede complexa e contingente de interconexões possíveis entre diferentes localidades, e estendida em diversas mídias e formas de interação”; logo, “podemos esperar que o etnógrafo aceite a responsabilidade por construir um estudo que se encaixe em um conjunto particular de interesses estratégicos [para pensar novas comunidades virtuais].”
  • Mapeando, visualizando e associando: uma das principais dificuldades enfrentadas pela etnografia na internet é a abundância de dados; além de delimitar os estudos numa localidade e num período de tempo específicos, a autora propõe defende que “uma visualização ou mapeamento de atividades on-line pode ser muito útil no direcionamento da atenção do etnógrafo para locais de interesse, utilizando técnicas de associação para realizar a ‘topografia de campo’ antes de decidir no que focar em profundidade”.
  • Percebendo, sentindo e refletindo: uma vez que a experiência da internet é um processo bastante individual, o etnógrafo precisa reconhecer as limitações subjetivas da compreensão das diferentes experiências dos indivíduos, no entanto, é possível “tirar vantagem da nossa imersão no campo para refletir sobre o que contém e o que possibilita seus movimentos particulares e suas formas de compreensão”, enfrentando “qualquer tendência residual que tenhamos para tratar o campo como se simplesmente o tivéssemos encontrado e descrito como ele era”.

Na conclusão, admite (e reitera) as dificuldades e os desafios que a prática etnográfica enfrenta e continuará enfrentando com o desenvolvimento das novas tecnologias. Afirma que “não será impossível, mas envolverá um esforço maior na obtenção de dados, construindo e desenvolvendo relações de confiança com os participantes-chave a partir de práticas reminiscentes das etnografias dos tempos pré-internet”. Nesse sentido, compreende que “novas formas de etnografia realizadas tecnologicamente irão inevitavelmente continuar a emergir mas, espero, continuarão em diálogo com os princípios estabelecidos do etnógrafo como uma forma de produção de conhecimento aprofundada, imersiva e criticamente engajada”.

O capítulo “Métodos mistos: combinando etnografia e análise de redes sociais em estudos de mídia social”, de Raquel Recuero, é bem interessante pois discute a aproximação (ou melhor, combinação) de duas abordagens essencialmente distintas para o estudo de objetos decorrentes de mídias sociais, levantando também as vantagens e desvantagens desses métodos mistos. Ao introduzir a análise de redes sociais (ARS), a autora destaca a popularização dessa abordagem no campo dos estudos de cibercultura no Brasil e a justifica pela facilidade de acesso aos dados e pelo próprio caráter estrutural prolífico dos sites de redes sociais, o que favorece uma abordagem na qual as relações interacionais dos atores entre si e com a plataforma são o centro da análise. Explica:

“A análise de redes sociais é uma perspectiva cujo foco pode ser compreendi- do como teórico e metodológico (Wasserman e Faust, 1994). Enquanto a ARS busca estudar os padrões das interações e laços sociais (Wellman, 2001), ela também busca modos de medir esses padrões (Degenne e Forsé, 1999) e visualizá-los (Freeman, 2001). […] Desse modo, a análise de redes sociais constitui-se em uma abordagem relacional, cujo foco é construído nas relações entre os atores, na sua medida e exploração estrutural, a partir de perspectivas interdisciplinares.”

Destrinchando as raízes e premissas básicas da ARS, ela passa rapidamente por algumas questões – e aspectos – importantes desse método de análise: “O grafo é uma representação das relações e da estrutura da rede, que é construído através de algoritmos específicos e em cima de dados obtidos em campo”. Ela explica que, para que seja feita as visualizações das estruturas que auxilia a percepção visual das relações entre os atores, há a aplicação de alguns cálculos matemáticos (métricas de nó e métricas de rede) para avaliar a centralidade dos atores na rede e a estrutura da rede em geral. Nesse contexto, citando Linton C. Freeman, ela destaca quatro elementos que devem aparecer em conjunto na organização da análise estrutural: a intuição estrutural, ou seja, focada nos laços que conectam os atores; a construção sobre dados empíricos coletados de modo sistemático; a base em gráficos e imagens que representam os dados da pesquisa; e a utilização de modelos computacionais ou matemáticos.

Não entrarei em detalhes sobre o que a autora discorre sobre a etnografia virtual porque acredito que a introdução do capítulo de Hine já ilustra muito bem como ocorre, quais são as premissas, dificuldades e vantagens da abordagem etnográfica na internet. Destaco, no entanto, a citação de Gemma Edwards apresentada pela autora, na qual ela explica que as abordagens quantitativas “mapeiam e medem as redes através da simplificação das relações sociais em dados numéricos, onde os laços são ausentes ou presentes”, enquanto as abordagens qualitativas “permitem aos analistas considerar elementos relativos à construção, reprodução, variabilidade e dinâmicas dos laços sociais complexos”. Chegamos, então, à ideia principal de Recuero:

“A ideia é trabalhar com perspectivas metodológicas distintas, tanto quantitativas quanto qualitativas, combinadas de modo a dar conta de um determinado problema de pesquisa. Métodos qualitativos, grosso modo, tendem a focar mais em palavras como elementos descritivos, enquanto os quantitativos, em números; bem como pesquisas mais qualitativas focam perguntas mais abertas, pesquisas quantitativas focam questões fechadas; além disso, pesquisas qualitativas tendem a focar na interpretação dos dados coletados, geralmente no ambiente dos participantes, enquanto as quantitativas tendem a focar em medidas, variáveis e procedimentos numéricos (Creswell, 2014, p. 12). […] Os métodos mistos, por outro lado, constituem ‘uma abordagem para a pesquisa envolvendo a coleta de dados qualitativa e quantitativa, integrando as duas formas de dados e usando desenhos de pesquisa que possam envolver questões filosóficas e abordagens mais teóricas’ (Creswell, 2014, p. 4).”

Para compor sua proposta, a autora apresente algumas questões importantes de aplicação e alguns exemplos de objetos que se encaixem num contexto de pesquisa adequada aos métodos mistos. Para tanto, esses objetos precisam ter: questões de pesquisa relacionais (análise de estrutura das conexões da rede + componente cultural dentro da estrutura); dados passíveis de coleta/captura para análise de rede de forma manual ou automática; questões apropriadas para atender a objetivos da ARS e da etnografia. “Enquanto a análise de redes se ocuparia com a estrutura do grupo, a etnografia focaria as práticas culturais emergentes dessa estrutura”, explica, trazendo como exemplos: grupos sociais determinados e suas interações on-line, grupos sociais constituídos diante de discursos/conversações específicas e estudos sobre informação e difusão de práticas culturais. Em seguida, ela apresenta alguns modelos mais comuns de uso de métodos mistos, elencados:

  • Métodos mistos convergentes e paralelos: “os dados são coletados de modo qualitativo e quantitativo geralmente ao mesmo tempo e convergem ou são misturados na análise”; o objetivo é a complementariedade dos dados para a análise.
  • Métodos mistos explanatórios sequenciais: “há primeiro a condução de uma pesquisa quantitativa, cujos resultados servem de base para uma pesquisa qualitativa”; o trabalho qualitativo expande e aprofunda as questões do trabalho quantitativo.
  • Métodos mistos exploratórios e sequenciais: “a abordagem qualitativa vem primeiro e, nessa primeira fase, são constituídos elementos que servem de base para a abordagem quantitativa posterior”; útil quando as variáreis mais importantes para análise são desconhecidas.

Nas considerações finais, Recuero ratifica que, dentre os benefícios da adoção de métodos mistos, “está primeiramente a complementariedade dos dados e das análises e a possibilidade de explorar fenômenos mais complexos do que com apenas um dos métodos”. E complementa: “Em termos de mídia social, onde os dados são bastante distanciados dos grupos sociais, a combinação desses métodos pode ser extremamente vantajosa, justamente por permitir compreender o fenômeno em sua abordagem mais ampla”. No entanto, a autora faz questão de pontuar alguns desafios importantes para o pesquisador: o uso mútuo e compreensível de ambas abordagens de forma coerente/coesa, a discussão de limitações e vantagens da coleta de dados e as questões éticas da pesquisa em canais supostamente públicos.

“A ARS dá à etnografia uma possibilidade de mais abrangência e maior fundamentação em dados, ao mesmo tempo que lhe rouba parte da subjetividade que lhe é característica. Já a etnografia, por sua vez, complementa a ARS com uma visão contextual, mas pode também lhe conferir um caráter subjetivo e interpretativo que pode trazer uma certa instabilidade ao estudo quantitativo. […] Assim, os dados de uma devem servir à outra e devem ser ambos compreendidos em sua totalidade pelo pesquisador. A perspectiva de métodos mistos é uma combinação do desenho metodológico, onde o pesquisador precisa compreender ambos e não apenas utilizar um método como suporte e outro apenas para agregar os dados sem analisá-los.”

Para finalizar, trago alguns apontamentos do capítulo “Términos de relacionamentos e Facebook: desafios da pesquisa etnográfica em sites de redes sociais”, escrito por Beatriz Polivanov e Deborah Santos. Gostei muito do capítulo porque ele dialoga com os outros dois supracitados, principalmente (por questões óbvias) com o de Hine, ainda que haja uma “menção honrosa” a proposta de Recuero, lá no final do texto, não descartam que “abordagens mistas, que lidam com grandes e “pequenos” dados, possam ser enriquecedoras”. Para além disso, gostei muito da contribuição das autoras porque há fundamentação teórica, discussão metodológica e – principalmente – inquietações empíricas de uma pesquisa ainda em andamento. Ao final, elas apresentam cinco eixos que esperam servir como “pequenos guias norteadores” para outras pesquisas.

Uma vez que o objetivo das autoras é “chamar atenção para desafios específicos” de sua pesquisa, não entrarei a fundo na fundamentação teórica (muito bem) apresentada no texto – embora recomende veemente a todos interessados na discussão sobre as diferentes etnografias (“tradicional” e virtual) e construção de identidade on-line que assim o façam. Trago, portanto, apenas os cinco eixos de desafios metodológicos que têm tensionado a atuação das pesquisadoras no estudo sobre “sujeitos que passaram por um final de relacionamento amoroso e como essa sua performance de si se dá no Facebook em um momento pós-término”, discutindo se há alteração em suas performances e quais tipos de narrativas são acionadas para se adequar a imperativo da felicidade.

“Entendemos, assim, que, de um modo geral, busca-se manter certa coerência expressiva entre os selves off-line e nos sites de redes sociais. Isto é, nesses ambientes – e em especial no Facebook, nosso objeto de estudo – os atores sociais tendem a querer mostrar traços identitários que consideram “reais”, como nome, local onde trabalham/estudam, gostos relacionados à indústria cultural, pessoas com as quais se relacionam, locais que frequen- tam etc., ainda que possa haver rupturas e desencaixes nessa construção por uma série de razões (intencionais ou não).”

Embora eu tenha optado por atropelar as discussões teóricas que precedem a discussão metodológica (apenas por motivos práticos), acho importante lembrar que alguns dos “problemas” levantados pelas autoras estão em total consonância com aspectos específicos da problematização da etnografia (virtual), da identidade on-line, etc. – ou seja, de certa forma, essas questões atravessarão os desafios metodológicos da pesquisa em sites de redes sociais apresentados a seguir:

a) Investigação sobre indivíduos e/ou casais

Um dos motivos pelo qual me interesso bastante pelo trabalho de Polivanov é que suas pesquisas geralmente focam em aspectos identitários “isolados”, como seu trabalho com participantes de cenas de música eletrônica no Facebook. Isso foge um pouco da prática comum da etnografia para internet (e mídias sociais) de estudar grupos ou comunidades específicas – como ela reitera, no atual trabalho “estamos mais interessadas, em nossa pesquisa, em conhecer em profundidade experiências particulares do que em estudar as dinâmicas de um grupo ou um número maior de casos”. Entretanto, isso se torna um problema primário à pesquisa uma vez que precisa-se fazer um recorte e delimitar o campo do objeto de estudo. “Mas como selecioná-los?”

b) Escolha e interpelação dos sujeitos de pesquisa

“A partir de um processo de conversas informais – on e off-line – com conhecidos de nossas redes de contatos e a partir da técnica da ‘bola de neve’ (Weiss, 1994), conseguimos sugestões de possíveis informantes que atendessem nossos critérios. Para além daqueles que fizessem parte de nossas redes, a escolha da parte da amostra de “desconhecidos” foi feita a partir da procura de grupos temáticos, conforme apontado acima, focando desse modo nosso olhar a pessoas que atravessaram algum conflito amoroso e usaram (usam) a rede e o suporte (semi)público para lidar com situações dessa natureza, sendo nosso interesse conhecer como se dá essa relação de “desabafo” entre o sujeito e a plataforma, no caso, o Facebook.”

c) Grau de inserção do(a) pesquisador(a)

“Aqui valeria a pena nos perguntar até que ponto esse tipo de aproximação, sem aviso aos informantes de que estão sendo observados, é eticamente correta. Além disso, seria apenas a observação, participante ou não, suficiente para entender as dinâmicas e discursos dos sujeitos ou necessariamente de- vem ser realizadas entrevistas? […] Nossa proposta metodológica entende que somente a observação dos sujeitos analisados não seria suficiente para responder as questões de pesquisa, sendo necessária uma aproximação direta e privada (ainda que virtual) com os mesmos que outorgue integralidade à pesquisa. Para isso é nosso propósito entrar em contato com cada um dos sujeitos escolhidos como amostra e realizar entrevistas, tanto on quanto off-line com eles, que complementem os dados obtidos na etapa de observação, tentando fugir assim dessa posição um tanto voyeurística e procurando vias diferentes de acesso à informação.”

d) Recorte temporal da pesquisa e da coleta de dados

Esse item é bem interessante porque elas tratam duas questões: primeiro, a problemática de delimitação de tempo de uma pesquisa empírica. Em resposta, defendem que “a observação sistemática dos acontecimentos e a coleta de dados deve ocorrer até atingir determinado ponto de saturação, isto é, até que não seja possível – seja por um limite de tempo, verba ou do próprio corpus – obter dados categoricamente novos”. Segundo, porque, citando Markham, as autoras “desmitificam” o véu de imparcialidade do etnógrafo, explicando que “os pesquisadores sempre interferiram no contexto de algum modo enquanto conduzem suas pesquisas” e que “em diferentes medidas, as noções de sujeito/objeto, pesquisador/pesquisado não devem ser tomadas como instâncias separadas, mas ao contrário, como afetações mútuas”.

e) Pesquisa de campo ou campos de pesquisa no Facebook

“Cabe, assim, a cada pesquisador(a) determinar o recorte do corpus que irá analisar e que ferramentas irá utilizar para tal. Em nosso percurso até o momento temos optado por dar especial atenção aos campos da seção “Sobre” e das postagens diversas feitas pelos sujeitos em suas linhas do tempo, buscando analisá-las não em grupos definidos quanto ao seu tipo de linguagem, mas sim enquanto unidades materiais-discursivas multissemióticas que devem ser entendidas principalmente a partir do momento e da intencionalidade de publicação, elementos que só podemos investigar a partir da realização de entrevistas direcionadas.”

A ideia de Polivanov e Santos foi justamente trazer alguns desafios e questões (tanto teóricas quando metodológicas) que têm atravessado seu trabalho de pesquisa no Facebook. Ao final, não apresentam soluções, mas “inquietações ainda em pleno processo de digestão”, o que considerei extremamente poético, coerente e justo por parte das autoras. Essa é a ideia do livro, levantar tensões e tentar travar um diálogo com acadêmicos, estudiosos e pesquisadores de forma geral sobre o espaço multidisciplinar que é a internet corporificada. Ainda há capítulos enriquecedores de Jair de Souza Ramos, sobre o modo como as discussões teóricas podem orientar a observação e a análise para etnógrafos, e de Laura Graziela Gomes, a pesquisa própria do meio digital (cibercultura).

Be Right Back: a narrativa do “eu” e a coerência expressiva no episódio de Black Mirror

Este é um post que estava engavetado há meses. Prova disso é que tenho, no meu quarto, um quadro branco onde mantenho minhas tarefas, aspirações e inspirações; hoje, quando tentei apagar “post Black Mirror e coerência expressiva”, uma mancha deixou uma marca como se me dissesse para não adiar tanto assim as minhas ideias que precisam ser desenvolvidas na prática. Portanto, antes tarde do que nunca, compartilho aqui no blog várias das inquietações que me fisgaram quando assisti à série Black Mirror – mais especificamente, ao episódio “Be Right Back”, da segunda temporada – e por que ele me remeteu tanto à ideia de coerência expressiva, desenvolvidos por Polivanov e Sá (2012). Antes de entrar nos detalhes da história e como relacionei com esse conceito, precisamos falar de Black Mirror.

Nas palavras da Wikipédia: “Black Mirror é uma série de televisão britânica antológica criada por Charlie Brooker, que apresenta ficção especulativa com temas sombrios e às vezes satíricos que examinam a sociedade moderna, especialmente no que diz respeito às consequências imprevistas das novas tecnologias”. Nas minhas palavras, é uma série enxuta – são apenas duas temporadas com três episódios cada, e um especial de Natal – que traz uma história diferente (com elenco, cenografia, tudo diferente) em cada episódio. Os temas perpassam discussões acerca de política, moral, sociedade do espetáculo, memória, morte, tecnologia e a nossa relação com as mídias em geral. Mesmo que não a conheça, talvez tenha ouvido falar que a terceira temporada estreia no dia 21 de outubro deste ano na Netflix – provavelmente um dos principais motivos que me coagiu a tirar esse post da gaveta. Não serei aquela pessoa que insistirá que você assista à série, mas recomendo muito, principalmente para profissionais, pesquisadores e pensadores das áreas de comunicação, tecnologia, política e mídias.

Imagem: Netflix
Imagem: Netflix

Como já mencionei, embora todos os episódios tenham mexido muito com a minha cabeça (esse é o objetivo), o episódio que quero abordar aqui é o primeiro da segunda temporada, intitulado “Be Right Back” (Volto Já, em tradução livre). A história é a seguinte (com ajuda do imdb): Martha e Ash são um casal de apaixonados que decidem morar juntos numa casa do interior. Um dia depois da mudança, ao devolver a van alugada para tal, Ash se envolve num acidente de carro fatal. No funeral, uma amiga de Martha recomenda um serviço novo que ajuda pessoas em luto a lidar melhor com a situação, criando um Ash “virtual” que se comunica com ela através de informações (dados) obtidos de mídias sociais e da internet como um todo. Ela não aceita bem a indicação da amiga, mas esta acaba a inscrevendo no serviço mesmo assim – o que só descobre quando recebe um e-mail do “novo” Ash. A partir daí, ela começa a ter vários embates pessoais e morais sobre (não manter) essa relação com esse personagem, e a trama se desenvolve justamente nesses conflitos internos. Podemos seguir daqui.

Dada essa introdução, pretendo apresentar quase que cronologicamente – porém de forma bem aleatória, arbitrária – – algumas questões que o episódio levanta. A primeira “problemática” sobre a qual precisamos nos debruçar é a questão da hiper-visibilidade e superexposição. Aqui, entretanto, não enxergo essa questão de modo conservador como vários estudos sobre privacidade, vigilância e narcisismo tem tratado este assunto – embora tenha esta linha de pensamento como importante para reflexão, acredito humildemente que parte de um juízo de valor um pouco ultrapassado que precisa, para avanço do debate, ser superado; recomendo, neste sentido, o subitem“Os discursos sobre a superexposição do eu e a era da vigilância”, do primeiro capítulo do livro Dinâmicas identitárias em sites de redes sociais, da Prof. Dra. Beatriz Polivanov, no qual ela revisa essas discussões e propõe uma brecha na para seguirmos em frente. Ainda assim, mesmo que o debate fosse trazido para discussão, eu argumentaria que, pros fins da história, essa superexposição acabou sendo bom para o personagem.

Explico: o “novo” Ash, sintético, passa por um processo de machine learning. Para que ele se torne o Ash que Martha, sua esposa, consiga identificá-lo como seu antigo marido, o serviço no qual sua amiga a inscreve consome todo tipo de conteúdo que o “verdadeiro” Ash já publicou online – não apenas em mídias sociais, mas também em e-mail, mensagens instantâneas, etc. Cada rastro social digital que ele tenha deixado enquanto vivo se transforma em fonte de alimento para que o robô (se é que posso utilizar esse termo tecnicamente estigmatizado) simule – e aqui reitero a noção de reproduzir – quem ele era antes. Isso expõe a importância de que ele tenha, ainda vivo, criado uma identidade (performance, ou narrativa, como prefiro) de quem ele era no ciberespaço. E, por mais importante que essa construção do eu enquanto conflito interno seja importante psicologicamente falando, argumento que ainda mais importante é o fato de, para além de se construir, narrar a sua construção. A identidade que ele criou para si quando era vivo, para que se tornasse “completa”, necessitava da interação com o outro – ou seja, precisava ser narrada.

Acho importante tocar nessa questão porque é algo que me parece essencial à discussão da construção de si, como vão argumentar diversos autores como Hall, Pollak e Bourdieu – a identidade é construída no discurso, na linguagem. Na minha humilde opinião, os trabalhos apresentados sobre a construção do eu no ciberespaço parecem ter superado muito fácil essa ideia e se ancoram demais (justificadamente) nos conceitos apresentados por Goffman. A meu ver, o sistema de interpretação e comunicação é um só, o que muda nesse (novo) contexto é apenas as plataformas e dispositivos de narração. No entanto, vou segurar esse argumento aqui para que o post não se torne muito grande e complexo (e porque é debate pra cacife grande), quando a proposta que pretendo trazer para discussão aqui é outra: a ideia de coerência expressiva. Isso quer dizer que, para além de atuar nesses instrumentos e dispositivos de narração para compor a sua identidade, o sujeito depende do outro para se constituir. Eu crio minha narrativa através das construções sociais e culturais que me atravessam mas projeto sempre minha história no outro.

É este processo que chamamos de coerência expressiva dos atores nas redes sociais. E com esta expressão, interessa-nos demarcar este processo, intensamente complexo, precário, inacabado, de ajuste da “imagem” própria aos significados que se quer expressar para o outro, e que é muito fortemente ancorado na utilização de bens culturais-midiáticos, tais como letras de músicas, filmes, clipes, etc., utilizados a partir da avaliação pelos atores de sua adequação ao que querem expressar, traduzir, apresentar e comunicar nos sites. Processo que se dá em tensão, sujeito a ruídos, uma vez que sempre atravessado pela relação com os outros atores da rede sócio-técnica na qual o usuário se insere. O que nos permite sugerir, talvez, uma ilusão da coerência expressiva, à maneira como Bourdieu fala da ilusão biográfica, a fim de desconstruir qualquer suposição de estabilidade, controle ou de concretude do sujeito como resultado do processo. (Sá e Polivanov, 2012)

Da primeira vez que assisti ao episódio, este foi o aspecto que mais me chamou a atenção. Um dos maiores embates e conflitos internos pelo qual a personagem principal, Martha, passa, é nessa questão de ter, naquele robô, uma narrativa reflexivamente construída que emula quem seu marido um dia foi. Desde o primeiro contato entre os dois, quando ela recebe o e-mail desse ser virtual e se dispõe a respondê-lo, o elo que eles criam se dá pelo fato que a máquina tenha processado as informações e aprendido a simular o que Ash falaria. E isso, esse conforto que ela constrói conforme eles vão se comunicando, é possibilitado apenas pelo modo como ele se apresentava online. Para além disso, reforço o fato de que essa narrativa que ele construiu enquanto vivo no ciberespaço era construída num sentido de auto-reflexividade que também supera, em certos pontos, o argumento da exposição descontrolada ou desenfreada no ambiente das mídias (e sites de redes) sociais. Quando ela se depara com a versão material do “computador”, o elogio que ela faz à sua aparência e a resposta que ele dá (“as fotos costumam ser boas”) ratifica o processo meticuloso pelo qual a narrativa mediada por computadores tem nos submetido durante os anos.

Imagem: Netflix
Imagem: Netflix

Ainda nesse contexto, mas reforçando mais a ideia de que só nos construímos no outro, há uma cena (duas, na verdade) que parecem ter sido escritas propositalmente para que fosse levantada essa questão na discussão: ainda vivo, Ash decide publicar em algum site de rede social uma foto dele ainda criança. Ele justifica essa ação explicando à esposa que acredita que as pessoas irão achar aquela foto engraçada. No entanto, na mesma cena, ele revela que aquela foto não tinha nada de engraçada – remontava, em sua memória, pelo contrário, um fato bem triste. Ou seja, ele resignificou aquela imagem para conscientemente criar uma nova narrativa simbólica do que aquele evento o remetia. No final do episódio, esse arco narrativo é retomado (talvez em tom de crítica) quando o robô Ash vê aquela foto na sala e comenta: “Ha, engraçado” – provavelmente porque o desenrolar da ação primária do Ash “verdadeiro”, quando publicou a foto no SRS, tenha se dado nesse contexto cômico da situação, através de comentários de amigos e do próprio em resposta àquele estímulo comunicacional. Isso, no entanto, coloca-nos outro fato muito importante – que, novamente, rebate a superexposição desenfreada: a narrativa que construímos de nós mesmos no ciberespaço é insuficiente.

Esse embate que limita a simulação de Ash entra em pauta principalmente no final do episódio, quando pequenas situações de desconforto são criadas entre Martha e o “novo” Ash. Num primeiro momento, a história toca nesse aspecto quando, numa cena de sexo, o personagem explica que não há “registros” desse contexto processadas pela sua tecnologia de deep learning – o que é rapidamente superado pela proposta de aprendizado em outras fontes, no caso, sites de vídeos pornô. Esse embate pode ser reforçado pelo argumento de Silva (2015, online) que explica que “produtos que atendem necessidades fisiológicas são alvo de conversações nas mídias sociais quando atendem também necessidades simbólicas”, contextualizando – e abrangendo – essa argumentação a um universo maior de conversação, que não envolve apenas produtos, mas a sociabilidade digital como um todo. No final da história, essas incongruências começam a se tornar ainda mais conflitantes para a personagem principal, num contexto no qual acho coerente apresentar um conceito de Giddens abordado no artigo em questão:

Em seu argumento, o autor lista seis características principais das relações puras, quais sejam:

1) “em contraste com laços pessoais próximos em contextos tradicionais, a relação pura não está ancorada em condições exteriores da vida social e econômica – é como se flutuasse livremente” (2002, p. 87);

2) “a pura relação é buscada apenas pelo que a relação pode trazer para os parceiros envolvidos (…) é precisamente neste sentido que a relação é ‘pura’” (p. 88);

3) “a relação pura é reflexivamente organizada, de modo aberto e em base continua”. (p.89);

4) “o ‘compromisso’ tem um papel central nas relações puras” (p. 89);

5) “a relação pura enfoca a intimidade, que é uma condição principal de qualquer estabilidade de longo prazo que os parceiros logrem atingir” (p. 91) e;

6) “a relação pura depende da confiança mútua entre os parceiros, que por sua vez se liga de perto à realização da intimidade. (…) a confiança não é e não pode ser tida como “dada”: como outros aspectos da relação, deve ser trabalhada – a confiança do outro precisa ser ganha” (p. 92).

Sob essa perspectiva de Giddens, é essa questão da relação pura que escancara as rachaduras do novo “relacionamento” do casal. Estendendo-se nessa ideia, Sá e Polivanov (2012) explicam o conceito de self-disclosure de Baym no qual “a necessidade de ‘abertura’ para com a figura do outro de forma a mostrar-se como sujeito ‘crível’, ‘verídico’ e passível de se tornar confiável” é traço fundamental para a relação pura. No entanto, esse argumento poderia ser rebatido com o fato de que, nos sites de redes sociais, temas como sexo não são realmente expostos, mas em outros canais como e-mail, mensagens instantâneas, etc., poderiam ser. É aí que entra uma questão mais subjetiva, na qual a quebra de expectativa que prejudica o relacionamento e auxilia na quebra de sentido que a narrativa de machine learning construíra para Ash acontece porque o “eu” construído não é total, ou seja, não corresponde à compreensão de Martha do que seu marido, enquanto sujeito plural, apresentava ser. Uma das últimas cenas, bastante emblemática, quando, depois de passar por todos esses conflitos, ela desabafa e pede que ele se destrua – jogando-se de um penhasco – exemplifica sua “limitação” identitária.

Imagem: Netflix
Imagem: Netflix

No entanto, retomando minha argumentação no sexto parágrafo sobre narrativas e plataformas, confesso que sou um pouco cético sobre essa limitação ser um aspecto exclusivo de plataformas e dispositivos de comunicação mediada por computador. Como também mencionei anteriormente, a construção da identidade é feita no discurso, na narrativa, é uma construção linguística. Entretanto, a meu ver, a própria língua enquanto instrumento comunicacional é limitante ao tentar fixar (e representar) a identidade. Ou seja, a identidade, nesta minha linha de raciocínio, é múltipla, flexível, contínua, inconstante, etc. demais para que alguma ferramenta comunicacional seja capaz de narrá-la em sua plenitude. Por isso tenho a interpretação de “presentation” em Goffman (graças a minha querida prof. Ana Lúcia Enne), como aquilo que se presentifica, que pode vir a ser (um devir) como mais apropriada para pensar a construção identitária narrada pelos sujeitos.

Para finalizar, gostaria de pedir paciência (e compreensão) caso qualquer uma das minhas ideias apresentadas aqui tenham parecido pretensiosas ou prepotentes. Estou atualizando meu repertório sobre identidade no ciberespaço através de um projeto que tenho desenvolvido no estágio, que tem me proporcionado conhecer vários autores estrangeiros que já trouxeram à discussão esse caráter da sociedade atual. A minha ideia aqui era expor pensamentos, indagações, reflexões e inquietudes sobre o que pude absorver do episódio da série referida, para então trazer para debate e estar sujeito a quaisquer críticas que possam ser pautadas sobre minha argumentação. Espero que tenha sido prazeroso ao leitor e prometo (talvez) retomar as ideias deste post em outros momentos, talvez pelo terceiro episódio da nova temporada da série, que também vai abordar satiricamente a identidade na era das mídias sociais.

Referências bibliográficas

PEREIRA DE SÁ, Simone; POLIVANOV, Beatriz. Auto- reflexividade, coerência expressiva e performance como categorias para análise dos sites de redes sociais. Contemporânea, v. 10, n. 3, set-dez 2012, pp. 574-596.

SILVA, Tarcízio. Necessidades humanas, camadas simbólicas e o monitoramento de mídias sociais. Tarcízio Silva, online, 2015. Disponível em: http://tarciziosilva.com.br/blog/necessidades-humanas-camadas-simbolicas-e-o-monitoramento-de-midias-sociais/.

Social Media Week 2016: os melhores conteúdos de palestras disponíveis online

Aconteceu na semana passada, entre os dias 12 e 16 de agosto, mais uma edição do Social Media Week no Museu da Imagem e Som (MIS) de São Paulo. O evento é uma organização global que ministra conferências e palestras em diferentes países do mundo, como Índia, Reino Unido, Chile, Estados Unidos, Itália, Indonésia, dentre vários outros. A proposta é compartilhar com profissionais e entusiastas da área as melhores ideias e inovações sobre como o universo das mídias sociais – e da tecnologia como um todo – tem mudado a sociedade, os negócios e a cultura contemporânea.

Infelizmente o Brasil é um país de dimensões continentais e milhares de profissionais não têm a oportunidade de comparecer ao encontro para participar das discussões e descobrir melhores práticas de atuação no mercado. No entanto, vários dos palestrantes disponibilizam anualmente o conteúdo de apresentação no Slideshare, site que costumo “exaltar” constantemente pelo seu vasto acervo didático para estudo. Este ano o evento brasileiro foi merecidamente protagonizado pelas mulheres, que puderam compartilhar suas histórias de empreendedorismo através do canal Plano Feminino no blog oficial do SMW. Coincidentemente (ou não), as melhores apresentações que encontrei online são de mulheres que fizeram a diferença. Confira abaixo:

Do real time marketing à comunicação estratégica de contexto – Dani Rodrigues

Sabe aquela questão fundamental de como as marcas devem se adaptar aos ambientes digitais? Acredito que, hoje, a profissional e pesquisadora mais capacitada a responder esse questionamento é a Dani Rodrigues. Eu, fã de carteirinha e um dos frequentadores mais assíduos de suas aulas e palestras, diria que sua fala pode ser compreendida em: análise + estratégia/avaliação/planejamento + criatividade. Além dos slides, recomendo a leitura do capítulo de sua autoria, “Do live marketing à comunicação estratégica de micro-momentos”, que inspirou a palestra e faz parte do e-book Tendências em Comunicação Digital, produzido pelo grupo de pesquisa COM+, da ECA-USP. Quem tiver interesse em aprender mais com ela recomendo o curso “Análise de Dados e BI para Planners”, do IBPAD.

Gestão do Conhecimento: uma ferramenta de gestão necessária às agências de comunicação! – Cinara Moura

Outra profissional que já apareceu no blog em materiais sobre monitoramento e métricas, sobretudo a partir de uma perspectiva de gestão de trabalho, é a Cinara Moura – que também apresentou uma palestra no #SMWSP. A considero a principal referência quando o assunto é gestão de processos e conhecimento, pensando principalmente como extrair o melhor dos profissionais e colaboradores das empresas/agências. Além dos slides, nos quais ela apresenta qual é o valor vital para a gestão de conhecimento nas agências de comunicação, recomendo o e-book de sua autoria, “Social Media: A Operação”, produzido pelo Quero Ser Social Media, no qual ela conceitua algumas questões fundamentais para a otimização de projetos, operações e processos. Há também um curso do IBPAD a quem possa interessar.

Monitoramento de mídias sociais: como construir um portfólio público – Ana Claudia Zandavalle

A apresentação da Ana Cláudia Zandavalle com certeza era uma das que eu mais queria ter assistido – felizmente ela disponibilizou o conteúdo na web para quem, assim como eu, tivesse a curiosidade de responder à inquietação da sua proposta. Referenciando Tarcízio Silva, Mariana Oliveira e Pri Muniz (todos profissionais de inteligência em mídias sociais cujos materiais sobre monitoramento e métricas estão disponíveis online), ela conceituou rapidamente o monitoramento e apresentou algumas das duas possibilidades, trazendo cases de relatórios disponíveis publicamente na internet por agências e profissionais da área. Por fim, mostrou um pouco da metodologia que utilizou para a produção do seu estudo “Acne: não é da idade” (muito útil para quem, assim como eu, deseja elaborar um portfólio de monitoramento de mídias sociais) e deu algumas dicas finais sobre divulgação de conteúdo na web (onde este blog apareceu! uhu!).

Como não cometer gafes sobre questões de gênero e feminismo nas redes sociais – Mônica Duarte Bulgari

Mais do que simplesmente um “guia”, o material da jornalista Mônica Bulgari é uma aula sobre poder de fala, discurso, cultura, gênero e publicidade. É talvez o assunto que mais seja necessário aos cursos e às faculdade de Publicidade e Propaganda e que mais passam batido. É discutir o que matérias das Ciências Sociais vêm discutindo há muito tempo, pensando mídia, poderes hegemônicos, lugar de fala, humor como artefato cultural que reforça representações sociais equivocadas, e muito mais. E ainda recomenda o documentário “O Riso dos Outros”. Uma apresentação mais que necessária, responsável, adaptada ao público do evento, coerente e muito bem explicativa. Recomendo ainda a matéria citada na apresentação, “Machismo é a regra da casa”, que denuncia os absurdos da publicidade brasileira.

Seja um Social Media Hacker e ganhe autoridade – Agnes Pires

Para finalizar, trago a palestra da Agnes Pires, que apresentou algumas dicas fundamentais para todos os profissionais de social media. Confesso que fiquei um pouco receoso com o adjetivo “hacker”, que particularmente considero um pouco supervalorizado em outras titulações do mercado que têm ganhado autoridade nos últimos anos – trata-se de um profissional de mídia inteligente. Entretanto, fui fisgado pela importância dada às outras áreas de estudo como antropologia, cibercultura e psicologia.


Essas são apenas algumas das várias apresentações que o evento ministrou na semanada passada. Abaixo, listo ainda alguns materiais que não dispõem de tanto valor didático no conteúdo, mas que considero de relevância para quem tiver interesse em procurar os profissionais capacitados nos assuntos específicos:

 

 

 

Política e identidade em rede: reflexões sobre práticas sociais contemporâneas

Começo este post avisando que daqui deve sair um misto de diário pessoal (devaneios), artigo acadêmico e publicação para a web. Se tudo encaminhar conforme minimamente organizado na minha mente, esse é o formato já instaurado e que continuar a seguir.

Diante do caos social e político que se estabeleceu no Brasil nesta semana, um dia após o processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, tomei a humilde decisão de associar uma espécie de “adesivo virtual” à minha foto de perfil do Facebook – com o simples fundamento, na minha cabeça, de que “não dava mais para não se posicionar”. Esse pensamento “fácil” se alinha ao fato de que: 1) demonstrei meu apoio a um candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, sendo que não resido atualmente na cidade; 2) mesmo que tivesse demonstrado o apoio a um candidato que simpatizo na minha cidade atual, seria um apoio simbólico, pois meu título eleitoral ainda pertence à cidade onde cresci, no Nordeste. Ou seja, naquele momento, o motivo por trás da minha ação não tinha nenhum valor “efetivo”, apenas simbólico – deixar claro a todos (amigos e desconhecidos) qual é o meu posicionamento político e quais valores estão associados a ele. E aí passei o dia refletindo sobre o assunto.

Trago aqui, portanto, alguns pensamentos, reflexões e devaneios pelos quais passeei durante os últimos dias. Antes de abrir essa porta, no entanto, acho importante dizer que fui atrás de bibliografia que me ajudasse a entender sobre o tema. Quem me conhece, conhece o blog ou já leu a página sobre mim daqui sabe o quanto eu valorizo a compreensão social (da sociedade) estruturada nas metodologias acadêmicas. Aprendi com uma queridíssima professora e não cansarei de propagar que as leituras da universidade (de “humanas”, pelo menos) nos ajudam a entender melhor o mundo em que vivemos. Busquei, portanto, em fontes confiáveis cujo trabalho já tive contato superficial em outros momentos: Raquel Recuero e Fábio Malini. Esses pesquisadores, no entanto, apesar de trabalharem bastante com a questão de política em rede, não abordam o tema pensando a construção de identidade, mas propondo (geralmente) análises de discurso pautado em dados de SRSs. Embora seja um bom ponto de partida para entender o contexto, não atendem à minha demanda.

Também procurei no Google Acadêmico, no Google normal e no Sci-Hub: não encontrei nada que se encaixasse minimamente na minha linha de raciocínio reflexivo. Confesso que a busca não foi tão apurada assim – tivesse menos ansioso para escrever sobre o assunto, talvez teria encontrado alguns materiais que dialogassem comigo de alguma forma. Portanto, peço humildemente ao caro leitor que: 1) caso conheça algum artigo, dissertação, tese ou qualquer produção acadêmica que corresponda aos pensamentos que vou expor aqui, ofereça tais sugestões na seção de comentários – agradeço desde já; 2) perdoa-me pela irresponsabilidade científica – mas lembra que isso é um blog e o formato desse texto já não corresponde às severas diretrizes da academia. Antes de abordar algumas questões relacionadas à construção de identidade em sites de redes sociais (contextualização importante para estruturar as ideias que compartilharei em seguida), trago aqui um trecho do livro “How the World Change Social Media”, que mapeia minimamente a bibliografia – internacional – sobre política e internet:

The immense literature available on the internet and politics, and more specifically on politics and social media, has changed over time. It began with a focus upon the role of the internet in new social movements in the 1990s, and was followed by the problem of digital divides and e-governance, the role of Web 2.0 platforms and user-generated content. Most recent studies have considered the consequences of the affordances of WiFi and mobile media such as smartphones, particularly regarding their role in organising collective political activity. Chadwick and Howard present an excellent volume on the critical debates about the relationship between the internet, state politics and citizenship, while Postill concisely summarises key research in digital politics and the ways in which ethnographic inquiry contributes to understanding the ecologies of protest movements. In the early 2000s there was a distinct sense of optimism around e-governance and e-government, and the potential they offered for bridging the digital divide. The internet and social networking sites were seen to be transforming ‘the public sphere’, a concept associated with social theorist Jurgen Habermas. More recently attention has been turned to the role of social media in organising political action, particularly in the various regional experiences of the Arab Spring. This was in a sense the turning point in such studies, prompted by Morozov’s work on the use of digital technologies for political repression during these events. Since then there has been a growing body of research critical of assumptions that the main role of digital technologies is to increase meaningful democratic participation. However, there is also considerable interest in the use of new media as the basis for alternative forms of collective action, for example research by the anthropologist Coleman on Anonymous and other online political activists.

A publicação faz parte da série Why We Post, um projeto de pesquisa comandado por Daniel Miller da University College London. Assinam, além do próprio, Elisabetta Costa, Nell Haynes, Tom McDonald, Razvan Nicolescu, Jolynna Sinanan, Juliano Spyer, Shriram Venkatraman e Xinyuan Wang, com uma visão antropológica sobre o uso das mídias sociais no Brasil, Chile, China, Inglaterra, Índia, Itália, Trindade e Turquia. Vale lembrar que, além das 11 publicações que serão publicadas até o final do projeto (três já estão disponíveis para download no site oficial), a terceira turma do curso correspondente ao projeto que começará em 31 de outubro na FutureLearn está com as inscrições abertas! Caso você tenha interesse no assunto (não só na temática política, mas pensar as mídias sociais de maneira antropológica como um todo), recomendo veemente tentar fazer o curso – será a minha também terceira tentativa de participar e eu garanto que dessa vez não passa. Mas voltemos ao que interessa…

Como muito bem detalhadamente explica a citação, os estudos sobre política e internet durante as últimas décadas têm observado a temática majoritariamente sobre o viés “tecnológico”, debatendo a funcionalidade das novas mídias digitais enquanto influência política na sociedade. A minha proposta para o post é pensar – e reitero: pensar, refletir, filosofar, sem nenhum compromisso de “responsabilidade” – o assunto política no que tange à construção do sujeito online. Para não dizer que não encontrei nada sobre a temática conforme minha linha de pensamento, compartilho aqui a conclusão do capítulo específico sobre política do livro supracitado do Miller, após uma análise que identifica três problemáticas relativas às normas de relacionamento nos sites de redes sociais, à imposição de monitoramento estatal sobre questões de política nacional em diferentes países e como essas duas coisas causam diferentes abordagens do tópico nas conversações:

In general we have found that, if one turns to ordinary field sites, politics on social media has a much lower profile than we might otherwise have expected. In some cases this may be because it is suppressed, leading to a highly conservative representation of people’s lives and opinions online. In other cases, however, it is because social media is more associated with entertainment and social bonding than with serious issues such as politics.

O problema é que essa conclusão não me atende. Desde 2013 a temática política não tem saído das pautas de conversa dos sites de redes sociais no Brasil, como corroboram vários – centenas? – de artigos acadêmicos que fizeram questão de abordar o assunto nos últimos anos. Só coloquei esse trecho para reforçar que eu procurei, sim, bibliografia sobre a dinâmica da qual o post trata. Na verdade, a citação me permite puxar um gancho que já tinha passado pela minha cabeça e trago aqui para começar a teorizar (irresponsavelmente) sobre alguns desdobramentos da temática; eu compartilho com o pensamento do campo dos Estudos Culturais que reconhecem a cultura como arena de disputas onde se travam as principais lutas políticas e sociais. Muitos autores também abordam esse tópico falando não (apenas) de cultura, mas também de discurso: Bahktin, Certeau, Bhabha, Hall e o próprio Foucault para falar de relações de saber e relações de poder. O que quero dizer é: quando falamos de política, falamos de cultura; quando falamos de cultura, falamos sobre disputa e relações de poder (política).

E aí precisamos resgatar Hall em “A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo” para entender como o debate entrou em pauta. No texto, ele explica que a cultura, desde o seu sentido mais amplo (produção de hábitos, valores, tradições, etc. que todo grupo social tem), é fundamental. No entanto, é a partir do século XX que a ela se torna uma problemática para o homem ocidental – quando, por volta da década de 50 e 60, torna-se central e substancial, numa espécie de revolução cultural que materializa a cultura, onde não há como escapar da discussão a que a cerca. Nesse contexto, quatro eixos da vida contemporânea podem ser compreendidos como condicionadores de sua substancialização: a expansão dos meios tecnológicos (cultura das mídias); a cultura e a globalização (multiculturalismo); cultura e cotidiano (o materialismo da sociedade de consumo de bens culturais); e cultura e identidade (subjetividades), o sujeito social e o sujeito eu.

Esse quarto eixo é o que mais me interessa no momento e que, de certa forma, abarca o contexto social que vivemos hoje – a ascensão individualista do sujeito e sua construção simbólica (identidade). Não é por acaso que essa “virada cultural” acontece também numa época onde há um levante forte de movimentos sociais (negros, mulheres, LGBTs) que atuam nesse dualismo entre sujeito e coletivo – é preciso se reconhecer individualmente enquanto homossexual, por exemplo, enquanto também faz-se mais que necessário compreender o grupo no qual minhas vivências e experiências de vida são contempladas. Sobre isso, trago mais uma explicação acerca do pensamento de Hall que ajuda a desbravar as ideias:

Hall partilha da idéia de que a identidade não pode ser tomada de forma cristalizada, mas sim como um processo. E propõe duas maneiras de se pensar a “identidade cultural”, que aqui tomo como referência para a identidade social. A primeira posição, diz ele, define identidade cultural nos termos de uma cultura partilhada, criando um tipo de pertencimento verdadeiro e coletivo. Seria, portanto, uma construção de identidades por um partilhamento de interesses e visões. No entanto, existiria uma segunda via, que trabalhará a partir das diferenças, do reconhecimento de um com outro, com quem se estabelecerão relações conflituosas e por vezes complementares. Portanto, para o autor, é impossível pensar a construção das identidades como resultante somente de partilhamentos de pontos comuns, ou do estabelecimento de contrastes e oposições. A produção da identidade, enquanto processo, deve conter os dois eixos ou vetores, como ele mesmo chama. (ENNE e LACERDA, 2011)

Em “A identidade cultural na pós-modernidade”, dialogando com Giddens e Bauman, Hall também vai ratificar o caráter multifacetado e fragmentado das construções identitárias na contemporaneidade. Esse discurso é complementado por Goffman que afirma “que todos performatizamos aspectos das nossas identidades, atuando de modos diversos em diferentes meios sociais e para diferentes públicos”. Ou seja, é tudo encenação – e aqui é mais do que necessário remover qualquer valor de julgamento que englobe a palavra maneira pejorativa; mas se nos construímos na interação com o outro, é no mínimo compreensível que vivemos de performance(s). No ciberespaço, de maneira bem mais controlada (em todos os sentidos), “os atores sociais optam por tornar visíveis e ocultar determinados conteúdos nos sites de redes sociais, em um processo marcado pela escolha em grande medida consciente e refletida sobre os materiais apropriados em seus perfis” (POLIVANOV, 2014).

Trata-se, portanto, de uma construção discursiva performatizada, dirigida para uma audiência (imaginada) (BOYD, 2011), que permite sua autoapresentação e interação com outros nesse lugar, sempre atravessada pelos discursos de outros atores com os quais interage (BERTO E GONÇALVES, 2011). […] Os perfis dos atores no Facebook são personas […] no sentido de serem construções ou versões de si que os atores sociais – com mais ou menos cuidado e nível de autorreflexão – elaboram (e reelaboram constantemente) performaticamente, selecionando comportamentos e materiais de acordo com a impressão que querem causar à sua audiência em determinado momento.

As pesquisas de Miller (2011) e Polivanov (2012), embora tenham uma consideração semelhante de que há, nesses ambientes, uma busca por sociabilidade e expressão de si, não chegam a discutir/abordar conteúdos de teor político como estratégia também na construção da identidade online – talvez pelo “distanciamento” dos objetivos de pesquisa desse tema. A lacuna, portanto, fica aberto para que pensemos juntos como esse conteúdo é ativo pelos atores sociais e por quais motivos são acionados de tal maneira. Sabendo que a visão política é um marcador tradicional de identidade (PEMPEK, YERMOLAYEVA e CALVERT, 2009 apud POLIVANOV, 2012) que, assim, como religião, idade, renda, orientação sexual, etc., eram informações consideradas para as gerações anteriores extremamente pessoais e particulares (LIVINGSTONE, 2012 apud POLIVANOV, 2012), o que significa para os indivíduos – enquanto sujeitos que criam suas identidades pluralmente – entrar nesse novo campo de esfera pública e travar as disputas que alavancam?

Para responder a essa pergunta (talvez o principal motivo de ter feito esse post), vou recorrer a uma teoria minha que explicarei brevemente e num outro momento pretendo escrever sobre aqui no blog. Antes, novamente, peço licença aos mais academicistas para deixar de lado as citações (nem tanto), o aporte teórico e, como já citado anteriormente, a responsabilidade científica dessa(s) teoria(s). Estou falando enquanto personagem desse contexto através da minha compreensão de mundo, sem me preocupar com qualquer discussão coletiva acerca dessas problemáticas – poderia, por exemplo, conduzir entrevistas com algumas pessoas para obter um respaldo metodológico que me permitisse basear com mais critérios os argumentos que apresento. No entanto, ratifico porque sinto que preciso ter (pelo menos) essa responsabilidade: é um devaneio pessoal e particular, a partir de preposições sociais e culturais que me atravessam, é claro, mas não mais que isso.

Logo, voltemos ao momento quando decidi apoiar simbolicamente um candidato à prefeitura do Rio de Janeiro. Como já mencionei anteriormente, a minha decisão para o ato foi completamente pautada no outro: queria mostrar às pessoas quais valores eu compreendo enquanto cidadão para uma política pública responsável. No entanto, como os próprios autores que mencionei aqui no post, esse jogo identitário se dá tanto no campo coletivo quanto no campo pessoal. No primeiro, recorro a recursos imagéticos de significação que precisam ser compreendidos pelos demais para que seja feita a associação desejada entre os valores e a pessoa. No segundo, a minha própria decisão de fazer isso deve corresponder aos meus processos de experiência de vida que me atravessaram durante todos esses anos, correspondendo à minha compreensão de mundo e como ela fez morada em mim para que eu pudesse então compartilhar com os outros o que isso significa para mim.

Mas, afinal, por que recorrer a essas estratégias de construção de identidade (que, como mencionado, antes não eram colocadas em discussão) quando podemos buscar ferramentas midiáticas mais fáceis para assim a fazermos? A resposta é bastante diplomática: uma não exclui nem abdica da outra. E aí retomo novamente Hall para ratificar o perfil multifacetado das identidades na contemporaneidade, além da “virada cultural” que pôs no centro das discussões tudo que engloba cultura enquanto a compreendemos. Por mais que os editoriais de revistas e outros produtos midiáticos insistam em dissociar política e cultura (isso por apreender cultura numa fusão iluminista e romântica, na qual o passado é venerado para a iluminação espiritual do indivíduo), enxergo que as duas forças nem deveriam ser chamados de campos distintos, uma vez que estão completamente entrelaçados.

É de se esperar, então, que, quando surge um “novo” espaço cibernético de sociabilidade, todos os trâmites culturais ocupem esse novo ambiente. As arenas de disputa de significado e significação, portanto, também estão projetadas nesses espaços online – por isso as “brincadeiras” (sic) de denúncia social são tão importantes quanto às mobilizações off-line, porque os sites de redes sociais tornaram-se locais de luta de significado que interferem diretamente na cultura de um grupo enquanto nação. Esse embate reflete também a construção de personas dos indivíduos online, que cada vez mais são estimulados a entrarem nesse campo de debate e tomarem uma posição (arriscada ou não) política de assuntos sociais. É o que fazemos quando compartilhamos textos, imagens, vídeos de veículos com editoriais detalhadamente localizados politicamente, grupos/coletivos de movimentos sociais ou pessoas que compartilham dos nossos valores. A luta também acontece no campo discursivo.

Para fechar, lembro a todos que a minha adesão foi feita (embora o conteúdo que eu compartilho já revelasse meu posicionamento) através da foto de perfil, o que implica em mais algumas discussões sobre o assunto, conforme a própria Polivanov (2014) destaca no seu estudo. No mais, agradeço a todos que chegaram até aqui e peço desculpas por qualquer inconveniência de irresponsabilidade científica no texto – sim, toco nesse ponto novamente porque sei como as pessoas da internet são estimuladas a expor o erro do outro. No mais, espero que a reflexão tenha feito sentido e que agregue ao pensamento de quem chegou até aqui – estou mais que disposto a trocar ideias sobre o assunto seja nos Comentários ou em outro local mais privado.

Referências bibliográficas

COSTA, Elisabetta; HAYNES, Nell; MCDONALD, Tom; MILLER, Daniel; NICOLESCU, Razvan; SINANAN, Jolynna;  SPYER, Juliano; VENKATRAMAN, Shriram; WANG, Xinyuan. How the World Changed Social Media. UCL, 2016.

ENNE, Ana; LACERDA, Andressa. Gírias, hibridizações, negociações, negações: o discurso como objeto e lugar de disputas na arena da cultura. ENECULT – Salvador, BA, 2011.

HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Porto Alegre: Educação & Realidade, 1997.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2005.

MILLER, Daniel. Tales from Facebook. Cambridge / Malden: Polity Press, 2011.

POLIVANOV, Beatriz. Dinâmica identitárias no Facebook: estratégias de publicização e ocultamento de conteúdos. XII Congreso ALAIC, 2014.

POLIVANOV, Beatriz. Dinâmicas de autoapresentação em sites de redes sociais: performance, autorreflexividade e sociabilidade em cenas de música eletrônica. Niterói, RJ, 2012. 

FutureLearn: 10 cursos para profissionais de monitoramento e métricas com inscrições abertas

“Quanto custa um bom curso de mídias sociais?” é uma pergunta frequente nos grupos sobre social media do Facebook. De alguns anos pra cá, vários cursos têm se consolidado no mercado enquanto referências para profissionais começando ou buscando capacitação em diferentes campos de mídias sociais – destaco aqui o Quero Ser Social Media e o Atlas Media Lab, além do novato IBPAD – e isso é ótimo para a nossa área. No entanto, embora o mapeamento que eu tenha feito no Estudando Social Media tenha resultado em ótimas experiências enquanto aluno, posso dizer que há boas oportunidades também para aqueles que não conseguem desembolsar tanta grana para cursos livres sobre monitoramento, data intelligence, etc. – ou para quem simplesmente deseja expandir seus conhecimentos.

No primeiro post que fiz sobre o também primeiro curso que estou fazendo no FutureLearn, contei um pouco sobre o site: trata-se de uma plataforma de MOOCs (Massive Open Online Course), um ambiente virtual de educação à distância que oferece diversos cursos gratuitos para pessoas de todos os níveis de graduação. As aulas são liberadas semanalmente e os alunos podem concluir os estudos no seu tempo – a única implicação (além de perder a discussão com os colegas) é que aqueles que desejam fazer a inscrição têm apenas até a última semana “oficial” a partir do início do curso para que assim a faça. Portanto, para ninguém perder boa oportunidades, separei alguns cursos sobre big data, data analysis, social media e marketing digital que achei que poderiam ser úteis para profissionais de monitoramento e métricas – mas também para quem trabalha com social media de uma maneira geral.

Embora não tenha realizado nenhum dos cursos abaixo, tenho algumas considerações (e indicações mais veementes) a fazer: 1) os três primeiros cursos fazem parte do programa Big Data Analytics da Queensland University of Technology (QUT), mesma universidade que ofereceu o curso de Social Media Analytics que estou fazendo; 2) o curso de linguística de corpus é altamente recomendado pelo Tarcízio Silva; 3) por fim, é a terceira turma do curso da UCL com Daniel Miller e cia. sobre antropologia da social media este ano, provavelmente a última – vamos todos fazer juntos?. Vale ratificar que há diferentes níveis de aprendizado e conhecimento antes mesmo de começar cada um dos cursos – os seis primeiros, por exemplo, exigem do aluno um repertório maior e mais aprofundado sobre estatística, programação, etc. – mas tem para todos os gostos!

  • Big Data: Statistical Inference and Machine Learning
  • QUEENSLAND UNIVERSITY OF TECHNOLOGY
  • Data de início: 5 de setembro de 2016
  • Resumo: “Everyone has heard of big data. Many people have big data. But only some people know what to do with big data when they have it. So what’s the problem? Well, the big problem is that the data is big—the size, complexity and diversity of datasets increases every day. This means that we need new technological or methodological solutions for analysing data. There is a great demand for people with the skills and know-how to do big data analytics.”
  • Big Data: Mathematical Modelling
  • QUEENSLAND UNIVERSITY OF TECHNOLOGY
  • Data de início: 5 de setembro de 2016
  • Resumo: “Have you ever wondered how mathematics can be used to solve big data problems? This course will show you how. Mathematics is everywhere, and with the rise of big data it becomes a useful tool when extracting information and analysing large datasets.”
  • Big Data: Data Visualisation
  • QUEENSLAND UNIVERSITY OF TECHNOLOGY
  • Data de início: 31 de outubro de 2016
  • Resumo: “Data visualisation is an important visual method for effective communication and analysing large datasets. Through data visualisations we are able to draw conclusions from data that sometimes are not immediately obvious, and interact with the data in an entirely different way.”
  • BÔNUSBig Data: from Data to Decisions – última semana para se inscrever!
  • Data Tells a Story: Reading Data in the Social Sciences and Humanities
  • LOUGHBOROUGH UNIVERSITY
  • Data de início: 5 de setembro
  • Resumo: “Over the past years, more and more people have turned to data for help. Huge amounts of data are collected every day from millions of sources. This data has a lot to tell us! But data by itself is mute—it can only help us if we learn to make it speak and tell its story. In this short free online course, we will introduce basic ideas about collecting data, and techniques for turning data into information we can use.”
  • Data to Insight: an Introduction to Data Analysis
  • UNIVERSITY OF AUCKLAND
  • Data de início: 3 de outubro de 2016
  • Descrição: “The course focuses on data exploration and discovery, showing you what to look for in statistical data, however large it may be. We’ll also teach you some of the limitations of data and what you can do to avoid being misled. We use data visualisations designed to teach you these skills quickly, and introduce you to the basic concepts you need to start understanding our world through data.”
  • Learn to Code for Data Analysis
  • OPEN UNIVERSITY
  • Data de início: 10 de outubro de 2016
  • Descrição: “This hands-on course will teach you how to write your own computer programs, one line of code at a time. You’ll learn how to access open data, clean it and analyse it and to produce visualisations. You will also learn how to write up and share your analyses, privately or publicly.”
  • Corpus Linguistics: Method, Analysis, Interpretation
  • LANCASTER UNIVERSITY
  • Data de início: 26 de setembro
  • Resumo: “The course aims to: equip those taking the course with skills necessary for collecting and analysing large digital collections of text (corpora); provide educational support for those who want to use the corpus method; demonstrate the use of corpus linguistics in the humanities, especially History; give a sense of the incredibly wide uses that corpora have been put to; allow those with an interest in language, who have not heard of the corpus approach before, a new way of looking at language; demonstrate that corpus approaches to social science can offer valuable insight into social reality by investigating the use and manipulation of language in society.”
  • Why We Post: the Anthropology of Social Media
  • UCL (UNIVERSITY COLLEGE LONDON)
  • Data de início: 31 de outubro de 2016
  • Descrição: “This free online course is based on the work of nine anthropologists who each spent 15 months in fieldsites in Brazil, Chile, industrial and rural China, England, India, Italy, Trinidad and Turkey.”
  • Digital Marketing: Challenges and Insights
  • UNIVERSITY OF SOUTHAMPTON
  • Data de início: 17 de outubro de 2016
  • Descrição: “This short course introduces you to exciting new concepts and applications of digital marketing. It takes an informal “story telling” approach, encouraging you to share your own stories as consumers and/or marketers for the benefit of the learner group as a whole.”
  • Online Business: Digital Marketing for Success
  • RMIT UNIVERSITY
  • Data de início: 21 de novembro de 2016
  • Descrição: “This free online course will introduce you to the rapidly evolving world of digital marketing and the role it plays in driving awareness and sales for online businesses. We will go on a customer journey together, to discover how people use digital to search, engage, review and buy.”

Segunda semana do curso Social Media Analytics, da QUT: hashtags, Tableau e #BielExposedParty

Na semana passada dei início à “série” de posts sobre um novo curso que comecei a fazer no FutureLearn. Se você acabou de chegar, explico: realizado pela australiana Queensland University of Technology, no Digital Media Research Centre, trata-se de um ambiente virtual de aprendizado – ou MOOCs (Massive Open Online Course) – onde qualquer um com acesso a internet e conhecimento da língua inglesa pode participar. O curso em questão, Social Media Analytics: Using Data to Understand Public Conversations, comandado pelas pesquisadoras Jean Burgess, Axel Bruns e Tim Highfield, começou no dia 18 de julho – com duração de apenas três semanas – e continua com as inscrições abertas até dia 6 de agosto (creio eu, já que é quando termina a última semana). Caso tenha interesse, vale dar uma olhada no primeiro post que fiz sobre ele, onde descrevi a primeira etapa de aprendizado e apresentei mais informações institucionais.

SEMANA 2

A primeira atividade dessa segunda semana foi divulgada, na verdade, só na sexta-feira: a professora Jean Burgess e o professor Axel Bruns responderem algumas perguntas que os alunos fizeram durante os últimos dias nos “fóruns” de discussão. Eles explicaram o motivo da escolha das ferramentas que utilizamos no curso (com foco no Tableau), falaram um pouco sobre as limitações de pesquisa no Facebook (comparado ao Twitter) e comentaram sobre algumas questões específicas da prática das atividades que fizemos. Um ponto que eu gostaria de trazer à tona desse Q&A, retomando um tópico da última semana, é sobre a provocação de que o Twitter estaria ficando “menos sociável”. Em resposta a uma colega da turma, a profª. Jean explicou o que eu tinha pontuado no outro post – porém não tinha a base teórica para sustentar minha compreensão – sobre os embates de significados com relação à palavra “sociabilidade”:

Jean, there has been discussion in the first week about sociability and what we mean by social media, in response to your post on Medium. Could you tell us how you understand social and sociability?

Jean: Yeah, the term social is often used interchangeably with sociability. But they actually have two different meanings and in sociology, sociability has a specific meaning. So we can talk about social media in terms of something that brings people together and they interact without thinking about the value of that or whether it’s a positive or negative experience. Sociability carries with it the idea of playfulness and pleasure and cooperation. So the idea of a sociable social media environment is where people actually enjoy themselves, interact in a positive and constructive way with each other and contribute to building society through their interactions on the platform.

A conversa com os professores em vídeo foi importante para sentirmos as suas presenças no curso, mas não foi muito aprofundada em termos teóricos e/ou de discussão – foram apenas 7 perguntas respondidas e cerca de 10 minutos de vídeo. Acredito que esse formato se encaixe no modelo “rápido” do curso, uma vez que a discussão e o debate acadêmicos sobre alguns assuntos que já vimos na primeira semana seja extensa e mereça uma abordagem mais estruturada para dar conta de tamanha complexidade. Aliado a isso, tem o fato de que, diferentemente da primeira semana, essa segunda etapa do curso foi bem mais mão-na-massa – ou hands-on, para usar a expressão que eles usam – o que, a meu ver, mais uma vez reflete a proposta do curso: o objetivo é oferecer aos alunos conhecimento e habilidades práticas para começar o seu trajeto na análise de dados voltada para sites de redes sociais. Isso não diminui, em nenhum instante, a sua qualidade, apenas se adéqua ao formato disponibilizado pelo próprio FutureLearn. Dito isso, continuemos com o conteúdo programático.

socialmedianalaytics2Depois de conhecermos, na semana passada, o TAGS, fomos apresentado ao Tableau“um programa de análise e visualização de dados que te ajudará a analisar e compreender toda a informação coletada”. Muito do que aprendemos nas atividades desta semana – praticamente tudo, na verdade – foram ensinamentos iniciais sobre a utilização desse programa. Para o post não ficar muito grande (e até porque acredito que ainda não tenho conhecimento suficiente para escrever sobre o assunto, mesmo já tendo aprendido algumas coisas – mas não quero ensinar nada errado), vou compartilhar aqui somente o que nos foi proposto a executar na ferramenta com os dados que coletamos do TAGS. Quem tiver interesse em conhecer mais do Tableau (com mais detalhes práticos), há uma página específica de treinamento e tutoriais no site deles com vídeos que ensinam vários passo-a-passos para todos os níveis de conhecimento – que eu mesmo devo conferir com mais calma em breve e, se possível, compartilho alguns aprendizados também aqui no blog.

Antes de entrar nessa parte mais prática, no entanto, acho válido colocar em pauta um pouco da “breve” parte teórica que vimos nesta semana. Como eu já tinha mencionado antes: embora o FutureLearn indique a carga-horária de 3 horas necessárias para a conclusão das atividades semanais, se você quiser dar conta de todos os níveis de informação (atividades, artigos, comentários, etc.), você provavelmente precisará de mais tempo. Com isso em mente, tomei a consciente decisão de abrir mão da discussão com meus colegas de turma para conseguir ler alguns dos artigos propostos por Burgess e Bruns. O primeiro, Twitter Hashtags from Ad Hoc to Calculated Publics, de autoria dos próprios, traz um apanhado interessante sobre o contexto das hashtags no espaço e tempo – pensado em mudanças técnicas, reapropriações, etc. – que nos ajuda a pensar a análise prática mais pra frente. Eis alguns pontos que achei interessante ratificar e trazer para a discussão:

  • Sobre características de hashtags
  • A hashtag é como um mecanismo gerado por usuários para etiquetar e coletar tweets que são relacionados a algum tópico específico;
  • Ela foi decisiva na identidade do Twitter para ser reconhecido como plataforma da criação instantânea de audiências que são formadas, reformadas e coordenadas através de dinâmicas de redes comunicacionais e cuja conectividade social é organizada prioritariamente em volta de questões e eventos ao invés de grupos sociais pré-existente;
  • Elas nascem de dentro de comunidades do próprio Twitter, sejam através de planejamentos prévios ou consensos rápidos entre os usuários, ou até mesmo de disputas discursivas que acarretam na utilização de hashtags conflitantes;
  • A discussão em torno de hashtags atua num nível macro do Twitter (Bruns & Moe, 2014), comparado à estrutura mais definida de “personal publics” (Schmidt, 2014) que age dentro do nível meso de seguidores e também à conversação mediada através de replies, num nível micro.
  • Sobre a história de hashtags
  • Muitas das técnicas oferecidas e aplicações culturais do Twitter que define seu papel na comunicação pública tão significante foram originalmente inovações criadas por usuários, sendo somente incorporados à arquitetura da plataforma depois de um tempo;
  • O uso das hashtags nasceu numa proposta feita por Chris Messina, um tecnólogo de São Francisco, em 2007, quando fez um post no seu blog: ‘Groups for Twitter, or a Proposal for Twitter Tag Channels’. Sua sugestão para o uso de hashtags – como conhecemos hoje, criando um sistema de canais etiquetados utilizando o símbolo do jogo da velha para que as pessoas pudessem seguir e contribuir em conversações sobre assuntos de interesse particular – tinha o intuito de “melhorar a contextualização, o filtro de conteúdo e sensação de exploração satisfatória no Twitter”.
  • Sobre a dinâmica entre hashtags e publics
  • O que chamamos de “publics”, aqui, pode ser compreendido como audiência; a partir disso, podemos pontuar que a compreensão tradicional de audiência para os meios de comunicação de massa é traduzida num grande grupo de pessoas estranhas que acompanham um conteúdo editorialmente curado por uma instituição comunicacional;
  • Nos casos das hasgtags, esse cenário muda um pouco – em partes: embora os usuários possam, como um todo, contribuir para a comunicação e conversação entre si, há também uma curadoria da própria plataforma – seja por popularidade ou relevância, a depender das situações – que também norteia o consumo de informação dos tweets.
  • Sobre a “anatomia” de hashtags
  • Alguns aspectos podem ser observados em tweets com hashtags que envolvem “crises”: por terem um caráter mais voltado para a intensa e rápida propagação de conteúdo, esses tweets geralmente contêm mais URLs (links, imagens, etc.) e retweets;
  • Já tweets que envelopam, por exemplo, eventos televisivos, são mais “originais”: são menos URLs e retweets e mais menções originais, uma vez que os usuários já possuem um guia-condutor da conversa e desejam, majoritariamente, expressar uma opinião original/própria sobre o assunto.

A segunda leitura da semana, o artigo “Towards more systematic Twitter analysis: metrics for tweeting activities“, de Axel Bruns e Stefan Stieglitz, já traz um conteúdo mais voltado para a prática dos métodos digitais. Compreendendo métricas como “medidas quantificadas que nos permite analisar, comparar e contrapor dados [do Twitter, para o caso específico do curso]”, somos apresentados a três “níveis” de métricas propostos pelos autores do artigo: como os usuários contribuem para a conversação, como a atividade acontece e o padrão de certos usuários ao passar do tempo. O objetivo aqui é propor algumas métricas básicas que forneçam um suporte de análise que possa crescer e desenvolver outros indicadores mais complexos – ou seja, construir um terreno comum entre pesquisadores que sirva de base inicial. Não vou aprofundar aqui na discussão completa do artigo, pois ele traz tantas funcionalidades importantes para a análise de dados no Twitter que merecia um post sozinho, mas destaco esses principais níveis de métricas:

  • User Metrics: apresentam geralmente uma cauda longa com um grupo pequeno de usuários sendo mais ativos e tendo mais visibilidade do que o restante dos usuários*;
    • Atividade: a simples contagem de tweets enviados por cada usuário, o que fornece uma compreensão do seu envolvimento (e comprometimento) com a hashtag;
    • Visibilidade: o levantamento dos usuários mais mencionados na base de dados apresenta os que são, provavelmente, mais visíveis naquele contexto;
    • *Aqui é interessante fazer uma comparação, além de entre os indivíduos, também entre esses grupos – no modelo proposto por Tedjamulia, por exemplo, de três grupos: o top1%, top9% e top90%.
  • Temporal metrics: essa medida ajuda a ter uma visão temporal de como a hashtag foi incorporada pelos usuários ao passar do tempo, o que permite observar, por exemplo, picos de volume ou quedas bruscas de atividade – a partir daí, é possível identificar de maneira qualitativa alguns comportamentos dos usuários e da comunidade como um tempo para determinado período.
  • Combined metrics: essa métrica permite fazer uma extensão da análise ao assimilar descobertas sobre usuários com descobertas sobre atividade ao passar do tempo – isso pode revelar quem está dominando a conversação em momentos-chave.

Um benefício-chave de estabelecer uma caixa de ferramentas de métricas padrões para a análise de datasets de hashtag no Twitter são as oportunidades aprimoradas para comparação e correlação em torno de uma série diversa de caso de estudos. Tal comparação pode pontuar semelhanças e diferenças em padrões de uso do Twitter, e pode direcionar para a identificação de um número de gêneros comuns de comunicação baseada em hashtag no Twitter; conforme a plataforma e sua utilização evolui, e conforme a base de usuários geral se desenvolve, nós também podemos acompanhar essas mudanças ao passar do tempo. […] Isso demonstra como a abordagem quantitativa para análise de dados do Twitter em larga escala, cujos métodos e métricas que introduzimos aqui torna possível, pode gerar clara evidência de padrões comunicacionais no Twitter.

Outro artigo cuja leitura foi recomendada mas do qual eu não consegui dar conta de ler a tempo foi o “Tweet, Tweet, Retweet: Conversational Aspects of Retweeting on Twitter”, de danah boyd, Scott Golder e Gilad Lotan. A proposta desta etapa era trazer uma compreensão teórica da dinâmica dos retweets na plataforma, uma vez que eles demonstram “qual conteúdo carrega peso na conversação e na comunidade”. O argumento aqui é que essa prática do Twitter tem um valor bastante significativo no universo de interações da plataforma, pensando também como a informação se move com relação a um assunto ou a um problema dentro daquele contexto. No curso fomos apresentado à história de Jerry, um simples fabricante de lâmpadas residente da cidade de Nova York que ganhou uma visibilidade enorme no Twitter graças às fãs do One Direction – você pode conhecer e entender essa história nessa timeline dinâmica criada pelo pessoal da QUT.

Tendo destrinchado minimamente a parte teórica, podemos seguir para o restante da semana: Tableau na prática. Como já mencionei anteriormente, acho que não cabe trazer ao post o passo a passo de como realizei cada uma das atividades (esse acompanhamento foi disponibilizado no próprio curso), mas trago aqui o que criei com a ferramenta – quem tiver curiosidade em saber como foi feito pode deixar perguntas nos comentários que posso orientar mais minuciosamente. Portanto, o que eu fiz, num primeiro momento, no Tableau:

  1. Utilizei a coleta de dados que fiz com a TAGS;
  2. Desenvolvi um gráfico de evolução temporária da hashtag monitorada;
  3. Encontrei (e explorei) os retweets proeminentes da minha base de dados, comparando também esses retweets com tweets de maior “alcance”;
  4. Criei dois gráficos para descobrir quem foram os usuários mais ativos e mais visíveis;
  5. Encontrei os usuários mais “influentes” (com o maior número de seguidores) da minha base;

Já que na semana passada eu ainda não tinha definido exatamente qual seria o meu tópico de estudo para o curso, tive a sorte de “participar” de um movimento que aconteceu no Twitter esta semana em resposta a uma reportagem do cantor Biel. Numa entrevista ao TV Fama, ele proclamou que a repórter que a denunciou por assédio tinha prejudicado muito sua carreira – foi o suficiente para o Twitter entrar em turbilhão e colocá-lo mais uma vez em pauta. Usuários começaram a procurar tweets antigos do cantor com referências racistas, machistas, etc., expondo os absurdos através de retweets e prints que circularam a plataforma e culminou na hashtag: #BielExposedParty. Quando a encontrei nos Trending Topics, já eram mais de 10.000 menções utilizando a hashtag – achei que seria interessante, portanto, juntando a curiosidade à prática, fazer os exercícios do Tableau com essa base de dados que consegui coletar através do TAGS, ferramenta que foi apresentada na primeira semana do curso. Foram 11.149 tweets em 24h de hashtag e o resultado foi esse:

Para além de ter feito essa atividade na prática, acho válido – necessário, na verdade – pontuar algumas observações que podem ser feitas a partir desse simples cruzamento de dados. Podemos compreender, por exemplo, através da análise temporal, que o principal período de adesão à hashtag aconteceu entre às 21h e 23h; podemos também perceber que os retweets tiveram um papel essencial para a disseminação, propagação e viralização da mensagem que a hashtag queria passar (expor o cantor, basicamente) – o volume de tweets originais é muito menor do que o volume de retweets; quando você olha mais afundo para tentar descobrir a crescente exponencial do volume de tweets entre 21h e 22h, consegue encontrar a adesão de algumas contas (@forumpan, @gifboardbrasil e @bchartsbr, por exemplo) que foram essenciais na propagação da hashtag; ao mesmo tempo, os tweets originais também apresentam uma crescente nesse período uma vez que esse é o momento em que as pessoas entram na conversa para conseguir também sua porção de visibilidade na conversação.

Quando olhamos para as menções com o maior número de retweets, podemos fazer uma simples (e estaticamente incorreta, mas aqui vale) dedução que essas contas são bastante ligadas ao mundo pop – uma análise mais aprofundada poderia nos ajudar a compreender como a informação se moveu nessas conversações. Quando comparamos a visibilidade com a atividade dos usuários, percebemos que o uso frequente da hashtag não corresponde a um maior nível de atenção dos usuários; no entanto, vários dos usuários de maior visibilidade também se encontram dentre as menções com mais retweets – o que pode indicar, superficialmente, que estes foram essenciais na circulação da mensagem dentro do universo da hashtag; quando olhamos para alcance dos tweets e usuários mais seguidos, no entanto, observamos que vários dos tweets de maior alcance não necessariamente foram retweets, mas menções originais de usuários com uma grande leva de seguidores.

Vale ressaltar que essa é uma análise bem simples e inicial do cruzamento de dados que foi apresentado no curso. Caberia, sim, um aprofundamento nas discussões e no tema para que pudéssemos desenvolver hipóteses mais concretas e buscar uma compreensão sobre o tema. No entanto, por motivos de tempo, esse estudo mais aprofundado vai ter que ficar para um outro momento. Ainda houve, por fim, mais duas atividades práticas nessa segunda semana de aprendizado, entretanto, por se tratar de um cruzamento de dados um pouco mais complexo e que eu gostaria de tratar com outra abordagem, vou deixar essa parte final para o post da próxima semana – vai ser interessante também porque será possível cruzar com algumas aplicações que devemos fazer no Gephi e tal, então acredito que se encaixe mais na publicação da semana seguinte. Combinado? Novamente, quem estiver fazendo curso ou quem estiver interessado em fazer e queira saber mais, entra em contato comigo. Estou à disposição!

Primeira semana do curso Social Media Analytics, da QUT: Twitter, métodos digitais e TAGS

Faz muito tempo que eu tenho interesse em fazer um curso no FutureLearn – para ser mais exato, desde a primeira edição do curso Why We Post, do departamento de Antropologia da University College London comandado por Daniel Miller, que aconteceu em fevereiro deste ano. Até cheguei a me inscrever na segunda edição, que aconteceu em junho, mas os afazeres da vida social (faculdade, estágio, etc.) não me permitiram dar continuidade aos estudos. Acontece que o momento finalmente chegou: por indicação do Tarcízio Silva, fiz a inscrição no curso Social Media Analytics: Using Data to Understand Public Conversations, que teve início semana passada, no dia 18 de julho.

Antes, uma explicação informal do que é o FutureLearn: assim como o também bastante popular Coursera, trata-se de uma plataforma de MOOCs (Massive Open Online Course), um ambiente virtual de educação à distância que oferece diversos cursos para pessoas de todos os níveis de graduação. Não sei exatamente como funciona a associação com grandes instituições de ensino e/ou universidades, mas são cursos – até onde eu sei – elaborados em parcerias com universidades internacionais, principalmente da Europa e dos Estados Unidos. Este especificamente foi feito em associação com a Queensland University of Technology, no Digital Media Research Centre, comandado pelas pesquisadoras Jean Burgess, Axel Bruns e Tim Highfield. Na página do curso, você pode assistir um vídeo com os educadores, conhecer o conteúdo programático e analisar os pré-requisitos necessários para participar (spoiler: ter uma conta no Twitter e no Google).

Do pessoal ao político, as conversações nas mídias sociais estão no coração da mudança sócio-cultural. Neste curso você será apresentado a métodos digitais para analisar os dados de mídias sociais no Twitter. Você aprenderá com pesquisadores consagrados, fará atividades práticas e enfrentará problemáticas acerca de dados de mídias sociais.

Introdução do curso: Métodos digitais pode nos dar uma compreensão mais completa dessas conversações nas mídias sociais, assim como nos permite analisar mais a fundo os atores e os problemas centrais e como estes mudam ao passar do tempo. Estudando a comunicação em mídias sociais utilizando métodos digitais também aprendemos sobre alguns aspectos tecnológicos das plataformas. Uma parte importante dessa compreensão é como as tecnologias de mídias digitais e seus usos diários mudam com o passar do tempo e influenciam umas às outras. Esse é um processo contínuo nas mídias sociais, onde tanto as plataformas quanto os tipos de conversações que acontecem nessas plataformas estão constantemente mudando.

Objetivo do curso: Pensar uma problemática que pode ser compreendida melhor através da coleta de dados no Twitter; a proposta é desenvolvermos habilidades e conhecer ferramentas gratuitas que podem nos ajudar nessa mineração de dados.

SEMANA 1

A primeira semana buscou introduzir algumas reflexões e conceitos sobre a coleta de dados no Twitter – site de rede social que, ao decorrer do curso, vamos utilizar de ambiente para a exploração das conversações. A primeira atividade retomou um assunto recorrente que, de tempos em tempos, sempre aparece nos debates entre jornalistas, profissionais de comunicação/internet, etc.: a morte do Twitter. A pergunta, baseada num trecho de um texto da professora Jean Burgess, era: “are social media still social?”. Em resposta ao argumento de que o Twitter estava morrendo, ela constatou que:

“…as discussões sobre o declínio desse espaço, no momento, está relacionado com a perda da sociabilidade, de certa forma. E para aqueles de nós aos quais os prazeres do Twitter tinham a ver tanto com a intimidade do ambiente, relações pessoais e brincadeiras quanto com o sucesso profissional do cinema, celebridades e manchetes, isso representa uma perda real e lamentável: sociabilidade importa.”

Seu texto responde às provocações desse artigo, Why Twitter’s Dying (And What You Can Learn From It), que eu coincidentemente também “respondi”, humildemente, nesse post de 2015. Para retomar esse debate, compartilho aqui algumas ideias e opiniões expostas por colegas do curso na página da atividade. Já adianto que não concordo com algumas delas, outras concordo em partes; de qualquer forma, acho importante trazer esses pensamentos porque nos ajuda a ter uma noção mais eficaz do imaginário social acerca das mídias sociais e, principalmente, do Twitter:

  • Lee-Ann Lipman: “I’ve personally never found it to be a “social” network, as a place I connect with friends so to speak. For that I would use Facebook.”
  • Georgia Brennan-Scott: “I have often thought of Twitter as a place where one can express themselves freely and publicly with both known and unknown readers. I think there is a freedom in that.”
  • Stacey Larner: “I also find the public nature of twitter makes me want to limit my silly conversations with friends.”
  • Morgana Prior: “When people realise tweets they made 2 years ago, 4 years ago, 6 years ago could be dug out by a journalist it changes how freely people use it. Even those of us not in the limelight start to wonder if our online activity could somehow shackle our future.”
  • Jessica Pelide: “Twitter has a global sociability and this represents a vantage and a disadvantage at the same time: the bigger the crowd is, the bigger the noise is, the more bewildered (and less social) you are.”
  • Michael Salter: “However your Twitter experience is personally curated by the user. If you feel like something is ‘off’, then you might need to unfollow certain users, block others, and start following new people.”
  • Doug Ferguson: “I use Twitter to create (or spread) messages that might resonate with followers. Twitter is for sharing ideas and archiving important messages.”
  • Andrew Wood: “It seems to me that Twitter is what you make of it. Approach it appreciatively with a view to encouraging contribution and collaboration in testing and exploring ideas and opinions – tapping into its social capacity – and it works just fine. It depends on how you listen.”

Alguns aspectos centrais aparecem em boa parte das opiniões retratadas: a questão do público (em oposição ao privado), a questão da conexão “globalizada”, a questão da construção e fixação do self em ambientes virtuais, a questão da ressonância das mensagens, etc. Um aspecto central que eu percebi ter guiado vários dos comentários, embora poucos dos que trouxe aqui, mas também o argumento da professora, foi a noção de “sociabilidade” enquanto relacionado a intimidade (ou “pessoal”, no sentido de algo próximo). Aqui vale pensar buscar o sentido etimológico da palavra: sociabilis (sociare) + itatem (itas), que significa “a qualidade ou condição de associar-se de maneira próxima”. A meu ver, esse é um ponto-chave para iniciar o debate em resposta à provocação. A diferença entre “social” e “pessoal” (íntimo) precisa ficar clara para que os argumentos se desenvolvam de forma responsável, crítica e sem moralismos/saudosismos.

Muita da argumentação no texto e também na seção de comentários foi pautada nessas duas instâncias: 1) moralismo, no maior sentido Baumaniano de romantização do passado, tal que este texto perfeitamente rebate; 2) e saudosismo, no sentido de usuários antigos do Twitter que hoje não se sentem mais contemplados pela plataforma. Curiosamente, essas pessoas me pareciam um pouco mais velhas do que os usuários que eu costumo associar à ferramenta – mas não quero fazer essa associação geracional que também se apoia num argumento de moralismo, só que ao contrário. Meu pensamento aqui segue esse raciocínio: para discutir sobre o “social” em social media, preciso compreender antes quais sentidos atravessam a questão de sociabilidade. Entretanto, sociabilidade não está relacionado a uma questão de intimidade, mas de interação e conexão entre os sujeitos. Nesse sentido, arriscaria dizer que nenhum site de rede social está se tornando menos “social”, pelo contrário – só tem intensificado a sociabilidade, colocando em cena sujeitos também desconhecidos entre si.

Depois desse animado e estimulante início, passamos para algumas propostas mais específicas do curso. Os artigos iniciais apresentaram uma noção básica acerca de conversação em rede, hashtags, ativismo político e a anatomia de um tweet – já destrinchado (também em imagem) nesse outro post sobre monitoramento de mídias sociais. Essa primeira parte foi intitulada Understanding #conversations; a segunda parte, Gathering Twitter data, foi mais prática, mas também nos apresentou alguns conceitos e ideias iniciais sobre métodos digitais, questões éticas da pesquisa virtual (que não consegui me aprofundar devido ao tempo curso para ler todos os artigos disponíveis, conforme explicarei melhor mais adiante), etc. O assunto métodos digitais foi introduzido pelo profº. Axel Bruns com a seguinte fala:

 “Nós usamos tecnologias de mídia digital todos os dias, em variadas formas, desde as pesquisas no Google até assitir vídeos de gatos no YouTube. Somos capazes de usar métodos digitais para pesquisar esses usos porque, sempre que utilizamos essas tecnologias de mídias digitais, deixamos rastros digitais. E, utilizando esses métodos digitais para analisar esses rastros, conseguimos observar e compreender muito mais desenvolvimentos gerais na sociedade.”

A partir daqui já começamos a colocar a mão na massa: como mencionei no início do post, o objetivo prático do curso nos propõe a fazer uma pesquisa “real” sobre algum assunto que possa ser melhor compreendido através da coleta e análise de dados do Twitter. Para isso, já na primeira semana, fomos estimulados a desenvolver o nosso tópico de pesquisa – seguindo as seguintes instruções: 1) Qual é o assunto, problema ou evento que você está pesquisando?; 2) Quais grupos estão envolvidos nesse assunto, problema ou evento?; 3) Quais termos e/ou hashtags estão associadas a ele?; 4) Quais coisas você espera ou prediz encontrar?; 5) Crie uma pergunta para resumir as suas ideias. Como eu ainda não tenho uma ideia formada, vou deixar para formular essa pergunta na segunda semana. Pensei, inicialmente, em pesquisar algo sobre #cidadeolímpica, UERJ ou candidatos à prefeitura de Niterói – mas ainda estou considerando todas as possibilidades (aceito sugestões).

Uma vez que o curso se destina a pessoas de todas as idades e graus de conhecimento/escolaridade (embora haja um fator excludente decisivo que é o fato de ser completamente em inglês), um dos artigos falou um pouco sobre API. Para quem já trabalha com monitoramento ou com mídias sociais de uma maneira geral, o termo Application Programming Interfaces não é estranho. No entanto, achei extremamente importante para nivelar, na medida de possível, o nível de conhecimento de todos os colegas. Em suma, “APIs fornecem uma maneira de acessar as plataformas de mídias sociais que adentra o website e se conecta diretamente à infra-estrutura subjacente”. Em outras palavras, é a porta de entrada que permite a coleta – geralmente num volume considerável – de dados nas plataformas e sites de redes sociais – é pela API do Twitter, por exemplo, que a TAGS, ferramenta que vamos utilizar para extrair os dados, consegue puxar boa parte da “anatomia” do tweet que pesquisamos. E por falar em TAGS…

A primeira ferramenta para coleta de dados no Twitter apresentada foi a TAGS (Twitter Archiving Google Sheet). O vídeo acima já é bastante explicativo, mas funciona da seguinte forma: ela disponibiliza uma planilha do Google Sheets com alguns scripts que permitem aplicar a pesquisa de queries durante um período de até sete dias anteriores ao momento de início da ativação do script – essa limitação de período, por exemplo, é por conta dos direcionamentos de sua API “gratuita”. Para isso você precisa salvar uma cópia da planilha no seu Google Drive e fazer a autorização – no próprio Google Sheets – de uma conta qualquer no Twitter. Essas queries (nome difícil para termos/expressões de busca) possibilitam também alguns operadores (já conhecidos dos profissionais de monitoramento) que ajudam a especificar a pesquisa: AND encontra tweets com duas ou mais palavras específicas; OR encontra tweets que tenha uma palavra específica e outra palavra distinta; from:username encontra tweets enviados pelo usuário; to:username encontra tweets que mencionam o usuário, etc.

A questão óbvia a partir daí é como definir esses termos. Isso requer que você pense cuidadosamente sobre qual material um potencial termo pode capturar e o que pode deixar passar. Isso inclui tanto falsos positivos (posts que respondem aos seus termos, mas que não têm nada a ver com o tópico que te interessa) quanto falsos negativos (posts que seriam relevantes para os seus interesses, mas que não contêm nenhuma das palavras que você escolheu pesquisar). Não há respostar fáceis para essa questão. O que você escolhe pesquisar é sempre profundamento específico ao contexto, e você provavelmente trabalhará por um processo gradual de aperfeiçoamento antes de chegar a uma escolha satisfatória de termos. Nessa etapa e em qualquer posterior análise dos seus dados, você ainda vai precisar ficar atento a qualquer conteúdo relevante que pode ter deixado passar por causa de sua escolha específica de termos.

Embora eu já esteja familiarizado com o processo de coleta de dados voltado para o monitoramento de mídias sociais, posso dizer que ter conhecido a ferramenta já valeu a inscrição no curso. Sempre vi (e ouvi) discussões sobre as ferramentas desenvolvidas pelas universidades ao redor do mundo, mas nunca cheguei ao ponto de pesquisar e buscar conhecê-las mais a fundo. Acredito que o mercado (principalmente agências de comunicação/publicidade) já está tão acostumado com a utilização de ferramentas pagas, que são polidas e especialmente apresentada/desenvolvidas para atender a esse público, que acaba criando um ponto cego e um ciclo vicioso que não colabora com o desenvolvimento e avanço das discussões na área. Agora que conheci uma, quero conhecer várias – e a próxima que vou “testar” é, com certeza, a Netlytic. Para mais sobre outras possibilidades de ferramentas de busca no Twitter, recomendo esse artigo (compartilhado na seção de comentários da atividade no curso) e essa seção de blog posts.

Google Sheet da pequisa dos termos "niteroi OR niterói" com a TAGS
Google Sheet da pequisa dos termos “niteroi OR niterói” com a TAGS

Esse é o formato da coleta de dados (clique na imagem para ter a visual: a ferramenta traz o ID do usuário, username, conteúdo do tweet, data e hora do tweet (não sei exatamente em qual fuso-horário se encontra), geo-coordenadas, língua definida pelo usuário na configuração da conta, a plataforma utilizada (iPhone, Android, Web, etc.), o local que o usuário colocou na configuração do perfil e o link do tweet. É muita coisa para uma ferramenta gratuita, até onde eu sei. Para praticar a testar a ferramenta, fiz uma busca simples pelo termo referente à cidade de Niterói (deveria ter acrescentado Nikity, aliás) e deixei o script rodando de hora em hora (o vídeo explica como faz isso, mas é simples). Pediram que, para a próxima etapa do curso, tivéssemos uma coleta de pelo menos 50.000 tweets. Faz umas 6 horas que está rodando e tenho apenas cerca de 6.200 tweets até o momento em que vos escrevo. Torçam por mim!

Antes de encerrar, só preciso pontuar uma coisa que vi alguns colegas comentando também na atividade de encerramento da primeira semana: embora a FutureLearn indique que são necessárias “apenas” três horas por semana dedicadas ao curso, a verdade é que o ideal deve ser entre 5 e 7 horas por semana. Neste primeiro período, comecei o curso apenas na quinta-feira à noite, terminando de ler todos os artigos e fazendo todas as atividades só no domingo. Se você quiser ler todos os materiais, todos os arquivos disponibilizados também em PDF e artigos de sites recomendados, ficar por dentro do que os colegas estão falando nos comentários e ainda fazer todas os exercícios propostos, reserve pelo menos 5 horas da semana para o curso. Não que isso seja ruim, pelo contrário, tem muita coisa boa para aprender, mas é preciso organizar uma rotina responsável para não perder nada importante (os debates com os colegas, por exemplo, na minha opinião, são enriquecedores!).

Dito isso, deixo aqui o convite a todos para participarem do curso – ainda dá tempo de se inscrever! São apenas três semanas mas acredito que o aprendizado será enorme. Como eu disse, o curso é para todos, mas é claro que ajuda se você tiver um conhecimento mínimo sobre monitoramento de mídias sociais – para nivelar o conhecimento, recomendo uma lida rápida nesse outro post do blog. Se você estiver fazendo o curso ou decidir começar por indicação, entra em contato no Twitter ou aqui mesmo na seção de comentários para trocarmos figurinhas sobre os assuntos vistos – e nos ajudarmos. A gente se vê! 🙂

O que aprendi no curso Etnografia em Mídias Sociais, do IBPAD

Na primeira edição carioca do curso de Etnografia em Mídias Sociais, a profª Débora Zanini apresenta vantagens e desvantagens do método. Fonte: Facebook IBPAD
Na primeira edição carioca do curso de Etnografia em Mídias Sociais, a profª Débora Zanini apresenta vantagens e desvantagens do método. Fonte: Facebook IBPAD

Há pouco mais de um mês tive a honra de ser convidado para participar da primeira turma do curso Etnografia em Mídias Sociais do Instituto Brasileiro de Análise e Pesquisa de Dados (IBPAD) realizada no Rio de Janeiro. Ministrado por Débora Zanini e Tarcízio Silva, três turmas já foram formadas em São Paulo e em Brasília, cujo feedback positivo dos alunos instigou a criação de uma versão mais “avançada” do curso com uma carga-horária de 21 horas – até o momento, apenas para os paulistas, infelizmente. A primeira edição carioca aconteceu no dia 4 de junho e reuniu um público bem diverso, seja em idade, em interesses pessoais/de pesquisa e/ou em cargo profissional.

Eu estava muito ansioso para essa oportunidade porque o curso alinha os dois campos que eu, academicamente, mais me identifico: mídias sociais e sociologia/antropologia/estudos culturais. Como explico na página sobre mim aqui do blog, encontrei essa paixão pelo(s) assunto(s) graças ao curso de Estudos de Mídia (UFF) e é por onde pretendo me guiar nos próximos anos. Na universidade, percebi que muitas vezes esses dois “campos” de estudos não se tocam, embora caminhem paralelamente. Acredito que essas duas vertentes acadêmicas podem se complementar de maneira que seja possível construir uma visão mais completa (e complexa) desse novo ambiente que decidiram chamar de ciberespaço. Como já estou no sexto período da faculdade, aliás, vale pontuar também que a minha ideia para o trabalho de conclusão de curso permeia essas questões de cibercultura e estudos culturais – um dia escrevo sobre isso aqui. Voltando ao tópico do curso, recomendo, para início de conversa, a leitura desse breve post escrito pela profª Débora Zanini para o blog do IBPAD no qual ela explica, de forma simples, o que é a pesquisa etnográfica.

Etnografia: método das ciências sociais utilizado para o estudo da cultura de grupos específicos dentro da sociedade – Fonte: Débora Zanini, IBPAD

Antes de entrar no conteúdo visto em sala de aula, preciso fazer uma ponderação importante que gerou debate entre os próprios alunos. Como mencionei, a tentativa de conceituar cultura é uma problemática exaustivamente discutida dentro do curso de Estudos de Mídia – tanto em matérias obrigatórias quanto optativas. Hoje eu vou pedir licença (inclusive aos meus professores, de quem fui monitor) para não me obrigar a fazer referências “oficial” a nenhum autor (ou a nenhum autores), mas colocar na mesa onde está localizado o debate em torno da palavra dada a bibliografia que li durante todos esses anos. Entendo cultura como uma categoria polissêmica de um campo que envolve, principalmente, disputa(s). Gosto da fala de Certeau que diz que cultura é como uma espuma; quando tentamos pegá-la, escapa. No entanto, para fins didáticos, há de se retomar um dos conceitos do senso comum que entende cultura como uma gama de comportamentos, simbologias, hábitos, práticas sociais, códigos, valores, moral que atravessa uma pessoa ou um grupo de pessoas.

Atravessado esse desafio, podemos concluir que compreender uma “cultura” permite, no contexto comunicacional e mercadológico, desenvolver uma interação mais fácil entre locutor e receptor. Esse passo para trás possibilita que localizemos historicamente a antropologia clássica, a urbana e, finalmente, a digital. Digo que é um passo “para trás” porque, na minha opinião, revela um certo teor etnocêntrico que constituiu a fundação da própria Antropologia – como na experiência de Malinowski, por exemplo, nas Ilhas de Trobriand no início do séc. XX – mas que, por outro lado (e aqui estou tentando ser otimista), revela também que avançamos bastante (principalmente com os movimentos sociais das décadas de 50 e 60). Enfim, voltando ao assunto: o avanço das “novas” tecnologias contribuiu para a construção de um ciberespaço que desenvolveu sua própria cibercultura e permitiu novas perspectivas de análises etnográficas/antropológicas. Esse é definido como “forma de virtualização informacional em rede; por meio da tecnologia, os homens, mediados pelos computadores, passam a criar conexões e relacionamentos capazes de fundar um espaço de sociabilidade virtual”.

“O termo [ciberespaço] especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informação que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo ‘cibercultura’, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço.” – Pierre Lévy

Quem faz Comunicação Social, Publicidade e Propaganda ou Jornalismo e já teve alguma disciplina sobre mídias digitais, novas tecnologias, internet, etc., com certeza já se deparou com algum texto (ou citação, para ser mais humilde) do Pierre Lévy, Manuel Castells (também mencionado no curso) ou André Lemos. São autores centrais para pensar esse novo universo de possibilidades incorporado pela relação interpessoal mediada pelo computador que cada vez mais se consolida como a extensão do corpo proposta por Lévy. O ciberespaço criou “um novo espaço de sociabilidade que é não-presencial e que possui impactos importantes na produção de valor, nos conceitos éticos e morais e nas relações humanas”. Uma crítica humilde que tenho à abordagem desses autores, embora os reconheça como de extrema relevância para a discussão, é que as reflexões por muitas vezes acabam focando muito nas ferramentas/nos meios e menos (ou pouco) no indivíduo – mas isso é assunto para outro dia! O importante é ter em mente que a rede de computadores interligados gerou um novo ambiente de sociabilidade que tem sua própria lógica de construção e, por isso, corrobora com seu próprio estudo (ou estudo próprio).

Diversity of People Digital Communication Technology Concept

>> Leitura recomendada: Etnografia para Entender Culturas na Era da Informação, no blog do IBPAD

“A pesquisa etnográfica, constituindo-se no exercício do olhar (ver) e do escutar (ouvir), impõe a pesquisadora ou ao pesquisador um deslocamento de sua própria cultura para se situar no interior do fenômeno por ela ou por ele observado através da sua participação efetiva nas formas de sociabilidade por meio das quais a realidade investigada se apresenta.”

Bom, se temos um (novo) espaço e temos uma (nova) cultura, temos possibilidade de estudo. Embora eu ainda tenha um pé atrás com a teorização dessa tentativa de saída da “própria cultura” para imersão em “outra” a fim de compreendê-la (a meu ver, isso limita, e a espuma não consegue ser limitada), entendo como isso funciona na prática. Vale também ressaltar que por mais liberto de amarras sociais/culturais que seja o pesquisador, será impossível exteriorizar sua construção pessoal, histórica, social e cultural. O mito da alteridade me parece mais um código de conduta (ético) para tentar compreender o novo com o menor véu de ideologia possível – na verdade, dado que este não diminui, vale solicitá-lo enquanto olhar crítico para admitir que ele existe e deve atravessar as impressões primeiras do estudo a ser feito. É um desafio comum a todos os pesquisadores e que, a meu ver, precisa ser abordado de forma esclarecedora, e não tentando se colocar por fora. Dito isso (e reitero que todas as opiniões expressas aqui são pessoais e válidas de contestação), partimos para o que interessa: descobrir a pesquisa etnográfica enquanto método de análise para o ambiente digital.

Quadro representativo com algumas das variedades de métodos, técnicas e instrumentos disponíveis para se fazer pesquisas. Fonte: IBPAD
Quadro representativo com algumas das variedades de métodos, técnicas
e instrumentos disponíveis para se fazer pesquisas. Fonte: IBPAD

Talvez o meu interesse pelo trabalho de monitoramento esteja ancorado, também, nas semelhanças que ele apresenta com a estrutura dos trabalhos acadêmicos. No curso, aprendemos que o estudo visando o trabalho etnográfico deve ser bem definido nas frentes de metodologia, método científico, técnica e instrumento. Vou tentar passar por cada um deles com exemplos e conceitos trazidos em sala de aula, começando pela metodologia:

CONCEITO METODOLOGIA

Metodologia é a explicação minuciosa, detalhada, rigorosa e exata do conjunto de técnicas e procedimentos utilizados na pesquisa inteira. Ela é o caminho do pensamento.

Deve apresentar: tipo de pesquisa; técnicas utilizadas; instrumentos utilizados (questionário, entrevista, experimento, observação, etc); tempo de execução e etapas do trabalho; formas de tabulação e tratamento dos dados; análises dos dados/ informações (teorias, autor, etc).

Fonte: IBPAD

Quem já passou pela faculdade ou quem está com os preparativos prontos para começar a desenvolver o TCC, como é o meu caso, já tem uma ideia bem formado do que se trata a metodologia. Vale ressaltar que é uma prática que considero de extrema importância para qualquer pesquisa mas que raramente vejo bem “destrinchada” em relatórios de monitoramento – o que considero uma pena, pois, de certa forma, “diminui” o valor do monitoramento quando poderia muito bem agregar simbolicamente ao campo para uma ainda maior legitimação da técnica como instrumento legítimo de pesquisa.

CONCEITO MÉTODO CIENTÍFICO

Conjunto de regras e procedimentos adotados de um determinado método de pesquisa. É o regulamento prévio de uma série de operações que se devem realizar para se ter segurança dos dados e efetividade científica.

Fonte: IBPAD

O método científico é quase um modus operandi de qual referencial teórico será utilizado para designar a análise. Vale ressaltar que ele opera em duas instâncias: na coleta de dados e na sua análise/interpretação. É aqui que se localiza a pesquisa etnográfica, pensando principalmente esse primeiro momento de ir atrás das informações.

CONCEITO TÉCNICA E INSTRUMENTO

Técnica: procedimentos práticos que devem ser adotados para captação de dados.

Instrumento: o instrumento que de fato eu vou utilizar para coletar estes dados:

Fonte: IBPAD

Optei por juntas esses dois porque, na minha compreensão, eles se sobrepõem. A técnica e/ou o instrumento delimita, enquanto prática, após a definição do método científico, quais artifícios serão utilizados para alcançar a coleta necessária para análise; podem ser ferramentas como formulários/questionários mas também entrevistas (estruturadas, não estruturadas, etc.) ou observações (participante ou não participante) específicas, por exemplo.

Quadro representativo com algumas das variedades de método, técnica e instrumentos disponíveis para se fazer pesquisas. Fonte: IBPAD
Quadro representativo com algumas das variedades de método, técnica e
instrumentos disponíveis para se fazer pesquisas. Fonte: IBPAD

Antes de entrar nas “regras de conduta” da pesquisa etnográfica enquanto método de pesquisa, vale ressaltar alguns princípios importantes relacionado à etnografia que foram levantados no curso: 1) é um método conduzido no local onde tudo está acontecendo (em outras palavras, é uma pesquisa de campo), dentro de um contexto específico e “espontâneo”; 2) é completamente personalizado (esse nem precisava comentar, mas é bom falar): cada caso é um caso, não existe uma cartela a ser seguida e preenchida; 3) é altamente recomendado que a coleta de dados seja feito com duas técnicas diferentes, o que permitirá uma conclusão baseada na triangulação de dois caminhos e convergem de alguma forma; 4) é um método demorado – e extremamente trabalhoso, o que exige um compromisso de longo prazo; 5) exige, como já comentado anteriormente no texto, o máximo de crítica consciente para a análise e hipóteses que serão elaboradas (não é um teste, é uma compreensão); 6) permite o diálogo das conclusões e interpretações com os indivíduos conforme elas se formem; 7) deve ser uma pesquisa holística, que tente a todo momento mapear um retrato geral (completo) do grupo estudado.

Feita essa introdução timidamente densa da etnografia e algumas questões que a atravessa, chegamos finalmente ao método etnográfico para mídias sociais. Seguimos, a partir daqui, as etapas propostas no curso que serão destrinchadas pouco a pouco mas que se apresentam da seguinte maneira: 1. selecionar um projeto etnográfico; 2. desenhar mapas descritivos; 3. coletas e estruturar os dados; 4. analisar os dados; 5. registro etnográfico.

SELECIONANDO UM PROJETO ETNOGRÁFICO

O primeiro passo é a escolha do objeto de estudo (ou do projeto como um todo). No entanto, é importante ressaltar que não se trata de uma escolha aleatória e/ou arbitrária, pelo contrário, há alguns critérios fundamentais para que seja feita uma escolha coerente e responsável. Guiando-se pelos objetivos principais da pesquisa, é necessário analisar:

  • Ambiente digital escolhido: garantir que o espaço do ciberespaço possibilita a abordagem etnográfica para o tema proposto (é possível fazer a avaliação/coleta/análise dos dados?). Aqui vale relembrar os conceitos, também abordados no curso, que diferenciam redes sociais, mídias sociais e sites de redes sociais, os quais já mencionei nesse outro post.
  • Propriedades do ambiente: garantir que o espaço tenha tamanho, população e complexidade suficientes para que seja feita uma análise rica. Nesse ponto também é valido o texto da Raquel Recuero, que acabei de indicar no outro post, para buscar compreender como cada mídia ou site de rede social se estrutura pensando a sociabilidade. Em outras palavras, um heavy user consegue deduzir que o Twitter é um bom espaço para fazer um estudo sobre fandoms, por exemplo, mas não é o ideal para pesquisar sobre professores da rede pública em São Paulo.
  • Propriedades do pesquisador: garantir que há tempo, recurso financeiro e habilidade acadêmica/profissional para a execução da pesquisa.

>> Leitura recomendada: Quais tipos de grupos eu posso estudar com etnografia em mídias sociais?, no blog do IBPAD

DESENHANDO MAPAS DESCRITIVOS

Essa etapa é importante porque ajuda a organizar os dados. Não são ideias fixas, mas são formas de organizar o pensamento para a análise que vem a seguir. Como foi explicado no curso, a elaboração desses mapas ajuda a “clarear quais técnicas etnográficas de coletas de dados são mais apropriadas e qual a melhor forma de organizar/estruturar os dados para analisar posteriormente”. A proposta aqui é que seja feito o mapeamento em três frentes diferentes dentro do cenário geral:

  • Mapa social: quantidade de perfis daquele ambiente; quais perfis identificados; grandes temas debatidos / conversados; hierarquização dos perfis (se existe ou não); gêneros, características, idades; tipo de interação entre perfis.
  • Mapa espacial: quais os tipos / formatos de interação naquela rede (texto / imagens / curtidas / retweets e etc); descrição do tipo de ambiente (aberto / fechado / fórum / Fanpage e etc).
  • Mapa temporal: fluxo de perfis; rotinas de discussões / postagens; histórico (contexto); idade do ambiente.

Fonte: IBPAD

COLETANDO DADOS

Por mais irônico que pareça, essa talvez seja uma das partes mais complicadas do exercício. Isso acontece porque, nos últimos anos, cada vez mais os sites de redes sociais têm fechado as portas para coletas “automáticas” de ferramentas e sistemas que antes dispunham desses dados livremente para análise, a exemplo do Facebook. Ainda que o debate permaneça em alta para o campo de monitoramento, existe inúmeras possibilidades de coleta apresentadas por programas comerciais e acadêmicos. Quando falamos de etnografia, então, em que os primórdios eram na base do caderninho, a humildade bate na porta e avisa que, às vezes, os instrumentos necessários estão nas palmas das mãos. Mesmo no ambiente digital, em que o número de dados é geralmente bem maior (“Social data is not quantitative data, rather qualitative data on a quantitative scale”), há a necessidade de uma filtragem qualificada até para a estruturação dos dados.

O ideal é trabalhar quantitativamente para busca e qualitativamente para filtragem. As ferramentas de monitoramento são ótimas aliadas para fazer esse primeiro contato com o tema e a coleta manual baseada na técnica de Time Space Samplig / Time Location Sampling (“estratégia para montar amostra estatisticamente relevante para populações escondidas dentro da sociedade; hard-to-reach populations”), para um segundo momento. Como exemplo dessa estratégia – que não se propôs exatamente a fazer uma pesquisa etnográfica em termos técnicos, mas que usou desse apoio entre as duas frentes para a análise – temos o relatório da Ana Cláudia Zandavalle sobre acne em que ela utilizou-se das ferramentas de monitoramento como instrumentos para primeiro contato com os produtos de análise e, tendo feito esse mapeamento, completou o estudo através de uma coleta e análise manual trabalhada de forma mais qualitativa.

Algumas possibilidades consagradas para coleta de dados na etnografia também aplicáveis para o universo digital são:

  • Relatos escritos e orais: dentro das redes sociais as pessoas podem ter uma série de comportamentos – postar (em texto, vídeo, imagem); interagir (em texto, video, imagem, curtida, retuíte, compartilhamento); observar; fazer parte de grupos e comunidades.
  • Entrevistas semi-estruturadas (conversas cordiais)/histórias de vida: baseia-se apenas em uma ou poucas questões/guias, quase sempre abertas feitas num ambiente privado. Nem todas as perguntas elaboradas são utilizadas. Durante a realização da entrevista pode-se introduzir outras questões que surgem de acordo com o que acontece no processo em relação às informações que se deseja obter.
  • Observação: principal técnica etnográfica de coleta de dados, é feita enquanto o acontecimento se desenvolve; pode ser participante, consiste na participação real do pesquisador com a comunidade ou grupo; participante natural, o observador pertence à mesma comunidade ou grupo que investiga; ou participante artificial, o observador integra-se ao grupo com a finalidade de obter informações; ou, ainda, não-participante: o observador toma contato com a comunidade, grupo ou realidade estudada, mas sem integrar-se a ela.

Fonte: IBPAD

Vale reforçar que o processo de observação deve tentar compreender a prática descritiva dentro do contexto espaço-temporal da coleta – isso garante mais assertividade. Quanto à estruturação dos dados, ela se sustenta nos objetivos do estudo – pensando o armazenamento e a organização dos dados. A análise de redes sociais, por exemplo, feitas por programas como Gephi e NodeXL, permite uma visualização mais bem estruturada que pode acrescentar à análise mais minuciosa e “interna”.

ANALISANDO OS DADOS

A análise de dados é o processo de formação de sentido além dos dados, e esta formação se dá consolidando, limitando e interpretando o que as pessoas disseram e o que o pesquisador viu e leu, isto é, o processo de formação de significado.

Fonte: IBPAD

Nessa etapa, mais uma vez, o campo acadêmico e de monitoramento parecem convergir: enquanto há a coleta e estruturação dos dados, a análise já está sendo feita. O objetivo aqui é “identificar dimensões, categorias, tendências, padrões, relações, desvendando-lhes o significado”, ou seja, organizar as hipóteses fundamentadas no que foi relatado. Para uma análise quantitativa aplicada aos dados, há as possibilidades de: modelagens matemáticas, aplicações estatísticas e análises de volumes; para qualitativa: análises do conteúdo, análise das relações, análise de mudanças e ator, interpretação do comportamento. Uma questão que ainda me traz dúvidas mas que o curso sinalizou uma orientação para conclusão é a validação da amostragem: a “decisão para finalizar o processo pode estar fundada nos seguintes critérios: esgotamento de fontes; saturação de categorias; aparecimento de regularidades”.

CRIANDO O REGISTRO ETNOGRÁFICO

Por final, a proposta do registro etnográfico é endossada desde o começo: a elaboração de um registro completo das observações do pesquisador, finalmente dispondo de opiniões pessoais e conclusões interpretativas.

Quem tiver interesse em se aprofundar no assunto, sugiro a leitura desse post: “Etnografia x Etnografia Digital” no blog da própria profª Débora Zanini onde ela aborda várias questões discutidas no curso e, consequentemente, também aqui no post. Há ainda essa apresentação (Slideshare) feita por ela no Social Analytics Summit 2015, onde apresenta algumas técnicas etnográficas e discute a questão das pesquisas qualitativas serem vistas erroneamente como etnografia dentro de agências de publicidade. Por fim, gostaria de falar brevemente sobre o case muito interessante apresentado pelo segundo professor do curso, Tarcízio Silva.

>> Leitura recomendada: Fotografia nas mídias sociais como recurso etnográfico, no blog do IBPAD

Ele apresentou um estudo muito interessante que realizou para um programa de TV cuja emissora gostaria de “entender o público de um seriado televisivo voltado a adolescentes”. Foi feito um trabalho denso de pesquisa envolvendo monitoramento, análise de comportamento dos usuários, referências bibliográficas e acadêmicas que resultou num relatório de mais de 100 páginas onde o público foi localizado e identificado conforme todo o registro etnográfico aplicado. Quem quiser conhecer mais à fundo (e eu recomendo que conheça!) vai ter que fazer o curso do IBPAD, que vale muito a pena. Se você tem interesse em monitoramento, comportamento do consumidor/usuário e/ou etnografia/antropologia, esse é o curso para você. Agora é torcer para que a versão avançada chegue logo ao Rio de Janeiro!