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Planner Summit 2017: diversidade em pauta, por Anna Martinez

[Texto escrito por Anna Carolina Martinez, graduanda em Estudos de Mídia na UFF]

Nos dias 20 e 21 de maio aconteceu na cidade de São Paulo o Planner Summit, evento anual sobre planejamento realizado pela Media Education. A curadoria este ano ficou por conta de Gabi Terra (DM9DDB), que trouxe ao palco pesquisas, debates e palestras inspiradoras sobre um assunto bastante importante: diversidade. A proposta era mostrar como quebrar “paradigmas de dentro para fora e de fora para dentro dos clientes e das agências para ter marcas e campanhas mais verdadeiras e conectadas com o momento em que estamos vivendo”.

O evento, na verdade, acontece em dois dias: no primeiro, um workshop (que este ano contou com a própria curadora, Luiz Guimarães e Ricardo Sales); e, no segundo, as palestras. Embora não tenha participado na sexta-feira, tive a sorte de ganhar o ingresso para o segundo dia num sorteio feito pela organização do evento, e o que posso dizer é que segui o conselho que ouvi da Martha Gabriel em outro evento: “temos que aproveitar as oportunidades no momento em que elas aparecem”. Comprei a passagem de última hora (moro no RJ) e fui correndo pra São Paulo – de madrugada, sem nunca ter ido antes.

A minha proposta aqui, portanto, é compartilhar com vocês um pouco do que vi, junto a alguns tweets que rolaram durante o evento e outros conteúdos mais. Nesse sentido, já adianto que não sou a primeira: a Tuani Carvalho também fez um ótimo post sobre isso no Medium – que recomendo bastante a leitura. Aliás, foi um presente muito bom ter contato com trabalhos e profissionais incríveis. Incentivo quem quiser e puder ir a esses encontros porque faz toda a diferença poder ouvir as experiências e vivências dessas pessoas, é um aprendizado que vai muito além de um ppt bonitinho.

Nesta quinta edição do evento vários profissionais dividiram com a gente pesquisas e projetos com dados extremamente relevantes. Todos foram decididos a mostrar que é possível e necessário trabalhar a diversidade na propaganda (e na vida) de forma inteligente. E não só isso: para fazer diferença dentro e fora da agência basta querer dar o primeiro passo. Esse debate vai além de um tema “da moda”, e não aderir a essa mudança de cenário e consumidores não é só se manter num formato ultrapassado, é investir sem planejamento em um consumidor que muitas vezes sequer existe. É jogar dinheiro fora, de maneira irresponsável e perpetuando estereótipos e preconceitos.

Pude perceber que o evento se estruturou sob alguns prismas, se é que posso colocar desta forma: 1) representatividade na propaganda precisa ser mais inclusiva, “se não for por justiça que seja por inteligência” (Fala feita pelo Renato Meirelles do Instituto Locomotiva em sua apresentação sobre Diversidade na Propaganda); 2) atenção ao que é ativismo e o que é oportunismo; 3) a diversidade não pode ser da boca pra fora, tem que vir de dentro… O que está realmente sendo feito por essa mudança? Depois de muita reflexão e choques de realidade vem a cobrança de digerir tudo e o dever de começar a agir.

Por mais que o evento seja focado em publicidade foi muito rico pra mim como social media inserida num contexto de marketing digital. Somos profissionais que planejamos, criamos, lidamos com pessoas e propagamos conteúdo da mesma forma, fazemos parte do processo. Está na hora de abraçar a responsabilidade. Pois bem, respiremos por um instante. Antes de entrar nos detalhes das palestras, gostaria de agradecer novamente ao pessoal do Media Education pela oportunidade, e a Gabi Terra e Alexandre Formagio pelo evento. Não menos importante, ao Pedro por mais um convite de estar escrevendo para esse blog que tanto amo (<3). Agora sim, sigamos.

A primeira palestra foi a TODXS? – Uma análise da representatividade na publicidade brasileira com Isabel Aquino (Heads Propaganda). Em tempo, um parênteses: o uso do “x” como opção na linguagem inclusiva é bastante comum, mas ao mesmo tempo dificulta a leitura para algumas as pessoas. Fica uma dica sobre outras maneiras de usar as formas neutras. Ela apresentou a terceira onda da pesquisa feito pela Heads, uma análise feita a partir das propagandas exibidas na TV brasileira e os posts de marcas no Facebook, por uma semana – sendo repetido de seis em seis meses para poder acompanhar as possíveis mudanças. A pesquisa é bastante completa e os dados são os primeiros “tapas na cara” do dia.

E começamos com a seguinte pergunta:

Muita gente responde esse pergunta com um grande e sonoro: Não! Após a análise apresentada pela Heads ficou claro o porquê disso. A pesquisa mostra o quanto as estatísticas são alarmantes na divisão por gênero e o cenário fica muito mais crítico quando visto por raça. São analisados os personagens protagonistas, coadjuvantes, biotipos, estratégias usadas que reforçam estereótipos mas também alternativas pra mudar o cenário e por ações com empoderamento.

Só 7% dos negros são representados como protagonistas contra 83% de homens brancos, enquanto 12% de mulheres negras são protagonistas contra 84% de mulheres brancas. Os negros e outros tipos de representação só são lembrados quando é para retratar como sociedade é. E não para por ai…

Vimos estatísticas de reforço de estereótipos e o quanto mostram a presença de racismo, gordofobia, machismo, sexismo e tantos outros preconceitos ainda na publicidade. Abaixo estão algumas estratégias que são usadas que perpetuam essas desigualdades:

Já dá para perceber por que as pessoas não se veem representadas nas propagandas e quanto isso é problemático, não só pelo dinheiro que está sendo investido em uma imagem irreal mas também por perpetuar desigualdades. Para finalizar, Isabel mostra a comparação das ondas anteriores a essa. Por mais que o mercado esteja tentando se acertar com uma certa queda de conteúdos que reforçam estereótipos de gênero, ainda não houve aumento de comerciais que empoderam.

E qual a conclusão disso tudo? Temos como predominantes propagandas e posts que reforçam estereótipos e não representam a diversidade de raça e gênero da sociedade. A imagem principal utilizadas pelas marcas são homens, brancos e as mulheres seguem atrás com o mesmo perfil, pessoas negras são muito mal representadas, como protagonistas então são pouquíssimas. Isto quer dizer que temos muito trabalho pela frente. Vale ressaltar que a Heads foi a primeira agência a assinar o compromisso da ONU Mulheres para equidade de gênero. Não é pra enaltecer ninguém por tá sendo mais respeitoso mas é importante mostrar quando a proposta de mudança vai além do comercial.

A segunda palestra foi NOVOS CONSUMIDORES, NOVOS MERCADOS com Renato Meirelles (Instituto Locomotiva). Na minha humilde opinião foi uma das melhores se não a melhor palestra do dia. A pesquisa do Instituto Locomotiva apresentada por Renato foi muito feliz por vir logo após a fala de Isabel. Afinal todos nós já estávamos cientes do que estava acontecendo na propaganda, agora íamos saber que a situação é mais densa ainda.

Um trabalho de pesquisa extremamente bem feito, mostra que não só o cenário com o novo público consumidor e novos mercados estão ai e não sendo aproveitados, como mostra que as agências de publicidade precisam urgentemente rever seus conceitos, e se não for respeito e justiça social que seja por inteligência para não perder mais dinheiro. Esses são alguns dos dados apresentados:

  • 95% das pessoas não comprarão marcas ou produtos que, de alguma forma, não respeite a diversidade.
  • 79% afirmam que não aceitam calados qualquer tipo de preconceito na comunicação.
  • 85% apoiariam iniciativas de empresas que promovessem igualdade de oportunidades.
  • 67% das mulheres afirmam que as propagandas de TV mostram um padrão de beleza que é muito diferente da realidade brasileira
  • 61% concordam que as mulheres sentem-se frustradas quando não conseguem ter o corpo e a beleza das mulheres mostradas nas propagandas na TV.
  • 70% dos brasileiros afirmam que propagandas que ridicularizam homossexuais estão ultrapassadas. – Preconceito e homofobia definitivamente não são engraçados.

Mais um vez voltamos ao protagonismo negro que ainda é tratado como nicho, como apresentado anteriormente pela pesquisa da Heads.

Relembramos que são 130 Bilhões investidos em publicidade para isso:

Ainda preciso falar mais alguma coisa? Os dados já falam por si, esse modelo antigo de fazer publicidade está definitivamente ultrapassado. A mudança é questão de necessidade. Mas calma, ainda não acabamos:

Usar recorte de classes/ renda, para classificar o perfil do seu consumidor é falho.

É essa realidade que os planejadores e criadores de conteúdo se embasam? Pelo que vimos, não, né?! Agora, ousando ainda mais… Será que você está no recorte de classe que acredita fazer parte?

Esses equívocos simplesmente acontecem porque as agências estão lotadas por pessoas que fazem parte de uma “bolha social” e não pesquisam que o seu publico consumidor não é igual a si, não fazem parte do “seu quadrado” e não correspondem ao seu imaginário. As propagandas são reflexo de quem está no planejamento, criação e divulgação desses conteúdos.

Se pararmos pra pensar em todos esses dados apresentados, fica evidente que não dá mais, e nem é inteligente ignorar a maior parte da população brasileira. Para fechar, fica mais um ensinamento trazido por Renato: o que é óbvio pra você pode não ser obvio para o outro. Ainda precisa ter muita pesquisa, ouvir o outro, atentar ao ponto de vista de quem consome e não mais fazer conteúdo embasado em achismos e certezas que ficam restritas a um público.

Logo em seguida veio o primeiro painel do dia: E o que você está fazendo sobre isso? Os participantes eram Neivia Justa (Johnson & Johnson), Fernanda de Lamare (Wieden+Kennedy), Flávia Spinelli (Mcgarrybowen) e Ian Black (New Vegas) com a mediação de Gabi Terra. Como já dissemos, para a mudança acontecer, tem que começar de dentro, na sua agência, no seu trabalho, em você e no seu discurso. E esse painel tem esse intuito de mostrar o que esses líderes estão promovendo em seus ambientes de trabalho.

As estratégias são inúmeras: Neivia Justa apresentou que desde o início da empresa a Johnson & Johnsons é voltada para o empoderamento feminino, inclusive tendo o acordo com a ONU e núcleos de mulheres para discutir as necessidades; foram apresentados projetos de inclusão trans num acordo com o Jovem Aprendiz pela Flávia Spinelli (Mcgarrybowen); o Ian Black da New Vegas falou sobre a sorte de ter uma equipe mista, seu ativismo negro e que promove cursos voltados para as “minorias” – deu exemplos de cursos exclusivamente para negros e da possibilidade de abrir turmas para mãe solos; e Fernanda de Lamare (Wieden+Kennedy) também falou sobre os projetos de inclusão social na empresa.

Clique na imagem para assistir um trecho do debate

Sem dúvida o debate foi interessante, pois são ações que já estão sendo postas em prática. É o início da mudança. Agora, mudando a perspectiva: quantas pessoas negras, gays, trans, pobres, deficientes existem no seu ambiente de trabalho? Tem algo que você pode fazer para mudar essa realidade? Se sim, faça.

A última apresentação fechando o turno da manhã foi da Letícia Milião da Polis Consulting com Dados ajudando a decidir suas estratégias. A palestra basicamente reforçou que o planejamento precisa ser embasado por informações consistentes. E reforçou a importância do monitoramento não só para decidir a estratégia, como também entender cluster e oportunidades. Usemos os dados ao nosso favor, afinal, como disse a Letícia: “Se você não sabe o que esperar… Qualquer resultado é satisfatório”.

Logo depois da pausa para o almoço voltamos com mais atenção e calma no coração (sem fome) para a próxima palestra: Skol e diversidade: Como evoluir uma marca para uma postura mais democrática e contemporânea com Daniel Feitoza (AMBEV). A proposta da apresentação era mostrar o reposicionamento da marca não só adotando um novo discurso mas entendendo e aceitando seu passado para lidar com a transição e com o público. Afinal, não é porque a Skol decidiu vender diversidade que o consumidor vai esquecer das suas campanhas antigas, que na época davam um bom retorno, mas hoje – felizmente – não é mais assim.

Eu confesso que assisti e fiquei com um certo pé atrás. Por mais que ele tenha se esforçado em mostrar todo o processo com ações da marca adotando o novo posicionamento é difícil acreditar que de uma hora para a outra uma empresa extremamente machista mudaria de valores, ainda mais “partindo do presidente” como foi colocado pelo Daniel. Aliás, fiquei com essa dúvida: o presidente mudou junto com o reposicionamento da marca? Enfim, acho que só o tempo poderá nos dizer até onde é verdadeira a mudança da Skol.

Seja como for, é válido ressaltar o quanto é positivo que marcas com o alcance da Skol trabalhe o respeito e diversidade em suas ações. É uma forma de expandir a discussão, naturalizar a diversidade e ser um meio para ampliar falas de minorias que há tempos estão sendo ditas mas não tinham a devida atenção até então. Mas Daniel que me perdoe, essa história ainda não está convencendo… Gostaria de, inclusive, fazer alguns adendos nessa parte já que eu já estava fazendo alguns estudos paralelos sobre o tema.

Antes de mais nada a Skol fortalecia um estilo de vida em todas as suas campanhas e ações anteriores de caráter machista, sexista, reproduzindo o velho discurso do jovem homem que aproveita a vida zoando, bebendo cerveja e acha muito legal a objetificação de mulheres. Ok, pausa. Vocês já disseram que isso ficou no passado e acho ótimo, inclusive o trabalho de vocês para mudar essa imagem está sendo bem forte não só nas campanhas como no trabalho de social media nas fanpages, admiro isso.

“Curiosamente”, vocês decidiram se reposicionar depois de serem acusados de apologia ao estupro e serem obrigados a tirar a campanha de carnaval “Esqueci o não” das ruas. Isso foi em 2015, ano em que o feminismo e pautas associadas a igualdade de gênero estavam em seu ápice (na internet) – e isso sequer foi comentado como um dos motivos da mudança. Como uma empresa poderia ficar com uma imagem tão negativa com o seu público alvo? Ai começam os esforços… Novo slogan, nova linguagem, múltiplos eventos associados as ‘minorias’, promoção da diversidade e #RespeitoIsOn.

O que eu quero dizer com isso tudo é que acho maravilhoso o reposicionamento, mas me incomodou muito esse discurso/defesa de mudança radical como se tivesse latente na empresa e de uma hora pra outra ela veio à tona. Vocês foram pressionados, não aconteceu naturalmente, vocês não mudaram porque o seu presidente é mais humano… Pode até ser, mas isso não era levado em conta enquanto o perfil machista dava lucro.

Lucro é um bom ponto pra gente falar, já que o próprio Daniel citou que as vendas melhoraram bastante após o reposicionamento – o que é compreensível pelo cenário que já vimos anteriormente com as outras palestras. Mas é o que o Ian Black levantou na discussão do primeiro painel: como está esse reposicionamento dentro da empresa? Gostaria que ainda tivesse lá para ter participado com essa resposta.

Agora que já fiz minhas intervenções posso dizer que espero muito que a Skol continue nesse caminho, e parabenizo principalmente pelas campanhas “Reposter” e “Skolors” que foram feitas em parceria com pessoas que tem autoridade sobre o assunto. No mais, ficaremos acompanhando as novidades.

A segunda palestra da parte da tarde foi Trabalhar com o coração: viabilizando um projeto que nasceu para viver com Gustavo Rosa e Juliana Fava, ambos da Questto|NóA proposta do projeto com esse documentário é um tanto polêmica: falar com os homens sobre igualdade de gênero. Eles entraram em parceria com a ONU Mulheres e Papo de Homem para trabalharem juntos, e assim realizar e viabilizar esta pesquisa de abrangência nacional.

Na apresentação, mostraram quais os desafios e dificuldades que encontraram para que o projeto saísse do papel: os meses de pesquisa e estudo se aprofundando no tema e a busca por fontes diversas; o tema central ser o “calcanhar de Aquiles”: “de que forma pensar em falar com homens sobre igualdade de gênero sem colocá-los no lugar de vítima?”; a metodologia usada; e o percurso até encontrarem parceiros que os ajudassem.

Achei que a palestra focou mais nos “bastidores” – metodologia, processo com parceiros e resultados – do que no conteúdo do documentário. Para quem tem um primeiro contato, sem referência do que realmente se trata, isso não é tão bom. De qualquer forma, após a palestra eu assisti para entender melhor a proposta – e para poder escrever aqui com menos dúvidas.

Pois bem, quando eles disseram que queriam ouvir os homens pra falar sobre feminismo e igualdade de gênero eu quase tive um negócio na cadeira, mas conforme foram explicando fui ficando mais calma. A ideia foi utilizar as parcerias como meios para dialogar com as pessoas, isso é, o Papo de Homem conversar com os meninos sobre as pressões impostas socialmente na construção do que é “ser homem”, junto com a ONU mulheres que apoia a entrada de homens para o debate de igualdade de gênero – como com o projeto #HeforShe.

Essas experiências gravadas somadas a diversas entrevistas com profissionais convidados e pessoas pelas ruas, pesquisas quantitativas, e apresentações bastante didáticas dos múltiplos processos sociais para a construção de imaginário e identidade vão dando forma ao documentário.

Acho uma proposta interessante e válido o diálogo com os meninos. Essa abertura para falar sobre gênero não é fácil. A grande maioria segue a lógica patriarcal de como agir em sociedade e qual papel deve assumir. Muitos já tem isso tão naturalizado que reproduzem essas lógicas e comportamentos e não raramente diminuem as mulheres de inúmeras formas. Fazemos parte de um sistema machista e sexista em que muitos meninos crescem condicionados e ensinados a oprimir e reproduzir violências, e cabe a todos nós mudar isso ensinando o contrário: valores como respeito e igualdade.

Se esse documentário conseguir promover a abertura real de um diálogo pra melhorar a equidade será um ganho imenso para todos nós. Achei importante a dinâmica feita pelo pessoal do Papo de Homem nas escolas mas ao mesmo tempo me pergunto se essa metodologia não pode contribuir para um silenciamento da fala de uma mulher neste processo. Talvez seja uma forma deles se sentirem mais à vontade, mas de qualquer forma é um receio da minha parte.

É muito tênue falar sobre a necessidade de uma ‘desconstrução’ do que é ser homem sem tocar no que sofremos com esse sistema. Não reproduzir a lógica imposta pra eles não necessariamente faz com que tenham noção da gravidade de suas ações já naturalizadas e não continuem agindo com violência com as mulheres – nesse caso vai muito além da violência física. Por isso é fundamental a participação de mulheres neste processo.

Em um “mundo ideal” (ou do meu imaginário), quando o documentário já tivesse presente nas escolas, os relatos poderiam não só vir das participantes mas também de mulheres do ciclo dessas pessoas – mães, amigas, irmãs, avós…- talvez a familiaridade junto ao novo possa ser uma boa alternativa para que os meninos se sintam mais tocados e abertos a mudança.

Seja como for, espero que esse projeto abra uma brecha para torná-los cientes dos privilégios sociais que tem; ensiná-los a dar valor, importância e respeito ao lugar de fala e vivência de mulheres, e que cada vez menos reproduzam lógicas machistas. O projeto já tem tudo a seu favor vendo os resultados que alcançaram:

Agora seguiremos para o segundo painel do evento: Eu não sou igual a você. Os participantes dessa vez foram Verônica Merege e Juliana Matheus (R/GA), Rita Romão (Por Mais Turbantes Nas Ruas), Gustavo Otto (NBS) e Ana Cortat (Hybrid).

 

O objetivo desse painel era mostrar que a publicidade brasileira não reflete seu próprio povo. E isso nada mais é do que um reflexo da falta de diversidade nas equipes.

Adorei essa conversa, todos os participantes foram unânimes em dizer o quanto a realidade das agências é predominantemente fechada a diversidade, como existe a dificuldade de muitos planejadores e criadores em verem além da bolha que pertencem e quanto isso influencia no resultado final das propagandas.

E a única saída para melhorar esse cenário é trazer diversidade para ocupar esses espaços. Assim, vai chegar um momento em que o diferente vai ser naturalizado. E não é só colocar pessoas negras, gays, trans, ou qualquer “minoria” que seja só pra ocupar vaga e dizer que sua equipe é diversa ou para falar só quando o assunto for minoria, é dar espaço/oportunidade, trocar, construir junto.

Gustavo Otto compartilhou os preconceitos que passou dentro do ambiente de trabalho, e que hoje ele não se importa mais com gente que se incomoda pelo jeito como ele é e ou por como se veste. Acho ótimo que tenha conseguido chegar a esse ponto – aliás, amei sua saia prateada maravilhosa – mas quantas pessoas com trabalhos incríveis vão ter seus espaços restritos, engolir preconceitos e aprender a ignorar na marra pra que parem de pôr os achismos e preconceitos a frente?

Rita Romão também comentou a respeito, disse que é muito mais fácil você se sentir a vontade pra ser você mesmo num lugar onde existam outras pessoas com essa liberdade. Apresentou o projeto Por Mais Turbantes Nas Ruas e como ele tem um papel importante, ajudando a empoderar meninas negras, fortalecer essa identidade, além de promover um lindo símbolo de resistência.

Ela tinha uma energia contagiante, a mais falante, alegre e com ideias brilhantes – não digo que queria colocar ela num potinho de tão maravilhosa porque o mundo inteiro merece ver e ouvir essa menina. O que mais me tocou foi quando ela disse que tudo que alguém precisa é de uma oportunidade, o que mais tem por ai é gente boa demais sem espaço pra mostrar isso. Oportunidades como a que ela teve para estar ali no evento dividindo com a gente um pouco do seu trabalho e experiência – e que eu tive para poder contar isso tudo pra vocês.

As meninas Verônica Merege e Juliana Matheus – que estiveram aqui no blog na série Profissão Social Media – comentaram sobre como tentam fazer a diferença dividindo conhecimento, indicando contatos e ajudando como podem com o Jovens Planners. Eu andei vendo e parece ser bem interessante. E ela, Ana Cortat, apesar de muitos posicionamentos incríveis que reforçaram a ideia da necessidade da diversidade dentro das agências, uma das falas mais significativas para a discussão ao meu ver foi essa:

Por mais que já seja algo positivo um debate desse tipo e uma mudança visível em alguns posicionamentos de marcas e suas campanhas, o tema só vai tá sendo levado realmente a sério quando sair de um setor e virar pauta entre os CEOS. Enquanto a mentalidade não mudar de dentro pra fora, ficará difícil acreditar numa mudança real e não achar que é só mais uma galera se aproveitando do tema que está em alta.

Foi um debate muito rico e de muito aprendizado, espero que alguém disponibilize algum vídeo para poder dividir aqui.

Tá acabando, agora a penúltima palestra: Basta! As marcas precisam se posicionar! Caio Baptista da Mutato veio dividir a experiência de participar da campanha de reposicionamento da AVON e para mostrar a necessidade de um posicionamento das marcas. A publicidade contribui muito para a construção de imaginário, reforça valores e precisa ser mais responsável pelo que produz. Não dá mais para ficar se preocupando com as oposições e xingamentos.

Ele trouxe vários exemplos de campanha de reposicionamento, em uma delas, #MãeSemCulpa,  a protagonista foi a mãe dele falando sobre filhos e sexualidade, e quanta gente mandou mensagem para ela emocionado com a história e como ela agiu na situação. Outras como Máscara Big & Define apresenta: #OQueTeDefine com Karol Conka, Mc Carol e LAY , e Dona Dessa Beleza que tem a participação de influenciadoras fora do “padrão” para mostrar que beleza não é uma só, dentre outros exemplo. Como se já não tivesse lacrando o suficiente, ainda trouxe o Gustavo Bonfiglioli para falar um pouquinho como foi participar da campanha BB Cream Color Trend e a Democracia da Pele.

E pra fechar esse evento maravilhoso, André Chaves do Papel&Caneta levou a palestra O PODER DO COLETIVO PARA MUDAR O MUNDO. Ele apresenta o Papel&Caneta, uma empresa colaborativa e sem fins lucrativos, onde líderes de várias partes do mundo estavam dispostos a trabalhar juntos e buscar mudanças positivas em diversas causas.

Contou como foi sua jornada em NY, buscando ver o que estava acontecendo de novo no mercado e correndo atrás desses novos colaboradores. O primeiro projeto de sucesso, inclusive que o proporcionou indicação para Cannes, foi uma mobilização para ajudar a comunidade trans negra.

Além de citar outros projetos que já fez, André, falou um pouco sobre os líderes – todos premiados em Cannes, por sinal – e seus trabalhos para ajudar jovens. Alguns deles foram 25 Forty, sobre a diversidade na indústria; e Venice pop up park.

Não sei se é porque não sou publicitária mas fiquei muito mais interessada na parte em que ele contou sobre os projetos dessas pessoas do que quantos prêmios elas receberam. Acho que existem muitos trabalhos feitos de forma colaborativa que merecem atenção por trazerem valores e mudanças positivas, principalmente, se tiver muita gente diferente para trocar e somar aos projetos, envolvidos de fato pela causa.

Espero que tenha conseguido passar um pouco do que foi esse evento e mostrar como pode ser rico e importante participar desses encontros. Tive a honra de conhecer profissionais maravilhosos, seus trabalhos e suas experiências, além de ter contato com outras pessoas da área que tem tanto a agregar quanto os palestrantes que estavam no palco. Só tenho a agradecer, a todos. Até a próxima!

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