Livros

Introdução à análise de redes sociais online: quais são os principais conceitos?

[Este post faz parte de uma série de resumos comentados do e-book “Introdução à análise de redes sociais online” (2017), de Raquel Recuero]

No post anterior, vimos os precedentes da análise de redes muito antes de chegarmos às redes sociais na internet (ou aos sites de redes sociais). Em resumo, no primeiro capítulo do e-book, Raquel Recuero apresenta as duas teorias metodológicas fundadoras do pensamento de redes: a Sociometria de Jacob Moreno e a Teoria dos Grafos da matemática. São desses pilares que surge a análise de redes sociais, cuja origem pode ser remontada ainda à primeira metade do século XX. Sua popularização nas últimas décadas é justificada pelo aumento de dados produzidos e disponibilizados na plataformização da vida social e também pelo avanço das técnicas (ferramentais) de análise à disposição de pesquisadores.

Outro fundamento teórico importante o qual a autora resume na primeira parte é referente à ideia de (sites de) redes sociais, a partir principalmente do conceito e discussões propostas pela americana danah boyd. A ideia de “públicos em rede” (ou networked publics) traz características específicas dos sites de redes sociais que permitiram também essa proliferação da análise de redes, sendo elas: a persistência (os registros) das interações/conexões, a replicabilidade, a escalabilidade e a buscabilidade. Tudo isso reitera as dinâmicas de audiências invisíveis, colapso dos contexts e borramento das fronteiras entre o público e o privado encontrado nesses públicos em rede que estão na internet.

A ideia de “redes sociais” é uma metáfora estrutural para que se observem grupos de indivíduos, compreendendo os atores e suas relações. Ou seja, observam-se os atores e suas interações, que por sua vez, vão constituir relações e laços sociais que originam o “tecido” dos grupos. Essas interações proporcionam aos atores posições no grupo social que podem ser mais ou menos vantajosas e lhes dar acesso a valores diferentes. […]

O grafo é, desse modo, uma representação de dois conjuntos de variáveis (nós e conexões). Concebendo uma rede social como uma dessas representações, os nós seriam os atores sociais (compreendendo esses atores como organizações sociais, grupos ou mesmo indivíduos no conjunto analisado) e suas conexões (aqui entendidas como os elementos que serão considerados parte da estrutura social, como interações formais ou informais, conversações etc.).

RECUERO, 2017, p. 23.

O segundo capítulo do e-book segue com foco na teoria por trás das discussões, apresentando diversos conceitos importantes (ou, até mesmo, básicos) para a análise de redes sociais na internet. Ela começa de uma concepção mais geral em torno das redes sociais em sua composição representativa, até chegar nos elementos que as constituem: nós (ou vértices) e arestas (ou laços) – cujas conexões entre eles podem representar diferentes tipos de relações sociais. É a partir daí que elenca conceitos como laços fracos, capital social, homofilia, etc. – cada um desses está diretamente ligado à representação das redes “como sociogramas (grafos sociais), que são analisados a partir das medidas de suas propriedades estruturais”.

É importante ter em vista que a representação dos dados não é somente um artifício visual-estético, mas tem fundamentação nas matrizes matemáticas da teoria dos grafos, que estipulam “as relações entre os atores do grupo” e “servem de base para a estrutura geral da rede”. Nesse mesmo sentido, a representação de uma rede é também uma abordagem teórico-metodológica, em que os nós (ou nodos) podem representar coisas diferentes e até distintas. A autora apresenta como exemplo o caso das redes bimodais, em que nós de uma mesma rede podem representar tanto indivíduos quanto categorias ou grupos.

Exemplo de rede bimodal em que os nós representam 1) imagens e 2) labels associadas a essas imagens

– As conexões: laços sociais [e o conceito de laços fracos]

Tão importantes quanto os nós são as chamadas arestas ou laços (ou, ainda, arcos), que indicam a conexão entre os atores – nas redes sociais, pode representar interação, conversação, relação de amizade/pertencimento, etc. Essa agência necessária, ou seja, o “esforço” ou a “ação” que envolve esse indicador é o que levou Mark Granovetter (1973) a propor uma classificação de laços fortes, fracos ou ausentes: ainda no caso de redes sociais, o primeiro estaria associado a relações de maior proximidade e/ou intimidade, “enquanto os laços fracos representariam associações mais fluidas e pontuais”; por fim, aqueles ausentes “seriam insignificantes em termos de importância estrutural ou completamente ausentes”.

Granovetter (1973, p. 1361) define a “força” do laço como “uma combinação (provavelmente linear) da quantidade de tempo, da intensidade emocional, da intimidade (confiança mútua) e da reciprocidade que caracterizam o laço”. Desse modo, presume-se que a quantidade de interações entre dois atores pode representar, assim, a força da conexão, uma vez que conexões fortes requerem maior investimento do que conexões fracas. A partir dessa discussão, podemos observar que os tipos de laço social representam conexões que são qualitativamente diferentes, e é um desafio importante compreender como a estrutura construída através dos dados e da análise de redes pode, efetivamente, representar esse conceito complexo.

RECUERO, 2017, p. 26.

A autora aponta como, na análise de redes (sociais), “as conexões são representadas de modo numérico e direcional, indicando um valor que é relacionado ao ‘peso’ da conexão” – é, portanto, essa métrica que auxilia na identificação dos tipos de laços sociais existentes entre determinados atores. Lembra também que as conexões (ou seja, as arestas) podem ser direcionadas, como no caso de interações (online ou off-line); ou não direcionadas, como no caso de laços de amizade (do Facebook), por exemplo. Esse (não) direcionamento é fundamental para calcular o peso das conexões.

REDE DIRECIONADA (GRAFO DIRECIONADO)

As conexões possuem direção (geralmente representados por uma seta), ocorre quando as conexões estabelecidas não são iguais (ou não têm o mesmo peso) [p. 36]

REDE NÃO DIRECIONADA (GRAFO NÃO DIRECIONADO)

As conexões não possuem direção ou a direção não importa (geralmente representada por uma linha), mostram uma matriz na qual os dados dessas conexões são exatamente iguais entre os dois atores. [p. 36]

Outro conceito também muito importante que está relacionado aos laços (fortes) é o de clusters ou agrupamento, que é “um conjunto de nós mais densamente conectados (ou mais inteconectados) do que os demais na rede”, ou seja, em que as conexões são mais recíprocas. Essa característica fica evidente na estrutura da rede, em que os nós estão mais próximos “ou porque interagem mais (e suas arestas têm um peso maior) ou porque possuem mais conexões entre si do que com os demais nós da rede”. É justamente essa presença de laços mais fortes que indicam, em termos sociológicos, características mais próximas das definições de comunidade.

– Capital social e os valores das conexões

Recuero também parte do conceito de laços sociais de Granovetter (1973) para introduzir a discussão sobre capital social, cujas formas correspondem às vantagens estruturais das quais os atores se beneficiam (informação, intimidade e reciprocidade). A discussão em torno desse conceito, entretanto, é muito mais complexa e extrapola os estudos de redes sociais em seu caráter metodológico, mas o que interessa aqui é o que está no cerne da expressão: se trata de um capital, há tanto negociação quanto acúmulo (de valores, posições, vantagens, etc.), e esses dois aspectos têm relação direta com as matrizes das redes.

Desse modo, “as trocas sociais implicam na construção de valores cuja percepção por parte do grupo também atua na construção de relações de confiança, resultado dos investimentos individuais na estrutura”. A autora aponta que a maioria dos autores concorda, portanto, que o capital social representa um valor associado à estrutura social – “Burt (1992) argumenta que o conceito é uma metáfora para as transação que caracterizam as interações sociais”, enquanto Putnam (2000) separa dois tipos: bridging (pontes ou laços fracos entre atores de diferentes grupos) e bonding (qualidade/força das conexões ou laços fortes num mesmo grupo).

Estar em uma rede social, assim, permite a construção de valores para os atores. Desse modo, as relações sociais são constituídas de trocas através das quais os atores buscam atingir objetivos e interesses, como um sistema econômico. É preciso investir (interagir) na estrutura social para colher os benefícios. Os valores de capital social são, desse modo, associados a normas de comportamento, participação e às próprias conexões que alguém possui, além de vantagens competitivas advindas desses valores. (BURT, 1992, p. 348)

RECUERO, 2017, p. 29.

Na perspectiva de redes, portanto, os laços sociais (e, portanto, sua posição na estrutura) são como a moeda que garantem acesso a determinados bens, como informações novas e diferentes (mais associados a laços fracos) ou confiança e intimidade (mais associados a laços fortes). Essas vantagens são atribuídas não somente aos indivíduos (ou atores), mas para os grupos sociais (os clusters) como todo, que detêm valores próprios entre si. E além da circulação de informação, mais associado ao conceito de capital social nos estudo das redes, há também outros valores disponíveis em negociação.

  • BERTOLINI E BRAVO (2004) – tipologia de níveis de capital na rede
    • Primeiro nível: apropriado de modo individual e relacionado a elementos de laços fracos / tipos: 1) as conexões sociais que os atores possuem, 2) as informações às quais têm acesso e 3) o conhecimento das normas associadas ao grupo que pertencem;
    • Segundo nível: apropriado de modo coletivo e relacionado a elementos de laços fortes / tipos: 1) a confiança no ambiente social e 2) a institucionalização relacionado ao reconhecimento do grupo como tal.

Outro valor também muito importante na perspectiva dos sites de redes sociais é aquele relacionado à popularidade: “é uma concessão, no sentido de que o ator popular concentra mais capital social, em termos de atenção e visibilidade de seus pares, do que outras pessoas não populares”. Fica ainda mais evidente, neste caso, a relação de apropriação e escassez, em que os próprios recursos de vínculos sociais (a serem investidos ou capturados) são também limitados. Recuero retoma o trabalho de Barabási (2003) sobre a presença de conectores (grupos pequenos muito conectados entre si) para complementar o argumento de que todos detemos de capital social, mas a sua lógica própria exige a distribuição desproporcional de recursos.

– Homofolia, [Pontes, Conexões Reduntantes,] Buracos Estruturais e Fechamentos

O conceito de homofilia, de modo simplificado, diz respeito à ideia de que “pessoas mais próximas tendem a ter interesses comuns e padrões de comportamento semelhantes”, seja isso tanto efeito quanto causa. Ou seja, um grupo social pode ser identificado enquanto tal justamente por agregar pessoas “parecidas”, o que resulta “no fato de que esses atores tendem a ter acesso às mesmas fontes e a circular as mesmas informações”. Essa característica, portanto, também se relaciona ao capital social, “uma vez que pode auxiliar na construção e no fortalecimento dos laços sociais que vão gerá-lo”.

Outro conceito também muito importante nas redes sociais são as chamadas conexões “pontes“, aquelas que se conectam a vários grupos, transitando em círculos variados e aproximando grupos distantes/diferentes entre si. São fundamentais para que as informações circulem na rede, formadas geralmente de laços fracos. O conceito de “buraco estrutural” parte dessa ideia, em que os buracos “representam a ausência de conexões entre dois nós que possuem grupos/fontes informativas complementares ou não redundantes”.

Um cluster geralmente tem conexões redundantes, ou seja, conexões que interligam o mesmo conjunto de nós. Já conexões não redundantes são aquelas que interligam os atores de diferentes grupos. Conexões redundantes o são porque nelas circulam as mesmas informações. Já as não redundantes são aquelas capazes de trazer informações novas para o grupo. Assim, como dissemos, as conexões transmitem informação e estão relacionadas ao conceito de capital social. O buraco estrutural, portanto, representa uma falha no caminho de transmissão de informações, que poderia dar acesso a fontes de informação diferentes para os dois grupos em questão. Desse modo, aqueles atores que fazem a “ponte” (ou mediação) entre diferentes grupos possuem uma vantagem em relação aos demais, pois têm acesso a tipos diferentes de informação, enquanto que os buracos estruturais representam uma desvantagem para os grupos.

RECUERO, 2017, p. 32.

Já a ideia de “fechamento da rede” é o oposto dos buracos estruturais: “é a qualidade associada a todos os nós de uma determinada rede estarem interconectados”. Está associada aos chamados clusters, que são grupos mais fechados entre si (atores que compartilham de mais conexões uns com os outros) – cujo fechamento completo (inteiramente conectado) é chamado de clique, “um grupo em que todas as conexões possíveis existem”. Assim como o conceito de homofilia, pontes, conexões reduntantes e buracos estruturais, também corresponde à noção de capital social por operar no intercâmbio relacional da rede.

– Graus de separação [e estrutura de mundo pequeno]

Vimos na primeira parte que um dos fundamentos da Teoria dos Grafos é o enigma das Pontes de Königsberg, em que foi feito a tentativa de calcular qual era a distância mínima entre dois pontos sem repetir um mesmo caminho. Na perspectiva das redes, isso veio a se chamar de “grau de separação”, ou seja, a distância entre dois nós. As métricas de “caminho médio” ou “distância média” (average path) calculam justamente o caminho médio mais curto entre todos os nós da rede, podendo indicar “o quão interconectada está a rede pelos diversos laços existentes”.

Recuero parte do conceito de grau de separação para falar da teoria de mundo pequeno, que foi apropriada no estudo de redes de modo que “uma rede mundo pequeno é aquela em que um conjunto de nós é aproximado na rede por algumas conexões, que terminam por reduzir a distância (grau de separação) entre todos os nós na estrutura”. A importância aqui está no fato de que nós (ou indivíduos) mais conectados (mais conhecidos) podem diminuir significativamente a distância entre os demais atores da rede.

A estrutura de mundos pequenos, assim, é encontrada em redes sociais e está relacionada à presença de “pontes” entre os vários nós da rede e à redução do “caminho” (path) entre dois nós quaisquer da rede pela presença dessas conexões, que são apresentadas por autores como Granovetter (1973) e Watts e Strogats (1998) como conexões fracas ou associadas aos laços fracos, e portanto, ao capital social do tipo bridging de Putnam (2000), pois permitem que os atores tenham acesso a fontes diferentes de informações

RECUERO, 2017, p. 34.

REDE EGO

A estrutura é desenhada a partir de um indivíduo central, determinando, a partir desse “ego”, um número de graus de separação; [p. 37]

REDE INTEIRA

É mapeada na sua integridade, quando é possível limitar essa rede de modo externo [p. 37].


Recapitulando, neste post (e neste segundo capítulo) vimos os conceitos de: redes sociais, nós/vértices e conexões/arestas, redes bimodais, laços fracos/fortes/ausentes, redes direcionadas e não direcionadas, clusters, capital social, briding/bonding, homofilia, pontes, conexões redundantes, buracos estruturais, fechamentos, graus de separação, estrutura de mundos pequenos, redes ego e redes inteiras. Anotou tudo?

Referências citadas neste capítulo

  • BURT, R. The Social Structure of Competition. In: BURT, R. Structural Holes: the social structure of competition. Cambridge: Harverd University Press, 1992.
  • BERTOLINI, S.; BRAVO, G. Social Capital, a Multidimensional Concept. [S.l.:s.n.], [2004]. Disponível em: http://www.ex.ac.uk/shipss/politics/research/socialcapital/other/bertolini.pdf. Acesso em: 17 out. 2004.
  • BARABÁSI, A. Linked: How everything is connected to to Everything Else and What It Means for Business, Science, and Everyday Life. New York: Basic Books, 2003.
  • GRANOVETTER, M. S. The Strength of Weak Ties. American Journal of Sociology, Chicago, v. 78, n. 6, p. 1360 – 1380, 1973.
  • PUTNAM, R. D. Bowling Alone: The collapse and Revival of American Community. New York: Simon e Schuster, 2000.
  • WATTS, D.; STROGATZ, S. Collective dynamics of ‘small-world’ networks. Nature, [S.l.], v. 393, p. 440-442, 1998.
Tags:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.