Categoria: Opinião

Pesquisa com APIs pós-Cambridge Analytica

Em setembro do ano passado, trouxe aqui para o blog o texto “Computational research in the post-API age”, do pesquisador Dr. Deen Freelon,  no qual ele faz algumas considerações sobre o futuro da pesquisa computacional no que ele chamou de “era pós-APIs”. Dando sequência ao debate levantado naquele momento, trago desta vez outro texto de pesquisadores também renomados, Tommaso Venturini e Richard Rogers, no qual discutem sobre o futuro da pesquisa em mídias sociais após o escândalo da Cambridge Analytica – e suas devidas consequências.

Antes de entrar no texto, uma rápida contextualização (para quem não trabalha na área): 2018 foi o ano que o Facebook mais fechou o cerco quanto ao acesso irrestrito aos dados dos usuários; isso aconteceu principalmente devido aos problemas ocorridos nas eleições norte-americanas que elegeram Donald Trump e culminou numa audiência pública de Mark Zuckerberg diante do congresso de senadores. No rascunho “‘API-based research’ or how can digital sociology and journalism studies learn from the Cambridge Analytica affair”, que estará no livro Digital Journalism (a ser lançado), Venturini e Rogers partem do escândalo da CA para discutir o futuro da pesquisa com APIs e a importância de desenvolver uma prática de trabalho de campo digital mais sólida e diversa.

“Dentre outros motivos, as eleições presidenciais de 2016 serão lembradas pela revelação de que seu resultado pode ter sido afetada pela Cambridge Analytica, uma vergonhosa agência de marketing que ilegitimamente coletou dados de milhões de usuários do Facebook e os utilizou para a campanha de Donald Trump. O escândalo estimulou um vasto debate sobre a frouxidão da proteção de privacidade nas mídias sociais e forçou o Facebook a prometer uma redução drástica das informações disponibilizadas pela sua API.”

(VENTURINI; ROGERS, 2019)

O artigo se desenvolve sob dois pilares: primeiro, quanto aos “aprendizados” que todos nós – pesquisadores, mas também usuários e pessoas físicas da sociedade civil – podemos adquirir do caso da CA; e, segundo, num debate (praticamente um puxão de orelha bem dado) sobre como a pesquisa na internet se tornou limitada e monopolizada metodologicamente. Há também, tanto no tom quanto de forma explícita no texto, uma crítica ferrenha às práticas de marketing que utilizam dados de usuários de mídias sociais para lucro corporativo em oposição à utilização desses mesmos dados para pesquisa em Ciências Sociais – um debate complicado, principalmente para mim, visto que estou em ambos os lados (então deixemos para outra oportunidade).

Aprendendo com o caso da Cambridge Analytica

Na primeira seção do texto os pesquisadores partem de duas falas proferidas por Zuckerberg em sua audiência, destacando dois problemas: a ideia de que 1) “os dados produzidos pelas mídias sociais são poderosos, mas neutros – extremamente úteis ou extremamente perigosos a depender de como serão utilizados” e que 2) “a solução contra essa má utilizações é trancar esses dados dentro das plataformas para que não caiam nas mãos erradas” (p. 2). Os autores chamam atenção sobretudo para como essas argumentações fazem parte da narrativa estratégica do Facebook para parecer “um aventureiro tropeçando na lanterna mágica de dados pessoais e sem querer libertar seu gênio” – contra a maléfica Cambridge Analytica (que seria o verdadeiro culpado).

Remontando os acontecimentos, eles listam os seguintes fatos (e considerações):

  • Num primeiro momento, a CA tentou comprar dados de um projeto antigo da Cambridge University – o teste myPersonality, um app do Facebook que coletou informações sobre 6 milhões de usuários a partir de um quiz de personalidade; além das respostas, o projeto também coletou informações sobre os perfis e suas curtidas, mas nada sobre as amizades dos usuários que fizeram o teste; a negociação não foi pra frente porque os acadêmicos se negaram à utilização comercial dos dados coletados;
  • Num segundo momento, a CA resolveu replicar esse projeto com a ajuda do Profº. Aleksandr Kogan, também pesquisador da Cambridge University, que lançara seu próprio projeto e cujos alunos foram posteriormente trabalhar no próprio Facebook; o app criado era mais improvisado e foi utilizado por menos de 300 mil usuários – os 80 milhões de perfis “roubados” comumente noticiados pela imprensa são o total desses 300 mil + a média de amigos de um usuário comum (267);
  • A v1.0 da Graph API permitia a coleta de dados não somente de usuários (que autorizaram a utilização de um app), mas também de sua lista de amigos; no entanto, as informações psicológicas – tanto ostentadas midiaticamente – só estavam disponíveis quanto aos quase 300.000 usuários que fizeram o teste, ou seja, 99,5% das entradas coletadas pela CA não continham informações referente à “abordagem psicológica” da empresa.
  • Os respondentes do teste de Kogan foram recrutados através de serviços pagos, plataformas reconhecidas por trazer força de trabalho através de fazendas de cliques; o próprio Kogan, em sua audiência, chamou os dados de “barulhento” e “sem valor” para anúncios políticos.

Ou seja, resumindo ainda nas palavras de Venturini e Rogers, “o ‘big data’ o qual a CA se gaba é questionável em qualidade e origem, falho por cobertura desigual e antiético em sua coleta” (p. 3). O caso da Cambridge Analytica é interessante por porque eles fizeram tudo numa brecha extremamente perigosa que o próprio Facebook deixou aberta por anos (que foi a v1.0 da Graph API) – esse artigo discute bem quanto a isso, basicamente argumentando como a prática da empresa não é nada do que agências do mundo inteiro não tenham feito nos últimos anos; e porque, mesmo assim, eles aparentemente fizeram tudo errado – como apontam (e batem com gosto) os pesquisadores, desfazendo seus argumentos (metodológicos).

Aleksandr Kogan em depoimento sobre seu trabalho com a Cambridge Analytica

Venturini e Rogers chamam atenção para os dois principais supostos trunfos da CA: a “segmentação de audiência através de análise sofisticada de personalidade” e a identificação de ideias conspiratórias para o direcionamento de fake news. Quanto ao primeiro, reforçam que eles só tinham os dados psicológicos de 300.000 usuários (e não 80 milhões) e que basicamente o Facebook não tem uma opção de segmentação para pessoas a partir de “estados da mente”, então perfis psicológicos não seriam tão úteis assim; e, quanto ao segundo, é muito mais provável que tenham obtido essas informações através de questionários e focus group – do que através de rastros online.

Então, se o valor dos dados da Cambridge Analytica eram tão irrelevantes e provavelmente não tiveram poder nenhum para anúncios de campanhas políticas, por que Zuckerberg não contra-argumentou quanto a isso em sua audiência? Segundo os autores, por dois motivos:

  1. Para que o Facebook fosse visto não como protagonista da história, mas como coadjuvante, “um provedor de infraestrutura desajeitado, mas humilde”;
  2. Porque o Facebook faz basicamente a mesma coisa que a Cambridge Analytica fez (o que volta para o artigo que citei anteriormente), “ambos sustentam seu mercado de anúncios ostentando o poder de seus dados e social analytics”.

Fechando essa seção com chave de ouro, em uma das citações mais poderosas do texto, os autores explicam: “As mídias sociais não liberaram descuidadamente levas de dados sensíveis pré-existentes que agora precisam ser controladas”. Muito pelo contrário, “elas [as empresas de mídias sociais] construíram proposital e implacavelmente a profecia auto-realizável do ‘marketing computacional’ e, para fazer isso, criaram um novo tipo de dado para sustentá-la” (p. 3-4). Ou seja, as plataformas criaram, principalmente de uns anos pra cá, o próprio ecossistema de venda de dados dos seus próprios usuários em troca de lucro (e esse modelo de negócio é o que as têm sustentado).

Pesquisa com APIs e trabalho de campo digital

A segunda parte do texto basicamente discorre sobre aquela máxima de que há males que vem para o bem. Depois de bater muito na Cambridge Analytica e no Facebook (e em agências de marketing em geral), Venturini e Rogers admitem que “a crescente preocupação pública gerada por isso [o caso da CA] e por outros escândalos recentes relacionados a campanhas eleitorais deve fazer com que [as APIs] fechem ainda mais” (p. 4) e isso é uma oportunidade para pesquisadores darem um passo para trás e repensarem o modo de fazer pesquisa online.

“Registros digitais vêm num nível muito mais fino de agregação do que demografia e questionários. Eles permitem não apenas calibrar categorias e opiniões, mas examinar interações palavra por palavra. Antes do advento da mediação digital, isso só era possível nas pequenas e situadas comunidades as quais pesquisadores podiam observar etnograficamente. Hoje em dia, uma investigação tão sensível quanto é possível para populações maiores, aumentando as possibilidades em tempo e espaço.”

(VENTURINI; ROGERS, 2019)

Eles argumentam que, principalmente nesta década (na qual houve um estrondo absurdo também da popularidade de sites de redes sociais), pesquisadores acabaram tendo o trabalho enviesado pelas infraestruturas de coleta de registros digitais. “Comparada a técnicas anteriores de coleta de registros digitais, as APIs das mídias sociais vieram como um presente de Deus, oferecendo imensa quantidade de dados acessíveis em alguns cliques prontos para serem analisados” (p. 4), explicam. Isso foi fruto, no entanto, de uma concentração (e praticamente um monopólio do Facebook) das discussões online que também fizeram parte do contexto de venda de anúncio publicitário dessas plataformas (onde acontecem as discussões).

“Ao construir as infraestruturas necessárias para apoiar e rastrear a crescente quantidade de interações online e ao tornar os registros resultantes disponíveis através das APIs, as plataformas reduziram significativamente os custos dos dados de mídias sociais”, explicam. “A facilidade da pesquisa com APIs [ou API-research, a qual descrevem como ‘uma abordagem às Ciências Sociais Computacionais e Sociologia Digital baseada na extração de registros de datasets disponibilizados por plataformas onlines através das suas interfaces de aplicação de programação (APIs)’] – veio com o preço de aceitar a padronização particular operada pelas plataformas de mídias sociais e o enviesamento que vem junto” (p. 5), completam.

Aqui os autores chamam atenção de um assunto sobre o qual eu penso já há algum tempo: a euforia (negligente) dos dados. Nós, tanto pesquisadores acadêmicos quanto profissionais do mercado, criamos uma bolha que eventualmente iria estourar. “Num frenesi consumista, nós estocamos dados como commodities produzidas em massa”, alertam. “A pesquisa com APIs é culpada (pelo menos em parte) por espalhar o hype dos dados de mídias sociais, reduzindo a diversidade de métodos digitais ao estudo de plataformas online, e por espalhar as ideias pré-concebidas de que o Facebook, o Google, o Twitter e seus semelhantes são os mestres do debate online, e não há alternativas a não ser viver sob as migalhas de suas APIs” (p. 5).

Como mencionei anteriormente, portanto, sobre males que vem para o bem, eles argumentam que “o fechamento das APIs das mídias sociais devem nos lembrar de que dinâmicas coletivas existiam muito antes das plataformas sociais (e ainda existem junto a elas” – e, portanto, “não são a única maneira de estudar fenômenos online” (p. 5). Dentre algumas alternativas possíveis, citam “crawling” e “scraping” tanto quanto participar ativamente dos websites para gerar registros válidos. E ainda que esses métodos de pesquisa tenham seus enviesamentos e limitações, além de serem difíceis e trabalhosos, Venturini e Rogers argumentam que esses “maus necessários” têm pelo menos três vantagens:

  1. A coleta de registros feito de maneira direta (e não pelas APIs) permite que os pesquisadores também analisem as dinâmicas da plataforma tal qual os usuários as vivenciam – a interação com os atores/participantes pode ainda ser um ponto positivo (como no caso de moderadores fornecendo o arquivo de discussão de um grupo), encorajando o diálogo entre ambas as partes;
  2. O fechamento das APIs de gigantes como Facebook, Twitter e Google força voltarmos o olhar a outras alternativas de fonte de dados que, a depender do assunto, podem conter informações muito mais valiosas;
  3. Não é o fim da coleta de dados de grandes plataformas, com soluções em parcerias entre pesquisa e indústria como no projeto Social Science One.

Novamente fechando com grande estilo, eles argumentam que “as restrições de APIs podem acabar sendo algo bom se encorajarem pesquisadores a voltarem ao trabalho de campo”. Explicam que “reduzir nossa dependência em dados padrões das APIs não significa desistir do projeto de colher dados ricos de grandes populações, mas implica em investir nos esforços necessários para cultivar tais dados”. Para finalizar num tom mais ameno: “a consulta de APIs por si só pode ser uma forma de trabalho de campo quando não é uma acumulação de atacado de dados só pela larga quantidade, mas um trabalho cuidadoso de extração desenvolvido em colaboração com as plataformas e seus usuários”.

Algumas implicações políticas

Na última seção, mais curta (e concisa) que as demais, eles discorrem brevemente sobre a ideia de que as mídias sociais seriam o principal – único e/ou melhor – meio para estudar fenômenos sociais. Nesse sentido, eles discutem sobre as plataformas não essencialmente sob uma perspectiva metodológica, mas sob um olhar mais apurado – crítico e teórico, eu diria – sobre as dinâmicas sociais as quais sustentam e pelas quais são sustentadas.

Eles argumentam que o caso da Cambridge Analytica evidencia “o quão facilmente o debate público pode ser poluído por marketing computacional”. Citando Henry Jenkins, afirmam que a influência dos dados de mídias sociais e seus sistemas de mensuração são maiores quando servem à proposta fruto da sua essência, que é “promover o tipo de atenção superficial mais adequada ao sistema contemporâneo de propaganda e entretenimento”. Esses sistemas foram desenvolvidos “para promover uma audiência de consumidores cujas características são opostas àquelas de um público democrático saudável” (p. 7).

“Por elas [as plataformas de mídias sociais] focarem em ações sem esforço como um clique, uma curtida e um compartilhamento, os sistemas de mensuração promovem um tipo de engajamento que é fácil e de pouca duração; por mensurar essas ações de maneira individualizada (em vez de comunitária), eles alimentam popularidade individual em vez de ação coletiva. Por isso resistir ser ‘capturado’ pela infraestrutura das mídias sociais é crucial não apenas metodologicamente, mas também politicamente”.

(VENTURINI; ROGERS, 2019)

Seja como indivíduo (usuário) ou pesquisador, é preciso ter cautela perante os sites de redes sociais. Como o último, levar sempre em consideração seu contexto de produção e seus enviesamentos: “pesquisa através de plataformas de mídias devem sempre também ser pesquisa sobre plataformas de mídia” (p. 8). Para Venturini e Rogers, precisamos abdicar do “conforto” das APIs e voltar a campo (digitalmente) se quisermos entender e apoiar o trabalho de atores sociais e políticos que anseiam por um debate público saudável.

Referência bibliográfica

Venturini, Tommaso, and Richard Rogers. 2019. “‘API-Based Research’ or How Can Digital Sociology and Digital Journalism Studies Learn from the Cambridge Analytica Affair.” Digital Journalism, Forthcoming.

A minha saga com Python (ou como aprendi o básico do básico)

Em abril de 2017, escrevi aqui no blog o texto “A minha saga com redes sociais (ou por que é importante compreendê-las)”, no qual narrava a minha relação com a disciplina de análise de redes sociais, desde o preconceito acadêmico-epistemológico até a inevitável aceitação e consequente aprendizado (resultante até em palestra no Social Media Week SP). Um ano e cinco meses depois, escrevo este post quase em situação e contextos idênticos, mudando apenas a protagonista: agora, compartilho a minha experiência com (e a minha redenção à linguagem de programação) Python.

Antes de começar, um spoiler: não sou (nem pretendo ser/me tornar) um programador, apenas aprendi alguns dos conceitos básicos, modos de aplicação e pressupostos práticos. Como escrevi recentemente no último post, Pesquisa em mídias sociais na era pós-API, estamos passando por um momento crítico – uma virada metodológica – que exige derrubar barreiras e vasculhar alternativas criativas para lidarmos com a situação das APIs. O meu interesse e intuito em aprender o básico do básico de Python foi prático: eu preciso coletar dados de mídias sociais e as ferramentas que eu utilizo estão cada vez mais limitadas. Como resolver esse problema?

Tudo começou em fevereiro deste ano, quando tivemos um workshop interno no IBPAD sobre aplicação da Vision API do Google para análise automatizada de imagens com inteligência artificial. Foi quando instalei o Python pela primeira vez, já que o processo envolvia a utilização de dois scripts; e instalei também o Notepad++, provavelmente um dos editores de texto/código aberto mais populares do mundo. A simplicidade do projeto (instalar o Python > preparar os datasets CSV > mudar configurações simples de comando com o Notepad++ > executar o script utilizando o Prompt de Comando) foi fundamental para não me “assustar”. Tivesse sido algo mais complexo, talvez eu teria me fechado muito mais.

Um dos primeiros trabalhos que realizamos com esse aprendizado foi esse estudo exploratório da hashtag #férias no Instagram, quando analisamos mais de 12.000 publicações. Embora seja relativamente simples, acho que foi um marco (tanto para o IBPAD quanto para mim) no que se refere à abertura de novos horizontes. Depois desse relatório, fizemos vários trabalhos utilizando computação visual e inteligência artificial em diferentes segmentos/contextos, como a publicação “EM BUSCA DO MELHOR ÂNGULO: A imagem dos presidenciáveis no Instagram – uma análise quanti-qualitativa com inteligência artificial”, na qual utilizamos métodos mistos de análise.

Esse projeto também foi importante porque me levou à segunda fase com Python: arriscar executar (sozinho) outro script. Precisávamos de uma maneira para coletar todas as publicações dos perfis dos pré-candidatos à Presidência, mas a API do Instagram não fornece acesso a esse tipo de coleta. Foi quando entrou o InstagramScraper“uma aplicação de comando escrita em Python que raspa e faz o download de fotos e vídeos de um usuário”. Na verdade, é muito mais potente: possibilita baixar publicações de usuários (ou de uma lista de usuários), publicações com uma hashtag específica, de uma localidade e até mesmo Stories. Foi nesse momento que comecei a “arriscar” mais, dentro das possibilidades do – e das instruções fornecidas pelo – script.

Depois de desvendar a coleta de dados do Instagram, queria conseguir fazer o mesmo no Twitter. Foi quando encontrei o TwitterScraper, que possui até um site com uma versão beta/demo para testar a coleta de 1.000 tweets. Além de ser o meu site de rede social favorito, é também o campo “oficial” da minha pesquisa acadêmica. Por mais que a Netlytic ainda seja a minha alternativa número um (pela praticidade em vários sentidos), há sempre alguma limitaçãozinha. Por exemplo, o artigo “#Casamentoreal: O Discurso Brasileiro no Twitter sobre o Evento da Monarquia Britânica” (no prelo), que auxiliei na análise com o Wordij, teve coleta feita manualmente simplesmente porque não podíamos retornar mais de sete dias na coleta com a API.

Nesse mesmo período, uma demanda do trabalho exigiu que eu modelasse dados do Twitter, extraídos a partir de uma ferramenta de monitoramento, de modo a criar um arquivo capaz de gerar uma rede no Gephi (ou seja, uma lista de arestas em CSV com origem e destino). Foi quando encontrei o TSM (Twitter Subgraph Manipulator), outro script Python, desenvolvido por Dr. Deen Freelon, utilizado no fantástico projeto “Beyond the hashtags: #Ferguson, #Blacklivesmatter, and the online struggle for offline justice”. Esse foi outro marco na minha relação com Python porque, diferente dos scripts que havia utilizado até então, esse módulo desenvolvido pelo pesquisador era muito mais complexo (do que apenas coletar dados, por exemplo).

Algumas coisas que o TSM consegue fazer:

  • Suportar comunidades muito grandes (milhões de nós/arestas) – o único limite é a memória do seu computador;
  • Extrair retweets e menções-@ em formado de lista de arestas para análise e visualização de rede;
  • Dividir parte de redes em comunidades, isolar as comunidades N mais largas e identificar os usuários mais conectados em cada comunidade;
  • Medir a insularidade de comunidades de uma rede (utilizando índices EI) para determinar o quanto cada uma delas se parece com uma câmara de eco;
  • Medir a sobreposição entre comunidades de uma rede para determinar quais interagem mais ou menos entre si com constância;
  • Identificar os retweets mais frequentes numa base de dados do Twitter e ranqueá-las pelo número de retweets e por comunidade;
  • Rastrear comunidades do Twitter (ou de outra fonte) ao passar do tempo: computar placares de similaridade (com ou sem o peso de coeficientes) para comunidades dividas em parte a partir da mesma base de dados em dois recortes de tempo diferentes;
  • Descobrir quais nós são intermediários entre as comunidades;
  • Encontrar a hashtag mais utilizada em cada comunidade (ou dataset);
  • Encontrar os links ou domínios web mais utilizados em cada comunidade (ou dataset).

Confesso que me bati um pouco para descobrir como utilizar a função de transformar menções e retweets em uma lista de arestas. Como minha experiência com os outros scripts era limitada a execuções de uma linha no Prompt de Comando, não foi fácil compreender a lógica por trás do script para conseguir fazer o que eu queria (e o Read Me também não ajudou muito, direcionando as instruções para o arquivo .py já com os códigos prontos e suas explicações práticas, mas completamente indecifráveis para quem não possui experiência). Felizmente, como em vários outros pacotes disponíveis online em plataformas como GitHub, dois arquivos “demo” me guiaram pelo caminho a seguir.

O formato .ipynb não me era familiar até então, portanto tive que recorrer ao Google para – em mais uma descoberta – fazer o download e instalação do Jupyter Notebook. Quando finalmente consegui abrir o arquivo, um dos exemplos trazia exatamente a função que eu queria, mas eu ainda tinha uma dúvida: onde eu coloco isso? Tentei, primeiro, direto no Prompt de Comando, já que era o único lugar no qual eu já tinha feito algo – sem sucesso. Sem saber que eu poderia executar ali mesmo no próprio notebook, segui a segunda orientação: criei um arquivo .py com apenas o código do exemplo, substituindo o arquivo .csv e o executei… Isso mesmo, no Prompt de Comando. Funcionou! Com muito mais trabalho do que o necessário, mas funcionou.

Nesse momento o Python já tinha me ganhado. Recapitulando as (minhas) conquistas: conseguia coletar dados do Instagram, utilizá-los na Vision API do Google; coletar dados do Twitter (sem as limitações da API), transformá-los em listas de arestas para o Gephi e mais algumas outras funções interessantes (cheguei a utilizar o cálculo de modularidade do próprio módulo em alguns projetos, por exemplo; de resto, não testei as outras funções, mas sabia como chegar lá – mesmo aos trancos e barrancos). Ou seja, o meu objetivo inicial – aprender a coletar dados de mídias sociais sem depender de ferramentas específicas – já havia sido contemplado, de certa forma.

Foi quando o destino colocou no meu caminho mais uma oportunidade de aprendizado: um workshop gratuito para um seleto grupo de 100 participantes organizado pelo HUB de Inovação na UFRJ sobre raspagem de dados públicos com Python. Fiz a minha inscrição sem muitas expectativas (pela falta de conhecimento no assunto), mas felizmente tive a sorte e oportunidade de ser selecionado para participar desse intensivo de quase 10h num sábado. Quem abriu o evento foi a jornalista Judite Cypreste, com a palestra “Programação para jornalistas: descobrindo pautas com Python”, na qual apresentou vários cases legais sobre jornalismo de dados utilizando Python – a apresentação abaixo é de outro evento, mas os exemplos utilizados foram os mesmos.

O workshop, oficialmente intitulado “Não é Bruxaria, é Pandas!”, foi ministrado por Fernando Masanori, professor e palestrante com dezenas de cursos/apresentações em todo o Brasil e a fora. Foram mais ou menos 7 horas (com pausa para o almoço, é claro) de aprendizado desde a instalação do Python e alguns dos principais pacotes (requests, beautifulsoup, selenium, pandas, etc.) até exemplos práticos de análise de dados públicos com dataset fornecido pelo professor. Como o workshop foi bastante prático, não houve uma apresentação em PDF ou PPT para guiar o ensino, somente a orientação de Masanori a partir de um notepad colaborativo. Caso tenha interesse, entretanto, ele disponibilizou todo o treinamento (documentação e documentos) no GitHub.

A oficina foi muito importante para que eu entendesse um pouco melhor a “lógica” por trás da linguagem. Para entender, por exemplo, como funcionava o Jupyter Notebook e como eu deveria usá-lo no módulo TSM, quando tive que gerar a lista de arestas. Não saí de lá sabendo programar o que eu quisesse, mas saí compreendendo um pouco melhor como se estruturam as funções em Python. É evidente que ele não passou todas as funções de linguagem, mas as principais (mais importantes e simples) foram apresentadas e eu – obviamente – anotei tudo para ter um caderno de apoio sempre que precisar utilizar scripts/módulos de outras pessoas. Ou seja, agora eu posso dizer com segurança que sei o básico do básico.

Reforço, entretanto, o que coloquei no início do texto: não é a minha pretensão – de forma alguma – tornar-me um Programador ou até mesmo (oficialmente) um Cientista de Dados. Seguindo o conselho de Jake VanderPlas, autor do livro Python Data Science Handbook, o meu objetivo nunca foi aprender Python; aprender Python foi o meio que encontrei para solucionar o meu problema inicial. Este tweet foi citado no workshop, também está na apresentação acima e é como eu encerro – por ora – este texto. Uma dica simples, mas certeira. Se eu tivesse começado somente com o intuito de aprender a linguagem, sendo tão de humanas quanto sou, teria sido consumido pelo medo. Agora, posso até colocar no LinkedIn como conhecimento básico (bem básico).

Pesquisa em mídias sociais na era pós-API

No rascunho “Computational research in the post-API age”, o pesquisador Dr. Deen Freelon, da University of North Carolina, aponta dois marcos importantíssimos para quem atua com pesquisa/monitoramento de mídias sociais – ambos específicos do Facebook: em abril de 2015, quando a plataforma fechou a API de pesquisa pública (que permitia acesso “buscável” a todos os posts públicos num período de duas semanas); e outro, mais recente, quando a empresa de Mark Zuckerberg fechou drasticamente o cerco de acesso à API de páginas.

De 2015 para cá, muita coisa mudou no mercado de inteligência de mídias sociais – dentre as principais mudanças, eu citaria a crescente relevância do trabalho de mídia paga em relação direta com o trabalho de mensuração (métricas), e com certo menosprezo do mercado pelo trabalho de monitoramento. Isso acontece por vários motivos, a meu ver, que se atravessam e se retroalimentam: 1) o ritmo de agências e clientes; 2) o desprezo do mercado por pesquisa (e conhecimento – científico – de modo geral); 3) a falta de inovação de atores relevantes (principalmente ferramentas líderes de mercado); 4) e o – cada vez mais – desafiador cenário de como adquirir dados de mídias sociais (aqui, focaremos neste); dentre outros.

Quando o Facebook resolveu matar a coleta de posts públicos dos usuários (em seus feeds/murais), uma conversa foi iniciada e estabeleceu-se um debate sobre “o futuro” do monitoramento de mídias sociais (isso em 2015). Três anos depois, o mercado não reagiu tão ativamente à nova política da plataforma – muito mais restritiva e complexa. Ainda que haja um debate intenso sobre proteção de dados pós escândalo da Cambridge Analytica, somado à criação do GDPR e Lei de Proteção de Dados (no Brasil), pouco se discutiu sob a perspectiva do mercado de monitoramento e pesquisa em mídias sociais. Por isso, para trazer esse assunto à tona, retomo – e recorro – ao ensaio pragmático de Freelon.

“O fechamento da API de Páginas eliminou todos acessos ao conteúdo do Facebook conforme acordado em seus Termos de Serviço. Permita-me sublinhar a magnitude dessa mudança: não há atualmente uma maneira para extrair de forma independente o conteúdo do Facebook sem violar seus Termos de Serviço. Num estalar de dedos metafórico, o Facebook invalidou instantaneamente todos os métodos que dependiam da API de Páginas. […] Nós nos encontramos numa situação na qual o investimento pesado em ensinamento e aprendizado de métodos específicos da plataforma podem se tornar obsoletos do dia para a noite: é isso que quero dizer com ‘a era pós-API’.”

Embora soe apocalíptico (assim como em 2015 soou), não é o fim do monitoramento/pesquisa em mídias sociais. Para contornar esse cenário nebuloso, Freelon aponta duas prioridades para quem trabalha nesse contexto: será necessário – o quanto antes – aprender a fazer “scraping” de páginas da web; ao mesmo tempo em que compreendamos as consequências potenciais de violar os Termos de Serviço das plataformas ao fazer isso. Ou seja, de certo modo (e como seu título indica), está na hora de superarmos as APIs para que consigamos trabalharmos sem as restrições arbitrárias das plataformas.

Sobre o aprendizado de técnicas de scraping (que envolvem, majoritariamente, linguagens de programação como Python e R), o pesquisador cita que a flexibilidade é a sua principal vantagem. Por outro lado, essa flexibilidade – que está ligada justamente a um campo maior de possibilidade/escopo maior de trabalho – significa também ter que lidar com diferentes demandas de programação. Ou seja, significa ter que programar séries diferentes (possivelmente completamente diferentes) para cada scraping desejado, além de ter que se adaptar ao cenário caótico de restrições que, quando estabilizados em API, tornava-se muito mais amigável.

O segundo ponto – menos técnico e mais crítico – é referente às dimensões legais e éticas das práticas de web scraping. “A extração de conteúdo automatizada em larga escala consome um valor absurdo de banda larga dos sites fontes, motivo pelo qual várias das plataformas mais populares da web – inclusive Facebook e Google – proíbem essa prática de modo explícito em seus Termos de Serviço”, explica. Isso pode acarretar desde um simples bloqueio de IP do seu computador em acesso ao site até medidas muito mais graves, como contrapartidas legais que podem destruir a carreira (e até a vida) de um pesquisador.

Nesse cenário inóspito e tendo essas duas medidas em mente, Freelon propõe as seguintes recomendações “para equilibrar a segurança do(a) pesquisador(a), a privacidade dos usuários e prerrogativas das empresas”:

  1. Utilize métodos autorizados sempre que possível: ou seja, antes de se render a técnicas de scraping por vias repreensíveis, procure ao máximo modos de o fazer através de medidas oficialmente sancionadas;
  2. Não confunda o acordo dos Termos de Serviço com proteção de privacidade: “ao utilizar métodos de acordo com os Termos de Serviço, você está respeito as prerrogativas de negócio das empresas que criaram a plataforma que você está estudando, mas pode ou não estar respeitando a dignidade e privacidade dos usuários da plataforma”.
  3. Compreenda os riscos de violação dos Termos de Serviço: conforme as APIs vão se fechando e técnicas de scraping ficando mais comuns, é possível que as empresas utilizem de seu capital para ir atrás de quem não segue suas regras.

É evidente que a visão e as colocações do pesquisador partem de uma perspectiva acadêmica, pois, como bem lembra Marcelo Alves nesse excelente texto, “[o fechamento da API] gera uma nova assimetria de poder entre quem pode ou não realizar pesquisas e se beneficiar dos insights de dados digitais, na medida em que sempre será possível comprar os dados de algum revendedor autorizado pelo Facebook”. É por isso que grandes ferramentas de monitoramento de mídias sociais não serão (tão) afetadas nesse cenário, o que consequentemente também não gera um impacto tão ruim para grandes marcas/empresas.

Quem sofre, como de costume, são as empreitadas de pequeno e médio porte: como a Netvizz, por exemplo, que está possivelmente com seus dias contados. É um cenário extremamente difícil para pesquisadores independentes/acadêmicos. Se engana, entretanto, quem acha que isso só afeta esses atores: é justamente devido a essa desigualdade de acesso que o monitoramento de mídias sociais como conhecemos tem perdido tanta força. Talvez fique mais evidente esta questão quando compararmos, por exemplo (mais uma vez), ao trabalho de mídia paga, que se popularizou justamente pelo esforço do Facebook em torná-lo o mais intuitivo possível.

Dificultar a pesquisa/o monitoramento de dados sociais digitais, portanto, é ruim para pesquisadores independentes, acadêmicos, analistas de monitoramento, BI… – é ruim para todo mundo. É, ainda assim, importante para lembrar o que e quem está por trás das mídias sociais. O Facebook se ancora na justificativa de proteção de dados dos usuários para dificultar o acesso de maneira completamente irresponsável e arbitrária. A verdade é que, no fim das contas, o capitalismo sempre vence e quem pagar mais vai conseguir o que quiser, quando quiser e como quiser. Cabe a nós pensar como contornar essa situação.

Por aqui, depois de muito me opor ao aprendizado de programação, já comecei a engatinhar em Python. Tenho utilizado um script para fazer raspagem de publicações do Instagram e muito recentemente consegui aprender como rodar outro para coletar tweets até retroativamente. No meu caso, as implicações são éticas e legais, por isso tenho mergulhado nesse debate – travado principalmente na academia – sobre os limites da exposição de dados. Minha preocupação, entretanto, é mais para com os usuários do que para com as empresas. E você, vai deitar pro Facebook?

 

Como é o mercado de comunicação digital no Rio de Janeiro (para quem está começando)?

[Texto originalmente publicado no LinkedIn]

Por mais que possa parecer óbvio, começo este texto ratificando desde já que se trata de um artigo completamente enviesado. O que trago aqui (para possível debate, talvez — espero), parte da minha vivência enquanto migrante que veio para a grande metrópole “apenas” para fazer faculdade e tentar, posteriormente, lançar a carreira num mercado supostamente mais consolidado e com mais oportunidades do que o resto do Brasil.

E é exatamente com esse ponto que eu começo: quando, em 2012, tentava esquizofrenicamente escolher para qual vestibular prestaria, sabia que muito provavelmente acabaria no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Embora tivesse Salvador e Recife ainda como alternativas plausíveis, sempre que conversava com alguém, fosse um amigo, um parente, ou um desconhecido que acabaria conversando comigo sobre vestibular porque nesse momento da vida o assunto é onipresente, os dois locais de destino que se apresentavam constantemente eram Rio e SP.

Pelo menos no meu contexto social (e econômico, vale pontuar), esse era o senso comum. Se você pretende fazer algum curso voltado para Comunicação, é recomendável seguir para os “dois grandes pólos” midiáticos e econômicos do Brasil. Então eu fui. Primeiro, para São Paulo, quando pensei que gostaria de trabalhar com audiovisual. Experiência fracassada. Por motivos pessoais, desisti ainda no primeiro período do curso de Rádio, TV e Internet e segui para Niterói, onde havia sido selecionado para o curso de Estudos de Mídia, na UFF.

Embora não tenha arrependimento algum de ter seguido nesse curso e no estado do Rio de Janeiro, hoje – já há algum tempo, na verdade – percebo que o senso comum que pairava o imaginário social do meu grupo de amigos, parentes e desconhecidos de Aracaju, onde eu cresci, não estava assim tão apurado. É fato, numericamente, em termos econômicos, que o mercado do Rio de Janeiro e de São Paulo são mais robustos do que a maioria de – senão todas – capitais do Nordeste. O que tenho percebido, entretanto, nos últimos anos, é que, pelo menos na área de comunicação digital, SP dá um banho no Rio (em termos de oportunidades).

Antes de entrar nessa comparação talvez até desleal, gostaria de falar com você que faz (ou pretende fazer) faculdade de Comunicação Social, Publicidade e Propaganda ou afins no RJ e deve trabalhar com comunicação digital (marketing, mídias sociais, etc.) eventualmente: na busca por um estágio, quais são as oportunidades à frente? Há algumas opções “categóricas” que pretendo abordar resumida e superficialmente – e ratificando mais uma vez: a partir da minha vivência enquanto estudante em busca de estágios – a seguir:

#1 Freela

Como falei em outro texto (e constantemente menciono isso porque não há muito como fugir dessa explicação), a internet e principalmente as mídias sociais abriram muitas portas para quem trabalha com comunicação. Devido à facilidade de acesso às ferramentas de produção de conteúdo e gerenciamento de mídia, hoje em dia qualquer um pode vender “serviços de comunicação estratégica” para qualquer empresa disposta a pagar (tanto o profissional quanto a mídia — no caso, o Facebook). Se esses serviços serão responsáveis e/ou coerentes com as estratégias de negócio, aí já é outra história, mas o fato é que as plataformas estão aí cada vez mais disponíveis para quem desejar.

Se você tem um espírito aventureiro (ou empreendedor) e gosta de ter sua liberdade auto-condicionada, essa é uma opção bastante coerente. Isso não quer dizer que é fácil, exige muito jogo de cintura e conhecimentos abrangentes para dar conta de tudo que um “Social Media” (ou profissional de marketing digital) faz. Além dessas habilidades técnicas, é essencial correr atrás também de competências voltadas para a compreensão de negócios. Idealmente, além de um trabalho de “publicidade e propaganda” (que envolve também pesquisa e planejamento), um freelancer também deve entregar resultados reais – principalmente se tratando de pequenos e médios clientes, que precisam ser educados da importância do digital.

#2 Pequenas agências

Também no embalo do “advento das mídias sociais”, as pequenas agências (algumas específicas de comunicação/marketing digital) surgiram em peso e continuam surgindo (enquanto algumas morrem) na última década. São agências de pequeno porte, geralmente com no máximo 10 pessoas – que já é um número razoavelmente elevado – na equipe de marketing digital/mídias sociais. Podem ser também uma “expansão” de uma agência já tradicional, com um departamento recém-criado para atender as demandas que surgiram com a internet – o que não faz sentido para grandes marcas, mas que pode ser uma dinâmica coerente numa lógica de pequenos clientes (que não têm dinheiro para outros esforços de comunicação senão digitais).

A má notícia é que por mais que nesta opção haja uma equipe com quem você possa trabalhar, é ainda muito comum que as vagas sejam anunciadas de maneira extremamente generalista, como “Estagiário de Social Media”. Logo, assim como no freela, geralmente procuram um “faz tudo”, que vai fazer post, impulsionar no Facebook, elaborar um relatório simples de métricas, etc. A boa notícia é que neste nível de maturidade digital, as atividades de mídias sociais se limitam a esses três exemplos – principalmente os dois primeiros. Ou seja, você precisa saber mexer no Photoshop e saber utilizar o Gerenciador de Anúncios do Facebook (novamente, porque esta é a mídia social que importa neste cenário). É tipo o criativo e o mídia da tradicional Publicidade, só que extremamente banalizado.

#3 Agências medianas

Aqui, o cenário começa a melhorar um pouco. A equipe dedicada ou com foco em comunicação/marketing digital não é tão pequena e a maturidade das agências já é mais consciente da responsabilidade dos esforços que o ambiente digital exige. Portanto, as vagas não são anunciadas com o título tão generalista, mas com as próprias especificidades do trabalho: Estagiário de Conteúdo, Analista de Mídia Online, Analista de Adwords, etc. Ainda assim, o escopo das oportunidades nesse caso é bastante limitado a essas duas frentes operacionais de conteúdo e mídia. A boa notícia é que, neste caso, você precisa focar seu aprendizado apenas em uma delas.

São exemplos: 14AvantareOslo DigitalPipoca Digitalh1FrogAgência3Wide e Kindle – estas três últimas têm, segundo o LinkedIn, uma mão de obra entre 50 e 200 funcionários, mas coloco neste cenário “mediano” devido à popularidade mais exacerbada dos agências grandes que trarei. E também pela tecla que venho tocando constantemente: com exceção da Frog, que eu sei que desenvolve um trabalho de monitoramento/pesquisa/inteligência, todas essas outras têm como foco essas duas frentes de atuação: conteúdo e mídia. Novamente, digo isso a partir do que tive contato superficialmente no site e na divulgação de vagas dessa empresa. A Avantare, por exemplo, é completamente focada em performance (que é basicamente a junção de mídia e métricas).

#4 Grandes agências

E, finalmente, neste seleto grupo da “elite” carioca de comunicação digital, estão aqueles que atendem Coca-Cola e L’Oreal: CUBOCC, Flagcx, WMcCANN e E.life – além da NBS, que acho que não atende nenhuma das duas, mas atende Bob’s, Oi, dentre outras. E tem a FSB Comunicação também. E a Artplan. E a B2W Digital. Não vou continuar a listagem porque, além de não ter conhecimento amplo, sei que o pessoal que faz Publicidade deve conhecer muito bem essas grandes empresas que todo jovem sonha em trabalhar (ou não) – quem não conhece, pode ver já nessa pesquisa. O que difere essas opções das demais é que, neste cenário, as especificações de trabalho são ainda mais delimitadas.

Por serem agências grandes, atendendo a marcas grandes, as vagas de trabalho voltadas para a comunicação digital são tão complexas quanto o cenário multifacetado da internet e das mídias sociais pede. Geralmente não há vaga de criação de conteúdo (para internet), porque essas empresas pré-digital já têm um time bem definido de criação, com redator, DA, designer UX, etc. Também não há vagas de Analista de Adwords, por exemplo, porque o trabalho de compra publicitária é do time geral de mídia – que pode ou não ter uma divisão com foco em digital. Já as oportunidades para profissionais de inteligência são anunciadas como tal: Analista de Monitoramento, Coordenador de BI, etc.


Ainda que esses exemplos que eu trouxe sejam focados em agências, o cenário é semelhante também do outro lado, dos clientes. Pequenas empresas buscam profissionais de “Social Media” que desenvolvam uma presença digital (geralmente apenas no Facebook) para a marca; empresas um pouco maiores podem ter um departamento voltado para a área digital, portanto, oferecendo oportunidades para trabalhos um pouco mais específicos; e grandes marcas, como a própria Coca-Cola, por exemplo, que citei, têm toda a sua estratégia de comunicação desenvolvida integralmente com a interface digital, ou seja, busca profissionais (pelo menos na área de inteligência) com capacitações bem específicas.

É comum também nas vagas divulgadas em grupos cariocas a nomenclatura tradicional de “Assistente de Marketing”, por exemplo, na qual a descrição das atividades se assemelha bastante ao cenário das pequenas agências – procuram um faz-tudo. Nesse caso, o próprio marketing é banalizado ao cenário de saber mexer no Photoshop e no Facebook Ads. Essa realidade, aliás, é bastante sintomática de como as empresas têm enxergado o ambiente digital nos últimos anos, ignorando completamente o caráter de sociabilidade que a internet tem desenvolvido nos últimos anos. E aí, quando tudo vira mídia (também literalmente), quem está ouvindo? Mas a discussão sobre essa panfletagem desenfreada fica para outro texto.

Entre o Rio e São Paulo

Os cenários que descrevi acima são baseados em quatro anos de experiência empírica de participação em grupos de vagas para comunicação no Rio de Janeiro. Há pouco mais de um ano e meio, entretanto, comecei também a fazer parte de um grupo de vagas que concentra oportunidades na capital paulista. Em pouco tempo de participação, pude confirmar o que já desconfiava: o mercado de comunicação digital de São Paulo é muito mais maduro digitalmente do que o do Rio. Além da maior frequência de posts (que não tenho como comprovar, mas que aparentava ser maior do que a soma de todos os grupos de vagas do RJ juntos), as oportunidades eram de abrilhantar os olhos.

Esse encantamento me levou a fazer uma análise exploratória das vagas publicadas no grupo, para que pudesse levantar quais eram as oportunidades mais frequentes e quais requisitos eram mais solicitados dentro de cada área – o resultado pode ser visto nesse post: “Quais os conhecimentos mais requisitados em vagas de mídias sociais/digital?”. Apesar de alguns obstáculos metodológicos (que cito no texto), consegui mapear as principais formações, conhecimentos (técnicos), ferramentas, linguagens e fluência de idioma foram mais comuns para vagas de Business Intelligence, Criação, CRM, Métricas, Mídia, Monitoramento, Social e Community Manager.

O trabalho de Community Manager, por exemplo, é uma realidade quase exclusiva do mercado paulista. Durante esses anos que estive nos grupos de ambas as cidades, enquanto vi (e continuo vendo) várias vagas com essa descrição em empresas e agências de SP, nunca encontrei nenhum anúncio com essa nomenclatura em vagas do RJ. E antes que apareçam com algum link para me mostrar alguma vaga no Rio com esse job title: não estou dizendo que não existe, mas que é muito mais raro – ou até inexistente – enquanto no outro “grande pólo”, as oportunidades são muito mais numerosas e qualificadas – em todos os sentidos. A própria existência do grupo, que especifica “Social, BI, Mídia, Digital”, já diz muito sobre o mercado paulista.

Considerações finais

A proposta deste texto não tem como intenção deixar ninguém triste (ou irritado). A ideia surgiu, na verdade, de uma pergunta que fizeram em um desses grupos de vagas para a área de comunicação, na qual uma pessoa formada em Design perguntou como era a área de marketing digital no Rio, pois estava pensando em fazer uma especialização. No momento, respondi de maneira curta e extremamente resumida, apenas para dar conta do questionamento levantado. Alguns dias depois, achei que seria interessante fazer esse post para compartilhar algumas das minhas visões (que estão mais que abertas para constatações) e falar um pouco de como enxergo o mercado.

Muitas pessoas veem no marketing digital ou nas mídias sociais uma oportunidade de emprego “fácil”, já que o número de empresas – de todos os portes – anunciando só cresce. Nesse cenário, há muitos questionamentos, pelo menos em grupos de vagas do RJ, sobre fazer ou não uma especialização/pós-gradução/MBA voltada para marketing digital. A minha resposta, nessa situação, é sempre: depende. Depende do seu repertório, da sua experiência, do que você procura, etc. Particularmente, sou mais a favor de cursos livres ou de média duração – só é preciso ter muito cuidado na hora de escolhê-los. No entanto, conheço excelentes profissionais que dão aula na Infnet, FACHA, FGV e ESPM.

O “mérito” dos cursos livres é que, na verdade, eles representam uma mobilização do mercado em torno de uma contínua capacitação e qualificação dos profissionais de comunicação digital. Junto a eles, estão também palestras, simpósios, workshops e summits que desenvolvem todo um “ecossistema” de debates, trocas e aprendizados que só colaboram na evolução de agências, clientes, empreendedores, etc. Embora o Rio esteja começando a desenvolver esse ciclo produtivo de conhecimento compartilhado (com instituições de cursos livres de qualidade como a M2BR Academy e a Lapa Comunicação), ainda não há uma mobilização de eventos voltados para o digital.

No próximo mês acontece o Share Talks Edição Rio. Será a primeira vez que o evento realiza uma edição carioca e, talvez, quem sabe, pode ser o início de todo um processo evolutivo que estamos precisando. Por ora, o line-up dos palestrantes já diz muito: dos 14 apresentados, somente 2 trabalham no Rio de Janeiro – enquanto 10 trabalham em São Paulo. Eu não sei exatamente o quê, mas acho que isso diz muito sobre o mercado carioca e sua consequente relação com o mercado paulista. Enquanto isso, no Rio, social media continua sinônimo de criação/mídia e marketing digital continua sinônimo de marketing de performance.

A minha saga com redes sociais (ou por que é importante compreendê-las)

Eu sempre tive certo receio em me aprofundar nos conceitos de análise de redes sociais pelo simples motivo que achava que era tecnológico demais para alguém que valoriza tanto as humanidades. No último ano, entretanto, principalmente a partir do momento que comecei a trabalhar no IBPAD, tenho buscado rever esse preconceito para estar mais aberto às possibilidades e metodologias de pesquisa do universo digital. Nas últimas semanas, alguns acontecimentos pontuais me colocaram frente a frente com o tema, para que eu superasse de vez meu preconceito e aproveitasse devidamente as riquezas desse método de pesquisa.

Tudo começou quando li pela primeira vez o artigo “Diga-me com quem falas e dir-te-ei quem és: a conversação mediada pelo computador e as redes sociais na internet”, da Raquel Recuero, para uma aula da graduação. Não é o meu primeiro contato com seu trabalho – já fiz até um post sobre um de seus mais famosos artigos sobre sites de redes sociais e capital social. Muitas das ideias que ela apresenta no primeiro, de 2009, são atualizadas e “melhoradas” no segundo texto, de 2012. No entanto, foi interessante conhecer essa publicação mais antiga para compreender um pouco do contexto sobre os estudos de sites de redes sociais no Brasil, que têm hoje a autora como a principal referência acadêmica sobre o assunto. Ou seja, se você vai fazer algum trabalho na graduação sobre mídias sociais, quase obrigatoriamente passará por algum texto da professora.

Depois do lançamento do livro “Redes Sociais na internet”, em 2009, a obra tornou-se a principal fonte de referência e conhecimento sobre o assunto no Brasil. Poucos anos depois, em 2011, o aclamado “Métodos de pesquisa para a internet”, em co-autoria com Adriana Amaral e Suely Fragoso, também virou referência – e aqui é preciso elogiar a excelência de pesquisa e estudos da Unisinos, universidade com um dos mais preparados polos de estudos sobre novas mídias no Brasil. A consolidação do seu nome na academia, graças ao seu excelente trabalho, ocasionou numa importância e relevante discussão sobre os aspectos (também ligado a questões de nomenclatura) das conhecidas “redes sociais”. Desde então, há uma preocupação – pelo menos da academia, cenário ainda embrionário no mercado – de passar por essas discussões sobre redes sociais na internet.

E eu entendo isso. A própria popularização e consolidação da nomenclatura “redes sociais” para atribuir plataformas como Facebook, Instagram, Twitter e até o finado Orkut, exige uma criteriosidade acadêmica para colocar as coisas (conceitos, definições, etc.) em seus devidos lugares. Gosto muito – e já citei isso aqui no blog várias vezes – do trabalho de Beatriz Polivanov no livro (e sua anterior tese de doutorado) “Dinâmicas identitárias em sites de redes sociais”, no qual ela faz um apanhado bibliográfico para contextualizar dois grupos (ou duas correntes) que ela enxerga como tendo relevância nos atuais estudos sobre internet e cibercultura no Brasil.

Há uma tensão entre os estudiosos que pensam esse fenômeno [dos sites de redes sociais] sob dois olhares bastante distintos, quais sejam: aquele que defende a ideia de que estaria ocorrendo nesses lugares uma problemática superexposição dos sujeitos, de suas intimidades, relacionadas à lógica das sociedades de espetáculo (DEBORD, 2003) da hipervisibilidade e vigilância constante; e uma segunda perspectiva, à qual me afilio, que se interessa pela discussão sobre como se dão os processos de construção identitária nesses sites e de interação entre os atores sociais, que formam laços sociais entre si, focando primordialmente os modos através dos quais se dá essa construção e a relação do eu com o outro. (POLIVANOV, 2012, pg. 30/31)

Segundo ela, o primeiro grupo seria composto por autores como Paula Sibília (show do eu), Eugênio Trivinho (melancolia do único), Cíntia Dal (apareSer), Lauren Colvara (ilusão da sociabilidade) e Fernanda Bruno (autovigilância). O segundo grupo também se preocupa com questões mais amplas, como identidade e sociabilidade, porém sob outras perspectivas: “discutindo as diversas estratégias e modos através dos quais os interagentes constroem seus perfis nos SRSs, como o gerenciamento da impressão (impression management) e performance da amizade (friendship performance)” (POLIVANOV, 2012, pg. 31), dentre outros aspectos. Neste grupo, encontram-se danah boyd e Nicole Ellison, Daniel Miller, Judith Donath, Artur Matuck e Arthur Meucci, Alan Mocellim, Sonia Livingstone, apenas para citar alguns.

O que acontece: nessa segunda “corrente”, a qual tenho mais simpatia, as duas temáticas-pilares são interação e identidade (perceba como performance se encaixa no meio, por isso não a destaquei). Como, na faculdade, fui um aluno que desenvolveu muito interesse pelas questões de identidade (e, óbvio, por consequência, representação e performance), sempre fiquei um pouco incomodado com a relevância dada à estrutura dos sites de redes sociais (e suas interações) a partir principalmente do trabalho de Raquel Recuero. Isso porque, como citei anteriormente, seu trabalho se tornou a principal referência no Brasil. E aqui eu enfatizo que não quero DE FORMA ALGUMA menosprezar seu conhecimento enquanto pesquisadora. É simplesmente uma questão – literalmente, talvez – de gosto.

Porque uma coisa que os professores não te explicam na faculdade é que a verdade que eles pregam na aula não é absoluta, mas bem delimitada e extremamente contextualizada – principalmente (e deixo uma brecha em aberto porque não tenho experiência pra falar de exatas) nas humanidades. Ou seja, a partir do momento que você escolhe uma disciplina, você está aceitando tomar como referência conceitos, teorias e autores que dialogam entre si sobre determinada temática – não quer dizer que você tenha que aceitar, pode (e até deve) contestar algumas coisas, mas é daquele referencial que você deve partir seguindo adiante. É um pouco do que a própria Beatriz Polivanov faz em seu livro, a partir do levantamento que citei.

A minha questão é: uma vez que Recuero tornou-se o principal nome associado à pesquisa de/em sites de redes sociais no Brasil, consolidou-se um foco muito grande nas questões interacionais dos ambientes de sociabilidade digital. Não que isso esteja errado ou não seja assim também lá fora – a própria definição inicial, de 2007, e mundialmente conhecida de danah boyd e Nicole Ellison alertam para os aspectos estruturais das redes: “aqueles sistemas que permitem: i) a construção de uma persona através de um perfil ou página pessoal; ii) a interação através de comentários e iii) a exposição pública da rede social de cada ator” (RECUERO, 2009). Na atualização da definição, em 2011, ainda havia bastante foco nos aspectos estruturais: criação de um perfil público ou semi-público, lista de amigos (rede de contatos), produção de conteúdo e stream based updates.

Recuero destaca que os dois grandes elementos que constituem as redes sociais seriam: 1) os atores, ou seja, as pessoas envolvidas na rede em questão e 2) as conexões, constituídas pelos laços sociais “que, por sua vez, são formados através da interação social entre os atores”. A autora ressalta que as conexões em uma rede são, de certo modo, “o principal foco do estudo das redes sociais, pois é sua variação que altera as estruturas desses grupos” (2009, p. 30) e que a maneira de analisar e entender essas conexões é prestando atenção aos rastros que são deixa- dos nos SRSs, isto é, às mensagens, por exemplo, que são deixadas pelos atores sociais nesses lugares (e que na maioria das vezes não são apagadas), sendo que essas mensagens devem ser entendidas neste ponto como qualquer tipo de material que é compartilhado e comunicado numa interação social, e não apenas no sentido das mensagens textuais que são deixadas nos sites, como os scraps (recados) no Orkut. (POLIVANOV, 2014, pg. 36)

Tanto no artigo em questão quanto nesse resumo feito por Polivanov é possível perceber o valor que a autora dá às questões interacionais dos sites de redes sociais. E eu finalmente pude compreender o motivo graças a uma nota de rodapé do artigo: sua formação inicial é em Letras. Ou seja, é absolutamente compreensível a sua preocupação em lidar, compreender, analisar e estudar os aspectos relacionados à conversação (interações) nos sites de redes sociais. No próprio artigo em questão ela traz metodologias relacionadas à disciplina da Análise da Conversação cujo “foco era na compreensão da estrutura da comunicação estabelecida entre os atores sociais durante o processo de construção de um discurso” (RECUERO, 2009, pg. 119). Percebe como as coisas se encaixam?

O meu problema com a ARS, portanto, talvez fosse bem mais uma espécie de “recalque” inocente do que uma crítica embasada de fato. Apenas porque, como alguém mais interessado nas questões de identidade, performance e representação, via na popularização dessa metodologia de pesquisa certo esquecimento desses aspectos. O que, na prática, é um mito. A própria Raquel Recuero escreveu o capítulo “Métodos mistos: combinando etnografia e análise de redes sociais em estudos de mídia social” para o livro Etnografia e consumo midiático, onde propõe possibilidades de mesclas dessas abordagens. Enfim, o meu preconceito não passava disso: um preconceito. E eu dei a cara à tapa quando, num segundo momento, tive acesso ao curso online de Análise de Redes Sociais do IBPAD.

Será lançado em meados de maio, mas tive acesso como usuário beta para testar algumas funcionalidades. É o segundo curso online do instituto, que já tem disponível o Etnografia em Mídias Sociais e está produzindo outros dois de métricas e monitoramento. No mercado brasileiro, o IBPAD tem sido uma das principais vozes – talvez a principal – a promover a importância da análise de redes. Isso porque tem em sua essência uma relação bastante íntima com o conhecimento científico, sendo parceiros de Universidades e centros de pesquisa, “pois acreditamos que a academia é fundamental para endossar e colaborar com o desenvolvimento das metodologias de trabalho e ensino do Instituto”. Com guias, tutoriais, capítulos de livro e diversas outras produções, o curso vêm como a cereja do bolo.

E ele veio no melhor momento possível. Eu, que já havia sido ativado pela recente leitura do artigo sobre conversação online, estava mais do que aberto a debater sobre o assunto. A primeira coisa que o conteúdo me ofereceu, portanto, foi a quebra do meu preconceito e da percepção de que o tema era demasiadamente tecnológico e pouco humano para o meu gosto. Isso porque quase todo o primeiro módulo é dedicado a uma contextualização teórica e histórica da teoria de redes, muito anterior à análise de redes sociais para internet que conhecemos hoje. Para se ter uma ideia, o debate sobre redes engloba diferentes disciplinas como Física, Biologia, Psicologia, Administração, Geografia, Sociologia e Antropologia.

“Todos estes exemplos vêm de ciências e disciplinas diferentes, com referenciais teóricos e objetivos bem variados. O que eles têm em comum? Todos eles vêm a rede como artifício cognitivo e científico que permite entender proximidades, similaridades, diferenças, conjuntos e processos de um modo muito particular. A rede transforma a complexidade em algo manejável cognitivamente e permite representá-la em visualizações quase intuitivas.”

Tarcízio Silva

Embora o curso entre em diversos exemplos dessa diversidades dos estudos de redes (justamente para mostrar a sua relevância enquanto conhecimento científico), não vou me estender muito sobre esse aspecto – até porque não tenho repertório para tal. Chamo à atenção, apenas, que é o foco do nome da disciplina e também o foco da minha quebra de preconceito, para as redes sociais. Este fenômeno é muito anterior ao que conhecemos hoje como redes sociais (ou mídias sociais), datando desde o início do século 20, com estudos do sociólogo Georg Simmel – apenas um dos vários pensadores, dentre economistas, psicólogos, dentre outros. E é compreensível que seja uma preocupação de pensadores do século 20, momento histórico onde as relações humanas mais se entrelaçaram intensamente.

O primeiro estudioso a de fato publicar algum projeto de pesquisa sobre redes foi Jacob Moreno, com o experimento Dining Table. Mas o trabalho mais famoso e que mais me chamou atenção foi o do conhecido Stanley Milgram, na década de 60, sobre a ideia de mundo pequeno. Foi nesse projeto que surgiu a famosa Teoria dos seis graus de separação, argumentando que “no mundo, são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas”. É evidente que podemos complexificar essa teoria e tensionar, por exemplo, que o estudo foi feito nos Estados Unidos, um dos países com maior fluxo de conexões (físicas ou tecnológicas) do mundo. De qualquer forma, o que me interessa aqui não é a acuracidade da metodologia, mas a simples de ideia que estamos há de´cadas nos tornando cada vez mais conectados.

O Facebook, o maior site de rede social do mundo atualmente, também já fez uma pesquisa parecida. Em 2015, atribuíram 5 graus de separação para todos os usuários da plataforma e 4 para apenas pessoas dos Estados Unidos. No ano passado, esse número diminuiu: agora são apenas cerca de 3.57 passos entre todas as pessoas do mundo no site. Eu não sei para você, mas, para mim, parece-me um número bastante significativo. Embora o argumento da hiperconexão (não apenas entre atores, mas também para o mundo online) seja praticamente unânime e predominante, tudo isso me fez pensar o quanto – de fato – estamos conectados. E o quanto essas conexões, embora boa parte sejam “sustentadas” pela plataforma, são frutos de rastros sociais digitais – ou seja, em algum momento, houve intervenção humana.

Se o cenário de Jacob Moreno e Stanley Milgram já eram suficientes para tentar compreender as redes sociais daquela época, o atual contexto da internet – principalmente com as mídias sociais – fornece um campo de pesquisa extenso e riquíssimo para se analisar, cognitivamente, como as pessoas se articulam online. Com a liberação do chamado “pólo de emissão” (argumento de André Lemos), viramos todos, com a web 2.0, mídia. Somos nós quem fazemos a internet ser o que ela é hoje. As plataformas são importantes, podem coagir certa maneira de atuação ou serem apropriadas conforme releitura dos usuários, mas são estes que justamente produzem e consomem o que vivemos nos dias de hoje. Faz mais do que sentido, portanto, sermos capazes de compreender, analisar e estudar esses fenômenos sintáxicos.

Antes de finalizar, deixo um adendo: essa revolução da web 2.0 não – de forma alguma! – diminuiu a centralidade, relevância e influência de certos centros de informação anteriores a ela. O que percebemos hoje é que, na internet, temos hubs interacionais e informacionais, ou seja, atores com grande poder de propagação em um grupo – mas cuja soberanidade não é mais fixa ou única, disputando atenção com outros grandes e outros menores atores. Para essa discussão, vale a pena dar uma olhada no artigo que já resenhei aqui no blog de Raquel Recuero e no artigo “A força dos ‘laços fracos’ de Mark Granovetter no ambiente do ciberespaço”, de Dora Kaufman. Granovetter foi outro grande estudioso que contribuiu e hoje influencia bastante do debate sobre análise de redes sociais na internet.

Enfim, já é muito evidente para mim o valor de, principalmente na sociedade em que vivemos hoje, compreender alguns conceitos básicos sobre redes. Sendo alguém que trabalha com internet, ainda mais; sendo alguém que tem interesse por pesquisa acadêmica, mais um pouco; sendo alguém que aspira fazer pesquisa acadêmica na internet com foco em mídias sociais, então… Deixo o documento abaixo, Network Literacy: Essential Concepts and Core Ideas, produzido pelo NetSciEd – Network Science Education e traduzido em português pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados para concluir o meu argumento. Se estiver com preguiça, pode pular para a página 3 – já será o suficiente para compreender o valor das redes atualmente.

Referências bibliográficas

POLIVANOV, Beatriz. Dinâmicas identitárias em sites de redes sociais: Estudo com participantes de cenas de música eletrônica no Facebook. Rio de Janeiro, 2014.

RECUERO, Raquel. Diga-me com quem falas e dir-te-ei quem és: a conversação mediada pelo computador e as redes sociais na internet. Revista Famecos. Porto Alegre, 2009.

Profissionais de comunicação, a diversidade se faz na diferença

Tive a ideia de fazer esse post enquanto assistia à mesa “Dados para conhecer melhor as diversidades”, do II Simpósio de Inteligência em Mídias Sociais do IBPAD. Na ocasião, Juliana Freitas (Abril), Fernando Montenegro (Etnus) e Soraia Lima (Senac) apresentavam seus respectivos trabalhos e projetos que têm desenvolvido acerca da temática de diversidade. Por se tratar de um tema um pouco delicado, pensei duas vezes e achei melhor deixar a ideia de lado – pelo menos por ora, o que não durou muito. Isso porque o modo como eu queria abordar o assunto fugiria um pouco da temática do blog.

Até que hoje, alguns dias depois, o blog Jovens Planners divulgou um texto ótimo que se encaixaria perfeitamente na proposta do site que lês (vou divulgá-lo com o valor que merece mais à frente). Outra feliz coincidência sobre o tema veio na divulgação do próximo Evento Share em Porto Alegre, com o painel “Conteúdo e diversidade, como fazer sua parte?”. Algumas semanas atrás, a famosa (e controversa) Meio & Mensagem também abordou assunto em dois momentos – numa “entrevista” com profissionais de publicidade e numa vídeo-matéria com grandes profissionais de comunicação voltados principalmente para a internet e mídias sociais.

Apesar de alguns pesares, fico feliz que o tema chegue em 2017 com tanta força visto as ameaças de retrocesso ideológico que já chegou aos Estados Unidos e assola o Brasil nos últimos (e seguintes) anos. No entanto, acho que precisamos ir mais a fundo nas reflexões para que possamos avançar com o debate. Esta, portanto, é a (humilde, porém ambiciosa) proposta deste texto. Acredito que o primeiro passo já foi dado. Enquanto classe trabalhadora (publicitários, comunicólogos, etc.), já fomos coagidos – sim, as marcas não são boazinhas, precisam se adaptar à conversa – que há um problema secular no mercado. Nesse cenário, algumas marcas têm arriscado um reposicionamento ardiloso mas, dando os devidos créditos, no mínimo corajoso.

Como seguimos a partir daí? Não é uma resposta fácil. Para seguirmos no debate e avançarmos na conversa, proponho uma reflexão acerca da própria palavra diversidade (sim, é uma problematização, mas é bem fundamentada e – espero – visando um crescimento). Sempre que vejo essa palavra acabo lembrando de um texto que li na faculdade e levo para a vida chamado “A produção social da identidade e da diferença”, de Tomaz Tadeu da Silva – responsável pela tradução do livro “A identidade cultural na pós-modernidade”, de Stuart Hall, outra bíblia da minha vida. Particularmente acho um dos melhores textos possíveis para entender sobre empatia, embora ele não aborde explicitamente essa questão.

Para explicar com as palavras do próprio autor, “na perspectiva da diversidade, a diferença e a identidade tendem a ser naturalizadas […] são tomadas como dados ou fatos da vida social diante dos quais se deve tomar posição”. Para superar esse problema, ele propõe uma visão crítica à instrução pedagógica socialmente aceitável do respeito e da tolerância para com a diversidade. Em outras palavras, o que ele quer dizer é que não basta levantar uma bandeira de igualdade para abordar de forma responsável a questão da diversidade – ou, melhor, da diferença – é preciso entender melhor sobre as estruturas. Sobre isso, explica:

“Por mais edificantes e desejáveis que possam parecer, esses nobres sentimentos impedem que vejamos a identidade e a diferença como processos de produção social, como processos que envolvem relações de poder. Ver a identidade e a diferença como uma questão de produção significa tratar as relações entre as diferentes culturas não como uma questão de consenso, de diálogo ou comunicação, mas como uma questão que envolve, fundamentalmente, relações de poder.”

Todo o texto é incrível e eu provavelmente trarei-o mais ao blog nos próximos meses quando estiver começando a escrever meu TCC. Para este post especificamente, o foco está nessa nona parte, que aborda a questão da pedagogia. Assim como o autor, os debates que vêm ganhando espaço nos últimos anos (graças à panela de pressão que felizmente são as mídias sociais) no mercado de comunicação tentam entender qual é a melhor maneira de tratar a questão da diversidade. Como já adiantei, para Silva, a própria ideia por trás da palavra é problemática. No texto, então, ele apresenta algumas abordagens (estratégicas) socialmente comuns:

1. Primeira estratégia: “liberal” – estimular e cultivar os bons sentimentos e a boa vontade para com a chamada “diversidade” cultural.

“O pressuposto básico é o de que a ‘natureza’ humana tem uma variedade de formas legítimas de se expressar culturalmente e todas devem ser respeitadas ou toleradas – no exercício de uma tolerância que pode variar desde um sentimento paternalista e superior até uma atitude de sofisticação cosmopolita de convivência para a qual nada que é humano lhe é ‘estranho’. […] Para essa perspectiva, a diversidade cultural é boa e expressa, sob a superfície, nossa natureza humana comum.”

– Problema central: “deixa de questionar as relações de poder e os processos de diferenciação que, antes que tudo, produzem a identidade e a diferença. Em geral, o resultado é a produção de novas dicotomias, como a do dominante tolerante e do dominado tolerado ou a da identidade hegemônica mas benevolente e da identidade subalterna mas ‘respeitada'”.

2. Segunda estratégia: “terapêutica” – aceita que a diversidade é “natural” e boa, mas atribui a rejeição da diferença e do outro a distúrbios psicológicos.

“Para essa perspectiva, a incapacidade de conviver com a diferença é fruto de sentimentos de discriminação, de preconceitos, de crenças distorcidas e de estereótipos, isto é, de imagens do outro que são fundamentalmente errôneas. A estratégia pedagógica correspondente consistiria em “tratar” psicologicamente essas atitudes inadequadas.”

3. Terceira estratégia: intermediária – apresenta uma visão superficial e distante das diferentes culturas.

“O outro aparece sob a rubrica do curioso e do exótico. Além de não questionar as relações de poder envolvidas na produção da identidade e da diferença culturais, essa estratégia as reforça, ao construir o outro por meio das categorias do exotismo e da curiosidade. Em geral, a apresentação do outro, nessas abordagens, é sempre o suficientemente distante, tanto no espaço quanto no tempo, para não apresentar nenhum risco de confronto e dissonância.”

4. Quarta estratégia – “da diferença” – antes de tolerar, respeitar e admitir a diferença, é preciso explicar como ela é ativamente produzida.

“A diversidade cultural não é, nunca, um ponto de origem: ela é, em vez disso, o ponto final de um processo conduzido por operações de diferenciação. Uma política pedagógica e curricular da identidade e da diferença tem a obrigação de ir além das benevolentes declarações de boa vontade para com a diferença. Ela tem que colocar no seu centro uma teoria que permita não simplesmente reconhecer e celebrar a diferença e a identidade, mas questioná-las.”

Trouxe essa questão ao blog – e, espero, ao debate sobre diversidade na comunicação/publicidade – porque a enxergo como central para qualquer discussão social. O Brasil é um país em que vendeu por muito tempo – e ainda vende – um imaginário de que somos um povo mestiço, miscigenado. Por isso é tão comum ver em discussões acaloradas no Facebook argumentos de “somos todos iguais” – no Dia da Consciência Negra, por exemplo, um famoso vídeo de Morgan Freeman bomba todo ano. A campanha #SomosTodosMacacos é outro exemplo fatídico.

Fomos vendidos por muitos anos midiaticamente – na TV, nos jornais, nas revistas, nas músicas, na literatura – que somos uma caldeirão de culturas, raças e etnias. Como explicou Tomaz Tadeu, essa celebração irresponsável passou por cima de importantes contextos históricos de relações de poder que penduram, obviamente, até os dias de hoje. Nós, detentores de quaisquer tipos de privilégio, temos – espero – criado uma consciência de que não somos, de fato, todos os iguais, com a ascensão de movimentos que felizmente ganharam mais voz graças às mídias sociais.

O primeiro passo para a igualdade, portanto, é perceber que não somos iguais. Isso não significa descriminar, mas entender os fenômenos históricos, culturais e sociais que diminuíram simbólica e/ou fisicamente grupos sociais em detrimento de outros grupos tradicionais sacramente institucionalizados. Para ilustrar melhor essas “diferenças”, recomendo esse vídeo abaixo do projeto ID_BR – onde fica evidente alguns privilégios mais comuns a um grupo de pessoas em detrimento de um contexto histórico mais favorável comparado a outro grupo de pessoas:

Mas a grande questão é: onde entram as marcas/empresas de comunicação e/ou publicidade? Humildemente, admito que não tenho a resposta. Talvez por isso tenha ficado tão retraído para fazer este texto. O meu próprio posicionamento ideológico não me permite pensar numa solução que parta das próprias empresas. A justificativa é simples (e razoavelmente compreensível): o único e principal intuito das marcas é vender. Ou seja, a bandeira só será levantada quando isso for conveniente. No entanto, sob uma perspectiva mais otimista reconhecendo as limitações/embates sobre o tema, trago essa citação sobre um trabalho que analisou a questão da empatia na série Sense8:

“Enquanto estivermos frente a um mundo em que a construção discursiva é fundamental para estruturar a realidade em que vivemos, precisamos falar sim sobre representação, diversidade e empatia; precisamos, sim, disputar as narrativas, discutir e quebrar os monopólios da comunicação, abrir novas formas de diálogo e possibilitar que sujeitos esquecidos, apagados, invisibilizados tenham voz, possam exercer o seu direito a significar; necessitamos, sim, discutir políticas públicas acerca da representatividade, pois, não obstante o efeito positivo alcançado pela Netflix em suas séries e em seu vídeo promocional, não pode ficar a cargo de uma empresa comercial a luta por representatividade, restando a uma parcela considerável de sujeitos sociais, que não conseguem vivenciar plenamente sua cidadania, agradecer a uma empresa, enquanto consumidores, por esta possibilitar a vivência mínima do que deveria ser garantido por lei e por políticas de respeito e inclusão.” (ENNE, 2016)

Como já discutimos no post sobre Trump, a disputa simbólica é muito importante. Enxergando as marcas e empresas como grandes atores midiáticos para a construção de um imaginário social, é possível, sim, celebrar pequenas ações afirmativas que incorporem uma luta de grupos historicamente mais silenciados. E é aqui que eu divulgo, com mais reforço, o post “Gênero e diversidade: o que podemos fazer sobre isso?” de Nathalia Andrijic no blog Jovens Planners. São algumas dicas simples, mas que podem fazer toda a diferença.

Acrescento, ainda, com ênfase, a importância de ter uma equipe pautada na diferença. Não adiantar querer falar com um público que você não conhece – ou pensa conhecer. Há grandes empreendedores negros, mulheres e LGBT especializados em compreender melhor – e com propriedade – esses grupos. Se a marca quer realmente acrescentar a essa luta (mesmo que seja pautada em interesses financeiros), que seja dando voz ou holofote a quem merece. Não precisa roubar protagonismo, basta expandi-lo.

Leituras recomendadas:

Referências bibliográficas

ENNE, Ana Lucia. Representação, empatia, diversidade e representatividade em contextos juvenis globalizados na construção narrativa da série Sense8. XII Enecult – Encontro de estudos multidisciplinares em cultura. Bahia, 2016.

Como escolher o melhor curso para o seu trabalho em mídias sociais

Quase toda semana vejo em grupos do Facebook alguém solicitando por indicações de cursos para o trabalho em mídias sociais. As respostas costumam variar a depender das pessoas que vão comentar, mas geralmente seguem um padrão de: indicações entre conhecidos/colegas da área, cursos “top of mind” (o respondente não necessariamente fez o curso, mas conhece de algum lugar e responde para se mostrar prestativo) e opções gratuitas nem sempre disponíveis em português. No meio desses comentários ainda é possível encontrar, se você tiver sorte, alguém que realmente fez algum curso e está disposto a te contar – resumidamente – como foi a sua experiência.

Embora algumas pessoas (geralmente mais experientes) ainda enxerguem esse movimento com certa descrença, trata-se de um fenômeno recente do mercado que vem crescendo pouco a pouco. Na pesquisa “O Raio X dos profissionais de Mídias Sociais no Brasil” de 2015, 48,2% dos respondentes – de uma amostra de mais de 1.000 – citaram alguma instituição ou curso profissionalizante por onde passaram. Na pesquisa “O profissional de inteligência de mídias sociais no Brasil” de 2016, 58% – de 368 respondentes – citaram a realização de algum curso livre. Em ambos os casos a porcentagem cresceu em relação ao ano anterior, o que mostra uma possível crescente para os anos seguintes. E há algum problema com isso?

Na minha humilde opinião, não. Isso mostra que as pessoas estão preocupadas em aprendizado e/ou capacitação. Como já citei em outro post, acho muito importante que profissionais que trabalham com comunicação voltada para mídias sociais – ou marketing digital como um todo – busquem conhecimento das mais diversas formas. Embora eu acredite no autodidatismo (e este blog não me deixa escapar desse termo), também compreendo as motivações que levam as pessoas a optarem prioritariamente por um curso e não uma busca e estudo de um material online, por exemplo. Eu mesmo já fiz quatro cursos voltados para a área de mídias sociais desde que comecei (também) a estudar sozinho.

Acho que o principal trunfo que um curso tem a oferecer é o importantíssimo fator da curadoria. Como também mencionei em outro post, conforme a internet vai sendo tomada por um tsunami de marketing de conteúdo nem sempre com conteúdo, fica difícil separar o bom/útil do imprestável/panfleto. Esse esforço exige um conhecimento que um estudante provavelmente não consegue ter noção, uma vez que grande parte do assunto deve ser inédito para ele. Num bom curso esse material já vem organizado responsavelmente (às vezes baseado num histórico de aprimoramento de feedbacks de alunos que já o fizeram) por um(a) professor(a) que estará disposto/a a te mostrar o melhor caminho a seguir.

Isso sem contar o ambiente propício para aprendizado, a troca com colegas que é sempre rica, o próprio networking, dentre muitas outras coisas. Enfim, somente o fato de você ter se interessado por este texto me faz acreditar que você não precisa de motivos para procurar por cursos, certo? O que você procura aqui e o que eu tenho a oferecer, conforme experiência própria e reflexões coletivas, são critérios que você deve levar em consideração na hora de escolher o curso ideal para você. Perceba que tanto aqui quanto no título o curso a ser escolhido não é somente “o melhor” (ou o ideal), mas “o melhor PARA VOCÊ”. Isso porque, como tudo em comunicação, não há fórmulas secretas nem soluções mágicas. Tudo depende do que você deseja. Portanto, aqui vão algumas ideias para te ajudar nessa busca:

1. Objetivo: o que eu quero?

Tudo sempre começa por aqui. Embora seja automático pensar que um curso vem para te fornecer conhecimento, na verdade, há outras nuances a serem consideradas. O que você deseja, de fato, com o curso? Você quer simplesmente aprender coisas novas? Com essas coisas novas você pretende produzir alguma coisa? Ou seu desejo é mais pelo networking e ambiente de encontro de profissionais da mesma área? Talvez sua intenção seja apenas a de ter um curso “de peso” no currículo, não? Essa reflexão é extremamente importante porque vai guiar todas as suas escolhas seguintes. A minha recomendação é que a decisão seja sempre por aprendizado para produzir e consequentemente fazer-se presente, mas cada um sabe o que é melhor para si profissionalmente.

2. Escopo: qual é o conteúdo?

Já neste segundo momento ter um objetivo bem definido começa a mostrar sua importância. Digamos, por exemplo, que sua missão no curso seja aprender a produzir um relatório de métricas para uma página “amiga” para criar um portfólio profissional. Talvez seja interessante observar, neste cenário, se o curso de métricas que você achou tem algum módulo voltado para a produção de relatórios – ou algum conteúdo relacionado a dataviz. Muitas vezes as pessoas selecionam um curso pelo nome e esquecem de averiguar o conteúdo programático. Entretanto, assim como a “profissão social media” engloba diferentes áreas, cada uma delas possuem diferentes instâncias que podem ter mais foco em determinado curso e menos em outro. Fique atento!

3. Professores: quem são?

Outro fator muito importante a ser considerado é o corpo docente. É bom avaliar esses profissionais como se você estivesse prestes a convidá-los para orientar seu TCC, ou seja, mais uma vez: além de ser (muito) bons, precisam ser adequados com suas expectativas. Procure no LinkedIn (talvez até no Lattes), jogue seu nome Google, verifique se ele tem algum conteúdo publicado, etc. Lembre-se que é este profissional que vai te passar o melhor conteúdo disponível para as suas demandas, ou seja, ele precisa ter muito conhecimento para literalmente dar e vender. Eu particularmente fico com o pé atrás com profissionais que se autointitulam “gurus”, porque sou incrédulo de tamanha prepotência – mas vai de cada um, de qualquer forma, é importante fazer uma boa busca sobre a pessoa para saber quem ela é e o que ela tem a oferecer.

4. Depoimentos: quem fez?

Aqui voltamos ao início do texto. Embora essa seja a prática mais comum, escolher por indicações, coloco-a no “quarto passo” porque acredito – como já disse antes – que tudo depende. O curso precisa atender às suas demandas. Este talvez seja o principal motivo de relatos diferentes acerca de um mesmo curso num grupo do Facebook. Pessoas diferentes provavelmente possuem propósitos diferentes e esforços diferentes para escolher um curso para seu trabalho – geralmente ou criando muitas expectativas ou fazendo essa escolha no automático. Os depoimentos são importantes para averiguar, depois de uma bela garimpada, a qualidade do curso. Aqui você pode sim pesquisar em grupos do Facebook – mas não mais pela busca “curso”, mas já pelo próprio nome da instituição.

Bônus: Produção de conteúdo

Um fenômeno que eu percebo dentre alguns grupos de profissionais que ministram cursos voltados para mídias sociais é um descompromisso com fazer esse conhecimento rodar para além dos ambientes de sala de aula. Talvez haja um medo coletivo de que a divulgação de algum conteúdo de cursos cause uma desistência em massa de alunos que pagariam pelo material caso este não tivesse sido divulgado de forma gratuita. Não vou negar que essa possibilidade existe, mas o “investimento” a longo prazo de ter um material de qualidade rodando a internet pode ser bem mais proveitoso (e lucrativo) para o incentivo de alunos no futuro. Ou seja, para o professor/instituição, é uma forma de propaganda – de qualidade; para o aluno, é uma forma de averiguar o conteúdo e estimular o interesse.


Todos esses critérios devem te ajudar a fazer a escolha certa na hora de encontrar um bom curso. Como mencionei lá no começo, ainda é recente essa procura crescente por cursos especializantes e de capacitação voltado para mídias sociais, ou seja, se o número de instituições que oferecem esse serviço vem crescendo cada vez mais, a tendência é só aumentar nos próximos anos. Com tanta oferta (e já me pergunto se haverá tanta demanda), os alunos precisam estar atentos às qualidades e defeitos que cada curso têm a oferecer. Minha intenção aqui é justamente apresentar esses instrumentos para que você seja capaz de fazer uma escolha responsável e inteligente. Espero que tenha sido útil!

Para fechar com chave de ouro, ainda disponibilizo uma lista com mais de 50 instituições de ensino que oferecem cursos voltados para a área de mídias sociais. Com a ajuda novamente de Mayara Mendes, procurei em grupos do Facebook e em pesquisas do mercado quais são os cursos que os profissionais andam fazendo nos últimos anos. Essa busca me trouxe pouco mais de 50 instituições de ensino que oferecem cursos para as mais diversas áreas de atuação em mídias sociais. Para catalogar, recorri à divisão que propus no post sobre a “profissão social media”, uma vez que classificar com muita especificação daria muito trabalho. Isso quer dizer que dentro de “Criação” é possível encontrar cursos de branded content, storytelling, etc.

Clique na imagem acima para ter acesso e fazer o download da planilha!

A planilha lista as instituições por ordem alfabética. Caso ela tenha sido referenciada em alguma pesquisa de mercado, recebeu uma anotação indicando tal referência. Os “Locais” são as cidades onde esses cursos costumam acontecer, mas há também uma coluna que aponta se há a opção de EAD – para profissionais do Norte e Centro-Oeste, essa é uma opção geralmente necessária. No final da tabela ainda é possível encontrar uma resposta à pergunta: há (ou já houve) um esforço da instituição em produzir conteúdo? Como já expliquei, acho muito importante que as instituições – ou seus professores – produzam conteúdo para a web. Precisamos, como mercado de profissionais, começar a compartilhar mais conhecimento.

Antes de finalizar, algumas considerações importantes: toda a minha pesquisa foi pautada por encontrar cursos voltados para a área de mídias sociais. Se eu expandisse esse cenário para uma busca de cursos de marketing digital, essa lista ficaria muito maior. De qualquer forma, há algumas instituições que também estendem esse escopo, oferecendo cursos de SEO, Adwords, Google Analytics, etc. – geralmente dentre as que também oferecem conteúdo de métricas/mídia. Outra informação importante é que eu obviamente deixei alguns cursos de fora (por motivos de mão de obra mesmo). Se você deseja colaborar com a planilha, pode entrar em contato comigo no Twitter ou aqui mesmo (nos comentários ou no contato) para que eu possa inserir mais instituições.

E para quem não possui a verba para bancar um curso, criei a aba “Certificações gratuitas” com cursos completamente online que te ensinam muita coisa. Se você também for auto-didata, a página de Slideshares daqui do site também pode ser muito útil. É bom ficar de olho nesses profissionais também porque muitas vezes bons professores não possuem uma constante frequente de cursos numa mesma instituição, ou seja, ele pode passear em diferentes lugares – o que também envolve diferentes cidades – para ministrar seus cursos. Este é o caso também de algumas aulas em faculdades ou em empresas como a IAB, por exemplo, que oferecem cursos periódicos mas sem um calendário organizado.

O importante é estar sempre em busca de aprendizado neste ambiente que muda diariamente. Por fim, algumas recomendações pessoais: cuidado com discursos totalizantes ou que prometem demais; fique atento com cursos onde não há a presença de professoras, pode ser um indicativo de que o assunto principal das aulas é a tenebrosa fragilidade masculina; para além de buscar aprendizado, busque também produzir conhecimento; cuidado com a produção de conteúdo sem conteúdo, apenas para conseguir leads; e ensinamentos de formações “tradicionais” não são ultrapassados, são a base do conhecimento que procuramos hoje. Estude. Produza. Compartilhe.

O perigo de uma única mídia

Você provavelmente já se deparou com a palestra “The danger of a single story” (O perigo de uma única história) da Chimamanda Ngozi Adichie alguma vez. Talvez na faculdade, numa corrente de e-mail, no Whatsapp ou no próprio Facebook. E não é para menos: gravado em 2009, a palestra é uma aula sobre racismo estrutural, poder simbólico, representação e identidade. Dito isso, é com bastante peso na consciência – mas também com responsabilidade -que recorro a essa expressão para discutirmos sobre um perigo que já se instaurou e não tem previsão de recuar: o monopólio do Facebook no “mercado” de social media.

Não é de hoje que estudiosos e profissionais do mundo inteiro têm se preocupado com a popularidade do Facebook nos últimos anos. O próprio “pai da web”, Tim Berners-Lee, já criticou a plataforma de Mark Zuckerberg diversas vezes – veja aqui, aqui e aqui, para citar algumas. Sua principal crítica ao site de rede social é que há um esforço contínuo da empresa em – de forma simples – dominar a internet. Sua missão de “dar às pessoas o poder de compartilhar e fazer o mundo mais aberto e conectado” é uma falácia, já que seus últimos esforços enquanto negócio têm sido fechar (em todos os sentidos) a plataforma tanto para usuários continuarem em seu domínio quanto para pesquisadores e profissionais que poderiam usufruir de seus dados mas são barrados devido a interesses de negócios.

“We’ve had a year now in which the internet is regarded with a sort of weary cynicism by a lot of people, because Facebook are just locking you in, and others are using your data without you knowing it. Some people are enthusiastic about that, because they get really good services and they love it, but quite a lot of other people are either quite doubtful or outright sceptical”. – Trecho de matéria do The Guardian sobre mudanças na web

Seguindo para o cenário de quem trabalho com/nas mídias sociais, em 2014 Tarcízio Silva publicou em seu blog o texto “10 anos de Facebook, um ponto obrigatório de passagem” – que desencadeou ainda o ótimo “Sensores Humanos: 250 milhões de motivos para promover o Twitter” e foi compulsoriamente relembrado no “Mudanças no monitoramento de Facebook: prepare-se!”. O título surgiu de um pensamento do autor Bruno Latour que resume bem o que tem acontecido com a plataforma nos últimos anos: “podemos tentar nos tornar tão indispensáveis que ninguém pode agir sem nós, criando um monopólio sobre certo tipo de força. Se sucedermos nesta estratégia, nos tornamos um ‘ponto obrigatório de passagem’, um porto compulsório onde todos são forçados a negociar”.

Como já mencionei anteriormente, esse debate sobre a influência do Facebook já está sendo feito há pelo menos alguns anos em determinados campos. Na academia, pesquisadores do mundo inteiro têm discutido sobre as dificuldades – e os perigos – da concentração de dados na mão de uma corporação tão poderosa. No jornalismo e na política, a recente eleição de Donald Trump nos Estados Unidos jogou a luz sobre alguns “problemas” de negligência da plataforma quanto a usuários fascistas e principalmente quanto a proliferação de notícias falsas que dominaram os newsfeeds de usuários norte-americanos durante todo o período de campanha eleitoral no último ano. São vários problemas, entretanto, reforço que meu foco aqui é levantar questões quanto à publicidade no Facebook.

Para tal, é importante recapitular rapidamente o histórico da compra de mídia na plataforma nos últimos seis anos – quando o site de Zuckerberg superou o Orkut pela primeira vez e as pessoas começaram a migrar aos poucos para esse novo site de rede social. No início, tudo eram flores: as marcas postavam de tudo e os usuários recebiam de tudo. Iniciou-se uma corrida para, então, tornar-se a marca mais “curtida” dos usuários. Era importante montar uma base de fãs grande para que suas publicações chegassem ao maior número de pessoas possível. Foi também nesse momento que surgiram (pelo menos no Brasil) a necessidade de mensurar tudo. Se está no digital, é número e pode ser contabilizado. E a principal métrica era simples: seguidores.

Alguns anos depois, com um mercado mais maduro e já de olho em outras métricas mais importantes, o Facebook resolveu destruir todo o “império” que algumas páginas tinham criado quando anunciou a diminuição do alcance orgânico. A justificativa fazia sentido: com uma população de usuários cada vez maior, era impossível entregar todas as publicações (que eram feitas tanto por marcas quanto por amigos) a todos os usuários. Era também uma desculpa favorável à plataforma, que precisava – como qualquer outra empresa – aumentar seu faturamento como umas das principais mídias digitais da Internet. Desde então, reservar parte da verba para patrocinar posts no Facebook deixou de ser luxo para ser pré-requisito.

Uma pesquisa da IAB Brasil em parceria com a ComScore revelou que a previsão de investimento em mídia online para 2016 seria de 10,4 bilhões de reais – sendo a maioria para search, seguido de display + social ads e vídeo. Outra pesquisa, realizada pela agência Zenith nos Estados Unidos, mostrou que o Google já recebe o título de campeão de investimento em mídia, com o Facebook ocupando a quinta posição. Isso tudo serve para ilustrar que o investimento em mídia online não é uma novidade e não deve parar de crescer. O problema que eu quero apontar aqui é a centralidade, principalmente no Brasil devido à explosão de pequenas e médias empresas na última década, que o Facebook tem tido enquanto plataforma de mídia publicitária. Mas qual é o problema?

São tantos erros da plataforma que há uma página inteira no reddit chamada “AntiFacebook” dedicada a denunciar todo o mal que a plataforma causa não apenas aos profissionais que trabalham com ela, mas à sociedade como um todo. Esses “erros” são frutos de uma dominância e influência digital de um verdadeiro gigante que não precisa dar satisfação a ninguém. Eles têm os usuários e as marcas precisam chegar neles, ou seja, resta pagar para isso. Enquanto isso, ficamos à mercê de suas jogadas – como disse o professor de marketing da NYU e fundador da L2 Inc, Scott Galloway, comentando uma das “falhas” do Facebook em erros de métricas, “if your mistakes are consistently in your favor, then they aren’t mistakes… they’re lies”.

Mas o cenário daqui em diante é otimista: em novembro do ano passado o Facebook anunciou (finalmente, depois de pelo menos 3 anos de investimento pesado) a abertura de seus dados para auditoria. Essa transparência que Zuckerberg prometeu aos anunciantes já é uma das maiores expectativas – e cobranças – para todo o contexto de marketing digital daqui pra frente. Como pontuou Marcos Malagris (Coca-Cola) no material “Tendências em digital e social media para 2017” do Quero Ser Social Media, “será um ano de questionamentos necessários para a evolução do nosso mercado”. Seguindo o mesmo raciocínio, Gabriel Ishida (Pernod Ricard) também prevê um mercado mais exigente:

“No nosso mercado de dados, creio que a principal tendência seja a maior cobrança e fiscalização dos anunciantes com as ferramentas de mensuração, incluindo mídias sociais proprietárias de dados, como o Facebook. Já vimos que muitas grandes marcas pressionam o Facebook por mais transparência dos dados e, principalmente, maior precisão, resultando em várias correções e anúncios por parte da rede.”

É extremamente importante que essa iniciativa de pressionar a plataforma tenha partido de grandes anunciantes – afinal, para uma empresa tão grande como o Facebook, as pequenas e médias empresas (em volume) são quem pagam as contas mas ninguém se importa com seus interesses (a não ser que sejam lucráveis). A maior dificuldade está em justamente apresentar a esses anunciantes uma possibilidade de investimento que não seja único ao site de Zuckerberg, que encontre – mesmo fora dos esforços de mídia – outras possibilidades de criar um ambiente de encontro com seus consumidores de uma maneira talvez não tão “empurrada” quanto a compra de publicidade online.

Levar as pessoas para fora do Facebook não pode ser uma tarefa das empresas, não é assim que funciona. Por isso esse texto abordou tanto questões para além do mercado, uma vez que a ameaça do Facebook é um dano muito maior à sociedade de usuários da internet do que às marcas em si. O que estas têm sofrido, no entanto, é – para além da necessidade de estar presente nesse ambiente digital tão populoso – consequência de uma “má acostumação” que depositou na plataforma sua mais propícia (e talvez única) forma de encontrar seus consumidores. Enquanto a Internet ainda for maior que o Facebook, há espaço para jogadas mais criativas e inteligentes.

E eu não estou falando de outras plataformas das quais a empresa também possui, como Instagram e Whatsapp. A primeira, aliás, que não tem medido esforços para descaradamente copiar diversas funções do Snapchat – e ainda sair triunfante, com uma vata gama de usuários deixando o fantasminha para retornar aos domínios de Zuckerberg. Particularmente fico perplexo com tamanha cara de pau e ainda fico triste por estarem conseguindo justamente o que eles querem: uma internet dominada pela própria corporação. Quem não gostar (ou não abaixar a cabeça, como fez o Snapchat), vai acabar sofrendo. Enquanto isso, só não têm forças para bater no Google.

Não sei qual é a solução, mas deve haver um caminho. Enquanto isso, o maior problema permanece: continuamos reféns do Facebook. Reféns de sua boa vontade, de sua honestidade, de seu compromisso com anunciantes e com a sociedade, do seu jogo para tornar seu nome um sinônimo da própria internet. Nesse cenário, o futuro não é próspero. Continuamos reféns de uma única mídia cada vez mais poderosa. Com tanto poder (e dados) nas mãos, não se assustem com um Mark Zuckerberg completando a profecia de George Orwell de fato em 2020.

Aos futuros estagiários de comunicação (digital), com amor

[Texto originalmente publicado no LinkedIn]
Já faz um tempo que eu queria escrever este texto, mas algo sempre me parava pelo medo de parecer arrogante. No entanto, passeando mais uma vez pelo Facebook, acabei encontrando o post abaixo num grupo de vagas e dicas de comunicação para estudantes e profissionais do Rio de Janeiro que acionou o que eu precisava para falar sobre isso:

A autora ainda não revelou qual é a sua área de formação ou de trabalho (que é importante saber, uma vez que o guarda-chuva de Comunicação abrange diferentes linhas de produção), mas não pude deixar de me identificar com a mensagem. Para isso, um pouco de contexto: no primeiro semestre de 2015, dois anos atrás, eu já estava chegando à metade do meu curso de graduação. Embora tivesse sido monitor de duas disciplinas durante esse tempo, estava ansioso para buscar algo que me inserisse – mesmo timidamente – no mercado de trabalho. Por sorte (e um pouco de esforço), consegui um estágio numa pequena agência digital de Niterói.

Antes disso, a mesma frustração do post citado me acompanhava: todo mundo queria um estagiário, mas ninguém queria (ou estava disposto) a ensinar. Quando finalmente encontrei um estágio, percebi outro problema: o trabalho de mídias sociais tinha caído no colo dos estagiários de maneira irresponsável e desleal – chequei a escrever timidamente sobre isso na época (depois aqui). Fiquei três meses infeliz fazendo diariamente postagens quaisquer para Facebook e Instagram. Tive que aprender a usar o Photoshop na marra, só para suprir uma suposta necessidade de publicar diariamente nas mídias sociais, mesmo sem nenhuma perspectiva e planejamento.

É válido pontuar isso porque mostra que conseguir um estágio às vezes é apenas a primeira fase do problema. Nesse contexto insatisfatório, já tinha tido contato com uma pesquisa sobre o mercado de profissionais de mídias sociais que me levou a fazer um curso sobre métricas – e que eu não tinha a possibilidade de colocar os aprendizados em prática porque, naquele cenário, o importante era apenas produzir e nada mais. Toda essa frustração me levou a procurar mais sobre o assunto, procurando materiais online que me ensinassem coisas que uma graduação comum não poderia. E achei muita coisa. Muita! Precisava me organizar e me disciplinar. Como?

Foi aí que surgiu a ideia de criar um blog: Estudando Social Media (hoje, insightee). Primeiro fiz a curadoria do máximo de conteúdo online sobre mídias sociais que eu pude achar (principalmente métricas e monitoramento, áreas com as quais eu já flertava depois de conhecer um pouco sobre elas). Depois, defini uma agenda de postagens que me desse disciplina para não desistir e comecei a publicar, semanalmente, dois ou três textos em forma de “resenha” sobre o que eu aprendia com os cursos/workshop que fiz, e-books, materiais do Slideshare, etc. Os produtores desses materiais começaram a tomar conhecimento do esforço e eu fui criando uma presença digital notável.

Essa notoriedade (e esforço) contou a meu favor quando, alguns meses depois, tendo saído do primeiro estágio para me dedicar melhor ao blog, tive uma oportunidade de concorrer a uma vaga para trabalhar com monitoramento no meu segundo estágio. Alguns meses depois, quando resolvi sair para buscar novos aprendizados, minha chefe me contou (acredito que pela primeira vez) o quanto foi importante o fato de eu ter um blog para falar sobre meus estudos. Como ela mesma disse, ainda que eu nunca tivesse trabalhado de fato com monitoramento, eu mostrava dedicação, iniciativa e desejo de aprender. Ou seja, o blog se tornou quase que um portfólio “estudantil” para mim.

Toda essa história é para mostrar o quanto um simples (porém trabalhoso) projeto digital me ajudou nessa trajetória. E não para por aí: meu atual estágio também foi conquistado graças ao blog. Com seu crescimento no último ano (conheci muitas pessoas que trabalham na área e acreditaram em mim desde o começo – principalmente devido à dedicação), já recebi pelo menos cinco propostas de estágio e emprego sem nem ter que enviar currículo. O networking ajuda, é claro, mas ter um projeto que demonstre iniciativa, força de vontade, dedicação e responsabilidade é a melhor vitrine de si mesmo que você tem a oferecer.

Sempre que eu falo sobre isso lembro de dois textos que li logo no começo do blog, um da Mariana Oliveira e outro do Gabriel Ishida, ambos sobre como entrar no mercado de trabalho. Qual coisas eles tinham em comum?: estudar e produzir. E é isso. É simples, mas não é fácil. Dá trabalho, o resultado demora, mas uma hora vem. Recomendo a quem trabalha com mídias sociais (ou marketing digital) a leitura de ambos os textos, mas também ofereço algumas recomendações para se destacar nesse mar de gente formada e formanda das áreas de comunicação:

Esteja minimamente consciente dos seus objetivos profissionais

Embora as outras etapas sejam trabalhosas, esta é talvez a mais difícil. Como descobrir o que você quer fazer para o resto da sua vida com 22 anos (ou com 18, já que temos que escolher um curso para passar no vestibular)? É muito injusto, mas a boa notícia é que dá para mudar de direção no meio do caminho. Você pode, sim, começar a se interessar ainda novo por publicidade e, aos 28 anos, descobrir que você gosta mesmo é de fazer bolsas artesanais – ou, para ser mais específico, você pode começar se interessando por métricas e depois perceber que sua função preferida é a de Community Manager. O importante é ter bem delimitado um interesse exploratório, inicial, que sirva para guiar as etapas seguintes – este post pode te ajudar.

Procure onde encontrar conteúdos que te ensinem um pouco sobre seu interesse

Se você trabalha com comunicação voltada para marketing digital e mídias sociais, a internet é uma mina de ouro: sites de agências e ferramentas estão produzindo mais conteúdo do que nunca com o boom do marketing de conteúdo (às vezes fica difícil diferenciar material de qualidade e panfleto, mas com o tempo você percebe os diferenciais); diversos profissionais consagrados no mercado divulgam no Slideshare apresentações em palestras, conteúdos de cursos e outros materiais de estudo que podem (e devem) ser consumidos por quem quer aprender; e empresas como Rock Content, Hubspot e o próprio Google oferecem certificados e atividades gratuitas para que você potencialize seu currículo de marketing digital.

Caso queira algo mais estruturado, ainda há a opção de cursos voltados para a área de marketing digital e mídias sociais. Eu já fiz cursos no Atlas Media Lab, Quero Ser Social Media e IBPAD, e é uma ótima forma de conhecer pessoas do mercado. Saindo um pouco da área de mídias sociais, há ainda mais cursos sobre Adwords, SEO, mídia digital, etc. – são muitos, e um bom lugar para pesquisar sobre eles são os grupos do Facebook (use a barra de pesquisar do lado direito). Para quem prefere primeiro se aventurar por aulas gratuitas, há plataformas como FutureLearn e Coursera que oferecem cursos gratuitos. O próprio Facebook tem plataformas de aprendizado como o Facebook Blueprint. Recentemente também descobri o Hootsuite Academy e estou fazendo o curso da Trespontos que também é online e gratuito.

Produza (ou: apareça)

Essa é a parte mais importante. Temos todas as ferramentas e instrumentos nas nossas mãos, podemos (e precisamos) mostrar o que temos a oferecer. E não precisa ser um blog sobre seus estudos, depende da sua área de interesse: se você gosta de criação, pode tentar pedir a uma pequena marca (ou uma ONG) para produzir conteúdo para mídias sociais; para planejamento, você pode fazer o mesmo, oferecendo uma espécie de “consultoria” que una pesquisa, estratégia e um pouco de conteúdo; em monitoramento, um protótipo de relatório de algum tema do seu interesse pode ajudar a compor portfólio. O importante é colocar em prática os aprendizados e mostrar (pro mundo) o que você tem a oferecer. Tem que se colocar na vitrine, sim, infelizmente.

Para finalizar, queria voltar ao post que desencadeou todo esse texto e me direcionar à autora (e também a todos aqueles que estão na mesma situação) com empatia: eu sei que não é fácil. É ainda mais difícil quando sua situação financeira é mais urgente e precária do que a privilegiada que me sustentou por toda a vida. Eu sei que não posso passar por cima dos processos de cada um e ignorar fatores sócio-econômicos que podem pesar bastante. O problema é maior e nem eu nem ninguém conseguimos resolver. A minha intenção aqui foi oferecer dicas práticas que me ajudaram a superar toda essa frustração que também mantive no início. Não é a única nem a melhor solução, mas é uma oportunidade que pode ser muito bem explorada.

E se você quiser produzir algo em conjunto, saiba que as portas estão abertas! Uma coisa que eu descobri durante esse tempo é que networking (foi ele que me direcionou, mesmo sendo pautado pelo trabalho com o blog, aos convites de estágio) é importante, sim, e o melhor tipo acontece na internet, onde as pessoas são mais gentis, honestas e possuem interesse genuíno quando algo lhes agrada – sem contar que o alcance aumenta e muito, né? Fica a dica.

Compartilhar conhecimento é bom pra todo mundo

A sexta edição da pesquisa “O profissional de inteligência de mídias sociais no Brasil” me trouxe uma ótima notícia: o insightee – blog que criei a partir do Estudando Social Media – apareceu no top 10 das respostas dos blogs e/ou portais que servem de referência na área. Uma honra que recebi com muita humildade, mas também com muita responsabilidade – afinal, o que eu, com 1 ano de experiência, tenho a oferecer aos profissionais do mercado?

Quando criei o Estudando Social Media em 2015, a minha intenção era fazer uma curadoria dos conteúdos disponíveis na internet que servissem de material educativo para profissionais da área e criar uma espécie de “caderno virtual” que mostrasse às empresas que eu não tinha experiência (para conseguir estágio), mas tinha interesse e principalmente dedicação ao assunto. Os primeiros posts eram espécies de “resenhas” de materiais que o Scup (à época, com o ótimo – e hoje falecido – blog Ideas) compartilhava a partir da criação de profissionais que já trabalhavam no mercado, como Gabriel Ishida, Mariana Oliveira, Cinara Moura, etc. Esse era o processo: eu lia, marcava os destaques (estudava) e depois compartilhava os aprendizados no blog.

E talvez essa tenha sido a minha maior contribuição como referência na área. Não produzi, mas compartilhei conhecimento. Colaborei para que o conteúdo rodasse, fosse redistribuido, consumido de forma consciente, sem compartilhar por compartilhar ou ler por ler – mas absorvendo o máximo do aprendizado que o material poderia oferecer. Embora a área de mídias sociais seja ainda muito nova, o meu pensamento desde então (que prevalece até hoje) é que não é inteligente tentar inventar a roda todos os dias no digital. Se podemos aprender uns com os outros e ajudar o mercado a evoluir, esse deve ser o caminho responsável a se fazer.

Retomando a pesquisa citada no começo do texto, 83% dos 368 participantes responderam que o local onde mais aprenderam sobre o trabalho foi na própria rotina do dia a dia (resultado semelhante a 2015, 84% de 296). Embora eu concorde que o aprendizado empírico é riquíssimo, ainda considero esses números bem elevados para o que poderíamos construir enquanto comunidade e ajudar na evolução do mercado. Nesse sentido, o crescente interesse por cursos livres (na pesquisa, de 2015 para 2016 houve um aumento de 47% para 58% dentre profissionais que fizeram algum curso livre) mostra que os profissionais estão, sim, preocupados em se capacitar, aprender novas (boas) práticas, trocar aprendizados e melhorar suas atuações profissionais.

Para quem não tem a oportunidade de fazer cursos (seja por motivos financeiros ou geográficos), resta o aprendizado online. Os “materiais online”, que correspondem a 51% da fonte de aprendizado dos respondentes, são com certeza ótimos métodos alternativos de aprendizado para quem trabalha na área. O grande problema é que com a popularidade do chamado inbound marketing e marketing de conteúdo nos últimos anos, fica cada vez mais difícil fazer uma filtragem qualificada do que é, de fato, um material educativo e instrutivo para o trabalho em mídias sociais e o que é apenas um PDF com mais imagens do que texto que não está preocupado em ensinar, mas a vender uma ferramenta, uma empresa, uma plataforma, etc.

O grande indicador que me fez enxergar o material do Scup como fonte de aprendizado qualificada foi a autoria ser concedida a profissionais que já trabalhavam com monitoramento. Na grande maioria das vezes, quando o conteúdo de “ensino” é publicado sem uma autoria profissional, mas da empresa, trata-se de um material feito apenas para gerar leads, vender, melhorar SEO. Estampar o carimbo do nome de um profissional experiente tende a indicar um trabalho mais cuidadoso e responsável, afinal, nenhum profissional respeitável que se preze deseja associar seu nome a um conteúdo meia-boca. Ou seja, o conhecimento (na internet), quando quer ser compartilhado e atribuído qualidade, vem num tom mais pessoal do que corporativo. Portanto, por que não blogs?

A última frase deste slide da quarta edição da pesquisa mostra um cenário que ainda não mudou, com grandes portais sobre comunicação, internet e publicidade em geral continuando como fontes de referência na área. E para não continuar apenas com a pesquisa em questão, trago também uma conclusão do resultado da 1ª edição da pesquisa “O raio-X dos profissionais de mídias sociais no Brasil“, realizada pela trampos em parceria com a Alma Beta. Ao elaborar a seção da pesquisa em que referências deveriam ser indicadas pelos respondentes e visto a escassez das respostas, fizeram o seguinte alerta (que permaneceu na 2ª edição, mesmo mudando o caráter das perguntas):

“A realidade é que um a cada dois profissionais de Mídias Sociais do país está trabalhando no escuro, sem grandes referências do que pode fazer ou até onde pode chegar. Há uma parte positiva, que poderia supor a chegada de ideias novas com gente nova. Mas a falta de referências acarreta também em repetição de erros. […] Do lado do profissional, também é imprescindível se interessar mais pela curta, mas existente história sobre o mercado de Mídias Sociais brasileiro e internacional. Buscar cases e melhores práticas contribui com um trabalho mais assertivo, o que torna a área mais respeitada e acaba contribuindo até nas questões salariais tão reclamadas nesta pesquisa.”

Retorno à pergunta: por que não blogs? Sim, é bem verdade que a explosão de blogs tenha acontecido nos últimos anos como nunca mais tínhamos visto desde os primórdios de sua proliferação na década da passada. No entanto, como já mencionei anteriormente, são blogs majoritariamente corporativos, interessados em conseguir cliques, leads, e-mails, etc. Embora alguns ainda (mesmo com esse propósito) oferecem um conteúdo de qualidade (como é o caso do Simply Measured, que eu sempre elogio; e do próprio IBPAD, se me permitem), a grande maioria se tornou um canal de conteúdo genérico, repetitivo e cansativo sobre marketing digital e mídias sociais. Quem, portanto, irá nos salvar?: nós mesmos.

Por que criar um blog: profissional de 2/3 anos de mercado

Você, assim como eu, não possui uma bagagem muito grande e repertório suficiente para produzir conhecimento para a área. No entanto, você pode – e foi por nós que eu mudei o título do texto! – compartilhar conhecimento. A primeira impressão que tive quando criei meu blog foi que havia muito material disponível para estudar, era só procurar – ou seja, a nós, cabe a curadoria. Com o tempo, os aprendizados adquiridos tanto na rotina quanto nos estudos se entrelaçam e podem virar fontes de conteúdo inédito e ainda mais enriquecedor. Esse é o caminho mais seguro para quem deseja entrar no mercado: produzir conteúdo online, como já ensinaram aqui e aqui.

Por que criar um blog: profissional de 3 a 6 anos de mercado

Você já tem bastante conteúdo e bagagem para produzir conhecimento para a internet, mas provavelmente não tem tanto tempo assim para fazer isso. Tudo bem, eu entendo que as demandas e as pressões estão cada vez piores. No entanto, este tipo de trabalho pode dar mais visibilidade ao seu repertório profissional. Na pesquisa do profissional de inteligência de mídias sociais, nos três últimos anos, pelo menos 8 dos 10 profissionais têm algum material online produzido e compartilhado – seja blog, Slideshare, etc. Isso pode abrir portas para que instituições de ensino (de cursos livre ou pós/especialização) te convidem para dar aula e para que departamentos de RH te enxerguem com mais cautela.

Por que criar um blog: profissional com mais de 6 anos de mercado

Você já viu e viveu muita coisa, mais do que seu analista pleno descrito acima. Enquanto a visão dele possa ser mais operacional, seu posicionamento pode enriquecer o debate se trouxer um conteúdo estratégico que ajude o mercado a argumentar com áreas financeiras, gerenciais, etc. Além disso, tanto a sua produção de conteúdo quanto a do seu analista ajuda para que vocês encontrem, na próxima vaga aberta na empresa, profissionais (e estagiários) mais capacitados, que já conhecem um pouco do desenvolvimento do trabalho graças à sua colaboração gratuita. Ou seja, todo mundo sai ganhando: ele porque pôde aprender mais antes de praticar e você porque vai ter um profissional responsável já ciente de suas atribuições e responsabilidades.

Enfim

Todos nós desejamos que o mercado evolua. Para evoluir, precisamos construir uma rede que vá além de “tira-dúvidas” em grupos de discussão no Facebook e construa um diálogo aberto, transparente e responsável para o trabalho que desenvolve em mídias sociais. Isso não significa produzir em ritmo industrial tais quais os blogs corporativos de ferramentas e plataformas com textos pobres sobre mais do mesmo, mas tentar desenvolver uma responsabilidade pessoal de ajudar para melhorar. Peço desculpas pela brincadeira com as palavras, mas é inacreditável que de “social” só tenhamos a função/o cargo. Quando produzimos conhecimento e discutimos melhores práticas, estamos ajudando todo mundo. É bom para mim, é bom para você, é bom para todos.

Para 2017, já tenho em vista vários “projetos” que desejo desenvolver para o blog no sentido do texto proposto. Tendo começado ainda este ano, com a produção coletiva do post Profissão Social Media: áreas de atuação e fontes para estudo, pretendo continuar convidando profissionais para escrever sobre o trabalho, compartilhar aprendizados e construir uma fonte digna da referência na pesquisa. Caso você não esteja disposto a se comprometer à criação de um blog, esse talvez seja um bom caminho: seja o convidado no post de um colega. O conteúdo ainda flui e a conversa só enriquece.

Por mais responsabilidade com o termo “Social Media”

[Texto originalmente publicado no LinkedIn]

Hoje abri o Facebook e me deparei com a divulgação de uma vaga de “Estágio em Mídias Sociais”. Na descrição, a pessoa explicava que as principais funções seriam criar artes (peças publicitárias) e fazer a edição de vídeos – dois pré-requisitos essenciais para o trabalho. Reli o título para confirmar: o anúncio era de “Estágio em Mídias Sociais”.

Esse não é um fenômeno recente e também não é a primeira vez que eu vejo algo do tipo – na verdade, é tão comum que chega a ser considerado normal. É o reflexo da democratização das ferramentas e plataformas de criação e comunicação com o advento da internet e a popularização das mídias sociais. Ou seja, o que era para ser bom foi reapropriado pelas empresas que conseguiram achar uma maneira de terceirizar e desvalorizar os esforços de comunicação digital.

Para fazer uma comparação absurda, porém analogicamente razoável: imagine que você, aprendiz de cozinha, está à procura de um emprego. Na busca, encontra uma vaga que pede que suas principais atribuições sejam produzir diferentes tipos de salgados e doces para uma marca (não pode reclamar, eles te darão todos os ingredientes e ambiente necessário para isso). No fim, sua comida não servirá de alimento para ninguém, mas serão tiradas fotos dos pratos para publicar no Facebook. Logo, achou-se apropriado anunciar a vaga como “Estágio em Mídias Sociais”.

Na minha perspectiva, isso revela pelo menos duas coisas (que são bem relacionadas): 1) certa “cegueira” de profissionais dispostos e entusiasmados em trabalhar com/em Social Media; 2) um aproveitamento desonesto das empresas que tentam colocar um véu de Social Media nas funções exercidas para justificar trabalhos extremamente dedicados e salários pífios. De certa forma, ambas fazem parte do fenômeno de um mundo corporativo – e social, diga-se de passagem – que ainda não entendeu (ou não quer entender) o trabalho em mídias sociais (mesmo 10 anos depois).

Aliado a esses fatos ainda há um mercado jovem, pulsante e desafiador que não se responsabiliza em elucidar – ou pelo menos definir e impor limitações responsáveis a – o(s) escopo(s) de trabalho em/com Social Media. Isso não significa excluir do vocabulário ou abolir o uso do termo/da definição “Social Media” (ou “Xoxo Media”, o que desvaloriza ainda mais o trabalho), até porque, como eu disse antes, a democratização dos meios de comunicação/produção foi ótimo para muita gente, mas agir com mais responsabilidade (e até rispidez) quando for falar do trabalho.

Às empresas, cabe parar de desvalorizar e menosprezar o trabalho em mídias sociais. Ao mercado (profissionais), cabe um discurso mais rígido e responsável quanto às funções do trabalho. E ao trabalhador/freelancer/Social Media/Analista de Mídias Sociais, cabe compreender todo o ecossistema de trabalho para se munir de ferramentas (capacitadoras e discursivas) que fortaleçam o seu desenvolvimento profissional.