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Dois artigos, um relatório e um poster: novos trabalhos publicados

Tela do relatório lançado com exclusividade pelo IBPAD

O ano passado foi um ano de muitas conquistas para mim. Principalmente aqui no blog, realizei e produzi muitas coisas legais das quais me orgulho bastante. O difícil, entretanto, é ter que lidar com “a queda” quando chegamos no topo. Não que eu tenha chegado no topo (longe disso), mas é inevitável comparar o que você já realizou com o que tem realizado atualmente. Por isso, em alguns momentos deste ano, fiquei frustrado com a baixa produtiva que tive no blog em 2018 – principalmente depois de um ano cheio como foi 2017. No entanto, mais recentemente, parei para refletir um pouco e percebi que a minha produção não diminuiu – só foi diluída em diferentes áreas da minha vida.

Este post, portanto, é somente para elencar e apresentar algumas produções que tive a sorte de fazer parte nos últimos meses – principalmente graças ao meu trabalho no IBPAD. Algumas participações mais incisivas, outras mais discretas, mas em todos esses projetos colaborei de alguma forma. Como o título já anuncia: são dois artigos, um relatório e um poster (acadêmico) nos quais utilizamos de diferentes métodos e metodologias de pesquisa – todos voltados ou a base de dados digitais – para análise. Quanto aos temas, bastante diversos: influenciadores de viagens no Facebook, comportamento de brasileiros de férias no Instagram, discursos de ódio na internet e os pré-candidatos à Presidência no Instagram.

Usando computação visual para analisar influenciadores de viagem no Facebook (Poster Acadêmico)

No IBPAD temos realizado vários trabalhos legais com computação visual e inteligência virtual. Este poster apresentado no IX Pró-Pesq PP – Encontro Nacional de Pesquisadores em Publicidade e Propaganda da USP foi resultado de um dos nossos trabalhos (mais denso, obviamente) utilizando esses métodos. Nele, eu e Tiago Menezes explicamos brevemente como técnicas de computação visual podem ser aplicadas para averiguar adequação de linguagem e conteúdo de um influenciador para com as marcas. Sublinhamos sobretudo, além da análise em si, a crescente de dados e aparato imagético disponíveis aos montes nas mídias sociais. Nesse contexto, a aplicação de técnicas e programas/scripts de computação visual e inteligência artificial são aliados cada vez mais importantes.

Visão Computacional nas Mídias Sociais: estudando imagens de #Férias no Instagram (Artigo Acadêmico)

Para uma explicação mais detalhada da metodologia que temos aplicado no IBPAD, esse artigo que submetemos para o ABCiber Nordeste traz tudo bem detalhadinho. Foi fruto de outra experiência nossa, o relatório Análise Automatizada de Imagens em Mídias Sociais: utilizando inteligência artificial para gerar novos insights em análise de imagens, no qual analisamos mais de 12.000 imagens com a hashtag #férias no Instagram para identificarmos padrões de comportamento, preferências culturais, momentos de consumo (oportunidade para marcas), etc. Fiquei muitíssimo feliz de ter colaborado em ambas as produções – e principalmente poder contabilizar, agora, duas entradas no Lattes (#projetomestrado2019).

Discursos de ódio na internet: uma análise sobre a marginalidade dos corpos negros (Artigo Acadêmico)

Nesse artigo, Huri Paz e eu analisamos os mais de 3.000 comentários de uma notícia do G1 sobre um caso de barbárie contra um adolescente negro na Zona Sul do Rio de Janeiro. A fundamentação teórica debate como a construção histórica, cultural e social do Brasil tornou possível os discursos encontrados nos comentários. Colaborei com a metodologia e análise: utilizei o WORDij para produzir uma rede semântica que identificou sete clusters discursivos predominantes nos milhares de comentários. Foi a primeira vez que utilizei a ferramenta academicamente e obtive resultados bem interessantes. Já rendeu aulas para os cursos do IBPAD e pretendo levá-la também para o meu projeto de mestrado sobre Nordeste/nordestinos.

EM BUSCA DO MELHOR ÂNGULO: A imagem dos presidenciáveis no Instagram – uma análise quanti-qualitativa com inteligência artificial (Relatório)

Por fim, e para não reclamarem que estou muito acadêmico, o relatório que deu o que falar: saiu no Congresso em Foco, Gazeta do Estado, Folha da Cidade e em vários outros sites/portais que replicaram a notícia. Nem eu sabia da proporção que iria tomar. Do início ao fim, foi um projeto bem legal: utilizei uma ferramenta de scraping em Python para coletar os dados dos pré-candidatos no Instagram, apliquei as técnicas de computação visual já citadas nos outros trabalhos, cruzei dados qualitativos com resultados quantitativos e mais um pouco. Fiquei realmente muito satisfeito com o produto final. Assim como os outros, se tudo der certo, esse também vira artigo!

Por enquanto, é só. Obviamente tenho mais algumas ideias borbulhando, porém tenho tentado me manter são e direcionar meus esforços (para além do trabalho 8h/dia) ao projeto de mestrado. Continuo aberto, entretanto, a convites para artigos e outros projetos quaisquer no qual eu possa ser útil com metodologia/coleta/análise de dados. Para fechar, compartilho aqui os slides da palestra que ministrei II Simpósio Regional Consumo em Foco da UNISUAM no final de maio (assista na íntegra a minha participação a partir de 1:06:00 neste link):

10 artigos sobre performance, análise de redes e métodos digitais

No final do ano passado, finalizei um dos ciclos mais importantes da minha vida: a faculdade. Foram cinco anos na graduação de Estudos de Mídia estudando muito sobre comunicação, cultura, sociologia, política, mídias, identidade, consumo e muito mais. Embora tenha sido um bom aluno (com boas notas), sei que não aproveitei a universidade em todo o seu potencial – em vários sentidos, mas principalmente também quanto ao aprendizado. Sei que não sou completamente responsável por essa negligência – coloca aí na conta a falta de maturidade, um sistema de ensino ainda ultrapassado (mesmo num curso progressista como o meu), despreparo acadêmico, etc. -, mas reconheço que poderia ter aproveitado muito mais.

Inicio hoje aqui no blog, portanto, mais essa série de posts (não tão compromissadas quanto outras que já fiz, sem periodicidade definida nem promessas possivelmente falhas) na tentativa de tirar esse atraso. Acrescento a isso também outros dois motivos principais: 1) o meu “projeto” de mestrado (não o material, mas o projeto enquanto concepção mais abrangente), que engloba uma vontade de me manter atualizado com publicações recentes dentro do meu campo de interesse ao mesmo tempo em que (re)descubro leituras importantes/fundamentais para a minha área; 2) e, não menos importante, o meu humilde desejo – e tentativa constante – de expandir os muros da academia, trazendo-a para espaços mais abertos, já que muitas vezes a produção acadêmica (pública e de excelência, pelo menos no Brasil) não é tão bem aproveitada.

Neste primeiro post, compartilho 10 artigos que li recentemente – nas últimas semanas ou no máximo nos últimos meses. Apenas para fins de conteúdo, separei-os em três categorias: descobertas metodológicas, estudos de caso e reflexões epistemológicas. O primeiro grupo são quatro artigos cujo principal crédito que extrai da leitura foi um quadro de trabalho metodologicamente interessante e possivelmente replicável em futuras pesquisas; O segundo também são estudos de caso, mas o foco principal não é a metodologia e sim a análise com diferentes práticas metodológicas (quantitativas e qualitativas); O terceiro tem um nome pomposo (porque a academia gosta), porém é basicamente um conjunto de artigos que reflete sobre a prática de pesquisa desde a sua composição crítica até sua perspectiva prática.

DESCOBERTAS METODOLÓGICAS

Political Storytelling on Instagram: Key Aspects of Alexander Van der Bellen’s Successful 2016 Presidential Election Campaign (2017)

Karin Liebhart, Petra Bernhardt

This article addresses the strategic use of Instagram in election campaigns for the office of the Austrian Federal President in 2016. Based on a comprehensive visual analysis of 504 Instagram posts from Green-backed but independent presidential candidate Alexander Van der Bellen, who resulted as winner after almost one year of campaigning, this contribution recon- structs key aspects of digital storytelling on Instagram. By identifying relevant image types central to the self-representation of the candidate, this article shows how a politician makes use of a digital platform in order to project and manage desired images. The salience of image types allows for the reconstruction of underlying visual strategies: (1) the highlighting of the candidate’s biography (biographical strategy), (2) the presentation of his campaign team (team strategy), and (3) the pre- sentation of the candidate as a legitimate office holder (incumbent strategy). The article thus sheds light on visual aspects of digital storytelling as relevant factor of political communication.

Este artigo eu li para produzir o relatório EM BUSCA DO MELHOR ÂNGULO: a imagem dos presidenciáveis no Instagram – uma análise quanti-qualitativa com inteligência artificial lançado pelo IBPAD recentemente. As categorias de classificação propostas pelos autores foi replicada nesse novo trabalho, apenas com algumas adaptações/adições às originais. Além da ótima fundamentação teórica e discussão sobre política, também pode ser muito interessante para quem estuda auto-apresentação nas mídias sociais (principalmente no Instagram). Se tudo de certo, espero transformar o relatório que fizemos num artigo ainda mais crítico e reflexivo sobre o modo como esses políticos brasileiros se apresentam na plataforma. Clique aqui para baixar.


‘‘Privacy’’ in Semantic Networks on Chinese Social Media: The Case of Sina Weibo (2013)

Elaine J. Yuan, Miao Feng, James A. Danowski

Unprecedented social and technological developments call into question the meanings and boundaries of privacy in contemporary China. This study examines the discourse of privacy on Sina Weibo, the country’s largest social medium, by performing a semantic network analysis of 18,000 postings containing the word ‘‘ (privacy).’’ The cluster analysis identifies 11 distinct yet organically related concept clusters, each representing a unique dimension of meaning of the complex concept. The interpretation of the findings is situated in the discussion of the rapidly evolving private realm in relation to emerging new contexts of the public realm. Privacy, justified for both its instrumental functions and intrinsic values, both reflects and constitutes new forms of sociality on the sociotechno space of Weibo.

Outro artigo que foi essencial para uma produção minha. Recentemente descobri a partir de indicação de Tarcízio Silva a fantástica ferramenta WORDij. É uma ferramenta que, na verdade, agrega várias mini-ferramentas, mas (por falta de conhecimento) minha utilização tem sido voltada para a rede semântica de palavras que ela é capaz de gerar. No artigo em questão, os pesquisadores a utilizaram para analisar 18.000 posts sobre “privacidade” num site de rede social chinês – e conseguiram identificar 11 clusters distintos a partir da co-ocorrência de palavras, criando um mapa discursivo para os territórios conceituais abordados. Utilizei a mesma metodologia para produzir artigo no prelo, analisando 4.000 comentários de uma notícia do G1. Clique aqui para baixar.


A Forma Perspectiva no Twitter: uma técnica quanti-qualitativa para estudos de Redes Sociais (2014)

Lorena Regattieri, Fábio Malini, Nelson Reis, Jean Medeiros

Como podemos identificar perspectivas em grandes redes, através da aplicação de algoritmos de modularidade? Em humanidades digitais (MORETTI, 2013; JOCKERS, 2013), há um bom número de trabalhos acadêmicos explorando rotinas computacionais para agrupar e analisar grande quantidade de dados. Recentemente, dados sociais tornaram-se uma fonte valiosa para estudar fenômenos coletivos, eles fornecem os meios para compreender a coletividade humana por meio de análise de grafos. Neste trabalho, descrevemos a nossa abordagem sobre a forma da antropologia pós-social (VIVEIROS DE CASTRO, GOLDMAN, 2012), utilizando de técnicas de análise quanti-qualitativa e semântica. Esta técnica utiliza um script python para extrair a rede de co-ocorrência de hashtags de um do Twitter, a fim de aplicar no contexto do software open-source Gephi, gerando grafos. Assim, podemos descobrir o fluxo de perspectivas que envolvem uma controvérsia, categorias que revelam os pontos de vista em um debate disposto na rede. Nesse trabalho, utilizamos como estudo de caso o evento da Copa do Mundo 2014 no Brasil, precisamente, os dados relacionados a rede FIFA. Concluindo, este estudo apresenta um quadro teórico e metodológico baseado nos pós-estruturalistas, uma composição que tem como objetivo apoiar estudos no campo das ciências sociais e humanas, e provoca novas possibilidades para os estudos comunicacionais.

Esse artigo eu resolvi ler porque sabia que abordava propostas metodológicas para apresentação/visualização de redes de co-ocorrência utilizando o Gephi. Ou seja, seria um complemento à ferramenta e processo do artigo anterior. Confesso que a primeira parte, na qual os autores tentam associar a teoria ator-rede e antropologia pós-social com as humanidades digitais, é meio estranha, mas o estudo de caso com hashtags da FIFA apresentado ao fim entrega justamente o que eu estava procurando: melhores práticas para layouts de co-ocorrência no Gephi. Tenho testado as sugestões do artigo e ainda não encontrei uma “fórmula pronta”, mas as reflexões e ponderações de Malini e cia foram importantes para alguns trabalhos que tenho desenvolvido. Clique aqui para baixar.


Facebook and its Disappearing Posts: Data Collection Approaches on Fan-Pages for Social Scientists (2016)

Erick Villegas

Facebook fan-pages are channels of institutional self- representation that allow organizations to post content to virtual audiences. Occasionally, posts seem to disappear from fan-pages, puzzling page administrators and posing reliability risks for social scientists who collect fan-page data. This paper compares three approaches to data collec- tion (manual real-time, manual retrospective, and auto- matic via NVIVO 10®) in order to explore the different fre- quencies of posts collected from six institutional fan-pages. While manual real-time collection shows the highest fre- quency of posts, it is time consuming and subject to man-ual mistakes. Manual retrospective collection is only effec- tive when filters are activated and pages do not show high posting frequency. Automatic collection seems to be the most efficient path, provided the software be run frequently. Results also indicate that the higher the posting frequency is, the less reliable retrospective data collection becomes. The study concludes by recommending social scientists to user either real-time manual collection, or to run a software as frequently as possible in order to avoid bi- ased results by ‘missing’ posts.

Fechando essa categoria, esse artigo foi recomendação de Marcelo Alves. Confesso que quando vi o título, achei que abordaria as (novas) mudanças da API do Facebook – mas não me atentei à data de publicação, que é de 2016. De qualquer forma, é um artigo bem interessante. Apesar da conclusão relativamente óbvia/esperada, foi interessante para conhecer a ferramenta NVIVO10. Ainda não tive a oportunidade de testá-la, mas quando eventualmente o fizer provavelmente trarei aqui para o blog em forma de análise ou tutorial. Recentemente a Netvizz infelizmente tem perdido várias funcionalidades ótimas por causa do cenário caótico em que Zuckerberg nos deixou, então é sempre bom conhecer outras alternativas. Clique aqui para baixar.


ESTUDOS DE CASO

A discussão pública e as redes sociais online: o comentário de notícias no Facebook (2015)

Samuel Barros, Rodrigo Carreiro

O presente artigo faz uma análise das arenas de discussão estabelecidas em páginas de jornais brasileiros no Facebook. A abordagem proposta reconhece a circulação de material político no Facebook como importante na esfera pública contemporânea para a discussão sobre temas de relevância pública. A amostra é composta por 1.164 comentários coletados nas páginas oficiais da Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo. O objetivo é avaliar a qualidade deliberativa dessas arenas, levando em consideração os critérios reciprocidade, provimento de razões, grau da justificativa e respeito, além de discutir elementos estruturais do Facebook, a apropriação social e a discussão pública. No geral, as esferas de conversação da rede criadas em torno das notícias estudadas funcionam como ampliadores da diversidade dos argumentos, demonstrando que, em temas sobre os quais há forte consenso, há uma tendência de ocorrer menores índices de deliberação, além de não haver reciprocidade em quase metade dos comentários e mais de 50% das mensagens não apresentarem qualquer justificativa.

Li esse artigo para tê-lo como referência de uma pesquisa que iria realizar a partir de comentários de uma notícia no Facebook. Esta não se concretizou, mas o artigo ainda assim foi muito interessante. O diferencial da proposta dos autores é que eles não estão interessados numa análise voltada para o conteúdo mais explícito das mensagens (temas, assuntos, etc.), mas nos modos argumentativos e contra-argumentativos dos comentários. Ou seja, a preocupação deles é descobrir se esse ambiente online (comentários de notícias no Facebook) são propícios ou não para um debate saudável, responsável e maduro. A resposta já era de se esperar, mas é sempre bom encontrar referências científicas para sustentar nossas percepções mais óbvias. Clique aqui para baixar.


A fotografia como prática conversacional de dados. Espacialização e sociabilidade digital no uso do Instagram em praças e parques na cidade de Salvador (2018)

André Lemos, Leonardo Pastor

Este artigo investiga empiricamente a prática fotográfica através do aplicativo Instagram. Foram analisadas 305 imagens associadas à geolocalização de quatro praças e parques da cidade de Salvador. A análise foi desenvolvida através de três aspectos: processo de espacialização, processo de sociabilidade e processo de produção de si (retratos e selfies). O uso de metatexto (hashtags, legendas e emojis) e de dados de geolocalização indicam que a prática fotográfica se dá, hoje, como uma prática conversacional de dados. Ela convoca uma ampla rede que passa pelo local escolhido, pelo artefato utilizado, pelas formas de edição e manipulação da imagem, pelos metatextos, pelas geotags, pelo procedimento algorítmico da rede social, pelas formas de compartilhamento… O uso da fotografia em redes sociais é um ator-rede, performativo, algorítmico, muito diferente da prática de produção de fotos analógicas ou mesmo digitais antes do surgimento dessas redes. Isso possibilita aos usuários a criação de um discurso/ narrativa e de uma prática de dados relacionados à fotografia inédita até então.

Recentemente no IBPAD temos trabalhado bastante com projetos e metodologias envolvendo análise de imagens. Este artigo, portanto, surgiu como uma luva para nos acompanhar nessa jornada. Apesar de ser uma análise relativamente simples, cujo foco argumentativo dos autores é ratificar como a relação de sociabilidade entre fotografia e compartilhamento se entrelaça com o aparato algorítmico e “dataficante” das plataformas, o que mais gostei do trabalho foi o apontamento de que estamos sempre nos comunicando. Toda publicação nas mídias sociais comunica alguma coisa para alguém. Esse alguém pode não ter uma delimitação definida, sua recepção pode não ser o que esperamos, mas a mensagem está sempre ali para chegar a um receptor (mesmo que às vezes finjamos que não). Clique aqui para baixar.


O amor nos tempos de Facebook. Narrativas amorosas e performances de si em sites de redes sociais

Deborah Santos

Os sites de redes sociais representam espaços de compartilhamento que estão ressignificando o jeito através do qual as pessoas se relacionam consigo mesmas e com os outros que constituem “sua audiência”. Com a emergência destes espaços, as fronteiras entre o que era considerado como privado e como público estão sendo cada vez mais difusas, e os relatos íntimos encontram nas ágoras virtuais um terreno para se inserir em cenários públicos, reconfigurando assim o limite conceitual que restringe “o íntimo” a espaços de interação limitados em alcance. O presente trabalho é um recorte da minha pesquisa de mestrado e propõe-se entender, partindo da análise de um caso de estudo, de que maneira usuários da rede social Facebook constroem narrativas virtuais durante e após relacionamentos amorosos; usando as ferramentas da etnografia virtual como princípios de aproximação ao nosso objeto e partindo de um caso de estudo particular.

Deborah Rodríguez Santos é mestre e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF e ofereceu, neste período, a disciplina Dinâmicas Identitárias no Ciberespaço para alunos da graduação de Estudos de Mídia. Fiz a mesma matéria alguns anos atrás e por isso me interessei pelo trabalho da pesquisadora, que é orientada por outra referência também já bastante citada aqui no blog: a Profa. Dra. Beatriz Polivanov. O artigo em questão é uma versão (bem) resumida da sua dissertação, que trabalha com a questão da auto-apresentação nos sites de redes sociais (foco no Facebook) a partir do contexto amoroso entre jovens cubanos. Ou seja, além do interessantíssimo debate sobre performance na internet, atravessa também questões culturais específicas e de um lugar desconhecido para a maioria dos brasileiros. Clique aqui para baixar.


“Sabe o que Rola nessa Internet que Ninguém Fala?”: Rupturas de Performances Idealizadas da Maternidade no Facebook

Ana Souza, Beatriz Polivanov

Partindo da observação de que discussões sobre a maternidade têm ganhado visibilidade no Facebook, fazemos aqui uma análise exploratória de uma postagem da mãe, médica e cantora Júlia Rocha. Buscamos atingir os seguintes objetivos principais: 1) investigar que tipos de discursos têm emergido através desse “fenômeno” e de que modos visam desconstruir ou problematizar valores socialmente relacionados à maternidade e 2) entender o lugar de fala através dos quais tais relatos são produzidos, a partir de uma perspectiva pessoal de alguns “nós” na rede. Concluímos que a postagem de Júlia pode ser entendida enquanto uma ruptura de performances idealizadas da maternidade, atrelada a valores como cuidado dos filhos, de si e da relação conjugal, ganhando visibilidade na cultura digital a partir de uma ideia de “sinceridade” ou “autenticidade”.

Ana Luiza de Figueiredo Souza também é mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF. Ao lado de Santos e sob supervisão de Polivanov, ministrou a disciplina de Dinâmicas Identitárias no Ciberespaço em Estudos de Mídia neste período. Ambas participam do grupo de pesquisa MiDICom – Mídias Digitais, Identidade e Comunicação, liderado pela última. O artigo também segue parte da pesquisa realizada por Souza em seu mestrado, na qual trabalha com as temáticas de maternidade, auto-apresentação, narrativas pessoais e dispositivos de visibilidade/controle. Destaco especificamente duas questões legais no texto: a discussão sobre “ruptura de performance”, bastante discutida pelo grupo de pesquisa em seus trabalhos mais recentes; e a ótima referência sobre cinco dimensões de persona online, que conheci nesse artigo e resultou nesse post. Clique aqui para baixar.


REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS

Disputas sobre performance nos estudos de Comunicação: desafios teóricos, derivas metodológicas (2018)

Adriana Amaral, Thiago Soares, Beatriz Polivanov

O presente artigo discute o termo “performance” nos estudos de Comunicação e mídia a partir de um resgate crítico-teórico do mesmo. Partimos de uma reconstituição conceitual do termo em suas vertentes das Ciências Humanas e Sociais francesa e anglo-saxã para apresentarmos seus desdobramentos no campo comunicacional brasileiro, sobretudo no que tange a temáticas como a música e o entretenimento, os fãs e os sites de redes sociais. Argumentamos que os estudos de performance são relevantes para entender as ações humanas, bem como suas mediações com os corpos, aparatos, ambientes, materialidades e audiências tão corriqueiras no cotidiano da vida contemporânea. Contudo, indicamos a necessidade de rediscussão do conceito para a análise de distintos objetos e ambientes mediados pelas tecnologias de comunicação e apontamos a possibilidade de entender a performance enquanto método de pesquisa.

Esse artigo muito provavelmente se tornará leitura básica/obrigatória em cursos de graduação na área de comunicação mais voltada para a academia. Isso porque, além do time de peso (Amaral, Soares e Polivanov – três referências na área), as autoras fazem um “remonte” teórico das premissas teóricas e epistemológicas que têm sustentado os estudos sobre performance no Brasil em Comunicação. Para isso, acionam a matriz etimológica da palavra francesa, rediscutem ideias de autores já consolidados como Goffman e Giddens, e situam minimamente o cenário de pesquisa sobre performance de gosto (na música e) em sites de redes sociais. Além disso, referenciam também autores não tão conhecidos assim, como Diana Taylor e Richard Schechner, ambos integrantes do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Performance na New York University (NYU) nos Estados Unidos. Clique aqui para baixar.


A reality check(list) for digital methods

Tommaso Venturini, Liliana Bounegru, Jonathan Gray, Richard Rogers

Digital Methods can be defined as the repurposing of the inscriptions generated by digital media for the study of collective phenomena. The strength of these methods comes from their capacity to take advantage of the data and computational capacities of online platforms; their weakness comes from the difficulty to separate the phenomena that they investigate from the features of the media in which they manifest (‘the medium is the message’, according to McLuhan’s 1964 dictum). In this article, we discuss various methodological difficulties deriving from the lack of separation between medium and message and propose eight practical precautions to deal with it.

Fechando com chave de ouro, esse é outro artigo que possivelmente será bibliografia básica nas escolas de comunicação – talvez não para graduação, mas para pós (até pelo idioma). Os autores remontam as premissas da famosa obra Digital Methods de Richard Rogers e fornecem um “guia” teórico-metodológico para a prática de pesquisa digital a partir de oito questões divididas em quatro categorias relevantes. Papel das mídias digitais em relação ao objeto de estudo: quanto do seu objeto de estudo ocorre no plataforma que você está estudando? você está estudando rastros midiáticos por si só ou como proxies (representações)? Definição do objeto de estudo: a sua operacionalização está sintonizada com os formato do plataforma? com as práticas dos usuários da plataforma? Da análise de uma única plataforma à análise de plataformas convergentes: o fenômeno que você está estudando acontece em diferentes plataformas? você possui operacionalizações diferentes porém comparáveis para cada plataforma? Demarcação de corpus e acesso aos dados: o que seu corpus representa? você está levando em consideração as maneiras pelas quais os dados são “entregues” pela plataforma? Clique aqui para baixar.

Fronteiras cambiantes da exposição pública e privada: Instagram Stories x Snapchat

Quem me segue no Twitter sabe que eu sou um grande entusiasta do Snapchat. Não tanto pela plataforma em si (também), mas provavelmente (bem) mais pelo meu rancor e ódio constante a tudo que Mark Zuckerberg toca. O modo como ele copiou na cara dura a funcionalidade mais importante do app amarelinho me assusta, mas não tanto quanto me assusta o fato de as pessoas terem lidado com isso “numa boa” – já não sei mais do que esse cara não é capaz, e aparentemente estamos ok com isso. Um mês atrás o Business Insider divulgou um gráfico da ascensão estrondosa de usuários diários ativos do Instagram Stories em comparação com o Snapchat (que deve começar a cair muito em breve, se já não começou). Atenção: cenas fortes abaixo.

COTD_4.24 instagram vs snapchat

Frente a esse cenário de profunda tristeza (é uma piada, mas também é sério), tentei tirar algum proveito de tudo isso. Tendo lido há algumas semanas o texto “Fronteiras cambiantes da vida pública e privada” de John B. Thompson para uma matéria da faculdade, comecei a pensar sobre a questão da privacidade no que tange ambas as plataformas. Porque embora possuam funcionalidades bem semelhantes (afinal Mark copiou tudo igualzinho, ratifico), as apropriações de cada uma delas partem de pressupostos relativamente diferentes. Antes de entrar nessa discussão, entretanto, trago algumas informações introdutórias sobre o texto em questão – e é importante enfatizar também que talvez esse não seja o melhor texto para essa análise (afinal ele foi feito para a disciplina de Política), mas estou partindo de uma necessidade de melhor compreensão do artigo utilizando algumas de suas ideias para tentar pensar alguns exemplos mais contemporâneos e pertinentes às mídias sociais.

O objetivo do autor é compreender como os domínios público e privado “se reorganizaram com o nascimento das novas formas mediadas de comunicação na Europa do início do período moderno”. Usa como base fundamental da sua argumentação um escândalo político de Parlamentares britânicos que tiveram suas más condutas escancaradas pela mídia de maneira que veio a chacoalhar o cenário político britânico como nunca anteriormente. O artigo é bastante denso, daqueles que parecem mais um capítulo de um livro – traz várias informações, conceitos e referências sobre o assunto. Está dividido em quatro grandes partes que conduzem sua linha de raciocínio: O público e o privado; O surgimento da visibilidade mediada; A transformação da privacidade; Fronteiras cambiantes entre o público e o privado – desses quatro, os dois últimos dialogam mais diretamente com algumas reflexões que trarei a seguir, mas os dois primeiros também são importantes.

Na primeira parte, Thompson faz uma breve – porém razoavelmente densa – contextualização histórica do pensamento acerca do público e do privado. Para isso, recorre a dois autores essenciais à discussão: Hannah Arendt e Jürgen Habermas. Seu objetivo nesse momento é mostrar que as fronteiras entre o público e o privado não são exclusividades da modernidade, já estavam presente nas sociedades desde a Grécia Antiga (porque todo texto de Ciência Política precisa voltar lá). Ele explica que, a partir do surgimento das cidades-estado, surge uma vida política separada da vida do lar, onde, nesse contexto, “o domínio privado era o do domicílio e da família” e “o domínio público era um espaço de aparição em que as coisas ditas e feitas poderiam ser vistas e ouvidas pelos demais”. A partir de Arendt, ele explica que o lar era a fonte da necessidade onde se provia a sobrevivência, enquanto o domínio público estava mais ligado a uma ideia de sociabilidade discursiva.

Ainda nessa primeira parte o autor se apoia em Arendt para apresentar como essa dinâmica muda muito tempo depois com o surgimento das sociedades modernas a partir dos séculos XVII e XVIII – explicando “o surgimento do social” e a emergência da “sociedade civil”. No entanto, ele faz importantes críticas ao trabalho de Arendt devido à sua omissão frente ao debate sobre as mídias comunicacionais (circulação massificada da informação) que começam a se proliferar também nesse momento. A partir daí traz Habermas para falar sobre a (refeudalização) da esfera pública e o contexto da sociedade do espetáculo de Debord. Explica aqui o conceito habermasiano de “princípio da publicidade”, a ideia de que “a opinião pessoal de indivíduos privados poderia caminhar para uma opinião pública a partir do debate racional e crítico entre um grupo de cidadãos”. Enfim, mostra como os sentidos de público e privados são realocados na modernidade, mesmo que algumas referências permaneçam.

A segunda parte do texto é guiada pela pergunta: o que é ser visível? “Visível é aquilo que pode ser visto, que é perceptível pelo sentido da visão”, seria a resposta mais simples. Ele parte da noção mais comum de visibilidade (da pré-modernidade), localizada, ou seja, “aqueles que são visíveis para nós são aqueles que compartilham conosco a mesma referência espaço-temporal” – o que exige um pressuposto de referencial recíproco também. No entanto, Thompson chama a atenção para como o desenvolvimento da mídia comunicacional (desde a mídia impressa até a eletrônica) oferece a essa noção mais comum de visibilidade um descanso ao referencial espaço-temporal de localização da copresença – surgindo aí o que chama de visibilidade mediada (“novas formas de visibilidade cujas propriedades específi cas são moldadas por meios específi cos de comunicação”), uma visão contemporânea mais ampliada.

As mídias eletrônicas possibilitaram a transmissão de informações e conteúdos simbólicos por largas distâncias com pouco ou mesmo nenhum atraso. Consequentemente criam um tipo de simultaneidade desespacializada: quem está distante pode se fazer visível praticamente no mesmo instante de tempo, pode ser ouvido no mesmo momento em que fala e pode ser visto no momento em que executa a ação, embora não compartilhe o mesmo referencial de espaço com os indivíduos para os quais está visível. Ainda, as mídias eletrônicas contam com uma riqueza de produções simbólicas possibilitando a reprodução de algumas das características da interação direta nessas novas mídias.

Como mencionei anteriormente, esses dois primeiros momentos não são essenciais ao assunto do post, mas acho importante descrever essas construções históricas para reforçar sempre que nada que compreendemos hoje enquanto sociedade e indivíduos sociais foi decisão divina – é tudo construção social (e se foi construído pode ser desconstruído). Na terceira parte do texto, por exemplo, ele mostra como a noção de privacidade se transformou com o tempo – mantendo ideais semelhantes, mas sob pressupostos diferentes. Na Grécia Antiga o “domínio privado era relevante apenas por dar as condições necessárias para que os indivíduos sobrevivessem e assim participassem do domínio público”, ou seja, era dado um valor muito maior ao domínio público, símbolo de liberdade “em que os seres humanos poderiam satisfazer todo seu potencial como seres humanos”. A privacidade estava ligada à privação da liberdade.

O sentimento em relação à privacidade já é outro na modernidade, onde “a esfera privada proporciona aos indivíduos um espaço para se recolher do brilho da vida pública e de ser constantemente visto e ouvido pelos outros”. Ou seja, o privado é visto com bons olhos, como espaço de autenticidade e autonomia. Thompson explica que essa noção parte do contexto social e político no qual emergem as questões da privacidade nos últimos séculos, pautado principalmente pela tradição da teoria política liberal democrática que se preocupa em definir os limites do Estado. Em segundo lugar, ele aponta que “hoje estamos inclinados a pensar a privacidade como um tipo de direito, algo que, como indivíduos, reclamamos que legitimamente nos pertence”. Na melhor definição: “Para Warren e Brandeis, a privacidade é o direito de ser deixado em paz”.

A maior parte das demais tentativas de conceituar a privacidade em termos de intimidade, de sigilo e do âmbito pessoal têm outras deficiências igualmente complicadas . Como poderíamos então conceituar privacidade? No meu ponto de vista, a maneira mais produtiva de se conceituar privacidade é em termos de controle. Em seu sentido mais fundamental, privacidade tem relação com a habilidade dos indivíduos em exercer controle sobre alguma coisa. Normalmente esta coisa é interpretada como informação: ou seja, privacidade é a habilidade de controlar as informações sobre si mesmo, e também de controlar a maneira e até a medida que essas informações são comunicadas aos outros.

O autor traz para discussão três dimensões de privacidade segundo Beate Rössler: a privacidade informacional, referente ao controle das informações (“sobre nós mesmos e o direito de protegê-las do acesso indesejável de outras pessoas”); a privacidade decisional, referente à escolha de quem ou o que possui acesso (“controle de nossas decisões e ações e o direito de protegê-las da interferência indesejada por parte de outras pessoas”); e privacidade espacial, referente ao: direito de proteger nossos espaços contra pessoas indesejadas (“controle de nossos próprios espaços e o direito de protegê-los contra a invasão indesejada de outras pessoas”). É importante pensar nessas dimensões para que possamos localizar também as violações passíveis a cada uma delas, pois essas infrações também variam de acordo com o contexto.

E é a partir do conceito de self de Erving Goffman que Thompson propõe uma “definição rudimentar” à noção de privado, onde “os direitos relacionados […] são aqueles em que o indivíduo tem que exercer controle e restringir o acesso dos outros”. Aqui, finalmente, já é possível abrir a ponte que pretendo fazer com as reflexões sobre o Instagram e o Snapchat. Isso porque Goffman é o principal autor no qual os textos sobre auto-apresentações em mídias sociais se baseiam atualmente. Para ele, “a informação a respeito do indivíduo serve para definir a situação, tornando os outros capazes de conhecer antecipadamente o que ele esperará deles e o que dele podem esperar” (GOFFMAN, 1972). É ele que consolida a ideia de performance, em que nós, enquanto atores sociais (e há uma ênfase mesmo ao teatro), agimos de maneira adequada à cena social onde nos apresentamos.

Dialogando diretamente com a proposta de Goffman, Thompson traz no texto o argumento de Helen Nissenbaum sobre “integridade contextual”: a privacidade também deve partir de um ponto de análise que leve em consideração seu referencial contextual – ou seja, “em cada uma delas há normas específi cas para regular o que é apropriado e aceitável na maneira como a informação é revelada e compartilhada”. A autora propõe dois tipos de normas: de adequação e de fluxo de distribuição/de informação. A primeira diz respeito a questões sobre o que compartilhar, onde e para quem, enquanto a segunda está relacionada à proliferação da informação, ou seja, para quem posso divulgar informações de terceiros. No texto, Thompson dá um exemplo de uma consulta no médico; aqui, podemos associar a primeira a uma nude enviada no Snapchat, por exemplo, e a segunda à divulgação dessa nude.

O autor segue a argumentar que a esfera privada não pode ser mais pensada (se é que um dia já pôde) como um espaço localizado, já que as novas tecnologias de comunicação expandem a noção de privacidade a outros níveis de sociabilidade – e reforça o aspecto do exercício de controle dos indivíduos. São, portanto, dois pontos de atenção que podemos associar ao debate Instagram Stories x Snapchat: em primeiro lugar, a noção mais facilmente identificada de gerenciamento de self em cada uma das plataformas; e, em segundo lugar, como a noção de privacidade (ou a sua falta) condiciona o modus operandi dos usuários em cada uma das plataformas. Para me ajudar a pensar sobre isso, pedi a ajuda dos meus seguidores do Twitter com a seguinte pergunta: vocês se sentem confortáveis para postar no Instagram Stories o mesmo que postavam no Snapchat?

As respostas se apoiaram em três pilares que são extremamente complementares, mas destrincho aqui cada uma delas para poder dissertar um pouco sobre suas peculiaridades: em primeiro lugar – e talvez mais importante, a nível informacional – o fato da funcionalidade Stories ter chegado depois, ter sido incorporado à plataforma do Instagram. Como eu mencionei lá no início do texto, mesmo que as plataformas sejam semelhantes (em termos de funcionalidade), os usuários se apropriam delas de maneiras diferentes. Se você for parar para pensar, tanto Twitter quanto Facebook também permitem a publicação de imagens, mas o Instagram – enquanto mídia social que surgiu com o único intuito de compartilhar retratos instantâneos – mesmo adotando novas funcionalidades, mantém uma “coerência sócio-cultural” por parte dos seus usuários.

E isso nos leva diretamente ao segundo ponto, que é a auto-apresentação das pessoas em cada uma das plataformas. Um ótimo exemplo disso é essa montagem feita com diferentes “Rihannas” em diferentes mídias sociais, conforme explicado brilhantemente – também a partir de Goffman – por Tarcízio Silva neste post. A identidade que construímos de nós mesmos na internet segue também fragmentada, adequando nossa performance (ou gerenciamento do self/auto-apresentação) a cada um dos contextos de sociabilidade convencionado para cada uma das plataformas. Em resposta à minha pergunta, uma amiga comentou sobre como no Instagram há uma imposição ainda mais forte sobre certa “ditadura da beleza”, ou seja, uma necessidade de se apresentar sempre bem – talvez uma herança dos primórdios do app, disponível apenas para usuários de iPhone.

Em comparação, no Snapchat, outro amigo comentou – vários, na verdade – que o app era bem mais despretensioso. Chegamos, portanto, no terceiro e mais importante ponto para esse post: como plataforma mais fechada, o fantasminha dava ao usuário maior controle sob sua privacidade. Há, inclusive, controvérsias sobre seu entendimento enquanto mídia social (no conceito acadêmico mais atualizado), justamente por ter uma usabilidade tão restrita entre os usuários. Embora tenha começado como chat para compartilhamento de imagens (snaps) com outros amigos, a plataforma só deslanchou de verdade com a consolidação do My Story – que permitia criar uma narrativa audiovisual a partir de vídeos (ou imagens) com até 10 segundos de duração. Ainda assim a sociabilidade do ambiente era bastante restrita, pois não havia acesso externo à plataforma – e o controle estava literalmente nas mãos dos próprios usuários.

Ao sucumbirmos ao Instagram, portanto, perdemos a nossa privacidade não apenas no senso comum da palavra, mas no sentido de território do self que Goffman propõe. Deixamos de lado – até certo ponto, obviamente – uma persona que constitui a nossa identidade para nos adequarmos às novas normas sociais convencionadas à usabilidade do Instagram. Odeio soar tão romântico, mas é uma observação que precisa ser pontuada. A transgressão da nossa privacidade, nesse sentido, também vem em forma de violação ao nosso controle, aquele que estabelecemos na nossa relação com o Snapchat durante os anos que permanecemos enquanto usuários do aplicativo.

É evidente que isso não significa que não estamos reféns da reprodutibilidade comum às novas tecnologias da comunicação – em tese, você pode publicar no Instagram o que publicava no Snapchat. O que quero chamar a atenção, entretanto, é que somos socialmente condicionados ao modo que atuamos nos diversos contextos sociais. Quando falamos de internet (ou mídias sociais), a privacidade – que não precisa ser necessariamente estruturada, mas pode ser também apropriada (pense em fakes do Twitter, por exemplo) – tem um papel importantíssimo na nossa construção de si. Quando perdemos o controle, nosso direito de ser é violado e se tivéssemos que apontar um culpado (além de nós mesmos): Mark Zuckerberg.

A habilidade dos indivíduos em exercer controle sobre seus territórios do self e de restringir o acesso a eles é constantemente posta em cheque, e em alguns contextos, comprometida pelo fato de que os outros podem se valer dos novos meios – tecnológicos, políticos e legais – para ter acesso, conseguir informações, explorá-las em benefício próprio e, em algumas ocasiões, torná-las públicas. As fronteiras mutantes entre a vida pública e a vida privada tornam-se um novo campo de batalha nas sociedades modernas, um terreno disputado em que os indivíduos e organizações travam um novo tipo de guerra da informação: usando de todos os meios disponíveis para obter informações sobre os outros e para controlar as informações sobre si mesmos, muitas vezes esforçando-se para lidar com mudanças que não puderam prever e com agentes cujas intenções não puderam entender. Trata-se de um terreno em que as relações de poder estabelecidas podem ser abaladas, vidas podem ser prejudicadas e até, em alguns casos, reputações podem ser perdidas.

Leituras da semana: mensuração de resultados, estudos obrigatórios e um pouco sobre influenciadores

Agora é pra valer: depois de me aventurar aos domingos e sextas-feiras, declaro as segundas-feiras como o dia oficial das leituras da semana – para começarmos a jornada de trabalho bem informados, tá bem? Dessa forma não preciso me preocupar com a publicação no fim de semana e sinto (só sinto, porque a realidade é a mesma) que tenho mais tempo para ler os textos, selecionar os melhores e criar o post certinho. Então vamos em frente porque tem muita coisa bacana esta semana!


As entrevistas para o Social Analytics Summit 2015

Aconteceu no último final de semana (27 e 28 de novembro) o maior evento brasileiro de métricas, monitoramento e mensuração de resultados. Com curadoria de Mariana Oliveira e Tarcízio Silva, o SAS2015 contou com diversas palestras e workshops de grandes profissionais da área que colaboraram para uma intensa e dinâmica troca de aprendizados durante aqueles dois dias. Uma semana antes, esses mesmos profissionais participaram de uma série de entrevistas publicadas nos blogs dos responsáveis pela curadoria do evento. Embora sejam uma síntese bem resumida do que eles estavam prestes a apresentar nos debates do evento, vale muito a pena ler as entrevistas para conhecer os projetos e pensar como o mercado brasileiro pode amadurecer na área. Escolhi as minhas seis preferidas (mas vale a pena ler todas, além de procurar no Slideshare as apresentações do evento):


Trabalhando com métricas, na prática – por Willian Sertorio, no Blog de AI

E já que o assunto da semana é mensuração, vamos falar sobre isso? O Blog de AI tem uma série de posts sobre métricas (publicado pelo mesmo autor, se não me engano) que já apareceram aqui e se destaca por pensar o trabalho de mensuração não apenas com um guia definitivo, mas propondo alguns métodos e iniciativas fundamentais para pautar a análise de métricas.

“A natureza de um experimento é sim, validar algo de forma quantitativa. Porém, isso não quer dizer que o jeito de experimentar deve ser sempre quantitativo. Não importa muito a forma que você faz um teste, o importante é medir e aprender com os resultados.”


The proliferation of useless data – por Kaiser Fung

Ainda nessa proposta de refletir sobre dados, este texto levanta a questão do big data com um dos seus mais “difíceis” problemas: como filtrar tanta informação? Com uma rápida “historinha”, o autor explica como os dados coletados por ele na busca por um novo médico foram inúteis para a sua classificação de “qualidade”.

“One of the secrets of great data analysis is thoughtful data collection. Great data collection is necessary but not sufficient for great data analysis. I recently had the unfortunate need to select a new doctor. Every time I had to do this, it has been an exercise in frustration and desperation. And after wasting hours and hours perusing the “data” on doctors, inevitably I give up and just throw a dart at the wall.”


Should A Data Scientist Lead Your Marketing Team? – por Shashi Upadhyay, no AdExchanger

Enquanto a publicidade se torna cada vez mais digital, as empresas (e agências) estão percebendo (muitas já perceberam) que os rastros que deixamos na internet deve ser utilizado a favor da marca. Se a profissão “Cientista de Dados” nunca passou pela conversa sobre o vestibular quando você era jovem, é provável que essa realidade mude daqui pra frente – mas o importante é manter a calma (e estudar).

“Data scientists are naturally programmed to infuse data in everything that they do. Data can’t just be used for the programmatic work. Data needs to be intrinsic to the entire marketing operation, starting from the hiring process through performance reviews and all the way to project performance and revenue impact. Data scientists think in numbers so they will naturally attach quantifiable measurements to tactical actions, making data a critical piece of the company’s business.”


A psicologia em social media

Mas estudar sobre estatística (e números) não é suficiente para o profissional que deseja trabalhar com comunicação social e digital. Todas os assuntos “de humanas” como Psicologia, Antropologia, Sociologia, etc. também são de tremenda importância – afinal, dados são rastros deixados por um ser humano. E pesquisas sobre o comportamento humano nas plataformas digitais de redes sociais não é algo novo, mas é algo que deve ser cada vez mais apropriado pelos “departamentos” de marketing digital. Por isso, vale a leitura:


4 Reasons Why Nostalgia Drives Better Brand Engagement – por Josephine Hardy, no blog do DataRank

Estudar psicologia pode te ajudar a entender, por exemplo, por que a maioria das pessoas são tão saudosistas – o que há de tão glorioso assim no passado das nossas vidas? Nesse post, podemos encontrar algumas práticas nostálgicas que funcionam para a ativação dos usuários no Facebook e Twitter, por exemplo.

“In recent times marketers have been making an effort to increase brand engagement using throwback content from their target demographics ‘golden years’. This important phenomenon deserves some recognition because it works! We’ve put together 4 reasons why nostalgia drives better engagement, with some notable examples that we’re sure you will recognize.”


Social Media Attribution: Is This Really a Problem? – por Kevin Shively, no blog do Simply Measured

O legal dos posts do SM é que eles geralmente seguem um código de conduta de apresentar o problema, dizer por que é um problema e (tentar) atribuir uma solução. Nesse texto, o autor segue essa lógica para explicar como aplicar um modelo de atribuição na análise de social media (ou, em palavras mais simples, como dar valor ao que foi gerado a partir daquelas plataformas).

“If we can identify which action moved a potential customer from one stage to the next, and one activity to the next, we’re able to build an attribution model that doesn’t single out one tactic that takes all credit, but rather one that helps us understand which actions facilitate different parts of the customer’s journey.”


More than 50% of Instagram’s biggest fans hate ad increase – por Stewart Rogers, no VentureBeat

Quando os anúncios começaram a surgir com mais frequência no Instagram, fiquei com a curiosidade de saber o que os usuários estavam achando novidade – odiando, provavelmente, mas eu queria realmente fazer uma análise de monitoramento no Twitter para saber o que realmente tinham a dizer. A minha ideia não chegou à prática, mas agora esta pesquisa ajudou um pouco a matar a minha curiosidade – até porque também trás dados de opinião sobre o uso comparativo com outros apps e ferramentas, deixando o estudo um pouco mais completo.

“Any social network, especially one known for providing an authentic experience, is bound to generate negative sentiment whenever it injects ads. But this huge shift in how people feel about Instagram ads suggests the current balance is hurting its users. It is too early to investigate app data to determine if the change is having an effect on Instagram’s growth rate.”


O valor dos YouTubers influenciadores

O papel dos influenciadores na relação com as marcas me interessa como futuro profissional do mercado e o papel dos criadores de conteúdo na “cultura de celebridades do YouTube” me interessa como estudante acadêmico – e as duas coisas podem se cruzar em breve, por que não? Talvez por ter crescido – em parte – com essa geração, entenda melhor o valor desses comunicólogos para as marcas. Aqui estão alguns textos que achei interessante para debater sobre o assunto (cujos valores compartilho em sua maioria, com apenas algumas exceções):


9 Razões por que um blog é importante para sua carreira e vida – por Jeff Bullas, no Blog da IInterativa

Embora o blog tenha apenas três meses, consegui nesse pequeno período certo reconhecimento que eu não esperava acontecer tão cedo. Nos últimos dias, recebi feedback de gente que admiro muito e que me incentivam – direta ou indiretamente – a continuar estudando (e trabalhando) para me tornar o profissional que eu aspiro ser. Por isso, para fechar (com chave de ouro), escolhi esse texto mais pessoal – e que espero servir de inspiração para alguém, também.

“Uma vida e carreira de sucesso tem base em propósito. Nós todos trazemos nossas próprias mágicas e singularidades para o mundo. Seu objetivo na vida é descobri-los, abraçá-los e compartilhá-los. Seu blog pode ser uma plataforma digital em que tudo isso se revela.”