{"id":4443,"date":"2019-09-06T10:08:15","date_gmt":"2019-09-06T13:08:15","guid":{"rendered":"http:\/\/insightee.com.br\/blog\/?p=4443"},"modified":"2019-09-06T11:07:24","modified_gmt":"2019-09-06T14:07:24","slug":"um-discurso-sobre-as-ciencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/insightee.com.br\/blog\/um-discurso-sobre-as-ciencias\/","title":{"rendered":"Um discurso sobre as ci\u00eancias"},"content":{"rendered":"\n<p>O texto <em>&#8220;Um discurso sobre a ci\u00eancias&#8221;<\/em> (1987), de Boaventura de Sousa Santos, chegou at\u00e9 mim na primeira aula de Epistemologias que tive na p\u00f3s. Refiro-me a ele como texto porque, ao lermos na pr\u00f3pria sala de aula, ainda n\u00e3o tinha ci\u00eancia de que aquele artigo de 22 p\u00e1ginas j\u00e1 havia sido publicado como livro com mais de 90 p\u00e1ginas em sua oitava edi\u00e7\u00e3o pela Editora Cortez. N\u00e3o suficiente, uma continua\u00e7\u00e3o com textos de v\u00e1rios autores compunham a colet\u00e2nea <em>&#8220;Conhecimento prudente para uma vida decente &#8211; &#8216;um discurso sobre as ci\u00eancias&#8217; revisitado&#8221;<\/em>, de 2004.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><a href=\"http:\/\/www.cortezeditora.com.br\/discurso-sobre-as-ciencias-um-2297.aspx\/p\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images-na.ssl-images-amazon.com\/images\/I\/51nzKNY5iTL.jpg\" alt=\"\" width=\"127\" height=\"191\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Do mesmo modo que sua primeira publica\u00e7\u00e3o, feita em Portugal em 1987, causou um rebuli\u00e7o intenso na comunidade acad\u00eamica, tamb\u00e9m me impactou profundamente antes mesmo de descobrir todo esse contexto por tr\u00e1s da obra. Se, ao finalizar a leitura, j\u00e1 tinha como afirmativa de que ele precisava ser leitura b\u00e1sica em qualquer (ou melhor, em todas) disciplina(s) de gradua\u00e7\u00e3o, depois que descobri toda a pol\u00eamica por tr\u00e1s de sua publica\u00e7\u00e3o (e continua\u00e7\u00f5es\/revis\u00f5es), n\u00e3o tenho d\u00favida de que ele deve ser apresentado e discutido sempre nas primeiras aulas. Sobre essas pol\u00eamicas, o autor explica no pref\u00e1cio (da 8\u00aa edi\u00e7\u00e3o, que foi a que adquiri):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Em meados dos anos 1990, eclodiu, primeiro na Inglaterra e depois nos EUA, um novo epis\u00f3dio de debate aceso entre positivistas e antipositivistas, entre realistas e construtivistas, que em breve se transformou numa nova guerra da ci\u00eancia. O momento mais intenso desta guerra ficou conhecido pelo nome de Sokal Affair, por ter tido origem num embuste redigido pelo f\u00edsico matem\u00e1tico Alan Sokal e publicado na revista <em>Social Text<\/em>, com o objetivo de denunciar as supostas debilidades das posi\u00e7\u00f5es antipositivistas ditas p\u00f3s-modernas. Neste artigo, Sokal menciona, como textos representativos desta corrente, <em>Um Discurso sobre as Ci\u00eancias<\/em> e <em>Introdu\u00e7\u00e3o a uma Ci\u00eancia P\u00f3s-Moderna<\/em>. Logo depois, o esclarecimento do embuste \u00e9 publicado em L\u00edngua Franca (1996, 62\/64), num artigo intitulado <em>&#8220;A Physicist Experiments in Cultural Studies&#8221;<\/em>. Em 1997, Sokal publica, junto com Jean Bricmont, o livro <em>Impostures Intellectuelles<\/em>, em que \u00e9 desenvolvida a cr\u00edtica aos fil\u00f3sofos e cientistas sociais &#8220;p\u00f3s-modernos&#8221; franceses, genericamente acusados de uso incorrecto de teorias e conceitos das ci\u00eancias f\u00edsico-naturais. Entretanto, em 2002, foi publicado em Portugal um livro intitulado <em>O Discurso P\u00f3s-moderno contra a Ci\u00eancia: obscurantismo e irresponsabilidade<\/em>, de autoria de Ant\u00f3nio Manuel Baptista. Em grande medida, este livro repete, <strong>e nem sempre corretamente<\/strong>, os argumentos de Alan Sokal e dos que, do seu lado, intervieram nas guerras da ci\u00eancia, tomando <em>Um Discurso sobre as Ci\u00eancias<\/em> como o seu principal alvo. [&#8230;] <\/p><cite>(SOUSA DOS SANTOS, p.9-10)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Hoje, com 24 anos, formado e j\u00e1 no mestrado, consigo entender (e, metaforicamente, visualizar) tudo que engloba e atravessa esse trecho. Acho fundamental a sua leitura para absorver os argumentos que o autor levanta, mas &#8211; e talvez at\u00e9 mais enfaticamente &#8211; acho ainda mais relevante essa contextualiza\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s da obra. A academia, em v\u00e1rias inst\u00e2ncias e de diferentes formas, sempre me ajudou\/me ajuda a compreender melhor o mundo, e penso que o pr\u00f3prio car\u00e1ter pedag\u00f3gico-social do livro j\u00e1 reflete o que vemos para al\u00e9m de seus muros: \u00e9 tudo disputa, \u00e9 tudo luta &#8211;  \u00e9 tudo discurso (que envolve tamb\u00e9m performance) + rela\u00e7\u00e3o de poder.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"http:\/\/www.cortezeditora.com.br\/epistemologias-do-sul-883.aspx\/p\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.cortezeditora.com.br\/Imagens\/produtos\/96\/9788524915796\/9788524915796_Detalhes.jpg\" alt=\"\" width=\"140\" height=\"209\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Parto dessa breve contextualiza\u00e7\u00e3o\/explica\u00e7\u00e3o porque ela dialoga (ou introduz) tamb\u00e9m muito da pr\u00f3pria proposta de conte\u00fado do texto: provocar as ordens de saber dominantes. Ainda que seja do final da d\u00e9cada de 80, \u00e9 extremamente atual pela ader\u00eancia do debate com a for\u00e7a que ganhou nos \u00faltimos anos os estudos decoloniais\/p\u00f3s-coloniais\/anti-coloniais (o pr\u00f3prio Boaventura \u00e9 um dos organizadores da obra <em>Epistemologias do Sul<\/em>, possivelmente a mais popular sobre o tema no Brasil) e pela discuss\u00e3o explicitamente pol\u00edtica que envolve fake news, p\u00f3s-verdade, etc. &#8211; no geral, o intenso debate sobre como combater o anticientificismo e suas deriva\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem mais delongas, apresento a seguir um resumo comentado (como j\u00e1 \u00e9 de costume aqui no blog) da obra, que est\u00e1 dividida em tr\u00eas grandes partes: (I) <strong>O paradigma dominante<\/strong>, na qual Boaventura situa como a ci\u00eancia e o m\u00e9todo cient\u00edfico se estabeleceu como modo de ver\/crer\/saber regente; (II) <strong>A crise do paradigma dominante<\/strong>, quando aponta os problemas que desencadearam da l\u00f3gica mecanicista da ci\u00eancia moderna e; (III) <strong>O paradigma emergente<\/strong>, onde enuncia alguns dos pressupostos fundamentais para a concep\u00e7\u00e3o do que veio a se convencionar (e se criticar) de ci\u00eancia p\u00f3s-moderna (todo conhecimento \u00e9 social, local\/total, autoconhecimento e visa o senso comum).<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de entrar no texto, vale explicar (para quem n\u00e3o conhece) algumas das terminologias frequentemente utilizadas pelo autor: epistemologia (e suas deriva\u00e7\u00f5es, como &#8220;condi\u00e7\u00f5es epist\u00eamicas&#8221;) \u00e9, basicamente, uma ordem de conhecimento &#8211; ou seja, \u00e9 o modo de &#8220;fazer crer&#8221;, como, por exemplo, o m\u00e9todo cient\u00edfico; positivismo (e, novamente, suas deriva\u00e7\u00f5es, como antipositivismo, linha de argumento a qual o autor se alinha) \u00e9 uma corrente de pensamento ancorada nos ideais de Auguste Comte, na qual a raz\u00e3o \u00e9 produto indissoci\u00e1vel do progresso &#8211; ou seja, s\u00f3 a ilumina\u00e7\u00e3o do conhecimento (cient\u00edfico) seria capaz de levar uma sociedade para frente.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 nesse tom que Boaventura inicia o texto: estamos (j\u00e1 h\u00e1 algumas d\u00e9cadas) num per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o amb\u00edguo e complexo &#8220;descompassado em rela\u00e7\u00e3o a tudo o que o habita&#8221;. Ele inicia seu argumento afirmando que &#8220;perdemos a confian\u00e7a epistemol\u00f3gica&#8221;, o que tem causado uma &#8220;sensa\u00e7\u00e3o de perda&#8221; tanto pela perda em si quanto por n\u00e3o sabermos ao certo o que estamos perdendo. No entanto, o mesmo sentimento que assusta \u00e9 tamb\u00e9m o que entusiasma: para surgir o novo, precisamos encarar e deixar para tr\u00e1s a estabilidade que nos ancorou por tanto tempo no velho.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Estamos no fim de um ciclo de hegemonia de uma certa ordem cient\u00edfica. As condi\u00e7\u00f5es epist\u00e9micas das nossas perguntas est\u00e3o inseridas no avesso dos conceitos quo utilizamos para lhes dar resposta. \u00c9 necess\u00e1rio um esfor\u00e7o de desvendamento conduzido sobre um fio de navalha entre a lucidez e a ininteligibilidade da resposta. S\u00e3o igualmente diferentes e muito mais complexas as condi\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas e psicol\u00f3gicas do nosso perguntar. \u00c9 muito diferente perguntar pela utilidade ou pela felicidade que o autom\u00f3vel me pode proporcionar se a pergunta \u00e9 feita quando ningu\u00e9m na minha vizinhan\u00e7a tem autom\u00f3vel, quando toda a gente tem excepto eu ou quando eu pr\u00f3prio tenho carro h\u00e1 mais do vinte anos.<\/p><cite>(SOUSA SANTOS, p.17-18)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O paradigma dominante<\/h3>\n\n\n\n<p>Na primeira se\u00e7\u00e3o, o autor caracteriza brevemente a ordem cient\u00edfica hegem\u00f4nica, com uma preocupa\u00e7\u00e3o latente em contextualizar social e historicamente seu surgimento e viradas epist\u00eamicas. Explica, por exemplo, que esse paradigma \u00e9 fruto da revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do s\u00e9culo XVI, baseado nos estudos das ci\u00eancias naturais e que s\u00f3 chega &#8211; ou melhor, imp\u00f5em-se &#8211; sobre as ci\u00eancias sociais no s\u00e9culo XIX. Essa racionalidade cient\u00edfica seria um modelo global e totalit\u00e1rio, &#8220;na medida em que nega o car\u00e1cter racional a todas as formas de conhecimento que se n\u00e3o pautarem pelos seus princ\u00edpios epistemol\u00f3gicos e pelas suas regras metodol\u00f3gicas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O que Boaventura se prop\u00f5e a explicar aqui \u00e9 como o conhecimento cient\u00edfico se consagrou com par\u00e2metros e propostas rigorosas que se diferenciam dos outros tipos de conhecimento hegem\u00f4nicos anteriores, como a teologia e a metaf\u00edsica. Essa caracter\u00edstica, que soaria como universal &#8211; no sentido que seria v\u00e1lida para todos, um &#8220;ponto zero comum&#8221; -, deu aos protagonistas dessa revolu\u00e7\u00e3o toda a confian\u00e7a necess\u00e1ria para legitimar esse novo modo de saber. Para al\u00e9m da simples observa\u00e7\u00e3o dos fatos, a ci\u00eancia moderna se distinguiu do saber aristot\u00e9lico e medieval ao estabelecer uma nova vis\u00e3o do mundo e da vida que &#8220;desconfia sistematicamente das evid\u00eancia da nossa experi\u00eancia imediata&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>As ideias que presidem \u00e0 observa\u00e7\u00e3o e \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o as ideias claras e simples a partir das quais se pode ascender a um conhecimento mais profundo e rigoroso da natureza. Essas ideias s\u00e3o as ideias matem\u00e1ticas. A matem\u00e1tica fornece \u00e0 ci\u00eancia moderna, n\u00e3o s\u00f3 o instrumento privilegiado de an\u00e1lise, como tamb\u00e9m a l\u00f3gica da investiga\u00e7\u00e3o, como ainda o modelo de representa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria estrutura da mat\u00e9ria. [&#8230;] Deste lugar central da matem\u00e1tica na ci\u00eancia moderna derivam duas consequ\u00eancias principais. Em primeiro lugar, conhecer significa quantificar. O rigor cient\u00edfico afere-se pelo rigor das medi\u00e7\u00f5es. As qualidades intr\u00ednsecas do objecto s\u00e3o, por assim dizer, desqualificadas e em seu lugar passam a imperar as quantidades em que eventualmente se podem traduzir. O que n\u00e3o \u00e9 quantific\u00e1vel \u00e9 cientificamente irrelevante. Em segundo lugar, o m\u00e9todo cient\u00edfico assenta na redu\u00e7\u00e3o da complexidade. O mundo \u00e9 complicado e a mente humana n\u00e3o o pode compreender completamente. Conhecer significa dividir e classificar para depois poder determinar rela\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas entre o que se separou. [&#8230;] Esta distin\u00e7\u00e3o entre condi\u00e7\u00f5es iniciais e leis da natureza nada tem de \u201cnatural\u201d. Como bem observa Eugene Wigner, \u00e9 mesmo completamente arbitr\u00e1ria. No entanto, \u00e9 nela que assenta toda a ci\u00eancia moderna.<\/p><cite>(SOUSA SANTOS, p. 26-29)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, o autor est\u00e1 dizendo que a ci\u00eancia estabeleceu um protocolo de atua\u00e7\u00e3o que visa a formula\u00e7\u00e3o de leis a partir de regularidades observadas a fim de prever o futuro. Neste contexto, explica os quatros tipos de causa (ess\u00eancia da ci\u00eancia moderna) para Arist\u00f3teles: a material, a formal, a eficiente e a final. &#8220;As leis da ci\u00eancia moderna s\u00e3o um tipo de causa formal que privilegia o como funciona das coisas em detrimento de qual o agente ou qual o fim das coisas&#8221;, pontua. Ou seja, o prop\u00f3sito fundamental da ci\u00eancia moderna \u00e9 o de reprodutibilidade: compreender como acontece\/aconteceu no presente\/passado para que seja poss\u00edvel repetir no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de ordem e estabilidade do mundo \u00e9 o pressuposto principal para esse projeto epist\u00eamico, que tamb\u00e9m se traduz como pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para a transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica do real. Boaventura cita, aqui, a no\u00e7\u00e3o de mundo-m\u00e1quina de Newton, no qual &#8220;o mundo da mat\u00e9ria \u00e9 uma m\u00e1quina cujas opera\u00e7\u00f5es se podem determinar exactamente por meio de leis f\u00edsicas e matem\u00e1ticas, um mundo est\u00e1tico e eterno a flutuar num espa\u00e7o vazio&#8221;, ou ainda, &#8220;um mundo que o racionalismo cartesiano torna cognosc\u00edvel por via da sua decomposi\u00e7\u00e3o nos elementos que o constituem&#8221;. E \u00e9 essa ideia que se constitui como hip\u00f3tese universal da \u00e9poca, averiguada como mecanicismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse determinismo mecanicista, conforme explica, \u00e9 essencialmente utilit\u00e1rio e funcional, mais preocupado em dominar e transformar do que em &#8220;compreender profundamente o real&#8221;. Sendo filho das ci\u00eancias naturais, foi assumido pelas ci\u00eancias sociais sob duas vertentes: a primeira, &#8220;dominante, consistiu em aplicar, na medida do poss\u00edvel, ao estudo da sociedade todos os princ\u00edpios epistemol\u00f3gicos e metodol\u00f3gicos que presidiam ao estudo da natureza desde o s\u00e9culo XVI&#8221;; enquanto a segunda &#8220;consistiu em reivindicar para as ci\u00eancias sociais um estatuto epistemol\u00f3gico e metodol\u00f3gico pr\u00f3prio, com base na especificidade do ser humano e sua distin\u00e7\u00e3o polar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A primeira variante\/vertente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Ci\u00eancias naturais = modelo de conhecimento universalmente (e \u00fanico) v\u00e1lido;<\/li><li>Fen\u00f4menos naturais e sociais podem ser estudados da mesma maneira;<\/li><li>Vis\u00e3o durkheimiana: &#8220;\u00e9 necess\u00e1rio reduzir os factos sociais \u00e0s suas dimens\u00f5es externas, observ\u00e1veis e mensur\u00e1veis&#8221;;<\/li><li>OBST\u00c1CULO I: &#8220;as ci\u00eancias sociais n\u00e3o disp\u00f5em de teorias explicativas que lhes permitam abstrair do real para depois buscar nele, de modo metodologicamente controlado, a prova adequada&#8221;;<\/li><li>OBST\u00c1CULO II: &#8220;as ci\u00eancias sociais n\u00e3o podem estabelecer leis universais porque os fen\u00f3menos sociais s\u00e3o historicamente condicionados e culturalmente determinados&#8221;;<\/li><li>OBST\u00c1CULO III: &#8220;as ci\u00eancias sociais n\u00e3o podem produzir previs\u00f5es fi\u00e1veis porque os seres humanos modificam o seu comportamento em fun\u00e7\u00e3o do conhecimento que sobre ele se adquire&#8221;;<\/li><li>OBST\u00c1CULO IV: &#8220;os fen\u00f3menos sociais s\u00e3o de natureza subjectiva e como tal n\u00e3o se deixam captar pela objectividade do comportamento&#8221;;<\/li><li>OBST\u00c1CULO V: &#8220;as ci\u00eancias sociais n\u00e3o s\u00e3o objectivas porque o cientista social n\u00e3o pode libertar-se, no acto de observa\u00e7\u00e3o, dos valores que informam a sua pr\u00e1tica em geral e, portanto, tamb\u00e9m a sua pr\u00e1tica de cientista&#8221;.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>A segunda variante\/vertente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Reivindica para as ci\u00eancias sociais um estatuto metodol\u00f3gico pr\u00f3prio;<\/li><li>O argumento fundamental \u00e9 que a a\u00e7\u00e3o humana \u00e9 radicalmente subjectiva;<\/li><li>Ci\u00eancias social \u00e9 subjetiva -&gt; &#8220;tem de compreender os fen\u00f3menos sociais a partir das atitudes mentais e do sentido que os agentes conferem \u00e0s suas ac\u00e7\u00f5es&#8221;<\/li><li>S\u00e3o necess\u00e1rios m\u00e9todos de investiga\u00e7\u00e3o e crit\u00e9rios epistemol\u00f3gicos diferentes das ci\u00eancias naturais;<\/li><li>PROBLEMA &#8211; &#8220;Partilha com este modelo a distin\u00e7\u00e3o natureza\/ser humano e tal como ele tem da natureza uma vis\u00e3o mecanicista a qual contrap\u00f5e, com evid\u00eancia esperada, a especificidade do ser humano&#8221;.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Talvez o mais interessante, a meu ver, deste cap\u00edtulo, \u00e9 refletirmos como esse modo de fazer crer &#8211; ou seja, a epistemologia do conhecimento cient\u00edfico &#8211; \u00e9 o alicerce de v\u00e1rias inst\u00e2ncias da vida em sociedade hoje. Se pensarmos em todo o molde de curr\u00edculo estrutural escolar, por exemplo, temos uma aplica\u00e7\u00e3o bastante evidente de como isso pode ser traduzido. A pr\u00f3pria ordem de disciplinas, separadas em diferentes \u00e1reas de conhecimento, s\u00e3o fruto dessa l\u00f3gica de dividir para (re)produzir &#8211; e assim criam-se operadores da m\u00e1quina capitalista.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A crise do paradigma dominante<\/h3>\n\n\n\n<p>Na segunda se\u00e7\u00e3o, o autor argumenta pelos sinais de crise do modelo de racionalidade cient\u00edfica a partir de tr\u00eas quest\u00f5es principais: 1) trata-se de uma crise profunda e irrevers\u00edvel; 2) o per\u00edodo de revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dura desde Einstein at\u00e9 a atualidade, sem previs\u00e3o de fim; 3) podemos apenas especular sobre o que vir\u00e1 a seguir como fruto desse per\u00edodo revolucion\u00e1rio, ainda que j\u00e1 seja poss\u00edvel &#8220;afirmar com seguran\u00e7a que colapsar\u00e3o as distin\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas em que assenta o paradigma dominante e a que aludi na sec\u00e7\u00e3o precedente&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira condi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica (que se une a uma pluralidade de outras, tamb\u00e9m sociais) resultante dessa crise \u00e9 o avan\u00e7o do pr\u00f3prio conhecimento cient\u00edfico, que &#8220;permitiu ver a fragilidade dos pilares em que se funda&#8221; &#8211; a exemplo da relatividade da simultaneidade de Einstein. A segunda condi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, segundo o autor, \u00e9 o surgimento da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica &#8211; que relativizou a microf\u00edsica como Einstein o fez com as leis de Newton. Nesse contexto, surgem tr\u00eas problem\u00e1ticas: uma vez que o rigor cient\u00edfico \u00e9 estruturalmente limitado, as leis da f\u00edsica seriam &#8220;t\u00e3o-s\u00f3 probabil\u00edsticas&#8221;; a totalidade do real \u00e9 incab\u00edvel de redu\u00e7\u00e3o \u00e0 soma das partes para observa\u00e7\u00e3o e mensura\u00e7\u00e3o; sujeito e objeto n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o afastados assim.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O teorema da incompletude (ou do n\u00e3o completamento) e os teoremas sobre a impossibilidade, em certas circunst\u00e2ncias, de encontrar dentro de um dado sistema formal a prova da sua consist\u00eancia vieram mostrar que, mesmo seguindo \u00e0 risca as regras da l\u00f3gica matem\u00e1tica, \u00e9 poss\u00edvel formular proposi\u00e7\u00f5es indecid\u00edveis, proposi\u00e7\u00f5es que se n\u00e3o podem demonstrar nem refutar, sendo que uma dessas proposi\u00e7\u00f5es \u00e9 precisamente a que postula o car\u00e1cter n\u00e3o-contradit\u00f3rio do sistema. Se as leis da natureza fundamentam o seu rigor no rigor das formaliza\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas em que se expressam, as investiga\u00e7\u00f5es de G\u00f6del v\u00eam demonstrar que o rigor da matem\u00e1tica carece ele pr\u00f3prio de fundamento. A partir daqui \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o s\u00f3 questionar o rigor da matem\u00e1tica como tamb\u00e9m redefini-lo enquanto forma de rigor que se op\u00f5e a outras formas de rigor alternativo, uma forma de rigor cujas condi\u00e7\u00f5es de \u00eaxito na ci\u00eancia moderna n\u00e3o podem continuar a ser concebidas como naturais e \u00f3bvias.<\/p><cite>(SOUSA SANTOS, p. 47-48)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>H\u00e1 em voga um movimento convergente que, junto as j\u00e1 referenciadas condi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas da crise, tem propiciado &#8220;uma profunda reflex\u00e3o epistemol\u00f3gica sobre o conhecimento cient\u00edfico&#8221;. Comp\u00f5em-na duas facetas sociol\u00f3gicas, segundo o autor: \u00e9 capitaneada &#8220;por cientistas que adquiriram uma compet\u00eancia e um interesse filos\u00f3fico para problematizar a sua pr\u00e1tica cient\u00edfica&#8221;; e abrange quest\u00f5es antes relegadas apenas a soci\u00f3logos &#8211; e agora centrais ao novo modelo -, como &#8220;a an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es sociais, dos contextos culturais, dos modelos organizacionais da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns dos temas principais dessa reflex\u00e3o epistemol\u00f3gica s\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li>O conceito de lei e de causalidade associado s\u00e3o questionados;<\/li><li>O rigor cient\u00edfico \u00e9 questionado no seu car\u00e1ter epistemol\u00f3gico totalit\u00e1rio;<\/li><li>A irredutibilidade dos objetos \u00e9 enfrentada em seus diversos limites e problem\u00e1ticas.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Boaventura fecha esta se\u00e7\u00e3o falando sobre a problem\u00e1tica da industrializa\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia: &#8220;referirei t\u00e3o-s\u00f3 que, quaisquer que sejam os limites estruturais de rigor cient\u00edfico, n\u00e3o restam d\u00favidas que o que a ci\u00eancia ganhou em rigor nos \u00faltimos quarenta ou cinquenta anos perdeu em capacidade de auto-regula\u00e7\u00e3o&#8221;. Ratifica que &#8220;as ideias da autonomia da ci\u00eancia e do desinteresse do conhecimento cient\u00edfico, que durante muito tempo constitu\u00edram a ideologia espont\u00e2nea dos cientistas, colapsaram perante o fen\u00f3meno global da industrializa\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia a partir sobretudo das d\u00e9cadas de trinta e quarenta&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cA ci\u00eancia e a tecnologia t\u00eam vindo a revelar-se as duas faces de um processo hist\u00f3rico em que os interesses militares e os interesses econ\u00f3micos v\u00e3o convergindo at\u00e9 quase a indistin\u00e7\u00e3o\u201d<\/p><cite>Boaventura de Sousa Santos<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O final desta se\u00e7\u00e3o \u00e9 bem interessante porque, ao mesmo tempo em que coloca o dedo na ferida e basicamente diz: foi a ci\u00eancia (ou pelo menos legitimados pela ci\u00eancia) que nos levou \u00e0s guerras, \u00e0 explora\u00e7\u00e3o, \u00e0 opress\u00e3o, \u00e0 escravid\u00e3o, etc.; ainda mant\u00e9m o entusiasmo ao afirmar que a crise \u00e9 &#8220;o retrato de uma fam\u00edlia [&#8230;] criativa e fascinante, no momento de se despedir [&#8230;] dos lugares conceituais, te\u00f3ricos e epistemol\u00f3gicos, ancestrais e \u00edntimos, mas n\u00e3o mais convincentes e securizantes&#8221; &#8211; e acrescenta: &#8220;uma despedida em busca de uma vida melhor a caminho doutras paragens onde o optimismo seja mais fundado e a racionalidade mais plural e onde finalmente o conhecimento volte a ser uma aventura encantada&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, retomo o que falei no in\u00edcio do post sobre o car\u00e1ter para al\u00e9m do conte\u00fado do texto que, a meu ver, \u00e9 tamb\u00e9m instrumento pedag\u00f3gico fundamental em sala de aula: o autor est\u00e1 jogando o jogo da disputa. Depois de passar uma se\u00e7\u00e3o (ou cap\u00edtulo) inteira(o) citando problemas que as pr\u00f3prias ci\u00eancias naturais acabaram encontrando conforme seus pr\u00f3prios paradigmas, amacia a mensagem basicamente falando que cientistas podem ser bonzinhos, s\u00f3 est\u00e3o perdidos (parafraseando Criolo). Ou ele est\u00e1 tentando agradar um p\u00fablico que tamb\u00e9m quer persuadir com o texto, ou est\u00e1 simplesmente usufruindo do privil\u00e9gio da <a href=\"https:\/\/www3.ufrb.edu.br\/seer\/index.php\/griot\/article\/download\/785\/500\/\">epistemologia da ignor\u00e2ncia<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O paradigma emergente<\/h3>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima se\u00e7\u00e3o, Boaventura apresenta o paradigma emergente a partir de quatro teses principais: 1) todo o conhecimento \u00e9 cient\u00edfico-social; 2) \u00e9 local e total; 3) \u00e9 auto-conhecimento; 4) e visa constituir-se em senso comum. Antes, ratifica que s\u00e3o premissas para o futuro que &#8220;o que dele dissermos \u00e9 sempre o produto de uma s\u00edntese pessoal embebida na imagina\u00e7\u00e3o, no meu caso na imagina\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica&#8221;. Ainda mais importante, tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o para o car\u00e1ter desta revolu\u00e7\u00e3o: &#8220;sendo uma revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que ocorre numa sociedade ela pr\u00f3pria revolucionada pela ci\u00eancia, o paradigma a emergir dela n\u00e3o pode ser apenas um paradigma cient\u00edfico [&#8230;], tem de ser tamb\u00e9m um paradigma social [&#8230;]&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. Todo o conhecimento cient\u00edfico-natural \u00e9 cient\u00edfico-social<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira tese do autor argumenta pelo fim da distin\u00e7\u00e3o dicot\u00f4mica entre ci\u00eancias naturais e ci\u00eancias sociais e elege esta como catalisador necess\u00e1rio do paradigma emergente. Num primeiro momento, ele ent\u00e3o discorre sobre diversas teorias da ci\u00eancia moderna que &#8220;introduzem na mat\u00e9ria os conceitos de historicidade e de processo, de liberdade, de auto-determina\u00e7\u00e3o e at\u00e9 de consci\u00eancia que antes o homem e a mulher tinham reservado para si&#8221;. Al\u00e9m desse esfor\u00e7o, ainda explica a import\u00e2ncia da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica como respons\u00e1vel pela transforma\u00e7\u00e3o na distin\u00e7\u00e3o atual entre sujeito e objeto.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O conhecimento do paradigma emergente tende assim a ser um conhecimento n\u00e3o dualista, um conhecimento que se funda na supera\u00e7\u00e3o das distin\u00e7\u00f5es t\u00e3o familiares e \u00f3bvias que at\u00e9 h\u00e1 pouco consider\u00e1vamos insubstitu\u00edveis, tais como natureza\/cultura, natural\/artificial, vivo\/inanimado, mente\/mat\u00e9ria, observador\/observado, subjectivo\/objectivo, colectivo\/individual, animal\/pessoa. Este relativo colapso das distin\u00e7\u00f5es dicot\u00f3micas repercute-se nas disciplinas cient\u00edficas que sobre elas se fundaram.<\/p><cite>(SOUSA SANTOS, p. 69)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m da supera\u00e7\u00e3o dessa distin\u00e7\u00e3o, Boaventura argumenta tamb\u00e9m que \u00e9 necess\u00e1rio enunciar &#8220;quem&#8221; dita o caminho a seguir. &#8220;Precisamente porque vivemos um estado de turbul\u00eancia, as vibra\u00e7\u00f5es do novo paradigma repercutem-se desigualmente nas v\u00e1rias regi\u00f5es do paradigma vigente e por isso os sinais do futuro s\u00e3o amb\u00edguos&#8221;, explica. \u00c9 nesse contexto que surgem mat\u00e9rias como a sociobiologia, cuja supera\u00e7\u00e3o da dicotomia alinha muito mais a favor das ci\u00eancias naturais. No entanto, se &#8220;atentarmos no conte\u00fado te\u00f3rico das ci\u00eancias que mais t\u00eam progredido no conhecimento da mat\u00e9ria, verificamos que a emergente inteligibilidade da natureza \u00e9 presidida por conceitos, teorias, met\u00e1foras e analogias das ci\u00eancias sociais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e1xima dukrheimiana seria, portanto, invertida: os fen\u00f4menos naturais deveriam ser estudados como fen\u00f4menos sociais (e n\u00e3o o contr\u00e1rio). Ainda assim, argumenta o autor, superar essa dicotomia pela \u00e9gide das ci\u00eancias sociais ainda n\u00e3o \u00e9 um movimento &#8220;suficiente para caracterizar o modelo de conhecimento no paradigma emergente&#8221;. Como j\u00e1 explicou previamente, isso porque &#8220;as pr\u00f3prias ci\u00eancias sociais constitu\u00edram-se no s\u00e9culo XIX segundo os modelos de racionalidade das ci\u00eancias naturais cl\u00e1ssicas&#8221;. Como solu\u00e7\u00e3o para essa armadilha, que pode ser apenas ilus\u00f3ria, Boaventura sugere um caminho direcionado ao campo de saber das humanidades, cujo projeto epist\u00eamico \u00e9 ainda mais subjetivo e relativo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A supera\u00e7\u00e3o da dicotomia ci\u00eancias naturais\/ci\u00eancias sociais tende assim a revalorizar os estudos human\u00edsticos. Mas esta revaloriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorrer\u00e1 sem que as humanidades sejam, elas tamb\u00e9m, profundamente transformadas. O que h\u00e1 nelas de futuro \u00e9 o terem resistido \u00e0 separa\u00e7\u00e3o sujeito\/objecto e o terem preferido a compreens\u00e3o do mundo \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o do mundo. Este n\u00facleo genu\u00edno foi, no entanto, envolvido num anel de preocupa\u00e7\u00f5es mistificat\u00f3rias (o esoterismo nefelibata e a erudi\u00e7\u00e3o balofa). O ghetto a que as humanidades se remeteram foi em parte uma estrat\u00e9gia defensiva contra o ass\u00e9dio das ci\u00eancias sociais, armadas do vi\u00e9s cientista triunfalmente brandido. Mas foi tamb\u00e9m o produto do esvaziamento que sofreram em face da ocupa\u00e7\u00e3o do seu espa\u00e7o pelo modelo cientista. [&#8230;] H\u00e1 que recuperar esse n\u00facleo genu\u00edno e p\u00f4-lo ao servi\u00e7o de uma reflex\u00e3o global sobre o mundo.<\/p><cite>(SOUSA SANTOS, p. 76)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Confesso que o termo &#8220;humanidades&#8221;, para mim, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum. Apenas recordo de t\u00ea-lo visto em artigos\/produ\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas (geralmente em ingl\u00eas) relacionados \u00e0s chamadas &#8220;humanidades digitais&#8221; &#8211; mas que nunca me foi explicado ou que busquei compreender em sua complexidade, tomando-a como em sua concep\u00e7\u00e3o minimamente literal. &#8220;\u00c9 pois necess\u00e1rio descobrir categorias de inteligibilidade globais, conceitos quentes que derretam as fronteiras em que a ci\u00eancia moderna dividiu e encerrou a realidade&#8221;, pontua. &#8220;A ci\u00eancia p\u00f3s-moderna \u00e9 uma ci\u00eancia assumidamente anal\u00f3gica que conhece o que conhece pior atrav\u00e9s do que conhece melhor&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O autor encerra esta primeira tese com um argumento que dialoga bastante com a minha trajet\u00f3ria acad\u00eamica deste ano, conforme a urg\u00eancia que notei &#8211; e adotei &#8211; de mudan\u00e7a de projeto do mestrado. \u00c9 talvez a primeira vez que ele coloca, de maneira escancarada, o sujeito-pesquisador enquanto pot\u00eancia. Essa \u00e9 uma das cr\u00edticas que tenho ao texto, a qual j\u00e1 tinha pontuado brevemente ao final da primeira se\u00e7\u00e3o e que se repete de modo ainda mais grave (a meu ver) em parte da pr\u00f3xima tese, a seguir. No entanto, aqui, confesso que fui bastante atravessado ao modo como encerra:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>J\u00e1 mencionei a analogia textual e julgo que tanto a analogia l\u00fadica como a analogia dram\u00e1tica, como ainda a analogia biogr\u00e1fica, figurar\u00e3o entre as categorias matriciais do paradigma emergente: o mundo, que hoje \u00e9 natural ou social e amanh\u00e3 ser\u00e1 ambos, visto como um texto, como um jogo, como um palco ou ainda como uma autobiografia. [&#8230;] A nudez total, que ser\u00e1 sempre a de quem se v\u00ea no que v\u00ea, resultar\u00e1 das configura\u00e7\u00f5es de analogias que soubermos imaginar: afinal, o jogo pressup\u00f5e um palco, o palco exercita-se com um texto e o texto \u00e9 a autobiografia do seu autor. Jogo, palco, texto ou biografia, o mundo \u00e9 comunica\u00e7\u00e3o e por isso a l\u00f3gica existencial da ci\u00eancia p\u00f3s-moderna \u00e9 promover a \u201csitua\u00e7\u00e3o comunicativa\u201d tal como Habermas a concebe. Nessa situa\u00e7\u00e3o confluem sentidos e constela\u00e7\u00f5es de sentido vindos, tal qual rios, das nascentes das nossas pr\u00e1ticas locais e arrastando consigo as areias dos nossos percursos moleculares, individuais, comunit\u00e1rios, sociais e planet\u00e1rios.<\/p><cite>(SOUSA SANTOS, 77-79)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>2. Todo o conhecimento \u00e9 local e total<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para argumentar por sua segunda tese, Boaventura critica a hiper-especializa\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia moderna: &#8220;a excessiva parceliza\u00e7\u00e3o e disciplinariza\u00e7\u00e3o do saber cient\u00edfico faz do cientista um ignorante especializado&#8221;. Explica que o avan\u00e7o pela especializa\u00e7\u00e3o acarretou no dilema b\u00e1sico da ci\u00eancia moderna: &#8220;o seu rigor aumenta na propor\u00e7\u00e3o directa da arbitrariedade com que espartilha o real&#8221;. Ainda que os males desse fen\u00f4meno j\u00e1 sejam reconhecidos, a ainda mantida disciplinariza\u00e7\u00e3o (que organiza o saber e policia as fronteiras contra transposi\u00e7\u00e3o) de novas disciplinas reproduzem o mesmo modelo de cientificidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Contra a parceliza\u00e7\u00e3o do conhecimento, o autor defende o conhecimento total (universal e\/ou indivis\u00edvel) do paradigma emergente. Em vez de disciplinas, sugere temas, &#8220;galerias por onde os conhecimentos progridem ao encontro uns dos outros&#8221;. Contr\u00e1rio ao paradigma dominante, o novo paradigma tem o avan\u00e7o do conhecimento &#8220;\u00e0 medida que o seu objecto se amplia, amplia\u00e7\u00e3o que, como a da \u00e1rvore, procede pela diferencia\u00e7\u00e3o e pelo alastramento das ra\u00edzes em busca de novas e mais variadas interfaces&#8221;. Em outras palavras, \u00e9 um passo em dire\u00e7\u00e3o ao car\u00e1ter interdisciplinar da academia &#8211; n\u00e3o de novas disciplinas, mas disciplinas dialogando entre si.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda parte do argumento por esse conhecimento local \u00e9 a que mais me incomodou em todo o texto: &#8220;o conhecimento p\u00f3s-moderno \u00e9 tamb\u00e9m total porque reconstitui os projectos cognitivos locais, salientando-lhes a sua exemplaridade, e por essa via transforma-os em pensamento total ilustrado&#8221;. Ainda sobre a ci\u00eancia do paradigma emergente, acrescenta: &#8220;sendo [&#8230;] assumidamente anal\u00f3gica, \u00e9 tamb\u00e9m assumidamente tradutora, ou seja, incentiva os conceitos e as teorias desenvolvidos localmente a emigrarem para outros lugares cognitivos, de modo a poderem ser utilizados fora do seu contexto de origem&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o sei se entendi errado, ou se de fato ele quis dizer que o conhecimento p\u00f3s-moderno pode transpor um conhecimento espec\u00edfico para outra realidade completamente diferente. N\u00e3o \u00e9 isso que a ci\u00eancia moderna j\u00e1 faz? Em outro trecho, ele at\u00e9 reconhece isso, mas passando pano para o paradigma emergente: &#8220;Este procedimento [de tradu\u00e7\u00e3o], que \u00e9 reprimido por uma forma de conhecimento que concebe atrav\u00e9s da operacionaliza\u00e7\u00e3o e generaliza atrav\u00e9s da quantidade e da uniformiza\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 normal numa forma de conhecimento que concebe atrav\u00e9s da imagina\u00e7\u00e3o e generaliza atrav\u00e9s da qualidade e da exemplaridade&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Novamente, n\u00e3o sei se entendi errado, mas, caso esteja correto, o que o autor faz \u00e9 simplesmente privil\u00e9gio acad\u00eamico. Mais uma vez, ignora &#8211; ou melhor, vangloria &#8211; o sujeito-pesquisador, colocando-o o cientista p\u00f3s-moderno t\u00e3o iluminado quanto o cientista moderno que tanto critica. \u00c9 conivente com as rela\u00e7\u00f5es de poder que est\u00e3o em jogo tamb\u00e9m na academia, que, como ele mesmo j\u00e1 afirmou anteriormente, traduz-se para toda a sociedade (visto que \u00e9 onde parte a revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da sociedade cient\u00edfica). E a\u00ed, enfim, esquece quem, hist\u00f3rica e socialmente, sempre teve a possibilidade de habitar esse espa\u00e7o e criar\/legitimar suas epistemologias.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O conhecimento p\u00f3s-moderno, sendo total, n\u00e3o \u00e9 determin\u00edstico, sendo local, n\u00e3o \u00e9 descritivista. \u00c9 um conhecimento sobre as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade. As condi\u00e7\u00f5es de possibilidade da ac\u00e7\u00e3o humana projectada no mundo a partir de um espa\u00e7o-tempo local. Um conhecimento deste tipo \u00e9 relativamente imet\u00f3dico, constitui-se a partir de uma pluralidade metodol\u00f3gica. Cada m\u00e9todo \u00e9 uma linguagem e a realidade responde na l\u00edngua em que \u00e9 perguntada. S\u00f3 uma constela\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos pode captar o sil\u00eancio que persiste entre cada l\u00edngua que pergunta. Numa fase de revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como a que atravessamos, essa pluralidade de m\u00e9todos s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel mediante transgress\u00e3o metodol\u00f3gica. Sendo certo que cada m\u00e9todo s\u00f3 esclarece o que lhe conv\u00e9m e quando esclarece f\u00e1-lo sem surpresas de maior, a inova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica consiste em inventar contextos persuasivos que conduzam \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos fora do seu habitat natural.<\/p><cite>(SOUSA SANTOS, p. 83-84)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, entretanto, o autor finaliza a tese de modo muito interessante, agora colocando o sujeito-pesquisador como pot\u00eancia criativa (entusiasta), por\u00e9m possivelmente transgressora. Cabe a este ator transgredir metodologicamente para desenvolver um estilo liter\u00e1rio novo, &#8220;uma configura\u00e7\u00e3o de estilos constru\u00edda segundo o crit\u00e9rio e a imagina\u00e7\u00e3o pessoal do cientista&#8221;. Em contraponto \u00e0 suposta imparcialidade do racional cient\u00edfico moderno, aposta na &#8220;composi\u00e7\u00e3o transdisciplinar e individualizada [&#8230; que] sugere um movimento no sentido da maior personaliza\u00e7\u00e3o do trabalho cient\u00edfico&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Todo o conhecimento \u00e9 auto-conhecimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A terceira tese \u00e9, para mim, a mais interessante. Se critiquei o autor algumas vezes at\u00e9 aqui por conscientemente esquivar o sujeito do debate, \u00e9 aqui que ele se redime de todas as minhas cr\u00edticas. Boaventura come\u00e7a este argumento explicando a problem\u00e1tica distin\u00e7\u00e3o dicot\u00f4mica entre sujeito e objeto: &#8220;um conhecimento objectivo, factual e rigoroso n\u00e3o tolerava a interfer\u00eancia dos valores humanos ou religiosos&#8221;. Reconhece, entretanto, que essa distin\u00e7\u00e3o nunca foi t\u00e3o simples nas ci\u00eancias sociais, afinal \u00e9ramos n\u00f3s estudando n\u00f3s mesmos. Parte da\u00ed a diferencia\u00e7\u00e3o b\u00e1sica entre sociologia e antropologia, que inicialmente se afastaram e a tend\u00eancia agora \u00e9 convergirem metodologicamente cada vez mais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Parafraseando Clausewitz, podemos afirmar hoje que o objecto \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o do sujeito por outros meios. Por isso, todo o conhecimento cient\u00edfico \u00e9 auto-conhecimento. A ci\u00eancia n\u00e3o descobre, cria, e o acto criativo protagonizado por cada cientista e pela comunidade cient\u00edfica no seu conjunto tem de se conhecer intimamente antes que conhe\u00e7a o que com ele se conhece do real. Os pressupostos metaf\u00edsicos, os sistemas de cren\u00e7as, os ju\u00edzos de valor n\u00e3o est\u00e3o antes nem depois da explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da natureza ou da sociedade. S\u00e3o parte integrante dessa mesma explica\u00e7\u00e3o. A ci\u00eancia moderna n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel da realidade e n\u00e3o h\u00e1 sequer qualquer raz\u00e3o cient\u00edfica para a considerar melhor que as explica\u00e7\u00f5es alternativas da metaf\u00edsica, da astrologia, da religi\u00e3o, da arte ou da poesia. A raz\u00e3o por que privilegiamos hoje uma forma de conhecimento assente na previs\u00e3o e no controlo dos fen\u00f3menos nada tem de cient\u00edfico. \u00c9 um ju\u00edzo de valor. A explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos fen\u00f3menos \u00e9 a auto-justifica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia enquanto fen\u00f3meno central da nossa contemporaneidade. A ci\u00eancia \u00e9, assim, autobiogr\u00e1fica.<\/p><cite>(SOUSA SANTOS, 89-90)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O que ele chama aten\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 justamente sobre como o fazer cient\u00edfico \u00e9 atravessado pelo intermedi\u00e1rio que \u00e9 o sujeito cientista, citando como exemplo o pr\u00f3prio Descartes, em <em>Discurso do M\u00e9todo<\/em>. &#8220;No in\u00edcio, os protagonistas da revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica tiveram a no\u00e7\u00e3o clara que a prova \u00edntima das suas convic\u00e7\u00f5es pessoais precedia e dava coer\u00eancia \u00e0s provas externas que desenvolviam&#8221;, explica. \u00c9 como se a ci\u00eancia, em sua m\u00e1xima de imparcialidade e rigor, tivesse esquecido do b\u00e1sico: o instrumento que nos faz entender o real somos n\u00f3s mesmos, cheios de bagagens, interpreta\u00e7\u00f5es e atravessamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Hoje sabemos ou suspeitamos que as nossas traject\u00f3rias de vida pessoais e colectivas (enquanto comunidades cient\u00edficas) e os valores, as cren\u00e7as e os preju\u00edzos que transportam s\u00e3o a prova \u00edntima do nosso conhecimento&#8221;, aponta. Sem isso, &#8220;as nossas investiga\u00e7\u00f5es laboratoriais ou de arquivo, os nossos c\u00e1lculos ou os nossos trabalhos de campo constituiriam um emaranhado de dilig\u00eancias absurdas sem fio nem pavio&#8221;. Boaventura argumenta que, entretanto: &#8220;este saber, suspeitado ou insuspeitado, corre hoje subterraneamente, clandestinamente, nos n\u00e3o-ditos dos nossos trabalhos cient\u00edficos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>No paradigma emergente, o car\u00e1cter autobiogr\u00e1fico e auto-referenci\u00e1vel da ci\u00eancia \u00e9 plenamente assumido. A ci\u00eancia moderna legou-nos um conhecimento funcional do mundo que alargou extraordinariamente as nossas perspectivas de sobreviv\u00eancia. Hoje n\u00e3o se trata tanto de sobreviver como de saber viver. Para isso \u00e9 necess\u00e1ria uma outra forma de conhecimento, um conhecimento compreensivo e \u00edntimo que n\u00e3o nos separe e antes nos una pessoalmente ao que estudamos. A incerteza do conhecimento, que a ci\u00eancia moderna sempre viu como limita\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica destinada a sucessivas supera\u00e7\u00f5es, transforma-se na chave do entendimento de um mundo que mais do que controlado tem de ser contemplado. N\u00e3o se trata do espanto medieval perante uma realidade hostil possu\u00edda do sopro da divindade, mas antes da prud\u00eancia perante um mundo que, apesar de domesticado, nos mostra cada dia a precaridade do sentido da nossa vida por mais segura que esteja ao n\u00edvel da sobreviv\u00eancia. A ci\u00eancia do paradigma emergente \u00e9 mais contemplativa do que activa. A qualidade do conhecimento afere-se menos pelo que ele controla ou faz funcionar no mundo exterior do que pela satisfa\u00e7\u00e3o pessoal que d\u00e1 a quem a ele acede e o partilha.<\/p><cite>(SOUSA SANTOS, p.92-93)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>E mais uma vez, termina, a meu ver, de forma brilhante: &#8220;a cria\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no paradigma emergente assume-se como pr\u00f3xima da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria ou art\u00edstica, porque a semelhan\u00e7a destas pretende que a dimens\u00e3o activa da transforma\u00e7\u00e3o do real (o escultor a trabalhar a pedra) seja subordinada \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o do resultado (a obra de arte)&#8221;. E acrescenta: &#8220;a cr\u00edtica liter\u00e1ria anuncia a subvers\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o sujeito\/objecto que o paradigma emergente pretende operar; [&#8230;] o objecto do estudo, como se diria em termos cient\u00edficos, sempre foi, de facto, um super-sujeito (um poeta, um romancista, um dramaturgo) face ao qual o cr\u00edtico n\u00e3o passa de um sujeito ou autor secund\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. Todo o conhecimento cient\u00edfico visa constituir-se em senso comum<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sua quarta e final tese critica o afastamento do conhecimento cient\u00edfico das outras formas de conhecimento ao mesmo tempo em que atribui \u00e0 ci\u00eancia p\u00f3s-moderna a responsabilidade racional de fazer essa aproxima\u00e7\u00e3o para que, ent\u00e3o, torne-se tamb\u00e9m parte desse amaranhado. &#8220;A ci\u00eancia moderna construiu-se contra o senso comum que considerou superficial, ilus\u00f3rio e falso. A ci\u00eancia p\u00f3s-moderna procura reabilitar o senso comum por reconhecer nesta forma de conhecimento algumas virtualidades para enriquecer a nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O senso comum faz coincidir causa e inten\u00e7\u00e3o; subjaz-lhe uma vis\u00e3o do mundo assente na ac\u00e7\u00e3o e no princ\u00edpio da criatividade e da responsabilidade individuais. O senso comum \u00e9 pr\u00e1tico e pragm\u00e1tico; reproduz-se colado \u00e0s traject\u00f3rias e \u00e0s experi\u00eancias de vida de um dado grupo social e nessa correspond\u00eancia se afirma fi\u00e1vel e securizante. O senso comum \u00e9 transparente e evidente; desconfia da opacidade dos objectivos tecnol\u00f3gicos e do esoterismo do conhecimento em nome do princ\u00edpio da igualdade do acesso ao discurso, \u00e0 compet\u00eancia cognitiva e \u00e0 compet\u00eancia lingu\u00edstica. O senso comum \u00e9 superficial porque desdenha das estruturas que est\u00e3o para al\u00e9m da consci\u00eancia, mas, por isso mesmo, \u00e9 ex\u00edmio em captar a profundidade horizontal das rela\u00e7\u00f5es conscientes entre pessoas e entre pessoas e coisas. O senso comum \u00e9 indisciplinar e imet\u00f3dico; n\u00e3o resulta de uma pr\u00e1tica especificamente orientada para o produzir; reproduz-se espontaneamente no suceder quotidiano da vida. O senso comum aceita o que existe tal como existe; privilegia a ac\u00e7\u00e3o que n\u00e3o produza rupturas significativas no real. Por \u00faltimo, o senso comum \u00e9 ret\u00f3rico e metaf\u00edsico; n\u00e3o ensina, persuade.<\/p><cite>(SOUSA SANTOS, 96-97)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esse com certeza \u00e9 o argumento mais pol\u00eamico do autor. \u00c9 extremamente complicado em diversas inst\u00e2ncias, principalmente na onde bastante atual de anticientificismo (terraplanismo, antivacina, etc.). Eu entendo, entretanto, onde o autor esteja querendo chegar aqui: ele quer prezar pela &#8220;dimens\u00e3o ut\u00f3pica e libertadora&#8221; do senso comum que &#8220;pode ser ampliada atrav\u00e9s do di\u00e1logo com o conhecimento cient\u00edfico&#8221;. Isso n\u00e3o quer dizer descartar por completo o conhecimento cient\u00edfico nem colocar o senso comum como estatuto de verdade, mas simplesmente abrir a estrutura enclausurante do primeiro para com o segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Deixado a si mesmo, o senso comum \u00e9 conservador e pode legitimar prepot\u00eancias, mas interpenetrado pelo conhecimento cient\u00edfico pode estar na origem de uma nova racionalidade&#8221;, explica. H\u00e1, para o autor, que se inverter a ruptura epistemol\u00f3gica: do conhecimento cient\u00edfico para o senso comum &#8211; tanto o primeiro bebendo da fonte do \u00faltimo quanto o primeiro eventualmente tornando-se tamb\u00e9m o \u00faltimo. Novamente, entendo como isso \u00e9 radical &#8211; no sentido de ir \u00e0 raiz mesmo &#8211; e, portanto, complicado de ser recebido sem resist\u00eancia &#8211; e muito provavelmente da\u00ed surjam todas as cr\u00edticas que o procederam.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A ci\u00eancia p\u00f3s-moderna, ao sensocomunizar-se, n\u00e3o despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em auto-conhecimento, o desenvolvimento tecnol\u00f3gico deve traduzir-se em sabedoria de vida. \u00c9 esta que assinala os marcos da prud\u00eancia \u00e0 nossa aventura cient\u00edfica. A prud\u00eancia \u00e9 a inseguran\u00e7a assumida e controlada.<\/p><cite>(SOUSA SANTOS, p. 98)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Talvez o maior problema do texto, que \u00e9 o que possivelmente acarreta nas cr\u00edticas que citei, seja n\u00e3o localizar explicitamente o conhecimento cient\u00edfico enquanto estatuto legitimado de rela\u00e7\u00e3o de poder. E a\u00ed o contexto, mais uma vez no jogo que cito desde o in\u00edcio, importa: Boaventura \u00e9 portugu\u00eas, formado em Direito, homem, branco, etc. Ou ele n\u00e3o precisa passar por esse enfrentamento ou ele simplesmente n\u00e3o quer, para conseguir agradar parte de sua audi\u00eancia. Ainda assim, n\u00e3o tenho d\u00favidas de quanto \u00e9 e foi um texto necess\u00e1rio (complicado, mas necess\u00e1rio).<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nenhum de n\u00f3s pode neste momento visualizar projectos concretos de investiga\u00e7\u00e3o que correspondam inteiramente ao paradigma emergente que aqui delineei&#8221;, reconhece, por estarmos (na d\u00e9cada de 80) numa fase de transi\u00e7\u00e3o. &#8220;Duvidamos suficientemente do passado para imaginarmos o futuro, mas vivemos demasiadamente o presente para podermos realizar nele o futuro. Estamos divididos, fragmentados. Sabemo-nos a caminho mas n\u00e3o exactamente onde estamos na jornada. A condi\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica da ci\u00eancia repercute-se na condi\u00e7\u00e3o existencial dos cientistas&#8221;, finaliza. E \u00e9 a\u00ed que entra a import\u00e2ncia da academia est\u00e1 mudando de cara e de cor.<\/p>\n\n\n\n<p><em>SANTOS SOUSA, Boaventura. Um discurso sobre as ci\u00eancias. 8\u00aa edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo, Cortez: 2018.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto &#8220;Um discurso sobre a ci\u00eancias&#8221; (1987), de Boaventura de Sousa Santos, chegou at\u00e9 mim na primeira aula de Epistemologias que tive na p\u00f3s. 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