{"id":4342,"date":"2019-03-12T23:10:13","date_gmt":"2019-03-13T02:10:13","guid":{"rendered":"http:\/\/insightee.com.br\/blog\/?p=4342"},"modified":"2019-03-12T23:10:13","modified_gmt":"2019-03-13T02:10:13","slug":"pesquisa-com-apis-pos-cambridge-analytica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/insightee.com.br\/blog\/pesquisa-com-apis-pos-cambridge-analytica\/","title":{"rendered":"Pesquisa com APIs p\u00f3s-Cambridge Analytica"},"content":{"rendered":"\n<p>Em setembro do ano passado, <a href=\"https:\/\/insightee.com.br\/blog\/pesquisa-em-midias-sociais-na-era-pos-api\/\">trouxe aqui para o blog<\/a> o texto <a href=\"https:\/\/t.co\/O0wIjMQhs0\"><em>\u201cComputational research in the post-API age\u201d<\/em><\/a>, do pesquisador <a href=\"http:\/\/dfreelon.org\/\">Dr. Deen Freelon<\/a>,&nbsp; no qual ele faz algumas considera\u00e7\u00f5es sobre o futuro da pesquisa computacional no que ele chamou de &#8220;era p\u00f3s-APIs&#8221;. Dando sequ\u00eancia ao debate levantado naquele momento, trago desta vez outro texto de pesquisadores tamb\u00e9m renomados, Tommaso Venturini e Richard Rogers, no qual discutem sobre o futuro da pesquisa em m\u00eddias sociais ap\u00f3s o esc\u00e2ndalo da Cambridge Analytica &#8211; e suas devidas consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p> Antes de entrar no texto, uma r\u00e1pida contextualiza\u00e7\u00e3o (para quem n\u00e3o trabalha na \u00e1rea): 2018 foi o ano que o Facebook mais fechou o cerco quanto ao acesso irrestrito aos dados dos usu\u00e1rios; isso aconteceu principalmente devido aos problemas ocorridos nas elei\u00e7\u00f5es norte-americanas que elegeram Donald Trump e culminou numa <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=EgI_KAkSyCw\">audi\u00eancia p\u00fablica de Mark Zuckerberg diante do congresso de senadores<\/a>. No rascunho <em><a href=\"http:\/\/www.tommasoventurini.it\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/VenturiniRogers_ApiResearch_Preprint.pdf\">&#8220;&#8216;API-based research&#8217; or how can digital sociology and journalism studies learn from the Cambridge Analytica affair&#8221;<\/a><\/em>, que estar\u00e1 no livro <em>Digital Journalism<\/em> (a ser lan\u00e7ado), Venturini e Rogers partem do esc\u00e2ndalo da CA para discutir o futuro da pesquisa com APIs e a import\u00e2ncia de desenvolver uma pr\u00e1tica de trabalho de campo digital mais s\u00f3lida e diversa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cDentre outros motivos, as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2016 ser\u00e3o lembradas pela revela\u00e7\u00e3o de que seu resultado pode ter sido afetada pela Cambridge Analytica, uma vergonhosa ag\u00eancia de marketing que ilegitimamente coletou dados de milh\u00f5es de usu\u00e1rios do Facebook e os utilizou para a campanha de Donald Trump. O esc\u00e2ndalo estimulou um vasto debate sobre a frouxid\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o de privacidade nas m\u00eddias sociais e for\u00e7ou o Facebook a prometer uma redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica das informa\u00e7\u00f5es disponibilizadas pela sua API.\u201d<\/p><cite>(VENTURINI; ROGERS, 2019)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O artigo se desenvolve sob dois pilares: primeiro, quanto aos &#8220;aprendizados&#8221; que todos n\u00f3s &#8211; pesquisadores, mas tamb\u00e9m usu\u00e1rios e pessoas f\u00edsicas da sociedade civil &#8211; podemos adquirir do caso da CA; e, segundo, num debate (praticamente um pux\u00e3o de orelha bem dado) sobre como a pesquisa na internet se tornou limitada e monopolizada metodologicamente. H\u00e1 tamb\u00e9m, tanto no tom quanto de forma expl\u00edcita no texto, uma cr\u00edtica ferrenha \u00e0s pr\u00e1ticas de marketing que utilizam dados de usu\u00e1rios de m\u00eddias sociais para lucro corporativo em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o desses mesmos dados para pesquisa em Ci\u00eancias Sociais &#8211; um debate complicado, principalmente para mim, visto que estou em ambos os lados (ent\u00e3o deixemos para outra oportunidade).<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Aprendendo com o caso da Cambridge Analytica<\/h4>\n\n\n\n<p>Na primeira se\u00e7\u00e3o do texto os pesquisadores partem de duas falas proferidas por Zuckerberg em sua audi\u00eancia, destacando dois problemas: a ideia de que 1) <em><strong>&#8220;os dados produzidos pelas m\u00eddias sociais s\u00e3o poderosos, mas neutros &#8211; extremamente \u00fateis ou extremamente perigosos a depender de como ser\u00e3o utilizados&#8221;<\/strong><\/em> e que 2) <em><strong>&#8220;a solu\u00e7\u00e3o contra essa m\u00e1 utiliza\u00e7\u00f5es \u00e9 trancar esses dados dentro das plataformas para que n\u00e3o caiam nas m\u00e3os erradas&#8221;<\/strong><\/em> (p. 2). Os autores chamam aten\u00e7\u00e3o sobretudo para como essas argumenta\u00e7\u00f5es fazem parte da narrativa estrat\u00e9gica do Facebook para parecer <em>&#8220;um aventureiro trope\u00e7ando na lanterna m\u00e1gica de dados pessoais e sem querer libertar seu g\u00eanio&#8221;<\/em> &#8211; contra a mal\u00e9fica Cambridge Analytica (que seria o verdadeiro culpado).<\/p>\n\n\n\n<p>Remontando os acontecimentos, eles listam os seguintes fatos (e considera\u00e7\u00f5es):<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Num primeiro momento, a CA tentou comprar dados de um projeto antigo da Cambridge University &#8211; o teste <em>myPersonality<\/em>, um app do Facebook que coletou informa\u00e7\u00f5es sobre 6 milh\u00f5es de usu\u00e1rios a partir de um quiz de personalidade; al\u00e9m das respostas, o projeto tamb\u00e9m coletou informa\u00e7\u00f5es sobre os perfis e suas curtidas, mas nada sobre as amizades dos usu\u00e1rios que fizeram o teste; a negocia\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi pra frente porque os acad\u00eamicos se negaram \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o comercial dos dados coletados;<\/li><li>Num segundo momento, a CA resolveu replicar esse projeto com a ajuda do Prof\u00ba. Aleksandr Kogan, tamb\u00e9m pesquisador da Cambridge University, que lan\u00e7ara seu pr\u00f3prio projeto e cujos alunos foram posteriormente trabalhar no pr\u00f3prio Facebook; o app criado era mais improvisado e foi utilizado por menos de 300 mil usu\u00e1rios &#8211; os 80 milh\u00f5es de perfis &#8220;roubados&#8221; comumente noticiados pela imprensa s\u00e3o o total desses 300 mil + a m\u00e9dia de amigos de um usu\u00e1rio comum (267);<\/li><li>A v1.0 da Graph API permitia a coleta de dados n\u00e3o somente de usu\u00e1rios (que autorizaram a utiliza\u00e7\u00e3o de um app), mas tamb\u00e9m de sua lista de amigos; no entanto, as informa\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas &#8211; tanto ostentadas midiaticamente &#8211; s\u00f3 estavam dispon\u00edveis quanto aos quase 300.000 usu\u00e1rios que fizeram o teste, ou seja, 99,5% das entradas coletadas pela CA n\u00e3o continham informa\u00e7\u00f5es referente \u00e0 &#8220;abordagem psicol\u00f3gica&#8221; da empresa.<\/li><li>Os respondentes do teste de Kogan foram recrutados atrav\u00e9s de servi\u00e7os pagos, plataformas reconhecidas por trazer for\u00e7a de trabalho atrav\u00e9s de fazendas de cliques; o pr\u00f3prio Kogan, em sua audi\u00eancia, chamou os dados de &#8220;barulhento&#8221; e &#8220;sem valor&#8221; para an\u00fancios pol\u00edticos.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Ou seja, resumindo ainda nas palavras de Venturini e Rogers, <em>&#8220;o &#8216;big data&#8217; o qual a CA se gaba \u00e9 question\u00e1vel em qualidade e origem, falho por cobertura desigual e anti\u00e9tico em sua coleta&#8221;<\/em> (p. 3). O caso da Cambridge Analytica \u00e9 interessante por porque eles fizeram tudo numa brecha extremamente perigosa que o pr\u00f3prio Facebook deixou aberta por anos (que foi a v1.0 da Graph API) &#8211; <a href=\"https:\/\/medium.com\/@CKava\/why-almost-everything-reported-about-the-cambridge-analytica-facebook-hacking-controversy-is-db7f8af2d042?fbclid=IwAR2-cZfwuDMNlnhbMwpXPRSTpoSfvEdyNdAnuThG4x4M-Fl2ew1ySXJkLiY\">esse artigo<\/a> discute bem quanto a isso, basicamente argumentando como a pr\u00e1tica da empresa n\u00e3o \u00e9 nada do que ag\u00eancias do mundo inteiro n\u00e3o tenham feito nos \u00faltimos anos; e porque, mesmo assim, eles aparentemente fizeram tudo errado &#8211; como apontam (e batem com gosto) os pesquisadores, desfazendo seus argumentos (metodol\u00f3gicos).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www4.pictures.zimbio.com\/gi\/Aleksandr+Kogan+Senate+Commerce+Committee+iiHotDcz0R0l.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"209\"\/><figcaption>Aleksandr Kogan em depoimento sobre seu trabalho com a Cambridge Analytica<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Venturini e Rogers chamam aten\u00e7\u00e3o para os dois principais supostos trunfos da CA: a <em>&#8220;segmenta\u00e7\u00e3o de audi\u00eancia atrav\u00e9s de an\u00e1lise sofisticada de personalidade&#8221;<\/em> e a identifica\u00e7\u00e3o de ideias conspirat\u00f3rias para o direcionamento de fake news. Quanto ao primeiro, refor\u00e7am que eles s\u00f3 tinham os dados psicol\u00f3gicos de 300.000 usu\u00e1rios (e n\u00e3o 80 milh\u00f5es) e que basicamente o Facebook n\u00e3o tem uma op\u00e7\u00e3o de segmenta\u00e7\u00e3o para pessoas a partir de &#8220;estados da mente&#8221;, ent\u00e3o perfis psicol\u00f3gicos n\u00e3o seriam t\u00e3o \u00fateis assim; e, quanto ao segundo, \u00e9 muito mais prov\u00e1vel que tenham obtido essas informa\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de question\u00e1rios e focus group &#8211; do que atrav\u00e9s de rastros online.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, se o valor dos dados da Cambridge Analytica eram t\u00e3o irrelevantes e provavelmente n\u00e3o tiveram poder nenhum para an\u00fancios de campanhas pol\u00edticas, por que Zuckerberg n\u00e3o contra-argumentou quanto a isso em sua audi\u00eancia? Segundo os autores, por dois motivos:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li>Para que o Facebook fosse visto n\u00e3o como protagonista da hist\u00f3ria, mas como coadjuvante, <em>&#8220;um provedor de infraestrutura desajeitado, mas humilde&#8221;<\/em>;<\/li><li>Porque o Facebook faz basicamente a mesma coisa que a Cambridge Analytica fez (o que volta para o artigo que citei anteriormente), <em>&#8220;ambos sustentam seu mercado de an\u00fancios ostentando o poder de seus dados e social analytics&#8221;<\/em>.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Fechando essa se\u00e7\u00e3o com chave de ouro, em uma das cita\u00e7\u00f5es mais poderosas do texto, os autores explicam: <em>&#8220;As m\u00eddias sociais n\u00e3o liberaram descuidadamente levas de dados sens\u00edveis pr\u00e9-existentes que agora precisam ser controladas&#8221;<\/em>. Muito pelo contr\u00e1rio, <em>&#8220;elas [as empresas de m\u00eddias sociais] constru\u00edram proposital e implacavelmente a profecia auto-realiz\u00e1vel do &#8216;marketing computacional&#8217; e, para fazer isso, criaram um novo tipo de dado para sustent\u00e1-la&#8221;<\/em> (p. 3-4). Ou seja, as plataformas criaram, principalmente de uns anos pra c\u00e1, o pr\u00f3prio <a href=\"https:\/\/tarciziosilva.com.br\/blog\/por-que-empresas-de-midia-insistem-que-nao-sao-empresas-de-midia-por-que-estao-erradas-e-por-que-isso-importa\/\">ecossistema de venda de dados dos seus pr\u00f3prios usu\u00e1rios em troca de lucro<\/a> (e esse modelo de neg\u00f3cio \u00e9 o que as t\u00eam sustentado).<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Pesquisa com APIs e trabalho de campo digital<\/h4>\n\n\n\n<p>A segunda parte do texto basicamente discorre sobre aquela m\u00e1xima de que h\u00e1 males que vem para o bem. Depois de bater muito na Cambridge Analytica e no Facebook (e em ag\u00eancias de marketing em geral), Venturini e Rogers admitem que <em>&#8220;a crescente preocupa\u00e7\u00e3o p\u00fablica gerada por isso [o caso da CA] e por outros esc\u00e2ndalos recentes relacionados a campanhas eleitorais deve fazer com que [as APIs] fechem ainda mais&#8221;<\/em> (p. 4) e isso \u00e9 uma oportunidade para pesquisadores darem um passo para tr\u00e1s e repensarem o modo de fazer pesquisa online.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Registros digitais v\u00eam num n\u00edvel muito mais fino de agrega\u00e7\u00e3o do que demografia e question\u00e1rios. Eles permitem n\u00e3o apenas calibrar categorias e opini\u00f5es, mas examinar intera\u00e7\u00f5es <em>palavra por palavra<\/em>. Antes do advento da media\u00e7\u00e3o digital, isso s\u00f3 era poss\u00edvel nas pequenas e situadas comunidades as quais pesquisadores podiam observar etnograficamente. Hoje em dia, uma investiga\u00e7\u00e3o t\u00e3o sens\u00edvel quanto \u00e9 poss\u00edvel para popula\u00e7\u00f5es maiores, aumentando as possibilidades em tempo e espa\u00e7o.&#8221;<\/p><cite>(VENTURINI; ROGERS, 2019)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Eles argumentam que, principalmente nesta d\u00e9cada (na qual houve um estrondo absurdo tamb\u00e9m da popularidade de sites de redes sociais), pesquisadores acabaram tendo o trabalho enviesado pelas infraestruturas de coleta de registros digitais. <em>&#8220;Comparada a t\u00e9cnicas anteriores de coleta de registros digitais, as APIs das m\u00eddias sociais vieram como um presente de Deus, oferecendo imensa quantidade de dados acess\u00edveis em alguns cliques prontos para serem analisados&#8221;<\/em> (p. 4), explicam. Isso foi fruto, no entanto, de uma concentra\u00e7\u00e3o (e praticamente um monop\u00f3lio do Facebook) das discuss\u00f5es online que tamb\u00e9m fizeram parte do contexto de venda de an\u00fancio publicit\u00e1rio dessas plataformas (onde acontecem as discuss\u00f5es).<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Ao construir as infraestruturas necess\u00e1rias para apoiar e rastrear a crescente quantidade de intera\u00e7\u00f5es online e ao tornar os registros resultantes dispon\u00edveis atrav\u00e9s das APIs, as plataformas reduziram significativamente os custos dos dados de m\u00eddias sociais&#8221;<\/em>, explicam. <em>&#8220;A facilidade da pesquisa com APIs [ou API-research, a qual descrevem como &#8216;uma abordagem \u00e0s Ci\u00eancias Sociais Computacionais e Sociologia Digital baseada na extra\u00e7\u00e3o de registros de datasets disponibilizados por plataformas onlines atrav\u00e9s das suas interfaces de aplica\u00e7\u00e3o de programa\u00e7\u00e3o (APIs)&#8217;] &#8211; veio com o pre\u00e7o de aceitar a padroniza\u00e7\u00e3o particular operada pelas plataformas de m\u00eddias sociais e o enviesamento que vem junto&#8221;<\/em> (p. 5), completam.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui os autores chamam aten\u00e7\u00e3o de um assunto sobre o qual eu penso j\u00e1 h\u00e1 algum tempo: a euforia (negligente) dos dados. N\u00f3s, tanto pesquisadores acad\u00eamicos quanto profissionais do mercado, criamos uma bolha que eventualmente iria estourar. <em>&#8220;Num frenesi consumista, n\u00f3s estocamos dados como commodities produzidas em massa&#8221;<\/em>, alertam. <em>&#8220;A pesquisa com APIs \u00e9 culpada (pelo menos em parte) por espalhar o hype dos dados de m\u00eddias sociais, reduzindo a diversidade de m\u00e9todos digitais ao estudo de plataformas online, e por espalhar as ideias pr\u00e9-concebidas de que o Facebook, o Google, o Twitter e seus semelhantes s\u00e3o os mestres do debate online, e n\u00e3o h\u00e1 alternativas a n\u00e3o ser viver sob as migalhas de suas APIs&#8221;<\/em> (p. 5).<\/p>\n\n\n\n<p>Como mencionei anteriormente, portanto, sobre males que vem para o bem, eles argumentam que <em>&#8220;o fechamento das APIs das m\u00eddias sociais devem nos lembrar de que din\u00e2micas coletivas existiam muito antes das plataformas sociais (e ainda existem junto a elas&#8221;<\/em> &#8211; e, portanto, &#8220;<em>n\u00e3o s\u00e3o a \u00fanica maneira de estudar fen\u00f4menos online&#8221;<\/em> (p. 5). Dentre algumas alternativas poss\u00edveis, citam &#8220;crawling&#8221; e &#8220;scraping&#8221; tanto quanto participar ativamente dos websites para gerar registros v\u00e1lidos. E ainda que esses m\u00e9todos de pesquisa tenham seus enviesamentos e limita\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de serem dif\u00edceis e trabalhosos, Venturini e Rogers argumentam que esses &#8220;maus necess\u00e1rios&#8221; t\u00eam pelo menos tr\u00eas vantagens:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li>A coleta de registros feito de maneira direta (e n\u00e3o pelas APIs) permite que os pesquisadores tamb\u00e9m analisem as din\u00e2micas da plataforma tal qual os usu\u00e1rios as vivenciam &#8211; a intera\u00e7\u00e3o com os atores\/participantes pode ainda ser um ponto positivo (como no caso de moderadores fornecendo o arquivo de discuss\u00e3o de um grupo), encorajando o di\u00e1logo entre ambas as partes;<\/li><li>O fechamento das APIs de gigantes como Facebook, Twitter e Google for\u00e7a voltarmos o olhar a outras alternativas de fonte de dados que, a depender do assunto, podem conter informa\u00e7\u00f5es muito mais valiosas;<\/li><li>N\u00e3o \u00e9 o fim da coleta de dados de grandes plataformas, com solu\u00e7\u00f5es em parcerias entre pesquisa e ind\u00fastria como no projeto Social Science One.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Novamente fechando com grande estilo, eles argumentam que <em>&#8220;as restri\u00e7\u00f5es de APIs podem acabar sendo algo bom se encorajarem pesquisadores a voltarem ao trabalho de campo&#8221;<\/em>. Explicam que <em>&#8220;reduzir nossa depend\u00eancia em dados padr\u00f5es das APIs n\u00e3o significa desistir do projeto de colher dados ricos de grandes popula\u00e7\u00f5es, mas implica em investir nos esfor\u00e7os necess\u00e1rios para cultivar tais dados&#8221;<\/em>. Para finalizar num tom mais ameno: <em>&#8220;a consulta de APIs por si s\u00f3 pode ser uma forma de trabalho de campo quando n\u00e3o \u00e9 uma acumula\u00e7\u00e3o de atacado de dados s\u00f3 pela larga quantidade, mas um trabalho cuidadoso de extra\u00e7\u00e3o desenvolvido em colabora\u00e7\u00e3o com as plataformas e seus usu\u00e1rios&#8221;<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Algumas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<\/h4>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima se\u00e7\u00e3o, mais curta (e concisa) que as demais, eles discorrem brevemente sobre a ideia de que as m\u00eddias sociais seriam o principal &#8211; \u00fanico e\/ou melhor &#8211; meio para estudar fen\u00f4menos sociais. Nesse sentido, eles discutem sobre as plataformas n\u00e3o essencialmente sob uma perspectiva metodol\u00f3gica, mas sob um olhar mais apurado &#8211; cr\u00edtico e te\u00f3rico, eu diria &#8211; sobre as din\u00e2micas sociais as quais sustentam e pelas quais s\u00e3o sustentadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles argumentam que o caso da Cambridge Analytica evidencia &#8220;o qu\u00e3o facilmente o debate p\u00fablico pode ser polu\u00eddo por marketing computacional&#8221;. Citando Henry Jenkins, afirmam que a influ\u00eancia dos dados de m\u00eddias sociais e seus sistemas de mensura\u00e7\u00e3o s\u00e3o maiores quando servem \u00e0 proposta fruto da sua ess\u00eancia, que \u00e9 <em>&#8220;promover o tipo de aten\u00e7\u00e3o superficial mais adequada ao sistema contempor\u00e2neo de propaganda e entretenimento&#8221;<\/em>. Esses sistemas foram desenvolvidos <em>&#8220;para promover uma audi\u00eancia de consumidores cujas caracter\u00edsticas s\u00e3o opostas \u00e0quelas de um p\u00fablico democr\u00e1tico saud\u00e1vel&#8221;<\/em> (p. 7).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Por elas [as plataformas de m\u00eddias sociais] focarem em a\u00e7\u00f5es sem esfor\u00e7o como um clique, uma curtida e um compartilhamento, os sistemas de mensura\u00e7\u00e3o promovem um tipo de engajamento que \u00e9 f\u00e1cil e de pouca dura\u00e7\u00e3o; por mensurar essas a\u00e7\u00f5es de maneira individualizada (em vez de comunit\u00e1ria), eles alimentam popularidade individual em vez de a\u00e7\u00e3o coletiva. Por isso resistir ser &#8216;capturado&#8217; pela infraestrutura das m\u00eddias sociais \u00e9 crucial n\u00e3o apenas metodologicamente, mas tamb\u00e9m politicamente&#8221;.<\/p><cite>(VENTURINI; ROGERS, 2019)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Seja como indiv\u00edduo (usu\u00e1rio) ou pesquisador, \u00e9 preciso ter cautela perante os sites de redes sociais. Como o \u00faltimo, levar sempre em considera\u00e7\u00e3o seu contexto de produ\u00e7\u00e3o e seus enviesamentos: <em>&#8220;pesquisa atrav\u00e9s de plataformas de m\u00eddias devem sempre tamb\u00e9m ser pesquisa sobre plataformas de m\u00eddia&#8221;<\/em> (p. 8). Para Venturini e Rogers, precisamos abdicar do &#8220;conforto&#8221; das APIs e voltar a campo (digitalmente) se quisermos entender e apoiar o trabalho de atores sociais e pol\u00edticos que anseiam por um debate p\u00fablico saud\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Venturini, Tommaso, and Richard Rogers. 2019. <em>\u201c\u2018API-Based Research\u2019 or How Can Digital Sociology and Digital Journalism Studies Learn from the Cambridge Analytica Affair.\u201d<\/em> <strong>Digital Journalism<\/strong>, Forthcoming.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em setembro do ano passado, trouxe aqui para o blog o texto \u201cComputational research in the post-API age\u201d, do pesquisador Dr. Deen Freelon,&nbsp; no qual ele faz algumas considera\u00e7\u00f5es sobre o futuro da pesquisa computacional no que ele chamou de &#8220;era p\u00f3s-APIs&#8221;. 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