{"id":2408,"date":"2016-09-06T09:34:10","date_gmt":"2016-09-06T12:34:10","guid":{"rendered":"http:\/\/insightee.com.br\/blog\/?p=2408"},"modified":"2016-09-08T14:32:39","modified_gmt":"2016-09-08T17:32:39","slug":"politica-e-identidade-em-rede-reflexoes-sobre-praticas-sociais-contemporaneas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/insightee.com.br\/blog\/politica-e-identidade-em-rede-reflexoes-sobre-praticas-sociais-contemporaneas\/","title":{"rendered":"Pol\u00edtica e identidade em rede: reflex\u00f5es sobre pr\u00e1ticas sociais contempor\u00e2neas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Come\u00e7o este post avisando que daqui deve sair um misto de di\u00e1rio pessoal (devaneios), artigo acad\u00eamico e publica\u00e7\u00e3o para a web. Se tudo encaminhar conforme minimamente organizado na minha mente, esse \u00e9 o formato j\u00e1 instaurado e que continuar a seguir.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante do caos social e pol\u00edtico que se estabeleceu no Brasil nesta semana, um dia ap\u00f3s o processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, tomei a humilde decis\u00e3o de associar uma esp\u00e9cie de &#8220;adesivo virtual&#8221; \u00e0 minha foto de perfil do Facebook &#8211; com o simples fundamento, na minha cabe\u00e7a, de que &#8220;n\u00e3o dava mais para n\u00e3o se posicionar&#8221;. Esse pensamento &#8220;f\u00e1cil&#8221; se alinha ao fato de que: 1) demonstrei meu apoio a um candidato \u00e0 prefeitura do Rio de Janeiro, sendo que n\u00e3o resido atualmente na cidade; 2) mesmo que tivesse demonstrado o apoio a um candidato que simpatizo na minha cidade atual, seria um apoio simb\u00f3lico, pois meu t\u00edtulo eleitoral ainda pertence \u00e0 cidade onde cresci, no Nordeste. Ou seja, naquele momento, o motivo por tr\u00e1s da minha a\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha nenhum valor &#8220;efetivo&#8221;, apenas simb\u00f3lico &#8211; deixar claro a todos (amigos e desconhecidos) qual \u00e9 o meu posicionamento pol\u00edtico e quais valores est\u00e3o associados\u00a0a ele. E a\u00ed passei o dia refletindo sobre o assunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium\" src=\"http:\/\/www.movilescolombia.com\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Facebook_.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"371\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trago aqui, portanto, alguns pensamentos, reflex\u00f5es e devaneios pelos quais passeei durante os \u00faltimos dias. Antes de abrir essa porta, no entanto, acho importante dizer que fui atr\u00e1s de bibliografia que me ajudasse a entender sobre o tema. Quem me conhece, conhece o blog ou j\u00e1 leu a p\u00e1gina <a href=\"https:\/\/insightee.com.br\/blog\/sobre\/\">sobre mim<\/a> daqui sabe o quanto eu valorizo a compreens\u00e3o social (da sociedade) estruturada\u00a0nas metodologias acad\u00eamicas. Aprendi com uma querid\u00edssima professora e n\u00e3o cansarei de propagar\u00a0que as leituras da universidade (de &#8220;humanas&#8221;, pelo menos) nos ajudam a entender melhor o mundo em que vivemos. Busquei, portanto, em fontes confi\u00e1veis cujo trabalho j\u00e1 tive contato superficial em outros momentos: Raquel Recuero e F\u00e1bio Malini. Esses pesquisadores, no entanto, apesar de trabalharem bastante com a quest\u00e3o de pol\u00edtica em rede, n\u00e3o abordam o tema pensando a constru\u00e7\u00e3o de identidade, mas propondo (geralmente) an\u00e1lises de discurso pautado em dados de SRSs. Embora seja um bom ponto de partida para entender o contexto, n\u00e3o atendem \u00e0 minha demanda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m procurei no Google Acad\u00eamico, no Google normal e no Sci-Hub: n\u00e3o encontrei nada que se encaixasse minimamente na minha linha de racioc\u00ednio reflexivo. Confesso que a busca n\u00e3o foi t\u00e3o apurada assim &#8211; tivesse menos ansioso para escrever sobre o assunto, talvez teria encontrado alguns materiais que dialogassem comigo de alguma forma. Portanto, pe\u00e7o humildemente ao caro leitor que: 1) caso conhe\u00e7a algum artigo, disserta\u00e7\u00e3o, tese ou qualquer produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica\u00a0que corresponda aos pensamentos que vou expor aqui, ofere\u00e7a tais sugest\u00f5es na se\u00e7\u00e3o de coment\u00e1rios &#8211;\u00a0agrade\u00e7o desde j\u00e1; 2) perdoa-me pela irresponsabilidade cient\u00edfica &#8211; mas lembra que isso \u00e9 um blog e o formato desse texto j\u00e1 n\u00e3o corresponde \u00e0s severas diretrizes da academia. Antes de abordar algumas quest\u00f5es relacionadas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de identidade em sites de redes sociais (contextualiza\u00e7\u00e3o importante para estruturar as ideias que compartilharei em seguida), trago aqui um trecho do livro <a href=\"http:\/\/discovery.ucl.ac.uk\/1474805\/1\/How-the-World-Changed-Social-Media.pdf\" target=\"_blank\">&#8220;How the World Change Social Media&#8221;<\/a>, que mapeia minimamente a bibliografia &#8211; internacional &#8211; sobre pol\u00edtica e internet:<\/p>\n<blockquote><p>The immense literature available on the internet and politics, and more specifically on politics and social media, has changed over time. It began with a focus upon the role of the internet in new social movements in the 1990s, and was followed by the problem of digital divides and e-governance, the role of Web 2.0 platforms and user-generated content. Most recent studies have considered the consequences of the affordances of WiFi and mobile media such as smartphones, particularly regarding their role in organising collective political activity. Chadwick and Howard present an excellent volume on the critical debates about the relationship between the internet, state politics and citizenship, while Postill concisely summarises key research in digital politics and the ways in which ethnographic inquiry contributes to understanding\u00a0the ecologies of protest movements. In the early 2000s there was a distinct sense of optimism around e-governance and e-government, and the potential they offered for bridging the digital divide. The internet and social networking sites were seen to be transforming \u2018the public sphere\u2019, a concept associated with social theorist Jurgen Habermas. More recently attention has been turned to the role of social media in organising political action, particularly in the various regional experiences of the Arab Spring. This was in a sense the turning point in such studies, prompted by Morozov\u2019s work on the use of digital technologies for political repression during these events. Since then there has been a growing body of research critical of assumptions that the main role of digital technologies is to increase meaningful democratic participation. However, there is also considerable interest in the use of new media as the basis for alternative forms of collective action, for example research by the anthropologist Coleman on Anonymous and other online political activists.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.ucl.ac.uk\/ucl-press\/browse-books\/images\/how-world-changed-social-media\/How_the_world_changed_social_media_800px.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright \" src=\"https:\/\/www.ucl.ac.uk\/ucl-press\/browse-books\/images\/how-world-changed-social-media\/How_the_world_changed_social_media_800px.jpg\" alt=\"\" width=\"211\" height=\"318\" \/><\/a>A publica\u00e7\u00e3o faz parte da s\u00e9rie <a href=\"https:\/\/www.ucl.ac.uk\/why-we-post\/portuguese\" target=\"_blank\">Why We Post<\/a>, um projeto\u00a0de pesquisa comandado por Daniel Miller da\u00a0University College London. Assinam, al\u00e9m do pr\u00f3prio,\u00a0Elisabetta Costa, Nell Haynes, Tom McDonald, Razvan Nicolescu, Jolynna Sinanan, Juliano Spyer, Shriram Venkatraman e Xinyuan Wang, com uma vis\u00e3o antropol\u00f3gica sobre o uso das m\u00eddias sociais no Brasil, Chile, China, Inglaterra, \u00cdndia, It\u00e1lia, Trindade e Turquia. Vale lembrar que, al\u00e9m das 11 publica\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o publicadas at\u00e9 o final do projeto (tr\u00eas j\u00e1 est\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.ucl.ac.uk\/ucl-press\/why-we-post\" target=\"_blank\">dispon\u00edveis para download no site oficial<\/a>), a terceira turma do curso correspondente ao projeto que come\u00e7ar\u00e1 em 31 de outubro na FutureLearn est\u00e1 com as <a href=\"https:\/\/insightee.com.br\/blog\/futurelearn-10-cursos-para-profissionais-de-monitoramento-e-metricas-com-inscricoes-abertas\/\" target=\"_blank\">inscri\u00e7\u00f5es abertas<\/a>! Caso voc\u00ea tenha interesse no assunto (n\u00e3o s\u00f3 na tem\u00e1tica pol\u00edtica, mas pensar as m\u00eddias sociais de maneira antropol\u00f3gica como um todo), recomendo veemente tentar fazer o curso &#8211; ser\u00e1 a minha tamb\u00e9m terceira tentativa de participar e eu garanto que dessa vez n\u00e3o passa. Mas voltemos ao que interessa&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como muito bem detalhadamente explica a cita\u00e7\u00e3o, os estudos sobre pol\u00edtica e internet durante as \u00faltimas d\u00e9cadas\u00a0t\u00eam observado a tem\u00e1tica majoritariamente sobre o vi\u00e9s &#8220;tecnol\u00f3gico&#8221;, debatendo a funcionalidade das novas m\u00eddias digitais enquanto influ\u00eancia pol\u00edtica na sociedade. A minha proposta para o post \u00e9 pensar &#8211; e reitero: pensar, refletir, filosofar, sem nenhum compromisso de &#8220;responsabilidade&#8221; &#8211; o assunto pol\u00edtica no que tange \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do sujeito online. Para n\u00e3o dizer\u00a0que n\u00e3o encontrei nada sobre a tem\u00e1tica conforme minha linha de pensamento, compartilho aqui a conclus\u00e3o do cap\u00edtulo espec\u00edfico sobre pol\u00edtica do livro supracitado do Miller, ap\u00f3s uma an\u00e1lise que identifica tr\u00eas problem\u00e1ticas relativas \u00e0s normas de relacionamento nos sites de redes sociais, \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o de monitoramento estatal sobre quest\u00f5es de pol\u00edtica nacional em diferentes pa\u00edses e como essas duas coisas causam diferentes abordagens do t\u00f3pico nas conversa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">In general we have found that, if one turns to ordinary field sites, politics on social media has a much lower profile than we might otherwise have expected. In some cases this may be because it is suppressed, leading to a highly conservative representation of people\u2019s lives and opinions online. In other cases, however, it is because social media is more associated with entertainment and social bonding than with serious issues such as politics.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema \u00e9 que essa conclus\u00e3o n\u00e3o me atende. Desde 2013 a tem\u00e1tica pol\u00edtica n\u00e3o tem sa\u00eddo das pautas de conversa dos sites de redes sociais no Brasil, como corroboram v\u00e1rios &#8211; centenas? &#8211; de artigos acad\u00eamicos que fizeram quest\u00e3o de abordar o assunto nos \u00faltimos anos.\u00a0S\u00f3 coloquei esse trecho para refor\u00e7ar que eu procurei, sim, bibliografia\u00a0sobre a din\u00e2mica da qual o post trata. Na verdade, a cita\u00e7\u00e3o me permite puxar um gancho que j\u00e1 tinha passado pela minha cabe\u00e7a e trago aqui para come\u00e7ar a teorizar (irresponsavelmente) sobre alguns desdobramentos da tem\u00e1tica; eu compartilho com o pensamento do campo dos Estudos Culturais que reconhecem a cultura como arena de disputas onde se travam as principais lutas pol\u00edticas e sociais. Muitos autores tamb\u00e9m abordam\u00a0esse t\u00f3pico falando n\u00e3o (apenas) de cultura, mas tamb\u00e9m de discurso: Bahktin, Certeau, Bhabha, Hall e o pr\u00f3prio Foucault para falar de rela\u00e7\u00f5es de saber e rela\u00e7\u00f5es de poder. O que quero dizer \u00e9: quando falamos de pol\u00edtica, falamos de cultura; quando falamos de cultura, falamos sobre disputa e rela\u00e7\u00f5es de poder (pol\u00edtica).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a\u00ed precisamos resgatar Hall em <em>&#8220;A centralidade da cultura: notas sobre as revolu\u00e7\u00f5es culturais do nosso tempo&#8221;<\/em> para entender como o debate entrou em pauta.\u00a0No texto, ele explica que a cultura, desde o seu sentido mais amplo (produ\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos, valores, tradi\u00e7\u00f5es, etc. que todo grupo social tem), \u00e9 fundamental. No entanto, \u00e9 a partir do s\u00e9culo XX que a ela se torna uma problem\u00e1tica para o homem ocidental \u2013 quando, por volta da d\u00e9cada de 50 e 60, torna-se central e substancial, numa esp\u00e9cie de revolu\u00e7\u00e3o cultural que materializa a cultura, onde n\u00e3o h\u00e1 como escapar da discuss\u00e3o a que a cerca. Nesse contexto, quatro eixos da vida contempor\u00e2nea podem ser compreendidos como condicionadores de sua substancializa\u00e7\u00e3o: a expans\u00e3o dos meios tecnol\u00f3gicos (cultura das m\u00eddias); a cultura e a globaliza\u00e7\u00e3o (multiculturalismo); cultura e cotidiano (o materialismo da sociedade de consumo de bens culturais); e cultura e identidade (subjetividades), o sujeito social e o sujeito eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse quarto eixo \u00e9 o que mais me interessa no momento e que, de certa forma, abarca o contexto social que vivemos hoje &#8211; a ascens\u00e3o individualista do sujeito e sua constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica (identidade). N\u00e3o \u00e9 por acaso que essa &#8220;virada cultural&#8221; acontece tamb\u00e9m numa \u00e9poca onde h\u00e1 um levante forte de movimentos sociais (negros, mulheres, LGBTs) que atuam\u00a0nesse dualismo entre sujeito e coletivo &#8211; \u00e9 preciso se reconhecer individualmente enquanto homossexual, por exemplo, enquanto tamb\u00e9m faz-se mais que necess\u00e1rio compreender o grupo no qual minhas viv\u00eancias e experi\u00eancias de vida s\u00e3o contempladas. Sobre isso, trago mais uma explica\u00e7\u00e3o acerca do pensamento de Hall que ajuda a desbravar as ideias:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Hall partilha da id\u00e9ia de que a identidade n\u00e3o pode ser tomada de forma cristalizada, mas sim como um processo. E prop\u00f5e duas maneiras de se pensar a \u201cidentidade cultural\u201d, que aqui tomo como refer\u00eancia para a identidade social. A primeira posi\u00e7\u00e3o, diz ele, define identidade cultural nos termos de uma cultura partilhada, criando um tipo de pertencimento verdadeiro e coletivo. Seria, portanto, uma constru\u00e7\u00e3o de identidades por um partilhamento de interesses e vis\u00f5es. No entanto, existiria uma segunda via, que trabalhar\u00e1 a partir das diferen\u00e7as, do reconhecimento de um com outro, com quem se estabelecer\u00e3o rela\u00e7\u00f5es conflituosas e por vezes complementares. Portanto, para o autor, \u00e9 imposs\u00edvel pensar a constru\u00e7\u00e3o das identidades como resultante somente de partilhamentos de pontos comuns, ou do estabelecimento de contrastes e oposi\u00e7\u00f5es. A produ\u00e7\u00e3o da identidade, enquanto processo, deve conter os dois eixos ou vetores, como ele mesmo chama. (ENNE e LACERDA, 2011)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em &#8220;A identidade cultural na p\u00f3s-modernidade&#8221;, dialogando com Giddens e Bauman, Hall tamb\u00e9m vai ratificar o car\u00e1ter multifacetado e fragmentado das\u00a0constru\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias na contemporaneidade. Esse discurso \u00e9 complementado por Goffman que afirma <em>&#8220;que\u00a0todos performatizamos aspectos das nossas identidades, atuando de modos diversos em diferentes meios sociais e para diferentes p\u00fablicos&#8221;<\/em>. Ou seja, \u00e9 tudo encena\u00e7\u00e3o &#8211; e aqui \u00e9 mais do que necess\u00e1rio remover qualquer valor de julgamento que englobe a palavra maneira pejorativa; mas se nos constru\u00edmos na intera\u00e7\u00e3o com o outro, \u00e9 no m\u00ednimo compreens\u00edvel que vivemos de performance(s). No ciberespa\u00e7o, de maneira bem mais controlada (em todos os sentidos),\u00a0&#8220;os atores sociais optam por tornar vis\u00edveis e ocultar determinados conte\u00fados nos sites de redes sociais, em um processo marcado pela escolha em grande medida consciente e refletida\u00a0sobre os materiais apropriados em seus perfis&#8221; (POLIVANOV, 2014).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Trata-se, portanto, de uma constru\u00e7\u00e3o discursiva performatizada, dirigida para uma audi\u00eancia (imaginada) (BOYD, 2011), que permite sua autoapresenta\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o com outros nesse lugar, sempre atravessada pelos discursos de outros atores com os quais interage (BERTO E GON\u00c7ALVES, 2011). [&#8230;] Os perfis dos atores no Facebook s\u00e3o personas [&#8230;]\u00a0no sentido de serem constru\u00e7\u00f5es ou vers\u00f5es de si que os atores sociais \u2013 com mais ou menos cuidado e n\u00edvel de autorreflex\u00e3o \u2013 elaboram (e reelaboram constantemente) performaticamente, selecionando comportamentos e materiais de acordo com a impress\u00e3o que querem causar \u00e0 sua audi\u00eancia em\u00a0determinado momento.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pesquisas de Miller (2011) e Polivanov (2012), embora tenham uma considera\u00e7\u00e3o semelhante de que h\u00e1, nesses ambientes, uma busca por sociabilidade e express\u00e3o de si, n\u00e3o chegam a discutir\/abordar conte\u00fados de teor pol\u00edtico como estrat\u00e9gia tamb\u00e9m na constru\u00e7\u00e3o da identidade online &#8211; talvez pelo &#8220;distanciamento&#8221; dos objetivos de pesquisa desse tema. A lacuna, portanto, fica aberto para que pensemos juntos como esse conte\u00fado \u00e9 ativo pelos atores sociais e por quais motivos s\u00e3o acionados de tal maneira. Sabendo que a vis\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 um marcador tradicional de identidade (PEMPEK, YERMOLAYEVA e CALVERT, 2009 apud POLIVANOV, 2012) que, assim, como religi\u00e3o, idade, renda, orienta\u00e7\u00e3o sexual, etc., eram informa\u00e7\u00f5es consideradas para as gera\u00e7\u00f5es anteriores extremamente pessoais e particulares (LIVINGSTONE, 2012 apud POLIVANOV, 2012), o que significa para os indiv\u00edduos &#8211; enquanto sujeitos que criam suas identidades pluralmente &#8211; entrar nesse novo campo de esfera p\u00fablica e travar as disputas que alavancam?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para responder a essa pergunta (talvez\u00a0o principal motivo de ter feito esse post), vou recorrer a uma teoria minha que explicarei brevemente e num outro momento pretendo escrever sobre aqui no blog. Antes, novamente, pe\u00e7o licen\u00e7a aos mais academicistas para deixar de lado as cita\u00e7\u00f5es (nem tanto), o aporte te\u00f3rico e, como j\u00e1 citado anteriormente, a responsabilidade cient\u00edfica dessa(s) teoria(s). Estou falando enquanto personagem desse contexto atrav\u00e9s da minha compreens\u00e3o de mundo, sem me preocupar com qualquer discuss\u00e3o coletiva acerca dessas problem\u00e1ticas &#8211; poderia, por exemplo, conduzir entrevistas com algumas pessoas para obter um respaldo metodol\u00f3gico que me permitisse basear com mais crit\u00e9rios os argumentos que apresento. No entanto, ratifico porque sinto que preciso ter (pelo menos) essa responsabilidade: \u00e9 um devaneio pessoal e particular, a partir de preposi\u00e7\u00f5es sociais e culturais que me atravessam, \u00e9 claro, mas n\u00e3o mais que isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo, voltemos ao momento quando decidi apoiar simbolicamente um candidato \u00e0 prefeitura do Rio de Janeiro. Como j\u00e1 mencionei anteriormente, a minha decis\u00e3o para o ato foi completamente pautada no outro: queria mostrar \u00e0s pessoas quais valores eu compreendo enquanto cidad\u00e3o para uma pol\u00edtica p\u00fablica respons\u00e1vel. No entanto, como os pr\u00f3prios autores que mencionei aqui no post, esse jogo identit\u00e1rio se d\u00e1 tanto no campo coletivo quanto no campo pessoal. No primeiro, recorro a recursos imag\u00e9ticos de significa\u00e7\u00e3o que precisam ser compreendidos pelos demais para que seja feita a associa\u00e7\u00e3o desejada entre os valores e a pessoa. No segundo, a minha pr\u00f3pria decis\u00e3o de fazer isso deve corresponder aos meus processos de experi\u00eancia de vida que me atravessaram durante todos esses anos, correspondendo \u00e0 minha compreens\u00e3o de mundo e como ela fez morada em mim para que eu pudesse ent\u00e3o compartilhar com os outros o que isso significa para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, afinal, por que recorrer a essas estrat\u00e9gias de constru\u00e7\u00e3o de identidade (que, como mencionado, antes n\u00e3o eram colocadas em discuss\u00e3o) quando podemos buscar ferramentas midi\u00e1ticas mais f\u00e1ceis para assim a fazermos? A resposta \u00e9 bastante diplom\u00e1tica: uma n\u00e3o exclui nem abdica da outra. E a\u00ed retomo novamente Hall para ratificar\u00a0o perfil multifacetado das identidades na contemporaneidade, al\u00e9m da &#8220;virada cultural&#8221; que p\u00f4s no centro das discuss\u00f5es tudo que engloba cultura enquanto a compreendemos. Por mais que os editoriais de revistas e outros produtos midi\u00e1ticos insistam em dissociar pol\u00edtica e cultura (isso por apreender cultura numa fus\u00e3o iluminista e rom\u00e2ntica, na qual o passado \u00e9 venerado para a ilumina\u00e7\u00e3o espiritual do indiv\u00edduo), enxergo que as duas for\u00e7as nem deveriam ser chamados de campos distintos, uma vez que est\u00e3o completamente entrela\u00e7ados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 de se esperar, ent\u00e3o, que, quando surge um &#8220;novo&#8221; espa\u00e7o cibern\u00e9tico de sociabilidade, todos os tr\u00e2mites culturais ocupem esse novo ambiente. As arenas de disputa de significado e significa\u00e7\u00e3o, portanto, tamb\u00e9m est\u00e3o projetadas nesses espa\u00e7os online &#8211; por isso as <a href=\"http:\/\/thinkolga.com\/2015\/10\/26\/hashtag-transformacao-82-mil-tweets-sobre-o-primeiroassedio\/\" target=\"_blank\">&#8220;brincadeiras&#8221; (sic) de den\u00fancia social<\/a> s\u00e3o t\u00e3o <a href=\"http:\/\/blog.ibpad.com.br\/index.php\/2015\/10\/23\/a-mobilizacao-primeiroassedio-apoio-agrupamentos-e-conflito-online\/\" target=\"_blank\">importantes<\/a> quanto \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es off-line, porque os sites de redes sociais tornaram-se locais de luta de significado que interferem diretamente na cultura de um grupo enquanto na\u00e7\u00e3o. Esse embate reflete tamb\u00e9m a constru\u00e7\u00e3o de personas dos indiv\u00edduos online, que cada vez mais s\u00e3o estimulados a entrarem nesse campo de debate e tomarem uma posi\u00e7\u00e3o (arriscada ou n\u00e3o) pol\u00edtica de assuntos sociais. \u00c9 o que fazemos quando compartilhamos textos, imagens, v\u00eddeos de ve\u00edculos com editoriais detalhadamente localizados politicamente, grupos\/coletivos de movimentos sociais ou pessoas que compartilham dos nossos valores. A luta tamb\u00e9m acontece no campo discursivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para fechar, lembro a todos que a minha ades\u00e3o foi feita (embora o conte\u00fado que eu compartilho j\u00e1 revelasse meu posicionamento) atrav\u00e9s da foto de perfil, o que implica em mais algumas discuss\u00f5es sobre o assunto, conforme a pr\u00f3pria Polivanov (2014) destaca no seu estudo. No mais, agrade\u00e7o a todos que chegaram at\u00e9 aqui e pe\u00e7o desculpas por qualquer inconveni\u00eancia de irresponsabilidade cient\u00edfica no texto &#8211; sim, toco nesse ponto novamente porque sei como as pessoas da internet s\u00e3o estimuladas a expor o erro do outro. No mais, espero que a reflex\u00e3o tenha feito sentido e que agregue ao pensamento de quem chegou at\u00e9 aqui &#8211; estou mais que disposto a trocar ideias sobre o assunto seja nos Coment\u00e1rios ou em outro local mais privado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p><em>COSTA, Elisabetta; HAYNES, Nell; MCDONALD, Tom; MILLER, Daniel; NICOLESCU, Razvan; SINANAN, Jolynna; \u00a0SPYER, Juliano; VENKATRAMAN, Shriram; WANG, Xinyuan. How the World Changed Social Media. UCL, 2016.<\/em><\/p>\n<p><em>ENNE, Ana; LACERDA, Andressa. G\u00edrias, hibridiza\u00e7\u00f5es, negocia\u00e7\u00f5es, nega\u00e7\u00f5es: o discurso como objeto e lugar de disputas na arena da cultura. ENECULT &#8211; Salvador, BA, 2011.<\/em><\/p>\n<p><em>HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revolu\u00e7\u00f5es culturais do nosso tempo. Porto Alegre: Educa\u00e7\u00e3o &amp; Realidade, 1997.<\/em><\/p>\n<p><em>HALL, Stuart. A identidade cultural na p\u00f3s-modernidade. Rio de Janeiro: DP&amp;A Editora, 2005.<\/em><\/p>\n<p><em>MILLER, Daniel. Tales from Facebook. Cambridge \/ Malden: Polity Press, 2011.<\/em><\/p>\n<p><em>POLIVANOV,\u00a0Beatriz.\u00a0Din\u00e2mica identit\u00e1rias no Facebook: estrat\u00e9gias de publiciza\u00e7\u00e3o e ocultamento de conte\u00fados.\u00a0XII Congreso ALAIC, 2014.<\/em><\/p>\n<p><em>POLIVANOV, Beatriz. Din\u00e2micas de autoapresenta\u00e7\u00e3o em sites de redes sociais: performance, autorreflexividade e sociabilidade em cenas de m\u00fasica eletr\u00f4nica. Niter\u00f3i, RJ, 2012.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7o este post avisando que daqui deve sair um misto de di\u00e1rio pessoal (devaneios), artigo acad\u00eamico e publica\u00e7\u00e3o para a web. Se tudo encaminhar conforme minimamente organizado na minha mente, esse \u00e9 o formato j\u00e1 instaurado e que continuar a seguir. 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