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Mapeando o Nordeste no Facebook: primeiros apontamentos com análise de redes sociais

Embora possa por vezes parecer eterna ou natural aos brasileiros, a ideia de Nordeste é de pouco mais de um século, sua origem remontando à reação política ao desmantelamento das economias do açúcar e do algodão e à busca de uma solução para a crise enfrentada conjuntamente pelas províncias brasileiras que delas dependiam. É somente nesse momento que começa a ruir a percepção provincial então vigente e que se elabora um discurso regionalista e nordestino, o qual se define e se afirma não apenas em oposição ao seu “outro” mais próximo – o ‘Sul’ cafeeeiro –, mas também em relação a um passado de suposto bem estar e harmonia. É através desse discurso e das ações oficiais dele derivadas que se demarca o espaço do que é Nordeste e se conforma uma identidade cultural nordestina, a qual legitima e representa, simbolicamente, aquele espaço. (ANJOS, 2000, pp. 47-48).

É extremamente difícil pensar que o Nordeste, assim como qualquer outra região/país/território, é apenas uma categoria discursiva. Isso não quer dizer que ela exista apenas no mundo semântico (das ideias), mas que ela se materializa nas nossas dinâmicas sociais através de um “ato mágico” performático que nos convenciona, enquanto seres humanos inteligíveis, um acordo sobre como entendemos as delimitações do espaço físico. A própria etimologia da palavra “região” traz consigo a ideia de regere sacra: uma espécie de crença mágica que confere àquele que está regendo uma autoridade/legitimidade que se faz acreditar nessa regência (e isso é Bourdieu explicando, não eu). A partir dessa discussão, Silva (2009, p. 20) explica que:

O Nordeste, nessa concepção, constitui-se como região a partir do trabalho de criação de determinados setores sociais que se relacionam em um espaço específico. Também compõem com outras áreas um conjunto nacional politicamente definido por grupos que o reconhecem como espaço construído em seu processo de produção material e cultural, através da qual se articula com o capital e com o Estado, formando uma entidade político-administrativa.

Se o Nordeste, portanto, é uma construção social fundada atos performáticos sobre os quais acordamos culturalmente, o que acontece com a sua noção “material” – no sentido físico, territorial – quando surgem novas esferas de comunicação que já atravessam e constituem parte da nossa vida cotidiana? Essa é uma pergunta extremamente complexa que não cabe a mim responder neste simples post. O meu interesse nesse contexto surge a partir de um viés bastante específico: a noção de identidade nordestina. Afinal, assim como o Nordeste, esta foi construída social e historicamente nos últimos 130 anos a partir de diversas conjunturas discursivas (e midiáticas) que estabeleceram, para tal, apontamentos bem específicos do que representava (e esta palavra é importante) ou não o ser nordestino.

O que tem se convencionado enquanto identidade nordestina, com o famigerado advento das novas tecnologias de comunicação e informação, é reconfigurado de alguma forma? Como as novas dinâmicas sociais de produção cultural alteram (ou não) os formatos impingidos aos nordestinos durante as últimas décadas? Essas são algumas perguntas que norteiam o meu trabalho de conclusão do curso de Estudos de Mídia, na UFF. Embora o projeto ainda esteja, metodologicamente, em seu formato embrionário, um pressuposto óbvio para discutir a identidade nordestina nos sites de redes sociais é localizar a categoria – e o Nordeste, de maneira geral – no ambiente online (mais especificamente no Facebook, por ser a mídia social mais popular do Brasil).

O propósito deste post, portanto, é apresentar os resultados iniciais (bem iniciais mesmo) desta minha difícil missão. Para enfrentar esse desafio, optei pela metodologia de análise de redes sociais – técnica que me permite localizar no Facebook praticamente todas as páginas que tragam alguma associação direta com o Nordeste ou com a identidade nordestina. Uma vez que a identidade nordestina é construída discursivamente através de recursos ancorados na repetição de certos valores simbólicos, identificar quem são os principais atores online que trabalham ativamente para a produção dessa construção que estimula (reforça) uma identificação dos usuários com a identidade é o primeiro passo para diagnosticar quais novas lógicas operam esse jogo de sociabilidades.

Para gerar a rede (sobre a qual explicarei e descrevei com mais detalhes a seguir), percorri os seguintes passos: 1) com a ajuda da Netvizz, fiz três buscas de páginas sobre o meu escopo de pesquisa: uma para “Nordeste”, outra para “Nordestino” e outra para “Nordestina” (a variação do plural também é captada pela ferramenta); 2) com as três listas em mão, organizei e limpei os dados para encontrar as páginas mais relevantes (removi páginas pequenas e outros lixos) sobre o tema, encontrando 139 resultados; 3) com a técnica de bola de neve (snowball), documentada por Richard Rogers (DMI) nos seus estudos sobre métodos digitais, encontrei mais 125 páginas a partir das conexões do grupo de páginas-semente. Para explicação mais detalhada sobre esse procedimento, ver Alves (2017, p. 109).

Com a lista completa de páginas sobre o Nordeste e/ou a identidade nordestina, totalizando agora 265 canais, fiz o download dos módulos de “curtida” de cada página também com a Netvizz. De maneira simples, funciona da seguinte forma: cada página do Facebook possui um ID que, através da ferramenta, é possível gerar um arquivo específico que traz consigo as conexões da página em questão com outras páginas que essa “curte” (assim como os usuários, as páginas também têm a opção de curtir outras páginas). Com todos esses arquivos em mãos, pude trabalhá-los diretamente no Gephi, programa específico para análise de redes. O resultado “final”, 5.100 nós (páginas) e 18.456 arestas (conexões), apresento abaixo:

A plotagem da rede foi gerada no Gephi a partir do layout ForceAtlas 2, conforme descrito por Alves (2017, p. 110): “esse processo cria um desenho de rede no qual os nós com mais ligações são atraídos para o centro e os menos conectados são repelidos para as margens”. Marquei a opção de “gravidade mais forte” porque a rede não apresentava alta densidade, ou seja, não havia uma mobilização orquestrada em prol de algum assunto específico – eram apenas algumas milhares de páginas centradas numa temática em comum. Além disso, também não é do meu interesse direto analisar o posicionamento dos clusters, a disposição espacial da rede, sendo suficiente para a minha proposta uma simples interpretação dos grupos formados – para então localizar atores influentes.

Na imagem acima, os clusters representam esses agrupamentos (classificados de maneira estatística pela própria ferramenta) coloridos. As cores foram selecionadas de maneira arbitrária, somente para representar os grupos reconhecidos pelo Gephi: 1.205 (23,63%) páginas no lilás, 959 páginas (18,8%) no verde, 540 (10,59%) no azul piscina, 493 (9,67%) no preto/cinza escuro, 401 (7,86%) no laranja, 221 (4,33%) no rosa e 207 (4,06%) no esmeralda. Os nós maiores, em formato circular, são as páginas com maior PageRank, métrica que leva em conta a centralidade e o peso das arestas – de maneira geral, ela identifica quais páginas recebem conexões mais relevantes dentro do próprio grupo.




Não me aprofundarei numa descrição dos clusters acima porque, além de serem relativamente auto-explicativos em seus exemplos apresentados, os dois grupos que mais aparentam relevância para o meu projeto são o lilás e o preto/cinza escuro. Neles estão presentes – além de algumas páginas que refletem gostos e valores culturais (até políticos) interessantes para possível discussão posterior – atores que trazem consigo o discurso mais vívido acerca do Nordeste e do ser nordestino. Para melhor visualização desses grupos, expandi um pouco a rede e ajustei os rótulos (desta vez proporcionais de acordo com a métrica grau de entrada) conforme representados nas imagens abaixo:



 

Tomando como base esses dois clusters, consegui identificar quais são os principais atores a propagar noções da identidade nordestina no Facebook. Para tal, exportei uma tabela com todos nós dos grupos e organizei na ordem da métrica talking_about_count. A minha ideia aqui em priorizar essa medida é priorizar as páginas onde há uma conversação contínua acerca dessa temática, já que para que haja uma construção identitária é necessário uma articulação constante de pessoas (no caso, usuários) apresentando e representando os valores daquele grupo – a página Nação Nordestina, por exemplo, embora volumosa em visibilidade, não se mostrou muito popular. O top15 – que classifiquei manualmente – segue abaixo:

Antes de finalizar, talvez deva uma resposta a um incômodo que pode surgir na leitura desse post: “por que você não mapeou todas as páginas das cidades (ou pelo menos capitais) e estados do Nordeste?”. Por dois motivos: primeiro, pela demanda de trabalho, obviamente; segundo, porque a minha fundamentação teórica segue justamente a linha de raciocínio na qual o Nordeste é visto como uma categoria discursiva, ou seja, por mais que “na prática” represente suas ramificações, é compreendido no imaginário social enquanto figura homogênea (como o Brasil, por exemplo, e o ser brasileiro). Ou seja, estou interessado justamente nessa concepção de Nordeste e identidade nordestina como um todo macro, mesmo que de maneira crítica e cautelosa para não reproduzir certos equívocos.

Esses foram os primeiros passos que pensei que podem me guiar no que tange o meu trabalho de conclusão de curso (e quiçá uma possível empreitada numa pós-graduação stricto sensu). Ainda não sei exatamente como seguir, mas foi uma atividade na qual pude unir o útil ao agradável: trabalhar o meu objeto de pesquisa junto a uma metodologia sobre a qual venho aprendendo cada vez mais, conforme já narrado aqui na minha saga e posterior aprendizados iniciais graças ao curso do IBPAD. Fico aberto a todo tipo de crítica (construtiva) para elucidar conseguintes apontamentos metodológicos que me ajudem a estruturar uma linha de raciocínio e argumentação para o projeto.

Referências bibliográficas

ALVES, Marcelo Santos. Campanha não oficial: A Rede Antipetista na eleição de 2014. REVISTA FRONTEIRAS (ONLINE), v. 19, p. 102-119, 2017.

ANJOS, Moacir dos. “Desmanche de Bordas: notas sobre identidade cultural no Nordeste do Brasil”. In: Artelatina. RJ: Aeroplano Editora, 2000.

SILVA, Claudeci Ribeiro. A representação do Nordeste nas letras das músicas de Marinês. UEPB: 2009.

Cultura e representação, de Stuart Hall – Introdução (e a Skol, hein?)

Se você é um leitor minimamente assíduo deste blog (ou me segue no Twitter), deve estar ciente que este é o ano em que faço meu trabalho de conclusão do curso de Estudos de Mídia, da UFF – cujo assunto perpassa temáticas como identidade, representação e sites de redes sociais. Para que eu possa desenvolver um trabalho de qualidade, escolhi – além de diversos artigos – três livros (talvez quatro) que devem me ajudar a pensar melhor como por em prática todas as minhas ideias. E, como faço constantemente neste blog, a ideia é compartilhar um pouco do conhecimento adquirido e possivelmente trazer alguns desses temas para debate.

Para esse primeiro post, compartilho as ideias de Stuart Hall no livro “Cultura e Representação”. Este, na verdade, é apenas o primeiro texto de três que pretendo compartilhar sobre o livro, que é dividido em três “partes”: apresentação + introdução, capítulo 1 (“O papel da representação”) e capítulo 2 (“O espetáculo do ‘Outro'”). Hoje, compartilho aqui algumas ideias retiradas da primeira parte, apresentação e introdução, com o intuito de fazer uma relação com o debate sobre o novo posicionamento da Skol. Confesso que estava em dúvida se teria conteúdo suficiente para publicar apenas a primeira parte (tendo em mente que esta são cerca de 30 páginas e, as outras duas, mais de 100 cada), mas encontrei nesse debate uma forma de utilizar de forma prática alguns dos conceitos. Comecemos, então, por eles.

Antes, no entanto, conheçamos o autor: Stuart Hall foi professor na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, com trabalhos importantíssimos para os estudos culturais a partir do fim dos anos 60. Foi responsável por analisar – sob uma viés diferente da semiótica – os efeitos da mídia nas sociedades, constituindo o termo “politics of the image” (política da imagem, em tradução livre), que seriam todos os embates, questionamentos e disputas a qual uma imagem representa. Para ele, “a mídia produz amplos efeitos na sociedade, relacionados a um determinado tipo de poder que se exerce no processo de administração da visibilidade pública midiático-imagética”. Ele estava interessado em analisar, portanto, não exatamente os “efeitos de sentido” do discurso midiático/imagético, mas suas consequências na sociedade.

“Como um construtivista, Stuart Hall viu o ‘real’ como uma ‘construção social’, amplamente marcada pela mídia e suas imagens nas sociedades contemporâneas. Como um teórico mais crítico, procurou, por meio de Foucault, entender como o poder se insere, se coloca ou que papel exerce nesse processo. […] Hall apresenta uma noção de representação como um ato criativo, que se refere ao que as pessoas pensam sobre o mundo, sobre o que ‘são’ nesse mundo e que mundo é esse, sobre a qual as pessoas estão se referindo, transformando essas ‘representações’ em objeto de análise crítica e científica do ‘real’.”

Arthur Ituassu, Professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio na Apresentação

Nesse contexto, conforme veremos mais adiante, Hall enxergava a representação com um teor político muito relevante: “em seu ato de representar, constitui não somente a identidade, mas a própria qualidade existencial, ou ‘realidade’ (ontologia), da comunidade política, sendo representada em seus valores, interesses, posicionamentos, prioridades, com seus membros (e não membros), suas regras e instituições”. Ituassu, professor responsável pela apresentação (ou prefácio da obra), sintetiza bem ao declarar que, diante esse cenário de representação como política: “não ter voz ou não se ver representado pode significar nada menos que opressão existencial” – a partir disso, com ou sem teoria, já é possível compreender mais ou menos sob qual argumento o debate da representatividade se alicerça atualmente.

Tendo conhecido minimamente o autor e um pouco dos seus pensamentos, podemos partir para o capítulo de introdução. Nele, Hall apresenta ao leitor suas principais ideias no que tange, principalmente, à noção de cultura – o que, em termos simples e em colocação própria, diz respeito a “significados compartilhados”. Nesse contexto, e conforme vai aprofundar a partir das ideias de Saussure nos próximos capítulos, a linguagem possui um papel fundamental (de “repositório-chave de valores e significados culturais”): “nada mais é do que o meio privilegiado pelo qual ‘damos sentido’ às coisas, onde o significado é produzido e intercambiado. Significados só podem ser compartilhados pelo acesso comum à linguagem”. Em outras palavras:

“A linguagem é capaz de fazer isso porque ela opera como um sistema representacional. Na linguagem, fazemos uso de signos e símbolos – sejam eles sonoros, escritos, imagens eletrônicas, notas musicais e até objetos – para significar ou representar para outros indivíduos nossos conceitos, ideias e sentimentos. A linguagem é um dos ‘meios’ através do qual pensamentos, ideias e sentimentos são representados numa cultura. A representação pela linguagem é, portanto, essencial aos processos pelos quais os significados são produzidos.”
Stuart Hall

Aqui, é imprescindível ter em mente que a cultura se faz (e se desfaz!) na linguagem. Não no sentido mais específico da linguagem, relacionado à fala e à língua oral ou escrita, mas no sentido mais amplo, que diz respeito ao “compartilhamento de significados” de um grupo ou sociedade. Hall ratifica que esse não é um indicativo de unidade, pelo contrário: é nesse cenário onde a pluralidade de sentidos torna conflituosa a relação entre os indivíduos, que atua tanto num nível micro quanto num nível macro. Ele explica que: “Acima de tudo, os significados culturais não estão somente na nossa cabeça – eles organizam e regulam práticas sociais, influenciam nossa conduta e consequentemente geram efeitos reais e práticos.”

“Membros da mesma cultura compartilham conjuntos de conceitos, imagens e ideias que lhes permitem sentir, refletir e, portanto, interpretar o mundo de forma semelhante. Eles devem compartilhar, em um sentido mais geral, os mesmos ‘códigos culturais’. Deste modo, pensar e sentir são em si mesmos ‘sistemas de representação’, nos quais nossos conceitos, imagens e emoções ‘dão sentido a’ ou representam – em nossa vida mental – objetos que estão, ou podem estar, ‘lá fora’ no mundo.”
Stuart Hall

É interessante fazer uma ponte da teoria construtivista com o que nós entendemos hoje como “ser desconstruído”. Embora essa noção não seja cotidianamente embasada na teoria, é evidentemente fundamentada no que estamos discutindo aqui: a não ser a própria natureza, tudo foi construído socialmente. De certa forma, a nossa própria interpretação da natureza é construção social. Hall explica que damos significados a objetos/pessoas/eventos “por meio de paradigmas de interpretação que levamos a eles”; em outra instância, “damos sentido às coisas pelo modo como as utilizamos ou as integramos em nossas práticas cotidianas”; e, por fim, “concedemos sentido às coisas pela maneira como as representamos”. Desconstruir, portanto, é questionar (e, preferencialmente, contestar) o modus operandi que nos foi programado.

“A cultura, podemos dizer, está envolvida em todas essas práticas que não são geneticamente programadas em nós […], mas que carregam sentido e valores para nós, que precisam ser significativamente interpretadas por outros, ou que dependem do sentido para seu efetivo funcionamento. […] Nesse sentido, o estudo da cultura ressalta o papel fundamental do domínio simbólico no centro da vida em sociedade.”
Stuart Hall

O autor atenta também para a relação entre sentido e identidade, sendo esse o responsável pelo cultivo da nossa noção do último. Uma vez que “o sentido é constantemente elaborado e compartilhado em cada interação pessoal e social da qual fazemos parte”, ele delimita as fronteiras sociais que estabelecemos: “se relaciona a questões sobre como a cultura é usada para restringir ou manter a identidade dentro do grupo e sobre a diferença entre grupos”. Talvez quem melhor explique essa questão – completamente influenciado por Hall – seja Tomaz Tadeu da Silva, em seu texto “A produção social da identidade e da diferença”, sobre o qual já falei um pouco em outro post. Para este texto, cabe direcionar nossa atenção ao que Hall entende como circuito cultural.

HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, 2016.

Para ele, a questão do sentido atravessa todas essas arenas institucionais do circuito cultural, mas é a linguagem – novamente, uma concepção mais ampla do termo – o “meio” privilegiado “através do qual o sentido se vê elaborado e perpassado”. É, portanto, uma prática significante que opera por meio de representação (sistemas de representação). “Essencialmente, podemos afirmar que essas práticas funcionam ‘como se fossem línguas’ não porque elas são escritas ou faladas (elas não são), mas sim porque todas se utilizam de algum componente para representar ou dar sentido àquilo que queremos dizer e para expressar ou transmitir um pensamento, um conceito, uma ideia, um sentimento”, explica. E complementa:

“Eles constroem significados e os transmitem. Eles significam, não possuem um sentido claro em si mesmos – ao contrário, eles são veículos ou meios que carregam sentido, pois funcionam como símbolos que representam ou conferem sentido (isto é, simbolizam) às ideias que desejamos transmitir. Para usar outra metáfora, eles operam como signos, que são representações de nossos conceitos, ideias e sentimentos que permitem aos outros ‘ler’, decodificar ou interpretar seus sentidos de maneira próxima à que fazemos.”
Stuart Hall

Retomando a atenção à imagem acima, percebemos como estão ligadas as questões mais amplas de representação e identidade (e, consequentemente, linguagem) com apropriações modernas dos nosso sistema sócio-econômico, de produção, regulação e consumo. Na leitura de Hall, compreendida como “abordagem social construtivista” ou “construtivismo social”, o sentido é uma produção social (até mesmo de interpretação). Daí, a representação serve como base constitutiva das coisas. Nisso, “a cultura é definida como um processo original e igualmente constitutivo, tão fundamental quanto a base econômica ou material para a configuração de sujeitos sociais e acontecimentos históricos – e não uma mera reflexão sobre a realidade depois do acontecimento.”

Ao final do texto, o autor introduz o conceito de discurso que será retomado com frequência nos dois capítulos seguintes. Compreende como “maneiras de se referir a um determinado tópico da prática ou sobre ele construir conhecimento: um conjunto (ou constituição) de ideias, imagens e práticas que suscitam variedades no falar, formas de conhecimento e condutas relacionadas a um tema particular, atividade social ou lugar institucional na sociedade”. Hall enxerga nas formações discursivas o aspecto “político” da linguagem, ou seja, são elas quem definem: “o que é ou não adequado em nosso enunciado sobre determinado tema ou área de atividade social”; “que tipo de conhecimento é considerado útil”; “que gênero de indivíduos ou ‘sujeitos’ personificam essas características”. Assim, explica, “‘discursiva’ se tornou o termo geral utilizado para fazer referência a qualquer abordagem em que o sentido, a representação e a cultura são elementos considerados constitutivos”.

“Uma diferença fundamental é que a abordagem semiótica se concentra em como a representação e a linguagem produzem sentido – o que tem sido chamado de ‘poética’ -, enquanto a abordagem discursiva se concentra mais nos efeitos e consequências da representação – isto é, sua política. […] [Examina] como o conhecimento elaborado por determinado discurso se relaciona com o poder, regula condutas, inventa ou constrói identidades e subjetividades e define o modo pelo qual certos objetos são representados, concebidos, experimentados e analisados. A ênfase da abordagem discursiva recai invariavelmente sobre a especificidade histórica de uma forma particular ou de um ‘regime’ de representação, e não sobre a ‘linguagem’ enquanto tema mais geral. Isto é, seu foco incide sobre linguagens ou significados e de que maneira eles são utilizados em um dado período ou local, apontando para uma grande especificidade histórica – a maneira como práticas representacionais operam em situações históricas concretas.”
Stuart Hall

E o que isso tudo tem a ver com a Skol? É muito provável que você tenha se deparado, na internet, com uma tentativa de reposicionamento da marca. O primeiro contato que eu tive com essa “nova” realidade, se não me engano, foi quando vi o patrocínio que cedeu a uma festa Batekoo (um evento feito pelo e para o público negro) em Salvador, talvez no ano passado. Aliás, minto: lembro de ter achado curioso o clipe “Tombei”, de Karol Conká, sendo divulgado pelo canal Skol Music. A rapper, coincidentemente, também era a atração principal do evento que acontecia na capital baiana.

Acredito (sem fundamento ou pesquisa alguma, vale pontuar) que esse reposicionamento da Skol começou com o lançamento da Skol Beats, uma bebida que surgiu para bater de frente com a líder Sminorff Ice. Desde então, a marca tem tentado encontrar no público jovem (que supostamente é mais “pra frentex”) consumidores que tinham perdido tanto pela cerveja quanto pelo seu histórico de marketing – vale conferir o artigo “Onde está o sense? Uma análise semiótica da campanha Skol Beats Senses”, de Daniela Mokva e Ciro Gusatti. Este ano, com ações no carnaval e no Dia das Mulheres, a estratégia se intensificou ainda mais e, consequentemente, fomentou o debate sobre o reposicionamento da marca – agora, já de olho no seu principal produto.

O que acontece: a marca, desde a década de 60, tem um histórico absurdo de campanhas extremamente machistas – há, inclusive, extensa produção acadêmica sobre o assunto, principalmente a partir da leitura publicitária e semiótica. O debate, portanto, se fundamenta nessa tentativa de reposicionamento da marca. É possível “esquecer” ou apagar esse legado histórico? Devemos comemorar essa nova estratégia? Parabenizamos a marca? Será esse novo contexto suficiente ou responsável para lidar com todo um passado sombrio? O que muda, de fato, na sociedade? As respostas para essas perguntas podem (e até devem, baseado na sua posição de fala) variar. No entanto, a minha proposta aqui é, a partir do texto proferido, tentar dar conta de pelo menos parte desses embates.

Parto de um ponto comum a todos: marcas precisam vender. Tomando como pressuposto que a Skol, antes de adotar esse novo posicionamento, fez um amplo trabalho de pesquisa de negócios, social e cultural, acredito que a justificação mínima a ser considerada é: “conseguiremos vender (mais)?”. Por mais que nas agências e empresas exista publicitários socialmente conscientes, na hora da prestação de contas, é essa resposta que os diretores precisam ouvir para dar o aval. A empresa precisa vender. Se há, nas entrelinhas, um ponto socialmente positivo para isso, ótimo. Aliás, levando em consideração uma pesquisa sócio-cultural, a justificativa a ser trabalhada pode, sim, ter embasamento em causas sociais – o que é ótimo, e fruto de um movimento que parte das próprias pessoas.

Ainda assim, por mais que o objetivo principal seja vender e gerar lucro, é inegável o poder midiático (discursivo) que grandes empresas possuem. Afinal, foi a mesma empresa que criou uma narrativa degradante para as mulheres que agora está tentando mudar (bem devagar) esse cenário. Se foi considerado relevante a influência discursiva de décadas, também deve ser considerado atualmente. Trazendo Hall para a discussão, uma vez que a cultura se faz no atravessamento da representação, linguagem e identidade, não há como negar a importância de um aparato midiático como o da publicidade na sociedade em que vivemos – aliás, nos próximos capítulos, ele traz exemplos de vários produtos midiáticos, inclusive publicitários.

Ou seja, é, sim, importante que as marcas – mesmo por motivos financeiros – optem por alterar seu discurso. A partir do momento que criamos nossa interpretação do mundo a partir de signos e símbolos discursivos (nesse caso específico, a objetificação das mulheres), é imprescindível que celebremos – mesmo que criteriosamente – uma narrativa que, como o próprio autor aponta, se materializa da maior forma possível (casos de agressão explícitos). O discurso se concretiza nas ações. Pelo menos nesse ponto, temos, acredito eu, sim, motivos para “comemorar”. No entanto, a nossa celebração não deve ser para com a marca, mas para com o movimento. Se a Skol mudou, é porque está ouvindo. A vitória é delas.