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Os maiores absurdos que um sudestino já te disse

Passeando pelo Twitter algumas semanas atrás, me deparei com o da user @lhonoratus que reproduzo abaixo. Chegou até mim através de um retweet de uma amiga, que respondia à provocação da usuária compartilhando uma dessas situações absurdas com que teve que lidar diante de sudestinos. Eu, particularmente, acho essa categoria muito interessante por si só, pensando que é uma “identidade” que tenho visto pipocar principalmente no Twitter já há alguns anos, no mesmo tom desse tweet que chegou até mim. Acho que essa exploração já rende muita discussão, mas aqui tentei focar apenas neste caso.

Com as mais de 300 respostas que o tweet recebeu, além de os outros modos em que os usuários se apropriaram da mensagem (em resposta como retweet de citação), fiquei realmente curioso para descobrir quais eram esses absurdos. Vasculhando pelas respostas do próprio tweet e conhecendo também o contexto de ambas as categorias de sujeitos, já tinha algumas hipóteses: provavelmente muitas situações constrangedoras (para não falar revoltantes) sobre sotaque/modos de falar, estereótipos direta ou indiretamente associados a classe, etc. – toda a construção que evoca a imagem do nordestino no “encontro” com o outro.

Para testar essas hipóteses, fiz a coleta com o twint (script em Python que faz raspagem de dados do Twitter) de todos os tweets tanto em resposta ao tweet original quanto em formato de citação. Ao total, foram 1.542 tweets de 1.239 usuários diferentes – ou seja, bastante absurdo para ser investigado (embora não possamos afirmar que todos esses 1.500 tweets trazem mensagens correspondentes à proposta do original, visto que podem ser só respostas outras, comentários, etc.). A rede abaixo foi gerada com todo esse montante de dados, tratada no WORDij e elaborada no Gephi com técnicas direcionadas à análise de redes semânticas.

Clique aqui para visualizar em tamanho completo
e clique aqui acessar a rede interativa

A rede foi feita a partir da co-ocorrência entre os termos, ou seja, as conexões que se são representam uma certa “proximidade” disursiva. Foram, ao total após o tratamento, 472 palavras, cuja frequência está de acordo com o tamanho proporcional em que se apresenta na rede. Os laços (as conexões que ligam um termo a outro) também estão com certo peso evidente, conforme o tamanho das linhas – ou seja, quanto mais grossa, mais “forte” a conexão entre as palavras (aparecem juntas com mais frequência). As cores indicam os agrupamentos feitos através da modularidade (própria do software), e nos ajuda a encontrar alguns territórios semânticos específicos.

No entanto, este é um exemplo bem interessante de como a modularidade nem sempre dá conta de “compreender” a complexidade da rede. Os doze clusters identificados pelo software podem ser compreendidos, conforme a minha interpretação, da seguinte forma: desconhecimento/ignorância (29% dos termos, “perguntou” como referência); “elogios” ao revés (27%, “nordeste”); sotaque/fala (15%, “sotaque”); praia/turismo (7%, “pessoa”); comentários (6%, “sudestinos”); cenas do cotidiano (4%, “rua”); deboche/constrangimento (3%, “mudou”); banho (3%, “paulo”); matar (1%, “vontade”); trabalho (-1%, “respondi”); fenótipo (-1%, “olho”); noção (-1%, “nenhuma”).

Esses grupos delimitados por critérios mais quantitativos e identificados em seu contexto semântico/social a partir da minha própria interpretação são um bom direcionamento para entender algumas das respostas que encontramos, mas se os pensarmos individualmente acabamos por ignorar – e, de certo modo, até mesmo ter uma visão equivocada dos – discursos em suas multiplicidades. Em outras palavras, praticamente todos esses clusters (ou melhor, os termos que os constituem) dialogam uns com os outros (ou seja, com termos de diferentes clusters). E a própria configuração do modo como se apresentam foi uma decisão minha, após alguns testes.

O cluster laranja, por exemplo, que chamei de “elogios” ao revés, se estende por boa parte da rede, o que demonstra o quanto carrega certa coesão entre si, mas também tem ligação direta com outras palavras. Em sua localização mais acima, está associado a um determinado modo do que se espera de um nordestina – e diretamente também ligado especificamente à fala, o que corresponde à proximidade com o sotaque. Há, entretanto, para além da fala (que pode ser tanto em sua entonação “cantada” quanto em seu caráter mais distintivo, “educado”), uma associação também a um certo fenótipo racializado – e, aqui, em contexto de surpresa, de inesperado.

Mais abaixo, esse mesmo cluster ainda mantém sua proximidade (e conectividade) com as respostas que destacam especificamente o sotaque (“estranho”, “forte”, “diferente”, “feio”), mas já segue para outro caminho em direção a dimensões semânticas mais generalistas. Há uma aproximação tanto a certos termos relacionados a hábitos alimentícios quanto a algumas outras palavras mais soltas na rede, que ainda assim se localizam dentro de algumas características também estereotipadas. É o caso, por exemplo, da conexão com as perguntas sobre “água” e, mais abaixo, a peixeira e a canoa. Esses que se conectam com cenas do cotidiano e mitos do banho.

Do outro lado, mas ainda bastante ligado a esses outros dois maiores clusters, o azul que chamei de desconhecimento/ignorância (talvez por falta de palavras mais assertivas) também se expande por boa parte da rede, mas que – pelo menos na minha interpretação – tem como ponto de encontro a desinformação (ou estupidez mesmo). Aqui são os termos mais diretamente associados às situações do encontro, em que os usuários contaram as perguntas absurdas que tiveram que ouvir – e que, novamente, reproduzem estereótipos voltados sobretudo para um recorte de classe muito bem estabelecido, que deduz uma suposta carência da região Nordeste.

Um pouco mais distante do centro, é também esse cluster que aponta para mais uma fixão do estereótipo nordestino: o do local para turista ver (e visitar) – é como (e onde) surgem os termos sobre viagem, também ligados a algumas cidades e estados específicos. É também nesse contexto de visita que há um retorno à ignorância para as perguntas sobre “onde” exatamente no Nordeste, tanto por um desconhecimento da constituição geográfica da região quanto por uma generalização ignorante de que todas as pessoas que moram em cidades localizadas nela se conheceriam ou teriam algum nível de proximidade/intimidade.

Acho que vale ainda destacar que todos esses absurdos nem sempre são ouvidos sem com que as pessoas reajam de algum modo mais contundente. O cluster de comentários (“sudestino”, “ouvi”), por exemplo, aponta para o estafamento dessas situações e que dialoga diretamente com o grupo de deboche/constrangimento (“assustado”, “vergonha”). Ou seja, quem fala o que não deve ouve o que não quer: nordestinos, justamente nessas situações constrangedoras/desgastantes, operam astuciosamente para não apenas se livrar daquele desconforto, mas para transferi-lo diretamente para quem os colocou nessa posição.

É uma rede que com certeza pode ser ainda mais (e melhor) explorada e assim pretendo fazer em outra oportunidade mais propícia. Quis trazer aqui para já levantar alguns apontamentos e percepções iniciais, que dialogam também com meu projeto de mestrado. Como próximo passo, talvez tentar ir ainda mais a fundo em todas as nuances das respostas e já dialogar com alguns autores que pensaram esse preconceito de origem geográfica e de lugar, sem perder de vista seu assentamento em classe e raça. No mais, problematizar também os benefícios e os limites da metodologia de análise de redes semânticas.

Entre identidade e representação: uma análise exploratória da produção acadêmica sobre nordestinos

*Texto originalmente produzido para o XV ENECULT – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, submetido e não aprovado para o GT de Culturas e Identidades.

Pedro Meirelles(1)

Nas últimas décadas, diversas produções acadêmicas têm se dedicado a compreender como a cultura nordestina tem sido (re)produzida em/para produtos culturais e midiáticos que (re)constroem os sentidos em torno do que significa Nordeste e ser nordestino. Esses trabalhos surgem como esforço coletivo para pensar sobre uma identidade conjugada na esfera cultural da sociedade brasileira que se formou de maneira muito específica, constantemente no lugar de oposição – não necessariamente de forma combativa, mas geralmente enquanto posição de alteridade.

Este artigo surge no contexto do projeto de pesquisa de mestrado desenvolvido pelo autor no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense, em que investiga as diferentes narrativas e produções de sentido criadas (e disputadas) em torno do Nordeste e dos nordestinos na internet. A partir do levantamento bibliográfico necessário para a pesquisa, percebeu-se a possibilidade de analisar de modo mais criterioso quais são os estudos desenvolvidos em âmbito científico, com recorte específico das Ciências Sociais e Humanas, sobre questões culturais das categorias simbólicas supracitadas.

O objetivo, portanto, é identificar as principais discussões referentes às noções teóricas de identidade e representação quanto ao Nordeste e aos nordestinos nas produções acadêmicas. Para responder a essa pergunta de pesquisa, foi feito um extenso levantamento de artigos, monografias, dissertações e teses cujo foco do trabalho se sustentava sob esses pilares fundamentais. Através de um processo de classificação e categorização sistemática das produções levantadas, além de um reforço técnico de análise textual e semântica (a ser apresentado e detalhado na metodologia), pretende-se descobrir as principais temáticas, enquadramentos e referenciais teóricos.

É importante ressaltar que, embora o artigo tenha uma proposta semelhante e até procedimentos metodológicos similares às pesquisas denominadas “estado da arte”(2) , não é a intenção do autor que esse seja interpretado de tal forma. A proposta aqui é de trabalhar o levantamento bibliográfico das pesquisas produzidas de modo exploratório, sem intenção alguma de se afirmar enquanto mapeamento totalizante. Ou seja, interessa-nos explorar o objetivo de pesquisa modo mais criativo e menos sistemático, a partir de diferentes técnicas de análise que podem oferecer insumos interessantes sobre os debates teóricos em relação principalmente às abordagens conceituais.

Antes de apresentarmos com mais detalhamento a metodologia e as questões de pesquisa, cabe introduzir uma discussão inicial sobre por que as questões sobre identidade e representação são relevantes para o projeto como um todo e, mais especificamente, como dialogam com a pauta nordestina. Na próxima seção, portanto, situamos o debate acerca da centralidade da cultura a partir principalmente da argumentação de Stuart Hall (1997; 2015; 2016), discutindo esse fenômeno sob a perspectiva dos processos indissociáveis de representação e identidade; e, por fim, identificando brevemente como a questão nordestina se encaixa nesse debate.

Identidade, representação e o circuito da cultura

Em mapeamento exploratório sobre estudos da cultura no Brasil, Pitombo et al. (2015), a partir de corpus específico dos trabalhos publicados no Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura – ENECULT, identifica o eixo temático “Narrativas e representações culturais” como um dos mais populares do evento. A categoria diz respeito a trabalhos que envolvem “a representação e as narrativas acerca da identidade cultural a partir da análise de produtos culturais (…) como programas de TV, músicas, obras literárias, filmes” (p. 12). Embora as autoras não explorem os motivos por trás desse resultado específico, toda a argumentação teórica do texto parte de um mesmo ponto de partida: o interesse crescente de pesquisadores de diferentes campos e áreas para com a centralidade da cultura.

Nesse contexto, o protagonismo da cultura parte de uma perspectiva epistemológica, “em relação às questões de conhecimento e conceitualização, em como a ‘cultura’ é usada para transformar nossa compreensão, explicação e modelos teóricos do mundo” (HALL, 1997, p. 16). Ainda que a cultura em seu sentido mais amplo e dentro do senso comum (produção de hábitos, valores, costumes, normas, tradições, etc. de determinados grupos sociais) tenha um repertório bem antigo, Hall (1997) sinaliza que é no século XX que ela se torna uma problemática para o homem ocidental, quando, principalmente por volta da década de 1950 e 1960, acontece uma espécie de “revolução cultural” que a materializa e a torna substancial tanto na esfera da sociedade(3) civil quanto especificamente para as Ciências Sociais.

A “virada cultural” está intimamente ligada a esta nova atitude em relação à linguagem, pois a cultura não é nada mais do que a soma de diferentes sistemas de classificação e diferentes formações discursivas aos quais a língua recorre a fim de dar significado às coisas. O próprio termo “discurso” refere-se a uma série de afirmações, em qualquer domínio, que fornece uma linguagem para se poder falar sobre um assunto e uma forma de produzir um tipo particular de conhecimento. O termo refere-se tanto à produção de conhecimento através da linguagem e da representação, quanto ao modo como o conhecimento é institucionalizado, modelando práticas sociais e pondo novas práticas em funcionamento.

(id. Ibid, p. 29)

A “virada cultural” define a cultura “como um processo original e igualmente constitutivo, tão fundamental quanto a base econômica ou material para a configuração de sujeitos sociais e acontecimentos históricos” (HALL, 2016, p. 25-26). Epistemologicamente, portanto, a cultura passa a ser interpretada no contexto de outra virada – que Hall chama de “virada linguística” das Ciências Sociais e dos Estudos Culturais –, na qual “o sentido é visto como algo a ser produzido (grafo do autor) – construído – em vez de simplesmente ‘encontrado’” (p. 25). Esse sentido é fruto do que DuGay et al. (1997 apud WOODWARD, 2014) denominaram de “circuito da cultura”, que atravessa diversas áreas e processos/práticas da vida em sociedade.

O argumento desses autores é que “para se obter uma plena compreensão de um texto ou artefato cultural, é necessário analisar os processos de representação, identidade, produção, consumo e regulação” (WOODWARD, 2014, p. 16). Ainda que todos esses processos se atravessem e se influenciem concomitantemente (como melhor representado pelo esquema visual produzido), aqui nos interessa pensar especificamente identidade e representação devido à proposta do projeto, que trabalha com a ideia de disputas de significados e narrativas. Ou seja, voltamos o olhar para as produções de sentido constituintes do circuito cultural a partir da linguagem(4) como “um dos ‘meios’ privilegiados através do qual o sentido se vê elaborado e perpassado”.

Abordamos a questão da identidade cultural, portanto, a partir da discussão em torno do seu caráter construtivo e descentralizado. Nesse cenário, ela é “fixada” através das construções de sentido nas quais “a cultura é usada para restringir ou manter a identidade dentro do grupo e sobre a diferença entre grupos” (HALL, 2016, p. 21-22). Ou seja, de modo simples, as identidades culturais se estabelecem em torno de “comunidades imaginadas” que supostamente compartilham dos mesmos valores, símbolos e mapas conceituais. No entanto, esses elementos não são inerentes às suas essências, mas construídos – e disputados – em diversas arenas culturais. Sobre o sentido de nacionalidade, Hall (2015, p. 31) explica que

As culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações. Uma cultura nacional é um discurso — um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos (…). As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre “a nação”, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades. Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu passado e imagens que dela são construídas.

A identidade nacional (tomada aqui como exemplo específico, mas correlata à noção mais ampla de identidade), portanto, surge “do diálogo entre os conceitos e definições que são representados para nós pelos discursos de uma cultura e pelo nosso desejo (…) de responder aos apelos feitos por estes significados” (HALL, 1997, p. 26). Ou seja, além da questão que envolve o “fazer parte” de um grupo, há uma segunda instância tão importante quanto que diz respeito aos processos de identificação – e, consequentemente, de construção/representação – de determinados valores simbólicos. O discurso de pertencimento nacional só se legitima através dos sistemas de “significação” que fornece aos indivíduos o mapa mental necessário para se perceber enquanto parte de determinada cultura (Hall, 2016).

Para que possamos pensar e discutir sobre identidade, portanto, temos também que falar sobre outro processo-chave do circuito cultural: a representação. É esta esfera que nos oferece tanto os signos quanto os significados necessários para que possamos nos posicionar, ou seja, “é por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos” (WOORDWARD, 2014, p. 18). Fica evidente, portanto, como todos esses referenciais teóricos – identidade, representação e cultura – devem ser observados, conforme nossa linha de argumento e filiação, sob uma perspectiva construtivista na qual há uma disputa constante pela produção – e identificação – de sentidos compartilhados.

O argumento que estarei considerando aqui é que, na verdade, as identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da representação. Nós só sabemos o que significa ser inglês” devido ao modo como a “inglesidade” (Englishness) veio a ser representada — como um conjunto de significados — pela cultura nacional inglesa. Segue-se que a nação não é apenas uma entidade política mas algo que produz sentidos — um sistema de representação cultural. As pessoas não são apenas cidadãos/ãs legais de uma nação; elas participam da ideia da nação tal como representada em sua cultura nacional.

(HALL, 2015, p. 30)

É sob essa linha de pensamento teórico que vários trabalhos de produção acadêmica (artigos, monografias, dissertações e teses) têm feito um esforço para tentar compreender e discutir a identidade e a representação nordestina no âmbito da cultura nacional. Partindo tanto de pesquisas teóricas quanto de pesquisas empíricas e/ou estudos de caso, essas produções analisam – sob diferentes perspectivas – como o Nordeste “nasceu”, foi e continua sendo narrado na arena discursiva da sociedade brasileira. Ou seja, uma vez que a identidade é uma construção fruto dos processos de representação de uma cultura, esses estudos trazem à tona discussões sobre esse circuito para com as categorias “nordestinos” e “Nordeste”.

O que faz “ser” nordestino? Como se inventou o Nordeste? Como meios de comunicação de massa representaram e representam historicamente os nordestinos e o Nordeste? Como a literatura nacional ajudou na criação de uma imagem regionalista? Como as políticas de gestão federal influenciaram no jogo de articulações para a criação da região? Como a música, principalmente o forró, tornou-se um dos principais narradores da legítima experiência nordestina? Como o cinema nacional e as produções audiovisuais televisivas corroboraram em todo esse processo? Essas são algumas das perguntas que envolvem tanto identidade quanto representação e fazem parte do escopo teórico por trás das produções a serem analisadas.

Questões da pesquisa e metodologia

Tendo em vista a relevância – social e epistemológica – dos trabalhos sobre as narrativas e produções de sentido em torno do Nordeste e dos nordestinos enquanto categorias culturais, estabelecemos como objetivo principal e secundários deste trabalho, respectivamente, as seguintes questões:

  • Quais são as discussões e os debates em torno das questões de identidade e representação do Nordeste nas produções acadêmicas?
    • Quais são as categorias temáticas gerais (referentes ao objeto de pesquisa) dessas produções? Ex: Cinema, Música, etc.
    • Quais são as referências bibliográficas que se apresentam com maior frequência nesses recortes?

O primeiro passo para responder a esses questionamentos foi encontrar um corpus de análise minimamente significativo. Foi realizado, então, um levantamento de produções científicas a partir da plataforma de pesquisa acadêmica do Google(5) . Novamente, como o artigo não tem a ambição de fazer um mapeamento completo referente ao estado da arte da temática aqui abordada, esse processo foi mais exaustivo do que totalizante: foram selecionadas 165 produções acadêmicas(6) encontradas a partir da listagem ranqueada por ordem de relevância (segundo critérios da plataforma) que traziam discussões concomitantes sobre identidade, representação e Nordeste.

O segundo passo necessário, após o levantamento de essas produções, foi criar um aporte analítico capaz de nos fornecer as informações requisitadas referentes a cada uma das perguntas da pesquisa. Criamos, então, uma planilha(7) com as seguintes variáveis a serem preenchidas com os dados de cada produção encontrada: tema/área, título, autor(es/as), resumo, ano, bibliografia e tipo de trabalho. Essa categorização sistemática dos dados levantados permite que possamos começar a delinear as respostas que desejamos fornecer às questões deste trabalho. Na próxima seção, apresentamos como ficou a disposição de corpus e resultados da análise.

Resultados da análise exploratória

FIGURA 01 – Gráficos referente ao Tipo e Ano das publicações
FONTE – O autor

Dentre as produções acadêmicas mapeadas, a grande maioria foram do tipo Artigo (70%) – referentes a apresentações em eventos, anais de congressos, projetos científicos, etc.; seguido de Monografia (15%) e Dissertação (11%), com apenas quatro Teses (2%) encontradas. Quanto à época de produção dos trabalhos, há uma concentração relativamente estável sobretudo na última década (de 2009 em diante), com um pico considerável em 2014 – não há nenhuma novidade ou acontecimento explícito nos dados que provoque esse aumento repentino, visto que os trabalhos desse ano específico abordam temas antigos em geral (principalmente Literatura e Música).

É importante ratificar que essas informações não dizem respeito à toda produção acadêmica sobre identidade, representação e Nordeste/nordestinos, mas pode ser vista como indicativo para possíveis futuros mapeamentos mais aprofundados – e, principalmente, delimitam e apresentam o corpus de análise selecionado. É nesse mesmo contexto que apresentamos na Figura 02, na qual foram contabilizadas as Áreas/Temas dos trabalhos (referentes especificamente aos objetos de pesquisa e/ou discussão teórica). Foram identificadas em apenas um trabalho: Turismo, Teatro, Religião, Letras, Biblioteconomia, Política, Direito e Artes.

FIGURA 02 – Gráfico referente às Áreas/Temas dos trabalhos
FONTE – O autor

As produções sobre Cinema (20%), Música (20%) e Literatura (19%) somam juntas mais da metade do corpus de análise. São trabalhos que analisam especificamente ou de maneira mais abrangente como as produções culturais – filmes, canções, cantores(as), romances, cordel, etc. – dessas áreas atravessam, influenciam ou envolvem questões relacionadas à (construção da) identidade nordestina e da representação do Nordeste e do povo nordestino. Na Figura 03, três esquemas de nuvens de palavras (mais frequentes) foram produzidos 8 a partir dos títulos dos trabalhos para ilustrar alguns dos assuntos recorrentes em cada uma dessas categorias.

FIGURA 03 – Nuvens de palavras de termos mais frequentes nos títulos dos trabalhos por categoria
FONTE – O autor

Retomando a Figura 02, temos ainda vários trabalhos que foram classificados na categoria Geral. As produções aqui atribuídas trabalham as questões de identidade, representação e Nordeste sob uma perspectiva mais conceitual e teórica, sem um recorte específico de objeto de estudo e/ou análise. Já Pedagogia e Migração/Territorialidade apontam produções bem específicas, abordando, respectivamente, como o Nordeste é/pode ser visto em sala de aula (ou no processo de ensino e aprendizagem como um todo), e em estudos que discutem sobre a questão da migração nordestina em relação também a uma noção de territorialidade.

As produções sobre Internet são, em sua maioria, estudos de caso sobre páginas da web e/ou de mídias sociais nas quais a identidade nordestina é reconfigurada simbolicamente para o “ciberterritório”. Em Televisão, autores discutem sobre o modo como o Nordeste e os nordestinos são representados/retratados nas narrativas audiovisuais “fictícias”, assim como acontece nos trabalhos categorizados em Imprensa. Por fim, a categoria Gênero surge não necessariamente como uma temática, mas como uma área de pesquisa – que, aqui especificamente, discute principalmente as questões sobre a “masculinidade” nordestina.

Em sequência, interessa-nos também descobrir quais são os autores mais populares que embasam essas discussões. Para isso, foi desenvolvido um código em linguagem de programação R que contabilizou todos os termos em caixa alta (conforme padronização nos modelos da ABNT) das bibliografias mapeadas; em seguida, averiguou-se, a partir da listagem em ordem de maior frequência, quais eram referentes a autores (e excluídos termos como siglas de universidade, nomes de editoras, etc.); para finalizar, a verificação final foi feita com o software AntConc(9) . A listagem dos autores mais citados com o número de ocorrências está disposta a seguir:

AutoresFrequência Bibliográfica
Durval Muniz de Albuquerque182
Stuart Hall98
Michel Foucault62
Tomaz Tadeu da Silva47
Zygmunt Bauman43
Eni Pucicinelli Orlandi39
Mikhail Bakhtin39
Gilberto Freyre39
Néstor García Canclini36
Alfredo Bosi33
Pierre Bourdieu31
Luís da Câmara Cascudo31
Renato Ortiz30
Homi K. Bhabha25
Michel Pêcheux24
Antônio Cândido24
Euclides da Cunha22
Ariano Suassuna22
Patativa do Assaré21
Maria do Rosário Gregolin21
Ismail Xavier21
Maura Penna21
Michel de Certeau20
Luiz Paulo da Moita Lopes20
Roger Chartier19

Destaca-se evidentemente a relevância do autor Durval Muniz de Albuquerque Jr., que aparece com uma numeração superior à própria totalidade de artigos mapeados (165) devido à presença de citações a mais de um dos seus trabalhos num único artigo. Além de A invenção do Nordeste e outras artes (1999), sua produção mais popular, outras obras de sua autoria como Nordestino: uma invenção do falo: uma história de gênero masculino (2003) e Preconceito contra a origem geográfica e de lugar: as fronteiras da discórdia também receberam menções expressivas. O historiador, inquestionavelmente, é a principal referência sobre Nordeste e nordestinos na academia.

Stuart Hall é o segundo autor mais citado nos trabalhos, sobretudo por suas obras A identidade cultural na pós-modernidade (2006) e Da diáspora: identidades e mediações culturais (2003). Assim como Tomaz Tadeu da Silva – cuja publicação Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais (2005) também foi bastante referenciada e consta, inclusive, com um texto de autoria de Hall –, são os teóricos mais populares neste campo para discutir a questão da identidade. Ainda que Zygmunt Bauman também faça parte desse jogo, com Identidade: Entrevista a Benedetto Vecchi (2005), o filósofo recebe mais atenção quanto à questão da modernidade.

Outro nome também bastante conhecido da comunidade acadêmica, Michel Foucault acumula pontos de modo razoavelmente equilibrado entre suas obras: Arqueologia do saber (1969), A ordem do Discurso (1970) e Microfísica do Poder (1978). Há de ser feita uma investigação mais profunda sobre qual é o diálogo que os autores promovem com o filósofo, no entanto, a partir da leitura de alguns resumos que o citam de modo específico, pôde-se identificar sobretudo as questões que envolvem relações de poder e a ênfase na Análise do Discurso enquanto abordagem teórico- metodológica desenvolvida por vários trabalhos.

Esse campo também ganha corpo com a presença notória de nomes como Eni Pucicinelli Orlandi, Michel Pêcheux, Maria do Rosário Gregolin e Luiz Paulo da Moita Lopes. Os trabalhos desenvolvidos em diálogo com esses autores geralmente advêm da área de Comunicação, onde a Análise do Discurso é bastante popular para desenvolver pesquisa sobre produtos culturais/midiáticos. Por outro lado, sob uma perspectiva mais “culturalista”, autores como Mikhail Bakhtin, Néstor García Canclini, Homi Bhabha e Pierre Bourdieu oferecem os conceitos e um modo de pensar esses mesmos produtos a partir de contextualizações mais antropológicas e sociológicas.

Vale comentar ainda aqueles autores que oferecem o panorama teórico para discutir sobre a cultura brasileira e/ou nordestina de modo mais abrangente, liderados por Gilberto Freyre em suas diferentes publicações. Somam a essa lista Luís da Câmara Cascudo, Renato Ortiz, Antônio Cândido e Alfredo Bosi – esses últimos cujo trabalho se desenvolve bastante em cima da Literatura, área já referida como de bastante importância para as questões em cena aqui. Importante citar, nesse sentido, a presença de Euclides da Cunha, Ariano Suassuna e Patativa Assaré, que, assim como Freyre, são fontes e objetos de estudo dessas produções.

Considerações finais

A ideia do artigo surgiu a partir de uma demanda produtiva-pessoal do autor para com o desenvolvimento do seu projeto de mestrado. A proposta do trabalho foi realizar um levantamento exploratório das produções acadêmicas sobre o Nordeste e sobre os nordestinos quanto às questões de identidade e representação, de modo a esquematizar minimamente quais são as áreas e temáticas mais comuns para pensar – e teorizar – todas essas questões no ambiente acadêmico.

Como resultado desse processo, foi possível identificar que trabalhos sobre Cinema, Música e Literatura são recorrentes nas discussões sobre produções de sentidos e significados em torno de Nordeste e nordestinos. Uma análise com mais afinco da bibliografia dos trabalhos mapeados permitiu também identificar que o historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. é a autoridade no assunto, enquanto que teóricos como Stuart Hall, Michel Foucault, Tomaz Tadeu da Silva e Zygmunt Bauman fornecem o arcabouço conceitual para as discussões travadas.

Por fim, ressalta-se mais uma vez o caráter exploratório da pesquisa e as possibilidades de desdobramentos para um futuro trabalho. Expandindo a análise, seria possível pensar em investigar cada um dos campos/áreas temáticas principais, para identificar preferências teóricas ou de métodos; voltando o olhar para a bibliografia, seria possível também tensionar a lista de autores mais citados para discutir a popularidade de alguns específicos; ou, ainda, analisar o local da produção para pensar a relação autor-identidade-nordeste e a associação Nordeste x estados, para localizar os Nordestes sobre o qual estão discutindo.

Notas
  1. Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (PPCULT/UFF).
  2. “Definidas como de caráter bibliográfico, elas parecem trazer em comum o desafio de mapear e de discutir uma certa produção acadêmica em diferentes campos do conhecimento, tentando responder que aspectos e dimensões vêm sendo destacados e privilegiados em diferentes épocas e lugares, de que formas e em que condições têm sido produzidas certas dissertações de mestrado, teses de doutorado, publicações em periódicos e comunicações em anais de congressos e de seminários. Também são reconhecidas por realizarem uma metodologia de caráter inventariante e descritivo da produção acadêmica e científica sobre o tema que busca investigar, à luz de categorias e facetas que se caracterizam enquanto tais em cada trabalho e no conjunto deles, sob os quais o fenômeno passa a ser analisado.” (FERREIRA, 2002, p. 258)
  3. Além da dimensão epistemológica, Hall (1997, p. 27) cita quatro dimensões gerais para discutir a centralidade da cultura: “a ascensão dos novos domínios, instituições e tecnologias associadas às indústrias culturais que transformaram as esferas tradicionais da economia, indústria, sociedade e da cultura em si; a cultura vista como uma força de mudança histórica global; a transformação cultural do quotidiano; a centralidade da cultura na formação das identidades pessoais e sociais”.
  4. “Colocando em termos simples, cultura diz respeito a “significados compartilhados”. Ora, a linguagem nada mais é do que o meio privilegiado pelo qual “damos sentido” às coisas, onde o significado é produzido e intercambiado. Significados só podem ser compartilhados pelo acesso comum à linguagem. Assim, esta se torna fundamental para os sentidos e para a cultura e vem sendo invariavelmente considerada o repositório-chave de valores e significados culturais.” (HALL, 2016, p. 18)
  5. Google Scholar: https://scholar.google.com.br/
  6. A coleta foi feita a partir da query de busca “identidade nordestina” OR (identidade AND nordeste) OR (representação AND nordestinos) OR (representação AND nordestinas) entre março e abril de 2019; e o critério de recorte foi a presença dos termos identidade(s), representação(ões), narrativa(s), sentido(s) ou cultura(s) no título ou resumo do trabalho, em consonância com o enfoque quanto às categorias-mães Nordeste/nordestino(as) (não específicas aos estados); foram desconsiderados trabalhos que não continham resumo (capítulos de livro, ensaios, etc.).
  7. A planilha está disponível online e pode ser acessada no link:
  8. Os termos “nordeste”, “nordestino(a)” e “nordestino(as)” foram removidos para melhor visualização. Optou-se por manter “identidade” e “representação” para perceber como essas duas terminologias aparecem – ou não – em categorias específicas.
  9. Software de análise de texto: http://www.laurenceanthony.net/software/antconc/
Referências bibliográficas

FERREIRA, Norma. Pesquisas denominadas estado da arte: possibilidades e limites. Educação e Sociedade, Campinas, v. 1, n.79, p. 257-274, 2002.
HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Educação & realidade, v. 22, n. 2, 1997.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2015.
HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, 2016.
PITOMBO, Mariella; RUBIM, Lindinalva; SOUZA, Delmira. ESTUDOS DA CULTURA NO BRASIL:
UMA ANÁLISE A PARTIR DO ENECULT. In: XI Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura – XI ENECULT, 2015, Salvador. Salvador: CULT, 2015. v. 1.
WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, p. 7-72, 2014.

A imagem dos nordestinos e do Nordeste segundo o Google

Quando você pensa em Nordeste e/ou em nordestinos, o que vêm à sua cabeça? Quais referências visuais primeiro vêm à mente? Como pessoas inseridas na cultura brasileira, temos no nosso imaginário social uma série de signos aos quais podemos associar o “ser nordestino”. Segundo Albuquerque Júnior (199, p. 307), o Nordeste “é uma cristalização de estereótipos que são subjetivados como característicos do ser nordestino […]”, através de verdades instituídas “repetidas ad nauseum, seja pelos meios de comunicação, pelas artes, seja pelos próprios habitantes de outras áreas do país e da própria região”.

Na obra “A invenção do Nordeste”, o historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. explora toda a complexidade e historicidade sob os quais se basearam a construção desse espaço inventado. Nessa citação específica, já adianta algumas constatações importantes: 1) o Nordeste e a “nordestinidade” é uma construção social e histórica; 2) criada em cima do apagamento das particularidades de cada estado; 3) cuja operação foi/é praticada através da repetição discursiva; 4) de produtos culturais-midiáticos e; 5) consequentemente, tanto por cidadãos da própria região quanto daqueles de outros lugares do Brasil.

No meu TCC, explorei principalmente as questões de número 1 – através de uma breve porém responsável revisão de literatura e fundamentação teórica – e 5 – com questionário respondido por pessoas cuja identidade nordestina era explorada com mais veemência no Facebook. Para o meu projeto de mestrado, pretendo seguir explorando a questão 1 e, desta vez, desenvolver melhor as questões 2, 3 e 4 – ou seja, para além de trabalhar diretamente com as pessoas e como elas enxergam essa associação identitária, tentar compreender como os discursos – de modo geral – estão em disputa e operam midiática e culturalmente.

Como um dos primeiros experimentos desse trabalho contínuo, decidi averiguar empiricamente o que Albuquerque Jr. chamou de “cristalização de estereótipos”. Alguns esforços acadêmicos foram produzidos nesse sentido, analisando, por exemplo, a representação do Nordeste em capas de revista; ou nas artes como na literatura, cinema e música. No entanto, esses trabalhos geralmente focam no discurso textual (pela facilidade de interpretação) e em produtos pré-digitais. Uma das minhas propostas para o mestrado é justamente trazer essa discussão para a era da internet, em que novas dinâmicas de poder estão em jogo.

A começar, por tanto, pelo site mais acessado do Brasil e do mundo: o Google. Achei que seria interessante explorar a representação do Nordeste a partir de imagens do Google. No entanto, antes de seguir para a análise, é importante entender como funciona, de modo simples, o mecanismo do Google para não partirmos da suposição errônea de que é a própria plataforma que ativa esses conteúdos ou que há profissionais selecionando/fazendo a curadoria dessas imagens. E ninguém melhor para explicar sobre como isso funciona do que o próprio CEO do Google, Sundar Pichai, em depoimento judicial:

Nesse vídeo, Pichai explica por que, quando a deputada Zoe Lofgren pesquisara no Google Images o termo “idiota”, aparecia a imagem de Donald Trump. Pichai explica que a ferramenta faz uma raspagem de bilhões de páginas da web indexadas na plataforma à procura do termo, para depois ranqueá-las com base em mais de 200 critérios, como relevância, ineditismo, popularidade, como as pessoas estão utilizando, etc. e apresentar os melhores resultados de acordo. Ou seja, há um esforço técnico-algorítmico do próprio Google, mas a essência (a fonte de dados, literalmente) são os próprios usuários de internet.

É óbvio que isso é extremamente complexo e não tão simples quanto a resposta (devido ao contexto) explicou. Vários pesquisadores já têm se debruçado sobre a imparcialidade dos algoritmos e das tecnologias de aprendizado de máquina e inteligência artificial, para principalmente não fugirmos da responsabilização das empresas de tecnologia quanto à manutenção de preconceitos de gênero e raça. Neste experimento específico, esse parênteses – importantíssimo – pode ser compreendido também na construção (e manutenção) dos estereótipos, que mesmo proferidos pelos próprios moradores da região, continuam sendo estereótipos.

Análise: +3.000 imagens sobre nordestinos no Google

Como o Google tem um limite de exibição de resultados para imagens, fiz a coleta com algumas pequenas alterações de termos: nordestino, nordestina, nordestinos, nordestinas e nordeste; ao total, foram 3.684 imagens coletadas (com o DownThemAll!) – após limpeza de URLs duplicados, finalizei com 3.135 imagens. Para fazer a análise das imagens, utilizei a mesma metodologia desenvolvida para este relatório, com a API de análise de conteúdo de imagens do próprio Google e os scripts em Python desenvolvidos por André Mintz para esforços de computação visual com auxílio de técnicas de análise de redes. Clique na imagem abaixo para ver o resultado em tamanho maior:

Ao todo, consegui identificar pelo menos 23 territórios imagéticos: culinária, bebidas, mercadinhos, denúncias, política, artesanato, produtos gráficos I e II, símbolos culturais, natureza, pessoas, cavalgada, vestimentas de couro, música I e II, mapas, apresentações artísticas, multidões/festejos, futebol, paisagens urbanas I e II, paisagens praianas e paisagens do sertão. Importante lembrar, no entanto, que essas divisões foram feitas a partir da minha interpretação; a disposição espacial das imagens se reúnem (e se afastam) pela semelhança identificada através da API de análise de imagens do Google, posteriormente organizada em rede.

Isso significa que não há – de nenhuma forma – imparcialidade na análise. Há recortes arbitrários feitos tanto pela ferramenta de inteligência artificial (e por isso é importante questioná-las, estressá-las, etc.), quanto do formato espacial que optei por dispor as imagens quanto pela minha própria leitura do produto resultante. Para comentar algumas questões possivelmente interessantes sobre o resultado, separei (novamente, do jeito que achei mais propício) os 23 territórios em oito categorias – que atravessam umas às outras de vários modos, cuja delimitação é exclusivamente didática:

Culinária e bebidas

Era de se esperar que a culinária nordestina fosse receber uma atenção considerável no Google. É possível identificar pratos típicos como cuscuz, macaxeira, bolo de rolo, caranguejo, moqueca, feijoada, carne do sol, acarajé, pamonha e até queijinho na brasa. Talvez o mais interessante nesse grupo, entretanto, são dois bolos decorativos com elementos “típicos” como dois bonequinhos de cangaceiros e um chapéu de couro, além de xilogravuras. Esse que também aparece nas bebidas, em propaganda da Brahman; mas cujo destaque são as cachaças e o famoso Guaraná Jesus.

Denúncias

Importante para lembrar que o “local” da análise interfere nos resultados é o grupo que chamei de Denúncias. Tratam-se de capturas de tela de mensagens preconceituosas feitas contra nordestinos nos últimos anos. Especialmente em época de eleições, é bastante comum que isso aconteça e alguns jornais/blogs noticiam o ocorrido (depois de as mensagens se proliferarem na rede em forma de denúncia geralmente por usuários comuns). Com a divulgação das notícias, as imagens acabam sendo indexadas pela plataforma.

Produtos gráficos,
símbolos culturais e mapas

E como nem só de fotos vive a internet, vale falar também desses grupos semelhantes. Com exceção dos Mapas (fruto provavelmente do termo “nordeste” na coleta), os outros três são produções gráficas digitais (banners, panfletos, montagens, etc.) que, em grande maioria, trazem alguma simbologia explícita já associada à cultura nordestina – como o chapéu de couro, por exemplo, presente em outros grupos. Ademais, os formatos de ilustração tipo xilogravura, o paisagismo do sertão e até alguns escolhas de tipografia.

Música, apresentações artísticas
e multidões/festejos

Outro grupo cujos signos ficam também em bastante evidência – e se complementam: em Música (I e II), instrumentos como zabumba, sanfona e triângulo; em Apresentações Artísticas, os figurinos do cangaço e roupas tradicionais; e em Multidões/Festejos, as imagens de festas juninas, do carnaval e de outros eventos folclóricos. Visualmente, chama a atenção principalmente as vestimentas, sempre inspirados na roupa do cangaço e/ou nas tradições de festas juninas. Em Multidões, é possível perceber também caravanas e passeatas políticas – um detalhe importante.

Pessoas, política e futebol

O detalhe é importante porque não tem como falar sobre Nordeste sem falar sobre política – em diversos sentidos. No grupo de Pessoas, são políticos que mais aparecem: Lula, Haddad, Bolsonaro, Alckmin, etc; alguns famosos também compõem o visual, como Caetano Veloso e Pitty, para citar alguns. O grupo Políticos deve ter sido tomado sua própria forma devido ao enquadramento das imagens, cuja API do Google já conseguiu identificar nos parâmetros de editoriais sobre política. Por fim, a paixão pelo futebol também vem em evidência: e ainda em tom político, com chapéu de palha e um “orgulho” refletido, por exemplo, na Lampions League.

Artesanato,
vestimentas de couro e mercadinhos

Em menor saliência, separei os grupos Artesanato, Vestimentas de Couro e Mercadinhos simplesmente pelo reforço à composição visual já percebida em outros grupos do que se refere aos nordestinos. São as famosas priquitinhas, o chapéu de couro (novamente), as peças de cerâmica/argila do famoso Pezão, e os mercadinhos – também confundido com restaurantes – tipo mercearia cuja própria paleta de cores significa alguma coisa. Detalhes simples, literalmente, mas que somam ao quadro geral que estamos montando.

Paisagens urbanas

O grupo Paisagens Urbanas divide-se em dois: um mais cotidiano, com imagens aparentemente mais corriqueiras; e outro mais “publicitário”, com imagens que remetem principalmente ao turismo. No primeiro, destaca-se a presença do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, a famosa feira de São Cristóvão – localizada no Rio de Janeiro; no mais, algumas imagens avulsas de ruas das cidades. No segundo, fotografias profissionais destacam o Nordeste por uma lente mais mercadológica, como se estivesse vendendo-a como experiência (provavelmente fotos de sites de agências de turismo) – salvo algumas poucas exceções.

Natureza, cavalgada,
paisagens praianas
e paisagens do sertão

Por fim, o último grupo (talvez merecesse duas divisões distintas, mas achei melhor reunir tudo pois) traz basicamente fotos da natureza. Em Natureza vemos algumas espécies provavelmente mais comuns no Nordeste e, no grupo que chamei de Cavalgada, homens montando em cavalos refletem as histórias do sertão. Ao lado deles (literalmente), fotografias que provavelmente reforçam a seca que sofrem alguns municípios também ganham destaque. Por fim, o Nordeste paradisíaco é representado nas Paisagens Praianas – não coincidentemente ao lado das paisagens urbanas mais publicitárias.


Como discuti um pouco na monografia, não é porque as dinâmicas de poder se tornaram mais complexas que os estereótipos vão imediatamente sumir. O processo de transcodificação (Hall, 2016) é muito mais difícil de se por em prática do que imaginamos, e a própria reversão é ambivalentemente perigosa: “para transformarmos um estereótipo não precisamos necessariamente intervê-lo ou subvertê-lo. Escapar das garras de um dos extremos do estereótipo […] talvez signifique simplesmente estar preso em sua alteridade estereotípica” (id. ibid., p. 215).

O meu intuito aqui, entretanto, não é questionar nem tensionar os estereótipos construídos acerca da imagem (ou das imagens) dos nordestinos, mas dar um pontapé inicial para mostrar – empiricamente – que há um conjunto de símbolos e signos representativos do Nordeste e dos nordestinos. Quando argumentar sobre esse “imaginário social” sobre esses atores no contexto da cultura brasileira, posso mostrar – literalmente – do que se trata (talvez não em sua totalidade, mas em larga extensão – o que trabalhos focados em outras mídias não acompanham).

A problematização em cima do que essa representação envolve e quais são seus efeitos reais fica para outra ocasião mais propícia (e possivelmente acadêmica). Além disso, vale ainda refletir sobre não somente o que ficou de dentro, mas o que ficou de fora desse quadro – ou seja, a não-presença de alguns aspectos também comunica alguma coisa; e, no mais, uma comparação da generalização de Nordeste/nordestinos com cada um dos estados seria uma oportunidade riquíssima – que também vai ficar para outra oportunidade.

Referências bibliográficas

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 1999.
HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, 2016.