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A imagem dos nordestinos e do Nordeste segundo o Google

Quando você pensa em Nordeste e/ou em nordestinos, o que vêm à sua cabeça? Quais referências visuais primeiro vêm à mente? Como pessoas inseridas na cultura brasileira, temos no nosso imaginário social uma série de signos aos quais podemos associar o “ser nordestino”. Segundo Albuquerque Júnior (199, p. 307), o Nordeste “é uma cristalização de estereótipos que são subjetivados como característicos do ser nordestino […]”, através de verdades instituídas “repetidas ad nauseum, seja pelos meios de comunicação, pelas artes, seja pelos próprios habitantes de outras áreas do país e da própria região”.

Na obra “A invenção do Nordeste”, o historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. explora toda a complexidade e historicidade sob os quais se basearam a construção desse espaço inventado. Nessa citação específica, já adianta algumas constatações importantes: 1) o Nordeste e a “nordestinidade” é uma construção social e histórica; 2) criada em cima do apagamento das particularidades de cada estado; 3) cuja operação foi/é praticada através da repetição discursiva; 4) de produtos culturais-midiáticos e; 5) consequentemente, tanto por cidadãos da própria região quanto daqueles de outros lugares do Brasil.

No meu TCC, explorei principalmente as questões de número 1 – através de uma breve porém responsável revisão de literatura e fundamentação teórica – e 5 – com questionário respondido por pessoas cuja identidade nordestina era explorada com mais veemência no Facebook. Para o meu projeto de mestrado, pretendo seguir explorando a questão 1 e, desta vez, desenvolver melhor as questões 2, 3 e 4 – ou seja, para além de trabalhar diretamente com as pessoas e como elas enxergam essa associação identitária, tentar compreender como os discursos – de modo geral – estão em disputa e operam midiática e culturalmente.

Como um dos primeiros experimentos desse trabalho contínuo, decidi averiguar empiricamente o que Albuquerque Jr. chamou de “cristalização de estereótipos”. Alguns esforços acadêmicos foram produzidos nesse sentido, analisando, por exemplo, a representação do Nordeste em capas de revista; ou nas artes como na literatura, cinema e música. No entanto, esses trabalhos geralmente focam no discurso textual (pela facilidade de interpretação) e em produtos pré-digitais. Uma das minhas propostas para o mestrado é justamente trazer essa discussão para a era da internet, em que novas dinâmicas de poder estão em jogo.

A começar, por tanto, pelo site mais acessado do Brasil e do mundo: o Google. Achei que seria interessante explorar a representação do Nordeste a partir de imagens do Google. No entanto, antes de seguir para a análise, é importante entender como funciona, de modo simples, o mecanismo do Google para não partirmos da suposição errônea de que é a própria plataforma que ativa esses conteúdos ou que há profissionais selecionando/fazendo a curadoria dessas imagens. E ninguém melhor para explicar sobre como isso funciona do que o próprio CEO do Google, Sundar Pichai, em depoimento judicial:

Nesse vídeo, Pichai explica por que, quando a deputada Zoe Lofgren pesquisara no Google Images o termo “idiota”, aparecia a imagem de Donald Trump. Pichai explica que a ferramenta faz uma raspagem de bilhões de páginas da web indexadas na plataforma à procura do termo, para depois ranqueá-las com base em mais de 200 critérios, como relevância, ineditismo, popularidade, como as pessoas estão utilizando, etc. e apresentar os melhores resultados de acordo. Ou seja, há um esforço técnico-algorítmico do próprio Google, mas a essência (a fonte de dados, literalmente) são os próprios usuários de internet.

É óbvio que isso é extremamente complexo e não tão simples quanto a resposta (devido ao contexto) explicou. Vários pesquisadores já têm se debruçado sobre a imparcialidade dos algoritmos e das tecnologias de aprendizado de máquina e inteligência artificial, para principalmente não fugirmos da responsabilização das empresas de tecnologia quanto à manutenção de preconceitos de gênero e raça. Neste experimento específico, esse parênteses – importantíssimo – pode ser compreendido também na construção (e manutenção) dos estereótipos, que mesmo proferidos pelos próprios moradores da região, continuam sendo estereótipos.

Análise: +3.000 imagens sobre nordestinos no Google

Como o Google tem um limite de exibição de resultados para imagens, fiz a coleta com algumas pequenas alterações de termos: nordestino, nordestina, nordestinos, nordestinas e nordeste; ao total, foram 3.684 imagens coletadas (com o DownThemAll!) – após limpeza de URLs duplicados, finalizei com 3.135 imagens. Para fazer a análise das imagens, utilizei a mesma metodologia desenvolvida para este relatório, com a API de análise de conteúdo de imagens do próprio Google e os scripts em Python desenvolvidos por André Mintz para esforços de computação visual com auxílio de técnicas de análise de redes. Clique na imagem abaixo para ver o resultado em tamanho maior:

Ao todo, consegui identificar pelo menos 23 territórios imagéticos: culinária, bebidas, mercadinhos, denúncias, política, artesanato, produtos gráficos I e II, símbolos culturais, natureza, pessoas, cavalgada, vestimentas de couro, música I e II, mapas, apresentações artísticas, multidões/festejos, futebol, paisagens urbanas I e II, paisagens praianas e paisagens do sertão. Importante lembrar, no entanto, que essas divisões foram feitas a partir da minha interpretação; a disposição espacial das imagens se reúnem (e se afastam) pela semelhança identificada através da API de análise de imagens do Google, posteriormente organizada em rede.

Isso significa que não há – de nenhuma forma – imparcialidade na análise. Há recortes arbitrários feitos tanto pela ferramenta de inteligência artificial (e por isso é importante questioná-las, estressá-las, etc.), quanto do formato espacial que optei por dispor as imagens quanto pela minha própria leitura do produto resultante. Para comentar algumas questões possivelmente interessantes sobre o resultado, separei (novamente, do jeito que achei mais propício) os 23 territórios em oito categorias – que atravessam umas às outras de vários modos, cuja delimitação é exclusivamente didática:

Culinária e bebidas

Era de se esperar que a culinária nordestina fosse receber uma atenção considerável no Google. É possível identificar pratos típicos como cuscuz, macaxeira, bolo de rolo, caranguejo, moqueca, feijoada, carne do sol, acarajé, pamonha e até queijinho na brasa. Talvez o mais interessante nesse grupo, entretanto, são dois bolos decorativos com elementos “típicos” como dois bonequinhos de cangaceiros e um chapéu de couro, além de xilogravuras. Esse que também aparece nas bebidas, em propaganda da Brahman; mas cujo destaque são as cachaças e o famoso Guaraná Jesus.

Denúncias

Importante para lembrar que o “local” da análise interfere nos resultados é o grupo que chamei de Denúncias. Tratam-se de capturas de tela de mensagens preconceituosas feitas contra nordestinos nos últimos anos. Especialmente em época de eleições, é bastante comum que isso aconteça e alguns jornais/blogs noticiam o ocorrido (depois de as mensagens se proliferarem na rede em forma de denúncia geralmente por usuários comuns). Com a divulgação das notícias, as imagens acabam sendo indexadas pela plataforma.

Produtos gráficos,
símbolos culturais e mapas

E como nem só de fotos vive a internet, vale falar também desses grupos semelhantes. Com exceção dos Mapas (fruto provavelmente do termo “nordeste” na coleta), os outros três são produções gráficas digitais (banners, panfletos, montagens, etc.) que, em grande maioria, trazem alguma simbologia explícita já associada à cultura nordestina – como o chapéu de couro, por exemplo, presente em outros grupos. Ademais, os formatos de ilustração tipo xilogravura, o paisagismo do sertão e até alguns escolhas de tipografia.

Música, apresentações artísticas
e multidões/festejos

Outro grupo cujos signos ficam também em bastante evidência – e se complementam: em Música (I e II), instrumentos como zabumba, sanfona e triângulo; em Apresentações Artísticas, os figurinos do cangaço e roupas tradicionais; e em Multidões/Festejos, as imagens de festas juninas, do carnaval e de outros eventos folclóricos. Visualmente, chama a atenção principalmente as vestimentas, sempre inspirados na roupa do cangaço e/ou nas tradições de festas juninas. Em Multidões, é possível perceber também caravanas e passeatas políticas – um detalhe importante.

Pessoas, política e futebol

O detalhe é importante porque não tem como falar sobre Nordeste sem falar sobre política – em diversos sentidos. No grupo de Pessoas, são políticos que mais aparecem: Lula, Haddad, Bolsonaro, Alckmin, etc; alguns famosos também compõem o visual, como Caetano Veloso e Pitty, para citar alguns. O grupo Políticos deve ter sido tomado sua própria forma devido ao enquadramento das imagens, cuja API do Google já conseguiu identificar nos parâmetros de editoriais sobre política. Por fim, a paixão pelo futebol também vem em evidência: e ainda em tom político, com chapéu de palha e um “orgulho” refletido, por exemplo, na Lampions League.

Artesanato,
vestimentas de couro e mercadinhos

Em menor saliência, separei os grupos Artesanato, Vestimentas de Couro e Mercadinhos simplesmente pelo reforço à composição visual já percebida em outros grupos do que se refere aos nordestinos. São as famosas priquitinhas, o chapéu de couro (novamente), as peças de cerâmica/argila do famoso Pezão, e os mercadinhos – também confundido com restaurantes – tipo mercearia cuja própria paleta de cores significa alguma coisa. Detalhes simples, literalmente, mas que somam ao quadro geral que estamos montando.

Paisagens urbanas

O grupo Paisagens Urbanas divide-se em dois: um mais cotidiano, com imagens aparentemente mais corriqueiras; e outro mais “publicitário”, com imagens que remetem principalmente ao turismo. No primeiro, destaca-se a presença do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, a famosa feira de São Cristóvão – localizada no Rio de Janeiro; no mais, algumas imagens avulsas de ruas das cidades. No segundo, fotografias profissionais destacam o Nordeste por uma lente mais mercadológica, como se estivesse vendendo-a como experiência (provavelmente fotos de sites de agências de turismo) – salvo algumas poucas exceções.

Natureza, cavalgada,
paisagens praianas
e paisagens do sertão

Por fim, o último grupo (talvez merecesse duas divisões distintas, mas achei melhor reunir tudo pois) traz basicamente fotos da natureza. Em Natureza vemos algumas espécies provavelmente mais comuns no Nordeste e, no grupo que chamei de Cavalgada, homens montando em cavalos refletem as histórias do sertão. Ao lado deles (literalmente), fotografias que provavelmente reforçam a seca que sofrem alguns municípios também ganham destaque. Por fim, o Nordeste paradisíaco é representado nas Paisagens Praianas – não coincidentemente ao lado das paisagens urbanas mais publicitárias.


Como discuti um pouco na monografia, não é porque as dinâmicas de poder se tornaram mais complexas que os estereótipos vão imediatamente sumir. O processo de transcodificação (Hall, 2016) é muito mais difícil de se por em prática do que imaginamos, e a própria reversão é ambivalentemente perigosa: “para transformarmos um estereótipo não precisamos necessariamente intervê-lo ou subvertê-lo. Escapar das garras de um dos extremos do estereótipo […] talvez signifique simplesmente estar preso em sua alteridade estereotípica” (id. ibid., p. 215).

O meu intuito aqui, entretanto, não é questionar nem tensionar os estereótipos construídos acerca da imagem (ou das imagens) dos nordestinos, mas dar um pontapé inicial para mostrar – empiricamente – que há um conjunto de símbolos e signos representativos do Nordeste e dos nordestinos. Quando argumentar sobre esse “imaginário social” sobre esses atores no contexto da cultura brasileira, posso mostrar – literalmente – do que se trata (talvez não em sua totalidade, mas em larga extensão – o que trabalhos focados em outras mídias não acompanham).

A problematização em cima do que essa representação envolve e quais são seus efeitos reais fica para outra ocasião mais propícia (e possivelmente acadêmica). Além disso, vale ainda refletir sobre não somente o que ficou de dentro, mas o que ficou de fora desse quadro – ou seja, a não-presença de alguns aspectos também comunica alguma coisa; e, no mais, uma comparação da generalização de Nordeste/nordestinos com cada um dos estados seria uma oportunidade riquíssima – que também vai ficar para outra oportunidade.

Referências bibliográficas

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 1999.
HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, 2016.

O que faz ser nordestino no Facebook?

No dia 19 de dezembro de 2017, depois de quatro longos anos, apresentei no bloco A do campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense o meu trabalho de conclusão de curso na graduação em Estudos de Mídia. Com um misto de imensa gratidão e desconcertante despedida, defendi a minha monografia, “O que fazer ser Nordestino no Facebook: Escolhas da construção identitária nos sites de redes sociais”, frente à melhor banca que poderia ter escolhido para fechar esse ciclo com chave de ouro.

Quem me acompanha no Twitter sabe que não foi uma jornada fácil – e nem rápida, já que comecei a confabular a ideia para esse trabalho ainda no primeiro semestre de 2016. Com alguns tropeços (burocráticos e da vida mesmo) no caminho, a verdade é que eu só sentei para realmente escrever os capítulos no segundo semestre de 2017 – escrevendo o segundo e terceiro capítulo só em novembro, ou seja, em apenas algumas semanas. A minha sorte é que, embora tenha deixado a produção para a última hora, já tinha lido e catalogado a grande maioria das minhas referências meses antes.

Como comentei no Twitter, o sufoco para finalizar esse trabalho não se deu por falta de aptidão pelo tema, mas apenas pela irresponsabilidade cronológica das minhas obrigações. Garanto, no entanto, que foi o meu entusiasmo pelo tema – e pela ideia em geral – que me forneceu o combustível necessário para escrever mais de 60 páginas apenas em duas/três semanas. Poder levantar a discussão sobre identidade, cultura, representação, Nordeste, autoapresentação, performance e sites de redes sociais em um único trabalho fez com que a escrita saísse com suor, mas com um imenso sorriso no rosto.

Embora o tema – ou melhor, os temas – possam parecer óbvios para a minha pessoa, não foi fácil chegar nele(s). No quinto período, quando fiz a disciplina Metodologia de Pesquisa, foi realmente quando tive que colocar no papel as ideias que tive durante os três anos de graduação para elaborar um anteprojeto. Revirei minhas anotações, as disciplinas que fiz, tweets que publiquei… E cheguei à conclusão que queria falar de identidade e sites de redes sociais, só faltava um meio termo. Felizmente no mesmo período tinha feito um trabalho sobre a Brasileiríssimos que me orientou por onde deveria seguir, até que cheguei à Nordestinos.

A ideia inicial (do anteprojeto) era fazer uma análise da representação do Nordeste nessa página, mas descartei eventualmente essa proposta porque queria focar mais em identidade e menos em representação/análise do discurso (embora seja tudo muito imbricado). Isso porque era uma questão que me atravessava diretamente (saí de Aracaju com 17 anos para São Paulo e depois Rio de Janeiro, então a identidade nordestina era “percebida” pelos outros de forma constante na minha vida no Sudeste) e também devido à minha afiliação teórica com a discussão sobre identidade – e não tanto com análise do discurso (muito relevante para avaliar o conteúdo de uma página), por exemplo.

Antes de começar a escrever o trabalho, meu orientador – Prof. Dr. Marildo Nercolini – orientou que eu produzisse, sem me preocupar com a burocracia das referências, um texto sobre o que eu tinha em mente. Deveria ter somente duas páginas, mas acabei escrevendo sete. Com o entusiasmo, cheguei a produzir um artigo para o XIII ENECULT – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, que infelizmente não foi aceito. Fiquei bastante abatido na época, porque era uma das minhas metas de 2017, mas concordei com todos os apontamentos do avaliador. Embora tivesse uma boa base teórica, partiu de um texto na primeira pessoa e faltou uma análise mais densa.

Confesso que me desanimou um pouco, e talvez tenha sido esse o motivo pelo qual demorei tanto para começar a escrever o TCC. Fui negado em maio, escrevi o primeiro capítulo em julho e fui revisar só em setembro. Felizmente meu orientador não me abandou em nenhum momento e me deu todo o apoio necessário para que eu terminasse o trabalho em tempo recorde. E, finalmente, depois de tantos altos e baixos, consegui produzir algo do qual me orgulho muito e fiquei bastante feliz com o resultado. Independente da avaliação da banca, estava satisfeito com o meu trabalho. Sem mais delongas, portanto, compartilho aqui – para quem tiver interesse – a minha monografia:

Talvez eu deva começar explicando pelo título, que não foi bem aceito pela banca. A minha ideia inicial era seguir pelo óbvio “A identidade nordestina no Facebook”, mas não consegui encontrar um subtítulo que não repetisse a mesma ideia do título, complementando-o – como deveria ser. Foi somente nos últimos dias de produção que me veio o título final, no qual a proposta é fazer uma referência direta ao livro “O que fazer ser nordestino: identidades sociais, interesses e o ‘escândalo’ Erundina”, escrito por Maura Penna na década de 90 e uma das principais referências bibliográficas no meu trabalho. Reconheço, entretanto, que pode soar estranho para quem não conhece a obra – a grande maioria das pessoas.

Fora isso, o trabalho foi muito bem aceito pela banca que apontou apenas algumas (várias, na verdade: eu falei por 20 minutos e elas falaram por 2/3 horas) considerações de correção e/ou melhorias. Em suma, a proposta do TCC era responder à pergunta: por que as pessoas optam por acionar a identidade nordestina nos sites de redes sociais? Para isso, estruturei da seguinte forma: no primeiro capítulo, fiz um levantamento histórico-bibliográfico de como “surge” o Nordeste e o nordestino; em seguida, dedico todo o segundo capítulo à discussão sobre identidade, sob diferentes perspectivas: nacionais, regionais, fragmentadas e, finalmente, nos sites de redes sociais; finalizo o trabalho com as respostas ao questionário que apliquei com usuários do Nordeste.

Fiquei muito feliz que, nesta última etapa, encontrei uma solução metodológica utilizando a análise de redes. Explico: a minha pergunta principal parte do pressuposto de que há pessoas que acionam essa identidade nos sites de redes sociais, então, como posso encontrá-las? Poderia optar por simplesmente selecionar alguns amigos meus e pedir que respondessem ao questionário, mas achei que a análise de redes me ofereceria um critério “científico” muito mais válido. Aquele trabalho que publiquei aqui no post alguns meses atrás, do mapeamento do Nordeste no Facebook, portanto, serviu como base para que eu encontrasse as páginas mais “influentes” no contexto da minha pesquisa – a identidade nordestina. Com essa lista em mãos, utilizei como requisito básico para encontrar usuários aptos a responder o questionário.

Enfim, consegui colocar identidade, cultura, representação, Nordeste, sites de redes sociais, autoapresentação e análise de redes (que por tanto tempo fugi) num mesmo trabalho – e, portanto, repito: não poderia estar mais feliz com o resultado. A versão que trago acima já é corrigida após os apontamentos da banca, na medida do possível. Algumas considerações mais complexas (e foram muitas, o que me deixou muito animado) eu anotei como ideia para levar ao mestrado, a nova meta de 2018. Acho importante reconhecer, inclusive, uma limitação do projeto: o questionário em vez da entrevista, o que “limitou” as respostas dos informantes para averiguar com mais afinco a especificidade dessa construção identitária nos sites de redes sociais, como apontou Prof. Dra. Beatriz Polivanov.

Para finalizar, reconheço que não apenas a questão sob a viés dos sites de redes sociais pode ser um campo muito interessante a ser explorado num programa de pós-graduação em comunicação, mas diversas outras questões como estigma, preconceito, estereótipo, disputa, orgulho e diáspora. Dentre as falas da banca, uma das que mais me marcou foi da Prof. Dra. Ana Lúcia Enne: é difícil deslocar a identidade quando se ancora na natureza (como álibi climático comumente associado ao Norte), pois o significante é muito poderoso, o que dificulta destruir o estereótipo. Mais difícil do que mexer no significado, portanto, é disputar o significante. Sobre isso, compartilho o que escrevi nas considerações finais após essa consideração na defesa:

Nascido em Salvador, parti para Aracaju com apenas 5 anos e deixei a capital somente aos 17, quando fui para São Paulo e depois para o Rio de Janeiro fazer faculdade. Como qualquer pessoa que sai do Nordeste em diração ao Sul, tive que lidar em algum (ou alguns momentos) com a diferenciação do “outro”, geralmente facilitada pelo conflito de sotaques. Desde então, a classificação “nordestino” atribuída a mim – e a outros milhões – sempre foi uma questão que me intrigava. Com as leituras que fiz no curso, a reflexão de anos ficou ainda mais complexa e, de certa forma, até mais complicada.

Essa dificuldade de lidar com a questão da autoatribuição nordestina pairou toda a escrita deste trabalho, uma vez que as reflexões sobre o “ser nordestino” após a minha migração já trazia uma leitura da identidade nordestina como representada nas obras de arte, como uma condição de sofrimento e adversidades. Se o texto parece impessoal, é somente devido a essa angústia que ainda me agonia. Ao tentar fugir do estereótipo, acabo negando-o e, ao mesmo tempo, legitimando-o. Afinal, “sou” nordestino, mas nunca passei por dificuldades (estruturais) na vida. Será que, então, poderia me identificar enquanto nordestino? Depois de tudo isso, acredito que sim.

Mapeando o Nordeste no Facebook: primeiros apontamentos com análise de redes sociais

Embora possa por vezes parecer eterna ou natural aos brasileiros, a ideia de Nordeste é de pouco mais de um século, sua origem remontando à reação política ao desmantelamento das economias do açúcar e do algodão e à busca de uma solução para a crise enfrentada conjuntamente pelas províncias brasileiras que delas dependiam. É somente nesse momento que começa a ruir a percepção provincial então vigente e que se elabora um discurso regionalista e nordestino, o qual se define e se afirma não apenas em oposição ao seu “outro” mais próximo – o ‘Sul’ cafeeeiro –, mas também em relação a um passado de suposto bem estar e harmonia. É através desse discurso e das ações oficiais dele derivadas que se demarca o espaço do que é Nordeste e se conforma uma identidade cultural nordestina, a qual legitima e representa, simbolicamente, aquele espaço. (ANJOS, 2000, pp. 47-48).

É extremamente difícil pensar que o Nordeste, assim como qualquer outra região/país/território, é apenas uma categoria discursiva. Isso não quer dizer que ela exista apenas no mundo semântico (das ideias), mas que ela se materializa nas nossas dinâmicas sociais através de um “ato mágico” performático que nos convenciona, enquanto seres humanos inteligíveis, um acordo sobre como entendemos as delimitações do espaço físico. A própria etimologia da palavra “região” traz consigo a ideia de regere sacra: uma espécie de crença mágica que confere àquele que está regendo uma autoridade/legitimidade que se faz acreditar nessa regência (e isso é Bourdieu explicando, não eu). A partir dessa discussão, Silva (2009, p. 20) explica que:

O Nordeste, nessa concepção, constitui-se como região a partir do trabalho de criação de determinados setores sociais que se relacionam em um espaço específico. Também compõem com outras áreas um conjunto nacional politicamente definido por grupos que o reconhecem como espaço construído em seu processo de produção material e cultural, através da qual se articula com o capital e com o Estado, formando uma entidade político-administrativa.

Se o Nordeste, portanto, é uma construção social fundada atos performáticos sobre os quais acordamos culturalmente, o que acontece com a sua noção “material” – no sentido físico, territorial – quando surgem novas esferas de comunicação que já atravessam e constituem parte da nossa vida cotidiana? Essa é uma pergunta extremamente complexa que não cabe a mim responder neste simples post. O meu interesse nesse contexto surge a partir de um viés bastante específico: a noção de identidade nordestina. Afinal, assim como o Nordeste, esta foi construída social e historicamente nos últimos 130 anos a partir de diversas conjunturas discursivas (e midiáticas) que estabeleceram, para tal, apontamentos bem específicos do que representava (e esta palavra é importante) ou não o ser nordestino.

O que tem se convencionado enquanto identidade nordestina, com o famigerado advento das novas tecnologias de comunicação e informação, é reconfigurado de alguma forma? Como as novas dinâmicas sociais de produção cultural alteram (ou não) os formatos impingidos aos nordestinos durante as últimas décadas? Essas são algumas perguntas que norteiam o meu trabalho de conclusão do curso de Estudos de Mídia, na UFF. Embora o projeto ainda esteja, metodologicamente, em seu formato embrionário, um pressuposto óbvio para discutir a identidade nordestina nos sites de redes sociais é localizar a categoria – e o Nordeste, de maneira geral – no ambiente online (mais especificamente no Facebook, por ser a mídia social mais popular do Brasil).

O propósito deste post, portanto, é apresentar os resultados iniciais (bem iniciais mesmo) desta minha difícil missão. Para enfrentar esse desafio, optei pela metodologia de análise de redes sociais – técnica que me permite localizar no Facebook praticamente todas as páginas que tragam alguma associação direta com o Nordeste ou com a identidade nordestina. Uma vez que a identidade nordestina é construída discursivamente através de recursos ancorados na repetição de certos valores simbólicos, identificar quem são os principais atores online que trabalham ativamente para a produção dessa construção que estimula (reforça) uma identificação dos usuários com a identidade é o primeiro passo para diagnosticar quais novas lógicas operam esse jogo de sociabilidades.

Para gerar a rede (sobre a qual explicarei e descrevei com mais detalhes a seguir), percorri os seguintes passos: 1) com a ajuda da Netvizz, fiz três buscas de páginas sobre o meu escopo de pesquisa: uma para “Nordeste”, outra para “Nordestino” e outra para “Nordestina” (a variação do plural também é captada pela ferramenta); 2) com as três listas em mão, organizei e limpei os dados para encontrar as páginas mais relevantes (removi páginas pequenas e outros lixos) sobre o tema, encontrando 139 resultados; 3) com a técnica de bola de neve (snowball), documentada por Richard Rogers (DMI) nos seus estudos sobre métodos digitais, encontrei mais 125 páginas a partir das conexões do grupo de páginas-semente. Para explicação mais detalhada sobre esse procedimento, ver Alves (2017, p. 109).

Com a lista completa de páginas sobre o Nordeste e/ou a identidade nordestina, totalizando agora 265 canais, fiz o download dos módulos de “curtida” de cada página também com a Netvizz. De maneira simples, funciona da seguinte forma: cada página do Facebook possui um ID que, através da ferramenta, é possível gerar um arquivo específico que traz consigo as conexões da página em questão com outras páginas que essa “curte” (assim como os usuários, as páginas também têm a opção de curtir outras páginas). Com todos esses arquivos em mãos, pude trabalhá-los diretamente no Gephi, programa específico para análise de redes. O resultado “final”, 5.100 nós (páginas) e 18.456 arestas (conexões), apresento abaixo:

A plotagem da rede foi gerada no Gephi a partir do layout ForceAtlas 2, conforme descrito por Alves (2017, p. 110): “esse processo cria um desenho de rede no qual os nós com mais ligações são atraídos para o centro e os menos conectados são repelidos para as margens”. Marquei a opção de “gravidade mais forte” porque a rede não apresentava alta densidade, ou seja, não havia uma mobilização orquestrada em prol de algum assunto específico – eram apenas algumas milhares de páginas centradas numa temática em comum. Além disso, também não é do meu interesse direto analisar o posicionamento dos clusters, a disposição espacial da rede, sendo suficiente para a minha proposta uma simples interpretação dos grupos formados – para então localizar atores influentes.

Na imagem acima, os clusters representam esses agrupamentos (classificados de maneira estatística pela própria ferramenta) coloridos. As cores foram selecionadas de maneira arbitrária, somente para representar os grupos reconhecidos pelo Gephi: 1.205 (23,63%) páginas no lilás, 959 páginas (18,8%) no verde, 540 (10,59%) no azul piscina, 493 (9,67%) no preto/cinza escuro, 401 (7,86%) no laranja, 221 (4,33%) no rosa e 207 (4,06%) no esmeralda. Os nós maiores, em formato circular, são as páginas com maior PageRank, métrica que leva em conta a centralidade e o peso das arestas – de maneira geral, ela identifica quais páginas recebem conexões mais relevantes dentro do próprio grupo.




Não me aprofundarei numa descrição dos clusters acima porque, além de serem relativamente auto-explicativos em seus exemplos apresentados, os dois grupos que mais aparentam relevância para o meu projeto são o lilás e o preto/cinza escuro. Neles estão presentes – além de algumas páginas que refletem gostos e valores culturais (até políticos) interessantes para possível discussão posterior – atores que trazem consigo o discurso mais vívido acerca do Nordeste e do ser nordestino. Para melhor visualização desses grupos, expandi um pouco a rede e ajustei os rótulos (desta vez proporcionais de acordo com a métrica grau de entrada) conforme representados nas imagens abaixo:



 

Tomando como base esses dois clusters, consegui identificar quais são os principais atores a propagar noções da identidade nordestina no Facebook. Para tal, exportei uma tabela com todos nós dos grupos e organizei na ordem da métrica talking_about_count. A minha ideia aqui em priorizar essa medida é priorizar as páginas onde há uma conversação contínua acerca dessa temática, já que para que haja uma construção identitária é necessário uma articulação constante de pessoas (no caso, usuários) apresentando e representando os valores daquele grupo – a página Nação Nordestina, por exemplo, embora volumosa em visibilidade, não se mostrou muito popular. O top15 – que classifiquei manualmente – segue abaixo:

Antes de finalizar, talvez deva uma resposta a um incômodo que pode surgir na leitura desse post: “por que você não mapeou todas as páginas das cidades (ou pelo menos capitais) e estados do Nordeste?”. Por dois motivos: primeiro, pela demanda de trabalho, obviamente; segundo, porque a minha fundamentação teórica segue justamente a linha de raciocínio na qual o Nordeste é visto como uma categoria discursiva, ou seja, por mais que “na prática” represente suas ramificações, é compreendido no imaginário social enquanto figura homogênea (como o Brasil, por exemplo, e o ser brasileiro). Ou seja, estou interessado justamente nessa concepção de Nordeste e identidade nordestina como um todo macro, mesmo que de maneira crítica e cautelosa para não reproduzir certos equívocos.

Esses foram os primeiros passos que pensei que podem me guiar no que tange o meu trabalho de conclusão de curso (e quiçá uma possível empreitada numa pós-graduação stricto sensu). Ainda não sei exatamente como seguir, mas foi uma atividade na qual pude unir o útil ao agradável: trabalhar o meu objeto de pesquisa junto a uma metodologia sobre a qual venho aprendendo cada vez mais, conforme já narrado aqui na minha saga e posterior aprendizados iniciais graças ao curso do IBPAD. Fico aberto a todo tipo de crítica (construtiva) para elucidar conseguintes apontamentos metodológicos que me ajudem a estruturar uma linha de raciocínio e argumentação para o projeto.

Referências bibliográficas

ALVES, Marcelo Santos. Campanha não oficial: A Rede Antipetista na eleição de 2014. REVISTA FRONTEIRAS (ONLINE), v. 19, p. 102-119, 2017.

ANJOS, Moacir dos. “Desmanche de Bordas: notas sobre identidade cultural no Nordeste do Brasil”. In: Artelatina. RJ: Aeroplano Editora, 2000.

SILVA, Claudeci Ribeiro. A representação do Nordeste nas letras das músicas de Marinês. UEPB: 2009.