Tag: Christine Hine

Marcha das Mulheres e mobilização online: debate, união e resistências, por Anna Martinez

[Texto escrito por Anna Carolina Martinez, graduanda em Estudos de Mídia na UFF]

A Marcha das Mulheres chegou até mim já pronta, articulada e no ápice de sua repercussão. No dia, abri o Facebook e me deparei com muitas imagens, vídeos e notícias sendo compartilhadas, e as inúmeras marchas em defesa aos direitos das mulheres e minorias que enchiam a minha timeline também me encheram de novas esperanças – parece clichê, mas não é. O feminismo é um tema bastante importante para mim, e ter recebido o convite para pensar nesta mobilização em que ele é central com o olhar das mídias sociais foi, sem dúvida, um presente.

No entanto, até começar a pesquisar para esse post, não tinha percebido o processo que já acontecia antes mesmo da Marcha ir para as ruas. Toda a estruturação desse movimento sócio-político já eram visíveis: discussões, resistências, debates, e articulação de uma ação-resposta mais significativa já apareciam nas redes sociais desde as eleições presidenciais dos EUA. Vejo a Marcha das Mulheres como parte de um longo processo de resistência, e gostaria de focar na importância da internet nisso tudo. Esta pode ser uma ferramenta bastante útil para a percepção de mudanças culturais, políticas e sociais antes mesmo de virem a tona no ambiente offline.

Uma breve retrospectiva pré-Marcha

Em novembro de 2016, Donald Trump venceu a eleição norte-americana contra Hillary Clinton ganhando não apenas poder político, mas um poder simbólico enorme que reforça seus valores e discursos. O problema é que estamos falando de um homem envolvido em várias polêmicas, com declarações racistas, xenófobas e sexistas, e que não tem problema nenhum em expor isso em entrevistas e campanhas. Por mais que ele deixasse claro não se importar com as pessoas que agredia com suas declarações, essas pessoas se incomodaram e utilizaram dos recursos que tinham para responder.

Os sites de redes sociais se tornaram um intenso “campo de batalhas”. Cada discurso desrespeitoso de Trump gerava uma chuva de mobilizações, respostas indignadas e revolta. Acredito que, às vezes, o opressor ‘ajuda’ a motivar a união dos grupos oprimidos a lutar, e foi exatamente isso que aconteceu. No dia seguinte da posse do novo presidente, mais de 3 milhões de pessoas, no mundo, foram para as ruas lutar por seus direitos, acontecia a Marcha das Mulheres.

Marcha(s) das Mulheres

No dia 21 de janeiro de 2017, as “Marcha das Mulheres” lotaram as ruas de várias cidades no mundo lutando pela voz que estavam tentando calar. A multidão com gorros de lã rosa com duas pontas era composta por mulheres, homens, e crianças. Juntos somavam mais de 500 mil manifestantes só na capital Americana – 200 mil a mais que os presentes no Capitólio e no National Mall para a posse do Presidente Trump. De acordo com os organizadores da Marcha, havia mais de 3 milhões de manifestantes em várias cidades dos Estados Unidos e também em outros países. Segundo o jornal Folha de São Paulo, na Europa, foram realizadas marchas em Londres, Berlim, Paris, Roma, Viena, Genebra e Amsterdã.

Na capital britânica, manifestantes relataram a participação de mais de 100 mil pessoas. Quênia e África do Sul representaram o continente com centenas de pessoas cantando músicas de protesto. E ainda houve passeatas em Tóquio, Sidney, Nova Zelândia, Rio de Janeiro e – pasmem – Antártica! Ao todo, estima-se que foram mais de 600 Marchas das Mulheres no mundo. O objetivo delas eram “o mesmo”: defender os direitos das mulheres e das minorias. Era uma reação aos comentários misóginos feitos por Trump, além das promessas de medidas contra o direito ao aborto, discursos de racismo, xenofobia, acusações de assédios e envolvimento em inúmeras polêmicas.

Falando em reação aos comentários de Trump, gostaria de apresentar uma curiosidade sobre símbolo das marchas: o gorro cor-de-rosa em formato de orelha de gatinho faz parte do projeto “Pussyhat Project” (Projeto ‘chapéu de buceta’ – tradução livre – é um trocadilho, pois a palavra em inglês “pussy” tanto pode significar gatinho quanto a forma pejorativa de se referir a vagina.). Trata-se de uma campanha a qual incentivava as mulheres a tricotarem gorros de lã cor de rosa com duas pontas para usarem ou distribuírem no dia da passeata. Os gorros fazem referência ao vídeo vazado de Trump no qual ele aparece falando “Quando você é uma estrela, elas te deixam fazer qualquer coisa. Pegue-as pela buceta”.

Por mais que a frase acima tenha indignado muita gente, nem todas puderam estar nas ruas somando à multidão. Felizmente isso não foi impedimento para acompanhar e participar das manifestações. As inúmeras marchas foram compartilhadas e transmitidas ao vivo no Youtube e nas mídias sociais, tanto por manifestantes quanto pela imprensa – e me atrevo a dizer, inclusive, que isso permitiu que a resistência das ruas e de rede atuassem juntas, aumentando o alcance de pessoas na mobilização. A própria Hillary Clinton foi uma que se aproveitou dessa extensão e tuitou agradecendo e apoiando a Marcha.

Além dela, outras personalidades e famosos se posicionaram, estiveram nas manifestações, postaram fotos, frases de apoio, e discursaram: Gloria Steinem, Angela Davis, Madonna, Scarlet Johanssen, Miley Cyrus, Rihanna, Alicia Keys, Cher, Helen Mirren, Katty Perry, Kristin Stewart, Julianne Moore, Michael Moore, Amy Schumer, Chimamanda Ngozi Adichie, além de inúmeros jornalistas e os demais presentes. Dentre todos os discursos feitos, gostaria de dar destaque a uma fala em Washington feita por uma das feministas mais importantes da história, Angela Davis:

“Esta é uma Marcha das Mulheres e ela representa a promessa de um feminismo contra o pernicioso poder da violência do Estado. E um feminismo inclusivo e interseccional que convoca todos nós a resistência contra o racismo, a islamofobia, ao anti-semitismo, a misoginia e a exploração capitalista.”

Particularmente, acredito que essas palavras ilustram muito bem a essência do movimento. O caráter inclusivo e interseccional faz com que vozes com diferentes pautas, vivências, e que por muitas vezes são silenciadas possam falar. Demonstra que a multidão está ali por um propósito: a luta por direitos, a busca por mudanças socio-políticas positivas para as mulheres, agregar mais pessoas à luta, e um posicionamento contra o discurso do atual presidente – na entrevista em que as organizadoras da Marcha em Idaho fizeram elas falam exatamente sobre isso. Não diferente do que um regime opressor pede, ela encerra seu discurso da seguinte maneira:

“Os próximos 1459 dias da gestão Trump serão 1459 dias de resistência: Resistência nas ruas, nas escolas, no trabalho, resistência em nossa arte e em nossa música.”

Feminismo e a importância do debate online

Após um melhor entendimento do que foi a manifestação e seus propósitos, voltemos ao foco deste post: o papel da internet nesse processo. Através dos sites de redes sociais, principalmente, é possível identificar quais são os assuntos mais relevantes e como eles tão sendo abordados, – quais são as hashtags que estão sendo mais usadas no Twitter, qual o tema mais pesquisado no Google, por exemplo – e  a partir disso, analisar  se as interações das pessoas estão sendo relevantes a ponto de gerar questionamentos sobre estruturas políticas, culturais e sociais. Utilizo da frase de Richard Rogers – em tradução livre – para me expressar melhor:

“A questão não é mais saber o quanto da sociedade e da cultura está online, mas sim como diagnosticar mudanças culturais e condições da sociedade através da internet.”

O acompanhamento dessas mudanças permite esse diagnóstico, e assim foi feito com a Marcha, diversos sites fizeram pesquisas monitorando o processo para entender melhor a situação – alguns deles foram Wired e Crimson Hexagon. E o que pude notar desse cenário é que o espaço que o feminismo ganhou nesses últimos anos fez toda a diferença para que essa marcha tivesse acontecido. Mesmo com várias outras pautas tão importantes quanto, o feminismo foi o anfitrião da Marcha das Mulheres, por isso daremos uma atenção especial a ele nesse momento – vale ressaltar que o feminismo não é um movimento homogêneo, pelo contrário, tem várias vertentes, o feminismo negro; interseccional; liberal; radical; marxista; são alguns exemplos.

O tema começou a ter destaque nas redes sociais no final de 2014, mas seu ápice aconteceu em 2015 – é possível ver esse crescimento no infográfico feito pela ONG Think Olga. Foi o ano de youtubers tratarem sobre o assunto, campanhas, hashtags, denúncias e respostas espertas a machismos em geral pipocarem na internet. Assim, o movimento se popularizou na rede e mostrou o quanto o debate era necessário e as situações estavam mais presentes do que imaginávamos. A internet propiciou que sites de redes sociais se tornassem espaços de reflexão e disputas simbólico-discursivas.

Em 2015, com todas essas ações e muitas identificações com os casos, começaram a surgir grupos para discutir e tentar entender o que é feminismo, falar sobre as situações passadas, tirar suas dúvidas, expor suas histórias, ouvir, apoiar e acolher de outras, combater as opressões. De alguma forma, essa crescente deu força para questões antes deixadas de lado viessem a tona, as mulheres buscassem saber mais sobre seus direitos e, juntas, fossem se respeitando mais e lutando por igualdade. Começava a se estruturar um movimento social.

“seria possível compreender uma ação online coletiva – que tenha como característica o ímpeto de transformação no âmbito social e não unicamente histórico – como parte ou o próprio movimento social. Por esse ângulo, seria aplicável o termo “movimento social” em ações coletivas na Internet que marcam o recente revigoramento do movimento feminista.” (SANTINI; TERRA; ALMEIDA, 2016)

Uma dessas ações coletivas bastante difundida foi a campanha #primeiroassedio. A #primeiroassedio foi criada pela própria ONG, após diversos comentários maldosos e fetichizados sobre uma participante do programa Master Chef Junior. A campanha incentivava mulheres a denunciar seus primeiros casos de abusos e/ou assédio. Este é um trecho da pesquisa que a ONG Think Olga fez em 2015 sobre ela:

“De acordo com o Google Trends, a hashtag #primeiroassedio, por exemplo, teve mais de 11 milhões de buscas relacionadas no buscador. Algumas procuravam saber o que era assédio, como ele acontece no trabalho, etc. Informações poderosas e transformadoras, ao alcance de um clique, encontradas pelo incentivo de uma simples hashtag.”

Eu mesma vi muita gente amiga expondo suas histórias com essa campanha, e o que eu posso te dar certeza é que muitas delas nunca tinham falado abertamente sobre isso. O que isso mostra é que o silenciamento da vítima  – seja por medo, vergonha, nojo, não importa – é uma realidade e essas campanhas serviram como uma forma de incentivar a falar. Foi algo que mexeu tanto com todos que tinham acesso a situação que o debate se tornou necessário, tanto para quem contava seu relato, quanto para quem lia. O assunto tabu acabou se tornando o mais falado, dentro e fora da internet.

Apesar da grande repercussão essa foi só uma das muitas campanhas que tiveram, o momento ficou propício e com isso surgiram várias outras denúncias e debates relacionados a assédios e violências contra a mulher. Infelizmente, foi fácil perceber que muitas mulheres sequer sabiam que o que passavam era um tipo de agressão ou assédio de tão naturalizado o machismo diário. Por outro lado, foi o momento que mais houve mulher querendo se ajudar, saber dos seus direitos, debatendo sobre os temas e se empoderando.

Não era de se espantar que da mesma forma que tiveram apoiadores, muitos se manifestaram contra as campanhas e aos relatos. Era comum ver falas como “ativismo de sofá”, “mimimi’, “modinha”, e “não vai dar em nada”. No entanto, o que essas pessoas não pararam para pensar é que política – em seu sentido mais amplo – é configurada a partir de disputas discursivas, é construção simbólica. Complementando o pensamento:

“Decisões políticas, sejam elas na forma de legislação ou políticas públicas, não são tomadas da noite para o dia, e necessitam, muitas vezes, de mobilização, pressão popular e debate público para sair do papel.” (FREIRE, 2016)

Por isso o debate público é tão importante, é um primeiro passo para que haja mudanças positivas. E, pelo mesmo motivo, tem muita gente não quer o debate. Não é todo mundo que tem interesse que esses assuntos venham à tona – o feminismo ainda incomoda e não é à toa: aciona gatilhos, remexe as feridas, gera revolta entre opressores e também entre os próprios oprimidos. Isso explica porque sempre haverá contra-ataque. Não é incomum responderem com ameaças, repressão e tentativas de silenciamento – é estratégico.

Agora que já está ciente disso, faço um apelo: se você que está lendo falou alguma dessas frases e não tinha a intenção de prejudicar ninguém, por favor, preste atenção – além de não estar incentivando o debate sobre o tema, essas falas desmerecem a vivência da vítima e propagam o silenciamento. Por mais que não concorde ou entenda, respeite o momento de fala dessas pessoas. Esses muitos debates e campanhas dão resultados, vide a Marcha.

Mudanças significativas no período dos debates coletivos acerca do feminismo

Antes dos exemplos gostaria de começar apresentando uma pesquisa que acredito ser bastante pertinente para nós que estamos tratando sobre um movimento de luta por mudanças políticas, sociais e culturais. O  “Mapa da violência 2015”, reuniu dados a respeito do Homicídio de Mulheres no Brasil –  feminicídio. O autor, Julio Waiselfisz, defende em seu texto que a normalidade da violência contra a mulher no horizonte cultural do patriarcalismo justifica, de certa forma “autoriza” que o homem pratique essa violência, com a finalidade de punir e corrigir comportamentos femininos que transgridem o papel esperado de mãe, de esposa e de dona de casa. Essa mesma “lógica justificadora” é utilizada quando a violência parte de desconhecidos.

Em outras palavras, a naturalização das violências sofridas pela mulher na sociedade que vivemos é cultural. Estruturalmente o homem se sente confortável e autorizado para agredir e reprimir por não estar ‘do seu gosto’. Por isso é tão comum ver incômodo com discursos que buscam essa mudança, e repressão aos movimentos como o feminismo que lutam por direitos e para mudar essa estatística. A fala de Waiselfisz (2015) só enfatiza a importância dos debates e das mobilizações tanto online quanto offline. Primeiro porque, como vimos, o debate online pode ser um primeiro passo para mudanças ‘reais’, e segundo porque as violências são visíveis nos dois meios.

Já que anteriormente falamos como foi possível perceber a condição de silenciamento das vítimas de violência através campanhas online, a primeira mudança significativa que quero dar atenção, a quebra da “espiral do silêncio”.

“Segundo Noelle-Nuemann (2005), quando um indivíduo silenciado encontra “parceiros verdadeiros” que compartilham de sua experiência ou de sua opinião, são capazes de resistir à pressão do grupo e escapar do medo do isolamento.” (SANTINI; TERRA; ALMEIDA, 2016)

A quebra da “espiral do silêncio” com a campanha online só foi possível, portanto, porque a iniciativa da ONG com a hastag inspirou mulheres a falar, se sensibilizar, contar as experiências, em muitos casos se expor, ler e se identificar com as falas de outras e isso instigou a todos. Normalmente, nos perfis de redes sociais estão presentes vários tipos de laços afetivos, familiares, amigos, colegas, às vezes, até mesmo o agressor, e que não esperavam se deparar com um relato de alguém “conhecido”, muito menos quando vê a timeline cheia de casos. Esse choque de realidade acabou provocando uma grande repercussão, e tornou possível que o movimento se espalhasse amplamente na rede. Surge aí uma ‘campanha-meme’:

Mais do que apenas campanhas virais, compreendemos tais iniciativas como memes, sobretudo, pelo seu poder de construção que parte de um ato individual, mas ganha uma dimensão coletiva, capaz de mobilizar, impactar outras pessoas e até gerar um debate público sobre o tema. (FREIRE, 2016)

E os diferentes tipos de laços afetivos que citei acima são bastante importantes para as ‘campanhas-meme’ darem certo. Segundo Crossley (2015), seus amigos no Facebook são divididos em os laços fortes, responsáveis por cultivar o sentimento de comunidade e organizar ações coletivas (família e amigos próximos, por exemplo); e os laços fracos – aqueles colegas restantes do Facebook que você mal fala mas estão presentes – que criariam oportunidades para expandir a ação para um grande número de pessoas com as quais eles não entram em contato fora da rede social. Com isso, a internet se torna ideal para o nascimento de inquietações sociais.

Esse período de mudanças comportamentais, sociais e políticas, de empoderamento em rede, tornou o momento favorável para a sanção da Lei 13.104/2015, a Lei do Feminicídio – ainda sujeita a críticas e controvérsias mas um avanço em comparação ao que tínhamos até então – e mais, foi possível registrar um aumento significativo de denúncias de violência contra a mulher. Segundo o Balanço da Central de Atendimento a Mulher, houve um aumento em 40% do número de denúncias no disk 180, Canal de Atendimento à Mulher da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Por mais que seja um dado triste e preocupante, ao mesmo tempo é visível o rompimento do silenciamento. Para quem desconhece, o serviço é gratuito e funciona 24 horas por dia todos os dias.

Felizmente, as mudanças positivas não pararam. Com o intuito de mapear os casos de violência, facilitar o socorro, zelar pela segurança, e até outras pautas de direitos da mulher várias ONGs ou jovens engajados na causa investiram na criação de aplicativos. Um deles foi o “Chega de Fiu fiu”, criado para lutar contra o assédio sexual em locais públicos:

Foi por meio de seu envolvimento com um projeto intitulado “Chega de FiuFiu”, promovido pelo coletivo “Think Olga”, que uma adolescente de 17 anos desenvolveu um aplicativo para celulares no qual qualquer mulher que se sentir assediada, seja verbal, visual ou fisicamente, pode registrar o local onde aconteceu o assédio e informar outras mulheres de que naquele lugar assédios são frequentes. O objetivo, a priori, é dar voz a vítimas de assédio e, a posteriori, oferecer às autoridades competentes números a respeito dos assédios sofridos todos os dias nas ruas das cidades brasileiras. (COELHO, 2016)

Além dessas tiveram muitas outras mudanças relevantes, mas pedimos licença para não ter o trabalho de elencá-las todas aqui. Citei só algumas para mostrar que o debate online com toda a mobilização foi essencial para que fosse possível ‘tirar do papel’, já que abriu os olhos de muita gente e agregou muitas mulheres a causa. Conseguiram criar um momento propício para ampliar a rede de discussão, virou pauta também em programas de TV, campanhas publicitárias, músicas, filmes, artigos, e políticas pelo direito da mulher.

E o que esses exemplos têm a ver com o monitoramento da Marcha das Mulheres?

A Marcha foi uma ação de grandes proporções mas que não aconteceu de uma hora pra outra, vem de um processo. O “terreno” já estava sendo preparado há anos. Os debates online estão proporcionando ações offline, estão quebrando silêncios, aproximando pessoas de diferentes lugares do mundo, dando mais coragem a quem sofre qualquer tipo de violência a denunciar, uma série de relatos estão aparecendo, aplicativos sendo criados, etc. – e todo esse boom são mudanças sociais, culturais e políticas. Estamos gerando dados qualitativos e quantitativos – o tempo todo – e estes tendo a devida atenção, sendo mapeados, poderão ajudar muito. Eles não só são essenciais para entendermos a situação mas podermos agir da melhor forma.

Retomando a fala de Richard Rogers, ainda há certo ceticismo por parte de algumas pessoas até politicamente engajadas sobre a efetividade dos debates online. Reclama-se muito dos textões e da banalização das problematizações exacerbadas nos tempos de hoje. No entanto, citando desta vez Christine Hine, a internet já não é mais uma “porta de entrada”, mas uma experiência vivida incorporada, corporificada e cotidiana. Entendendo que a cultura é um compilado de disputas simbólicas pessoais e estruturais, precisamos sim reforçar um discurso contra-hegemônico que dê voz a grupos historicamente silenciados que precisam se impor para (des)construir um cenário que os violentam simbólica, física e estruturalmente. Nesse sentido, o debate do feminismo nas mídias sociais vêm como forte capacitador.

Pode parecer muito otimista, mas essa brecha que foi aberta e segue forte como resistência graças à aglomeração nas mídias sociais pode ser um forte aliado à luta das mulheres. Além do alcance (que resulta em conscientização), a internet tem o poder de impulsionar. Segundo uma análise feita pela Crimsom Hexagon, no dia 21 de janeiro de 2017, foram mais de 11.5 milhões de posts feitos nas mídias sociais – 1.5x mais volume do que o dia da posse. Curiosamente, foi também nesse momento que os sentimentos de medo e nojo que predominaram no período das eleições perderam espaço para um sentimento completamente oposto, de alegria: “na esperança de transformar o negativo no positivo, ativistas em todo o país (e no mundo) começaram a organizar protestos que pudessem purificar o medo, a raiva, a tristeza e a frustração em algo mais potente e proativo.”

Nada disso é um mar de rosas e estamos cientes disso, cada linha desse texto só mostra que a violência contra a mulher está presente e que tem muita luta pela frente. Sempre vai ter gente querendo silenciar, ridicularizar ou diminuir, porque é estratégico. O silenciamento é proteção para quem oprime e não para o oprimido. O debate cada vez mais se faz necessário. E estar atento ao que está em voga, sendo discutido, produzido, aos coletivos, aos grupos de debates, é estar um passo à frente dos acontecimentos. Utilizar a internet ao nosso favor, diagnosticando essas mudanças de antemão, faz toda a diferença para saber como agir de forma estratégica. Acho que mais do que nunca, isso está claro.

As informações estão aí para quem quiser ver, agora saber o que fazer com elas é extremamente pertinente pro momento em que vivemos. Sempre vale lembrar que da mesma forma que a ferramenta está disponível para resistência está para a opressão. Fiquemos atentas(os)!

Referências

COELHO, M. P.. Vozes que ecoam: Feminismo e Mídias Sociais. Pesquisas e Práticas Psicossociais, v. 11, p. 1, 2016.

CROSSLEY, Alison. Facebook feminism: social media, blogs, and new technologies of contemporary u.s. feminism. Mobilization: An International Quarterly, v.20 (2): p. 253-268, 2015.

FREIRE, Fernanda. Campanhas feministas na internet: sobre protagonismo, memes e o poder das redes sociais. Em Debate, Belo Horizonte, v.8, n.5, p.26-32, jul. 2016.

Santini, Rose Marie; TERRA, C.; ALMEIDA, A. R.. FEMINISMO 2.0: A MOBILIZAÇÃO DAS MULHERES NO BRASIL CONTRA O ASSÉDIO SEXUAL ATRAVÉS DAS MÍDIAS SOCIAIS (#PRIMEIROASSEDIO). P2P & Inovação, v. 3, p. 148-164, 2016.

Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos

etnografia-consumoFoi lançado na semana passada, dia 25 de outubro, o livro “Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos”, organizado por Carla Barros e Bruno Campanella, ambos professores do PPGCOM e do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense. A coletânea reúne textos de palestrantes que participaram, em setembro de 2015, do Seminário Internacional Etnografia e Consumo Midiático: Novas Tendências e Desafios Metodológicos, e de outros autores com reconhecido interesse em discussões metodológicas relacionadas à pesquisa contemporânea de consumo midiático – dando, assim, continuidade aos debates iniciados naquele momento e expandindo algumas questões importantes ainda não trabalhadas.

“Os textos apresentados na presente coletânea são atravessados por reflexões acerca dessa crescente complexificação das práticas de consumo midiático, assim como das formas de estudá-lo que tomam como ponto de partida as abordagens etnográficas. […] Com o objetivo de enriquecer ainda mais o debate, a coletânea também traz propostas de abordagens metodológicas alternativas capazes de complementar a etnografia. Em suma, o livro busca lançar luz sobre os desafios, oportunidades e dificuldades da abordagem etnográfica na pesquisa dos meios de comunicação, em especial a internet.”

As minhas motivações para adquirir o livro foram três: 1) a organização realizada por dois professores cujo trabalho eu admiro muito (e gostaria que eles dessem mais aula para a graduação, caso venham a ler este post); 2) o assunto etnografia para pesquisa na internet (e em mídias ou sites de redes sociais), um debate que muito me interessa tanto acadêmica quanto profissionalmente; e, 3) a colaboração de Christine Hine, autora que conheci recentemente e que preciso ler mais, de Raquel Recuero, que fez uma proposta interessante para o capítulo que desenvolveu, e de Beatriz Polivanov, também professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídias (curso de Estudos de Mídia) cuja pesquisa eu já citei aqui no blog algumas vezes, com Deborah Santos. Para minha felicidade, ainda fui positivamente surpreendido por textos bem interessantes de outros autores/pesquisadores que não conhecia, superando as minhas expectativas.

A começar pela Introdução escrita pelos organizadores do livro, onde eles reconhecem as transformações sociais e tecnológicas que “criaram oportunidades e desafios na pesquisa da articulação entre meios de comunicação e cultura”, para então desenvolver uma breve – e importante, principalmente para leitores pouco habituados com as discussões da abordagem etnográfica para a internet, como eu – historicização do fenômeno do consumo midiático (“enquanto um sistema de valores”) e, principalmente, da constituição da etnografia na disciplina antropológica. Nesse contexto, ainda elucida a “evolução” dos estudos de comunicação mediada por novas tecnologias, posicionando-se criticamente a algumas leituras que, sob uma nova perspectiva, aparenta ser um pouco inadequada. Ainda assim, abrindo terreno para as contribuições (e discussões) dos colaboradores, reitera:

“Não se compartilha a mesma concepção do que seja a pesquisa realizada no âmbito da internet. Enquanto que para alguns autores a etnografia aparece como uma conjunção de técnicas específicas – primordialmente, a observação participante com a entrevista em profundidade – para outros ela não pode ser reduzida a um conjunto de técnicas, pois sua importância reside no fato de ela ser propriamente uma abordagem. A proposição de polissemia nas mensagens midiáticas encontrada nos estudos de recepção, especificamente, facilitou uma maior adesão às pesquisas de abordagem etnográfica. No entanto, nem todas as pesquisas autointituladas como de “recepção” atendiam aos princípios da etnografia, como a imersão prolongada em campo e a compreensão do contexto sociocultural mais amplo no qual as práticas midiáticas estavam inseridas.”

No capítulo “Estratégias para etnografia da internet em estudos de mídia”, Christine Hine apresenta algumas estratégias para a condução de estudos etnográficos da mídia na era digital. Para isso, ela introduz os novos contextos de formas de sociabilidade na internet (relacionando com a “proliferação de rastros do consumo midiático”) e retoma a discussão das fronteiras entre o on-line e o off-line, tanto sob a perspectiva do usuários quanto sob a perspectiva dos etnógrafos – e, consequentemente, seus desafios. Antes de entrar nessas questões, acho interessante compartilhar algumas considerações feitas pela autora sobre o papel do etnógrafo, principalmente levando em conta aqueles “novatos” na área:

  • “[O etnógrafo] procura alcançar um profundo engajamento com os detalhes confusos contidos naquilo que as pessoas realmente fazem com a mídia na prática”;
  • “seus interesses vão além de momentos de engajamento entre pessoas pré-selecionadas individualmente e textos midiáticos específicos”;
  • “o significado reside não no texto propriamente dito, mas em uma gama de relações sociais que antecedem e, ao mesmo tempo, resultam daqueles momentos de engajamento com o texto”.

Feita essa introdução do contexto e da pesquisa/do pesquisador, ela apresenta o que chama de qualidades da internet nos dias atuais para discutir “três tipos de estratégias que ajudam um etnógrafo a lidar com essas qualidades: abordagens móveis, multilocalizadas e conectivas ao campo; mapeamento, visualização e associação; e uso dos insights autoetnográficos a fim de maximizar a compreensão da internet como um fenômeno sensorial”. Antes, no entanto, ela apresenta uma discussão conhecida de seu trabalho, sobre a internet incorporada, corporificada, cotidiana (embedded, embodied and everyday) – na qual argumenta que não falamos mais em “ficar on-line”, mas vivemos online, incorporamos a internet em “em múltiplas estruturas de construção de significado”. Diz ela:

“Qualquer fragmento individual dos dados derivados da internet é, por isso, passível de ser interpretado de uma série de formas, dependendo dos contextos em que se incorpora e adquire significado […]. Isso apresenta desafios metodológicos significativos para um etnógrafo que deseja descobrir o significado de determinado aspecto da internet para um grupo específico de pessoas. Podemos começar com um foco particular ou uma questão intrigante em mente, mas a imprevisibilidade e caráter escorregadio dessa internet incorporada, corporificada e cotidiana torna muito difícil resolver onde ir para encontrar as respostas e como trazer questões interessantes à luz.”

Hine argumenta que, para que o etnógrafo “desenvolva insights e teste teorias em desenvolvimento através da interação”, seu trabalho não deve ser distante, como um observador que apenas coleta e processa dados de ambientes virtuais, mas participante e engajado com seu foco de pesquisa. “Ser ativo no ambiente permite que o etnógrafo aprenda com a imersão e o questionamento criterioso que encoraja as pessoas a refletirem, em voz alta, sobre suas experiências”, argumenta. À diante, apresenta como as características da internet nos dias atuais pode ser apropriada estrategicamente por pesquisadores para dar conta dos desafios e oportunidades que são enfrentados no trabalho etnográfico. Pensando a “volatilidade” dos grupos sociais online, a massividade de dados à disposição e os processos sensoriais da internet, ela apresenta as seguintes perspectivas:

  • Multilocalizada, móvel e conectiva: o campo de pesquisa é uma construção arbitrária, pré-existente, “construído a partir de uma rede complexa e contingente de interconexões possíveis entre diferentes localidades, e estendida em diversas mídias e formas de interação”; logo, “podemos esperar que o etnógrafo aceite a responsabilidade por construir um estudo que se encaixe em um conjunto particular de interesses estratégicos [para pensar novas comunidades virtuais].”
  • Mapeando, visualizando e associando: uma das principais dificuldades enfrentadas pela etnografia na internet é a abundância de dados; além de delimitar os estudos numa localidade e num período de tempo específicos, a autora propõe defende que “uma visualização ou mapeamento de atividades on-line pode ser muito útil no direcionamento da atenção do etnógrafo para locais de interesse, utilizando técnicas de associação para realizar a ‘topografia de campo’ antes de decidir no que focar em profundidade”.
  • Percebendo, sentindo e refletindo: uma vez que a experiência da internet é um processo bastante individual, o etnógrafo precisa reconhecer as limitações subjetivas da compreensão das diferentes experiências dos indivíduos, no entanto, é possível “tirar vantagem da nossa imersão no campo para refletir sobre o que contém e o que possibilita seus movimentos particulares e suas formas de compreensão”, enfrentando “qualquer tendência residual que tenhamos para tratar o campo como se simplesmente o tivéssemos encontrado e descrito como ele era”.

Na conclusão, admite (e reitera) as dificuldades e os desafios que a prática etnográfica enfrenta e continuará enfrentando com o desenvolvimento das novas tecnologias. Afirma que “não será impossível, mas envolverá um esforço maior na obtenção de dados, construindo e desenvolvendo relações de confiança com os participantes-chave a partir de práticas reminiscentes das etnografias dos tempos pré-internet”. Nesse sentido, compreende que “novas formas de etnografia realizadas tecnologicamente irão inevitavelmente continuar a emergir mas, espero, continuarão em diálogo com os princípios estabelecidos do etnógrafo como uma forma de produção de conhecimento aprofundada, imersiva e criticamente engajada”.

O capítulo “Métodos mistos: combinando etnografia e análise de redes sociais em estudos de mídia social”, de Raquel Recuero, é bem interessante pois discute a aproximação (ou melhor, combinação) de duas abordagens essencialmente distintas para o estudo de objetos decorrentes de mídias sociais, levantando também as vantagens e desvantagens desses métodos mistos. Ao introduzir a análise de redes sociais (ARS), a autora destaca a popularização dessa abordagem no campo dos estudos de cibercultura no Brasil e a justifica pela facilidade de acesso aos dados e pelo próprio caráter estrutural prolífico dos sites de redes sociais, o que favorece uma abordagem na qual as relações interacionais dos atores entre si e com a plataforma são o centro da análise. Explica:

“A análise de redes sociais é uma perspectiva cujo foco pode ser compreendi- do como teórico e metodológico (Wasserman e Faust, 1994). Enquanto a ARS busca estudar os padrões das interações e laços sociais (Wellman, 2001), ela também busca modos de medir esses padrões (Degenne e Forsé, 1999) e visualizá-los (Freeman, 2001). […] Desse modo, a análise de redes sociais constitui-se em uma abordagem relacional, cujo foco é construído nas relações entre os atores, na sua medida e exploração estrutural, a partir de perspectivas interdisciplinares.”

Destrinchando as raízes e premissas básicas da ARS, ela passa rapidamente por algumas questões – e aspectos – importantes desse método de análise: “O grafo é uma representação das relações e da estrutura da rede, que é construído através de algoritmos específicos e em cima de dados obtidos em campo”. Ela explica que, para que seja feita as visualizações das estruturas que auxilia a percepção visual das relações entre os atores, há a aplicação de alguns cálculos matemáticos (métricas de nó e métricas de rede) para avaliar a centralidade dos atores na rede e a estrutura da rede em geral. Nesse contexto, citando Linton C. Freeman, ela destaca quatro elementos que devem aparecer em conjunto na organização da análise estrutural: a intuição estrutural, ou seja, focada nos laços que conectam os atores; a construção sobre dados empíricos coletados de modo sistemático; a base em gráficos e imagens que representam os dados da pesquisa; e a utilização de modelos computacionais ou matemáticos.

Não entrarei em detalhes sobre o que a autora discorre sobre a etnografia virtual porque acredito que a introdução do capítulo de Hine já ilustra muito bem como ocorre, quais são as premissas, dificuldades e vantagens da abordagem etnográfica na internet. Destaco, no entanto, a citação de Gemma Edwards apresentada pela autora, na qual ela explica que as abordagens quantitativas “mapeiam e medem as redes através da simplificação das relações sociais em dados numéricos, onde os laços são ausentes ou presentes”, enquanto as abordagens qualitativas “permitem aos analistas considerar elementos relativos à construção, reprodução, variabilidade e dinâmicas dos laços sociais complexos”. Chegamos, então, à ideia principal de Recuero:

“A ideia é trabalhar com perspectivas metodológicas distintas, tanto quantitativas quanto qualitativas, combinadas de modo a dar conta de um determinado problema de pesquisa. Métodos qualitativos, grosso modo, tendem a focar mais em palavras como elementos descritivos, enquanto os quantitativos, em números; bem como pesquisas mais qualitativas focam perguntas mais abertas, pesquisas quantitativas focam questões fechadas; além disso, pesquisas qualitativas tendem a focar na interpretação dos dados coletados, geralmente no ambiente dos participantes, enquanto as quantitativas tendem a focar em medidas, variáveis e procedimentos numéricos (Creswell, 2014, p. 12). […] Os métodos mistos, por outro lado, constituem ‘uma abordagem para a pesquisa envolvendo a coleta de dados qualitativa e quantitativa, integrando as duas formas de dados e usando desenhos de pesquisa que possam envolver questões filosóficas e abordagens mais teóricas’ (Creswell, 2014, p. 4).”

Para compor sua proposta, a autora apresente algumas questões importantes de aplicação e alguns exemplos de objetos que se encaixem num contexto de pesquisa adequada aos métodos mistos. Para tanto, esses objetos precisam ter: questões de pesquisa relacionais (análise de estrutura das conexões da rede + componente cultural dentro da estrutura); dados passíveis de coleta/captura para análise de rede de forma manual ou automática; questões apropriadas para atender a objetivos da ARS e da etnografia. “Enquanto a análise de redes se ocuparia com a estrutura do grupo, a etnografia focaria as práticas culturais emergentes dessa estrutura”, explica, trazendo como exemplos: grupos sociais determinados e suas interações on-line, grupos sociais constituídos diante de discursos/conversações específicas e estudos sobre informação e difusão de práticas culturais. Em seguida, ela apresenta alguns modelos mais comuns de uso de métodos mistos, elencados:

  • Métodos mistos convergentes e paralelos: “os dados são coletados de modo qualitativo e quantitativo geralmente ao mesmo tempo e convergem ou são misturados na análise”; o objetivo é a complementariedade dos dados para a análise.
  • Métodos mistos explanatórios sequenciais: “há primeiro a condução de uma pesquisa quantitativa, cujos resultados servem de base para uma pesquisa qualitativa”; o trabalho qualitativo expande e aprofunda as questões do trabalho quantitativo.
  • Métodos mistos exploratórios e sequenciais: “a abordagem qualitativa vem primeiro e, nessa primeira fase, são constituídos elementos que servem de base para a abordagem quantitativa posterior”; útil quando as variáreis mais importantes para análise são desconhecidas.

Nas considerações finais, Recuero ratifica que, dentre os benefícios da adoção de métodos mistos, “está primeiramente a complementariedade dos dados e das análises e a possibilidade de explorar fenômenos mais complexos do que com apenas um dos métodos”. E complementa: “Em termos de mídia social, onde os dados são bastante distanciados dos grupos sociais, a combinação desses métodos pode ser extremamente vantajosa, justamente por permitir compreender o fenômeno em sua abordagem mais ampla”. No entanto, a autora faz questão de pontuar alguns desafios importantes para o pesquisador: o uso mútuo e compreensível de ambas abordagens de forma coerente/coesa, a discussão de limitações e vantagens da coleta de dados e as questões éticas da pesquisa em canais supostamente públicos.

“A ARS dá à etnografia uma possibilidade de mais abrangência e maior fundamentação em dados, ao mesmo tempo que lhe rouba parte da subjetividade que lhe é característica. Já a etnografia, por sua vez, complementa a ARS com uma visão contextual, mas pode também lhe conferir um caráter subjetivo e interpretativo que pode trazer uma certa instabilidade ao estudo quantitativo. […] Assim, os dados de uma devem servir à outra e devem ser ambos compreendidos em sua totalidade pelo pesquisador. A perspectiva de métodos mistos é uma combinação do desenho metodológico, onde o pesquisador precisa compreender ambos e não apenas utilizar um método como suporte e outro apenas para agregar os dados sem analisá-los.”

Para finalizar, trago alguns apontamentos do capítulo “Términos de relacionamentos e Facebook: desafios da pesquisa etnográfica em sites de redes sociais”, escrito por Beatriz Polivanov e Deborah Santos. Gostei muito do capítulo porque ele dialoga com os outros dois supracitados, principalmente (por questões óbvias) com o de Hine, ainda que haja uma “menção honrosa” a proposta de Recuero, lá no final do texto, não descartam que “abordagens mistas, que lidam com grandes e “pequenos” dados, possam ser enriquecedoras”. Para além disso, gostei muito da contribuição das autoras porque há fundamentação teórica, discussão metodológica e – principalmente – inquietações empíricas de uma pesquisa ainda em andamento. Ao final, elas apresentam cinco eixos que esperam servir como “pequenos guias norteadores” para outras pesquisas.

Uma vez que o objetivo das autoras é “chamar atenção para desafios específicos” de sua pesquisa, não entrarei a fundo na fundamentação teórica (muito bem) apresentada no texto – embora recomende veemente a todos interessados na discussão sobre as diferentes etnografias (“tradicional” e virtual) e construção de identidade on-line que assim o façam. Trago, portanto, apenas os cinco eixos de desafios metodológicos que têm tensionado a atuação das pesquisadoras no estudo sobre “sujeitos que passaram por um final de relacionamento amoroso e como essa sua performance de si se dá no Facebook em um momento pós-término”, discutindo se há alteração em suas performances e quais tipos de narrativas são acionadas para se adequar a imperativo da felicidade.

“Entendemos, assim, que, de um modo geral, busca-se manter certa coerência expressiva entre os selves off-line e nos sites de redes sociais. Isto é, nesses ambientes – e em especial no Facebook, nosso objeto de estudo – os atores sociais tendem a querer mostrar traços identitários que consideram “reais”, como nome, local onde trabalham/estudam, gostos relacionados à indústria cultural, pessoas com as quais se relacionam, locais que frequen- tam etc., ainda que possa haver rupturas e desencaixes nessa construção por uma série de razões (intencionais ou não).”

Embora eu tenha optado por atropelar as discussões teóricas que precedem a discussão metodológica (apenas por motivos práticos), acho importante lembrar que alguns dos “problemas” levantados pelas autoras estão em total consonância com aspectos específicos da problematização da etnografia (virtual), da identidade on-line, etc. – ou seja, de certa forma, essas questões atravessarão os desafios metodológicos da pesquisa em sites de redes sociais apresentados a seguir:

a) Investigação sobre indivíduos e/ou casais

Um dos motivos pelo qual me interesso bastante pelo trabalho de Polivanov é que suas pesquisas geralmente focam em aspectos identitários “isolados”, como seu trabalho com participantes de cenas de música eletrônica no Facebook. Isso foge um pouco da prática comum da etnografia para internet (e mídias sociais) de estudar grupos ou comunidades específicas – como ela reitera, no atual trabalho “estamos mais interessadas, em nossa pesquisa, em conhecer em profundidade experiências particulares do que em estudar as dinâmicas de um grupo ou um número maior de casos”. Entretanto, isso se torna um problema primário à pesquisa uma vez que precisa-se fazer um recorte e delimitar o campo do objeto de estudo. “Mas como selecioná-los?”

b) Escolha e interpelação dos sujeitos de pesquisa

“A partir de um processo de conversas informais – on e off-line – com conhecidos de nossas redes de contatos e a partir da técnica da ‘bola de neve’ (Weiss, 1994), conseguimos sugestões de possíveis informantes que atendessem nossos critérios. Para além daqueles que fizessem parte de nossas redes, a escolha da parte da amostra de “desconhecidos” foi feita a partir da procura de grupos temáticos, conforme apontado acima, focando desse modo nosso olhar a pessoas que atravessaram algum conflito amoroso e usaram (usam) a rede e o suporte (semi)público para lidar com situações dessa natureza, sendo nosso interesse conhecer como se dá essa relação de “desabafo” entre o sujeito e a plataforma, no caso, o Facebook.”

c) Grau de inserção do(a) pesquisador(a)

“Aqui valeria a pena nos perguntar até que ponto esse tipo de aproximação, sem aviso aos informantes de que estão sendo observados, é eticamente correta. Além disso, seria apenas a observação, participante ou não, suficiente para entender as dinâmicas e discursos dos sujeitos ou necessariamente de- vem ser realizadas entrevistas? […] Nossa proposta metodológica entende que somente a observação dos sujeitos analisados não seria suficiente para responder as questões de pesquisa, sendo necessária uma aproximação direta e privada (ainda que virtual) com os mesmos que outorgue integralidade à pesquisa. Para isso é nosso propósito entrar em contato com cada um dos sujeitos escolhidos como amostra e realizar entrevistas, tanto on quanto off-line com eles, que complementem os dados obtidos na etapa de observação, tentando fugir assim dessa posição um tanto voyeurística e procurando vias diferentes de acesso à informação.”

d) Recorte temporal da pesquisa e da coleta de dados

Esse item é bem interessante porque elas tratam duas questões: primeiro, a problemática de delimitação de tempo de uma pesquisa empírica. Em resposta, defendem que “a observação sistemática dos acontecimentos e a coleta de dados deve ocorrer até atingir determinado ponto de saturação, isto é, até que não seja possível – seja por um limite de tempo, verba ou do próprio corpus – obter dados categoricamente novos”. Segundo, porque, citando Markham, as autoras “desmitificam” o véu de imparcialidade do etnógrafo, explicando que “os pesquisadores sempre interferiram no contexto de algum modo enquanto conduzem suas pesquisas” e que “em diferentes medidas, as noções de sujeito/objeto, pesquisador/pesquisado não devem ser tomadas como instâncias separadas, mas ao contrário, como afetações mútuas”.

e) Pesquisa de campo ou campos de pesquisa no Facebook

“Cabe, assim, a cada pesquisador(a) determinar o recorte do corpus que irá analisar e que ferramentas irá utilizar para tal. Em nosso percurso até o momento temos optado por dar especial atenção aos campos da seção “Sobre” e das postagens diversas feitas pelos sujeitos em suas linhas do tempo, buscando analisá-las não em grupos definidos quanto ao seu tipo de linguagem, mas sim enquanto unidades materiais-discursivas multissemióticas que devem ser entendidas principalmente a partir do momento e da intencionalidade de publicação, elementos que só podemos investigar a partir da realização de entrevistas direcionadas.”

A ideia de Polivanov e Santos foi justamente trazer alguns desafios e questões (tanto teóricas quando metodológicas) que têm atravessado seu trabalho de pesquisa no Facebook. Ao final, não apresentam soluções, mas “inquietações ainda em pleno processo de digestão”, o que considerei extremamente poético, coerente e justo por parte das autoras. Essa é a ideia do livro, levantar tensões e tentar travar um diálogo com acadêmicos, estudiosos e pesquisadores de forma geral sobre o espaço multidisciplinar que é a internet corporificada. Ainda há capítulos enriquecedores de Jair de Souza Ramos, sobre o modo como as discussões teóricas podem orientar a observação e a análise para etnógrafos, e de Laura Graziela Gomes, a pesquisa própria do meio digital (cibercultura).