Tag: análise de redes sociais

Introdução à análise de redes sociais online: quais são os principais conceitos?

[Este post faz parte de uma série de resumos comentados do e-book “Introdução à análise de redes sociais online” (2017), de Raquel Recuero]

No post anterior, vimos os precedentes da análise de redes muito antes de chegarmos às redes sociais na internet (ou aos sites de redes sociais). Em resumo, no primeiro capítulo do e-book, Raquel Recuero apresenta as duas teorias metodológicas fundadoras do pensamento de redes: a Sociometria de Jacob Moreno e a Teoria dos Grafos da matemática. São desses pilares que surge a análise de redes sociais, cuja origem pode ser remontada ainda à primeira metade do século XX. Sua popularização nas últimas décadas é justificada pelo aumento de dados produzidos e disponibilizados na plataformização da vida social e também pelo avanço das técnicas (ferramentais) de análise à disposição de pesquisadores.

Outro fundamento teórico importante o qual a autora resume na primeira parte é referente à ideia de (sites de) redes sociais, a partir principalmente do conceito e discussões propostas pela americana danah boyd. A ideia de “públicos em rede” (ou networked publics) traz características específicas dos sites de redes sociais que permitiram também essa proliferação da análise de redes, sendo elas: a persistência (os registros) das interações/conexões, a replicabilidade, a escalabilidade e a buscabilidade. Tudo isso reitera as dinâmicas de audiências invisíveis, colapso dos contexts e borramento das fronteiras entre o público e o privado encontrado nesses públicos em rede que estão na internet.

A ideia de “redes sociais” é uma metáfora estrutural para que se observem grupos de indivíduos, compreendendo os atores e suas relações. Ou seja, observam-se os atores e suas interações, que por sua vez, vão constituir relações e laços sociais que originam o “tecido” dos grupos. Essas interações proporcionam aos atores posições no grupo social que podem ser mais ou menos vantajosas e lhes dar acesso a valores diferentes. […]

O grafo é, desse modo, uma representação de dois conjuntos de variáveis (nós e conexões). Concebendo uma rede social como uma dessas representações, os nós seriam os atores sociais (compreendendo esses atores como organizações sociais, grupos ou mesmo indivíduos no conjunto analisado) e suas conexões (aqui entendidas como os elementos que serão considerados parte da estrutura social, como interações formais ou informais, conversações etc.).

RECUERO, 2017, p. 23.

O segundo capítulo do e-book segue com foco na teoria por trás das discussões, apresentando diversos conceitos importantes (ou, até mesmo, básicos) para a análise de redes sociais na internet. Ela começa de uma concepção mais geral em torno das redes sociais em sua composição representativa, até chegar nos elementos que as constituem: nós (ou vértices) e arestas (ou laços) – cujas conexões entre eles podem representar diferentes tipos de relações sociais. É a partir daí que elenca conceitos como laços fracos, capital social, homofilia, etc. – cada um desses está diretamente ligado à representação das redes “como sociogramas (grafos sociais), que são analisados a partir das medidas de suas propriedades estruturais”.

É importante ter em vista que a representação dos dados não é somente um artifício visual-estético, mas tem fundamentação nas matrizes matemáticas da teoria dos grafos, que estipulam “as relações entre os atores do grupo” e “servem de base para a estrutura geral da rede”. Nesse mesmo sentido, a representação de uma rede é também uma abordagem teórico-metodológica, em que os nós (ou nodos) podem representar coisas diferentes e até distintas. A autora apresenta como exemplo o caso das redes bimodais, em que nós de uma mesma rede podem representar tanto indivíduos quanto categorias ou grupos.

Exemplo de rede bimodal em que os nós representam 1) imagens e 2) labels associadas a essas imagens

– As conexões: laços sociais [e o conceito de laços fracos]

Tão importantes quanto os nós são as chamadas arestas ou laços (ou, ainda, arcos), que indicam a conexão entre os atores – nas redes sociais, pode representar interação, conversação, relação de amizade/pertencimento, etc. Essa agência necessária, ou seja, o “esforço” ou a “ação” que envolve esse indicador é o que levou Mark Granovetter (1973) a propor uma classificação de laços fortes, fracos ou ausentes: ainda no caso de redes sociais, o primeiro estaria associado a relações de maior proximidade e/ou intimidade, “enquanto os laços fracos representariam associações mais fluidas e pontuais”; por fim, aqueles ausentes “seriam insignificantes em termos de importância estrutural ou completamente ausentes”.

Granovetter (1973, p. 1361) define a “força” do laço como “uma combinação (provavelmente linear) da quantidade de tempo, da intensidade emocional, da intimidade (confiança mútua) e da reciprocidade que caracterizam o laço”. Desse modo, presume-se que a quantidade de interações entre dois atores pode representar, assim, a força da conexão, uma vez que conexões fortes requerem maior investimento do que conexões fracas. A partir dessa discussão, podemos observar que os tipos de laço social representam conexões que são qualitativamente diferentes, e é um desafio importante compreender como a estrutura construída através dos dados e da análise de redes pode, efetivamente, representar esse conceito complexo.

RECUERO, 2017, p. 26.

A autora aponta como, na análise de redes (sociais), “as conexões são representadas de modo numérico e direcional, indicando um valor que é relacionado ao ‘peso’ da conexão” – é, portanto, essa métrica que auxilia na identificação dos tipos de laços sociais existentes entre determinados atores. Lembra também que as conexões (ou seja, as arestas) podem ser direcionadas, como no caso de interações (online ou off-line); ou não direcionadas, como no caso de laços de amizade (do Facebook), por exemplo. Esse (não) direcionamento é fundamental para calcular o peso das conexões.

REDE DIRECIONADA (GRAFO DIRECIONADO)

As conexões possuem direção (geralmente representados por uma seta), ocorre quando as conexões estabelecidas não são iguais (ou não têm o mesmo peso) [p. 36]

REDE NÃO DIRECIONADA (GRAFO NÃO DIRECIONADO)

As conexões não possuem direção ou a direção não importa (geralmente representada por uma linha), mostram uma matriz na qual os dados dessas conexões são exatamente iguais entre os dois atores. [p. 36]

Outro conceito também muito importante que está relacionado aos laços (fortes) é o de clusters ou agrupamento, que é “um conjunto de nós mais densamente conectados (ou mais inteconectados) do que os demais na rede”, ou seja, em que as conexões são mais recíprocas. Essa característica fica evidente na estrutura da rede, em que os nós estão mais próximos “ou porque interagem mais (e suas arestas têm um peso maior) ou porque possuem mais conexões entre si do que com os demais nós da rede”. É justamente essa presença de laços mais fortes que indicam, em termos sociológicos, características mais próximas das definições de comunidade.

– Capital social e os valores das conexões

Recuero também parte do conceito de laços sociais de Granovetter (1973) para introduzir a discussão sobre capital social, cujas formas correspondem às vantagens estruturais das quais os atores se beneficiam (informação, intimidade e reciprocidade). A discussão em torno desse conceito, entretanto, é muito mais complexa e extrapola os estudos de redes sociais em seu caráter metodológico, mas o que interessa aqui é o que está no cerne da expressão: se trata de um capital, há tanto negociação quanto acúmulo (de valores, posições, vantagens, etc.), e esses dois aspectos têm relação direta com as matrizes das redes.

Desse modo, “as trocas sociais implicam na construção de valores cuja percepção por parte do grupo também atua na construção de relações de confiança, resultado dos investimentos individuais na estrutura”. A autora aponta que a maioria dos autores concorda, portanto, que o capital social representa um valor associado à estrutura social – “Burt (1992) argumenta que o conceito é uma metáfora para as transação que caracterizam as interações sociais”, enquanto Putnam (2000) separa dois tipos: bridging (pontes ou laços fracos entre atores de diferentes grupos) e bonding (qualidade/força das conexões ou laços fortes num mesmo grupo).

Estar em uma rede social, assim, permite a construção de valores para os atores. Desse modo, as relações sociais são constituídas de trocas através das quais os atores buscam atingir objetivos e interesses, como um sistema econômico. É preciso investir (interagir) na estrutura social para colher os benefícios. Os valores de capital social são, desse modo, associados a normas de comportamento, participação e às próprias conexões que alguém possui, além de vantagens competitivas advindas desses valores. (BURT, 1992, p. 348)

RECUERO, 2017, p. 29.

Na perspectiva de redes, portanto, os laços sociais (e, portanto, sua posição na estrutura) são como a moeda que garantem acesso a determinados bens, como informações novas e diferentes (mais associados a laços fracos) ou confiança e intimidade (mais associados a laços fortes). Essas vantagens são atribuídas não somente aos indivíduos (ou atores), mas para os grupos sociais (os clusters) como todo, que detêm valores próprios entre si. E além da circulação de informação, mais associado ao conceito de capital social nos estudo das redes, há também outros valores disponíveis em negociação.

  • BERTOLINI E BRAVO (2004) – tipologia de níveis de capital na rede
    • Primeiro nível: apropriado de modo individual e relacionado a elementos de laços fracos / tipos: 1) as conexões sociais que os atores possuem, 2) as informações às quais têm acesso e 3) o conhecimento das normas associadas ao grupo que pertencem;
    • Segundo nível: apropriado de modo coletivo e relacionado a elementos de laços fortes / tipos: 1) a confiança no ambiente social e 2) a institucionalização relacionado ao reconhecimento do grupo como tal.

Outro valor também muito importante na perspectiva dos sites de redes sociais é aquele relacionado à popularidade: “é uma concessão, no sentido de que o ator popular concentra mais capital social, em termos de atenção e visibilidade de seus pares, do que outras pessoas não populares”. Fica ainda mais evidente, neste caso, a relação de apropriação e escassez, em que os próprios recursos de vínculos sociais (a serem investidos ou capturados) são também limitados. Recuero retoma o trabalho de Barabási (2003) sobre a presença de conectores (grupos pequenos muito conectados entre si) para complementar o argumento de que todos detemos de capital social, mas a sua lógica própria exige a distribuição desproporcional de recursos.

– Homofolia, [Pontes, Conexões Reduntantes,] Buracos Estruturais e Fechamentos

O conceito de homofilia, de modo simplificado, diz respeito à ideia de que “pessoas mais próximas tendem a ter interesses comuns e padrões de comportamento semelhantes”, seja isso tanto efeito quanto causa. Ou seja, um grupo social pode ser identificado enquanto tal justamente por agregar pessoas “parecidas”, o que resulta “no fato de que esses atores tendem a ter acesso às mesmas fontes e a circular as mesmas informações”. Essa característica, portanto, também se relaciona ao capital social, “uma vez que pode auxiliar na construção e no fortalecimento dos laços sociais que vão gerá-lo”.

Outro conceito também muito importante nas redes sociais são as chamadas conexões “pontes“, aquelas que se conectam a vários grupos, transitando em círculos variados e aproximando grupos distantes/diferentes entre si. São fundamentais para que as informações circulem na rede, formadas geralmente de laços fracos. O conceito de “buraco estrutural” parte dessa ideia, em que os buracos “representam a ausência de conexões entre dois nós que possuem grupos/fontes informativas complementares ou não redundantes”.

Um cluster geralmente tem conexões redundantes, ou seja, conexões que interligam o mesmo conjunto de nós. Já conexões não redundantes são aquelas que interligam os atores de diferentes grupos. Conexões redundantes o são porque nelas circulam as mesmas informações. Já as não redundantes são aquelas capazes de trazer informações novas para o grupo. Assim, como dissemos, as conexões transmitem informação e estão relacionadas ao conceito de capital social. O buraco estrutural, portanto, representa uma falha no caminho de transmissão de informações, que poderia dar acesso a fontes de informação diferentes para os dois grupos em questão. Desse modo, aqueles atores que fazem a “ponte” (ou mediação) entre diferentes grupos possuem uma vantagem em relação aos demais, pois têm acesso a tipos diferentes de informação, enquanto que os buracos estruturais representam uma desvantagem para os grupos.

RECUERO, 2017, p. 32.

Já a ideia de “fechamento da rede” é o oposto dos buracos estruturais: “é a qualidade associada a todos os nós de uma determinada rede estarem interconectados”. Está associada aos chamados clusters, que são grupos mais fechados entre si (atores que compartilham de mais conexões uns com os outros) – cujo fechamento completo (inteiramente conectado) é chamado de clique, “um grupo em que todas as conexões possíveis existem”. Assim como o conceito de homofilia, pontes, conexões reduntantes e buracos estruturais, também corresponde à noção de capital social por operar no intercâmbio relacional da rede.

– Graus de separação [e estrutura de mundo pequeno]

Vimos na primeira parte que um dos fundamentos da Teoria dos Grafos é o enigma das Pontes de Königsberg, em que foi feito a tentativa de calcular qual era a distância mínima entre dois pontos sem repetir um mesmo caminho. Na perspectiva das redes, isso veio a se chamar de “grau de separação”, ou seja, a distância entre dois nós. As métricas de “caminho médio” ou “distância média” (average path) calculam justamente o caminho médio mais curto entre todos os nós da rede, podendo indicar “o quão interconectada está a rede pelos diversos laços existentes”.

Recuero parte do conceito de grau de separação para falar da teoria de mundo pequeno, que foi apropriada no estudo de redes de modo que “uma rede mundo pequeno é aquela em que um conjunto de nós é aproximado na rede por algumas conexões, que terminam por reduzir a distância (grau de separação) entre todos os nós na estrutura”. A importância aqui está no fato de que nós (ou indivíduos) mais conectados (mais conhecidos) podem diminuir significativamente a distância entre os demais atores da rede.

A estrutura de mundos pequenos, assim, é encontrada em redes sociais e está relacionada à presença de “pontes” entre os vários nós da rede e à redução do “caminho” (path) entre dois nós quaisquer da rede pela presença dessas conexões, que são apresentadas por autores como Granovetter (1973) e Watts e Strogats (1998) como conexões fracas ou associadas aos laços fracos, e portanto, ao capital social do tipo bridging de Putnam (2000), pois permitem que os atores tenham acesso a fontes diferentes de informações

RECUERO, 2017, p. 34.

REDE EGO

A estrutura é desenhada a partir de um indivíduo central, determinando, a partir desse “ego”, um número de graus de separação; [p. 37]

REDE INTEIRA

É mapeada na sua integridade, quando é possível limitar essa rede de modo externo [p. 37].


Recapitulando, neste post (e neste segundo capítulo) vimos os conceitos de: redes sociais, nós/vértices e conexões/arestas, redes bimodais, laços fracos/fortes/ausentes, redes direcionadas e não direcionadas, clusters, capital social, briding/bonding, homofilia, pontes, conexões redundantes, buracos estruturais, fechamentos, graus de separação, estrutura de mundos pequenos, redes ego e redes inteiras. Anotou tudo?

Referências citadas neste capítulo

  • BURT, R. The Social Structure of Competition. In: BURT, R. Structural Holes: the social structure of competition. Cambridge: Harverd University Press, 1992.
  • BERTOLINI, S.; BRAVO, G. Social Capital, a Multidimensional Concept. [S.l.:s.n.], [2004]. Disponível em: http://www.ex.ac.uk/shipss/politics/research/socialcapital/other/bertolini.pdf. Acesso em: 17 out. 2004.
  • BARABÁSI, A. Linked: How everything is connected to to Everything Else and What It Means for Business, Science, and Everyday Life. New York: Basic Books, 2003.
  • GRANOVETTER, M. S. The Strength of Weak Ties. American Journal of Sociology, Chicago, v. 78, n. 6, p. 1360 – 1380, 1973.
  • PUTNAM, R. D. Bowling Alone: The collapse and Revival of American Community. New York: Simon e Schuster, 2000.
  • WATTS, D.; STROGATZ, S. Collective dynamics of ‘small-world’ networks. Nature, [S.l.], v. 393, p. 440-442, 1998.

Introdução à análise de redes sociais online: o que é a análise de redes?

[Este post faz parte de uma série de resumos comentados do e-book “Introdução à análise de redes sociais online” (2017), de Raquel Recuero]

Em abril de 2017, publiquei aqui no blog o texto “A minha saga com redes sociais (ou por que é importante compreendê-las)“, no qual contava um pouco da minha relação com redes sociais enquanto abordagem teórico-metodológica. Nesta época estava começando a escrever meu TCC (sobre identidade nordestina em sites de redes sociais) e tinha acabado de dar início também (como relato no post) ao curso de Análise de Redes para Mídias Sociais do IBPAD. Em dezembro desse mesmo ano, Raquel Recuero lançou pela Coleção Cibercultura/Lab404 da EDUFBA um e-book introdutório sobre análise de redes sociais online.

Três anos depois, muita coisa já aconteceu: apresentei minha monografia com uma metodologia atravessada por análise de redes, ofereci uma palestra em parceria com Toth no Social Media Week SP 2018 sobre o assunto, escrevi três artigos acadêmicos (e um capítulo de um livro no prelo) utilizando redes semânticas e outro com redes de imagens; dentre vários outros projetos que assumi no trabalho com redes de vídeos/canais do YouTube, tweets/perfis, etc. Aqui no blog, também produzi algumas análises “simples” com redes semânticas e de imagens. Mais recentemente, fui responsável por um relatório de influenciadores sobre a COVID-19 no Twitter.

Com certeza o Pedro de 2017, ainda bastante resistente a análise de redes, não esperava que tudo isso fosse (ou sequer poderia) acontecer. E faço essa introdução porque esta série que inicio com este post tem também essa função incentivadora (assim como foi a palestra no SMWSP), para aqueles que têm vergonha de perguntar, que tem medo ou que acham desnecessária (ou demasiadamente “quantitativa”, como era o meu caso) essa abordagem teórico-metodológica. A ideia é utilizar a excelente publicação de Raquel Recuero para a editora da UFBA como fonte teórica e propulsora para uma iniciação ao trabalho de análise de redes para mídias sociais.

É importante salientar que há outra obra, mais completa e publicada por Recuero em parceria com Gabriela Zago e Marcos Bastos em 2015, “Análise de Redes para Mídia Social” (Editora Sulina). O e-book produzido para a Coleção Cibercultura/Lab404 da UFBA é, como o próprio nome já indica, uma introdução à temática, ainda que traga novas referências como fruto da própria experiência de aprendizado constante da autora. Trata-se de uma obra condensada, “uma pequena compilação dos principais conceitos e elementos da ARS” cujo norte “está na busca das aplicações empíricas e no aprendizado pela prática”.

Esse “guia introdutório e simplificado de conceitos, práticas e formas de análise” está dividido em quatro capítulos: 1. O que é Análise de Redes?; 2. Quais são os principais conceitos de ARS?; 3. Quais são as principais métricas de Análise de Redes? 4. Como coletar, analisar e visualizar dados para Análise de Redes?. Os títulos como perguntas reitera a proposta direto ao ponto da obra, em que cada parte do texto é desencadeada conforme as discussões abordadas, “fornecendo as bases para a compreensão de como fazer análise de redes e a seguir, trazendo elementos complementares”. Neste primeiro post, sigamos apenas com o primeiro capítulo.

O QUE É ANÁLISE DE REDES?

O primeiro esforço que a autora faz é o de deixar claro que a análise de redes sociais é uma abordagem para analisar grupos sociais, ou seja, é muito anterior (quase um século) à análise de redes online. Suas premissas metodológicas, com respaldo teórico, têm fundamento (ou raízes) na Sociometria e na Teoria dos Grafos, as quais serão explicadas mais adiante. De modo simplificado, a análise de redes (sociais) é uma perspectiva teórico-metodológica que permite estudarmos estruturas e fenômenos sociais como redes.

“A rede dentro da qual qualquer indivíduo está inserido (ou seu grupo social) é também a responsável por uma grande parcela de influência sobre esse indivíduo. O lugar de alguém na estrutura social advém de uma série complexa de relações, da qual emergem normas, oportunidades e, inclusive, limitações. […] Ou seja, a percepção da estrutura em torno dos atores é fundamental para que possamos compreender também seu comportamento. Além disso, o comportamento individual dos atores reflete-se na rede como um todo, moldando-a e adaptando-a, sendo também, portanto, fundamental para que possamos compreender a estrutura em si.”

RECUERO, 2017, p. 13.

Ela complementa que “a ideia que embasa os estudos das estruturas sociais é aquela de que os indivíduos, os atores sociais, estão inseridos em estruturas complexas de relações com outros atores”. Os grupos sociais (família, escola, trabalho, etc.) os quais nós enquanto indivíduos fazemos parte “têm um papel fundamental no [nosso] comportamento e na [nossa] visão de mundo”, em que as relações que estabelecemos conferem determinadas posições nas redes, que são tanto produto quanto produtora das interações e associações.

– De onde vem a Análise de Redes Sociais?

A origem da análise de redes sociais pode ser creditada a variados campos do saber (numa perspectiva interdisciplinar) no início do século XX, sobretudo a partir da década de 30. A posição da autora a é de seguir com o consenso estabelecido pela revisão literária de que há dois pilares fundadores: a Sociometria e a Teoria dos Grafos, “embora traços dos conceitos possam ser observados em trabalhos muito anteriores”. Sociologia, Antropologia e Psicologia são apenas algumas das disciplinas que, ancoradas na contribuição da Matemática, começaram a esquematizar um método para a análise de redes sociais.

Scott (2001) credita o “nascimento” da ARS como abordagem ao desenvolvimento da Sociometria, que trouxe sistematização analítica a partir de fundamentos da teoria dos grafos. Já o desenvolvimento desse método, o autor atribui aos pesquisadores que, na década de 1930, passaram a estudar os padrões de relações e a formação de grupos sociais como cliques e, finalmente, aos antropólogos que a partir desses elementos começaram a estudar os conceitos de “comunidade”. Para o autor, são essas tradições que vão formar aquilo que, na década de 1960, vai se constituir na tradição dos estudos de análise de redes.

RECUERO, 2017, p. 14.

A sociometria é a denominação dada à abordagem de Jacob Moreno na invenção do sociograma (1930), “a representação da rede, no qual os atores sociais são apresentados como nós, e suas conexões, representadas por linhas que unem esses nós”. Os estudos do psicólogo, com ajuda da sua colaboradora Helen Jennings, tinha como objetivo “medir as relações dos grupos, compreendendo […] como esses conjuntos de atores eram estruturados”. Foi fundamental para direcionar o foco à “estrutura social para que se compreendesse a dinâmica dos grupos”, embora só tenha sido desenvolvida (reabordadas por outros grupos) como análise de redes após a década de 50.

Já a Teoria dos Grafos foi responsável por fornecer “formas mais sistemáticas de medida […]” das estruturas sociais, cuja teorização das redes dispõem as principais métricas para a compreensão das posições dos nós e de sua própria estrutura. É uma disciplina da matemática “que estuda conjuntos de objetos e suas conexões”, cuja origem estaria “no trabalho de Ëuler e na solução que ele propôs para o enigma das Pontes de Königsberg”. Cartwright e Harary teriam sido os primeiros a aplicar grafos à leitura dos sociogramas de Moreno, o que permitiu “que novas perspectivas fossem compreendidas dentro da dinâmica dos grupos sociais”.

Mas se a análise de redes sociais tem sua consolidação em meados do século XX, com sementes originárias datando de décadas antes (até Simmel e Weber, por exemplo), por que há uma crescente popularização dessa abordagem? Recuero credita isso à “ampliação do foco do estudo de grupos pequenos para grupos em larga escala”, fazendo com que novas disciplinas cruzem fronteiras entre as Ciências Exatas e Ciências Sociais e Humanas. Duas justificativas para esse novo contexto da análise de redes sociais possa surgir são: “a disponibilização de dados sociais, especialmente pelas ferramentas digitais de comunicação” e; “o uso de métodos computacionais, que permitiram a coleta e a análise desses dados sociais”.

– Redes sociais e sites de redes sociais são a mesma coisa?

Em julho de 2019, a autora publicou no Medium o texto “Mídia social, plataforma digital, site de rede social ou rede social? Não é tudo a mesma coisa?”, somente dois anos após o lançamento do e-book. Essa é uma pergunta que provavelmente deve continuar sendo feita ainda por muito tempo, mesmo com todos os (constantes) esforços para respondê-la. O problema está principalmente no fato de que, no Brasil, chamamos tudo de “rede social”; no entanto, como a própria discussão da origem das análises de redes sociais já indica, redes sociais são muito “anteriores” aos sites de redes sociais.

O argumento apresentado no e-book parte do conceito primeiro proposto pelas autoras danah boyd e Nicole Ellison em publicação de 2007 (a data é importante para contextualizar o momento pelo qual a internet passava, pensando Facebook, Orkut, etc.) que “algumas ferramentas online apresentam modos de representação de grupos sociais baseados nas relações entre os atores”. Seriam características dessas: “(1) permitir que os atores construam um perfil público ou semipúblico; (2) permitir que esses atores construam conexões com outros atores; e (3) permitir que esses atores possam visualizar ou navegar por essas conexões“.

“Enquanto uma rede social está relacionada à percepção de um grupo social determinado pela sua estrutura (a “rede”), que é geralmente oculta, pois só está manifesta nas interações, as ferramentas sociais na internet são capazes de publicizar e influenciar essas estruturas sociais. (BOYD; ELLISON, 2007) Ou seja, o Facebook, por si só, não apresenta redes sociais. É o modo de apropriação que as pessoas fazem dele que é capaz de desvelar redes que existem ou que estão baseadas em estruturas sociais construídas por essas pessoas […].”

RECUERO, 2017, p. 16.

Sites não necessariamente refletem redes sociais do espaço offline, mas “amplificam conexões sociais, permitem que estas apareçam em larga escala (RECUERO, 2009) e também atuam de modo a auxiliar na sua manutenção”. Pessoas que você conhece (ou conheceu) offline, por exemplo, podem manter uma conexão com você no Facebook devido à facilidade de manutenção desse laço fraco; ou, ainda, pessoas que você não conhece offline podem aparecer no seu news feed enquanto perfil ou até mesmo publicações, devido à característica própria da ferramenta. As redes sociais na internet, portanto, “são outro fenômeno, característico da apropriação dos sites de rede social.”

Outro conceito que Recuero traz de boyd para diferenciar os sites de redes sociais (e, portanto, as redes sociais online) é o de “públicos em rede” (networked publics). “Embora esse conceito não esteja diretamente relacionado com análise de redes, ele auxilia a compreensão de como os sites de rede social influenciam os processos de representação dos grupos“, explica. São affordances que explicitam “elementos que emergem das características técnicas dessas ferramentas e suportam suas apropriações“:

  1. Persistência: interações/conexões dos meios online permanecem no tempo (podem ser recuperadas); o que permite que a conversa seja assíncrona (atores não estão presentes ao mesmo tempo), ampliando “as possibilidades de manutenção e recuperação de conexões e valores sociais”.
  2. Replicabilidade: como as interações/conexões permanecem, são mais facilmente replicadas (podem circular mais rápida e fidedignidamente);
  3. Escalabilidade: a junção de esses dois elementos permite que as informações percorram toda a estrutura de redes (viralidade);
  4. Buscabilidade: devido à permanência (registro), as informações podem ser buscáveis.

“São esses elementos que proporcionam os contextos nos quais podemos perceber como as redes sociais na internet podem ser diferentes em suas apropriações e práticas sociais, e na circulação de informações das redes sociais offline.”

RAQUEL RECUERO

Ainda pensando num contexto mais conversacional (e não de laços estabelecidos, como amigos/seguidores – ou conexões associativas, para utilizar o conceito da própria), Recuero também recupera boyd para destacar as dinâmicas dos públicos em rede. O foco dessas outras características, entretanto, estaria no modo como “influenciam as redes sociais que emergem desse processo”:

  1. Audiências invisíveis: diferente das redes offline, em que a autora argumenta que conseguimos “peceber” com mais facilidade (por ser menor e menos conectada), as redes de SRSs são “imediatamente discerníveis” pelas “audiências que rodeiam as interações no espaço online”.
  2. Colapso dos contextos: ao permanecerem e serem replicadas, deslocamentos de contextos são comuns, o que potencializa a possibilidade de conflitos entre grupos distintos.
  3. Borramento das fronteiras entre o público e o privado: diz respeito à “dificuldade em demarcar espaços que são tipicamente dados nos grupos sociais offline” (família, amigos, etc.), o que “acaba por expor os atores, aumentando a percepção de intimidade e sua participação pela rede”.

– Para que serve a ARS?

Como mencionado anteriormente, a análise de redes sociais tem se popularizado devido a dois fatores principais: “graças ao aumento da quantidade de dados sociais disponibilizados por conta dos usos das ferramentas de comunicação mediada pelo computador” e, também, “por ser uma abordagem bastante propícia para o estudo e a visualização de grandes quantidades de dados”. É nesse contexto que tem sido utilizada em áreas como Comunicação Social e Sociologia Computacional, “para compreender fenômenos associados à estrutura das redes sociais, principalmente, online”.

A autora encerra o primeiro capítulo, portanto, listando os cenários em que a análise de redes sociais pode ser utilizada: 1) estudos das relações entre os elementos da estrutura do fenômeno; 2) estudos nos quais o objeto possa ser estruturalmente mapeado; 3) estudos nos quais o problema de pesquisa foque um conjunto de dados passível de ser coletado e mapeado com os recursos disponíveis. Ela está chamando a atenção para o fato de que nem toda pesquisa cabe uma abordagem de redes, por isso é preciso ficar atento a esses “critérios” básicos e se perguntar: a resposta que eu preciso responder pode ser alcançada com a análise de redes?

Se você quer identificar como o capital social é constituído em determinado grupo, como a informação circula num determinado grupo social ou quais são os subgrupos – ou clusters – dentro de uma grande grupo – ou rede, por exemplo, sim. Se o objeto pode ser mapeado e sua estrutura será visível (os dados são acessíveis), também. Se há a possibilidade de realizar todo o processo, de mapeamento à coleta e posterior análise seguindo as premissas metodológicas da análise de redes sociais, também.

Referências citadas neste capítulo

  • SCOTT, J. Social Network Analysis: Ahandbook. 2. ed. New York: SAGE, 2001.
  • BOYD, D.; ELLISON, N. Social Network Sites: Definition, History, and Scholarship. Journal of Computer-Mediated Communication, [S.l.], v. 13, n. 1, p. 210-230, 2007.
  • BOYD, D. Social Network Sites as Networked Publics: Affordances, Dynamics, and Implications. In: PAPACHARISSI, Z. (Ed.). ANetworked Self: Identity, Community, and Culture on Social Network Sites. New York: Routledge, 2010. p. 39-58
  • BRUNS, A. et al. #qldfloods and @QPSMedia: Crisis Communication on Twitter in the 2011 South East Queensland Floods. Brisbane, Qld: ARC Centre of Excellence for Creative Industries and Innovation, 2012.
  • BRUNS, A.; BURGESS, J. E. Researching news discussion on Twitter: New methodologies. Journalism Studies, Florida, v. 13, 2012.
  • DEGENNE, A.; FORSÉ, M. Introducing Social Networks. London: SAGE, 1999.
  • FREEMAN, L. The development of social network analysis: a study in the sociology of science. Vancouver: Empirical Press, 2004.
  • MALINI, F. Um método perspectivista de análise de redes sociais: Cartografando topologias e temporalidades em rede. In: ENCONTRO DACOMPÓS, 25., 2016, Goiânia. Anais… Campós: Goiânia, 2016. Disponível em: http://www.compos.org.br/biblioteca/compos_malini_2016_3269.pdf. Acesso em: 23 de maio de 2017
  • RECUERO, R. Redes Sociais na Internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.
  • RECUERO, R. A Conversação em Rede: comunicação mediada pelo computador. Porto Alegre: Sulina, 2012.
  • RECUERO, R. Contribuições da Análise de Redes Sociais para o estudo das redes sociais na Internet: o caso da hashtag #Tamojuntodilma e #CalaabocaDilma. Revista Fronteiras, São Leopoldo, v. 16, p. 60-77, 2014.
  • RECUERO, R.; BASTOS, M. T.; ZAGO, G. Análise de Redes para Mídia Social. Porto Alegre: Sulina, 2015.
  • WASSERMAN, S.; FAUST, K. Social Network Analysis: methods and aplications. Cambridge: Cambridge University Press, 1994.

O que faz ser nordestino no Facebook?

No dia 19 de dezembro de 2017, depois de quatro longos anos, apresentei no bloco A do campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense o meu trabalho de conclusão de curso na graduação em Estudos de Mídia. Com um misto de imensa gratidão e desconcertante despedida, defendi a minha monografia, “O que fazer ser Nordestino no Facebook: Escolhas da construção identitária nos sites de redes sociais”, frente à melhor banca que poderia ter escolhido para fechar esse ciclo com chave de ouro.

Quem me acompanha no Twitter sabe que não foi uma jornada fácil – e nem rápida, já que comecei a confabular a ideia para esse trabalho ainda no primeiro semestre de 2016. Com alguns tropeços (burocráticos e da vida mesmo) no caminho, a verdade é que eu só sentei para realmente escrever os capítulos no segundo semestre de 2017 – escrevendo o segundo e terceiro capítulo só em novembro, ou seja, em apenas algumas semanas. A minha sorte é que, embora tenha deixado a produção para a última hora, já tinha lido e catalogado a grande maioria das minhas referências meses antes.

Como comentei no Twitter, o sufoco para finalizar esse trabalho não se deu por falta de aptidão pelo tema, mas apenas pela irresponsabilidade cronológica das minhas obrigações. Garanto, no entanto, que foi o meu entusiasmo pelo tema – e pela ideia em geral – que me forneceu o combustível necessário para escrever mais de 60 páginas apenas em duas/três semanas. Poder levantar a discussão sobre identidade, cultura, representação, Nordeste, autoapresentação, performance e sites de redes sociais em um único trabalho fez com que a escrita saísse com suor, mas com um imenso sorriso no rosto.

Embora o tema – ou melhor, os temas – possam parecer óbvios para a minha pessoa, não foi fácil chegar nele(s). No quinto período, quando fiz a disciplina Metodologia de Pesquisa, foi realmente quando tive que colocar no papel as ideias que tive durante os três anos de graduação para elaborar um anteprojeto. Revirei minhas anotações, as disciplinas que fiz, tweets que publiquei… E cheguei à conclusão que queria falar de identidade e sites de redes sociais, só faltava um meio termo. Felizmente no mesmo período tinha feito um trabalho sobre a Brasileiríssimos que me orientou por onde deveria seguir, até que cheguei à Nordestinos.

A ideia inicial (do anteprojeto) era fazer uma análise da representação do Nordeste nessa página, mas descartei eventualmente essa proposta porque queria focar mais em identidade e menos em representação/análise do discurso (embora seja tudo muito imbricado). Isso porque era uma questão que me atravessava diretamente (saí de Aracaju com 17 anos para São Paulo e depois Rio de Janeiro, então a identidade nordestina era “percebida” pelos outros de forma constante na minha vida no Sudeste) e também devido à minha afiliação teórica com a discussão sobre identidade – e não tanto com análise do discurso (muito relevante para avaliar o conteúdo de uma página), por exemplo.

Antes de começar a escrever o trabalho, meu orientador – Prof. Dr. Marildo Nercolini – orientou que eu produzisse, sem me preocupar com a burocracia das referências, um texto sobre o que eu tinha em mente. Deveria ter somente duas páginas, mas acabei escrevendo sete. Com o entusiasmo, cheguei a produzir um artigo para o XIII ENECULT – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, que infelizmente não foi aceito. Fiquei bastante abatido na época, porque era uma das minhas metas de 2017, mas concordei com todos os apontamentos do avaliador. Embora tivesse uma boa base teórica, partiu de um texto na primeira pessoa e faltou uma análise mais densa.

Confesso que me desanimou um pouco, e talvez tenha sido esse o motivo pelo qual demorei tanto para começar a escrever o TCC. Fui negado em maio, escrevi o primeiro capítulo em julho e fui revisar só em setembro. Felizmente meu orientador não me abandou em nenhum momento e me deu todo o apoio necessário para que eu terminasse o trabalho em tempo recorde. E, finalmente, depois de tantos altos e baixos, consegui produzir algo do qual me orgulho muito e fiquei bastante feliz com o resultado. Independente da avaliação da banca, estava satisfeito com o meu trabalho. Sem mais delongas, portanto, compartilho aqui – para quem tiver interesse – a minha monografia:

Talvez eu deva começar explicando pelo título, que não foi bem aceito pela banca. A minha ideia inicial era seguir pelo óbvio “A identidade nordestina no Facebook”, mas não consegui encontrar um subtítulo que não repetisse a mesma ideia do título, complementando-o – como deveria ser. Foi somente nos últimos dias de produção que me veio o título final, no qual a proposta é fazer uma referência direta ao livro “O que fazer ser nordestino: identidades sociais, interesses e o ‘escândalo’ Erundina”, escrito por Maura Penna na década de 90 e uma das principais referências bibliográficas no meu trabalho. Reconheço, entretanto, que pode soar estranho para quem não conhece a obra – a grande maioria das pessoas.

Fora isso, o trabalho foi muito bem aceito pela banca que apontou apenas algumas (várias, na verdade: eu falei por 20 minutos e elas falaram por 2/3 horas) considerações de correção e/ou melhorias. Em suma, a proposta do TCC era responder à pergunta: por que as pessoas optam por acionar a identidade nordestina nos sites de redes sociais? Para isso, estruturei da seguinte forma: no primeiro capítulo, fiz um levantamento histórico-bibliográfico de como “surge” o Nordeste e o nordestino; em seguida, dedico todo o segundo capítulo à discussão sobre identidade, sob diferentes perspectivas: nacionais, regionais, fragmentadas e, finalmente, nos sites de redes sociais; finalizo o trabalho com as respostas ao questionário que apliquei com usuários do Nordeste.

Fiquei muito feliz que, nesta última etapa, encontrei uma solução metodológica utilizando a análise de redes. Explico: a minha pergunta principal parte do pressuposto de que há pessoas que acionam essa identidade nos sites de redes sociais, então, como posso encontrá-las? Poderia optar por simplesmente selecionar alguns amigos meus e pedir que respondessem ao questionário, mas achei que a análise de redes me ofereceria um critério “científico” muito mais válido. Aquele trabalho que publiquei aqui no post alguns meses atrás, do mapeamento do Nordeste no Facebook, portanto, serviu como base para que eu encontrasse as páginas mais “influentes” no contexto da minha pesquisa – a identidade nordestina. Com essa lista em mãos, utilizei como requisito básico para encontrar usuários aptos a responder o questionário.

Enfim, consegui colocar identidade, cultura, representação, Nordeste, sites de redes sociais, autoapresentação e análise de redes (que por tanto tempo fugi) num mesmo trabalho – e, portanto, repito: não poderia estar mais feliz com o resultado. A versão que trago acima já é corrigida após os apontamentos da banca, na medida do possível. Algumas considerações mais complexas (e foram muitas, o que me deixou muito animado) eu anotei como ideia para levar ao mestrado, a nova meta de 2018. Acho importante reconhecer, inclusive, uma limitação do projeto: o questionário em vez da entrevista, o que “limitou” as respostas dos informantes para averiguar com mais afinco a especificidade dessa construção identitária nos sites de redes sociais, como apontou Prof. Dra. Beatriz Polivanov.

Para finalizar, reconheço que não apenas a questão sob a viés dos sites de redes sociais pode ser um campo muito interessante a ser explorado num programa de pós-graduação em comunicação, mas diversas outras questões como estigma, preconceito, estereótipo, disputa, orgulho e diáspora. Dentre as falas da banca, uma das que mais me marcou foi da Prof. Dra. Ana Lúcia Enne: é difícil deslocar a identidade quando se ancora na natureza (como álibi climático comumente associado ao Norte), pois o significante é muito poderoso, o que dificulta destruir o estereótipo. Mais difícil do que mexer no significado, portanto, é disputar o significante. Sobre isso, compartilho o que escrevi nas considerações finais após essa consideração na defesa:

Nascido em Salvador, parti para Aracaju com apenas 5 anos e deixei a capital somente aos 17, quando fui para São Paulo e depois para o Rio de Janeiro fazer faculdade. Como qualquer pessoa que sai do Nordeste em diração ao Sul, tive que lidar em algum (ou alguns momentos) com a diferenciação do “outro”, geralmente facilitada pelo conflito de sotaques. Desde então, a classificação “nordestino” atribuída a mim – e a outros milhões – sempre foi uma questão que me intrigava. Com as leituras que fiz no curso, a reflexão de anos ficou ainda mais complexa e, de certa forma, até mais complicada.

Essa dificuldade de lidar com a questão da autoatribuição nordestina pairou toda a escrita deste trabalho, uma vez que as reflexões sobre o “ser nordestino” após a minha migração já trazia uma leitura da identidade nordestina como representada nas obras de arte, como uma condição de sofrimento e adversidades. Se o texto parece impessoal, é somente devido a essa angústia que ainda me agonia. Ao tentar fugir do estereótipo, acabo negando-o e, ao mesmo tempo, legitimando-o. Afinal, “sou” nordestino, mas nunca passei por dificuldades (estruturais) na vida. Será que, então, poderia me identificar enquanto nordestino? Depois de tudo isso, acredito que sim.

Mapeando o Nordeste no Facebook: primeiros apontamentos com análise de redes sociais

Embora possa por vezes parecer eterna ou natural aos brasileiros, a ideia de Nordeste é de pouco mais de um século, sua origem remontando à reação política ao desmantelamento das economias do açúcar e do algodão e à busca de uma solução para a crise enfrentada conjuntamente pelas províncias brasileiras que delas dependiam. É somente nesse momento que começa a ruir a percepção provincial então vigente e que se elabora um discurso regionalista e nordestino, o qual se define e se afirma não apenas em oposição ao seu “outro” mais próximo – o ‘Sul’ cafeeeiro –, mas também em relação a um passado de suposto bem estar e harmonia. É através desse discurso e das ações oficiais dele derivadas que se demarca o espaço do que é Nordeste e se conforma uma identidade cultural nordestina, a qual legitima e representa, simbolicamente, aquele espaço. (ANJOS, 2000, pp. 47-48).

É extremamente difícil pensar que o Nordeste, assim como qualquer outra região/país/território, é apenas uma categoria discursiva. Isso não quer dizer que ela exista apenas no mundo semântico (das ideias), mas que ela se materializa nas nossas dinâmicas sociais através de um “ato mágico” performático que nos convenciona, enquanto seres humanos inteligíveis, um acordo sobre como entendemos as delimitações do espaço físico. A própria etimologia da palavra “região” traz consigo a ideia de regere sacra: uma espécie de crença mágica que confere àquele que está regendo uma autoridade/legitimidade que se faz acreditar nessa regência (e isso é Bourdieu explicando, não eu). A partir dessa discussão, Silva (2009, p. 20) explica que:

O Nordeste, nessa concepção, constitui-se como região a partir do trabalho de criação de determinados setores sociais que se relacionam em um espaço específico. Também compõem com outras áreas um conjunto nacional politicamente definido por grupos que o reconhecem como espaço construído em seu processo de produção material e cultural, através da qual se articula com o capital e com o Estado, formando uma entidade político-administrativa.

Se o Nordeste, portanto, é uma construção social fundada atos performáticos sobre os quais acordamos culturalmente, o que acontece com a sua noção “material” – no sentido físico, territorial – quando surgem novas esferas de comunicação que já atravessam e constituem parte da nossa vida cotidiana? Essa é uma pergunta extremamente complexa que não cabe a mim responder neste simples post. O meu interesse nesse contexto surge a partir de um viés bastante específico: a noção de identidade nordestina. Afinal, assim como o Nordeste, esta foi construída social e historicamente nos últimos 130 anos a partir de diversas conjunturas discursivas (e midiáticas) que estabeleceram, para tal, apontamentos bem específicos do que representava (e esta palavra é importante) ou não o ser nordestino.

O que tem se convencionado enquanto identidade nordestina, com o famigerado advento das novas tecnologias de comunicação e informação, é reconfigurado de alguma forma? Como as novas dinâmicas sociais de produção cultural alteram (ou não) os formatos impingidos aos nordestinos durante as últimas décadas? Essas são algumas perguntas que norteiam o meu trabalho de conclusão do curso de Estudos de Mídia, na UFF. Embora o projeto ainda esteja, metodologicamente, em seu formato embrionário, um pressuposto óbvio para discutir a identidade nordestina nos sites de redes sociais é localizar a categoria – e o Nordeste, de maneira geral – no ambiente online (mais especificamente no Facebook, por ser a mídia social mais popular do Brasil).

O propósito deste post, portanto, é apresentar os resultados iniciais (bem iniciais mesmo) desta minha difícil missão. Para enfrentar esse desafio, optei pela metodologia de análise de redes sociais – técnica que me permite localizar no Facebook praticamente todas as páginas que tragam alguma associação direta com o Nordeste ou com a identidade nordestina. Uma vez que a identidade nordestina é construída discursivamente através de recursos ancorados na repetição de certos valores simbólicos, identificar quem são os principais atores online que trabalham ativamente para a produção dessa construção que estimula (reforça) uma identificação dos usuários com a identidade é o primeiro passo para diagnosticar quais novas lógicas operam esse jogo de sociabilidades.

Para gerar a rede (sobre a qual explicarei e descrevei com mais detalhes a seguir), percorri os seguintes passos: 1) com a ajuda da Netvizz, fiz três buscas de páginas sobre o meu escopo de pesquisa: uma para “Nordeste”, outra para “Nordestino” e outra para “Nordestina” (a variação do plural também é captada pela ferramenta); 2) com as três listas em mão, organizei e limpei os dados para encontrar as páginas mais relevantes (removi páginas pequenas e outros lixos) sobre o tema, encontrando 139 resultados; 3) com a técnica de bola de neve (snowball), documentada por Richard Rogers (DMI) nos seus estudos sobre métodos digitais, encontrei mais 125 páginas a partir das conexões do grupo de páginas-semente. Para explicação mais detalhada sobre esse procedimento, ver Alves (2017, p. 109).

Com a lista completa de páginas sobre o Nordeste e/ou a identidade nordestina, totalizando agora 265 canais, fiz o download dos módulos de “curtida” de cada página também com a Netvizz. De maneira simples, funciona da seguinte forma: cada página do Facebook possui um ID que, através da ferramenta, é possível gerar um arquivo específico que traz consigo as conexões da página em questão com outras páginas que essa “curte” (assim como os usuários, as páginas também têm a opção de curtir outras páginas). Com todos esses arquivos em mãos, pude trabalhá-los diretamente no Gephi, programa específico para análise de redes. O resultado “final”, 5.100 nós (páginas) e 18.456 arestas (conexões), apresento abaixo:

A plotagem da rede foi gerada no Gephi a partir do layout ForceAtlas 2, conforme descrito por Alves (2017, p. 110): “esse processo cria um desenho de rede no qual os nós com mais ligações são atraídos para o centro e os menos conectados são repelidos para as margens”. Marquei a opção de “gravidade mais forte” porque a rede não apresentava alta densidade, ou seja, não havia uma mobilização orquestrada em prol de algum assunto específico – eram apenas algumas milhares de páginas centradas numa temática em comum. Além disso, também não é do meu interesse direto analisar o posicionamento dos clusters, a disposição espacial da rede, sendo suficiente para a minha proposta uma simples interpretação dos grupos formados – para então localizar atores influentes.

Na imagem acima, os clusters representam esses agrupamentos (classificados de maneira estatística pela própria ferramenta) coloridos. As cores foram selecionadas de maneira arbitrária, somente para representar os grupos reconhecidos pelo Gephi: 1.205 (23,63%) páginas no lilás, 959 páginas (18,8%) no verde, 540 (10,59%) no azul piscina, 493 (9,67%) no preto/cinza escuro, 401 (7,86%) no laranja, 221 (4,33%) no rosa e 207 (4,06%) no esmeralda. Os nós maiores, em formato circular, são as páginas com maior PageRank, métrica que leva em conta a centralidade e o peso das arestas – de maneira geral, ela identifica quais páginas recebem conexões mais relevantes dentro do próprio grupo.




Não me aprofundarei numa descrição dos clusters acima porque, além de serem relativamente auto-explicativos em seus exemplos apresentados, os dois grupos que mais aparentam relevância para o meu projeto são o lilás e o preto/cinza escuro. Neles estão presentes – além de algumas páginas que refletem gostos e valores culturais (até políticos) interessantes para possível discussão posterior – atores que trazem consigo o discurso mais vívido acerca do Nordeste e do ser nordestino. Para melhor visualização desses grupos, expandi um pouco a rede e ajustei os rótulos (desta vez proporcionais de acordo com a métrica grau de entrada) conforme representados nas imagens abaixo:



 

Tomando como base esses dois clusters, consegui identificar quais são os principais atores a propagar noções da identidade nordestina no Facebook. Para tal, exportei uma tabela com todos nós dos grupos e organizei na ordem da métrica talking_about_count. A minha ideia aqui em priorizar essa medida é priorizar as páginas onde há uma conversação contínua acerca dessa temática, já que para que haja uma construção identitária é necessário uma articulação constante de pessoas (no caso, usuários) apresentando e representando os valores daquele grupo – a página Nação Nordestina, por exemplo, embora volumosa em visibilidade, não se mostrou muito popular. O top15 – que classifiquei manualmente – segue abaixo:

Antes de finalizar, talvez deva uma resposta a um incômodo que pode surgir na leitura desse post: “por que você não mapeou todas as páginas das cidades (ou pelo menos capitais) e estados do Nordeste?”. Por dois motivos: primeiro, pela demanda de trabalho, obviamente; segundo, porque a minha fundamentação teórica segue justamente a linha de raciocínio na qual o Nordeste é visto como uma categoria discursiva, ou seja, por mais que “na prática” represente suas ramificações, é compreendido no imaginário social enquanto figura homogênea (como o Brasil, por exemplo, e o ser brasileiro). Ou seja, estou interessado justamente nessa concepção de Nordeste e identidade nordestina como um todo macro, mesmo que de maneira crítica e cautelosa para não reproduzir certos equívocos.

Esses foram os primeiros passos que pensei que podem me guiar no que tange o meu trabalho de conclusão de curso (e quiçá uma possível empreitada numa pós-graduação stricto sensu). Ainda não sei exatamente como seguir, mas foi uma atividade na qual pude unir o útil ao agradável: trabalhar o meu objeto de pesquisa junto a uma metodologia sobre a qual venho aprendendo cada vez mais, conforme já narrado aqui na minha saga e posterior aprendizados iniciais graças ao curso do IBPAD. Fico aberto a todo tipo de crítica (construtiva) para elucidar conseguintes apontamentos metodológicos que me ajudem a estruturar uma linha de raciocínio e argumentação para o projeto.

Referências bibliográficas

ALVES, Marcelo Santos. Campanha não oficial: A Rede Antipetista na eleição de 2014. REVISTA FRONTEIRAS (ONLINE), v. 19, p. 102-119, 2017.

ANJOS, Moacir dos. “Desmanche de Bordas: notas sobre identidade cultural no Nordeste do Brasil”. In: Artelatina. RJ: Aeroplano Editora, 2000.

SILVA, Claudeci Ribeiro. A representação do Nordeste nas letras das músicas de Marinês. UEPB: 2009.

Alguns conceitos básicos para entender a análise de redes em mídias sociais

Se você está na graduação e pretende fazer algum trabalho sobre mídias sociais (seja a atividade final de uma disciplina, uma leitura num grupo de estudos ou até mesmo o próprio TCC), provavelmente vai se deparar com o livro Redes Sociais na internet (2009), de Raquel Recuero. A pesquisadora – como já mencionei nesse outro post – é hoje a maior referência na academia brasileira quando o assunto é sites de redes sociais (e enfatizo o foco nesse recorte específico, já que outros pesquisadores como André Lemos, por exemplo, possui um trabalho extenso sobre cibercultura “em geral” há muito mais tempo – sendo também um nome importante na área).

A sua influência (ou capital social) na academia tem contribuído para que, nos últimos anos, a técnica de análise de redes sociais tenha se consolidado enquanto parte importante do debate nesse ambiente quando o tema é mídias sociais. Junto a ela, o pesquisador Fábio Malini, do Laboratório de estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic/UFES), também tem sido um importante influenciador (e propagador) do tema, muitas vezes expandido o conhecimento científico para fora da academia – como tem feito também o DAPP-FGV. Seguindo nessa direção, blogs como o Na base dos dados, do jornalista Fábio Vasconcellos, têm apresentado para o “público geral” algumas visualizações de rede que também colaboram para a difusão do tema. Além dele, o Nexo Jornal – que faz um trabalho excelente de análise e visualização de dados – também já publicou algumas matérias com redes.

network_rt_pt_4
Grafo da repercussão da gravação de Michel Temer no Twitter – feito por Fábio Malini e equipe do Labic/UFES

Enquanto no jornalismo (de dados) a técnica é cada vez mais legitimada, no mercado a análise de redes sociais ainda é pouquíssima explorada em toda a sua potencialidade. Embora grandes empresas como Sysomos e Brandwatch tenham incorporado a funcionalidade às suas ferramentas de monitoramento, ainda há muito o que ser aprendido e debatido sobre a técnica como inteligência de negócio. No Brasil, o pioneirismo da V-Tracker e da BrandCare – esta sob a orientação de Tarcízio Silva, à época gerente de produto e pesquisador comprometido com a interação academia/mercado – foi importante para que a Stilingue, uma das ferramentas que mais cresce em popularidade no Brasil atualmente, pudesse se destacar sob o mesmo tema. Ainda assim, há um longo caminho a ser percorrido para que as marcas enxerguem valor nesse tipo de pesquisa – o que nem sempre é culpa delas, mas das próprias ferramentas.

Todo esse cenário elucida a necessidade urgente de popularizarmos ainda mais alguns conceitos básicos sobre análise de redes – tanto na academia e no mercado, mas também na sociedade civil como um todo. No outro post que fiz sobre a mesma temática, compartilhei o documento Network Literacy: Essential Concepts and Core Ideas, traduzido para português pelo IBPAD como Iniciação a Redes: Conceitos Essenciais e Principais Ideias, que apresenta as primeiras ideias sobre os estudos de redes. Como também nesse primeiro momento, analisar o mundo através das redes não é algo exclusivo das Ciências Sociais nem muito menos dos sites de redes sociais, sendo um método de pesquisa comum às disciplinas exatas e biológicas há muito mais tempo. Ou seja, pensar (e analisar) as mídias sociais como redes sociais é apenas um tipo de interpretação possível.

Grafo feito pelo jornalista Thiago Barone em jogo da Champions League para avaliar a “ausência” de Messi (clique para conferir a análise)

É importante entender, portanto, que: 1) as “redes sociais”, em seu sentido mais amplo, são muito anteriores aos fenômenos das mídias sociais e/ou dos sites de redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram, etc.) como os quais entendemos hoje – sociólogos estudavam sobre esse tema desde a década de 20, como mencionei anteriormente; e 2) o enfoque sob a prisma de redes sociais para pensar as mídias sociais parte tanto da influência de pesquisadoras relevantes na academia quanto da própria disposição tecnológica das plataformas de sociabilidade digitais, que são em grande parte pautadas no fluxo conversacional e de informações entre os usuários (ou atores) – o que facilita bastante a proposta de análise desses espaços enquanto estruturas de sociabilidade, podendo assim, nas palavras de Raquel Recuero, “observar como a rede existe em relação aos vários elementos que fazem parte dela”.

Então… O que eu preciso saber sobre análise de redes sociais?

O primeiro passo, portanto, é entender o que são redes sociais: no livro “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações”, Tarcízio Silva e Max Stabile trazem o conceito a partir de David Passmore, que explica o fenômeno como uma “estrutura social composta de indivíduos (ou organizações) chamados de ‘nós’, que são ligados (conectados) por um ou mais tipos de interdependência, como amizade, parentesco, interesse comum, trocas financeiras, aversões, relacionamentos sexuais ou relacionamentos de crença, conhecimento ou prestígio”. Ou seja, como o critério condicional é a conexão, tem mais a ver com um modo de enxergar fenômenos sociais do que como um fenômeno social em si. As redes funcionam, portanto, como “artifício cognitivo e científico que permite entender proximidades, similaridades, diferenças, conjuntos e processos de um modo muito particular”.

A análise de redes é um conceito extremamente amplo, oriundo da Teoria dos Grafos, original da Matemática. Já a análise de redes sociais, que é o que nos interessa aqui, trata-se da interface entre esse conceito e as humanidades – fortemente atrelado à Sociologia, e atualmente reforçado nas disciplinas ligadas à Comunicação Digital. Uma vez que a análise de redes “parte do princípio que mais informação pode ser gerada a partir da compreensão de como os elementos de um conjunto estão interligados”, é fundamental compreender a linguagem e o formato que a ARS utiliza enquanto técnica de análise e apresentação/visualização de dados. Para quem não tem nenhuma familiaridade com o tema, segue abaixo um pequeno resumo (ênfase para a redundância) com alguns dos termos/conceitos mais comuns:

  • Rede/Grafo: são as visualizações de atores e suas conexões formadas por nós/vértices e laços/arestas;
  • Nós/Vértices: são os objetos que estabelecem as conexões da rede (podem ser perfis, páginas, sites/blogs ou hashtags – depende do contexto);
  • Laços/Arestas: são as conexões feitas pelos conjuntos de nós (“a definição sobre o que é um laço pode mudar completamente a interpretação de sua rede, afinal, se estamos falando de uma técnica que enfatiza as condições relacionais do seu objeto, você precisa entender o que explica essa relação”);
  • Relações direcionadas: interação que indica um caminho, que possui a intenção de um ator em relação a outro (possivelmente indicada visualmente por setas);
  • Relações não direcionadas: interação sem orientação, que não possui diferença entre a intenção dos atores (por exemplo, uma amizade no Facebook);
  • Redes de co-presença/co-interações: nós presentes numa mesma publicação (comum no caso de estudo com hashtags, por exemplo);
  • Rede de afiliação: são redes cujas definições dos nós ou atores pertencentes são muito distintas entre si (ou seja, não há uma conexão direta, mas ambos pertencem a um mesmo grupo).

Esses são apenas alguns dos termos e conceitos introdutórios para começar a entender a análise de redes em mídias sociais. É importante ratificar que todas as suas explicações partem de um contexto próprio da técnica voltada para o tema das plataformas digitais sociais, já que, como dito anteriormente, trata-se de um método bastante contextual, que precisa ser adequado ao escopo e à disciplina de onde parte a análise. No entanto, esses são alguns dos pontos basilares para começar a entender as análises em geral. Tomemos como exemplo o relatório “Beyond Hashtags: #Ferguson, #Blacklivesmatter, and the online for offline struggle”, desenvolvido pelos pesquisadores Deen Freelon (American University), Chartlton D. Mcilwain (New York University) e Meredith D. Clark (University of North Texas), para entender as definições aqui postas.

Essa rede – ou grafo – mostra o cenário do período 7 da análise, quando foram coletados 5.3 milhões de tweets sobre o tema produzidos por mais de 1 milhões de usuários – para saber mais sobre o relatório e a pesquisa, conferir esse post. Os nós (ou vértices) são os círculos que concentram grupos específicos de usuários falando sobre o tema na época: BLM 1 e BLM 2 são ativistas e/ou usuários simpatizantes ao movimento #BlackLivesMatter, que denunciava a violência policial racista nos Estados Unidos, por exemplo; e os laços/arestas são as conexões estabelecidas entre esses atores, que poderia vir em forma de tweet ou retweet – e aqui vale destacar também o artifício visual (afinar ou engrossar) utilizado para dar peso a essas interações, que também nos ajuda a perceber como o fluxo das conversas/informações estava se estabelecendo diante todo o cenário.

Embora seja um exemplo metodologicamente bastante complexo, a rede acima é relativamente simples para discutirmos essas noções básicas da análise de redes em mídias sociais. A própria visualização dos dados é um fator de extrema importância para a técnica, que se apoia com força na interpretação estrutural do escopo da análise. Ainda assim, conhecer esse termos e conceitos são essenciais para dar conta dos fluxos de comunicação e conexão estabelecidos na internet. A ideia de laços fracos, por exemplo, é fundamental para pensar a facilitação do acesso no ambiente online. A partir dos estudos de Mark Granovetter, pesquisadoras e pesquisadores como a própria Raquel Recuero vão apontar como, no contexto dos sites de redes sociais, a abundância desse tipo de conexão é importante para que haja “pontes” entre atores que seriam essencialmente distintos na rede. Confira alguns outros termos e conceitos importantes abaixo:

  • Grau: é a métrica que indica o número de conexões de um nó na rede;
  • Grau de Entrada: é a métrica que indica o número de conexões recebidas por um nó na rede;
  • Grau de Saída: é a métrica que indica o número de conexões oferecidas por um nó na rede;
  • Centralidade de Autovetor: métrica que analisa a centralidade de um nó através de conexões de outros nós também muito conectados (semelhante à métrica de PageRank, comum no mercado);
  • Centralidade de Intermediação: métrica que calcula os caminhos entre os nós para identificar possíveis “pontes” relevantes na rede;
  • Redes Egocentradas: é um tipo de rede que parte de um nó central e suas conexões;
  • Redes Sociocentradas: é um tipo de rede que com delimitação específica a partir de um recorte “externo”, cujo escopo é “anterior” à própria análise;

Para conferir esses conceitos na prática, vamos observar essa rede interativa desenvolvida pelo IBPAD a partir de um estudo exploratório da polarização política no Brasil através de páginas da Direita e da Esquerda no Facebook. Trata-se de uma rede polarizada, mas poderia também ser compreendida como duas redes sociocentradas, já que foram desenvolvidas a partir de páginas com referenciais explícitos às suas respectivas posições. Na plataforma interativa, ao pesquisar por páginas como CartaCapital e Jair Messias Bolsonaro (as mais referenciadas em seus devidos grupos/clusters), você pode ver os graus de cada uma delas, ou seja, quantas páginas as referenciam, quantas são referenciadas por elas e o total de conexões. Já a página da Folha de S. Paulo aparece com elevada centralidade de intermediação, uma vez que é a ponte entre os dois lados.

No contexto de mídias sociais, esses tipos de métricas são importantes para avaliar a articulação dos nós dentro de uma rede, analisando valores relevantes de influência, autoridade, preferências, engajamento e mobilização. Além disso, a técnica vem sendo legitimada por sua “poderosa capacidade de resumir sem perder o detalhe, e de poder ver o todo sem perder a perspectiva do único”, como explica Tarcízio Silva e Max Stabile no capítulo do livro anteriormente mencionado. E acrescentam: “Com a técnica é possível ter uma visão panorâmica dos dados, seus agrupamentos e suas perspectivas (Malini, 2016), e identificar quais atores e narrativas foram mais relevantes. Ao mesmo tempo, é possível analisar com mais detalhes e construir uma análise completa”.

Para desenvolver esse trabalho, há diversas ferramentas utilizadas por pesquisadores, acadêmicos, programadores, cientistas de dados e profissionais do mercado. No entanto, pelo menos no Brasil, as duas ferramentas mais comuns são a NodeXL e o Gephi – bastante utilizados por Raquel Recuero e Fábio Malini em seus grupos de pesquisa (no mercado, algumas ferramentas plenas de monitoramento já possuem essa funcionalidade integrada, o que pode ser uma mão na roda). Em suma, funciona da seguinte forma: os dados são coletados (através de plugins, das próprias ferramentas, ou de códigos de programação em linguagem R ou Phyton, por exemplo), processados, trabalhados pelos analistas (executando métricas, layouts, etc.) e, depois, divulgados nas visualizações que costumamos ver.

Para quem deseja se aprofundar no estudo sobre análise de redes e aprender na prática como funciona todo esse processo, o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD) lançou neste mês o MOOC (massive online open course) de Análise de Redes em Mídias Sociais. Com os professores Max Stabile, Tarcízio Silva e Marcelo Alves, o curso oferece mais de 90 aulas (dentre vídeo-aulas, artigos, leituras orientadas, tutoriais, estudos de caso e quizzes) para “capacitar os estudantes a coletar, processar, visualizar e interpretar redes baseadas em dados de mídias sociais”. São cinco módulos que passam pelos conceitos, aplicações e histórico do pensamento sobre redes; as particularidades das redes nas mídias sociais; a utilização prática de softwares para a análise e a monetização do trabalho.

Todos os conceitos que apresentei neste post são frutos tanto das aulas do Módulo 1 do curso quanto do capítulo do livro “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações”, também do instituto. Se você tiver interesse em saber mais (e com muito mais propriedade e profundidade) sobre o que discuti neste post – como o conceito de métricas como Tamanho da Rede, Diâmetro da Rede, Densidade, Inclusividade de Rede, Centralização de Rede, dentre outras -, recomendo veementemente esse novo curso. E o melhor: tem um desconto exclusivo para leitores deste blog que vos fala! Basta usar o cupom insightee10ars para garantir a sua vaga com um precinho ainda mais camarada – que já está abaixo do normal por ser a semana de lançamento.

E já que iniciei o post falando da importância de conhecer o trabalho de Raquel Recuero caso você esteja numa graduação (ou pós), posso garantir que o curso também é dedicado para alunos e pesquisadores interessados no tema. Marcelo Alves, que já apareceu neste blog em outro momento, é doutorando na UFF e desenvolve um trabalho fantástico sobre política e redes sociais no Brasil. Aliás, quem quiser conhecer outros pesquisadores, vale dar uma olhada no material 100 Fontes sobre Pesquisa e Monitoramento de Mídias Sociais. Recomendo também seguir o blog Essa Tal Rede Social, que vem fazendo um trabalho bem bacana com ARS. No mais, adquirir o livro Análise de Redes para Mídia Social, de Raquel Recuero, Gabriela Zago e Marco Bastos. Para finalizar, deixo aqui uma série de posts feitas por Tarcízio Silva para introduzir o tema: