Categoria: Guest Post

Ferramentas e outras indicações do CodaBR18, por Matheus Dantas

[Texto por Matheus Dantas, participante do Pontão da ECO-UFRJ]

Durante dois dias de aprendizado com mais de 40 horas de treinamento e várias trocas de conhecimento na ESPM em São Paulo, a Conferência Brasileira de Jornalismo de Dados e Métodos Digitais, Coda.br, em sua terceira edição apresentou diversas ferramentas – tanto para usuários experientes como para novatos – que facilitam o trabalho e divulgação de dados.

Se você não teve a oportunidade de acompanhar o evento, ou esteve lá e não conseguiu anotar tudo, o Insightee traz as principais ferramentas apresentadas e suas utilidades:

Base de dados da ABRAJI

Qual base de dados eu necessito para uma determinada pauta? Por onde começar a busca de dados sobre o sistema prisional? Esta planilha da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo é colaborativa e atualmente contém mais de 180 base de dados de diversos assuntos desde economia e política a dados militares e de segurança pública. Ótimo lugar para iniciar sua busca: http://bit.ly/2DuVDs7

Google Trends

Sem ideia para pautas? Que tal ver o que as pessoas estão pesquisando no google. Keila Guimarães, curadora de dados do Google News Lab, mostrou que as pessoas são bem sinceras quando buscam no google. A ferramenta pode ser usada para encontrar reportagens fora da nossa bolha: as estatísticas de Trends são um termômetro, elas revelam aquilo que as pessoas querem saber mais a respeito. Para aprender a usar o Google Trends a empresa disponibiliza alguns cursos para extrair o melhor da ferramenta: http://bit.ly/2Q43kfC

IramuteQ

A ferramenta gratuita faz uma poderosa análise de textos de forma simples e foi apresentada pelo IBPAD – Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados. A pasta com o tutorial de instalação, apresentação da ferramenta, exercícios e exemplos de análises estatísticas está aqui: http://bit.ly/2KfsMcK

Queremos Saber

Se você se sente em risco quando se identifica ao pedir dados através da LAI (Lei de Acesso à Informação) o projeto Queremos Saber, que conta com apoio da Open Knowledge Brasil (OKBr), pode pedir para você. É necessário cadastrar o pedido no site https://queremossaber.org.br/, guardar o número do protocolo e o robô do projeto faz o trabalho no anonimato.

O órgão público responde a sua solicitação e o projeto disponibiliza a resposta através do número do seu protocolo (é muito importante guardar o número, não há outro tipo de identificação). O projeto ainda não disponibiliza para acesso público as informações já solicitadas, mas durante o evento Camille Moura da OKBr prometeu considerar a ideia.

Atualizando Tarefas Maçantes

Já estamos há muito tempo na terceira revolução industrial, que tal deixar as atividades repetitivas para os robôs? Aprenda aautomatizar tarefas maçantes com o Fernando Masanori: http://bit.ly/2DstJNk

Flourish

Dados são um monte de número e nem sempre a narrativa textual criada ajuda a interpretação do leitor. Que tal criar mapas bonitos, daqueles de grandes reportagens numa ferramenta sem custo nenhum? Graças ao Google News Lab, o Flourish é de graça para jornalistas, confere lá: www.flourish.studio

SQL

Como ‘entrevistar’ grande bases de dados? Tenta o SQL. Nesta pasta você encontra a apresentação da Cecilia do Lago, repórter do Estadão Dados, com o Leonardo Ferreira Leite, desenvolvedor de software no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e algumas bases de dados para exercícios: http://bit.ly/2OTgsjf

Bots no Twitter

Bots estão no twitter tanto para o bem como para o mal e você pode criar um (claro que para o bem) com as metodologias disponibilizadas pelo Pedro Burgos: http://bit.ly/2Kcswen

Dados Abertos para Investigações Jornalísticas

Imagens ou vídeos estranhos na internet? Confira ferramentas para criar o seu lide (Como, Onde e Quando?) nessa apresentação da Barbára Libório e do Adriano Belisário: http://bit.ly/2PAa1GI

Estatística para jornalistas

Tá difícil de entender inferência, correlação e regressão linear? Renata Hirota do Volt Data Lab mostra como sair do básico para nunca mais errar em estatística: http://bit.ly/2qRYYd9

Como tornar sua história de dados mais atraentes?

Essa daqui não é bem uma ferramenta, mas é a apresentação da jornalista Amanda Rossi sobre como deixar sua historia de dados mais atraente para o público, afinal não adianta você ter um ótimo furo e o seu leitor não se interessar por ele. Aqui vão as dicas: http://bit.ly/2A3tMfh

+80 ferramentas

Para completar a lista aqui vão 80 ferramentas para ajudar a pesquisar, obter, coletar, armazenar, limpar, analisar e visualizar dados. Muitas são amigáveis para quem não tem grandes conhecimentos de programação. Elas foram apresentadas pela Natalia Mazotte, diretora-executiva da Open Knowledge Brasil: http://bit.ly/80tools-codabr

Outros links interessantes

+ Mini-tutorial introdutório sobre expressões regulares, por Álvaro Justen

Regressão linear, por Renata Hirota

Thread de conteúdos/indicações por Raphael Hernandes, incluindo documento de anotações sobre palestras e atividades

+ Lista de bases públicas (para jornalistas), por Tiago Mali

Dicas, recomendações e apresentações do #CodaBR18

+ Análise de dados: Pandas não morde, por Fernando Masanori

Jornalismo investigativo open-source: ferramentas on-line para responder quem, quando e onde, por Bárbara Libório e Adriano Belisário

Computação visual para Ciências Sociais e Jornalismo, por Tarcízio Silva

Jupyter Notebook – o bloquinho megablaster dos jornalista de dados, por Fernanda Campagnucci

Sobre Coda.br, humildade e networking no bar

Relacionamento, relevância e tipologias: influenciadores digitais x marcas, por Dayana Souza

[Texto escrito por Dayana Souza, mestranda no PPGCOM/UFF e Analista de Mídias Sociais]

Antes de tudo, acho importante dizer que influenciadores existem antes do digital – parece uma afirmação óbvia, mesmo assim, o óbvio, algumas vezes, precisa ser dito. Começo assim, pois acho importante pensarmos no que é influenciar, acredito que esse seja um parâmetro chave, muitas vezes “esquecido” por marcas, quando contratam um “influenciador digital”. Devo pagar caro no cara com 1.0000 de seguidores ou é ok contratar aquele com 35k? Depende, não é 8 ou 80. É necessário pensar em uma séries de coisas, conhecer a sua marca, pensar no público, na narrativa que quer contar. Eu digo, sem medo de arriscar, que é um trabalho que envolve um olhar sobre sociedade. Estamos falando para seres humanos, que vão decodificar e ressignificar o conteúdo de acordo, também com suas experiências. Precisa fazer sentido!

É preciso pensar em engajamento, porque a gente bem sabe que tem uma galerinha que compra seguidores, curtidas e afins. Mas como pensar nesta questão? Existem plataformas que ajudam a entender a relevância desses influenciadores dentro de alguns nichos, como a Air Influencers. Ah, então já facilitou a vida e tá tudo certo? Mais ou menos. É preciso pensar para além dos nichos, no capital social que aquela pessoa detém dentro de determinado assunto, e ter também um olhar minucioso sobre o discurso. Por exemplo, Paola Carosella é extremamente participativa nas mídias sociais, não necessariamente uma blogueira, mas detém capital social no ambiente online (o poder da fala dela no que tange o nicho gastronômico/alimentício é grande). Ela constantemente cita termos que dialogam com alimentação saudável etc. Faz sentido colocá-la para falar de suco industrializado, cheio de corantes, com 10% de fruta – mesmo que seja vendido como algo saudável? NÃO!

É um exemplo básico, mas é um equívoco que acontece bastante. Existe um público atento que busca identificação com o que lhe é passado. Muitas pessoas se intitulam influenciadores digitais, mas ficam as questões: influenciam quem? Onde? Quando? Há a possibilidade de ser influente em um nicho, mas o discurso não ser potente para determinada marca dentro daquele universo, justamente por uma questão de aderência do público. Quem nunca ouviu casos de blogueiras de beleza que fizeram posts sobre cremes que não tinham a ver com o seu público alvo e o mesmo reclamou, criticou duramente? É necessário pensar nesse pilar: marca – coerência no discurso – “influenciador” – público. Tornando o processo de escolha e alinhamento com a campanha/marca ainda mais claro, há algumas tipologias possíveis para a classificação de tipos de influenciadores.

Uma delas é proposta por Gabriel Ishida, publicada originalmente no livro Monitoramento e Pesquisas em Mídias Sociais: Metodologias, Aplicações e Inovações, do IBPAD. O autor parte de uma visão de profissional de BI (métricas, monitoramento e negócios), ou seja, está preocupado principalmente no que tange aos resultados trazidos por influenciadores – e é a partir desse contexto que traça três tipos de perfis: broadcasters, conectores e legitimadores.

Slide da apresentação “Influenciadores”, para o Simpósio de Inteligência em Mídias Sociais do IBPAD (2016). Clique na imagem para acessar o material.

a) Broadcasters – influenciadores com uma grande base de seguidores e alto alcance. Ishida, nos alerta para algo interessante: estas pessoas não precisam ser necessariamente uma celebridade, mas podem atrair o público pelo estilo, conteúdo e afins (vide algumas socialites etc.)

b) Conectores – Estes estão relacionados a outros influenciadores, principalmente broadcasters. É alguém que promove, estimula a conversa entre diferentes grupos. Sabe aquele discurso que exerce um certo poder? Então, esta é uma das características dos conectores.

c) Legitimadores – Aqueles influenciadores que são referências em determinado assunto. Podem ser low profile, que são aqueles que quase não postam nem costumam se expor. Há também os legitimadores de tribo, que são os que causam identificação e representam algum estilo de vida ou afins e possuem um discurso forte dentro daquele meio.

Já o Youpix, que parte de um referencial mais ligado à realidade do próprio produtor de conteúdo (ou creators, como costumam chamá-los), apresenta os influenciadores em 7 tipos diferentes, de acordo com os critérios: alcance (audiência), ressonância (repercussão e engajamento) e relevância.

  1. Top Celeb – o ponto chave aqui é o alcance; esse influenciador consegue falar com um alto número de pessoas, mas não necessariamente tem influência direta dentro de determinado assunto, pois sua audiência é um tanto quanto genérica.
  2. Fit Celeb – alto alcance e, ao mesmo tempo, grande proximidade com o assunto/público alvo da empresa.
  3. Autoridade – Seu discurso exerce um certo respeito, poder dentro do nicho da marca. Tem grandes chances de engajar e exercer influência em seu público. Pode endossar a imagem e percepção acerca de uma marca.
  4. Ecossistema – um conjunto de pequenos influenciadores, que acabam conseguindo influenciar fortemente dentro de determinado contexto. São bons para fortalecer posicionamento de marcas.
  5. Trendsetter – fortes nomes profissionais em seu campo de atuação. Reconhecidos e respeitados, acabam exercendo um certo poder de fala, um alto capital simbólico.
  6. Jornalistas – presentes na mídia tradicional, grande alcance e não precisam ter alta relevância temática. Seu ponto chave é a audiência.
  7. Público interno – micro-influenciadores ou funcionários da empresa. Seu discurso pode aproximar o público e a marca, além de levar uma certa humanização.

Por fim, a ferramenta Traackr, que tem se dedicado bastante ao trabalho de influencer marketing lá fora, traz ainda outra classificação possível – que se assemelha, até certo ponto, com a do Youpix – aqui, são 10 perfis diferentes: a celebridade, a autoridade, o conector, a marca em pessoa, o analista, o ativista, o entendedor, o engajado, o disruptivo e o jornalista. Neste post do blog da Media Education você encontra uma boa explicação e aplicação dessa tipologia – vale conferir!

Essas classificações não necessariamente se excluem ou se contradizem, mas nos ajudam a pensar como podemos organizar – estrategicamente – a parceira com influenciadores no universo digital. No final das contas, tudo depende do objetivo. Exemplo: uma marca de telefonia móvel contratou uma grande (no quesito seguidores/popularidade geral) blogueira para uma propaganda que vai ao ar na TV e internet (olha aí como as mídias coexistem e precisamos olhar para isso). Ela é uma autoridade do nicho? Não necessariamente, mas o alcance é grande e tem uma outra questão que é o fascínio dela enquanto pessoa pública. Pode fazer sentido para a marca. Então, tudo bem, desde que não desfoque do posicionamento que aquela pessoa tem online. O que quero dizer é que é importante para as empresas entenderem o seu objetivo e enxergarem além dos números de seguidores.

Precisamos começar a olhar dados, mas também pensar se a história está sendo passado de forma conexa. No mais, acho que aos poucos vamos caminhando para uma dinâmica de marcas – influenciadores menos amadora, mas é um caminho bem longo, de construção de diálogo, observação e desconstrução de ideias muito “quadradas” e que não olham para o consumidor final como um agente que também detém poder e voz e quer sentir-se representado. É tempo de alinhar os discursos, a imagem e ideias que as marcas querem passar através desses influenciadores que são os que vão contar isso e ajudar na produção de sentido em torno da narrativa contada. Mais uma vez: PRECISA FAZER SENTIDO!

O debate sobre influenciadores não é atual e ao mesmo tempo continua bastante atual. Não é atual porque não é necessariamente recente, mas também é atual porque continua sendo relevante mesmo depois de anos de aprendizado. No Social Media Week São Paulo deste ano, por exemplo, além de chatbots e inteligência artificial, o outro tema frequente nas palestras é a questão dos influenciadores. Ou seja, o debate continua e é importante que continuemos a debater para que possamos continuar aprendendo uns com os outros. Recentemente um texto na Proxxima também desencadeou o debate sobre ROI, que resultou nesse texto do Ishida e nessa recomendação do grupo de pesquisa COM+ da USP.

E para quem acha que academia e mercado devem andar separados, “finalizo” esse post com um gancho para continuarmos o debate: compartilho aqui o 3º Encontro de Pesquisa do COM+, que reuniu profissionais do mercado e da academia para falar sobre influenciadores. Além de debaterem a partir do viés mercadológico, levando marketing, estratégia e resultados em consideração, discutiu-se também em diálogo com a academia, que tem muito a oferecer quando o assunto é influência e capital social. Vale a pena conferir:

O que aprendemos e como continuar estudando sobre métricas/BI, por Kaique Oliveira

[Texto escrito por Kaique Oliveira, cientista de dados na Focusnetworks e professor de marketing digital na FAAP]

Chegamos ao último artigo da minha série sobre Business Intelligence aplicado em agências de comunicação. Antes de disponibilizar o material completo da minha aula de métricas e monitoramento de mídias sociais, gostaria de compartilhar com vocês alguns comentários que recebi nos últimos artigos publicados no Insightee 🙂

“Vindos de um universo cada vez mais perdido em indicadores superficiais e não relacionados as regras de negócio, apenas focados em IV sem metas. É motivador ver textos com uma linha racional realmente voltada para o que realmente importa, o resultado do negócio.“
Marcio Ulpiano

“Acho incrível como ele consegue transformar o que pintam como um bicho de 7 cabeças em algo tão simples (e útil).“
Pedro Meirelles

“Realmente, o quanto a gente se perde vendo só números bonitos (que chamo de métricas de vaidade) e esquecemos o que realmente importa.“
Mabia Barros

“Manda mais Kaique no blog que tá pouco.“
Roberta Cardoso

“Tudo bem explicadinho. Obrigado Kaique.“
Welson Murici

Cada comentário foi um combustível para essa série de conteúdo que eu produzi ao longo de praticamente um mês. Se você ainda não leu os artigos, aproveite agora para conferir cada um deles e aplicar no seu cotidiano como profissional de Business Intelligence:

  1. O que os profissionais de BI de agências digitais podem aprender com o BI tradicional?
  2. Como utilizar indicadores de controle e verificação para medir a performance da sua campanha
  3. Como fazer um plano de métricas para campanhas

Por fim, abaixo está o material completo da aula de métricas e monitoramento que ministrei no curso de marketing digital na FAAP. Compartilhe este material com seus amigos e deixe seu comentário nesta publicação para que possamos conversar um pouco mais:

Esse material foi a inspiração para todo o conteúdo que eu compartilhei aqui no blog. Antes de finalizar a série – e para mostrar que o aprendizado não acaba quando termina -, gostaria de destacar alguns cursos e especialidades que fazem toda a diferença para quem deseja trabalhar como Analista de Dados, ou Analista de Business Intelligence.

Quando falamos de especialidades, temos um artigo completo feito pelo Pedro Meirelles que abrange não somente o Analista de BI, mas todas as profissões que estão dentro do contexto digital. Perceba que as palavras relatórios, mídia, Google Analytics e Excel estão em destaque na pesquisa. Não é por menos. Cerca de 70% da nossa rotina está dentro deste universo. Apesar de falarmos de dashboards personalizados, os relatórios em PPT ainda não saíram de moda.

Para ajudá-los nessa rotina e também a ter uma visão macro de possibilidades dentro de Business Intelligence, trouxe uma lista de cursos que eu considero extremamente relevante. Espero que seja útil para todos vocês que me acompanharam até aqui 🙂

1) MBA – ANÁLISE DE INTELIGÊNCIA DE NEGÓCIO – IGTI

2) CURSOS – DASHBOADS, ESTATÍSTICA, ETC – IGTI (R$19,90 mês com acesso ilimitado)

3) CURSOS – MÉTRICAS, MONITORAMENTO, ESTATÍSTICA – IBPAD

4) CURSO – MONITORAMENTO E MÉTRICAS – ATLAS MEDIA LAB

5) CURSO DE MARKETING DIGITAL – UDACITY

6) BOOTCAMP – POWER BI – DOT INSIGHT

7) MBA – CIÊNCIA DE DADOS – FIAP

8) CURSOS – MÉTRICAS – SÃO PAULO DIGITAL SCHOOL

9) PÓS – COMUNICAÇÃO E MARKETING DIGITAL – FAAP

10) CURSO – MARKETING DIGITAL – FUTURE LEARN

Todas as escolas e cursos que indiquei foram referências que recebi de amigos e a maioria delas tenho muita propriedade para indicar. Por exemplo, estou no final do meu MBA em Inteligência de Negócio no IGTI, ministro aulas na FAAP, fiz cursos pela Future Learn e estou matriculado no Bootcamp de Power BI.

De alguma forma, tenho ou tive contato com todas essas indicações que fiz nesta publicação. Se você também conhece alguma indicação que citei, ou possui outras recomendações, por favor, deixe nos comentários.

Por fim, para encerrar a minha participação, quero agradecer a todos que me acompanharam no Insightee. Qualquer dúvida, sugestão ou crítica, sintam-se à vontade para compartilharem nos comentários. Até breve!

Como fazer um plano de métricas para campanhas, por Kaique Oliveira

[Texto escrito por Kaique Oliveira, cientista de dados na Focusnetworks e professor de marketing digital na FAAP]

Chegamos ao terceiro artigo da minha série sobre Business Intelligence aplicado em agências digitais. Entendemos a origem do profissional de BI no primeiro artigo chamado de O que os profissionais de BI de agências digitais podem aprender com o BI tradicional? e em seguida começamos a aprofundar um pouco mais na rotina da profissão.

Antes de continuarmos, eu recomendo que você leia o segundo artigo da série que ensina Como utilizar os indicadores de controle e verificação para medir a performance da sua campanha. Basicamente entendemos neste artigo que indicadores de controle e verificação são importantes para definirmos as métricas que serão monitoradas na campanha.

Iniciaremos agora o nosso plano de métricas, dividido em algumas etapas que eu defini como: levantamento de informações, definição dos indicadores de controle e verificação, mapeamento dos sistemas de informação e especificação dos entregáveis.

Etapa 1. Levantamento de informações

Precisamos entender como extrair informações relevantes de um briefing. Eu irei apresentar neste momento um exemplo de perguntas que eu utilizo para fazer este levantamento que antecede a construção do meu plano de métricas. Você pode modificar de acordo com as suas necessidades. O importante é você conseguir ter uma visão completa do que irá acontecer na campanha e começar a traçar a estratégia de monitoramento com base nisso.

01. Qual é o contexto atual da marca?
Ex: A escola de inglês XYZ possui o ensino mais rápido do mercado.
02. Qual é o objetivo de marketing?
Ex: Aumentar as matrículas em 5% na capital de São Paulo.
03. Qual é o objetivo de comunicação?
Ex: Ser reconhecida pela qualidade no ensino de língua estrangeira.
04. Qual é o objetivo de mídia?
Ex: Gerar 10.000 leads por mês durante a campanha.
05. Qual é o público-alvo?
Ex: Jovens, de 18-22 anos, em busca de recolocação no mercado.
06. Qual é o período de veiculação?
Ex: 01 de julho de 2017 a 30 de setembro de 2017.
07. Quais são as propriedades?
Ex: Landing page (Teste AB).
08. Quais são as embaixadas (canais em plataformas que não pertencem à marca)?
Ex: Facebook.
09. Qual é a estratégia?
Ex: Destacar os diferenciais da escola.
10. Quais são os recursos?
Ex: R$250.000,00.

Estas informações geralmente estão presentes no briefing do projeto. Observe que as respostas no exemplo acima foram simples, porém eficientes. Com essas informações conseguiremos iniciar a segunda etapa do plano de métricas que é a definição dos indicadores da campanha.

Etapa 2. Definição dos indicadores de controle e verificação

Se você leu o artigo sobre indicadores que eu indiquei no início deste texto, provavelmente, ao passar pelo levantamento de informações, começou a mapear mentalmente as métricas mais relevantes do projeto.

Em uma primeira leitura do levantamento de informações da escola de inglês que exemplificamos conseguimos identificar que trata-se de uma campanha de geração de leads, o que impacta diretamente no negócio do cliente. Sendo assim, os indicadores de controle ficam mais evidentes. Em geral, eles estão dentro das respostas que trazem o objetivo de marketing e mídia da campanha. Se fossemos mapeá-los teríamos:

  • IC – Objetivo de marketing: Aumentar as matrículas em 5% na capital de São Paulo.
  • IC – Objetivo de mídia: Gerar 10.000 leads por mês durante a campanha.

Na maioria dos casos os indicadores de controle estarão dentro destas duas esferas, pois trata-se sempre de números e metas da campanha. Agora que chegamos nos ICs, precisamos identificar os IVs, ou seja, os indicadores de verificação.

Se pegarmos o investimento total da campanha e dividirmos por 3 meses (período da campanha), teremos um investimento estimado de R$83.333 por mês. Se formos um pouco mais longe e dividirmos este valor por 10.000 leads (meta mensal de leads), teremos um custo estimado de R$8,33 por lead. Podemos dizer então que, para atingir meu IC de 10.000 leads por mês, preciso investir R$83.333 mensais e manter o custo por lead dentro de R$8,33.

Assim chegamos nos IVs que irão garantir que atingimos a meta do IC que está dentro do objetivo de mídia da campanha – a geração de leads. Sendo assim, teremos:

  • IV – Investimento mensal: R$83.333 por mês
  • IV – Custo máximo por lead: R$8,33 por lead

Para garantir a obtenção do IC relacionado ao objetivo de marketing, precisamos garantir que os leads gerados pela campanha sejam qualificados. Ou seja, não basta entregar um monte de formulários para o seu cliente se ninguém fizer a matrícula. Assim, nesse caso, seria necessário definir com o cliente a margem máxima de perda entre os leads gerados e as matrículas para garantir o alcance da meta do objetivo de marketing.

Claro que o objetivo sempre é fazer com que este número seja o menor possível, porém, existem diversas variáveis que podem impactar neste resultado esperado. Vamos avançar agora para o mapeamento dos sistemas de informação.

Etapa 3. Mapeamento dos sistemas de informação

Se na etapa 2 respondemos a pergunta O QUE monitorar, na etapa 3 iremos responder COMO monitorar. Já sabemos quais métricas precisam ser entregues e monitoradas, então precisamos agora buscar as ferramentas que irão nos apoiar nessa extração de dados.

No exemplo citado basicamente extrairíamos os dados do Google Analytics, do Business Manager do Facebook e do Banco de dados da empresa. Pelo Business Manager do Facebook iremos monitorar o volume investido na campanha e o custo por lead. O Google Analytics irá nos ajudar no teste AB, citado no briefing, e no acompanhamento do histórico de usuários que preencheram o formulário na landing page. Por fim, o banco de dados do cliente irá nos ajudar no cálculo da perda entre o volume de leads gerados e o número de pessoas que realizaram a matrícula na escola.

Importante lembrar que todas as ferramentas exigem um set up antes da ativação. Não esqueça de incluir isso no seu plano de métricas.

Etapa 4. Especificação dos entregáveis

Provavelmente tudo ficará mais claro para você agora. Eu vou apresentar uma tabela final que representaria a especificação geral do plano de métricas para o exemplo da escola de inglês que trabalhamos neste texto.

A tabela acima está em um modelo resumido. Você pode incluir mais detalhes dentro de cada campo para deixar o plano mais claro para a sua equipe. Eu vou explicar abaixo como preencher cada coluna:

  • Indicador – Qual é o nome da métrica que você quer monitorar?
  • IC ou IV – A métrica representa que tipo de indicador?
  • Fonte – Onde está essa métrica? Qual é o sistema de informação?
  • Objetivo – O que você pretende monitorar com essa métrica?
  • Cálculo – Qual será o cálculo utilizado para chegar na métrica?
  • Meta – Qual é a meta que está atrelada a sua métrica?
  • Período – Qual é a periodicidade que você precisa reportar esses dados?

Esta metodologia, como disse no último artigo, eu trouxe da disciplina de monitoramento e melhoria contínua de processo. Foi muito útil entender isso para a minha rotina de análises no departamento de dados.

O seu plano de métricas não precisa se resumir a esta simples tabela. Você pode e deve incluir no documento todos os detalhes que forem necessários para garantir a qualidade do monitoramento da sua campanha. Inclusive, se você utiliza alguma ferramenta de dashboards, será essencial ter este plano completo para definir as métricas que seus gráficos devem representar, a origem de cada uma delas e a periodicidade de cada uma delas.

Nos próximos artigos eu irei ajudá-los com algumas indicações de ferramentas para construção de dashboards e cursos que eu considero relevantes da área de business intelligence. Se tiverem outras dúvidas, por favor, deixem nos comentários 🙂

Como utilizar os indicadores de controle e verificação para medir a performance da sua campanha, por Kaique Oliveira

[Texto escrito por Kaique Oliveira, cientista de dados na Focusnetworks e professor de marketing digital na FAAP]

Este é o segundo artigo da minha série sobre Business Intelligence aplicado em agências digitais. Em minha primeira contribuição eu falei sobre O que os profissionais de BI de agências digitais podem aprender com o BI tradicional?. Agora o objetivo é aprofundar um pouco mais nos temas que envolvem a rotina desta profissão em agências digitais.

Antes de falarmos de Indicadores de Controle e Indicadores de Verificação, precisamos resgatar uma preocupação do BI tradicional chamada: regra de negócio. Regra de negócio é o processo de entendimento das métricas que realmente são relevantes para a empresa. Quando falamos de indicadores em mídias sociais, sabemos que existe uma grande massa de números que podem ser analisados. Porém, a principal tarefa do profissional de BI é entender a relação desses indicadores com as metas de negócio. Podemos chamar este processo de entendimento da regra de negócio. Guarde este primeiro conceito, pois agora iremos um pouco mais a fundo neste tema.

Entende-se por Indicador de Controle (IC) o resultado final de um produto ou processo. Este conceito eu trouxe da matéria de monitoramento e melhoria continua de processo. É um conceito simples e que pode ser aplicado no entendimento da regra de negócio. Exemplo: O objetivo da campanha é aumentar em 10% o volume de vendas de um determinado produto no período de três meses. Neste caso, este deve ser o seu resultado final, ou seja, o seu IC. Talvez você tenha relacionado o IC com o conceito de KPI, certo? Você não está errado. O IC precisa ser o seu KPI. Quando for montar o seu dashboard de controle, este deve ser o indicador principal no painel.

Agora que entendemos o IC, vamos para o Indicador de Verificação (IV). O IV será a métrica de suporte que irá garantir o alcance do seu IC. Exemplo: A sua meta de vendas foi projetada com um custo médio por conversão no seu e-commerce, ou seja, o valor investido em mídia dividido pelo número total de vendas. Este custo médio por conversão será o seu IV. Quando houver uma anomalia no seu IC, você poderá fazer um drill down (aprofundamento) para entender quais foram os IVs que impactaram no seu resultado final.

  • IC (KPI): Aumentar em 10% o volume de vendas do produto X em três meses.
  • IV: Custo médio por conversão no e-commerce.

O exemplo acima tem relação com uma campanha de performance, que geralmente facilita o entendimento dos indicadores e regras de negócio, pois o objetivo na maioria das vezes está relacionado a vendas. Porém, quando falamos de campanhas de branding, que possuem como objetivo gerar a lembrança de marca, qual seria o melhor indicador de controle relacionado à regra de negócio? Se a sua resposta foi Brand Lift¹, está correta. Claro, está é uma métrica muito aplicada no digital, mas que pode impactar em outros indicadores de negócio, como o CLTV (Customer Lifetime Value), valor de marca, entre outros. Plataformas de mídia, como o Facebook e o Youtube, possuem pesquisas específicas de Brand Lift para campanhas de branding. Visualmente podemos então citar um novo exemplo de IC e IV para campanhas de branding:

  • IC (KPI): Alcançar um brand lift de no mínimo 30% das pessoas impactadas pela campanha no ano.
  • IV: Frequência média mensal da campanha.

Mostramos dois exemplos em que o IC estava relacionado à uma regra de negócio. Porém, essa mesma estrutura de definição de indicadores pode ser utilizada em casos em que não existe uma regra de negócio. Por exemplo, se você tiver uma meta de pageviews no seu portal, este pode ser o seu IC e o seu IV pode ser o Custo por Clique (CPC) da sua campanha de anúncios que direciona para o portal. Os IVs também podem ter como objetivo manter a qualidade do processo. Por exemplo, definir um tempo médio das visitas ao portal. Assim você garante a qualidade do volume de pessoas que acessarem o site.

Não existe um limite de ICs e IVs para um projeto. Mesmo assim, lembre-se que indicadores precisam ser eficientes. Quanto menos indicadores você tiver para monitorar, maior será a velocidade do seu trabalho. Pense sempre na qualidade do indicador e, sempre que possível, no impacto que ele tem no negócio do cliente.

Vale ressaltar que os ICs são as métricas que mais interessam para o nível executivo e gerencial de uma empresa. Ou seja, estes são os números que você precisa reportar com maior frequência para o seu cliente. Os IVs, geralmente, são controles internos da agência que podem ser monitorados por você (BI), ou por departamentos diferentes. Podemos utilizar como exemplo o nosso mapeamento de indicadores da campanha de performance. O custo médio por conversão no e-commerce pode ser um IV que será monitorado pelo departamento de mídia. Você, como profissional de BI, precisa garantir o resultado final, ou seja, o IC.

Ao utilizar este mapeamento de indicadores, você reduz os relatórios infinitos, centraliza o que é relevante em dashboards e distribui o monitoramento de performance da campanha com outros departamentos.

No próximo artigo eu irei trazer um modelo de plano de métricas para sua campanha. O plano de métricas inclui os indicadores que apresentei neste artigo e a visão completa do que será necessário para o monitoramento da performance do projeto.

¹Em termos simples, é a métrica que mede a lembrança da marca após a pessoa ser impactada por uma campanha.

O que os profissionais de BI de agências digitais podem aprender com o BI tradicional?, por Kaique Oliveira

[Texto escrito por Kaique Oliveira, cientista de dados na Focusnetworks e professor de marketing digital na FAAP]

Antes de tudo é importante saber, ou reforçar, que o profissional de BI nâo nasceu em agências moderninhas de comunicação. Este profissional existe há anos, desde os tempos que as empresas entenderam a importância da utilização de dados na tomada de decisão em um negócio.

Apenas para contextualizar, o BI tradicional geralmente é um projeto que tem como objetivo reunir todos os dados disponíveis em uma empresa, tratá-los e disponibilizá-los de forma estratégica para os responsáveis na organização. De forma compilada, o BI tradicional é uma ferramenta de apoio à tomada de decisão.

“Pode-se descrever Business Intelligence (BI) como o processo de recolha e tratamento de informação que apoiam a gestão de negocio ”

Gilberto Barbosa Mota

Imagine uma rede de lojas espalhada pelo Brasil. Pense como seria compilar todos os dados de vendas e esforços em marketing de todas essas lojas, em tempo real, e tomar uma decisão com base nessa informação. O BI tradicional foi e continua sendo a solução para casos como este, em que a empresa gera um volume alto de dados e precisa de velocidade nos movimentos estratégicos.

Agora que entendemos o BI tradicional, vamos voltar para o BI que nasceu em agências digitais. A primeira coisa que aprendemos com o modelo tradicional de BI é que o objetivo de todos os esforços é gerar inteligência para a tomada de decisão de negócio. Este sempre foi o motivo da existência de profissionais e soluções nesta área. Na prática é refletir se os dados entregues para o cliente realmente impactam no negócio dele.

Um segundo item tratado neste texto é a velocidade de entrega destas análises. Identifique os indicadores relevantes para o negócio do seu cliente e trabalhe em automatizar a visualização destes dados. Se eles são importantes, eles precisam ser controlados em tempo real.

A terceira lição do BI tradicional, também diluída nas outras, é a importância da atuação ao longo do processo e não somente no final. O BI não é o profissional que entrega relatórios finais na agência. O BI é o responsável por monitorar os indicadores de performance durante os projetos e ele deve identificar as causas de cada anomalia para corrigir rotas ou até mesmo melhorar o que está bom.

Se você trabalha nesta área, guarde bem essas lições. Não existe o BI antigo ou o novo BI, ambos precisam ser relevantes para o negócio do cliente.

Este foi o primeiro artigo da minha série de textos relacionados ao universo de Business Intelligence. Nos próximos eu irei tratar de outros temas mais específicos, como a diferença entre indicadores de controle e verificação e a relação deles com os KPIs, modelo para plano de métricas, ferramentas utilizadas no mercado e outros assuntos relevantes da área.

Planner Summit 2017: diversidade em pauta, por Anna Martinez

[Texto escrito por Anna Carolina Martinez, graduanda em Estudos de Mídia na UFF]

Nos dias 20 e 21 de maio aconteceu na cidade de São Paulo o Planner Summit, evento anual sobre planejamento realizado pela Media Education. A curadoria este ano ficou por conta de Gabi Terra (DM9DDB), que trouxe ao palco pesquisas, debates e palestras inspiradoras sobre um assunto bastante importante: diversidade. A proposta era mostrar como quebrar “paradigmas de dentro para fora e de fora para dentro dos clientes e das agências para ter marcas e campanhas mais verdadeiras e conectadas com o momento em que estamos vivendo”.

O evento, na verdade, acontece em dois dias: no primeiro, um workshop (que este ano contou com a própria curadora, Luiz Guimarães e Ricardo Sales); e, no segundo, as palestras. Embora não tenha participado na sexta-feira, tive a sorte de ganhar o ingresso para o segundo dia num sorteio feito pela organização do evento, e o que posso dizer é que segui o conselho que ouvi da Martha Gabriel em outro evento: “temos que aproveitar as oportunidades no momento em que elas aparecem”. Comprei a passagem de última hora (moro no RJ) e fui correndo pra São Paulo – de madrugada, sem nunca ter ido antes.

A minha proposta aqui, portanto, é compartilhar com vocês um pouco do que vi, junto a alguns tweets que rolaram durante o evento e outros conteúdos mais. Nesse sentido, já adianto que não sou a primeira: a Tuani Carvalho também fez um ótimo post sobre isso no Medium – que recomendo bastante a leitura. Aliás, foi um presente muito bom ter contato com trabalhos e profissionais incríveis. Incentivo quem quiser e puder ir a esses encontros porque faz toda a diferença poder ouvir as experiências e vivências dessas pessoas, é um aprendizado que vai muito além de um ppt bonitinho.

Nesta quinta edição do evento vários profissionais dividiram com a gente pesquisas e projetos com dados extremamente relevantes. Todos foram decididos a mostrar que é possível e necessário trabalhar a diversidade na propaganda (e na vida) de forma inteligente. E não só isso: para fazer diferença dentro e fora da agência basta querer dar o primeiro passo. Esse debate vai além de um tema “da moda”, e não aderir a essa mudança de cenário e consumidores não é só se manter num formato ultrapassado, é investir sem planejamento em um consumidor que muitas vezes sequer existe. É jogar dinheiro fora, de maneira irresponsável e perpetuando estereótipos e preconceitos.

Pude perceber que o evento se estruturou sob alguns prismas, se é que posso colocar desta forma: 1) representatividade na propaganda precisa ser mais inclusiva, “se não for por justiça que seja por inteligência” (Fala feita pelo Renato Meirelles do Instituto Locomotiva em sua apresentação sobre Diversidade na Propaganda); 2) atenção ao que é ativismo e o que é oportunismo; 3) a diversidade não pode ser da boca pra fora, tem que vir de dentro… O que está realmente sendo feito por essa mudança? Depois de muita reflexão e choques de realidade vem a cobrança de digerir tudo e o dever de começar a agir.

Por mais que o evento seja focado em publicidade foi muito rico pra mim como social media inserida num contexto de marketing digital. Somos profissionais que planejamos, criamos, lidamos com pessoas e propagamos conteúdo da mesma forma, fazemos parte do processo. Está na hora de abraçar a responsabilidade. Pois bem, respiremos por um instante. Antes de entrar nos detalhes das palestras, gostaria de agradecer novamente ao pessoal do Media Education pela oportunidade, e a Gabi Terra e Alexandre Formagio pelo evento. Não menos importante, ao Pedro por mais um convite de estar escrevendo para esse blog que tanto amo (<3). Agora sim, sigamos.

A primeira palestra foi a TODXS? – Uma análise da representatividade na publicidade brasileira com Isabel Aquino (Heads Propaganda). Em tempo, um parênteses: o uso do “x” como opção na linguagem inclusiva é bastante comum, mas ao mesmo tempo dificulta a leitura para algumas as pessoas. Fica uma dica sobre outras maneiras de usar as formas neutras. Ela apresentou a terceira onda da pesquisa feito pela Heads, uma análise feita a partir das propagandas exibidas na TV brasileira e os posts de marcas no Facebook, por uma semana – sendo repetido de seis em seis meses para poder acompanhar as possíveis mudanças. A pesquisa é bastante completa e os dados são os primeiros “tapas na cara” do dia.

E começamos com a seguinte pergunta:

Muita gente responde esse pergunta com um grande e sonoro: Não! Após a análise apresentada pela Heads ficou claro o porquê disso. A pesquisa mostra o quanto as estatísticas são alarmantes na divisão por gênero e o cenário fica muito mais crítico quando visto por raça. São analisados os personagens protagonistas, coadjuvantes, biotipos, estratégias usadas que reforçam estereótipos mas também alternativas pra mudar o cenário e por ações com empoderamento.

Só 7% dos negros são representados como protagonistas contra 83% de homens brancos, enquanto 12% de mulheres negras são protagonistas contra 84% de mulheres brancas. Os negros e outros tipos de representação só são lembrados quando é para retratar como sociedade é. E não para por ai…

Vimos estatísticas de reforço de estereótipos e o quanto mostram a presença de racismo, gordofobia, machismo, sexismo e tantos outros preconceitos ainda na publicidade. Abaixo estão algumas estratégias que são usadas que perpetuam essas desigualdades:

Já dá para perceber por que as pessoas não se veem representadas nas propagandas e quanto isso é problemático, não só pelo dinheiro que está sendo investido em uma imagem irreal mas também por perpetuar desigualdades. Para finalizar, Isabel mostra a comparação das ondas anteriores a essa. Por mais que o mercado esteja tentando se acertar com uma certa queda de conteúdos que reforçam estereótipos de gênero, ainda não houve aumento de comerciais que empoderam.

E qual a conclusão disso tudo? Temos como predominantes propagandas e posts que reforçam estereótipos e não representam a diversidade de raça e gênero da sociedade. A imagem principal utilizadas pelas marcas são homens, brancos e as mulheres seguem atrás com o mesmo perfil, pessoas negras são muito mal representadas, como protagonistas então são pouquíssimas. Isto quer dizer que temos muito trabalho pela frente. Vale ressaltar que a Heads foi a primeira agência a assinar o compromisso da ONU Mulheres para equidade de gênero. Não é pra enaltecer ninguém por tá sendo mais respeitoso mas é importante mostrar quando a proposta de mudança vai além do comercial.

A segunda palestra foi NOVOS CONSUMIDORES, NOVOS MERCADOS com Renato Meirelles (Instituto Locomotiva). Na minha humilde opinião foi uma das melhores se não a melhor palestra do dia. A pesquisa do Instituto Locomotiva apresentada por Renato foi muito feliz por vir logo após a fala de Isabel. Afinal todos nós já estávamos cientes do que estava acontecendo na propaganda, agora íamos saber que a situação é mais densa ainda.

Um trabalho de pesquisa extremamente bem feito, mostra que não só o cenário com o novo público consumidor e novos mercados estão ai e não sendo aproveitados, como mostra que as agências de publicidade precisam urgentemente rever seus conceitos, e se não for respeito e justiça social que seja por inteligência para não perder mais dinheiro. Esses são alguns dos dados apresentados:

  • 95% das pessoas não comprarão marcas ou produtos que, de alguma forma, não respeite a diversidade.
  • 79% afirmam que não aceitam calados qualquer tipo de preconceito na comunicação.
  • 85% apoiariam iniciativas de empresas que promovessem igualdade de oportunidades.
  • 67% das mulheres afirmam que as propagandas de TV mostram um padrão de beleza que é muito diferente da realidade brasileira
  • 61% concordam que as mulheres sentem-se frustradas quando não conseguem ter o corpo e a beleza das mulheres mostradas nas propagandas na TV.
  • 70% dos brasileiros afirmam que propagandas que ridicularizam homossexuais estão ultrapassadas. – Preconceito e homofobia definitivamente não são engraçados.

Mais um vez voltamos ao protagonismo negro que ainda é tratado como nicho, como apresentado anteriormente pela pesquisa da Heads.

Relembramos que são 130 Bilhões investidos em publicidade para isso:

Ainda preciso falar mais alguma coisa? Os dados já falam por si, esse modelo antigo de fazer publicidade está definitivamente ultrapassado. A mudança é questão de necessidade. Mas calma, ainda não acabamos:

Usar recorte de classes/ renda, para classificar o perfil do seu consumidor é falho.

É essa realidade que os planejadores e criadores de conteúdo se embasam? Pelo que vimos, não, né?! Agora, ousando ainda mais… Será que você está no recorte de classe que acredita fazer parte?

Esses equívocos simplesmente acontecem porque as agências estão lotadas por pessoas que fazem parte de uma “bolha social” e não pesquisam que o seu publico consumidor não é igual a si, não fazem parte do “seu quadrado” e não correspondem ao seu imaginário. As propagandas são reflexo de quem está no planejamento, criação e divulgação desses conteúdos.

Se pararmos pra pensar em todos esses dados apresentados, fica evidente que não dá mais, e nem é inteligente ignorar a maior parte da população brasileira. Para fechar, fica mais um ensinamento trazido por Renato: o que é óbvio pra você pode não ser obvio para o outro. Ainda precisa ter muita pesquisa, ouvir o outro, atentar ao ponto de vista de quem consome e não mais fazer conteúdo embasado em achismos e certezas que ficam restritas a um público.

Logo em seguida veio o primeiro painel do dia: E o que você está fazendo sobre isso? Os participantes eram Neivia Justa (Johnson & Johnson), Fernanda de Lamare (Wieden+Kennedy), Flávia Spinelli (Mcgarrybowen) e Ian Black (New Vegas) com a mediação de Gabi Terra. Como já dissemos, para a mudança acontecer, tem que começar de dentro, na sua agência, no seu trabalho, em você e no seu discurso. E esse painel tem esse intuito de mostrar o que esses líderes estão promovendo em seus ambientes de trabalho.

As estratégias são inúmeras: Neivia Justa apresentou que desde o início da empresa a Johnson & Johnsons é voltada para o empoderamento feminino, inclusive tendo o acordo com a ONU e núcleos de mulheres para discutir as necessidades; foram apresentados projetos de inclusão trans num acordo com o Jovem Aprendiz pela Flávia Spinelli (Mcgarrybowen); o Ian Black da New Vegas falou sobre a sorte de ter uma equipe mista, seu ativismo negro e que promove cursos voltados para as “minorias” – deu exemplos de cursos exclusivamente para negros e da possibilidade de abrir turmas para mãe solos; e Fernanda de Lamare (Wieden+Kennedy) também falou sobre os projetos de inclusão social na empresa.

Clique na imagem para assistir um trecho do debate

Sem dúvida o debate foi interessante, pois são ações que já estão sendo postas em prática. É o início da mudança. Agora, mudando a perspectiva: quantas pessoas negras, gays, trans, pobres, deficientes existem no seu ambiente de trabalho? Tem algo que você pode fazer para mudar essa realidade? Se sim, faça.

A última apresentação fechando o turno da manhã foi da Letícia Milião da Polis Consulting com Dados ajudando a decidir suas estratégias. A palestra basicamente reforçou que o planejamento precisa ser embasado por informações consistentes. E reforçou a importância do monitoramento não só para decidir a estratégia, como também entender cluster e oportunidades. Usemos os dados ao nosso favor, afinal, como disse a Letícia: “Se você não sabe o que esperar… Qualquer resultado é satisfatório”.

Logo depois da pausa para o almoço voltamos com mais atenção e calma no coração (sem fome) para a próxima palestra: Skol e diversidade: Como evoluir uma marca para uma postura mais democrática e contemporânea com Daniel Feitoza (AMBEV). A proposta da apresentação era mostrar o reposicionamento da marca não só adotando um novo discurso mas entendendo e aceitando seu passado para lidar com a transição e com o público. Afinal, não é porque a Skol decidiu vender diversidade que o consumidor vai esquecer das suas campanhas antigas, que na época davam um bom retorno, mas hoje – felizmente – não é mais assim.

Eu confesso que assisti e fiquei com um certo pé atrás. Por mais que ele tenha se esforçado em mostrar todo o processo com ações da marca adotando o novo posicionamento é difícil acreditar que de uma hora para a outra uma empresa extremamente machista mudaria de valores, ainda mais “partindo do presidente” como foi colocado pelo Daniel. Aliás, fiquei com essa dúvida: o presidente mudou junto com o reposicionamento da marca? Enfim, acho que só o tempo poderá nos dizer até onde é verdadeira a mudança da Skol.

Seja como for, é válido ressaltar o quanto é positivo que marcas com o alcance da Skol trabalhe o respeito e diversidade em suas ações. É uma forma de expandir a discussão, naturalizar a diversidade e ser um meio para ampliar falas de minorias que há tempos estão sendo ditas mas não tinham a devida atenção até então. Mas Daniel que me perdoe, essa história ainda não está convencendo… Gostaria de, inclusive, fazer alguns adendos nessa parte já que eu já estava fazendo alguns estudos paralelos sobre o tema.

Antes de mais nada a Skol fortalecia um estilo de vida em todas as suas campanhas e ações anteriores de caráter machista, sexista, reproduzindo o velho discurso do jovem homem que aproveita a vida zoando, bebendo cerveja e acha muito legal a objetificação de mulheres. Ok, pausa. Vocês já disseram que isso ficou no passado e acho ótimo, inclusive o trabalho de vocês para mudar essa imagem está sendo bem forte não só nas campanhas como no trabalho de social media nas fanpages, admiro isso.

“Curiosamente”, vocês decidiram se reposicionar depois de serem acusados de apologia ao estupro e serem obrigados a tirar a campanha de carnaval “Esqueci o não” das ruas. Isso foi em 2015, ano em que o feminismo e pautas associadas a igualdade de gênero estavam em seu ápice (na internet) – e isso sequer foi comentado como um dos motivos da mudança. Como uma empresa poderia ficar com uma imagem tão negativa com o seu público alvo? Ai começam os esforços… Novo slogan, nova linguagem, múltiplos eventos associados as ‘minorias’, promoção da diversidade e #RespeitoIsOn.

O que eu quero dizer com isso tudo é que acho maravilhoso o reposicionamento, mas me incomodou muito esse discurso/defesa de mudança radical como se tivesse latente na empresa e de uma hora pra outra ela veio à tona. Vocês foram pressionados, não aconteceu naturalmente, vocês não mudaram porque o seu presidente é mais humano… Pode até ser, mas isso não era levado em conta enquanto o perfil machista dava lucro.

Lucro é um bom ponto pra gente falar, já que o próprio Daniel citou que as vendas melhoraram bastante após o reposicionamento – o que é compreensível pelo cenário que já vimos anteriormente com as outras palestras. Mas é o que o Ian Black levantou na discussão do primeiro painel: como está esse reposicionamento dentro da empresa? Gostaria que ainda tivesse lá para ter participado com essa resposta.

Agora que já fiz minhas intervenções posso dizer que espero muito que a Skol continue nesse caminho, e parabenizo principalmente pelas campanhas “Reposter” e “Skolors” que foram feitas em parceria com pessoas que tem autoridade sobre o assunto. No mais, ficaremos acompanhando as novidades.

A segunda palestra da parte da tarde foi Trabalhar com o coração: viabilizando um projeto que nasceu para viver com Gustavo Rosa e Juliana Fava, ambos da Questto|NóA proposta do projeto com esse documentário é um tanto polêmica: falar com os homens sobre igualdade de gênero. Eles entraram em parceria com a ONU Mulheres e Papo de Homem para trabalharem juntos, e assim realizar e viabilizar esta pesquisa de abrangência nacional.

Na apresentação, mostraram quais os desafios e dificuldades que encontraram para que o projeto saísse do papel: os meses de pesquisa e estudo se aprofundando no tema e a busca por fontes diversas; o tema central ser o “calcanhar de Aquiles”: “de que forma pensar em falar com homens sobre igualdade de gênero sem colocá-los no lugar de vítima?”; a metodologia usada; e o percurso até encontrarem parceiros que os ajudassem.

Achei que a palestra focou mais nos “bastidores” – metodologia, processo com parceiros e resultados – do que no conteúdo do documentário. Para quem tem um primeiro contato, sem referência do que realmente se trata, isso não é tão bom. De qualquer forma, após a palestra eu assisti para entender melhor a proposta – e para poder escrever aqui com menos dúvidas.

Pois bem, quando eles disseram que queriam ouvir os homens pra falar sobre feminismo e igualdade de gênero eu quase tive um negócio na cadeira, mas conforme foram explicando fui ficando mais calma. A ideia foi utilizar as parcerias como meios para dialogar com as pessoas, isso é, o Papo de Homem conversar com os meninos sobre as pressões impostas socialmente na construção do que é “ser homem”, junto com a ONU mulheres que apoia a entrada de homens para o debate de igualdade de gênero – como com o projeto #HeforShe.

Essas experiências gravadas somadas a diversas entrevistas com profissionais convidados e pessoas pelas ruas, pesquisas quantitativas, e apresentações bastante didáticas dos múltiplos processos sociais para a construção de imaginário e identidade vão dando forma ao documentário.

Acho uma proposta interessante e válido o diálogo com os meninos. Essa abertura para falar sobre gênero não é fácil. A grande maioria segue a lógica patriarcal de como agir em sociedade e qual papel deve assumir. Muitos já tem isso tão naturalizado que reproduzem essas lógicas e comportamentos e não raramente diminuem as mulheres de inúmeras formas. Fazemos parte de um sistema machista e sexista em que muitos meninos crescem condicionados e ensinados a oprimir e reproduzir violências, e cabe a todos nós mudar isso ensinando o contrário: valores como respeito e igualdade.

Se esse documentário conseguir promover a abertura real de um diálogo pra melhorar a equidade será um ganho imenso para todos nós. Achei importante a dinâmica feita pelo pessoal do Papo de Homem nas escolas mas ao mesmo tempo me pergunto se essa metodologia não pode contribuir para um silenciamento da fala de uma mulher neste processo. Talvez seja uma forma deles se sentirem mais à vontade, mas de qualquer forma é um receio da minha parte.

É muito tênue falar sobre a necessidade de uma ‘desconstrução’ do que é ser homem sem tocar no que sofremos com esse sistema. Não reproduzir a lógica imposta pra eles não necessariamente faz com que tenham noção da gravidade de suas ações já naturalizadas e não continuem agindo com violência com as mulheres – nesse caso vai muito além da violência física. Por isso é fundamental a participação de mulheres neste processo.

Em um “mundo ideal” (ou do meu imaginário), quando o documentário já tivesse presente nas escolas, os relatos poderiam não só vir das participantes mas também de mulheres do ciclo dessas pessoas – mães, amigas, irmãs, avós…- talvez a familiaridade junto ao novo possa ser uma boa alternativa para que os meninos se sintam mais tocados e abertos a mudança.

Seja como for, espero que esse projeto abra uma brecha para torná-los cientes dos privilégios sociais que tem; ensiná-los a dar valor, importância e respeito ao lugar de fala e vivência de mulheres, e que cada vez menos reproduzam lógicas machistas. O projeto já tem tudo a seu favor vendo os resultados que alcançaram:

Agora seguiremos para o segundo painel do evento: Eu não sou igual a você. Os participantes dessa vez foram Verônica Merege e Juliana Matheus (R/GA), Rita Romão (Por Mais Turbantes Nas Ruas), Gustavo Otto (NBS) e Ana Cortat (Hybrid).

 

O objetivo desse painel era mostrar que a publicidade brasileira não reflete seu próprio povo. E isso nada mais é do que um reflexo da falta de diversidade nas equipes.

Adorei essa conversa, todos os participantes foram unânimes em dizer o quanto a realidade das agências é predominantemente fechada a diversidade, como existe a dificuldade de muitos planejadores e criadores em verem além da bolha que pertencem e quanto isso influencia no resultado final das propagandas.

E a única saída para melhorar esse cenário é trazer diversidade para ocupar esses espaços. Assim, vai chegar um momento em que o diferente vai ser naturalizado. E não é só colocar pessoas negras, gays, trans, ou qualquer “minoria” que seja só pra ocupar vaga e dizer que sua equipe é diversa ou para falar só quando o assunto for minoria, é dar espaço/oportunidade, trocar, construir junto.

Gustavo Otto compartilhou os preconceitos que passou dentro do ambiente de trabalho, e que hoje ele não se importa mais com gente que se incomoda pelo jeito como ele é e ou por como se veste. Acho ótimo que tenha conseguido chegar a esse ponto – aliás, amei sua saia prateada maravilhosa – mas quantas pessoas com trabalhos incríveis vão ter seus espaços restritos, engolir preconceitos e aprender a ignorar na marra pra que parem de pôr os achismos e preconceitos a frente?

Rita Romão também comentou a respeito, disse que é muito mais fácil você se sentir a vontade pra ser você mesmo num lugar onde existam outras pessoas com essa liberdade. Apresentou o projeto Por Mais Turbantes Nas Ruas e como ele tem um papel importante, ajudando a empoderar meninas negras, fortalecer essa identidade, além de promover um lindo símbolo de resistência.

Ela tinha uma energia contagiante, a mais falante, alegre e com ideias brilhantes – não digo que queria colocar ela num potinho de tão maravilhosa porque o mundo inteiro merece ver e ouvir essa menina. O que mais me tocou foi quando ela disse que tudo que alguém precisa é de uma oportunidade, o que mais tem por ai é gente boa demais sem espaço pra mostrar isso. Oportunidades como a que ela teve para estar ali no evento dividindo com a gente um pouco do seu trabalho e experiência – e que eu tive para poder contar isso tudo pra vocês.

As meninas Verônica Merege e Juliana Matheus – que estiveram aqui no blog na série Profissão Social Media – comentaram sobre como tentam fazer a diferença dividindo conhecimento, indicando contatos e ajudando como podem com o Jovens Planners. Eu andei vendo e parece ser bem interessante. E ela, Ana Cortat, apesar de muitos posicionamentos incríveis que reforçaram a ideia da necessidade da diversidade dentro das agências, uma das falas mais significativas para a discussão ao meu ver foi essa:

Por mais que já seja algo positivo um debate desse tipo e uma mudança visível em alguns posicionamentos de marcas e suas campanhas, o tema só vai tá sendo levado realmente a sério quando sair de um setor e virar pauta entre os CEOS. Enquanto a mentalidade não mudar de dentro pra fora, ficará difícil acreditar numa mudança real e não achar que é só mais uma galera se aproveitando do tema que está em alta.

Foi um debate muito rico e de muito aprendizado, espero que alguém disponibilize algum vídeo para poder dividir aqui.

Tá acabando, agora a penúltima palestra: Basta! As marcas precisam se posicionar! Caio Baptista da Mutato veio dividir a experiência de participar da campanha de reposicionamento da AVON e para mostrar a necessidade de um posicionamento das marcas. A publicidade contribui muito para a construção de imaginário, reforça valores e precisa ser mais responsável pelo que produz. Não dá mais para ficar se preocupando com as oposições e xingamentos.

Ele trouxe vários exemplos de campanha de reposicionamento, em uma delas, #MãeSemCulpa,  a protagonista foi a mãe dele falando sobre filhos e sexualidade, e quanta gente mandou mensagem para ela emocionado com a história e como ela agiu na situação. Outras como Máscara Big & Define apresenta: #OQueTeDefine com Karol Conka, Mc Carol e LAY , e Dona Dessa Beleza que tem a participação de influenciadoras fora do “padrão” para mostrar que beleza não é uma só, dentre outros exemplo. Como se já não tivesse lacrando o suficiente, ainda trouxe o Gustavo Bonfiglioli para falar um pouquinho como foi participar da campanha BB Cream Color Trend e a Democracia da Pele.

E pra fechar esse evento maravilhoso, André Chaves do Papel&Caneta levou a palestra O PODER DO COLETIVO PARA MUDAR O MUNDO. Ele apresenta o Papel&Caneta, uma empresa colaborativa e sem fins lucrativos, onde líderes de várias partes do mundo estavam dispostos a trabalhar juntos e buscar mudanças positivas em diversas causas.

Contou como foi sua jornada em NY, buscando ver o que estava acontecendo de novo no mercado e correndo atrás desses novos colaboradores. O primeiro projeto de sucesso, inclusive que o proporcionou indicação para Cannes, foi uma mobilização para ajudar a comunidade trans negra.

Além de citar outros projetos que já fez, André, falou um pouco sobre os líderes – todos premiados em Cannes, por sinal – e seus trabalhos para ajudar jovens. Alguns deles foram 25 Forty, sobre a diversidade na indústria; e Venice pop up park.

Não sei se é porque não sou publicitária mas fiquei muito mais interessada na parte em que ele contou sobre os projetos dessas pessoas do que quantos prêmios elas receberam. Acho que existem muitos trabalhos feitos de forma colaborativa que merecem atenção por trazerem valores e mudanças positivas, principalmente, se tiver muita gente diferente para trocar e somar aos projetos, envolvidos de fato pela causa.

Espero que tenha conseguido passar um pouco do que foi esse evento e mostrar como pode ser rico e importante participar desses encontros. Tive a honra de conhecer profissionais maravilhosos, seus trabalhos e suas experiências, além de ter contato com outras pessoas da área que tem tanto a agregar quanto os palestrantes que estavam no palco. Só tenho a agradecer, a todos. Até a próxima!

Marcha das Mulheres e mobilização online: debate, união e resistências, por Anna Martinez

[Texto escrito por Anna Carolina Martinez, graduanda em Estudos de Mídia na UFF]

A Marcha das Mulheres chegou até mim já pronta, articulada e no ápice de sua repercussão. No dia, abri o Facebook e me deparei com muitas imagens, vídeos e notícias sendo compartilhadas, e as inúmeras marchas em defesa aos direitos das mulheres e minorias que enchiam a minha timeline também me encheram de novas esperanças – parece clichê, mas não é. O feminismo é um tema bastante importante para mim, e ter recebido o convite para pensar nesta mobilização em que ele é central com o olhar das mídias sociais foi, sem dúvida, um presente.

No entanto, até começar a pesquisar para esse post, não tinha percebido o processo que já acontecia antes mesmo da Marcha ir para as ruas. Toda a estruturação desse movimento sócio-político já eram visíveis: discussões, resistências, debates, e articulação de uma ação-resposta mais significativa já apareciam nas redes sociais desde as eleições presidenciais dos EUA. Vejo a Marcha das Mulheres como parte de um longo processo de resistência, e gostaria de focar na importância da internet nisso tudo. Esta pode ser uma ferramenta bastante útil para a percepção de mudanças culturais, políticas e sociais antes mesmo de virem a tona no ambiente offline.

Uma breve retrospectiva pré-Marcha

Em novembro de 2016, Donald Trump venceu a eleição norte-americana contra Hillary Clinton ganhando não apenas poder político, mas um poder simbólico enorme que reforça seus valores e discursos. O problema é que estamos falando de um homem envolvido em várias polêmicas, com declarações racistas, xenófobas e sexistas, e que não tem problema nenhum em expor isso em entrevistas e campanhas. Por mais que ele deixasse claro não se importar com as pessoas que agredia com suas declarações, essas pessoas se incomodaram e utilizaram dos recursos que tinham para responder.

Os sites de redes sociais se tornaram um intenso “campo de batalhas”. Cada discurso desrespeitoso de Trump gerava uma chuva de mobilizações, respostas indignadas e revolta. Acredito que, às vezes, o opressor ‘ajuda’ a motivar a união dos grupos oprimidos a lutar, e foi exatamente isso que aconteceu. No dia seguinte da posse do novo presidente, mais de 3 milhões de pessoas, no mundo, foram para as ruas lutar por seus direitos, acontecia a Marcha das Mulheres.

Marcha(s) das Mulheres

No dia 21 de janeiro de 2017, as “Marcha das Mulheres” lotaram as ruas de várias cidades no mundo lutando pela voz que estavam tentando calar. A multidão com gorros de lã rosa com duas pontas era composta por mulheres, homens, e crianças. Juntos somavam mais de 500 mil manifestantes só na capital Americana – 200 mil a mais que os presentes no Capitólio e no National Mall para a posse do Presidente Trump. De acordo com os organizadores da Marcha, havia mais de 3 milhões de manifestantes em várias cidades dos Estados Unidos e também em outros países. Segundo o jornal Folha de São Paulo, na Europa, foram realizadas marchas em Londres, Berlim, Paris, Roma, Viena, Genebra e Amsterdã.

Na capital britânica, manifestantes relataram a participação de mais de 100 mil pessoas. Quênia e África do Sul representaram o continente com centenas de pessoas cantando músicas de protesto. E ainda houve passeatas em Tóquio, Sidney, Nova Zelândia, Rio de Janeiro e – pasmem – Antártica! Ao todo, estima-se que foram mais de 600 Marchas das Mulheres no mundo. O objetivo delas eram “o mesmo”: defender os direitos das mulheres e das minorias. Era uma reação aos comentários misóginos feitos por Trump, além das promessas de medidas contra o direito ao aborto, discursos de racismo, xenofobia, acusações de assédios e envolvimento em inúmeras polêmicas.

Falando em reação aos comentários de Trump, gostaria de apresentar uma curiosidade sobre símbolo das marchas: o gorro cor-de-rosa em formato de orelha de gatinho faz parte do projeto “Pussyhat Project” (Projeto ‘chapéu de buceta’ – tradução livre – é um trocadilho, pois a palavra em inglês “pussy” tanto pode significar gatinho quanto a forma pejorativa de se referir a vagina.). Trata-se de uma campanha a qual incentivava as mulheres a tricotarem gorros de lã cor de rosa com duas pontas para usarem ou distribuírem no dia da passeata. Os gorros fazem referência ao vídeo vazado de Trump no qual ele aparece falando “Quando você é uma estrela, elas te deixam fazer qualquer coisa. Pegue-as pela buceta”.

Por mais que a frase acima tenha indignado muita gente, nem todas puderam estar nas ruas somando à multidão. Felizmente isso não foi impedimento para acompanhar e participar das manifestações. As inúmeras marchas foram compartilhadas e transmitidas ao vivo no Youtube e nas mídias sociais, tanto por manifestantes quanto pela imprensa – e me atrevo a dizer, inclusive, que isso permitiu que a resistência das ruas e de rede atuassem juntas, aumentando o alcance de pessoas na mobilização. A própria Hillary Clinton foi uma que se aproveitou dessa extensão e tuitou agradecendo e apoiando a Marcha.

Além dela, outras personalidades e famosos se posicionaram, estiveram nas manifestações, postaram fotos, frases de apoio, e discursaram: Gloria Steinem, Angela Davis, Madonna, Scarlet Johanssen, Miley Cyrus, Rihanna, Alicia Keys, Cher, Helen Mirren, Katty Perry, Kristin Stewart, Julianne Moore, Michael Moore, Amy Schumer, Chimamanda Ngozi Adichie, além de inúmeros jornalistas e os demais presentes. Dentre todos os discursos feitos, gostaria de dar destaque a uma fala em Washington feita por uma das feministas mais importantes da história, Angela Davis:

“Esta é uma Marcha das Mulheres e ela representa a promessa de um feminismo contra o pernicioso poder da violência do Estado. E um feminismo inclusivo e interseccional que convoca todos nós a resistência contra o racismo, a islamofobia, ao anti-semitismo, a misoginia e a exploração capitalista.”

Particularmente, acredito que essas palavras ilustram muito bem a essência do movimento. O caráter inclusivo e interseccional faz com que vozes com diferentes pautas, vivências, e que por muitas vezes são silenciadas possam falar. Demonstra que a multidão está ali por um propósito: a luta por direitos, a busca por mudanças socio-políticas positivas para as mulheres, agregar mais pessoas à luta, e um posicionamento contra o discurso do atual presidente – na entrevista em que as organizadoras da Marcha em Idaho fizeram elas falam exatamente sobre isso. Não diferente do que um regime opressor pede, ela encerra seu discurso da seguinte maneira:

“Os próximos 1459 dias da gestão Trump serão 1459 dias de resistência: Resistência nas ruas, nas escolas, no trabalho, resistência em nossa arte e em nossa música.”

Feminismo e a importância do debate online

Após um melhor entendimento do que foi a manifestação e seus propósitos, voltemos ao foco deste post: o papel da internet nesse processo. Através dos sites de redes sociais, principalmente, é possível identificar quais são os assuntos mais relevantes e como eles tão sendo abordados, – quais são as hashtags que estão sendo mais usadas no Twitter, qual o tema mais pesquisado no Google, por exemplo – e  a partir disso, analisar  se as interações das pessoas estão sendo relevantes a ponto de gerar questionamentos sobre estruturas políticas, culturais e sociais. Utilizo da frase de Richard Rogers – em tradução livre – para me expressar melhor:

“A questão não é mais saber o quanto da sociedade e da cultura está online, mas sim como diagnosticar mudanças culturais e condições da sociedade através da internet.”

O acompanhamento dessas mudanças permite esse diagnóstico, e assim foi feito com a Marcha, diversos sites fizeram pesquisas monitorando o processo para entender melhor a situação – alguns deles foram Wired e Crimson Hexagon. E o que pude notar desse cenário é que o espaço que o feminismo ganhou nesses últimos anos fez toda a diferença para que essa marcha tivesse acontecido. Mesmo com várias outras pautas tão importantes quanto, o feminismo foi o anfitrião da Marcha das Mulheres, por isso daremos uma atenção especial a ele nesse momento – vale ressaltar que o feminismo não é um movimento homogêneo, pelo contrário, tem várias vertentes, o feminismo negro; interseccional; liberal; radical; marxista; são alguns exemplos.

O tema começou a ter destaque nas redes sociais no final de 2014, mas seu ápice aconteceu em 2015 – é possível ver esse crescimento no infográfico feito pela ONG Think Olga. Foi o ano de youtubers tratarem sobre o assunto, campanhas, hashtags, denúncias e respostas espertas a machismos em geral pipocarem na internet. Assim, o movimento se popularizou na rede e mostrou o quanto o debate era necessário e as situações estavam mais presentes do que imaginávamos. A internet propiciou que sites de redes sociais se tornassem espaços de reflexão e disputas simbólico-discursivas.

Em 2015, com todas essas ações e muitas identificações com os casos, começaram a surgir grupos para discutir e tentar entender o que é feminismo, falar sobre as situações passadas, tirar suas dúvidas, expor suas histórias, ouvir, apoiar e acolher de outras, combater as opressões. De alguma forma, essa crescente deu força para questões antes deixadas de lado viessem a tona, as mulheres buscassem saber mais sobre seus direitos e, juntas, fossem se respeitando mais e lutando por igualdade. Começava a se estruturar um movimento social.

“seria possível compreender uma ação online coletiva – que tenha como característica o ímpeto de transformação no âmbito social e não unicamente histórico – como parte ou o próprio movimento social. Por esse ângulo, seria aplicável o termo “movimento social” em ações coletivas na Internet que marcam o recente revigoramento do movimento feminista.” (SANTINI; TERRA; ALMEIDA, 2016)

Uma dessas ações coletivas bastante difundida foi a campanha #primeiroassedio. A #primeiroassedio foi criada pela própria ONG, após diversos comentários maldosos e fetichizados sobre uma participante do programa Master Chef Junior. A campanha incentivava mulheres a denunciar seus primeiros casos de abusos e/ou assédio. Este é um trecho da pesquisa que a ONG Think Olga fez em 2015 sobre ela:

“De acordo com o Google Trends, a hashtag #primeiroassedio, por exemplo, teve mais de 11 milhões de buscas relacionadas no buscador. Algumas procuravam saber o que era assédio, como ele acontece no trabalho, etc. Informações poderosas e transformadoras, ao alcance de um clique, encontradas pelo incentivo de uma simples hashtag.”

Eu mesma vi muita gente amiga expondo suas histórias com essa campanha, e o que eu posso te dar certeza é que muitas delas nunca tinham falado abertamente sobre isso. O que isso mostra é que o silenciamento da vítima  – seja por medo, vergonha, nojo, não importa – é uma realidade e essas campanhas serviram como uma forma de incentivar a falar. Foi algo que mexeu tanto com todos que tinham acesso a situação que o debate se tornou necessário, tanto para quem contava seu relato, quanto para quem lia. O assunto tabu acabou se tornando o mais falado, dentro e fora da internet.

Apesar da grande repercussão essa foi só uma das muitas campanhas que tiveram, o momento ficou propício e com isso surgiram várias outras denúncias e debates relacionados a assédios e violências contra a mulher. Infelizmente, foi fácil perceber que muitas mulheres sequer sabiam que o que passavam era um tipo de agressão ou assédio de tão naturalizado o machismo diário. Por outro lado, foi o momento que mais houve mulher querendo se ajudar, saber dos seus direitos, debatendo sobre os temas e se empoderando.

Não era de se espantar que da mesma forma que tiveram apoiadores, muitos se manifestaram contra as campanhas e aos relatos. Era comum ver falas como “ativismo de sofá”, “mimimi’, “modinha”, e “não vai dar em nada”. No entanto, o que essas pessoas não pararam para pensar é que política – em seu sentido mais amplo – é configurada a partir de disputas discursivas, é construção simbólica. Complementando o pensamento:

“Decisões políticas, sejam elas na forma de legislação ou políticas públicas, não são tomadas da noite para o dia, e necessitam, muitas vezes, de mobilização, pressão popular e debate público para sair do papel.” (FREIRE, 2016)

Por isso o debate público é tão importante, é um primeiro passo para que haja mudanças positivas. E, pelo mesmo motivo, tem muita gente não quer o debate. Não é todo mundo que tem interesse que esses assuntos venham à tona – o feminismo ainda incomoda e não é à toa: aciona gatilhos, remexe as feridas, gera revolta entre opressores e também entre os próprios oprimidos. Isso explica porque sempre haverá contra-ataque. Não é incomum responderem com ameaças, repressão e tentativas de silenciamento – é estratégico.

Agora que já está ciente disso, faço um apelo: se você que está lendo falou alguma dessas frases e não tinha a intenção de prejudicar ninguém, por favor, preste atenção – além de não estar incentivando o debate sobre o tema, essas falas desmerecem a vivência da vítima e propagam o silenciamento. Por mais que não concorde ou entenda, respeite o momento de fala dessas pessoas. Esses muitos debates e campanhas dão resultados, vide a Marcha.

Mudanças significativas no período dos debates coletivos acerca do feminismo

Antes dos exemplos gostaria de começar apresentando uma pesquisa que acredito ser bastante pertinente para nós que estamos tratando sobre um movimento de luta por mudanças políticas, sociais e culturais. O  “Mapa da violência 2015”, reuniu dados a respeito do Homicídio de Mulheres no Brasil –  feminicídio. O autor, Julio Waiselfisz, defende em seu texto que a normalidade da violência contra a mulher no horizonte cultural do patriarcalismo justifica, de certa forma “autoriza” que o homem pratique essa violência, com a finalidade de punir e corrigir comportamentos femininos que transgridem o papel esperado de mãe, de esposa e de dona de casa. Essa mesma “lógica justificadora” é utilizada quando a violência parte de desconhecidos.

Em outras palavras, a naturalização das violências sofridas pela mulher na sociedade que vivemos é cultural. Estruturalmente o homem se sente confortável e autorizado para agredir e reprimir por não estar ‘do seu gosto’. Por isso é tão comum ver incômodo com discursos que buscam essa mudança, e repressão aos movimentos como o feminismo que lutam por direitos e para mudar essa estatística. A fala de Waiselfisz (2015) só enfatiza a importância dos debates e das mobilizações tanto online quanto offline. Primeiro porque, como vimos, o debate online pode ser um primeiro passo para mudanças ‘reais’, e segundo porque as violências são visíveis nos dois meios.

Já que anteriormente falamos como foi possível perceber a condição de silenciamento das vítimas de violência através campanhas online, a primeira mudança significativa que quero dar atenção, a quebra da “espiral do silêncio”.

“Segundo Noelle-Nuemann (2005), quando um indivíduo silenciado encontra “parceiros verdadeiros” que compartilham de sua experiência ou de sua opinião, são capazes de resistir à pressão do grupo e escapar do medo do isolamento.” (SANTINI; TERRA; ALMEIDA, 2016)

A quebra da “espiral do silêncio” com a campanha online só foi possível, portanto, porque a iniciativa da ONG com a hastag inspirou mulheres a falar, se sensibilizar, contar as experiências, em muitos casos se expor, ler e se identificar com as falas de outras e isso instigou a todos. Normalmente, nos perfis de redes sociais estão presentes vários tipos de laços afetivos, familiares, amigos, colegas, às vezes, até mesmo o agressor, e que não esperavam se deparar com um relato de alguém “conhecido”, muito menos quando vê a timeline cheia de casos. Esse choque de realidade acabou provocando uma grande repercussão, e tornou possível que o movimento se espalhasse amplamente na rede. Surge aí uma ‘campanha-meme’:

Mais do que apenas campanhas virais, compreendemos tais iniciativas como memes, sobretudo, pelo seu poder de construção que parte de um ato individual, mas ganha uma dimensão coletiva, capaz de mobilizar, impactar outras pessoas e até gerar um debate público sobre o tema. (FREIRE, 2016)

E os diferentes tipos de laços afetivos que citei acima são bastante importantes para as ‘campanhas-meme’ darem certo. Segundo Crossley (2015), seus amigos no Facebook são divididos em os laços fortes, responsáveis por cultivar o sentimento de comunidade e organizar ações coletivas (família e amigos próximos, por exemplo); e os laços fracos – aqueles colegas restantes do Facebook que você mal fala mas estão presentes – que criariam oportunidades para expandir a ação para um grande número de pessoas com as quais eles não entram em contato fora da rede social. Com isso, a internet se torna ideal para o nascimento de inquietações sociais.

Esse período de mudanças comportamentais, sociais e políticas, de empoderamento em rede, tornou o momento favorável para a sanção da Lei 13.104/2015, a Lei do Feminicídio – ainda sujeita a críticas e controvérsias mas um avanço em comparação ao que tínhamos até então – e mais, foi possível registrar um aumento significativo de denúncias de violência contra a mulher. Segundo o Balanço da Central de Atendimento a Mulher, houve um aumento em 40% do número de denúncias no disk 180, Canal de Atendimento à Mulher da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Por mais que seja um dado triste e preocupante, ao mesmo tempo é visível o rompimento do silenciamento. Para quem desconhece, o serviço é gratuito e funciona 24 horas por dia todos os dias.

Felizmente, as mudanças positivas não pararam. Com o intuito de mapear os casos de violência, facilitar o socorro, zelar pela segurança, e até outras pautas de direitos da mulher várias ONGs ou jovens engajados na causa investiram na criação de aplicativos. Um deles foi o “Chega de Fiu fiu”, criado para lutar contra o assédio sexual em locais públicos:

Foi por meio de seu envolvimento com um projeto intitulado “Chega de FiuFiu”, promovido pelo coletivo “Think Olga”, que uma adolescente de 17 anos desenvolveu um aplicativo para celulares no qual qualquer mulher que se sentir assediada, seja verbal, visual ou fisicamente, pode registrar o local onde aconteceu o assédio e informar outras mulheres de que naquele lugar assédios são frequentes. O objetivo, a priori, é dar voz a vítimas de assédio e, a posteriori, oferecer às autoridades competentes números a respeito dos assédios sofridos todos os dias nas ruas das cidades brasileiras. (COELHO, 2016)

Além dessas tiveram muitas outras mudanças relevantes, mas pedimos licença para não ter o trabalho de elencá-las todas aqui. Citei só algumas para mostrar que o debate online com toda a mobilização foi essencial para que fosse possível ‘tirar do papel’, já que abriu os olhos de muita gente e agregou muitas mulheres a causa. Conseguiram criar um momento propício para ampliar a rede de discussão, virou pauta também em programas de TV, campanhas publicitárias, músicas, filmes, artigos, e políticas pelo direito da mulher.

E o que esses exemplos têm a ver com o monitoramento da Marcha das Mulheres?

A Marcha foi uma ação de grandes proporções mas que não aconteceu de uma hora pra outra, vem de um processo. O “terreno” já estava sendo preparado há anos. Os debates online estão proporcionando ações offline, estão quebrando silêncios, aproximando pessoas de diferentes lugares do mundo, dando mais coragem a quem sofre qualquer tipo de violência a denunciar, uma série de relatos estão aparecendo, aplicativos sendo criados, etc. – e todo esse boom são mudanças sociais, culturais e políticas. Estamos gerando dados qualitativos e quantitativos – o tempo todo – e estes tendo a devida atenção, sendo mapeados, poderão ajudar muito. Eles não só são essenciais para entendermos a situação mas podermos agir da melhor forma.

Retomando a fala de Richard Rogers, ainda há certo ceticismo por parte de algumas pessoas até politicamente engajadas sobre a efetividade dos debates online. Reclama-se muito dos textões e da banalização das problematizações exacerbadas nos tempos de hoje. No entanto, citando desta vez Christine Hine, a internet já não é mais uma “porta de entrada”, mas uma experiência vivida incorporada, corporificada e cotidiana. Entendendo que a cultura é um compilado de disputas simbólicas pessoais e estruturais, precisamos sim reforçar um discurso contra-hegemônico que dê voz a grupos historicamente silenciados que precisam se impor para (des)construir um cenário que os violentam simbólica, física e estruturalmente. Nesse sentido, o debate do feminismo nas mídias sociais vêm como forte capacitador.

Pode parecer muito otimista, mas essa brecha que foi aberta e segue forte como resistência graças à aglomeração nas mídias sociais pode ser um forte aliado à luta das mulheres. Além do alcance (que resulta em conscientização), a internet tem o poder de impulsionar. Segundo uma análise feita pela Crimsom Hexagon, no dia 21 de janeiro de 2017, foram mais de 11.5 milhões de posts feitos nas mídias sociais – 1.5x mais volume do que o dia da posse. Curiosamente, foi também nesse momento que os sentimentos de medo e nojo que predominaram no período das eleições perderam espaço para um sentimento completamente oposto, de alegria: “na esperança de transformar o negativo no positivo, ativistas em todo o país (e no mundo) começaram a organizar protestos que pudessem purificar o medo, a raiva, a tristeza e a frustração em algo mais potente e proativo.”

Nada disso é um mar de rosas e estamos cientes disso, cada linha desse texto só mostra que a violência contra a mulher está presente e que tem muita luta pela frente. Sempre vai ter gente querendo silenciar, ridicularizar ou diminuir, porque é estratégico. O silenciamento é proteção para quem oprime e não para o oprimido. O debate cada vez mais se faz necessário. E estar atento ao que está em voga, sendo discutido, produzido, aos coletivos, aos grupos de debates, é estar um passo à frente dos acontecimentos. Utilizar a internet ao nosso favor, diagnosticando essas mudanças de antemão, faz toda a diferença para saber como agir de forma estratégica. Acho que mais do que nunca, isso está claro.

As informações estão aí para quem quiser ver, agora saber o que fazer com elas é extremamente pertinente pro momento em que vivemos. Sempre vale lembrar que da mesma forma que a ferramenta está disponível para resistência está para a opressão. Fiquemos atentas(os)!

Referências

COELHO, M. P.. Vozes que ecoam: Feminismo e Mídias Sociais. Pesquisas e Práticas Psicossociais, v. 11, p. 1, 2016.

CROSSLEY, Alison. Facebook feminism: social media, blogs, and new technologies of contemporary u.s. feminism. Mobilization: An International Quarterly, v.20 (2): p. 253-268, 2015.

FREIRE, Fernanda. Campanhas feministas na internet: sobre protagonismo, memes e o poder das redes sociais. Em Debate, Belo Horizonte, v.8, n.5, p.26-32, jul. 2016.

Santini, Rose Marie; TERRA, C.; ALMEIDA, A. R.. FEMINISMO 2.0: A MOBILIZAÇÃO DAS MULHERES NO BRASIL CONTRA O ASSÉDIO SEXUAL ATRAVÉS DAS MÍDIAS SOCIAIS (#PRIMEIROASSEDIO). P2P & Inovação, v. 3, p. 148-164, 2016.