Autor: Aianne Amado

O que o Twitter achou do Rock in Rio?, por Aianne Amado

Segundo seu próprio site, o Rock in Rio é um dos maiores festivais de música do mundo, somando uma audiência de mais de 10 milhões de pessoas em sua história. Porém, não é só na Cidade do Rock que o espetáculo acontece: desde sua retomada em solo brasileiro no ano de 2011, o Rock in Rio é evento também nas redes sociais digitais, utilizadas pelos usuários para comentar não apenas os shows (transmitidos em tempo real numa mega cobertura fornecida pelas empresas do Grupo Globo), mas também todos os bastidores – seja a estadia dos artistas internacionais no Brasil, a presença de celebridades nacionais na área VIP do festival, ou ainda os inusitados acontecimentos na plateia.

Em 2022, primeira edição após o hiato imposto pela pandemia, a repercussão foi ainda maior: dados do Observatório da TV mostram que este foi o ano com maior audiência televisiva desde a volta do festival para o Brasil na TV aberta, ou seja, sem contar com aqueles que assistiam a cobertura pelo canal Multishow, Canal Bis ou pelo streaming Globoplay, que estava com acesso liberado para assinantes e não assinantes. E, num movimento já comum a grandes eventos televisionados, parte significativa desses milhares de espectadores comentavam tudo o que viam pelo Twitter, fazendo o Rock in Rio ficar entre os assuntos mais comentados do mundo em todos os dias de show.

Ao final do evento, o jornalista José Norberto Flesch, notório nas redes pelos seus conteúdos sobre o mundo da música, fez as seguintes perguntas aos seus seguidores:

Considerando as centenas de replies a cada um dos tweets, bem como a pertinência de Flesch para os fãs de música usuários da rede, entendemos essas interações como valiosas para ilustrar – de forma evidentemente generalizada – as críticas e elogios sobre o Rock in Rio 2022. Assim, no dia 13 de setembro coletamos as 5.784 respostas postadas até então e as organizamos em duas redes semânticas, conforme metodologia de análise textual proposta por James A. Danowski (1993). Os dados foram processados no WORDij, desenvolvido pelo próprio Danowski, para a observação de paridades e co-ocorrências de palavras. Em seguida, o resultado foi trabalhado no software Gephi para a criação de grafos que facilitem e dinamizem a visualização das linhas discursivas encontradas.

Para a leitura desses mapas, considera-se cada nó (círculo colorido) como correspondente a uma palavra e as arestas (linhas) entre eles como as ligações encontradas. O tamanho do nó equivale ao número de co-ocorrências do termo; a largura da aresta indica o grau da paridade; as cores indicam clusters, agrupamentos temáticos identificados pelo próprio programa; e quanto mais central o nó, maior o número de ligações. Para fins didáticos, destacamos em nossa análise os termos presentes nos grafos através das aspas.

Para a primeira pergunta, acerca das surpresas do Rock in Rio, coletamos 493 respostas (dentre replies e quotes). Por ser um número reduzido e, em geral, trazer respostas mais objetivas, optou-se por delimitar em quatro o número de palavras na janela de paridade, ou seja: a cada palavra, se formava uma ligação com as quatro palavras identificadas à sua frente ou atrás.

Qual foi a maior surpresa do Rock in Rio (não necessariamente o melhor show)? – respostas ao tweet de José Norbert Flesch

Como de se esperar, o principal assunto dentre os comentários positivos se referem aos “shows”. Dentre estes, o de “Måneskin” aparece em evidência, com os respondentes afirmando sem “dúvida” o destaque e justificando a “surpresa” porque não “conheciam” a banda antes do festival e “acharam” o show “bom”. A banda italiana é também citada em associação a outros shows, como o de “Luisa Sonza”, “Djavan”, “Post Malone” e “Green Day”.

Com uma apresentação cheia de declarações de afeto ao público brasileiro, a audiência afirma que não “esperava” “nada” de “Camila Cabello”, mas que a mesma entregou “tudo”. Outras demonstrações de carinho ao público mencionadas foram ter a banda “Coldplay” “cantando” a música “Magic” em “português”, e a cantora “Rita Ora” convidando “Pabllo Vittar” para o palco com ela.

Em tom bem-humorado, muitos comentaram como, após toda a polêmica, a “maior” “surpresa” foi o fato de “Justin Bieber” “realmente” ter “aparecido” para seu show.

Outros artistas citados foram “Ludmilla”, “Jessie J”, “Billy Idol”, “Avril Lavigne” – destaque do “palco” “sunset” – e a banda “Bastille”.

No mais, em relação à infraestrutura, aqueles que compareceram ao evento elogiaram os “banheiros” “sempre” “limpos”.

Em oposição direta às “surpresas”, as respostas referentes às “decepções” eram mais elaboradas, além de numerosas: neste tópico, somaram-se 2.926 tweets (dentre replies e quotes), que originaram a rede a seguir. Devido ao maior volume, refletido no tamanho e complexidade do grafo, optou-se pela janela de paridade padrão de três palavras.

Qual foi a maior decepção do Rock in Rio (não necessariamente o pior show)? – respostas ao tweet de José Norbert Flesch

O cluster rosa, maior da rede, agrupa termos relacionados aos shows. É interessante notar que os nomes mais próximos ao par “Palco Mundo” são “Ludmilla”, “Avril Lavigne”, que se apresentaram no “Palco Sunset”, e “Fresno”, que participou na “Arena Itaú” a convite do TikTok. Isso indica uma clara insatisfação por parte dos fãs com o local onde os ídolos tocaram, originando demanda para a organização “colocar” esses “artistas” como “atração” do palco principal, onde, devido a suas carreiras, os fãs acreditam que “poderiam”, “deveriam” e “merecem” “estar”. Apesar de mais afastadas, “Luisa Sonza” e “Pabllo Vittar” também são mencionadas nessa reivindicação, indo ao encontro de pedidos para que o Rock in Rio passe a “valorizar” mais artistas “nacionais” (“brasileiros”/“br”) e “latinos”.

Ainda sobre as “atrações”, houve reclamações sobre “algumas” serem “repetidas” no evento, que se torna todo “ano” a “mesma” “coisa”. Por exemplo, mencionam que “ninguem” “aguenta” ou “merece” mais a presença de “Jota Quest” ou “Ivete Sangalo”. Sugerem, então, que a organização possa “estudar” e “selecionar” “melhor” os “artistas” para as próximas edições, de modo a “trazer” “bandas” “diferentes”, citando “Bruno Mars”, “Beyoncé”, “Ariana Grande”, “Rihanna”, “Miley Cyrus” e “Lady Gaga” – esta última ligada a nós que indicam a súplica pelo “amor” de “Deus”.

Além das atrações em cima deles, os “palcos” também foram criticados pela “estrutura”: para quem compareceu ao festival, o “som” estava “baixo” “demais” (“super”), “principalmente” no “Palco Sunset”, que, por sua vez, levou sugestões para que possam “aumentar” tanto em seu “tamanho” quanto no “volume” e “qualidade” do som. Segundo os usuários, ambos os palcos também poderiam contar com “telões” “maiores”.

“Melhorar” corresponde a um grande nó, identificando pedidos para aprimorar o “transporte”, particularmente o “Rock in Rio Express” (“BRT”, “serviço” de “ônibus”); a “segurança”, principalmente na “revista” durante a “entrada”; na “logística” tanto para “entrar” quanto para “sair” na “volta” para “casa”; a “acessibilidade”; e na “organização” das “enormes”, “quilométricas”, “absurdas”, “gigantes” e “intermináveis” “filas” – seja para os “banheiros”, para os “bebedouros” de “água”, para “comer” ou “comprar comida”, ou mesmo para “pegar” “brindes” nos “stands”.

Contudo, o festival também não agradou ao restringir o acesso aos “brinquedos” do local unicamente através de “agendamento” prévio realizado “online” no “app”, numa clara tentativa de diminuir as filas. Ademais, sugeriu-se que os shows pudessem “começar” e “terminar” mais “cedo” e, para além das ossadas do evento, houveram reclamações acerca de “alguns” “cambistas” que “ainda” não “aceitavam” pagamento via “pix”.

O grande “quantidade” de “gente” num mesmo “local” incomodou não apenas nas filas, com “pessoas” “passando” “mal” no “meio” da “multidão”, ou reclamando que “mal” “dava” para “andar”, “ver” ou “ouvir” “nada” “direito”. Dessa forma, algumas respostas sugerem “diminuir” o “número” de “ingressos” “vendidos” por “dia”, além do “preço” dos mesmos. Sobre os ingressos, também foi sinalizado um “golpe” aplicado na compra da versão “digital”, como no “Lolla”, evento ao qual o Rock in Rio foi comparado.

A separação de “gêneros” musicais, tendo, por exemplo, um “dia” dedicado ao “pop” e um ao “emo” não agradou os fãs de “rock”, que pedem para a organização “mudar” o “nome” “oficial” do Rock in Rio.

As 2.365 respostas ao último tweet ofereceram uma rede bastante semelhante à segunda, resultado intuitivamente esperado tendo em vista que o que não agradou é o mesmo que deve ser aprimorado.

Em que o Rock in Rio pode melhorar para a próxima edição? – respostas ao tweet de José Norbert Flesch

Essa correspondência quase simétrica entre os retornos à segunda e à terceira pergunta feita por Flesch é interessante por comprovar as insatisfações do público mas também do ponto de vista da aplicação metodológica, uma vez que comprova a efetividade da metodologia de análise de redes semânticas ao analisar conteúdos textuais diferentes mas com uma mesma linha discursiva geral.

Referências

Danowski, J.A. (1993). Network analysis of message content’. In: Barnett, G. & Richards, W. (eds.): Progress in communication sciences XII, pp.197-222, Ablex, Norwood, NJ.