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Primeira semana do curso Social Media Analytics, da QUT: Twitter, métodos digitais e TAGS

Faz muito tempo que eu tenho interesse em fazer um curso no FutureLearn – para ser mais exato, desde a primeira edição do curso Why We Post, do departamento de Antropologia da University College London comandado por Daniel Miller, que aconteceu em fevereiro deste ano. Até cheguei a me inscrever na segunda edição, que aconteceu em junho, mas os afazeres da vida social (faculdade, estágio, etc.) não me permitiram dar continuidade aos estudos. Acontece que o momento finalmente chegou: por indicação do Tarcízio Silva, fiz a inscrição no curso Social Media Analytics: Using Data to Understand Public Conversations, que teve início semana passada, no dia 18 de julho.

Antes, uma explicação informal do que é o FutureLearn: assim como o também bastante popular Coursera, trata-se de uma plataforma de MOOCs (Massive Open Online Course), um ambiente virtual de educação à distância que oferece diversos cursos para pessoas de todos os níveis de graduação. Não sei exatamente como funciona a associação com grandes instituições de ensino e/ou universidades, mas são cursos – até onde eu sei – elaborados em parcerias com universidades internacionais, principalmente da Europa e dos Estados Unidos. Este especificamente foi feito em associação com a Queensland University of Technology, no Digital Media Research Centre, comandado pelas pesquisadoras Jean Burgess, Axel Bruns e Tim Highfield. Na página do curso, você pode assistir um vídeo com os educadores, conhecer o conteúdo programático e analisar os pré-requisitos necessários para participar (spoiler: ter uma conta no Twitter e no Google).

Do pessoal ao político, as conversações nas mídias sociais estão no coração da mudança sócio-cultural. Neste curso você será apresentado a métodos digitais para analisar os dados de mídias sociais no Twitter. Você aprenderá com pesquisadores consagrados, fará atividades práticas e enfrentará problemáticas acerca de dados de mídias sociais.

Introdução do curso: Métodos digitais pode nos dar uma compreensão mais completa dessas conversações nas mídias sociais, assim como nos permite analisar mais a fundo os atores e os problemas centrais e como estes mudam ao passar do tempo. Estudando a comunicação em mídias sociais utilizando métodos digitais também aprendemos sobre alguns aspectos tecnológicos das plataformas. Uma parte importante dessa compreensão é como as tecnologias de mídias digitais e seus usos diários mudam com o passar do tempo e influenciam umas às outras. Esse é um processo contínuo nas mídias sociais, onde tanto as plataformas quanto os tipos de conversações que acontecem nessas plataformas estão constantemente mudando.

Objetivo do curso: Pensar uma problemática que pode ser compreendida melhor através da coleta de dados no Twitter; a proposta é desenvolvermos habilidades e conhecer ferramentas gratuitas que podem nos ajudar nessa mineração de dados.

SEMANA 1

A primeira semana buscou introduzir algumas reflexões e conceitos sobre a coleta de dados no Twitter – site de rede social que, ao decorrer do curso, vamos utilizar de ambiente para a exploração das conversações. A primeira atividade retomou um assunto recorrente que, de tempos em tempos, sempre aparece nos debates entre jornalistas, profissionais de comunicação/internet, etc.: a morte do Twitter. A pergunta, baseada num trecho de um texto da professora Jean Burgess, era: “are social media still social?”. Em resposta ao argumento de que o Twitter estava morrendo, ela constatou que:

“…as discussões sobre o declínio desse espaço, no momento, está relacionado com a perda da sociabilidade, de certa forma. E para aqueles de nós aos quais os prazeres do Twitter tinham a ver tanto com a intimidade do ambiente, relações pessoais e brincadeiras quanto com o sucesso profissional do cinema, celebridades e manchetes, isso representa uma perda real e lamentável: sociabilidade importa.”

Seu texto responde às provocações desse artigo, Why Twitter’s Dying (And What You Can Learn From It), que eu coincidentemente também “respondi”, humildemente, nesse post de 2015. Para retomar esse debate, compartilho aqui algumas ideias e opiniões expostas por colegas do curso na página da atividade. Já adianto que não concordo com algumas delas, outras concordo em partes; de qualquer forma, acho importante trazer esses pensamentos porque nos ajuda a ter uma noção mais eficaz do imaginário social acerca das mídias sociais e, principalmente, do Twitter:

  • Lee-Ann Lipman: “I’ve personally never found it to be a “social” network, as a place I connect with friends so to speak. For that I would use Facebook.”
  • Georgia Brennan-Scott: “I have often thought of Twitter as a place where one can express themselves freely and publicly with both known and unknown readers. I think there is a freedom in that.”
  • Stacey Larner: “I also find the public nature of twitter makes me want to limit my silly conversations with friends.”
  • Morgana Prior: “When people realise tweets they made 2 years ago, 4 years ago, 6 years ago could be dug out by a journalist it changes how freely people use it. Even those of us not in the limelight start to wonder if our online activity could somehow shackle our future.”
  • Jessica Pelide: “Twitter has a global sociability and this represents a vantage and a disadvantage at the same time: the bigger the crowd is, the bigger the noise is, the more bewildered (and less social) you are.”
  • Michael Salter: “However your Twitter experience is personally curated by the user. If you feel like something is ‘off’, then you might need to unfollow certain users, block others, and start following new people.”
  • Doug Ferguson: “I use Twitter to create (or spread) messages that might resonate with followers. Twitter is for sharing ideas and archiving important messages.”
  • Andrew Wood: “It seems to me that Twitter is what you make of it. Approach it appreciatively with a view to encouraging contribution and collaboration in testing and exploring ideas and opinions – tapping into its social capacity – and it works just fine. It depends on how you listen.”

Alguns aspectos centrais aparecem em boa parte das opiniões retratadas: a questão do público (em oposição ao privado), a questão da conexão “globalizada”, a questão da construção e fixação do self em ambientes virtuais, a questão da ressonância das mensagens, etc. Um aspecto central que eu percebi ter guiado vários dos comentários, embora poucos dos que trouxe aqui, mas também o argumento da professora, foi a noção de “sociabilidade” enquanto relacionado a intimidade (ou “pessoal”, no sentido de algo próximo). Aqui vale pensar buscar o sentido etimológico da palavra: sociabilis (sociare) + itatem (itas), que significa “a qualidade ou condição de associar-se de maneira próxima”. A meu ver, esse é um ponto-chave para iniciar o debate em resposta à provocação. A diferença entre “social” e “pessoal” (íntimo) precisa ficar clara para que os argumentos se desenvolvam de forma responsável, crítica e sem moralismos/saudosismos.

Muita da argumentação no texto e também na seção de comentários foi pautada nessas duas instâncias: 1) moralismo, no maior sentido Baumaniano de romantização do passado, tal que este texto perfeitamente rebate; 2) e saudosismo, no sentido de usuários antigos do Twitter que hoje não se sentem mais contemplados pela plataforma. Curiosamente, essas pessoas me pareciam um pouco mais velhas do que os usuários que eu costumo associar à ferramenta – mas não quero fazer essa associação geracional que também se apoia num argumento de moralismo, só que ao contrário. Meu pensamento aqui segue esse raciocínio: para discutir sobre o “social” em social media, preciso compreender antes quais sentidos atravessam a questão de sociabilidade. Entretanto, sociabilidade não está relacionado a uma questão de intimidade, mas de interação e conexão entre os sujeitos. Nesse sentido, arriscaria dizer que nenhum site de rede social está se tornando menos “social”, pelo contrário – só tem intensificado a sociabilidade, colocando em cena sujeitos também desconhecidos entre si.

Depois desse animado e estimulante início, passamos para algumas propostas mais específicas do curso. Os artigos iniciais apresentaram uma noção básica acerca de conversação em rede, hashtags, ativismo político e a anatomia de um tweet – já destrinchado (também em imagem) nesse outro post sobre monitoramento de mídias sociais. Essa primeira parte foi intitulada Understanding #conversations; a segunda parte, Gathering Twitter data, foi mais prática, mas também nos apresentou alguns conceitos e ideias iniciais sobre métodos digitais, questões éticas da pesquisa virtual (que não consegui me aprofundar devido ao tempo curso para ler todos os artigos disponíveis, conforme explicarei melhor mais adiante), etc. O assunto métodos digitais foi introduzido pelo profº. Axel Bruns com a seguinte fala:

 “Nós usamos tecnologias de mídia digital todos os dias, em variadas formas, desde as pesquisas no Google até assitir vídeos de gatos no YouTube. Somos capazes de usar métodos digitais para pesquisar esses usos porque, sempre que utilizamos essas tecnologias de mídias digitais, deixamos rastros digitais. E, utilizando esses métodos digitais para analisar esses rastros, conseguimos observar e compreender muito mais desenvolvimentos gerais na sociedade.”

A partir daqui já começamos a colocar a mão na massa: como mencionei no início do post, o objetivo prático do curso nos propõe a fazer uma pesquisa “real” sobre algum assunto que possa ser melhor compreendido através da coleta e análise de dados do Twitter. Para isso, já na primeira semana, fomos estimulados a desenvolver o nosso tópico de pesquisa – seguindo as seguintes instruções: 1) Qual é o assunto, problema ou evento que você está pesquisando?; 2) Quais grupos estão envolvidos nesse assunto, problema ou evento?; 3) Quais termos e/ou hashtags estão associadas a ele?; 4) Quais coisas você espera ou prediz encontrar?; 5) Crie uma pergunta para resumir as suas ideias. Como eu ainda não tenho uma ideia formada, vou deixar para formular essa pergunta na segunda semana. Pensei, inicialmente, em pesquisar algo sobre #cidadeolímpica, UERJ ou candidatos à prefeitura de Niterói – mas ainda estou considerando todas as possibilidades (aceito sugestões).

Uma vez que o curso se destina a pessoas de todas as idades e graus de conhecimento/escolaridade (embora haja um fator excludente decisivo que é o fato de ser completamente em inglês), um dos artigos falou um pouco sobre API. Para quem já trabalha com monitoramento ou com mídias sociais de uma maneira geral, o termo Application Programming Interfaces não é estranho. No entanto, achei extremamente importante para nivelar, na medida de possível, o nível de conhecimento de todos os colegas. Em suma, “APIs fornecem uma maneira de acessar as plataformas de mídias sociais que adentra o website e se conecta diretamente à infra-estrutura subjacente”. Em outras palavras, é a porta de entrada que permite a coleta – geralmente num volume considerável – de dados nas plataformas e sites de redes sociais – é pela API do Twitter, por exemplo, que a TAGS, ferramenta que vamos utilizar para extrair os dados, consegue puxar boa parte da “anatomia” do tweet que pesquisamos. E por falar em TAGS…

A primeira ferramenta para coleta de dados no Twitter apresentada foi a TAGS (Twitter Archiving Google Sheet). O vídeo acima já é bastante explicativo, mas funciona da seguinte forma: ela disponibiliza uma planilha do Google Sheets com alguns scripts que permitem aplicar a pesquisa de queries durante um período de até sete dias anteriores ao momento de início da ativação do script – essa limitação de período, por exemplo, é por conta dos direcionamentos de sua API “gratuita”. Para isso você precisa salvar uma cópia da planilha no seu Google Drive e fazer a autorização – no próprio Google Sheets – de uma conta qualquer no Twitter. Essas queries (nome difícil para termos/expressões de busca) possibilitam também alguns operadores (já conhecidos dos profissionais de monitoramento) que ajudam a especificar a pesquisa: AND encontra tweets com duas ou mais palavras específicas; OR encontra tweets que tenha uma palavra específica e outra palavra distinta; from:username encontra tweets enviados pelo usuário; to:username encontra tweets que mencionam o usuário, etc.

A questão óbvia a partir daí é como definir esses termos. Isso requer que você pense cuidadosamente sobre qual material um potencial termo pode capturar e o que pode deixar passar. Isso inclui tanto falsos positivos (posts que respondem aos seus termos, mas que não têm nada a ver com o tópico que te interessa) quanto falsos negativos (posts que seriam relevantes para os seus interesses, mas que não contêm nenhuma das palavras que você escolheu pesquisar). Não há respostar fáceis para essa questão. O que você escolhe pesquisar é sempre profundamento específico ao contexto, e você provavelmente trabalhará por um processo gradual de aperfeiçoamento antes de chegar a uma escolha satisfatória de termos. Nessa etapa e em qualquer posterior análise dos seus dados, você ainda vai precisar ficar atento a qualquer conteúdo relevante que pode ter deixado passar por causa de sua escolha específica de termos.

Embora eu já esteja familiarizado com o processo de coleta de dados voltado para o monitoramento de mídias sociais, posso dizer que ter conhecido a ferramenta já valeu a inscrição no curso. Sempre vi (e ouvi) discussões sobre as ferramentas desenvolvidas pelas universidades ao redor do mundo, mas nunca cheguei ao ponto de pesquisar e buscar conhecê-las mais a fundo. Acredito que o mercado (principalmente agências de comunicação/publicidade) já está tão acostumado com a utilização de ferramentas pagas, que são polidas e especialmente apresentada/desenvolvidas para atender a esse público, que acaba criando um ponto cego e um ciclo vicioso que não colabora com o desenvolvimento e avanço das discussões na área. Agora que conheci uma, quero conhecer várias – e a próxima que vou “testar” é, com certeza, a Netlytic. Para mais sobre outras possibilidades de ferramentas de busca no Twitter, recomendo esse artigo (compartilhado na seção de comentários da atividade no curso) e essa seção de blog posts.

Google Sheet da pequisa dos termos "niteroi OR niterói" com a TAGS
Google Sheet da pequisa dos termos “niteroi OR niterói” com a TAGS

Esse é o formato da coleta de dados (clique na imagem para ter a visual: a ferramenta traz o ID do usuário, username, conteúdo do tweet, data e hora do tweet (não sei exatamente em qual fuso-horário se encontra), geo-coordenadas, língua definida pelo usuário na configuração da conta, a plataforma utilizada (iPhone, Android, Web, etc.), o local que o usuário colocou na configuração do perfil e o link do tweet. É muita coisa para uma ferramenta gratuita, até onde eu sei. Para praticar a testar a ferramenta, fiz uma busca simples pelo termo referente à cidade de Niterói (deveria ter acrescentado Nikity, aliás) e deixei o script rodando de hora em hora (o vídeo explica como faz isso, mas é simples). Pediram que, para a próxima etapa do curso, tivéssemos uma coleta de pelo menos 50.000 tweets. Faz umas 6 horas que está rodando e tenho apenas cerca de 6.200 tweets até o momento em que vos escrevo. Torçam por mim!

Antes de encerrar, só preciso pontuar uma coisa que vi alguns colegas comentando também na atividade de encerramento da primeira semana: embora a FutureLearn indique que são necessárias “apenas” três horas por semana dedicadas ao curso, a verdade é que o ideal deve ser entre 5 e 7 horas por semana. Neste primeiro período, comecei o curso apenas na quinta-feira à noite, terminando de ler todos os artigos e fazendo todas as atividades só no domingo. Se você quiser ler todos os materiais, todos os arquivos disponibilizados também em PDF e artigos de sites recomendados, ficar por dentro do que os colegas estão falando nos comentários e ainda fazer todas os exercícios propostos, reserve pelo menos 5 horas da semana para o curso. Não que isso seja ruim, pelo contrário, tem muita coisa boa para aprender, mas é preciso organizar uma rotina responsável para não perder nada importante (os debates com os colegas, por exemplo, na minha opinião, são enriquecedores!).

Dito isso, deixo aqui o convite a todos para participarem do curso – ainda dá tempo de se inscrever! São apenas três semanas mas acredito que o aprendizado será enorme. Como eu disse, o curso é para todos, mas é claro que ajuda se você tiver um conhecimento mínimo sobre monitoramento de mídias sociais – para nivelar o conhecimento, recomendo uma lida rápida nesse outro post do blog. Se você estiver fazendo o curso ou decidir começar por indicação, entra em contato no Twitter ou aqui mesmo na seção de comentários para trocarmos figurinhas sobre os assuntos vistos – e nos ajudarmos. A gente se vê! 🙂

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