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Política e identidade em rede: reflexões sobre práticas sociais contemporâneas

Começo este post avisando que daqui deve sair um misto de diário pessoal (devaneios), artigo acadêmico e publicação para a web. Se tudo encaminhar conforme minimamente organizado na minha mente, esse é o formato já instaurado e que continuar a seguir.

Diante do caos social e político que se estabeleceu no Brasil nesta semana, um dia após o processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, tomei a humilde decisão de associar uma espécie de “adesivo virtual” à minha foto de perfil do Facebook – com o simples fundamento, na minha cabeça, de que “não dava mais para não se posicionar”. Esse pensamento “fácil” se alinha ao fato de que: 1) demonstrei meu apoio a um candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, sendo que não resido atualmente na cidade; 2) mesmo que tivesse demonstrado o apoio a um candidato que simpatizo na minha cidade atual, seria um apoio simbólico, pois meu título eleitoral ainda pertence à cidade onde cresci, no Nordeste. Ou seja, naquele momento, o motivo por trás da minha ação não tinha nenhum valor “efetivo”, apenas simbólico – deixar claro a todos (amigos e desconhecidos) qual é o meu posicionamento político e quais valores estão associados a ele. E aí passei o dia refletindo sobre o assunto.

Trago aqui, portanto, alguns pensamentos, reflexões e devaneios pelos quais passeei durante os últimos dias. Antes de abrir essa porta, no entanto, acho importante dizer que fui atrás de bibliografia que me ajudasse a entender sobre o tema. Quem me conhece, conhece o blog ou já leu a página sobre mim daqui sabe o quanto eu valorizo a compreensão social (da sociedade) estruturada nas metodologias acadêmicas. Aprendi com uma queridíssima professora e não cansarei de propagar que as leituras da universidade (de “humanas”, pelo menos) nos ajudam a entender melhor o mundo em que vivemos. Busquei, portanto, em fontes confiáveis cujo trabalho já tive contato superficial em outros momentos: Raquel Recuero e Fábio Malini. Esses pesquisadores, no entanto, apesar de trabalharem bastante com a questão de política em rede, não abordam o tema pensando a construção de identidade, mas propondo (geralmente) análises de discurso pautado em dados de SRSs. Embora seja um bom ponto de partida para entender o contexto, não atendem à minha demanda.

Também procurei no Google Acadêmico, no Google normal e no Sci-Hub: não encontrei nada que se encaixasse minimamente na minha linha de raciocínio reflexivo. Confesso que a busca não foi tão apurada assim – tivesse menos ansioso para escrever sobre o assunto, talvez teria encontrado alguns materiais que dialogassem comigo de alguma forma. Portanto, peço humildemente ao caro leitor que: 1) caso conheça algum artigo, dissertação, tese ou qualquer produção acadêmica que corresponda aos pensamentos que vou expor aqui, ofereça tais sugestões na seção de comentários – agradeço desde já; 2) perdoa-me pela irresponsabilidade científica – mas lembra que isso é um blog e o formato desse texto já não corresponde às severas diretrizes da academia. Antes de abordar algumas questões relacionadas à construção de identidade em sites de redes sociais (contextualização importante para estruturar as ideias que compartilharei em seguida), trago aqui um trecho do livro “How the World Change Social Media”, que mapeia minimamente a bibliografia – internacional – sobre política e internet:

The immense literature available on the internet and politics, and more specifically on politics and social media, has changed over time. It began with a focus upon the role of the internet in new social movements in the 1990s, and was followed by the problem of digital divides and e-governance, the role of Web 2.0 platforms and user-generated content. Most recent studies have considered the consequences of the affordances of WiFi and mobile media such as smartphones, particularly regarding their role in organising collective political activity. Chadwick and Howard present an excellent volume on the critical debates about the relationship between the internet, state politics and citizenship, while Postill concisely summarises key research in digital politics and the ways in which ethnographic inquiry contributes to understanding the ecologies of protest movements. In the early 2000s there was a distinct sense of optimism around e-governance and e-government, and the potential they offered for bridging the digital divide. The internet and social networking sites were seen to be transforming ‘the public sphere’, a concept associated with social theorist Jurgen Habermas. More recently attention has been turned to the role of social media in organising political action, particularly in the various regional experiences of the Arab Spring. This was in a sense the turning point in such studies, prompted by Morozov’s work on the use of digital technologies for political repression during these events. Since then there has been a growing body of research critical of assumptions that the main role of digital technologies is to increase meaningful democratic participation. However, there is also considerable interest in the use of new media as the basis for alternative forms of collective action, for example research by the anthropologist Coleman on Anonymous and other online political activists.

A publicação faz parte da série Why We Post, um projeto de pesquisa comandado por Daniel Miller da University College London. Assinam, além do próprio, Elisabetta Costa, Nell Haynes, Tom McDonald, Razvan Nicolescu, Jolynna Sinanan, Juliano Spyer, Shriram Venkatraman e Xinyuan Wang, com uma visão antropológica sobre o uso das mídias sociais no Brasil, Chile, China, Inglaterra, Índia, Itália, Trindade e Turquia. Vale lembrar que, além das 11 publicações que serão publicadas até o final do projeto (três já estão disponíveis para download no site oficial), a terceira turma do curso correspondente ao projeto que começará em 31 de outubro na FutureLearn está com as inscrições abertas! Caso você tenha interesse no assunto (não só na temática política, mas pensar as mídias sociais de maneira antropológica como um todo), recomendo veemente tentar fazer o curso – será a minha também terceira tentativa de participar e eu garanto que dessa vez não passa. Mas voltemos ao que interessa…

Como muito bem detalhadamente explica a citação, os estudos sobre política e internet durante as últimas décadas têm observado a temática majoritariamente sobre o viés “tecnológico”, debatendo a funcionalidade das novas mídias digitais enquanto influência política na sociedade. A minha proposta para o post é pensar – e reitero: pensar, refletir, filosofar, sem nenhum compromisso de “responsabilidade” – o assunto política no que tange à construção do sujeito online. Para não dizer que não encontrei nada sobre a temática conforme minha linha de pensamento, compartilho aqui a conclusão do capítulo específico sobre política do livro supracitado do Miller, após uma análise que identifica três problemáticas relativas às normas de relacionamento nos sites de redes sociais, à imposição de monitoramento estatal sobre questões de política nacional em diferentes países e como essas duas coisas causam diferentes abordagens do tópico nas conversações:

In general we have found that, if one turns to ordinary field sites, politics on social media has a much lower profile than we might otherwise have expected. In some cases this may be because it is suppressed, leading to a highly conservative representation of people’s lives and opinions online. In other cases, however, it is because social media is more associated with entertainment and social bonding than with serious issues such as politics.

O problema é que essa conclusão não me atende. Desde 2013 a temática política não tem saído das pautas de conversa dos sites de redes sociais no Brasil, como corroboram vários – centenas? – de artigos acadêmicos que fizeram questão de abordar o assunto nos últimos anos. Só coloquei esse trecho para reforçar que eu procurei, sim, bibliografia sobre a dinâmica da qual o post trata. Na verdade, a citação me permite puxar um gancho que já tinha passado pela minha cabeça e trago aqui para começar a teorizar (irresponsavelmente) sobre alguns desdobramentos da temática; eu compartilho com o pensamento do campo dos Estudos Culturais que reconhecem a cultura como arena de disputas onde se travam as principais lutas políticas e sociais. Muitos autores também abordam esse tópico falando não (apenas) de cultura, mas também de discurso: Bahktin, Certeau, Bhabha, Hall e o próprio Foucault para falar de relações de saber e relações de poder. O que quero dizer é: quando falamos de política, falamos de cultura; quando falamos de cultura, falamos sobre disputa e relações de poder (política).

E aí precisamos resgatar Hall em “A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo” para entender como o debate entrou em pauta. No texto, ele explica que a cultura, desde o seu sentido mais amplo (produção de hábitos, valores, tradições, etc. que todo grupo social tem), é fundamental. No entanto, é a partir do século XX que a ela se torna uma problemática para o homem ocidental – quando, por volta da década de 50 e 60, torna-se central e substancial, numa espécie de revolução cultural que materializa a cultura, onde não há como escapar da discussão a que a cerca. Nesse contexto, quatro eixos da vida contemporânea podem ser compreendidos como condicionadores de sua substancialização: a expansão dos meios tecnológicos (cultura das mídias); a cultura e a globalização (multiculturalismo); cultura e cotidiano (o materialismo da sociedade de consumo de bens culturais); e cultura e identidade (subjetividades), o sujeito social e o sujeito eu.

Esse quarto eixo é o que mais me interessa no momento e que, de certa forma, abarca o contexto social que vivemos hoje – a ascensão individualista do sujeito e sua construção simbólica (identidade). Não é por acaso que essa “virada cultural” acontece também numa época onde há um levante forte de movimentos sociais (negros, mulheres, LGBTs) que atuam nesse dualismo entre sujeito e coletivo – é preciso se reconhecer individualmente enquanto homossexual, por exemplo, enquanto também faz-se mais que necessário compreender o grupo no qual minhas vivências e experiências de vida são contempladas. Sobre isso, trago mais uma explicação acerca do pensamento de Hall que ajuda a desbravar as ideias:

Hall partilha da idéia de que a identidade não pode ser tomada de forma cristalizada, mas sim como um processo. E propõe duas maneiras de se pensar a “identidade cultural”, que aqui tomo como referência para a identidade social. A primeira posição, diz ele, define identidade cultural nos termos de uma cultura partilhada, criando um tipo de pertencimento verdadeiro e coletivo. Seria, portanto, uma construção de identidades por um partilhamento de interesses e visões. No entanto, existiria uma segunda via, que trabalhará a partir das diferenças, do reconhecimento de um com outro, com quem se estabelecerão relações conflituosas e por vezes complementares. Portanto, para o autor, é impossível pensar a construção das identidades como resultante somente de partilhamentos de pontos comuns, ou do estabelecimento de contrastes e oposições. A produção da identidade, enquanto processo, deve conter os dois eixos ou vetores, como ele mesmo chama. (ENNE e LACERDA, 2011)

Em “A identidade cultural na pós-modernidade”, dialogando com Giddens e Bauman, Hall também vai ratificar o caráter multifacetado e fragmentado das construções identitárias na contemporaneidade. Esse discurso é complementado por Goffman que afirma “que todos performatizamos aspectos das nossas identidades, atuando de modos diversos em diferentes meios sociais e para diferentes públicos”. Ou seja, é tudo encenação – e aqui é mais do que necessário remover qualquer valor de julgamento que englobe a palavra maneira pejorativa; mas se nos construímos na interação com o outro, é no mínimo compreensível que vivemos de performance(s). No ciberespaço, de maneira bem mais controlada (em todos os sentidos), “os atores sociais optam por tornar visíveis e ocultar determinados conteúdos nos sites de redes sociais, em um processo marcado pela escolha em grande medida consciente e refletida sobre os materiais apropriados em seus perfis” (POLIVANOV, 2014).

Trata-se, portanto, de uma construção discursiva performatizada, dirigida para uma audiência (imaginada) (BOYD, 2011), que permite sua autoapresentação e interação com outros nesse lugar, sempre atravessada pelos discursos de outros atores com os quais interage (BERTO E GONÇALVES, 2011). […] Os perfis dos atores no Facebook são personas […] no sentido de serem construções ou versões de si que os atores sociais – com mais ou menos cuidado e nível de autorreflexão – elaboram (e reelaboram constantemente) performaticamente, selecionando comportamentos e materiais de acordo com a impressão que querem causar à sua audiência em determinado momento.

As pesquisas de Miller (2011) e Polivanov (2012), embora tenham uma consideração semelhante de que há, nesses ambientes, uma busca por sociabilidade e expressão de si, não chegam a discutir/abordar conteúdos de teor político como estratégia também na construção da identidade online – talvez pelo “distanciamento” dos objetivos de pesquisa desse tema. A lacuna, portanto, fica aberto para que pensemos juntos como esse conteúdo é ativo pelos atores sociais e por quais motivos são acionados de tal maneira. Sabendo que a visão política é um marcador tradicional de identidade (PEMPEK, YERMOLAYEVA e CALVERT, 2009 apud POLIVANOV, 2012) que, assim, como religião, idade, renda, orientação sexual, etc., eram informações consideradas para as gerações anteriores extremamente pessoais e particulares (LIVINGSTONE, 2012 apud POLIVANOV, 2012), o que significa para os indivíduos – enquanto sujeitos que criam suas identidades pluralmente – entrar nesse novo campo de esfera pública e travar as disputas que alavancam?

Para responder a essa pergunta (talvez o principal motivo de ter feito esse post), vou recorrer a uma teoria minha que explicarei brevemente e num outro momento pretendo escrever sobre aqui no blog. Antes, novamente, peço licença aos mais academicistas para deixar de lado as citações (nem tanto), o aporte teórico e, como já citado anteriormente, a responsabilidade científica dessa(s) teoria(s). Estou falando enquanto personagem desse contexto através da minha compreensão de mundo, sem me preocupar com qualquer discussão coletiva acerca dessas problemáticas – poderia, por exemplo, conduzir entrevistas com algumas pessoas para obter um respaldo metodológico que me permitisse basear com mais critérios os argumentos que apresento. No entanto, ratifico porque sinto que preciso ter (pelo menos) essa responsabilidade: é um devaneio pessoal e particular, a partir de preposições sociais e culturais que me atravessam, é claro, mas não mais que isso.

Logo, voltemos ao momento quando decidi apoiar simbolicamente um candidato à prefeitura do Rio de Janeiro. Como já mencionei anteriormente, a minha decisão para o ato foi completamente pautada no outro: queria mostrar às pessoas quais valores eu compreendo enquanto cidadão para uma política pública responsável. No entanto, como os próprios autores que mencionei aqui no post, esse jogo identitário se dá tanto no campo coletivo quanto no campo pessoal. No primeiro, recorro a recursos imagéticos de significação que precisam ser compreendidos pelos demais para que seja feita a associação desejada entre os valores e a pessoa. No segundo, a minha própria decisão de fazer isso deve corresponder aos meus processos de experiência de vida que me atravessaram durante todos esses anos, correspondendo à minha compreensão de mundo e como ela fez morada em mim para que eu pudesse então compartilhar com os outros o que isso significa para mim.

Mas, afinal, por que recorrer a essas estratégias de construção de identidade (que, como mencionado, antes não eram colocadas em discussão) quando podemos buscar ferramentas midiáticas mais fáceis para assim a fazermos? A resposta é bastante diplomática: uma não exclui nem abdica da outra. E aí retomo novamente Hall para ratificar o perfil multifacetado das identidades na contemporaneidade, além da “virada cultural” que pôs no centro das discussões tudo que engloba cultura enquanto a compreendemos. Por mais que os editoriais de revistas e outros produtos midiáticos insistam em dissociar política e cultura (isso por apreender cultura numa fusão iluminista e romântica, na qual o passado é venerado para a iluminação espiritual do indivíduo), enxergo que as duas forças nem deveriam ser chamados de campos distintos, uma vez que estão completamente entrelaçados.

É de se esperar, então, que, quando surge um “novo” espaço cibernético de sociabilidade, todos os trâmites culturais ocupem esse novo ambiente. As arenas de disputa de significado e significação, portanto, também estão projetadas nesses espaços online – por isso as “brincadeiras” (sic) de denúncia social são tão importantes quanto às mobilizações off-line, porque os sites de redes sociais tornaram-se locais de luta de significado que interferem diretamente na cultura de um grupo enquanto nação. Esse embate reflete também a construção de personas dos indivíduos online, que cada vez mais são estimulados a entrarem nesse campo de debate e tomarem uma posição (arriscada ou não) política de assuntos sociais. É o que fazemos quando compartilhamos textos, imagens, vídeos de veículos com editoriais detalhadamente localizados politicamente, grupos/coletivos de movimentos sociais ou pessoas que compartilham dos nossos valores. A luta também acontece no campo discursivo.

Para fechar, lembro a todos que a minha adesão foi feita (embora o conteúdo que eu compartilho já revelasse meu posicionamento) através da foto de perfil, o que implica em mais algumas discussões sobre o assunto, conforme a própria Polivanov (2014) destaca no seu estudo. No mais, agradeço a todos que chegaram até aqui e peço desculpas por qualquer inconveniência de irresponsabilidade científica no texto – sim, toco nesse ponto novamente porque sei como as pessoas da internet são estimuladas a expor o erro do outro. No mais, espero que a reflexão tenha feito sentido e que agregue ao pensamento de quem chegou até aqui – estou mais que disposto a trocar ideias sobre o assunto seja nos Comentários ou em outro local mais privado.

Referências bibliográficas

COSTA, Elisabetta; HAYNES, Nell; MCDONALD, Tom; MILLER, Daniel; NICOLESCU, Razvan; SINANAN, Jolynna;  SPYER, Juliano; VENKATRAMAN, Shriram; WANG, Xinyuan. How the World Changed Social Media. UCL, 2016.

ENNE, Ana; LACERDA, Andressa. Gírias, hibridizações, negociações, negações: o discurso como objeto e lugar de disputas na arena da cultura. ENECULT – Salvador, BA, 2011.

HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Porto Alegre: Educação & Realidade, 1997.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2005.

MILLER, Daniel. Tales from Facebook. Cambridge / Malden: Polity Press, 2011.

POLIVANOV, Beatriz. Dinâmica identitárias no Facebook: estratégias de publicização e ocultamento de conteúdos. XII Congreso ALAIC, 2014.

POLIVANOV, Beatriz. Dinâmicas de autoapresentação em sites de redes sociais: performance, autorreflexividade e sociabilidade em cenas de música eletrônica. Niterói, RJ, 2012. 

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