Análises

Os maiores absurdos que um sudestino já te disse

Passeando pelo Twitter algumas semanas atrás, me deparei com o da user @lhonoratus que reproduzo abaixo. Chegou até mim através de um retweet de uma amiga, que respondia à provocação da usuária compartilhando uma dessas situações absurdas com que teve que lidar diante de sudestinos. Eu, particularmente, acho essa categoria muito interessante por si só, pensando que é uma “identidade” que tenho visto pipocar principalmente no Twitter já há alguns anos, no mesmo tom desse tweet que chegou até mim. Acho que essa exploração já rende muita discussão, mas aqui tentei focar apenas neste caso.

Com as mais de 300 respostas que o tweet recebeu, além de os outros modos em que os usuários se apropriaram da mensagem (em resposta como retweet de citação), fiquei realmente curioso para descobrir quais eram esses absurdos. Vasculhando pelas respostas do próprio tweet e conhecendo também o contexto de ambas as categorias de sujeitos, já tinha algumas hipóteses: provavelmente muitas situações constrangedoras (para não falar revoltantes) sobre sotaque/modos de falar, estereótipos direta ou indiretamente associados a classe, etc. – toda a construção que evoca a imagem do nordestino no “encontro” com o outro.

Para testar essas hipóteses, fiz a coleta com o twint (script em Python que faz raspagem de dados do Twitter) de todos os tweets tanto em resposta ao tweet original quanto em formato de citação. Ao total, foram 1.542 tweets de 1.239 usuários diferentes – ou seja, bastante absurdo para ser investigado (embora não possamos afirmar que todos esses 1.500 tweets trazem mensagens correspondentes à proposta do original, visto que podem ser só respostas outras, comentários, etc.). A rede abaixo foi gerada com todo esse montante de dados, tratada no WORDij e elaborada no Gephi com técnicas direcionadas à análise de redes semânticas.

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A rede foi feita a partir da co-ocorrência entre os termos, ou seja, as conexões que se são representam uma certa “proximidade” disursiva. Foram, ao total após o tratamento, 472 palavras, cuja frequência está de acordo com o tamanho proporcional em que se apresenta na rede. Os laços (as conexões que ligam um termo a outro) também estão com certo peso evidente, conforme o tamanho das linhas – ou seja, quanto mais grossa, mais “forte” a conexão entre as palavras (aparecem juntas com mais frequência). As cores indicam os agrupamentos feitos através da modularidade (própria do software), e nos ajuda a encontrar alguns territórios semânticos específicos.

No entanto, este é um exemplo bem interessante de como a modularidade nem sempre dá conta de “compreender” a complexidade da rede. Os doze clusters identificados pelo software podem ser compreendidos, conforme a minha interpretação, da seguinte forma: desconhecimento/ignorância (29% dos termos, “perguntou” como referência); “elogios” ao revés (27%, “nordeste”); sotaque/fala (15%, “sotaque”); praia/turismo (7%, “pessoa”); comentários (6%, “sudestinos”); cenas do cotidiano (4%, “rua”); deboche/constrangimento (3%, “mudou”); banho (3%, “paulo”); matar (1%, “vontade”); trabalho (-1%, “respondi”); fenótipo (-1%, “olho”); noção (-1%, “nenhuma”).

Esses grupos delimitados por critérios mais quantitativos e identificados em seu contexto semântico/social a partir da minha própria interpretação são um bom direcionamento para entender algumas das respostas que encontramos, mas se os pensarmos individualmente acabamos por ignorar – e, de certo modo, até mesmo ter uma visão equivocada dos – discursos em suas multiplicidades. Em outras palavras, praticamente todos esses clusters (ou melhor, os termos que os constituem) dialogam uns com os outros (ou seja, com termos de diferentes clusters). E a própria configuração do modo como se apresentam foi uma decisão minha, após alguns testes.

O cluster laranja, por exemplo, que chamei de “elogios” ao revés, se estende por boa parte da rede, o que demonstra o quanto carrega certa coesão entre si, mas também tem ligação direta com outras palavras. Em sua localização mais acima, está associado a um determinado modo do que se espera de um nordestina – e diretamente também ligado especificamente à fala, o que corresponde à proximidade com o sotaque. Há, entretanto, para além da fala (que pode ser tanto em sua entonação “cantada” quanto em seu caráter mais distintivo, “educado”), uma associação também a um certo fenótipo racializado – e, aqui, em contexto de surpresa, de inesperado.

Mais abaixo, esse mesmo cluster ainda mantém sua proximidade (e conectividade) com as respostas que destacam especificamente o sotaque (“estranho”, “forte”, “diferente”, “feio”), mas já segue para outro caminho em direção a dimensões semânticas mais generalistas. Há uma aproximação tanto a certos termos relacionados a hábitos alimentícios quanto a algumas outras palavras mais soltas na rede, que ainda assim se localizam dentro de algumas características também estereotipadas. É o caso, por exemplo, da conexão com as perguntas sobre “água” e, mais abaixo, a peixeira e a canoa. Esses que se conectam com cenas do cotidiano e mitos do banho.

Do outro lado, mas ainda bastante ligado a esses outros dois maiores clusters, o azul que chamei de desconhecimento/ignorância (talvez por falta de palavras mais assertivas) também se expande por boa parte da rede, mas que – pelo menos na minha interpretação – tem como ponto de encontro a desinformação (ou estupidez mesmo). Aqui são os termos mais diretamente associados às situações do encontro, em que os usuários contaram as perguntas absurdas que tiveram que ouvir – e que, novamente, reproduzem estereótipos voltados sobretudo para um recorte de classe muito bem estabelecido, que deduz uma suposta carência da região Nordeste.

Um pouco mais distante do centro, é também esse cluster que aponta para mais uma fixão do estereótipo nordestino: o do local para turista ver (e visitar) – é como (e onde) surgem os termos sobre viagem, também ligados a algumas cidades e estados específicos. É também nesse contexto de visita que há um retorno à ignorância para as perguntas sobre “onde” exatamente no Nordeste, tanto por um desconhecimento da constituição geográfica da região quanto por uma generalização ignorante de que todas as pessoas que moram em cidades localizadas nela se conheceriam ou teriam algum nível de proximidade/intimidade.

Acho que vale ainda destacar que todos esses absurdos nem sempre são ouvidos sem com que as pessoas reajam de algum modo mais contundente. O cluster de comentários (“sudestino”, “ouvi”), por exemplo, aponta para o estafamento dessas situações e que dialoga diretamente com o grupo de deboche/constrangimento (“assustado”, “vergonha”). Ou seja, quem fala o que não deve ouve o que não quer: nordestinos, justamente nessas situações constrangedoras/desgastantes, operam astuciosamente para não apenas se livrar daquele desconforto, mas para transferi-lo diretamente para quem os colocou nessa posição.

É uma rede que com certeza pode ser ainda mais (e melhor) explorada e assim pretendo fazer em outra oportunidade mais propícia. Quis trazer aqui para já levantar alguns apontamentos e percepções iniciais, que dialogam também com meu projeto de mestrado. Como próximo passo, talvez tentar ir ainda mais a fundo em todas as nuances das respostas e já dialogar com alguns autores que pensaram esse preconceito de origem geográfica e de lugar, sem perder de vista seu assentamento em classe e raça. No mais, problematizar também os benefícios e os limites da metodologia de análise de redes semânticas.

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Um comentário

  1. Eu do lado de um sudestino querendo que ele se afastasse um pouco de mim, disse: Da pra Arredar um pouco !

    O sudestino respondeu carregado de deboche e preconceito: Arredar é o quê?

    xxxxx

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