Opinião

Não deixem o Twitter morrer: reflexões sobre usuários e desafios

Quando criei minha conta no Twitter em janeiro de 2009, não sabia muito bem como aquilo funcionava. As primeiras pessoas que passei a seguir foram conhecidos da internet (de jogos online ou de comunidades do Orkut), amigos do colégio (poucos, no máximo cinco) e celebridades (que o próprio Twitter me recomendou). Hoje, seis anos depois (de falar muita besteira, porque é o que se faz na adolescência), o site e a plataforma de rede social mudou bastante, mas a essência continua a mesma: fazer parte da conversa.

O Twitter, se me permitem a analogia, me parece um imenso chat mundial no qual as pessoas se conectam em espaços virtuais para fomentar uma conversa. O “caráter de tempo real e sensação de comunidade e pertencimento nas conversações”, como perfeitamente caracteriza Tarcízio Silva, é o que torna o Twitter tão agradável e único: são pessoas desconhecidas falando sobre um mesmo assunto em um determinado espaço de tempo específico. E talvez seja essa liberdade de falar com desconhecidos que permite que as pessoas se expressem sem medir palavras (e/ou sem ter que se preocupar com familiares comentando e julgando qualquer atualização de status).

No Twitter você pode cantar uma música; retuitar contas engraçadas (o que seria do Buzzfeed se não existissem pessoas criativas no Twitter fazendo metade do trabalho por eles?); comentar sobre a Copa do Mundo ou sobre a final do Masterchef; mandar uma indireta para um certo arroba; comentar sobre o novo trailer de Star Wars no momento exato em que ele foi liberado com pessoas de diferentes lugares; e muito mais. O que diferencia o seu uso para essas práticas do uso do Facebook, por exemplo, é justamente o que foi citado anteriormente: o caráter de tempo real e a sensação de comunidade e pertencimento nas conversações.

Por exemplo, uma das minhas professores da faculdade, quando acontece algum evento televisivo como o The Voice Brasil, cria uma publicação em seu perfil no Facebook e convida seus amigos para comentarem o programa junto a ela – naquela mesma publicação. A diferença é que o Twitter favorece esse modelo de conversação pelo modelo no qual a plataforma está estruturada – além de os comentários serem feitos em tempo real e em ordem cronológica, uma fala específica de um usuário pode saltar para outro ambiente virtual graças a um RT (de modo aberto, diferente do compartilhamento). E é nessa troca descontraída de mensagens sobre um mesmo assunto que se cria a sensação de comunidade (ou o movimento de indiretas para “o outro site”.

Hoje, identifico no Twitter os seguintes grupos de pessoas (como usuários relativamente ativos):

  • Fandoms: pessoas que participam de algum grupo de fãs de forma direta ou indireta – e aqui vale ressaltar o teor duplo dessa característica, já que pessoas com contas “fãs” podem comentar sobre os mais diversos assuntos (fãs de Demi Lovato falando sobre a Kéfera); assim como um grupo aleatório de pessoas pode, por um momento, caracterizar-se como um fandom (pessoas que sigo por motivos distintos comentando o trailer de Star Wars, por exemplo). Camila Monteiro, que conheci e acompanho graças ao Twitter, tem trabalhos muito interessantes sobre esses comportamentos no ambiente digital – aqui tem um e aqui tem outro.
  • Amigos virtuais: pessoas que criaram um laço de relacionamento dentro da plataforma digital através da troca de mensagens (por compartilhar dos mesmos interesses, por exemplo).
  • Amigos e conhecidos da vida real: pessoas do trabalho ou da faculdade que encontraram o seu Twitter e você teve que seguir de volta por educação.
  • Profissionais da sua área de interesse/atuação: pessoas que você segue por admiração ao seu trabalho e que compartilham materiais relevantes para a sua formação e crescimento profissional.
  • Veículos de comunicação: sites e blogs de notícias gerais (G1) ou de tema específico (Omelete).
  • Celebridades: pessoas que você segue porque é fã e quer ser notado ou porque ela é Camila Pitanga/Luana Piovani.

Mas, então, dentro desse contexto de “tipos” de usuários (e aqui ressalto que não quero rotular ninguém, mas criar uma espécie de nível classificatório para entender o ambiente), como o Twitter pode enfrentar a crise que demitiu 366 funcionários no mundo inteiro? Talvez o primeiro passo seria decidir se ele pretende se tornar uma rede de nicho, como o Tumblr, ou uma rede “de massa”, como o Facebook. Principalmente porque grande parte do sucesso do Facebook se dá pelo investimento de pequenas e médias empresas na plataforma, que tem cada vez mais encorajado e facilitado o uso de suas ferramentas de anúncios para esses negócios.

Caso o Twitter se contente em ser uma rede social “de nicho”, com usuários mais “qualificados” (a plataforma não é favorável para aquele usuário menos assíduo da internet e de redes sociais, é preciso admitir), talvez a solução esteja em trabalhar com criadores de conteúdo. Isso significa fomentar a conversa e a participação de usuários do primeiro grupo que mencionei, já que a plataforma foi uma das primeiras que permitiu uma conversa direta entre ídolo e fãs. Mas isso também significa saber identificar e estimular seus influenciadores, trabalhando a plataforma não apenas como um canal, mas também como um produto a ser utilizado – e, para isso, o Niche será um bom começo.

Como o site não pode viver apenas de celebridades em diferentes níveis (até porque são pessoas, e pessoas são inconstantes), o segundo ponto focal deve ser o das conversações. O Facebook pode até tentar, mas o Twitter precisa se manter unânime na disputa pela segunda tela. Grandes eventos esportivos ou de entretenimento podem significar oportunidades para as marcas (e aqui, infelizmente, são apenas marcas de médio a grande porte) entrarem na conversa sem serem rudes. Para além disso, os assuntos do “momento” – como o meme da “Senhora?” que, sim, nasceu no Twitter – também geram interação dos usuários e podem servir para anunciantes.

A volta de Jack Dorsey e a demissão dos mais de 300 funcionários significa que o Twitter está, sim, em crise. E isso não significa decrescer, mas, no mercado de gigantes como Facebook e Google, estagnar não é uma opção. Infelizmente, o site de rede social ainda é uma empresa que visa lucros para seus acionistas e, para isso, precisa pensar em como fazer dinheiro. Entretanto, seus usuários não o encaram apenas como um canal de comunicação, mas como um produto que usam, gostam, aprovam e recomendam – assim como os fãs da Apple – e qualquer mudança drástica poderia significar uma grande perda para a plataforma. A questão é: será que os responsáveis estariam dispostos a perder uma enorme quantidade de usuários “qualificados” para atrair novos usuários “dispersos”? Espero que não.

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