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Marcha das Mulheres e mobilização online: debate, união e resistências, por Anna Martinez

[Texto escrito por Anna Carolina Martinez, graduanda em Estudos de Mídia na UFF]

A Marcha das Mulheres chegou até mim já pronta, articulada e no ápice de sua repercussão. No dia, abri o Facebook e me deparei com muitas imagens, vídeos e notícias sendo compartilhadas, e as inúmeras marchas em defesa aos direitos das mulheres e minorias que enchiam a minha timeline também me encheram de novas esperanças – parece clichê, mas não é. O feminismo é um tema bastante importante para mim, e ter recebido o convite para pensar nesta mobilização em que ele é central com o olhar das mídias sociais foi, sem dúvida, um presente.

No entanto, até começar a pesquisar para esse post, não tinha percebido o processo que já acontecia antes mesmo da Marcha ir para as ruas. Toda a estruturação desse movimento sócio-político já eram visíveis: discussões, resistências, debates, e articulação de uma ação-resposta mais significativa já apareciam nas redes sociais desde as eleições presidenciais dos EUA. Vejo a Marcha das Mulheres como parte de um longo processo de resistência, e gostaria de focar na importância da internet nisso tudo. Esta pode ser uma ferramenta bastante útil para a percepção de mudanças culturais, políticas e sociais antes mesmo de virem a tona no ambiente offline.

Uma breve retrospectiva pré-Marcha

Em novembro de 2016, Donald Trump venceu a eleição norte-americana contra Hillary Clinton ganhando não apenas poder político, mas um poder simbólico enorme que reforça seus valores e discursos. O problema é que estamos falando de um homem envolvido em várias polêmicas, com declarações racistas, xenófobas e sexistas, e que não tem problema nenhum em expor isso em entrevistas e campanhas. Por mais que ele deixasse claro não se importar com as pessoas que agredia com suas declarações, essas pessoas se incomodaram e utilizaram dos recursos que tinham para responder.

Os sites de redes sociais se tornaram um intenso “campo de batalhas”. Cada discurso desrespeitoso de Trump gerava uma chuva de mobilizações, respostas indignadas e revolta. Acredito que, às vezes, o opressor ‘ajuda’ a motivar a união dos grupos oprimidos a lutar, e foi exatamente isso que aconteceu. No dia seguinte da posse do novo presidente, mais de 3 milhões de pessoas, no mundo, foram para as ruas lutar por seus direitos, acontecia a Marcha das Mulheres.

Marcha(s) das Mulheres

No dia 21 de janeiro de 2017, as “Marcha das Mulheres” lotaram as ruas de várias cidades no mundo lutando pela voz que estavam tentando calar. A multidão com gorros de lã rosa com duas pontas era composta por mulheres, homens, e crianças. Juntos somavam mais de 500 mil manifestantes só na capital Americana – 200 mil a mais que os presentes no Capitólio e no National Mall para a posse do Presidente Trump. De acordo com os organizadores da Marcha, havia mais de 3 milhões de manifestantes em várias cidades dos Estados Unidos e também em outros países. Segundo o jornal Folha de São Paulo, na Europa, foram realizadas marchas em Londres, Berlim, Paris, Roma, Viena, Genebra e Amsterdã.

Na capital britânica, manifestantes relataram a participação de mais de 100 mil pessoas. Quênia e África do Sul representaram o continente com centenas de pessoas cantando músicas de protesto. E ainda houve passeatas em Tóquio, Sidney, Nova Zelândia, Rio de Janeiro e – pasmem – Antártica! Ao todo, estima-se que foram mais de 600 Marchas das Mulheres no mundo. O objetivo delas eram “o mesmo”: defender os direitos das mulheres e das minorias. Era uma reação aos comentários misóginos feitos por Trump, além das promessas de medidas contra o direito ao aborto, discursos de racismo, xenofobia, acusações de assédios e envolvimento em inúmeras polêmicas.

Falando em reação aos comentários de Trump, gostaria de apresentar uma curiosidade sobre símbolo das marchas: o gorro cor-de-rosa em formato de orelha de gatinho faz parte do projeto “Pussyhat Project” (Projeto ‘chapéu de buceta’ – tradução livre – é um trocadilho, pois a palavra em inglês “pussy” tanto pode significar gatinho quanto a forma pejorativa de se referir a vagina.). Trata-se de uma campanha a qual incentivava as mulheres a tricotarem gorros de lã cor de rosa com duas pontas para usarem ou distribuírem no dia da passeata. Os gorros fazem referência ao vídeo vazado de Trump no qual ele aparece falando “Quando você é uma estrela, elas te deixam fazer qualquer coisa. Pegue-as pela buceta”.

Por mais que a frase acima tenha indignado muita gente, nem todas puderam estar nas ruas somando à multidão. Felizmente isso não foi impedimento para acompanhar e participar das manifestações. As inúmeras marchas foram compartilhadas e transmitidas ao vivo no Youtube e nas mídias sociais, tanto por manifestantes quanto pela imprensa – e me atrevo a dizer, inclusive, que isso permitiu que a resistência das ruas e de rede atuassem juntas, aumentando o alcance de pessoas na mobilização. A própria Hillary Clinton foi uma que se aproveitou dessa extensão e tuitou agradecendo e apoiando a Marcha.

Além dela, outras personalidades e famosos se posicionaram, estiveram nas manifestações, postaram fotos, frases de apoio, e discursaram: Gloria Steinem, Angela Davis, Madonna, Scarlet Johanssen, Miley Cyrus, Rihanna, Alicia Keys, Cher, Helen Mirren, Katty Perry, Kristin Stewart, Julianne Moore, Michael Moore, Amy Schumer, Chimamanda Ngozi Adichie, além de inúmeros jornalistas e os demais presentes. Dentre todos os discursos feitos, gostaria de dar destaque a uma fala em Washington feita por uma das feministas mais importantes da história, Angela Davis:

“Esta é uma Marcha das Mulheres e ela representa a promessa de um feminismo contra o pernicioso poder da violência do Estado. E um feminismo inclusivo e interseccional que convoca todos nós a resistência contra o racismo, a islamofobia, ao anti-semitismo, a misoginia e a exploração capitalista.”

Particularmente, acredito que essas palavras ilustram muito bem a essência do movimento. O caráter inclusivo e interseccional faz com que vozes com diferentes pautas, vivências, e que por muitas vezes são silenciadas possam falar. Demonstra que a multidão está ali por um propósito: a luta por direitos, a busca por mudanças socio-políticas positivas para as mulheres, agregar mais pessoas à luta, e um posicionamento contra o discurso do atual presidente – na entrevista em que as organizadoras da Marcha em Idaho fizeram elas falam exatamente sobre isso. Não diferente do que um regime opressor pede, ela encerra seu discurso da seguinte maneira:

“Os próximos 1459 dias da gestão Trump serão 1459 dias de resistência: Resistência nas ruas, nas escolas, no trabalho, resistência em nossa arte e em nossa música.”

Feminismo e a importância do debate online

Após um melhor entendimento do que foi a manifestação e seus propósitos, voltemos ao foco deste post: o papel da internet nesse processo. Através dos sites de redes sociais, principalmente, é possível identificar quais são os assuntos mais relevantes e como eles tão sendo abordados, – quais são as hashtags que estão sendo mais usadas no Twitter, qual o tema mais pesquisado no Google, por exemplo – e  a partir disso, analisar  se as interações das pessoas estão sendo relevantes a ponto de gerar questionamentos sobre estruturas políticas, culturais e sociais. Utilizo da frase de Richard Rogers – em tradução livre – para me expressar melhor:

“A questão não é mais saber o quanto da sociedade e da cultura está online, mas sim como diagnosticar mudanças culturais e condições da sociedade através da internet.”

O acompanhamento dessas mudanças permite esse diagnóstico, e assim foi feito com a Marcha, diversos sites fizeram pesquisas monitorando o processo para entender melhor a situação – alguns deles foram Wired e Crimson Hexagon. E o que pude notar desse cenário é que o espaço que o feminismo ganhou nesses últimos anos fez toda a diferença para que essa marcha tivesse acontecido. Mesmo com várias outras pautas tão importantes quanto, o feminismo foi o anfitrião da Marcha das Mulheres, por isso daremos uma atenção especial a ele nesse momento – vale ressaltar que o feminismo não é um movimento homogêneo, pelo contrário, tem várias vertentes, o feminismo negro; interseccional; liberal; radical; marxista; são alguns exemplos.

O tema começou a ter destaque nas redes sociais no final de 2014, mas seu ápice aconteceu em 2015 – é possível ver esse crescimento no infográfico feito pela ONG Think Olga. Foi o ano de youtubers tratarem sobre o assunto, campanhas, hashtags, denúncias e respostas espertas a machismos em geral pipocarem na internet. Assim, o movimento se popularizou na rede e mostrou o quanto o debate era necessário e as situações estavam mais presentes do que imaginávamos. A internet propiciou que sites de redes sociais se tornassem espaços de reflexão e disputas simbólico-discursivas.

Em 2015, com todas essas ações e muitas identificações com os casos, começaram a surgir grupos para discutir e tentar entender o que é feminismo, falar sobre as situações passadas, tirar suas dúvidas, expor suas histórias, ouvir, apoiar e acolher de outras, combater as opressões. De alguma forma, essa crescente deu força para questões antes deixadas de lado viessem a tona, as mulheres buscassem saber mais sobre seus direitos e, juntas, fossem se respeitando mais e lutando por igualdade. Começava a se estruturar um movimento social.

“seria possível compreender uma ação online coletiva – que tenha como característica o ímpeto de transformação no âmbito social e não unicamente histórico – como parte ou o próprio movimento social. Por esse ângulo, seria aplicável o termo “movimento social” em ações coletivas na Internet que marcam o recente revigoramento do movimento feminista.” (SANTINI; TERRA; ALMEIDA, 2016)

Uma dessas ações coletivas bastante difundida foi a campanha #primeiroassedio. A #primeiroassedio foi criada pela própria ONG, após diversos comentários maldosos e fetichizados sobre uma participante do programa Master Chef Junior. A campanha incentivava mulheres a denunciar seus primeiros casos de abusos e/ou assédio. Este é um trecho da pesquisa que a ONG Think Olga fez em 2015 sobre ela:

“De acordo com o Google Trends, a hashtag #primeiroassedio, por exemplo, teve mais de 11 milhões de buscas relacionadas no buscador. Algumas procuravam saber o que era assédio, como ele acontece no trabalho, etc. Informações poderosas e transformadoras, ao alcance de um clique, encontradas pelo incentivo de uma simples hashtag.”

Eu mesma vi muita gente amiga expondo suas histórias com essa campanha, e o que eu posso te dar certeza é que muitas delas nunca tinham falado abertamente sobre isso. O que isso mostra é que o silenciamento da vítima  – seja por medo, vergonha, nojo, não importa – é uma realidade e essas campanhas serviram como uma forma de incentivar a falar. Foi algo que mexeu tanto com todos que tinham acesso a situação que o debate se tornou necessário, tanto para quem contava seu relato, quanto para quem lia. O assunto tabu acabou se tornando o mais falado, dentro e fora da internet.

Apesar da grande repercussão essa foi só uma das muitas campanhas que tiveram, o momento ficou propício e com isso surgiram várias outras denúncias e debates relacionados a assédios e violências contra a mulher. Infelizmente, foi fácil perceber que muitas mulheres sequer sabiam que o que passavam era um tipo de agressão ou assédio de tão naturalizado o machismo diário. Por outro lado, foi o momento que mais houve mulher querendo se ajudar, saber dos seus direitos, debatendo sobre os temas e se empoderando.

Não era de se espantar que da mesma forma que tiveram apoiadores, muitos se manifestaram contra as campanhas e aos relatos. Era comum ver falas como “ativismo de sofá”, “mimimi’, “modinha”, e “não vai dar em nada”. No entanto, o que essas pessoas não pararam para pensar é que política – em seu sentido mais amplo – é configurada a partir de disputas discursivas, é construção simbólica. Complementando o pensamento:

“Decisões políticas, sejam elas na forma de legislação ou políticas públicas, não são tomadas da noite para o dia, e necessitam, muitas vezes, de mobilização, pressão popular e debate público para sair do papel.” (FREIRE, 2016)

Por isso o debate público é tão importante, é um primeiro passo para que haja mudanças positivas. E, pelo mesmo motivo, tem muita gente não quer o debate. Não é todo mundo que tem interesse que esses assuntos venham à tona – o feminismo ainda incomoda e não é à toa: aciona gatilhos, remexe as feridas, gera revolta entre opressores e também entre os próprios oprimidos. Isso explica porque sempre haverá contra-ataque. Não é incomum responderem com ameaças, repressão e tentativas de silenciamento – é estratégico.

Agora que já está ciente disso, faço um apelo: se você que está lendo falou alguma dessas frases e não tinha a intenção de prejudicar ninguém, por favor, preste atenção – além de não estar incentivando o debate sobre o tema, essas falas desmerecem a vivência da vítima e propagam o silenciamento. Por mais que não concorde ou entenda, respeite o momento de fala dessas pessoas. Esses muitos debates e campanhas dão resultados, vide a Marcha.

Mudanças significativas no período dos debates coletivos acerca do feminismo

Antes dos exemplos gostaria de começar apresentando uma pesquisa que acredito ser bastante pertinente para nós que estamos tratando sobre um movimento de luta por mudanças políticas, sociais e culturais. O  “Mapa da violência 2015”, reuniu dados a respeito do Homicídio de Mulheres no Brasil –  feminicídio. O autor, Julio Waiselfisz, defende em seu texto que a normalidade da violência contra a mulher no horizonte cultural do patriarcalismo justifica, de certa forma “autoriza” que o homem pratique essa violência, com a finalidade de punir e corrigir comportamentos femininos que transgridem o papel esperado de mãe, de esposa e de dona de casa. Essa mesma “lógica justificadora” é utilizada quando a violência parte de desconhecidos.

Em outras palavras, a naturalização das violências sofridas pela mulher na sociedade que vivemos é cultural. Estruturalmente o homem se sente confortável e autorizado para agredir e reprimir por não estar ‘do seu gosto’. Por isso é tão comum ver incômodo com discursos que buscam essa mudança, e repressão aos movimentos como o feminismo que lutam por direitos e para mudar essa estatística. A fala de Waiselfisz (2015) só enfatiza a importância dos debates e das mobilizações tanto online quanto offline. Primeiro porque, como vimos, o debate online pode ser um primeiro passo para mudanças ‘reais’, e segundo porque as violências são visíveis nos dois meios.

Já que anteriormente falamos como foi possível perceber a condição de silenciamento das vítimas de violência através campanhas online, a primeira mudança significativa que quero dar atenção, a quebra da “espiral do silêncio”.

“Segundo Noelle-Nuemann (2005), quando um indivíduo silenciado encontra “parceiros verdadeiros” que compartilham de sua experiência ou de sua opinião, são capazes de resistir à pressão do grupo e escapar do medo do isolamento.” (SANTINI; TERRA; ALMEIDA, 2016)

A quebra da “espiral do silêncio” com a campanha online só foi possível, portanto, porque a iniciativa da ONG com a hastag inspirou mulheres a falar, se sensibilizar, contar as experiências, em muitos casos se expor, ler e se identificar com as falas de outras e isso instigou a todos. Normalmente, nos perfis de redes sociais estão presentes vários tipos de laços afetivos, familiares, amigos, colegas, às vezes, até mesmo o agressor, e que não esperavam se deparar com um relato de alguém “conhecido”, muito menos quando vê a timeline cheia de casos. Esse choque de realidade acabou provocando uma grande repercussão, e tornou possível que o movimento se espalhasse amplamente na rede. Surge aí uma ‘campanha-meme’:

Mais do que apenas campanhas virais, compreendemos tais iniciativas como memes, sobretudo, pelo seu poder de construção que parte de um ato individual, mas ganha uma dimensão coletiva, capaz de mobilizar, impactar outras pessoas e até gerar um debate público sobre o tema. (FREIRE, 2016)

E os diferentes tipos de laços afetivos que citei acima são bastante importantes para as ‘campanhas-meme’ darem certo. Segundo Crossley (2015), seus amigos no Facebook são divididos em os laços fortes, responsáveis por cultivar o sentimento de comunidade e organizar ações coletivas (família e amigos próximos, por exemplo); e os laços fracos – aqueles colegas restantes do Facebook que você mal fala mas estão presentes – que criariam oportunidades para expandir a ação para um grande número de pessoas com as quais eles não entram em contato fora da rede social. Com isso, a internet se torna ideal para o nascimento de inquietações sociais.

Esse período de mudanças comportamentais, sociais e políticas, de empoderamento em rede, tornou o momento favorável para a sanção da Lei 13.104/2015, a Lei do Feminicídio – ainda sujeita a críticas e controvérsias mas um avanço em comparação ao que tínhamos até então – e mais, foi possível registrar um aumento significativo de denúncias de violência contra a mulher. Segundo o Balanço da Central de Atendimento a Mulher, houve um aumento em 40% do número de denúncias no disk 180, Canal de Atendimento à Mulher da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Por mais que seja um dado triste e preocupante, ao mesmo tempo é visível o rompimento do silenciamento. Para quem desconhece, o serviço é gratuito e funciona 24 horas por dia todos os dias.

Felizmente, as mudanças positivas não pararam. Com o intuito de mapear os casos de violência, facilitar o socorro, zelar pela segurança, e até outras pautas de direitos da mulher várias ONGs ou jovens engajados na causa investiram na criação de aplicativos. Um deles foi o “Chega de Fiu fiu”, criado para lutar contra o assédio sexual em locais públicos:

Foi por meio de seu envolvimento com um projeto intitulado “Chega de FiuFiu”, promovido pelo coletivo “Think Olga”, que uma adolescente de 17 anos desenvolveu um aplicativo para celulares no qual qualquer mulher que se sentir assediada, seja verbal, visual ou fisicamente, pode registrar o local onde aconteceu o assédio e informar outras mulheres de que naquele lugar assédios são frequentes. O objetivo, a priori, é dar voz a vítimas de assédio e, a posteriori, oferecer às autoridades competentes números a respeito dos assédios sofridos todos os dias nas ruas das cidades brasileiras. (COELHO, 2016)

Além dessas tiveram muitas outras mudanças relevantes, mas pedimos licença para não ter o trabalho de elencá-las todas aqui. Citei só algumas para mostrar que o debate online com toda a mobilização foi essencial para que fosse possível ‘tirar do papel’, já que abriu os olhos de muita gente e agregou muitas mulheres a causa. Conseguiram criar um momento propício para ampliar a rede de discussão, virou pauta também em programas de TV, campanhas publicitárias, músicas, filmes, artigos, e políticas pelo direito da mulher.

E o que esses exemplos têm a ver com o monitoramento da Marcha das Mulheres?

A Marcha foi uma ação de grandes proporções mas que não aconteceu de uma hora pra outra, vem de um processo. O “terreno” já estava sendo preparado há anos. Os debates online estão proporcionando ações offline, estão quebrando silêncios, aproximando pessoas de diferentes lugares do mundo, dando mais coragem a quem sofre qualquer tipo de violência a denunciar, uma série de relatos estão aparecendo, aplicativos sendo criados, etc. – e todo esse boom são mudanças sociais, culturais e políticas. Estamos gerando dados qualitativos e quantitativos – o tempo todo – e estes tendo a devida atenção, sendo mapeados, poderão ajudar muito. Eles não só são essenciais para entendermos a situação mas podermos agir da melhor forma.

Retomando a fala de Richard Rogers, ainda há certo ceticismo por parte de algumas pessoas até politicamente engajadas sobre a efetividade dos debates online. Reclama-se muito dos textões e da banalização das problematizações exacerbadas nos tempos de hoje. No entanto, citando desta vez Christine Hine, a internet já não é mais uma “porta de entrada”, mas uma experiência vivida incorporada, corporificada e cotidiana. Entendendo que a cultura é um compilado de disputas simbólicas pessoais e estruturais, precisamos sim reforçar um discurso contra-hegemônico que dê voz a grupos historicamente silenciados que precisam se impor para (des)construir um cenário que os violentam simbólica, física e estruturalmente. Nesse sentido, o debate do feminismo nas mídias sociais vêm como forte capacitador.

Pode parecer muito otimista, mas essa brecha que foi aberta e segue forte como resistência graças à aglomeração nas mídias sociais pode ser um forte aliado à luta das mulheres. Além do alcance (que resulta em conscientização), a internet tem o poder de impulsionar. Segundo uma análise feita pela Crimsom Hexagon, no dia 21 de janeiro de 2017, foram mais de 11.5 milhões de posts feitos nas mídias sociais – 1.5x mais volume do que o dia da posse. Curiosamente, foi também nesse momento que os sentimentos de medo e nojo que predominaram no período das eleições perderam espaço para um sentimento completamente oposto, de alegria: “na esperança de transformar o negativo no positivo, ativistas em todo o país (e no mundo) começaram a organizar protestos que pudessem purificar o medo, a raiva, a tristeza e a frustração em algo mais potente e proativo.”

Nada disso é um mar de rosas e estamos cientes disso, cada linha desse texto só mostra que a violência contra a mulher está presente e que tem muita luta pela frente. Sempre vai ter gente querendo silenciar, ridicularizar ou diminuir, porque é estratégico. O silenciamento é proteção para quem oprime e não para o oprimido. O debate cada vez mais se faz necessário. E estar atento ao que está em voga, sendo discutido, produzido, aos coletivos, aos grupos de debates, é estar um passo à frente dos acontecimentos. Utilizar a internet ao nosso favor, diagnosticando essas mudanças de antemão, faz toda a diferença para saber como agir de forma estratégica. Acho que mais do que nunca, isso está claro.

As informações estão aí para quem quiser ver, agora saber o que fazer com elas é extremamente pertinente pro momento em que vivemos. Sempre vale lembrar que da mesma forma que a ferramenta está disponível para resistência está para a opressão. Fiquemos atentas(os)!

Referências

COELHO, M. P.. Vozes que ecoam: Feminismo e Mídias Sociais. Pesquisas e Práticas Psicossociais, v. 11, p. 1, 2016.

CROSSLEY, Alison. Facebook feminism: social media, blogs, and new technologies of contemporary u.s. feminism. Mobilization: An International Quarterly, v.20 (2): p. 253-268, 2015.

FREIRE, Fernanda. Campanhas feministas na internet: sobre protagonismo, memes e o poder das redes sociais. Em Debate, Belo Horizonte, v.8, n.5, p.26-32, jul. 2016.

Santini, Rose Marie; TERRA, C.; ALMEIDA, A. R.. FEMINISMO 2.0: A MOBILIZAÇÃO DAS MULHERES NO BRASIL CONTRA O ASSÉDIO SEXUAL ATRAVÉS DAS MÍDIAS SOCIAIS (#PRIMEIROASSEDIO). P2P & Inovação, v. 3, p. 148-164, 2016.

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