Análises

Mapeando o Nordeste no Facebook: primeiros apontamentos com análise de redes sociais

Embora possa por vezes parecer eterna ou natural aos brasileiros, a ideia de Nordeste é de pouco mais de um século, sua origem remontando à reação política ao desmantelamento das economias do açúcar e do algodão e à busca de uma solução para a crise enfrentada conjuntamente pelas províncias brasileiras que delas dependiam. É somente nesse momento que começa a ruir a percepção provincial então vigente e que se elabora um discurso regionalista e nordestino, o qual se define e se afirma não apenas em oposição ao seu “outro” mais próximo – o ‘Sul’ cafeeeiro –, mas também em relação a um passado de suposto bem estar e harmonia. É através desse discurso e das ações oficiais dele derivadas que se demarca o espaço do que é Nordeste e se conforma uma identidade cultural nordestina, a qual legitima e representa, simbolicamente, aquele espaço. (ANJOS, 2000, pp. 47-48).

É extremamente difícil pensar que o Nordeste, assim como qualquer outra região/país/território, é apenas uma categoria discursiva. Isso não quer dizer que ela exista apenas no mundo semântico (das ideias), mas que ela se materializa nas nossas dinâmicas sociais através de um “ato mágico” performático que nos convenciona, enquanto seres humanos inteligíveis, um acordo sobre como entendemos as delimitações do espaço físico. A própria etimologia da palavra “região” traz consigo a ideia de regere sacra: uma espécie de crença mágica que confere àquele que está regendo uma autoridade/legitimidade que se faz acreditar nessa regência (e isso é Bourdieu explicando, não eu). A partir dessa discussão, Silva (2009, p. 20) explica que:

O Nordeste, nessa concepção, constitui-se como região a partir do trabalho de criação de determinados setores sociais que se relacionam em um espaço específico. Também compõem com outras áreas um conjunto nacional politicamente definido por grupos que o reconhecem como espaço construído em seu processo de produção material e cultural, através da qual se articula com o capital e com o Estado, formando uma entidade político-administrativa.

Se o Nordeste, portanto, é uma construção social fundada atos performáticos sobre os quais acordamos culturalmente, o que acontece com a sua noção “material” – no sentido físico, territorial – quando surgem novas esferas de comunicação que já atravessam e constituem parte da nossa vida cotidiana? Essa é uma pergunta extremamente complexa que não cabe a mim responder neste simples post. O meu interesse nesse contexto surge a partir de um viés bastante específico: a noção de identidade nordestina. Afinal, assim como o Nordeste, esta foi construída social e historicamente nos últimos 130 anos a partir de diversas conjunturas discursivas (e midiáticas) que estabeleceram, para tal, apontamentos bem específicos do que representava (e esta palavra é importante) ou não o ser nordestino.

O que tem se convencionado enquanto identidade nordestina, com o famigerado advento das novas tecnologias de comunicação e informação, é reconfigurado de alguma forma? Como as novas dinâmicas sociais de produção cultural alteram (ou não) os formatos impingidos aos nordestinos durante as últimas décadas? Essas são algumas perguntas que norteiam o meu trabalho de conclusão do curso de Estudos de Mídia, na UFF. Embora o projeto ainda esteja, metodologicamente, em seu formato embrionário, um pressuposto óbvio para discutir a identidade nordestina nos sites de redes sociais é localizar a categoria – e o Nordeste, de maneira geral – no ambiente online (mais especificamente no Facebook, por ser a mídia social mais popular do Brasil).

O propósito deste post, portanto, é apresentar os resultados iniciais (bem iniciais mesmo) desta minha difícil missão. Para enfrentar esse desafio, optei pela metodologia de análise de redes sociais – técnica que me permite localizar no Facebook praticamente todas as páginas que tragam alguma associação direta com o Nordeste ou com a identidade nordestina. Uma vez que a identidade nordestina é construída discursivamente através de recursos ancorados na repetição de certos valores simbólicos, identificar quem são os principais atores online que trabalham ativamente para a produção dessa construção que estimula (reforça) uma identificação dos usuários com a identidade é o primeiro passo para diagnosticar quais novas lógicas operam esse jogo de sociabilidades.

Para gerar a rede (sobre a qual explicarei e descrevei com mais detalhes a seguir), percorri os seguintes passos: 1) com a ajuda da Netvizz, fiz três buscas de páginas sobre o meu escopo de pesquisa: uma para “Nordeste”, outra para “Nordestino” e outra para “Nordestina” (a variação do plural também é captada pela ferramenta); 2) com as três listas em mão, organizei e limpei os dados para encontrar as páginas mais relevantes (removi páginas pequenas e outros lixos) sobre o tema, encontrando 139 resultados; 3) com a técnica de bola de neve (snowball), documentada por Richard Rogers (DMI) nos seus estudos sobre métodos digitais, encontrei mais 125 páginas a partir das conexões do grupo de páginas-semente. Para explicação mais detalhada sobre esse procedimento, ver Alves (2017, p. 109).

Com a lista completa de páginas sobre o Nordeste e/ou a identidade nordestina, totalizando agora 265 canais, fiz o download dos módulos de “curtida” de cada página também com a Netvizz. De maneira simples, funciona da seguinte forma: cada página do Facebook possui um ID que, através da ferramenta, é possível gerar um arquivo específico que traz consigo as conexões da página em questão com outras páginas que essa “curte” (assim como os usuários, as páginas também têm a opção de curtir outras páginas). Com todos esses arquivos em mãos, pude trabalhá-los diretamente no Gephi, programa específico para análise de redes. O resultado “final”, 5.100 nós (páginas) e 18.456 arestas (conexões), apresento abaixo:

A plotagem da rede foi gerada no Gephi a partir do layout ForceAtlas 2, conforme descrito por Alves (2017, p. 110): “esse processo cria um desenho de rede no qual os nós com mais ligações são atraídos para o centro e os menos conectados são repelidos para as margens”. Marquei a opção de “gravidade mais forte” porque a rede não apresentava alta densidade, ou seja, não havia uma mobilização orquestrada em prol de algum assunto específico – eram apenas algumas milhares de páginas centradas numa temática em comum. Além disso, também não é do meu interesse direto analisar o posicionamento dos clusters, a disposição espacial da rede, sendo suficiente para a minha proposta uma simples interpretação dos grupos formados – para então localizar atores influentes.

Na imagem acima, os clusters representam esses agrupamentos (classificados de maneira estatística pela própria ferramenta) coloridos. As cores foram selecionadas de maneira arbitrária, somente para representar os grupos reconhecidos pelo Gephi: 1.205 (23,63%) páginas no lilás, 959 páginas (18,8%) no verde, 540 (10,59%) no azul piscina, 493 (9,67%) no preto/cinza escuro, 401 (7,86%) no laranja, 221 (4,33%) no rosa e 207 (4,06%) no esmeralda. Os nós maiores, em formato circular, são as páginas com maior PageRank, métrica que leva em conta a centralidade e o peso das arestas – de maneira geral, ela identifica quais páginas recebem conexões mais relevantes dentro do próprio grupo.




Não me aprofundarei numa descrição dos clusters acima porque, além de serem relativamente auto-explicativos em seus exemplos apresentados, os dois grupos que mais aparentam relevância para o meu projeto são o lilás e o preto/cinza escuro. Neles estão presentes – além de algumas páginas que refletem gostos e valores culturais (até políticos) interessantes para possível discussão posterior – atores que trazem consigo o discurso mais vívido acerca do Nordeste e do ser nordestino. Para melhor visualização desses grupos, expandi um pouco a rede e ajustei os rótulos (desta vez proporcionais de acordo com a métrica grau de entrada) conforme representados nas imagens abaixo:



 

Tomando como base esses dois clusters, consegui identificar quais são os principais atores a propagar noções da identidade nordestina no Facebook. Para tal, exportei uma tabela com todos nós dos grupos e organizei na ordem da métrica talking_about_count. A minha ideia aqui em priorizar essa medida é priorizar as páginas onde há uma conversação contínua acerca dessa temática, já que para que haja uma construção identitária é necessário uma articulação constante de pessoas (no caso, usuários) apresentando e representando os valores daquele grupo – a página Nação Nordestina, por exemplo, embora volumosa em visibilidade, não se mostrou muito popular. O top15 – que classifiquei manualmente – segue abaixo:

Antes de finalizar, talvez deva uma resposta a um incômodo que pode surgir na leitura desse post: “por que você não mapeou todas as páginas das cidades (ou pelo menos capitais) e estados do Nordeste?”. Por dois motivos: primeiro, pela demanda de trabalho, obviamente; segundo, porque a minha fundamentação teórica segue justamente a linha de raciocínio na qual o Nordeste é visto como uma categoria discursiva, ou seja, por mais que “na prática” represente suas ramificações, é compreendido no imaginário social enquanto figura homogênea (como o Brasil, por exemplo, e o ser brasileiro). Ou seja, estou interessado justamente nessa concepção de Nordeste e identidade nordestina como um todo macro, mesmo que de maneira crítica e cautelosa para não reproduzir certos equívocos.

Esses foram os primeiros passos que pensei que podem me guiar no que tange o meu trabalho de conclusão de curso (e quiçá uma possível empreitada numa pós-graduação stricto sensu). Ainda não sei exatamente como seguir, mas foi uma atividade na qual pude unir o útil ao agradável: trabalhar o meu objeto de pesquisa junto a uma metodologia sobre a qual venho aprendendo cada vez mais, conforme já narrado aqui na minha saga e posterior aprendizados iniciais graças ao curso do IBPAD. Fico aberto a todo tipo de crítica (construtiva) para elucidar conseguintes apontamentos metodológicos que me ajudem a estruturar uma linha de raciocínio e argumentação para o projeto.

Referências bibliográficas

ALVES, Marcelo Santos. Campanha não oficial: A Rede Antipetista na eleição de 2014. REVISTA FRONTEIRAS (ONLINE), v. 19, p. 102-119, 2017.

ANJOS, Moacir dos. “Desmanche de Bordas: notas sobre identidade cultural no Nordeste do Brasil”. In: Artelatina. RJ: Aeroplano Editora, 2000.

SILVA, Claudeci Ribeiro. A representação do Nordeste nas letras das músicas de Marinês. UEPB: 2009.

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2 comentários

  1. Que demais, Pedro! Adorei. Ansiosa pela publicação do teu trabalho. Inclusive acho que vai servir como referência pra um artigo meu. 🙂 Bjs

    1. Massa, Lari! Também estou ansioso para fazê-lo, haha. Até o fim do ano, se tudo der certo, estará aqui no blog. Obrigado pela visita e pelo comentário <3

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