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Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos

etnografia-consumoFoi lançado na semana passada, dia 25 de outubro, o livro “Etnografia e consumo midiático: novas tendências e desafios metodológicos”, organizado por Carla Barros e Bruno Campanella, ambos professores do PPGCOM e do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense. A coletânea reúne textos de palestrantes que participaram, em setembro de 2015, do Seminário Internacional Etnografia e Consumo Midiático: Novas Tendências e Desafios Metodológicos, e de outros autores com reconhecido interesse em discussões metodológicas relacionadas à pesquisa contemporânea de consumo midiático – dando, assim, continuidade aos debates iniciados naquele momento e expandindo algumas questões importantes ainda não trabalhadas.

“Os textos apresentados na presente coletânea são atravessados por reflexões acerca dessa crescente complexificação das práticas de consumo midiático, assim como das formas de estudá-lo que tomam como ponto de partida as abordagens etnográficas. […] Com o objetivo de enriquecer ainda mais o debate, a coletânea também traz propostas de abordagens metodológicas alternativas capazes de complementar a etnografia. Em suma, o livro busca lançar luz sobre os desafios, oportunidades e dificuldades da abordagem etnográfica na pesquisa dos meios de comunicação, em especial a internet.”

As minhas motivações para adquirir o livro foram três: 1) a organização realizada por dois professores cujo trabalho eu admiro muito (e gostaria que eles dessem mais aula para a graduação, caso venham a ler este post); 2) o assunto etnografia para pesquisa na internet (e em mídias ou sites de redes sociais), um debate que muito me interessa tanto acadêmica quanto profissionalmente; e, 3) a colaboração de Christine Hine, autora que conheci recentemente e que preciso ler mais, de Raquel Recuero, que fez uma proposta interessante para o capítulo que desenvolveu, e de Beatriz Polivanov, também professora do Departamento de Estudos Culturais e Mídias (curso de Estudos de Mídia) cuja pesquisa eu já citei aqui no blog algumas vezes, com Deborah Santos. Para minha felicidade, ainda fui positivamente surpreendido por textos bem interessantes de outros autores/pesquisadores que não conhecia, superando as minhas expectativas.

A começar pela Introdução escrita pelos organizadores do livro, onde eles reconhecem as transformações sociais e tecnológicas que “criaram oportunidades e desafios na pesquisa da articulação entre meios de comunicação e cultura”, para então desenvolver uma breve – e importante, principalmente para leitores pouco habituados com as discussões da abordagem etnográfica para a internet, como eu – historicização do fenômeno do consumo midiático (“enquanto um sistema de valores”) e, principalmente, da constituição da etnografia na disciplina antropológica. Nesse contexto, ainda elucida a “evolução” dos estudos de comunicação mediada por novas tecnologias, posicionando-se criticamente a algumas leituras que, sob uma nova perspectiva, aparenta ser um pouco inadequada. Ainda assim, abrindo terreno para as contribuições (e discussões) dos colaboradores, reitera:

“Não se compartilha a mesma concepção do que seja a pesquisa realizada no âmbito da internet. Enquanto que para alguns autores a etnografia aparece como uma conjunção de técnicas específicas – primordialmente, a observação participante com a entrevista em profundidade – para outros ela não pode ser reduzida a um conjunto de técnicas, pois sua importância reside no fato de ela ser propriamente uma abordagem. A proposição de polissemia nas mensagens midiáticas encontrada nos estudos de recepção, especificamente, facilitou uma maior adesão às pesquisas de abordagem etnográfica. No entanto, nem todas as pesquisas autointituladas como de “recepção” atendiam aos princípios da etnografia, como a imersão prolongada em campo e a compreensão do contexto sociocultural mais amplo no qual as práticas midiáticas estavam inseridas.”

No capítulo “Estratégias para etnografia da internet em estudos de mídia”, Christine Hine apresenta algumas estratégias para a condução de estudos etnográficos da mídia na era digital. Para isso, ela introduz os novos contextos de formas de sociabilidade na internet (relacionando com a “proliferação de rastros do consumo midiático”) e retoma a discussão das fronteiras entre o on-line e o off-line, tanto sob a perspectiva do usuários quanto sob a perspectiva dos etnógrafos – e, consequentemente, seus desafios. Antes de entrar nessas questões, acho interessante compartilhar algumas considerações feitas pela autora sobre o papel do etnógrafo, principalmente levando em conta aqueles “novatos” na área:

  • “[O etnógrafo] procura alcançar um profundo engajamento com os detalhes confusos contidos naquilo que as pessoas realmente fazem com a mídia na prática”;
  • “seus interesses vão além de momentos de engajamento entre pessoas pré-selecionadas individualmente e textos midiáticos específicos”;
  • “o significado reside não no texto propriamente dito, mas em uma gama de relações sociais que antecedem e, ao mesmo tempo, resultam daqueles momentos de engajamento com o texto”.

Feita essa introdução do contexto e da pesquisa/do pesquisador, ela apresenta o que chama de qualidades da internet nos dias atuais para discutir “três tipos de estratégias que ajudam um etnógrafo a lidar com essas qualidades: abordagens móveis, multilocalizadas e conectivas ao campo; mapeamento, visualização e associação; e uso dos insights autoetnográficos a fim de maximizar a compreensão da internet como um fenômeno sensorial”. Antes, no entanto, ela apresenta uma discussão conhecida de seu trabalho, sobre a internet incorporada, corporificada, cotidiana (embedded, embodied and everyday) – na qual argumenta que não falamos mais em “ficar on-line”, mas vivemos online, incorporamos a internet em “em múltiplas estruturas de construção de significado”. Diz ela:

“Qualquer fragmento individual dos dados derivados da internet é, por isso, passível de ser interpretado de uma série de formas, dependendo dos contextos em que se incorpora e adquire significado […]. Isso apresenta desafios metodológicos significativos para um etnógrafo que deseja descobrir o significado de determinado aspecto da internet para um grupo específico de pessoas. Podemos começar com um foco particular ou uma questão intrigante em mente, mas a imprevisibilidade e caráter escorregadio dessa internet incorporada, corporificada e cotidiana torna muito difícil resolver onde ir para encontrar as respostas e como trazer questões interessantes à luz.”

Hine argumenta que, para que o etnógrafo “desenvolva insights e teste teorias em desenvolvimento através da interação”, seu trabalho não deve ser distante, como um observador que apenas coleta e processa dados de ambientes virtuais, mas participante e engajado com seu foco de pesquisa. “Ser ativo no ambiente permite que o etnógrafo aprenda com a imersão e o questionamento criterioso que encoraja as pessoas a refletirem, em voz alta, sobre suas experiências”, argumenta. À diante, apresenta como as características da internet nos dias atuais pode ser apropriada estrategicamente por pesquisadores para dar conta dos desafios e oportunidades que são enfrentados no trabalho etnográfico. Pensando a “volatilidade” dos grupos sociais online, a massividade de dados à disposição e os processos sensoriais da internet, ela apresenta as seguintes perspectivas:

  • Multilocalizada, móvel e conectiva: o campo de pesquisa é uma construção arbitrária, pré-existente, “construído a partir de uma rede complexa e contingente de interconexões possíveis entre diferentes localidades, e estendida em diversas mídias e formas de interação”; logo, “podemos esperar que o etnógrafo aceite a responsabilidade por construir um estudo que se encaixe em um conjunto particular de interesses estratégicos [para pensar novas comunidades virtuais].”
  • Mapeando, visualizando e associando: uma das principais dificuldades enfrentadas pela etnografia na internet é a abundância de dados; além de delimitar os estudos numa localidade e num período de tempo específicos, a autora propõe defende que “uma visualização ou mapeamento de atividades on-line pode ser muito útil no direcionamento da atenção do etnógrafo para locais de interesse, utilizando técnicas de associação para realizar a ‘topografia de campo’ antes de decidir no que focar em profundidade”.
  • Percebendo, sentindo e refletindo: uma vez que a experiência da internet é um processo bastante individual, o etnógrafo precisa reconhecer as limitações subjetivas da compreensão das diferentes experiências dos indivíduos, no entanto, é possível “tirar vantagem da nossa imersão no campo para refletir sobre o que contém e o que possibilita seus movimentos particulares e suas formas de compreensão”, enfrentando “qualquer tendência residual que tenhamos para tratar o campo como se simplesmente o tivéssemos encontrado e descrito como ele era”.

Na conclusão, admite (e reitera) as dificuldades e os desafios que a prática etnográfica enfrenta e continuará enfrentando com o desenvolvimento das novas tecnologias. Afirma que “não será impossível, mas envolverá um esforço maior na obtenção de dados, construindo e desenvolvendo relações de confiança com os participantes-chave a partir de práticas reminiscentes das etnografias dos tempos pré-internet”. Nesse sentido, compreende que “novas formas de etnografia realizadas tecnologicamente irão inevitavelmente continuar a emergir mas, espero, continuarão em diálogo com os princípios estabelecidos do etnógrafo como uma forma de produção de conhecimento aprofundada, imersiva e criticamente engajada”.

O capítulo “Métodos mistos: combinando etnografia e análise de redes sociais em estudos de mídia social”, de Raquel Recuero, é bem interessante pois discute a aproximação (ou melhor, combinação) de duas abordagens essencialmente distintas para o estudo de objetos decorrentes de mídias sociais, levantando também as vantagens e desvantagens desses métodos mistos. Ao introduzir a análise de redes sociais (ARS), a autora destaca a popularização dessa abordagem no campo dos estudos de cibercultura no Brasil e a justifica pela facilidade de acesso aos dados e pelo próprio caráter estrutural prolífico dos sites de redes sociais, o que favorece uma abordagem na qual as relações interacionais dos atores entre si e com a plataforma são o centro da análise. Explica:

“A análise de redes sociais é uma perspectiva cujo foco pode ser compreendi- do como teórico e metodológico (Wasserman e Faust, 1994). Enquanto a ARS busca estudar os padrões das interações e laços sociais (Wellman, 2001), ela também busca modos de medir esses padrões (Degenne e Forsé, 1999) e visualizá-los (Freeman, 2001). […] Desse modo, a análise de redes sociais constitui-se em uma abordagem relacional, cujo foco é construído nas relações entre os atores, na sua medida e exploração estrutural, a partir de perspectivas interdisciplinares.”

Destrinchando as raízes e premissas básicas da ARS, ela passa rapidamente por algumas questões – e aspectos – importantes desse método de análise: “O grafo é uma representação das relações e da estrutura da rede, que é construído através de algoritmos específicos e em cima de dados obtidos em campo”. Ela explica que, para que seja feita as visualizações das estruturas que auxilia a percepção visual das relações entre os atores, há a aplicação de alguns cálculos matemáticos (métricas de nó e métricas de rede) para avaliar a centralidade dos atores na rede e a estrutura da rede em geral. Nesse contexto, citando Linton C. Freeman, ela destaca quatro elementos que devem aparecer em conjunto na organização da análise estrutural: a intuição estrutural, ou seja, focada nos laços que conectam os atores; a construção sobre dados empíricos coletados de modo sistemático; a base em gráficos e imagens que representam os dados da pesquisa; e a utilização de modelos computacionais ou matemáticos.

Não entrarei em detalhes sobre o que a autora discorre sobre a etnografia virtual porque acredito que a introdução do capítulo de Hine já ilustra muito bem como ocorre, quais são as premissas, dificuldades e vantagens da abordagem etnográfica na internet. Destaco, no entanto, a citação de Gemma Edwards apresentada pela autora, na qual ela explica que as abordagens quantitativas “mapeiam e medem as redes através da simplificação das relações sociais em dados numéricos, onde os laços são ausentes ou presentes”, enquanto as abordagens qualitativas “permitem aos analistas considerar elementos relativos à construção, reprodução, variabilidade e dinâmicas dos laços sociais complexos”. Chegamos, então, à ideia principal de Recuero:

“A ideia é trabalhar com perspectivas metodológicas distintas, tanto quantitativas quanto qualitativas, combinadas de modo a dar conta de um determinado problema de pesquisa. Métodos qualitativos, grosso modo, tendem a focar mais em palavras como elementos descritivos, enquanto os quantitativos, em números; bem como pesquisas mais qualitativas focam perguntas mais abertas, pesquisas quantitativas focam questões fechadas; além disso, pesquisas qualitativas tendem a focar na interpretação dos dados coletados, geralmente no ambiente dos participantes, enquanto as quantitativas tendem a focar em medidas, variáveis e procedimentos numéricos (Creswell, 2014, p. 12). […] Os métodos mistos, por outro lado, constituem ‘uma abordagem para a pesquisa envolvendo a coleta de dados qualitativa e quantitativa, integrando as duas formas de dados e usando desenhos de pesquisa que possam envolver questões filosóficas e abordagens mais teóricas’ (Creswell, 2014, p. 4).”

Para compor sua proposta, a autora apresente algumas questões importantes de aplicação e alguns exemplos de objetos que se encaixem num contexto de pesquisa adequada aos métodos mistos. Para tanto, esses objetos precisam ter: questões de pesquisa relacionais (análise de estrutura das conexões da rede + componente cultural dentro da estrutura); dados passíveis de coleta/captura para análise de rede de forma manual ou automática; questões apropriadas para atender a objetivos da ARS e da etnografia. “Enquanto a análise de redes se ocuparia com a estrutura do grupo, a etnografia focaria as práticas culturais emergentes dessa estrutura”, explica, trazendo como exemplos: grupos sociais determinados e suas interações on-line, grupos sociais constituídos diante de discursos/conversações específicas e estudos sobre informação e difusão de práticas culturais. Em seguida, ela apresenta alguns modelos mais comuns de uso de métodos mistos, elencados:

  • Métodos mistos convergentes e paralelos: “os dados são coletados de modo qualitativo e quantitativo geralmente ao mesmo tempo e convergem ou são misturados na análise”; o objetivo é a complementariedade dos dados para a análise.
  • Métodos mistos explanatórios sequenciais: “há primeiro a condução de uma pesquisa quantitativa, cujos resultados servem de base para uma pesquisa qualitativa”; o trabalho qualitativo expande e aprofunda as questões do trabalho quantitativo.
  • Métodos mistos exploratórios e sequenciais: “a abordagem qualitativa vem primeiro e, nessa primeira fase, são constituídos elementos que servem de base para a abordagem quantitativa posterior”; útil quando as variáreis mais importantes para análise são desconhecidas.

Nas considerações finais, Recuero ratifica que, dentre os benefícios da adoção de métodos mistos, “está primeiramente a complementariedade dos dados e das análises e a possibilidade de explorar fenômenos mais complexos do que com apenas um dos métodos”. E complementa: “Em termos de mídia social, onde os dados são bastante distanciados dos grupos sociais, a combinação desses métodos pode ser extremamente vantajosa, justamente por permitir compreender o fenômeno em sua abordagem mais ampla”. No entanto, a autora faz questão de pontuar alguns desafios importantes para o pesquisador: o uso mútuo e compreensível de ambas abordagens de forma coerente/coesa, a discussão de limitações e vantagens da coleta de dados e as questões éticas da pesquisa em canais supostamente públicos.

“A ARS dá à etnografia uma possibilidade de mais abrangência e maior fundamentação em dados, ao mesmo tempo que lhe rouba parte da subjetividade que lhe é característica. Já a etnografia, por sua vez, complementa a ARS com uma visão contextual, mas pode também lhe conferir um caráter subjetivo e interpretativo que pode trazer uma certa instabilidade ao estudo quantitativo. […] Assim, os dados de uma devem servir à outra e devem ser ambos compreendidos em sua totalidade pelo pesquisador. A perspectiva de métodos mistos é uma combinação do desenho metodológico, onde o pesquisador precisa compreender ambos e não apenas utilizar um método como suporte e outro apenas para agregar os dados sem analisá-los.”

Para finalizar, trago alguns apontamentos do capítulo “Términos de relacionamentos e Facebook: desafios da pesquisa etnográfica em sites de redes sociais”, escrito por Beatriz Polivanov e Deborah Santos. Gostei muito do capítulo porque ele dialoga com os outros dois supracitados, principalmente (por questões óbvias) com o de Hine, ainda que haja uma “menção honrosa” a proposta de Recuero, lá no final do texto, não descartam que “abordagens mistas, que lidam com grandes e “pequenos” dados, possam ser enriquecedoras”. Para além disso, gostei muito da contribuição das autoras porque há fundamentação teórica, discussão metodológica e – principalmente – inquietações empíricas de uma pesquisa ainda em andamento. Ao final, elas apresentam cinco eixos que esperam servir como “pequenos guias norteadores” para outras pesquisas.

Uma vez que o objetivo das autoras é “chamar atenção para desafios específicos” de sua pesquisa, não entrarei a fundo na fundamentação teórica (muito bem) apresentada no texto – embora recomende veemente a todos interessados na discussão sobre as diferentes etnografias (“tradicional” e virtual) e construção de identidade on-line que assim o façam. Trago, portanto, apenas os cinco eixos de desafios metodológicos que têm tensionado a atuação das pesquisadoras no estudo sobre “sujeitos que passaram por um final de relacionamento amoroso e como essa sua performance de si se dá no Facebook em um momento pós-término”, discutindo se há alteração em suas performances e quais tipos de narrativas são acionadas para se adequar a imperativo da felicidade.

“Entendemos, assim, que, de um modo geral, busca-se manter certa coerência expressiva entre os selves off-line e nos sites de redes sociais. Isto é, nesses ambientes – e em especial no Facebook, nosso objeto de estudo – os atores sociais tendem a querer mostrar traços identitários que consideram “reais”, como nome, local onde trabalham/estudam, gostos relacionados à indústria cultural, pessoas com as quais se relacionam, locais que frequen- tam etc., ainda que possa haver rupturas e desencaixes nessa construção por uma série de razões (intencionais ou não).”

Embora eu tenha optado por atropelar as discussões teóricas que precedem a discussão metodológica (apenas por motivos práticos), acho importante lembrar que alguns dos “problemas” levantados pelas autoras estão em total consonância com aspectos específicos da problematização da etnografia (virtual), da identidade on-line, etc. – ou seja, de certa forma, essas questões atravessarão os desafios metodológicos da pesquisa em sites de redes sociais apresentados a seguir:

a) Investigação sobre indivíduos e/ou casais

Um dos motivos pelo qual me interesso bastante pelo trabalho de Polivanov é que suas pesquisas geralmente focam em aspectos identitários “isolados”, como seu trabalho com participantes de cenas de música eletrônica no Facebook. Isso foge um pouco da prática comum da etnografia para internet (e mídias sociais) de estudar grupos ou comunidades específicas – como ela reitera, no atual trabalho “estamos mais interessadas, em nossa pesquisa, em conhecer em profundidade experiências particulares do que em estudar as dinâmicas de um grupo ou um número maior de casos”. Entretanto, isso se torna um problema primário à pesquisa uma vez que precisa-se fazer um recorte e delimitar o campo do objeto de estudo. “Mas como selecioná-los?”

b) Escolha e interpelação dos sujeitos de pesquisa

“A partir de um processo de conversas informais – on e off-line – com conhecidos de nossas redes de contatos e a partir da técnica da ‘bola de neve’ (Weiss, 1994), conseguimos sugestões de possíveis informantes que atendessem nossos critérios. Para além daqueles que fizessem parte de nossas redes, a escolha da parte da amostra de “desconhecidos” foi feita a partir da procura de grupos temáticos, conforme apontado acima, focando desse modo nosso olhar a pessoas que atravessaram algum conflito amoroso e usaram (usam) a rede e o suporte (semi)público para lidar com situações dessa natureza, sendo nosso interesse conhecer como se dá essa relação de “desabafo” entre o sujeito e a plataforma, no caso, o Facebook.”

c) Grau de inserção do(a) pesquisador(a)

“Aqui valeria a pena nos perguntar até que ponto esse tipo de aproximação, sem aviso aos informantes de que estão sendo observados, é eticamente correta. Além disso, seria apenas a observação, participante ou não, suficiente para entender as dinâmicas e discursos dos sujeitos ou necessariamente de- vem ser realizadas entrevistas? […] Nossa proposta metodológica entende que somente a observação dos sujeitos analisados não seria suficiente para responder as questões de pesquisa, sendo necessária uma aproximação direta e privada (ainda que virtual) com os mesmos que outorgue integralidade à pesquisa. Para isso é nosso propósito entrar em contato com cada um dos sujeitos escolhidos como amostra e realizar entrevistas, tanto on quanto off-line com eles, que complementem os dados obtidos na etapa de observação, tentando fugir assim dessa posição um tanto voyeurística e procurando vias diferentes de acesso à informação.”

d) Recorte temporal da pesquisa e da coleta de dados

Esse item é bem interessante porque elas tratam duas questões: primeiro, a problemática de delimitação de tempo de uma pesquisa empírica. Em resposta, defendem que “a observação sistemática dos acontecimentos e a coleta de dados deve ocorrer até atingir determinado ponto de saturação, isto é, até que não seja possível – seja por um limite de tempo, verba ou do próprio corpus – obter dados categoricamente novos”. Segundo, porque, citando Markham, as autoras “desmitificam” o véu de imparcialidade do etnógrafo, explicando que “os pesquisadores sempre interferiram no contexto de algum modo enquanto conduzem suas pesquisas” e que “em diferentes medidas, as noções de sujeito/objeto, pesquisador/pesquisado não devem ser tomadas como instâncias separadas, mas ao contrário, como afetações mútuas”.

e) Pesquisa de campo ou campos de pesquisa no Facebook

“Cabe, assim, a cada pesquisador(a) determinar o recorte do corpus que irá analisar e que ferramentas irá utilizar para tal. Em nosso percurso até o momento temos optado por dar especial atenção aos campos da seção “Sobre” e das postagens diversas feitas pelos sujeitos em suas linhas do tempo, buscando analisá-las não em grupos definidos quanto ao seu tipo de linguagem, mas sim enquanto unidades materiais-discursivas multissemióticas que devem ser entendidas principalmente a partir do momento e da intencionalidade de publicação, elementos que só podemos investigar a partir da realização de entrevistas direcionadas.”

A ideia de Polivanov e Santos foi justamente trazer alguns desafios e questões (tanto teóricas quando metodológicas) que têm atravessado seu trabalho de pesquisa no Facebook. Ao final, não apresentam soluções, mas “inquietações ainda em pleno processo de digestão”, o que considerei extremamente poético, coerente e justo por parte das autoras. Essa é a ideia do livro, levantar tensões e tentar travar um diálogo com acadêmicos, estudiosos e pesquisadores de forma geral sobre o espaço multidisciplinar que é a internet corporificada. Ainda há capítulos enriquecedores de Jair de Souza Ramos, sobre o modo como as discussões teóricas podem orientar a observação e a análise para etnógrafos, e de Laura Graziela Gomes, a pesquisa própria do meio digital (cibercultura).

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