Análises

Diários da Quarentena: relatos de tuiteiros em reclusão

No dia 23 de março de 2020, o blog da Companhia das Letras inaugurou a série “Diários do isolamento”, parte do projeto Leia Em Casa, cerca de duas semanas após a maioria das cidades e estados brasileiros decretarem oficialmente o período de quarentena. Um mês depois, o projeto foi pauta na matéria Querido diário: por que a pandemia inspira tantos relatos autobiográficos, da UOL TAB, que também elencou o alemão Coronarchiv e o estadounidense Corona Diaries como iniciativas acadêmicas de historiadores para criar um registro robusto dos tempos atuais.

Memórias, relatos e registros autobiográficos podem ser importantes fontes para o trabalho de historiadores, pois constroem uma história “mais humana”, ao contemplar diferentes estratos sociais e grupos étnicos (e não apenas a elite) – entre acadêmicos, a área é conhecida como “história da vida cotidiana”. Historiadores cruzam esses materiais com outras fontes (como reportagens publicadas na imprensa ou informes oficiais do governo) para analisar uma época.

Juliana Sayuri, UOL TAB

Sem sombra de dúvidas, estamos vivendo uma das crises globais sobre a qual teremos maior documentação histórica disponível. E uma das fontes mais ricas – e caóticas, ou complexas – para as narrativas dos tempos atuais é a internet. Portanto, quando, no mesmo dia que li essa matéria, surgiu na minha própria timeline do Twitter um relato pessoal explicitamente narrado como “diário de quarentena”, surgiu a curiosidade: o que será que as pessoas estão relatando sobre o seu dia a dia no microblog mais popular da internet?

Antes de seguir nessa jornada, é importante dar um passo para trás e entender o contexto sociocultural no qual a plataforma está inserida principalmente em suas funcionalidades de uso no Brasil. Trata-se de um site de rede social pautado em lógicas de capital social (curtidas, retweets, seguidores) no qual os usuários, (in)voluntariamente, disputam por maior visibilidade. Além disso, é também um espaço cujo público recorrente se difere bastante do Facebook e Instagram, por exemplo, o que condiciona diretamente o que compartilhamos e deixamos de compartilhar.

De modo muito resumido, é por isso que o título desse post não é “Diários da Quarentena: relatos de brasileiros em reclusão”, pois compreendo os limites metodológicos que se enquadram na fonte de dados disponível. É importante ter em vista o que leva uma pessoa a publicar, sobretudo em formato de “diário” (e o que envolve essa compreensão no imaginário social), sobre suas questões e anseios do cotidiano. A proposta aqui é bastante específica: identificar quais são as temáticas sobre as quais usuários brasileiros do Twitter enunciam como diário.

Dito isso, podemos seguir com a metodologia: utilizei o twint para coletar os tweets (agradeço especialmente a meu colega de trabalho, Lucas Neves, do IBPAD, que me ajudou com alguns tropeços nessa coleta), com o termo de busca “diário de/da quarentena”, entre os dias 10 de março e 27 de abril. Importante lembrar, como já sinalizei em outro post, que esse script não coleta retweets (pois faz raspagem, e não acesso via API), o que novamente não é um problema, visto que para os fins desta análise faz mais sentido trabalhar apenas com conteúdos originais.

Utilizei o WORDij parar criar um arquivo de co-ocorrência de palavras que, trabalhado com técnicas de análise de redes no Gephi, me permitiu gerar o grafo que compartilho abaixo. Duas considerações importantes: 1) excluí a menor quantidade de nós (palavras) possível, para que fosse possível navegar a rede e encontrar conexões interessantes (são 8.565 palavras com 62.635 conexões entre elas); 2) executei a modularidade (algoritmo de detecção de comunidades) com valor de resolução menor que o padrão, para tentar identificar o máximo de grupos possíveis.

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E são essas duas considerações que “explicam”, de certa forma, a rede estar tão truncada: são muitos nós (palavras) e muitos clusters (coloridos) pequenos/médios. Vale ratificar que o valor extremamente alto de conexões (arestas) também colabora para esse cenário, o que – tecnicamente – dificulta a distribuição de agrupamentos bem delimitados e – analiticamente – aponta para uma utilização constante das mesmas palavras em diferentes distribuições de sentenças (ou seja, é um vocabulário limitado de termos repetidos em várias frases). O que ajuda a encontrar as temáticas, portanto, é a granularização da modularidade.

Ao todo, com o algoritmo de detecção de comunidade do Gephi, consegui identificar 29 territórios semânticos – desde os mais generalistas/conectores até os mais específicos/temáticos. O maior cluster, por exemplo, que denominei “Narrativa”, é composto por termos de apoio (conectores narrativos) aos demais – o mesmo acontece com o grupo “Conectores”. Já os demais possuem particularidades que nos permitem, numa análise conjuntural, delimitar mais especificadamente do que se trata cada um deles – e tentei indicar nomenclaturas suficientemente autoexplicativas.

Nessa direção, a partir dos grupos identificados pela modularidade e sua análise conjuntural, proponho quatro pilares temáticos da conversa: 1) reclusão e ansiedade; 2) pandemia e ansiedade; 3) rotina e atividades; 4) prazer e lazer (a ordenação não segue parâmetro de volumetria, apenas organização descritiva). O primeiro contempla os grupos de inquietudes, (perda da) noção de tempo, emoções, carências sociais, interações familiares, família e amigos, saudades, vontades e desejos. É também uma resposta ao contexto social escancarado pelo segundo, em que o isolamento social se faz necessidade para combater a fatalidade do vírus frente a um cenário político tenebroso.

Por outro lado, em rotina e atividades, onde os usuários comentam sobre o dia-a-dia da quarentena e suas particularidades, desde tarefas domésticas, passando pelos (novos) hábitos de compra de mercadorias, até movimentos de auto-cuidado com a beleza (ou surtos capilares) e a (nova) rotina de aulas de ensino (a distância). Também nesse contexto mais leve, associam-se os termos de prazer e lazer, no qual estão presentes termos relacionados ao consumo audiovisual (Netflix, YouTube, séries, etc.), consumo musical (lives/shows online, Spotify, etc.), jogos (de PC, celular, ou até mesmo correntes) e também leitura.

Destaque auto-centrado da palavra (do nó referente a) “banheiro” e suas conexões nas proximidades

Todos esses subgrupos referidos nas descrições das quatro grandes temáticas estão devidamente apontados na rede interativa – e, portanto, podem ser ainda mais explorados. Além de avaliar os clusters individualmente, vale também navegar pelos termos livremente para perceber como, ainda que haja certa coerência cognitiva entre os agrupamentos semânticos delimitados pela modularidade, as palavras aparecem em diferentes contextos e cenários em associação também aos demais clusters do qual eventualmente não faz parte (como no exemplo acima).

Seria também interessante avaliar a sazonalidade dessas temáticas, tanto no de dias da semana (o que se faz no final de semana difere do restante?, por exemplo) quanto na própria eventual evolução de hábitos de comportamento durante o período da quarentena (os usuários começaram fazendo exercícios e depois passaram a comentar mais sobre receitas?, por exemplo). Essa visão temporal pode acrescentar bastante à análise e ajudar a compreender o cenário de modo ainda mais criterioso. Para os fins que elegemos, entretanto, paramos por aqui hoje; mas, quem sabe num próximo post?

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