Análises

Análise de redes: os públicos da nova música de Ivete com Livinho no Twitter

Quando escrevi em 2015 sobre o assassinato do Twitter (que, aliás, não morreu e continua firme e forte), mencionei humildemente, a partir de observação empírica de usuário assíduo desde 2009, que fandoms possuíam uma forte atuação na rede. Além da minha própria experiência (eu mesmo na adolescência já tive um fã-site sobre Justin Bieber cujo perfil no Twitter teve papel fundamental em seu crescimento), também já tinha lido o artigo “Fandoms, Trending Topics and Social Capital in Twitter”, de Raquel Recuero, Adriana Amaral, Camila Monteiro, o que sempre me estimulou a fazer algum trabalho dessa temática na plataforma.

Recentemente, por coincidência (ou não), também fui várias vezes impactado pela propaganda do próprio Twitter sobre a influência da rede quando o assunto é música. Em 2016, 38% dos tweets brasileiros foram sobre música; neste ano já foram registrados 146 milhões de tweets com a mesma temática no Brasil, tornando o país o segundo que mais fala sobre o assunto no mundo – as informações mais recentes indicam que 59% dos usuários brasileiros falam sobre o assunto e e um em cada dois (!) usuários seguem pelo menos um músico. Todas essas informações estão disponíveis no próprio site do Twitter, que disponibiliza esses dados para que marcas possam trabalhar campanhas dentro desse segmento.

Não tem jeito, música acontece todos os dias, o dia todo. Ela está nas trending topics (38% dos TT’s brasileiros foram sobre o assunto), nas conversas (80% delas são Always On) e na conexão que os usuários têm com seus ídolos e marcas (73% seguem contas de artistas musicais). […] Com conteúdo relevante, você pode aproveitar esse boom e fazer ações ultra engajadoras pra sua marca. Vale criar hashtags específicas, fazer LIVEs, patrocinar eventos, programas de TV ou desenvolver uma ação exclusiva dentro do Twitter. O importante é estar dentro desses acontecimentos e entender como usar o assunto a seu favor, entrando na conversa no momento em que o consumidor está mais disposto a ouvir (lembre-se de que, no Twitter, o ad recall é 13% maior).

Com tudo isso na mesa, já é possível concordar que, quando o assunto é música, o Twitter é uma mídia social extremamente valiosa para diferentes atores: cantoras/bandas, gravadoras, fãs, marcas interessadas, profissionais adjacentes e pesquisadores. Sempre foi do meu interesse, portanto, pela afinidade com o assunto, desenvolver algum estudo – mesmo simples – com os dados da rede. Depois de tudo isso e ainda desse incrível post da Marina Alves sobre a ressonância da Pabllo Vittar na plataforma, a minha vontade só aumentou e, agora, posso dizer que esse dia finalmente chegou! Foi uma exploração inicial, com algumas ideias embrionárias, mas o suficiente para suprir a minha vontade.

Na última semana monitorei com a Netlytic a nova música de Ivete com Livinho, “Cheguei Pra Te Amar”, lançada no dia 27 de outubro. A minha proposta era trabalhar com a análise de redes justamente para identificar quais foram os públicos responsáveis por fomentar a conversa sobre a parceria no Twitter. Com mais de 20 anos na estrada, Ivete já é uma artista consagrada que não precisa mais provar nada a ninguém; no entanto, com todas as mudanças que a indústria fonográfica brasileira passou nos últimos anos (novos meios de consumo, funk/pop, investimento audiovisual, etc.), a cantora, ainda que extremamente popular, tem dificuldade de penetrar o mercado do público mais jovem.

É aí que o Twitter aparece como catalizar importante para o trabalho: segundo informações internas da empresa, 50% do público jovem na plataforma possui entre 18 e 24 anos. É uma geração que, matematicamente, até vivenciou o auge de Ivete Sangalo em meados dos anos 2000, mas que hoje em dia possui outros ídolos da música – principalmente com a explosão de nomes femininos da última década, como Anitta, Ludmilla, Pabllo Vittar, dentre outras. Ao trabalhar com Livinho, Ivete – cujo filho, Marcelo, é grande fã do MC – mira nessa nova geração de brasileiros, tentando deixar sua marca numa década nada favorável para o movimento (ou gênero) musical que a catapultou para o estrelato.

A proposta, então, é responder: quem falou sobre a música (e o clipe) na semana de lançamento do projeto? Para isso, como já mencionei, utilizei a Netlytic e monitorei toda a conversa sobre a parceria no Twitter entre os dias 27 de outubro e 3 de novembro. A ferramenta, além de coletar as menções, já processa e disponibiliza também uma lista com as conexões encontradas (@fulano -> @ciclano), que importei no Gephi para gerar a rede. Para a visualização, optei pelo layout OpenOrd + ForceAtlas 2, este último no qual os nós com mais ligações são atraídos para o centro e os menos conectados são repelidos para as margens. Foram 5.387 nós (perfis) e 17.631 arestas (interações), com a distribuição de 10 clusters principais (pelo menos 2% do número total de atores na rede).

O grupo hegemônico na rede não é apenas um cluster, mas quatro: os fãs de Ivete (fãs assíduos, dentre fã-clubes e usuários mais ativos) representam 32% da rede, com 1.725 nós que atribuí diferentes tonalidades de azul. São responsáveis por 23.101 (63%) das 36.221 menções coletadas no período, publicadas por apenas 1.152 usuários únicos. Por um lado, demonstra uma fanbase bastante dedicada, que utilizou o Twitter para práticas comuns de divulgação (hasgtags e pedidos em rádios); por outro, aponta também que a música ainda precisa alcançar o grande público. Essa era uma hipótese que eu tinha pelo baixo número de nós: com uma base de 36 mil tweets, somente 5 mil nós; em comparação, no da Pabllo, foram 50 mil tweets e 37 mil nós.

Nuvem de palavras feita com a bio dos usuários desses clusters de gãs

Para trabalhar melhor o que me propus com a análise, portanto, talvez seja melhor ocultar esse imenso conglomerado de fãs e observar os demais públicos. Abaixo, a rede sem os clusters de fãs e com uma distribuição mais equilibrada dos rótulos dos nós, ainda organizados pela métrica de centralidade de autovetor (em termos simples, de influência na rede). Há dois grupos óbvios nesse cenário: em vermelho, em terno do perfil do YouTube, formado pelos compartilhamentos “automáticos” do clipe no Twitter; e o amarelo, também interessante, pois se trata de um fake do Livinho: @iivinhomc, com o primeiro I maiúsculo – o original não possui conta ativa no Twitter, apenas no Facebook e no Instagram.

O rosa é o cluster “central”, em torno da cantora, com a presença de veículos da imprensa tradicional, como G1, Uol, dentre outros; e outros veículos influentes da cultura pop no Brasil, como o Portal POPline e o Papel Pop; é também onde se encontram os serviços de streaming Spotify e Deezer, empresas que Ivete tem procurado desde o lançamento de “À Vontade”, primeiro investimento dedicado da cantora aos novos moldes da indústria fonográfica; alguns fãs mais engajados com o perfil da cantora (e menos com a articulação e mobilização dentro do fandom) também aparecem nesse cluster, que se espalha por boa parte da rede. No entanto, são os clusters lilás e verdes que trazem algumas curiosidades interessantes.

O grupo de coloração lilás, embora também represente alguns fãs semelhantes aos articuladores dos clusters azuis, diferencia-se por ser formado também por vários usuários que são fãs do cantor Luan Santana. Dando uma olhada nas menções, foi possível perceber que os fandoms se juntaram para uma mobilização em torno da premiação Meus Prêmios Nick, utilizando hashtags e menções a ambos artistas. Esse é um fenômeno comum entre artistas que possuem uma amizade pública e uma longa lista de parcerias: “Química do Amor”, “Zero a Dez” e “Estaca Zero” são os duetos já cantados pelos dois em apenas seis anos de amizade.

Já o grupo verde é formado por dois cluster distintos: à esquerda, pelo perfil @acidvideos e, à direita, pelo perfil @bchartsnet. O primeiro é interessante porque se trata de uma conta que divulga vídeos avulsos no Twitter; dando uma olhada superficial, é possível perceber que se trata de temáticas direcionadas ao público jovem, talvez masculino e heterossexual. Já do outro lado temos o perfil de um dos maiores fóruns brasileiros sobre cultura pop no Brasil, reconhecidamente direcionado ao público LGBT; não por acaso, também encontram-se próximos os perfis de Hugo Gloss e @forumpandlr, principal “concorrente” da BCharts.

Essas são parcelas do público “geral” que a cantora poderia – ou deveria – impactar caso deseja que a música se torne, de fato, um sucesso para além da sua base de fãs já consolidada. E para ter uma ideia mais qualitativa de como o projeto foi recebido por esses “não-fãs”, utilizei a fórmula PROCV no Excel para identificar as modularidades indicadas pelo Gephi na planilha de usuários e removi as menções dos clusters de fãs na planilha de coleta geral. Fiz então a nuvem de palavras a seguir com os termos mais populares desse escopo, o que, superficialmente, revela uma recepção positiva do grande público – indicando, talvez, que o trabalho a seguir tenha mais foco em awereness, disseminação da música e do clipe:

Nuvem de palavras feita com as menções de usuários “não-fãs”

Esse foi um experimento relativamente simples que quis fazer para: 1) usar a Netlytic como ferramenta de monitoramento e análise de redes sociais; 2) ter o Twitter como base exploratória de sites de redes sociais; 3) unir todo isso à minha paixão por música pop e Ivete Sangalo. A ideia aqui não é necessariamente compreender o Twitter como termômetro de sucesso – já que a atuação de fandoms nesse ambiente é muito articulada e mobilizadora, o que não necessariamente indica “sucesso” -, mas como termômetro de públicos. Pensando em artistas que precisam trabalhar para diferentes “nichos”, é uma rede muito interessante para compreender as dinâmicas dos grupos envolvidos na conversa sobre determinado tema.

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