Cursos

Alguns conceitos básicos para entender a análise de redes em mídias sociais

Se você está na graduação e pretende fazer algum trabalho sobre mídias sociais (seja a atividade final de uma disciplina, uma leitura num grupo de estudos ou até mesmo o próprio TCC), provavelmente vai se deparar com o livro Redes Sociais na internet (2009), de Raquel Recuero. A pesquisadora – como já mencionei nesse outro post – é hoje a maior referência na academia brasileira quando o assunto é sites de redes sociais (e enfatizo o foco nesse recorte específico, já que outros pesquisadores como André Lemos, por exemplo, possui um trabalho extenso sobre cibercultura “em geral” há muito mais tempo – sendo também um nome importante na área).

A sua influência (ou capital social) na academia tem contribuído para que, nos últimos anos, a técnica de análise de redes sociais tenha se consolidado enquanto parte importante do debate nesse ambiente quando o tema é mídias sociais. Junto a ela, o pesquisador Fábio Malini, do Laboratório de estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic/UFES), também tem sido um importante influenciador (e propagador) do tema, muitas vezes expandido o conhecimento científico para fora da academia – como tem feito também o DAPP-FGV. Seguindo nessa direção, blogs como o Na base dos dados, do jornalista Fábio Vasconcellos, têm apresentado para o “público geral” algumas visualizações de rede que também colaboram para a difusão do tema. Além dele, o Nexo Jornal – que faz um trabalho excelente de análise e visualização de dados – também já publicou algumas matérias com redes.

network_rt_pt_4
Grafo da repercussão da gravação de Michel Temer no Twitter – feito por Fábio Malini e equipe do Labic/UFES

Enquanto no jornalismo (de dados) a técnica é cada vez mais legitimada, no mercado a análise de redes sociais ainda é pouquíssima explorada em toda a sua potencialidade. Embora grandes empresas como Sysomos e Brandwatch tenham incorporado a funcionalidade às suas ferramentas de monitoramento, ainda há muito o que ser aprendido e debatido sobre a técnica como inteligência de negócio. No Brasil, o pioneirismo da V-Tracker e da BrandCare – esta sob a orientação de Tarcízio Silva, à época gerente de produto e pesquisador comprometido com a interação academia/mercado – foi importante para que a Stilingue, uma das ferramentas que mais cresce em popularidade no Brasil atualmente, pudesse se destacar sob o mesmo tema. Ainda assim, há um longo caminho a ser percorrido para que as marcas enxerguem valor nesse tipo de pesquisa – o que nem sempre é culpa delas, mas das próprias ferramentas.

Todo esse cenário elucida a necessidade urgente de popularizarmos ainda mais alguns conceitos básicos sobre análise de redes – tanto na academia e no mercado, mas também na sociedade civil como um todo. No outro post que fiz sobre a mesma temática, compartilhei o documento Network Literacy: Essential Concepts and Core Ideas, traduzido para português pelo IBPAD como Iniciação a Redes: Conceitos Essenciais e Principais Ideias, que apresenta as primeiras ideias sobre os estudos de redes. Como também nesse primeiro momento, analisar o mundo através das redes não é algo exclusivo das Ciências Sociais nem muito menos dos sites de redes sociais, sendo um método de pesquisa comum às disciplinas exatas e biológicas há muito mais tempo. Ou seja, pensar (e analisar) as mídias sociais como redes sociais é apenas um tipo de interpretação possível.

Grafo feito pelo jornalista Thiago Barone em jogo da Champions League para avaliar a “ausência” de Messi (clique para conferir a análise)

É importante entender, portanto, que: 1) as “redes sociais”, em seu sentido mais amplo, são muito anteriores aos fenômenos das mídias sociais e/ou dos sites de redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram, etc.) como os quais entendemos hoje – sociólogos estudavam sobre esse tema desde a década de 20, como mencionei anteriormente; e 2) o enfoque sob a prisma de redes sociais para pensar as mídias sociais parte tanto da influência de pesquisadoras relevantes na academia quanto da própria disposição tecnológica das plataformas de sociabilidade digitais, que são em grande parte pautadas no fluxo conversacional e de informações entre os usuários (ou atores) – o que facilita bastante a proposta de análise desses espaços enquanto estruturas de sociabilidade, podendo assim, nas palavras de Raquel Recuero, “observar como a rede existe em relação aos vários elementos que fazem parte dela”.

Então… O que eu preciso saber sobre análise de redes sociais?

O primeiro passo, portanto, é entender o que são redes sociais: no livro “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações”, Tarcízio Silva e Max Stabile trazem o conceito a partir de David Passmore, que explica o fenômeno como uma “estrutura social composta de indivíduos (ou organizações) chamados de ‘nós’, que são ligados (conectados) por um ou mais tipos de interdependência, como amizade, parentesco, interesse comum, trocas financeiras, aversões, relacionamentos sexuais ou relacionamentos de crença, conhecimento ou prestígio”. Ou seja, como o critério condicional é a conexão, tem mais a ver com um modo de enxergar fenômenos sociais do que como um fenômeno social em si. As redes funcionam, portanto, como “artifício cognitivo e científico que permite entender proximidades, similaridades, diferenças, conjuntos e processos de um modo muito particular”.

A análise de redes é um conceito extremamente amplo, oriundo da Teoria dos Grafos, original da Matemática. Já a análise de redes sociais, que é o que nos interessa aqui, trata-se da interface entre esse conceito e as humanidades – fortemente atrelado à Sociologia, e atualmente reforçado nas disciplinas ligadas à Comunicação Digital. Uma vez que a análise de redes “parte do princípio que mais informação pode ser gerada a partir da compreensão de como os elementos de um conjunto estão interligados”, é fundamental compreender a linguagem e o formato que a ARS utiliza enquanto técnica de análise e apresentação/visualização de dados. Para quem não tem nenhuma familiaridade com o tema, segue abaixo um pequeno resumo (ênfase para a redundância) com alguns dos termos/conceitos mais comuns:

  • Rede/Grafo: são as visualizações de atores e suas conexões formadas por nós/vértices e laços/arestas;
  • Nós/Vértices: são os objetos que estabelecem as conexões da rede (podem ser perfis, páginas, sites/blogs ou hashtags – depende do contexto);
  • Laços/Arestas: são as conexões feitas pelos conjuntos de nós (“a definição sobre o que é um laço pode mudar completamente a interpretação de sua rede, afinal, se estamos falando de uma técnica que enfatiza as condições relacionais do seu objeto, você precisa entender o que explica essa relação”);
  • Relações direcionadas: interação que indica um caminho, que possui a intenção de um ator em relação a outro (possivelmente indicada visualmente por setas);
  • Relações não direcionadas: interação sem orientação, que não possui diferença entre a intenção dos atores (por exemplo, uma amizade no Facebook);
  • Redes de co-presença/co-interações: nós presentes numa mesma publicação (comum no caso de estudo com hashtags, por exemplo);
  • Rede de afiliação: são redes cujas definições dos nós ou atores pertencentes são muito distintas entre si (ou seja, não há uma conexão direta, mas ambos pertencem a um mesmo grupo).

Esses são apenas alguns dos termos e conceitos introdutórios para começar a entender a análise de redes em mídias sociais. É importante ratificar que todas as suas explicações partem de um contexto próprio da técnica voltada para o tema das plataformas digitais sociais, já que, como dito anteriormente, trata-se de um método bastante contextual, que precisa ser adequado ao escopo e à disciplina de onde parte a análise. No entanto, esses são alguns dos pontos basilares para começar a entender as análises em geral. Tomemos como exemplo o relatório “Beyond Hashtags: #Ferguson, #Blacklivesmatter, and the online for offline struggle”, desenvolvido pelos pesquisadores Deen Freelon (American University), Chartlton D. Mcilwain (New York University) e Meredith D. Clark (University of North Texas), para entender as definições aqui postas.

Essa rede – ou grafo – mostra o cenário do período 7 da análise, quando foram coletados 5.3 milhões de tweets sobre o tema produzidos por mais de 1 milhões de usuários – para saber mais sobre o relatório e a pesquisa, conferir esse post. Os nós (ou vértices) são os círculos que concentram grupos específicos de usuários falando sobre o tema na época: BLM 1 e BLM 2 são ativistas e/ou usuários simpatizantes ao movimento #BlackLivesMatter, que denunciava a violência policial racista nos Estados Unidos, por exemplo; e os laços/arestas são as conexões estabelecidas entre esses atores, que poderia vir em forma de tweet ou retweet – e aqui vale destacar também o artifício visual (afinar ou engrossar) utilizado para dar peso a essas interações, que também nos ajuda a perceber como o fluxo das conversas/informações estava se estabelecendo diante todo o cenário.

Embora seja um exemplo metodologicamente bastante complexo, a rede acima é relativamente simples para discutirmos essas noções básicas da análise de redes em mídias sociais. A própria visualização dos dados é um fator de extrema importância para a técnica, que se apoia com força na interpretação estrutural do escopo da análise. Ainda assim, conhecer esse termos e conceitos são essenciais para dar conta dos fluxos de comunicação e conexão estabelecidos na internet. A ideia de laços fracos, por exemplo, é fundamental para pensar a facilitação do acesso no ambiente online. A partir dos estudos de Mark Granovetter, pesquisadoras e pesquisadores como a própria Raquel Recuero vão apontar como, no contexto dos sites de redes sociais, a abundância desse tipo de conexão é importante para que haja “pontes” entre atores que seriam essencialmente distintos na rede. Confira alguns outros termos e conceitos importantes abaixo:

  • Grau: é a métrica que indica o número de conexões de um nó na rede;
  • Grau de Entrada: é a métrica que indica o número de conexões recebidas por um nó na rede;
  • Grau de Saída: é a métrica que indica o número de conexões oferecidas por um nó na rede;
  • Centralidade de Autovetor: métrica que analisa a centralidade de um nó através de conexões de outros nós também muito conectados (semelhante à métrica de PageRank, comum no mercado);
  • Centralidade de Intermediação: métrica que calcula os caminhos entre os nós para identificar possíveis “pontes” relevantes na rede;
  • Redes Egocentradas: é um tipo de rede que parte de um nó central e suas conexões;
  • Redes Sociocentradas: é um tipo de rede que com delimitação específica a partir de um recorte “externo”, cujo escopo é “anterior” à própria análise;

Para conferir esses conceitos na prática, vamos observar essa rede interativa desenvolvida pelo IBPAD a partir de um estudo exploratório da polarização política no Brasil através de páginas da Direita e da Esquerda no Facebook. Trata-se de uma rede polarizada, mas poderia também ser compreendida como duas redes sociocentradas, já que foram desenvolvidas a partir de páginas com referenciais explícitos às suas respectivas posições. Na plataforma interativa, ao pesquisar por páginas como CartaCapital e Jair Messias Bolsonaro (as mais referenciadas em seus devidos grupos/clusters), você pode ver os graus de cada uma delas, ou seja, quantas páginas as referenciam, quantas são referenciadas por elas e o total de conexões. Já a página da Folha de S. Paulo aparece com elevada centralidade de intermediação, uma vez que é a ponte entre os dois lados.

No contexto de mídias sociais, esses tipos de métricas são importantes para avaliar a articulação dos nós dentro de uma rede, analisando valores relevantes de influência, autoridade, preferências, engajamento e mobilização. Além disso, a técnica vem sendo legitimada por sua “poderosa capacidade de resumir sem perder o detalhe, e de poder ver o todo sem perder a perspectiva do único”, como explica Tarcízio Silva e Max Stabile no capítulo do livro anteriormente mencionado. E acrescentam: “Com a técnica é possível ter uma visão panorâmica dos dados, seus agrupamentos e suas perspectivas (Malini, 2016), e identificar quais atores e narrativas foram mais relevantes. Ao mesmo tempo, é possível analisar com mais detalhes e construir uma análise completa”.

Para desenvolver esse trabalho, há diversas ferramentas utilizadas por pesquisadores, acadêmicos, programadores, cientistas de dados e profissionais do mercado. No entanto, pelo menos no Brasil, as duas ferramentas mais comuns são a NodeXL e o Gephi – bastante utilizados por Raquel Recuero e Fábio Malini em seus grupos de pesquisa (no mercado, algumas ferramentas plenas de monitoramento já possuem essa funcionalidade integrada, o que pode ser uma mão na roda). Em suma, funciona da seguinte forma: os dados são coletados (através de plugins, das próprias ferramentas, ou de códigos de programação em linguagem R ou Phyton, por exemplo), processados, trabalhados pelos analistas (executando métricas, layouts, etc.) e, depois, divulgados nas visualizações que costumamos ver.

Para quem deseja se aprofundar no estudo sobre análise de redes e aprender na prática como funciona todo esse processo, o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD) lançou neste mês o MOOC (massive online open course) de Análise de Redes em Mídias Sociais. Com os professores Max Stabile, Tarcízio Silva e Marcelo Alves, o curso oferece mais de 90 aulas (dentre vídeo-aulas, artigos, leituras orientadas, tutoriais, estudos de caso e quizzes) para “capacitar os estudantes a coletar, processar, visualizar e interpretar redes baseadas em dados de mídias sociais”. São cinco módulos que passam pelos conceitos, aplicações e histórico do pensamento sobre redes; as particularidades das redes nas mídias sociais; a utilização prática de softwares para a análise e a monetização do trabalho.

Todos os conceitos que apresentei neste post são frutos tanto das aulas do Módulo 1 do curso quanto do capítulo do livro “Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais: metodologias, aplicações e inovações”, também do instituto. Se você tiver interesse em saber mais (e com muito mais propriedade e profundidade) sobre o que discuti neste post – como o conceito de métricas como Tamanho da Rede, Diâmetro da Rede, Densidade, Inclusividade de Rede, Centralização de Rede, dentre outras -, recomendo veementemente esse novo curso. E o melhor: tem um desconto exclusivo para leitores deste blog que vos fala! Basta usar o cupom insightee10ars para garantir a sua vaga com um precinho ainda mais camarada – que já está abaixo do normal por ser a semana de lançamento.

E já que iniciei o post falando da importância de conhecer o trabalho de Raquel Recuero caso você esteja numa graduação (ou pós), posso garantir que o curso também é dedicado para alunos e pesquisadores interessados no tema. Marcelo Alves, que já apareceu neste blog em outro momento, é doutorando na UFF e desenvolve um trabalho fantástico sobre política e redes sociais no Brasil. Aliás, quem quiser conhecer outros pesquisadores, vale dar uma olhada no material 100 Fontes sobre Pesquisa e Monitoramento de Mídias Sociais. Recomendo também seguir o blog Essa Tal Rede Social, que vem fazendo um trabalho bem bacana com ARS. No mais, adquirir o livro Análise de Redes para Mídia Social, de Raquel Recuero, Gabriela Zago e Marco Bastos. Para finalizar, deixo aqui uma série de posts feitas por Tarcízio Silva para introduzir o tema:

Tags:

2 comentários

  1. Obrigada pelo conteúdo!

    1. Eu que agradeço pelo comentário! 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *