Análises

A imagem dos nordestinos e do Nordeste segundo o Google

Quando você pensa em Nordeste e/ou em nordestinos, o que vêm à sua cabeça? Quais referências visuais primeiro vêm à mente? Como pessoas inseridas na cultura brasileira, temos no nosso imaginário social uma série de signos aos quais podemos associar o “ser nordestino”. Segundo Albuquerque Júnior (199, p. 307), o Nordeste “é uma cristalização de estereótipos que são subjetivados como característicos do ser nordestino […]”, através de verdades instituídas “repetidas ad nauseum, seja pelos meios de comunicação, pelas artes, seja pelos próprios habitantes de outras áreas do país e da própria região”.

Na obra “A invenção do Nordeste”, o historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. explora toda a complexidade e historicidade sob os quais se basearam a construção desse espaço inventado. Nessa citação específica, já adianta algumas constatações importantes: 1) o Nordeste e a “nordestinidade” é uma construção social e histórica; 2) criada em cima do apagamento das particularidades de cada estado; 3) cuja operação foi/é praticada através da repetição discursiva; 4) de produtos culturais-midiáticos e; 5) consequentemente, tanto por cidadãos da própria região quanto daqueles de outros lugares do Brasil.

No meu TCC, explorei principalmente as questões de número 1 – através de uma breve porém responsável revisão de literatura e fundamentação teórica – e 5 – com questionário respondido por pessoas cuja identidade nordestina era explorada com mais veemência no Facebook. Para o meu projeto de mestrado, pretendo seguir explorando a questão 1 e, desta vez, desenvolver melhor as questões 2, 3 e 4 – ou seja, para além de trabalhar diretamente com as pessoas e como elas enxergam essa associação identitária, tentar compreender como os discursos – de modo geral – estão em disputa e operam midiática e culturalmente.

Como um dos primeiros experimentos desse trabalho contínuo, decidi averiguar empiricamente o que Albuquerque Jr. chamou de “cristalização de estereótipos”. Alguns esforços acadêmicos foram produzidos nesse sentido, analisando, por exemplo, a representação do Nordeste em capas de revista; ou nas artes como na literatura, cinema e música. No entanto, esses trabalhos geralmente focam no discurso textual (pela facilidade de interpretação) e em produtos pré-digitais. Uma das minhas propostas para o mestrado é justamente trazer essa discussão para a era da internet, em que novas dinâmicas de poder estão em jogo.

A começar, por tanto, pelo site mais acessado do Brasil e do mundo: o Google. Achei que seria interessante explorar a representação do Nordeste a partir de imagens do Google. No entanto, antes de seguir para a análise, é importante entender como funciona, de modo simples, o mecanismo do Google para não partirmos da suposição errônea de que é a própria plataforma que ativa esses conteúdos ou que há profissionais selecionando/fazendo a curadoria dessas imagens. E ninguém melhor para explicar sobre como isso funciona do que o próprio CEO do Google, Sundar Pichai, em depoimento judicial:

Nesse vídeo, Pichai explica por que, quando a deputada Zoe Lofgren pesquisara no Google Images o termo “idiota”, aparecia a imagem de Donald Trump. Pichai explica que a ferramenta faz uma raspagem de bilhões de páginas da web indexadas na plataforma à procura do termo, para depois ranqueá-las com base em mais de 200 critérios, como relevância, ineditismo, popularidade, como as pessoas estão utilizando, etc. e apresentar os melhores resultados de acordo. Ou seja, há um esforço técnico-algorítmico do próprio Google, mas a essência (a fonte de dados, literalmente) são os próprios usuários de internet.

É óbvio que isso é extremamente complexo e não tão simples quanto a resposta (devido ao contexto) explicou. Vários pesquisadores já têm se debruçado sobre a imparcialidade dos algoritmos e das tecnologias de aprendizado de máquina e inteligência artificial, para principalmente não fugirmos da responsabilização das empresas de tecnologia quanto à manutenção de preconceitos de gênero e raça. Neste experimento específico, esse parênteses – importantíssimo – pode ser compreendido também na construção (e manutenção) dos estereótipos, que mesmo proferidos pelos próprios moradores da região, continuam sendo estereótipos.

Análise: +3.000 imagens sobre nordestinos no Google

Como o Google tem um limite de exibição de resultados para imagens, fiz a coleta com algumas pequenas alterações de termos: nordestino, nordestina, nordestinos, nordestinas e nordeste; ao total, foram 3.684 imagens coletadas (com o DownThemAll!) – após limpeza de URLs duplicados, finalizei com 3.135 imagens. Para fazer a análise das imagens, utilizei a mesma metodologia desenvolvida para este relatório, com a API de análise de conteúdo de imagens do próprio Google e os scripts em Python desenvolvidos por André Mintz para esforços de computação visual com auxílio de técnicas de análise de redes. Clique na imagem abaixo para ver o resultado em tamanho maior:

Ao todo, consegui identificar pelo menos 23 territórios imagéticos: culinária, bebidas, mercadinhos, denúncias, política, artesanato, produtos gráficos I e II, símbolos culturais, natureza, pessoas, cavalgada, vestimentas de couro, música I e II, mapas, apresentações artísticas, multidões/festejos, futebol, paisagens urbanas I e II, paisagens praianas e paisagens do sertão. Importante lembrar, no entanto, que essas divisões foram feitas a partir da minha interpretação; a disposição espacial das imagens se reúnem (e se afastam) pela semelhança identificada através da API de análise de imagens do Google, posteriormente organizada em rede.

Isso significa que não há – de nenhuma forma – imparcialidade na análise. Há recortes arbitrários feitos tanto pela ferramenta de inteligência artificial (e por isso é importante questioná-las, estressá-las, etc.), quanto do formato espacial que optei por dispor as imagens quanto pela minha própria leitura do produto resultante. Para comentar algumas questões possivelmente interessantes sobre o resultado, separei (novamente, do jeito que achei mais propício) os 23 territórios em oito categorias – que atravessam umas às outras de vários modos, cuja delimitação é exclusivamente didática:

Culinária e bebidas

Era de se esperar que a culinária nordestina fosse receber uma atenção considerável no Google. É possível identificar pratos típicos como cuscuz, macaxeira, bolo de rolo, caranguejo, moqueca, feijoada, carne do sol, acarajé, pamonha e até queijinho na brasa. Talvez o mais interessante nesse grupo, entretanto, são dois bolos decorativos com elementos “típicos” como dois bonequinhos de cangaceiros e um chapéu de couro, além de xilogravuras. Esse que também aparece nas bebidas, em propaganda da Brahman; mas cujo destaque são as cachaças e o famoso Guaraná Jesus.

Denúncias

Importante para lembrar que o “local” da análise interfere nos resultados é o grupo que chamei de Denúncias. Tratam-se de capturas de tela de mensagens preconceituosas feitas contra nordestinos nos últimos anos. Especialmente em época de eleições, é bastante comum que isso aconteça e alguns jornais/blogs noticiam o ocorrido (depois de as mensagens se proliferarem na rede em forma de denúncia geralmente por usuários comuns). Com a divulgação das notícias, as imagens acabam sendo indexadas pela plataforma.

Produtos gráficos,
símbolos culturais e mapas

E como nem só de fotos vive a internet, vale falar também desses grupos semelhantes. Com exceção dos Mapas (fruto provavelmente do termo “nordeste” na coleta), os outros três são produções gráficas digitais (banners, panfletos, montagens, etc.) que, em grande maioria, trazem alguma simbologia explícita já associada à cultura nordestina – como o chapéu de couro, por exemplo, presente em outros grupos. Ademais, os formatos de ilustração tipo xilogravura, o paisagismo do sertão e até alguns escolhas de tipografia.

Música, apresentações artísticas
e multidões/festejos

Outro grupo cujos signos ficam também em bastante evidência – e se complementam: em Música (I e II), instrumentos como zabumba, sanfona e triângulo; em Apresentações Artísticas, os figurinos do cangaço e roupas tradicionais; e em Multidões/Festejos, as imagens de festas juninas, do carnaval e de outros eventos folclóricos. Visualmente, chama a atenção principalmente as vestimentas, sempre inspirados na roupa do cangaço e/ou nas tradições de festas juninas. Em Multidões, é possível perceber também caravanas e passeatas políticas – um detalhe importante.

Pessoas, política e futebol

O detalhe é importante porque não tem como falar sobre Nordeste sem falar sobre política – em diversos sentidos. No grupo de Pessoas, são políticos que mais aparecem: Lula, Haddad, Bolsonaro, Alckmin, etc; alguns famosos também compõem o visual, como Caetano Veloso e Pitty, para citar alguns. O grupo Políticos deve ter sido tomado sua própria forma devido ao enquadramento das imagens, cuja API do Google já conseguiu identificar nos parâmetros de editoriais sobre política. Por fim, a paixão pelo futebol também vem em evidência: e ainda em tom político, com chapéu de palha e um “orgulho” refletido, por exemplo, na Lampions League.

Artesanato,
vestimentas de couro e mercadinhos

Em menor saliência, separei os grupos Artesanato, Vestimentas de Couro e Mercadinhos simplesmente pelo reforço à composição visual já percebida em outros grupos do que se refere aos nordestinos. São as famosas priquitinhas, o chapéu de couro (novamente), as peças de cerâmica/argila do famoso Pezão, e os mercadinhos – também confundido com restaurantes – tipo mercearia cuja própria paleta de cores significa alguma coisa. Detalhes simples, literalmente, mas que somam ao quadro geral que estamos montando.

Paisagens urbanas

O grupo Paisagens Urbanas divide-se em dois: um mais cotidiano, com imagens aparentemente mais corriqueiras; e outro mais “publicitário”, com imagens que remetem principalmente ao turismo. No primeiro, destaca-se a presença do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, a famosa feira de São Cristóvão – localizada no Rio de Janeiro; no mais, algumas imagens avulsas de ruas das cidades. No segundo, fotografias profissionais destacam o Nordeste por uma lente mais mercadológica, como se estivesse vendendo-a como experiência (provavelmente fotos de sites de agências de turismo) – salvo algumas poucas exceções.

Natureza, cavalgada,
paisagens praianas
e paisagens do sertão

Por fim, o último grupo (talvez merecesse duas divisões distintas, mas achei melhor reunir tudo pois) traz basicamente fotos da natureza. Em Natureza vemos algumas espécies provavelmente mais comuns no Nordeste e, no grupo que chamei de Cavalgada, homens montando em cavalos refletem as histórias do sertão. Ao lado deles (literalmente), fotografias que provavelmente reforçam a seca que sofrem alguns municípios também ganham destaque. Por fim, o Nordeste paradisíaco é representado nas Paisagens Praianas – não coincidentemente ao lado das paisagens urbanas mais publicitárias.


Como discuti um pouco na monografia, não é porque as dinâmicas de poder se tornaram mais complexas que os estereótipos vão imediatamente sumir. O processo de transcodificação (Hall, 2016) é muito mais difícil de se por em prática do que imaginamos, e a própria reversão é ambivalentemente perigosa: “para transformarmos um estereótipo não precisamos necessariamente intervê-lo ou subvertê-lo. Escapar das garras de um dos extremos do estereótipo […] talvez signifique simplesmente estar preso em sua alteridade estereotípica” (id. ibid., p. 215).

O meu intuito aqui, entretanto, não é questionar nem tensionar os estereótipos construídos acerca da imagem (ou das imagens) dos nordestinos, mas dar um pontapé inicial para mostrar – empiricamente – que há um conjunto de símbolos e signos representativos do Nordeste e dos nordestinos. Quando argumentar sobre esse “imaginário social” sobre esses atores no contexto da cultura brasileira, posso mostrar – literalmente – do que se trata (talvez não em sua totalidade, mas em larga extensão – o que trabalhos focados em outras mídias não acompanham).

A problematização em cima do que essa representação envolve e quais são seus efeitos reais fica para outra ocasião mais propícia (e possivelmente acadêmica). Além disso, vale ainda refletir sobre não somente o que ficou de dentro, mas o que ficou de fora desse quadro – ou seja, a não-presença de alguns aspectos também comunica alguma coisa; e, no mais, uma comparação da generalização de Nordeste/nordestinos com cada um dos estados seria uma oportunidade riquíssima – que também vai ficar para outra oportunidade.

Referências bibliográficas

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 1999.
HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, 2016.

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